segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O QUE É QUE A BAIANA TEM ?

 

Carmem Miranda

 

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

leonardo.claudia@gmail.com 

Agosto de 2020. Arteterapeutas fazendo atendimentos on line. Pois é. Por aqui isso não vai rolar. Nada como a presença física para alegrar meu pai (86 anos) e minha tia materna (93 anos). Fui à casa dele no dia 25/08/2020. Tudo de novo: caminhar a pé, álcool gel, máscara, ficar à distância, lavar as mãos, tirar o tênis, etc..

Desta vez escolhi a pintura da imagem de Carmem Miranda. Conheci essa técnica num curso de Estimulação Cognitiva que fiz com a arteterapeuta Tania Freire aqui em São Paulo. Lembrei-me do prazer que senti quando eu mesma pintei a Carmem Miranda. Ao pesquisar sobre a vida dela, fiquei muito feliz em saber que ela nasceu em Marco de Canaveses, Portugal, o que novamente me trouxe boas lembranças de meus amigos portugueses.

Cheguei à casa falando: Vamos trabalhar ! Ao que o meu pai respondeu: Mas eu já sou aposentado !


 Setting arteterapêutico

Pai e tia adoraram ver o desenho da Carmem Miranda feito no papel vegetal. Agora a proposta era pintar utilizando o giz pastel oleoso.

Iniciamos a sessão.

Meu pai já exclama: Pintei os olhos ! E me mostra as pupilas pintadas de preto, se referindo à expressão do olhar. Em seguida fala que pintou as unhas dela. 


“Je suis
pintor japonês”. Pronto, agora deu para falar francês ! Ele vem trazendo falas em outras línguas há um bom tempo. Na sessão anterior deu o título de sua obra em inglês. Fala com frequência palavras e frases em italiano, e sempre no contexto. Conviveu com o sogro italiano, meu nonno. Continuou fazendo riscos representando as dobras dos dedos e as rugas na testa.

Enquanto isso, minha tia seguiu calmamente sua pintura, esfumaçando o giz com os dedos, e ao borrar alguma área, utilizou uma borracha para corrigir.


                                                              Tia: “Imitação de Carmem Miranda”

Coloquei uma seleção de músicas com a própria Carmem Miranda cantando, pelo celular. Os dois se lembravam dessas músicas. Meu pai fez movimentos de dança com o corpo, no compasso de cada música.

O trabalho de meu pai chamou atenção quando no início ele fez riscos coloridos com o giz e movimentos como se fosse um pintor com seu pincel. Depois passou a fazer raios amarelos ao redor da cabeça de Carmem. E de repente, continuou a pintar de tal maneira que quase nenhum espaço sobrou, ficando tudo muito colorido. Em certo momento meu pai perguntou: Posso fazer um dente cariado ? Afinal, sou dentista. (referindo-se à pintura dos dentes no sorriso da Carmem). Ele fez cantoneiras pretas e uma margem na parte inferior, pois sempre achou que a moldura valoriza a pintura.

 

Pai: “Obachan quirena, na !”     

Observei que os dois pintaram uma área que não correspondia ao prolongamento do braço. Não falei nada. Eles mesmos se deram conta e corrigiram suas pinturas.

Pai falou para tia: Agora eu sei por que o pintor bebe. (O pintor precisa fazer uma pausa pois o trabalho requer muito esforço, segundo ele).

Precisei encerrar a sessão após uma hora, pois ele estava transbordado de vontade de pintar e já não havia mais espaço para colorir. E desta vez, ele finalizou colocando o título em japonês !

Nota 1: Apesar da grafia em japonês estar incorreta, o significado que meu pai deu ao seu trabalho foi: “Senhora Bonita, né?”

Nota 2: Minha tia datou seu trabalho como maio, e estávamos em agosto ! Eita nóis...

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

Escrita pra lá de criativa - 27/09/20

Fazer o Máximo com o Mínimo - 01/06/20

Tempo de Corona Vírus, Tempo de se Reinventar - 13/04/20

Minha Origem: Itália e Japão - 17/02/20

Salvador Dali e “As Minhas Gavetas Internas” - 11/11/19

“’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” -19/08/19

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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe

Arteterapeuta – atuei em instituição com o projeto “Cuidando do Cuidador”, para familiares e acompanhantes dos atendidos. Atuei também em instituição de longa permanência para idosos com o projeto “Mandalas”, sua maioria com Doença de Alzheimer.

Atendo em domicílio e online.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

DA ARTE MODERNA À ARTETERAPIA: EMBASAMENTOS E PRÁTICAS–PARTE 1

"Perspicácia" René Magritte
 

Por Eliana Moraes (MG) RJ

naopalavra@gmail.com 

No processo da construção de minha identidade profissional como arteterapeuta, o grande “pulo do gato” se deu quando compreendi a importância de estudar as teorias da ARTE, dentre elas a História da Arte. Compartilho este percurso no texto “Diálogos entre a História da Arte e a Arteterapia” CLIQUE AQUI

Neste contexto, nos últimos anos, assumi a proposta de me dedicar à pesquisa sobre possíveis aplicabilidades da História da Arte nas práticas arteterapêuticas. Venho compartilhando fragmentos desta pesquisa continuada, sempre que algum conteúdo ganha forma mais estruturada. Afinal o compartilhar enquanto estudo é minha forma de caminhar, a qual acabou se tornando o mote do Não Palavra. 

Tenho dito que estudar História da Arte é como adentrar em um imenso universo, com sensações de infinito, mas para estudá-la de forma profunda, consistente e aplicável, não podemos nos hipnotizar com o todo, pois isto pode ser paralisante. Tenho sugerido que cada interessado eleja determinado campo que lhe atravesse e procure se dedicar ao seu estudo, sem pressa, fazendo contato, dialogando de forma ampla, deixando-se afetar e impressionar, até que as articulações entre as expressões artísticas e a Arteterapia vão surgindo de maneira intuitiva e inspirada. 

Este foi meu caminho ao fazer um recorte para a Arte Moderna como início da minha pesquisa. Assumi por hábito eleger um movimento artístico e passar um tempo, até mesmo meses dialogando com ele. Leio os historiadores da Arte, assisto filmes, levo estes conteúdos para meus grupos de estudos, levanto hipóteses de embasamentos para escuta clínica na atualidade, bem como possíveis práticas criativas nele inspirada, aplico estas técnicas em grupos vivenciais e com pacientes que dialoguem com a temática... até que depois de tanto me deixar afetar por todos estes estímulos, estruturo um conteúdo para ser compartilhado com os interlocutores do Não Palavra, em palestras e textos. Este é o motivo pelo qual esta pesquisa é aparentemente lenta, mas acredito que só assim poderemos efetivamente teorizar sobre as aplicabilidades da História da Arte na Arteterapia de forma consistente. 

Em linhas gerais, a Arte Moderna é reconhecida do início do século XX até o pós-guerra, entre as décadas de 50 à 70, e sua escolha se deu porque ao longo dos meus estudos percebi que este movimento histórico quebrou uma série de paradigmas na arte, que colaboraram diretamente para que a Arteterapia pudesse ser pensada e estruturada como prática e profissão anos mais tarde. Acredito que a Arteterapia é uma “filha” da Arte Moderna e por isto decidi estudá-la desde o início. 

Hoje inicio uma série de dois textos que se propõem a pensar contribuições da Arte Moderna para a Arteterapia em seu surgimento e prática, e a importância de seus estudos pelo arteterapeuta. Lembro que este é um estudo em construção, portanto em aberto para futuros acréscimos ou até retificações em algum momento, se for necessário.

 Por que articular a Arte Moderna com as práticas arteterapêuticas? 

a)      a) A Arte Moderna espelha nossa cosmovisão: modernidade e pós modernidade

 

“Toda obra é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos” Kandinsky 

Como nos diz Ezra Pound, os artistas são “antenas da raça” humana, dando forma aos movimentos sociais e psíquicos do mundo. Entendemos que nossos pacientes são indivíduos inseridos nesta maneira coletiva de viver e enxergar o mundo e neste sentido podemos estudar este período da história da arte para colaborar com nossa escuta terapêutica, nos âmbitos individual e coletivo. 

Além disto, estas expressões artísticas, como “mãe dos nossos sentimentos”, podem servir de espelhamento ou estímulos projetivos em propostas arteterapêuticas que tragam conteúdos plasmados por artistas de nossos tempos que façam eco aos indivíduos.  

b)    b)  A abertura para a subjetividade na expressão artística: nos temas e nas técnicas 

Até meados do século XIX, na arte tradicional, os temas considerados arte eram aqueles idealizados, como mitologias, iconografias religiosas, inspirados na antiguidade clássica. Da mesma forma, os materiais e técnicas eram somente considerados dentro das categorias tradicionais (sobre os materiais nos aprofundaremos em um próximo texto). Em 1874, os impressionistas abriram as portas para uma verdadeira revolução na arte: eles se libertaram das quatro paredes dos ateliês para retratar o mundo moderno e a natureza a partir de suas percepções, derrubando o muro entre o ateliê e a vida real. E assim abre-se espaço para o subjetivo nos temas e na forma e pintar. 

Desta maneira, este movimento é responsável pela abertura para a subjetividade na arte. Pintar a partir de suas impressões trazia para a expressão as percepções e sensações do artista. E a partir de então, a subjetividade passa a ter cada vez mais importância nas artes visuais, rompendo aos poucos com a objetividade da pintura figurativa tradicional. 

Subjetividade é tudo aquilo que é próprio do sujeito. É algo que está baseado na sua interpretação individual, mas pode não ser válido para todos. Expressar-se de forma subjetiva dentro do campo da arte é um legado da Arte Moderna que possibilita diretamente as práticas arteterapêuticas que, por definição estimula que através das linguagens da arte um sujeito possa expressar-se a partir de sua subjetividade, sem juízo de valor ou técnico.

 c)      A Arte Moderna inaugura uma nova concepção de arte 

Este período é marcado pelo advento das vanguardas artísticas, formadas por artistas que estariam a frente do seu tempo, rompendo com os padrões acadêmicos vigentes. Elas determinaram a arte ocidental na primeira metade do século XX e em vez de um código visual universal como foi determinado pelo Renascimento e institucionalizado pelas academias e a arte tradicional, as vanguardas artísticas criaram códigos visuais específicos. Daí a multiplicidade de movimentos surgidos neste período.

 As vanguardas artísticas quebraram paradigmas estruturais como: a arte da representação naturalista; uma arte extremamente racional e técnica;  cânones formados por um código visual universal  em temas e técnicas. A Arte Moderna estabelece uma arte expressiva e conceitual;  o rigor técnico perde espaço; abrem-se inúmeras frentes e estilos (“ismos”). 

A Arteterapia bebe da fonte da Arte Moderna quando flexibiliza o rigor técnico em nome do potencial expressivo e conceitual das obras resultantes, legitimando a multiplicidade de estilos possíveis, a partir da singularidade expressiva de cada sujeito. 

d)     d) A abertura para o “não belo”, “o feio”

 

A Arte Moderna proporciona a migração do idealismo para se mostrar a realidade, como por exemplo o mundo moderno e a natureza (Impressionismo), a velocidade (Futurismo), mas também o caos, o sofrimento, a perturbação... (Dadaísmo). Neste sentido passa-se ser possível expressar o “não belo” através da arte.

 Em Arteterapia abrimos espaço para a expressão daquilo que é necessário para o sujeito criador. Um olhar externo pode julgar este conteúdo como “belo” ou “feio”. Porém, nós podemos nos apropriar daquilo que Wassily Kandinsky, um dos grandes artistas da Arte Moderna conceituou com o “Belo Interior”:

 

“O ‘Belo Interior’ é aquele para o qual nos impele uma necessidade interior quando se renunciou às formas convencionais do Belo. Os profanos chamam-na de feiura. O homem é sempre atraído, e hoje mais do que nunca, pelas coisas exteriores, não reconhecendo de bom grado a necessidade interior. Essa recusa total das formas habituais do ‘Belo’ leva a admitir como sagrados todos os procedimentos que permitem manifestar sua personalidade.” (KANDINSKY, 1990, p 48) 

Este é o estímulo que oferecemos aos experienciadores da Arteterapia, que façam contato e expressem através das linguagens da arte o seu “Belo Interior”. 

e)    e)   Da representação exterior para a expressão do interior 

Este é um movimento de conversão muito característico deste período da História da Arte: o olhar do artista se desloca do exterior para seu interior. 

Isto podemos observar em citações de vários artistas como Paul Klee “A arte não reproduz o visível, ela torna visível... a minha intenção não é refletir a superfície, assim como a chapa fotográfica, mas penetrar no interior.” (MORAES, 2019), Henri Matisse “A pintura deixou de ter a tarefa de representar os acontecimentos da História; estes encontramo-los nos livros. Para nós, a pintura é algo mais. Ela serve para o artista exprimir suas visões interiores.” (WALTHER) e Kandinsky “É evidente portanto que, a harmonia das cores deve unicamente basear-se no princípio do contato eficaz... Princípio da Necessidade Interior.” (KANDINSKY) 

Este é o caminho que a Arteterapia apresenta para seus experienciadores: que vá se aproximando cada vez mais de seus conteúdos interiores em um caminho de autoconhecimento e apropriação de sua individuação. 

Vale destacar que na imagem, o caminho para o interior se dá no caminho para a abstração. Este é o motivo pelo qual tenho estudado expressões abstratas e estimulado que os arteterapeutas deem espaço para a leitura simbólica de imagens abstratas por si só, sem terem pressa de encontrar um símbolo figurativo, pois neste sentido entendemos que quanto mais inconsciente o conteúdo, mais abstrato (inominável) ele é. Assim entendo que precisamos explorar mais o abstrato como expressão do mundo interior. 

Em um próximo texto darei continuidade as articulações entre a Arte Moderna e a Arteterapia, trazendo aspectos sobre as técnicas e materiais! 

BIBLIOGRAFIA:

ADES, Dawn. “Dadá e Surrealismo” in Conceitos da Arte Moderna. Nikos Stangos (org). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

GOLDING, John. “Cubismo” in Conceitos da Arte Moderna. Nikos Stangos (org). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

GOMPERTZ, Will. Isso é arte?. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte

WALTHER, Ingo F. Matisse. Taschen, 1993.

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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga.

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

domingo, 4 de outubro de 2020

COMPLEXOS

 


Por Luciana Vasconcellos

lucidezana@gmail.com

Instagram: @lucidezana 

Os complexos são temas emocionais reprimidos (criados por traumas) no inconsciente pessoal que nos prendem a padrões repetitivos de respostas. Basta um gatilho para acontecer uma forte descarga emocional. Existem os complexos materno e paterno, complexo de inferioridade e superioridade, complexo sexual, complexo de salvador, complexo demoníaco, complexo de rejeição, entre outros. 

Quando um complexo é constelado, afirma-se que o ego (centro da consciência) foi possuído pela energia do complexo. Assim, a pessoa costuma ter reações intempestivas, irresponsabilidade afetiva e somatizar no corpo. É como se a pessoa estivesse possuída por uma personalidade alheia e, quando a “poeira baixa”, a pessoa costuma se surpreender com suas reações e se envergonhar. 

Se o ego estiver forte porque a pessoa exercita a sua musculatura emocional e o autoconhecimento, é possível conter parte da energia do complexo e minimizar os impulsos emocionais e físicos. 

 No processo de individuação (tornar-se mais fiel a si mesmo) - que se dá ao longo da vida - vamos tomando consciência e integrando as nossas forças e fraquezas. Essa é uma concepção junguiana, de compreensão que o ser humano é luz e sombra. Em vez de negar, a ideia é ampliar e integrar. 

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos” (JUNG, p. 54). 

Em Arteterapia, um material muito utilizado em sessão é a argila. Trata-se de um material de modelar que libera tensões, sentimentos e emoções, trabalha a coordenação motora e a flexibilidade da pessoa no ato de construir-destruir-reconstruir, tem efeito calmante e dá forma a símbolos inconscientes.

 Com isso, se a pessoa não rejeitar a argila (por motivos como textura, “sujar” as mãos etc), pode ser um bom material para trabalhar os complexos. Além de trabalhar a função psíquica sensação e proporcionar a liberação de energia acumulada – distencionando-se, os conteúdos inconscientes podem ser revelados e a elaboração consciente pode acontecer durante a sessão. 

Referências Bibliográficas:

CARRANO, Eveline e REQUIÃO, Maria Helena. Materiais de arte: sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico. Rio de Janeiro, Waq Editora, 2013. 216p.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Tradução de Dora Ferreira da Silva. 21. ed. – Petrópolis, Vozes, 2008. (Obras completas de C. G. Jung; v. 7, t. 2). 176p.

STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma - uma introdução. Tradução Álvaro Cabral. 5. ed. – São Paulo, Cultrix, 2006. 212p. 

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Sobre a autora: Luciana Vasconcellos


Arteterapeuta Junguiana

Atuei com um grupo de alunos e um de ex-alunos no pré-vestibular comunitário da ONG SBS, na startup Troca atendendo individualmente pessoas em vulnerabilidade social que estão se reinserindo no mercado de trabalho e atualmente atendo individual.

O BAMBU CHINÊS

 


Por Vera de Freitas (RJ)
verafguimaraes@gmail.com

            Encantada com o simbolismo das árvores, levei para os meus grupos algumas atividades bem interessantes e potentes no processo de auto conhecer-se, no olhar para dentro, no rever-se.  Até que preparei uma pesquisa sobre o bambu chinês, tão cheio de ensinamentos e possibilidades arteterapêuticas.

            E de fato foi muito arteterapêutico. Houve o reconhecimento, a identificação e a gratidão. Observaram, escreveram, desenharam, modelaram, colaram, se viram....  foram, todos, estimulados pelas características deste bambu.

            Falamos sobre as características desde sua plantação e a demora de 5 anos para começar a crescer, criando uma maciça estrutura de raízes. E a partir daí seu crescimento é rápido e lhe dá altura de cerca de 25 metros. Assim, com paciência e persistência surgirão as mudanças.

            O bambu nos ensina a cultivar bons hábitos na vida, como a persistência, a paciência e a resiliência. Precisamos saber viver com as mudanças, ter capacidade de se recobrar e de se adaptar. E ensina ainda sete verdades como a humildade diante das dificuldades, sobre a importância de se ter raízes profundas, ensina que não se vive sozinho, não cria galhos, que vão dificultar atingir suas metas, possui nós que representam os problemas e as dificuldades como melhores aprendizados e oportunidade de crescimento, é oco, pronto para ser cheio  e tem como meta crescer para o alto.

             Segundo a teoria chinesa, essa planta atrai prosperidade, sorte, fortuna, além de ativar a energia da casa. É durável e prática, perfeita para ambientes internos.

            Sobre o bambu existem alguns provérbios como: Não há de ser forte (eu diria, apenas ser forte), há de ser flexível. Ou ainda: É preciso muita ousadia para chegar às alturas, e ao mesmo tempo, muita profundidade para firmar-se no chão.

            O bambu é uma planta muito alta, flexível e resistente, e nos mostra possibilidades de atingir metas, de aprender com nossas próprias características.


            
E assim fizemos algumas reuniões trabalhando essas importantes e estimulantes características do bambu. Trabalhamos o que se via de comum, ou de diferente, ou que havia chamado mais a atenção. Trabalhamos um estímulo muito rico que afetou a todos os participantes de uma forma única, própria e especialmente profunda.

            Fica a lição do bambu: tenha força e coragem pra atingir seus objetivos, para seguir, com a certeza de estar firme pelas suas raízes.

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Sobre a autora: Vera de Freitas

 

Advogada, Fomação e Pós Graduação em Arteterapia (POMAR)

Cursando Pós Graduação Envelhecimento Ativo (POMAR)

Administradora do Instituto VENHA CONOSCO - Tijuca, RJ

Professora de Iniciação Artística - Instituto ZECA PAGODINHO

Facilitadora de Grupo de Arteterapia  para adultos, atendimento individual e Grupo de Desenho Livre.

Ateliê  de PAPEL MACHÊ

domingo, 27 de setembro de 2020

ESCRITA PRÁ LÁ DE CRIATIVA


Texto: “O que significa ARTE para mim?”

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

leonardo.claudia@gmail.com

Resolvi instituir um Caderno de Escrita Criativa para o meu pai, como sendo mais uma atividade para ele fazer. Estava com 83 anos de idade no início de 2018, viúvo há cerca de um ano e muito entediado. O diagnóstico de Doença de Alzheimer veio mais tarde naquele ano.

O texto inaugural do caderno foi escrito no dia 16/04/2018. Entreguei-lhe o mesmo, e para dar um título olhei ao meu redor para os objetos da sala. Vi sobre a mesa da sala de jantar as peças de um quebra-cabeças bem grande sendo montado, não por ele sozinho obviamente. Falei para ele escrever um texto de uma página inteira. Intitulado “Quebra Cabeça”, o texto teve uma certa lógica, começo-meio-fim, poucos erros de ortografia, divisões em parágrafos, pontuações, agradecimento e assinatura.

Texto: “Quebra Cabeça” 

Na semana seguinte, propus novamente a escrita de um novo texto. Mas aí ele ficou esperto. Escreveu uma página inteira em linhas alternadas! Não tive dúvida, virei a página e falei para ele continuar a escrita até o final. Um mês depois, ele já não conseguia escrever uma página inteira. Passamos para meia página e depois para perguntas e respostas.

Está certo que não conseguimos fazer essa atividade com muita frequência, mas foi o suficiente para eu observar como o cérebro dele estava funcionando.

Comecei com perguntas simples: Como você se chama? Quantos anos você tem? Quantos filhos, seus nomes, netos, bisneto, no que se formou, do que gostava de brincar quando criança, qual era a sua profissão. Só pelas respostas percebi alguns esquecimentos seus.

E assim fomos alternando, pois às vezes ele escrevia texto de uma página, depois, perguntas e respostas, depois pulava linhas. As perguntas foram tendo graus de dificuldade aumentados, e até que ele se saiu bem com esta: O que significa ARTE para mim? (Foto no início deste texto).

Para minha surpresa, chegou um dia que a letra dele começou a ficar um pouquinho diferente, uma ou outra resposta não tinham nada a ver com as perguntas. Mas, tivemos também respostas bem humoradas e algumas nas quais ele transmitiu como se sentia naquele momento:

Com este calor intenso, nesta sala, o que você gostaria de estar fazendo agora? Nada! Absolutamente nada! Mas...jogar tombola, fazer palavras cruzadas ou tomando um sorvete de côco não seria má idéia!

Que tipo de sorvete eu gosto? Picolé, raspadinha, massa, de cone, de copinho? Que sabores? Em resposta: prefiro sempre em taça de vidro, sorvete de chocolate seguido de alguns tragos de água pura. Recuso sorver de palito por ser muito gelado e duro p/ saborear!

Como você está se sentindo hoje? Maravilhosamente mau!!

Como está o seu emocional? Ótimo! Graças a minha saúde mental! O que você gostaria de fazer agora? Gostaria de descrever meu estado espiritual que está ótimo!

Surgiram também respostas interessantes: Se você estivesse no deserto do Saara, o que você faria? Andaria de camêlo no deserto infinito e apreciaria a macies da areia sêca do deserto do Saahara! Se pudesse fugir deste calor, para onde eu iria? Com certeza eu tomaria um banho de mar, mergulhando e furando as ondas, que vem de encontro a nós. Esse é meu esporte favorito: furar as ondas do mar. O que eu preciso para ficar inspirado, já que hoje não estou me sentindo inspirado? Fisicamente mais calmo e seguro de que estou curado e esquecer a idade de idoso que esta se apossando em mim.

Resolvi fazer a atividade de uma forma diferente, desta vez mostrando a ele uma parte do vídeo Rivers and Tides de Andy Goldsworthy* pelo celular. Na cena, o artista estava construindo uma obra apenas com gravetos, de forma suspensa, e eis que bateu um vento e desmanchou toda a obra, mostrando a efemeridade e impermanência das coisas. Após assistirmos o vídeo, propus ao meu pai uma escrita criativa.

Texto baseado em trecho do vídeo “Rivers and Tides” 

Terminarei contando a experiência de uma escrita criativa a partir da observação de uma foto em uma revista, neste caso, foto do Orloj** na República Tcheca. Primeiro conversamos um pouco sobre a fotografia, do que se tratava e onde ficava essa torre com o relógio, forte atração turística.

Texto inspirado na foto do “Orloj”, República Tcheca

Fomos obrigados a encerrar essa atividade por um período pois ele apresentou problemas nos olhos, o que dificultou enxergar os escritos e as linhas do caderno, inclusive por conta dos medicamentos oftalmológicos. Infelizmente acabou também perdendo a visão do olho direito.

Este ano, 2020, levamos meu pai à uma consulta médica. Aproveitei para mostrar alguns trabalhos que ele fez nas sessões arteterapêuticas comigo, na época em que ele estava tratando os problemas nos olhos. O médico ficou impressionado com a beleza da letra do meu pai. Agora, de vez em quando, peço para ele escrever apenas um parágrafo, para vermos como está a sua escrita, sua letra, se o texto tem sentido, e aviso que levaremos na próxima consulta do oftalmologista. Daí ele fica parado um tempão pensando: Não posso escrever nada banal...

Nota: a grafia itálica se refere à escrita de meu pai, portanto possui alguns erros inclusive de acentuação. acentuação.

* Para assistir o Vídeo Rivers and Tides CLIQUE AQUI 

** O Orloj é um relógio astronômico medieval, localizado em Praga, capital da República Checa. Este relógio foi montado na parede sul da Prefeitura Municipal da Cidade Velha na Praça da Cidade Velha, que são atrações turísticas bastante populares. (Wikipedia)

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

Fazer o Máximo com o Mínimo - 01/06/20

Tempo de Corona Vírus, Tempo de se Reinventar - 13/04/20

Minha Origem: Itália e Japão - 17/02/20

Salvador Dali e “As Minhas Gavetas Internas” - 11/11/19

“’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” -19/08/19

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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe


Arteterapeuta – atuei em instituição com o projeto “Cuidando do Cuidador”, para familiares e acompanhantes dos atendidos. Atuei também em instituição de longa permanência para idosos com o projeto “Mandalas”, sua maioria com Doença de Alzheimer.

Atendo em domicílio e on line.

domingo, 13 de setembro de 2020

REFLEXÕES SOBRE A ESCRITA CRIATIVA



Por Eliana Moraes (MG) RJ

naopalavra@gmail.com 

A escrita criativa sempre fez parte do meu repertório como arteterapeuta, mas confesso que ainda em um lugar coadjuvante. Hoje me recordo com mais atenção, um diálogo que tive no ano passado com uma arteterapeuta advinda do campo da literatura, que indagava sobre a primazia das artes visuais nas práticas arteterapêuticas e a falta de propostas criativas em que a escrita apareceria como prática protagonista. 

Até que em 2020 fomos convidados a nos reinventar em tantos aspectos, dentre eles quanto às práticas arteterapêuticas online e neste cenário a escrita criativa tomou o seu lugar de destaque. Tenho lançado mão cada vez mais deste recurso e hoje compartilho algumas reflexões teóricas e práticas sobre o tema. 

Inicialmente vale destacar que a escrita criativa é um termo mais amplo, que se diferencia da escrita criativa terapêutica. Esta sim, encaminhada para um processo de autoconhecimento, tomadas de consciência e apropriação de conteúdos psíquicos singulares. Vale diferenciar também a escrita criativa da escrita espontânea*, que vem como uma proposta associada à escrita automática dos surrealistas e portanto, à associação livre da psicanálise:

“A escrita automática libera as palavras do seu uso convencional. Como nos jogos de associação de ideias, é a aparência e a sonoridade de uma palavra o que determina a escolha de outra.” (BRADLEY, 25) 

Neste sentido, a escrita criativa terapêutica se mostra como uma proposta que convida o autor à um rebaixamento de consciência para uma expressão mais profunda, mas ainda no campo da palavra. De forma poética, Clarice Lispector descrevia esse processo como “escrever distraidamente”, quando escrevemos sem a preocupação com um sentido construído, um começo-meio-fim, ou com padrões literários.

A prática nos mostra que a migração da expressão verbal do oral para a escrita colabora para um deslocamento do discurso consciente do sujeito para novas associações e percepções de si. Desta forma, esta técnica é bem encaminhada quando o arteterapeuta entende que é necessário propor ao paciente uma nova forma de se expressar, dando um passo em direção à conteúdos inconscientes, mas ainda pisando o chão (seguro) da palavra.

Dentro do setting arteterapêutico costumo lançar mão desta proposta em seguida de estímulos projetivos disparadores como pinturas (destaque para as imagens oníricas surrealistas), músicas ou poesias. Estes estímulos são acessados do meu repertório como arteterapeuta, que é construído de forma contínua ao longo do meu caminho de contato e fruição das expressões artísticas. Deixo aqui meu encorajamento para que cada arteterapeuta construa seu próprio repertório a partir de suas próprias experiências. 

Sendo a linguagem verbal a mais consciente, ela também é indicada para o caminho inverso, para momentos em que queremos colaborar para que o paciente tome consciência de si e seus conteúdos:

“Considero que a ‘escrita criativa’ tem uma importante função no processo arteterapêutico: escrever para compreender a si mesmo..., pois as palavras guardam em sua essência imagens diversas, que podem surgir em associações livres, produtos da singularidade e da subjetividade de cada um. E, neste contexto, palavras são fontes geradoras, fornecem o fio de Ariadne para a saída de labirintos e são matéria-prima para significativas transformações psíquicas.” (PHILIPPINI, p 111)

Neste sentido, sempre utilizo a escrita como recurso, quando um paciente termina sua obra, colaborando para a elaboração de um processo tão vivido em sua potência e intuição. Trazer para as palavras o percurso de uma criação e sua composição final, se faz como a última etapa para a tomada e integração à consciência dos conteúdos psíquicos acessados (dentro do que é possível para aquele sujeito). Neste contexto, a escrita também colabora para o registro das memórias deste processo para que em um momento posterior em que for retomado aquele trabalho, não nos falte a descrição tão clara do que foi vivido, em “detalhes” que nossa memória pode falhar.  

Entretanto, desde que adentramos aos atendimentos online tenho dispensado um pouco mais de atenção para a prática da escrita criativa como técnica protagonista da vivência devido à facilidade deste recurso em termos materiais, mas sobretudo por seu potencial de “dar forma” aos conteúdos psíquicos em busca de elaboração. E aqui utilizamos Fayga Ostrower como referência, quando nos diz que:

“... criar corresponde a um formar, um dar forma a alguma coisa. Sejam quais forem os modos e os meios, ao se criar algo, sempre se o ordena e se o configura... no sentido amplo em que aqui é compreendida a forma, isto é, com uma estruturação, não restrita á imagem visual.” (OSTROWER, p 5)

Sendo assim, consideramos que escrever é dar uma forma àquilo que se apresenta ainda sem forma, não compreendido, não elaborado, não nomeado. E este exercício é estruturante e organizador. Vale ressaltar sê-lo bastante pertinente em um momento tão instável, cheio de desconstruções e reconstruções, com fechamentos de ciclos para início de outros, movimentos tão presentes do fenômeno coletivo ao qual estamos inseridos e ainda no meio de sua travessia.  

Lembro aqui que meu próprio processo com a escrita neste blog se deu justamente por estar afogada em meus pensamentos, reflexões e hipóteses e a escrita me serviu (e ainda serve) de recurso organizador de tantos conteúdos que povoam meus pensamentos e se eu assim os deixar, me perco de mim.

Concluindo este texto, mas longe de esgotar este assunto tão rico, com a fala de Raissa Andrade sintetizo minhas reflexões:

“A Arteterapia também utiliza-se da escrita livre. A pessoa, ao escrever, é instruída a não se preocupar com sincronicidade, erro ortográfico, lógica ou ordem cronológica e a não se auto censurar. Basta escrever de forma automática, sem reler por algum tempo, deixar que a transposição pensamento/papel flua naturalmente. A utilização da escrita e/ou da fala após a produção artística liga o consciente e o inconsciente. Aciona o hemisfério direito do cérebro. Essa escrita surge sob o impulso e a intuição. É a elaboração final de um processo criativo bastante denso. Os próprios sentimentos são utilizados para uma nova forma de leitura de si mesmo, ocorrendo a sensação de integração cósmica.” (ANDRADE, 197)

 

* Estas diferenciações aprendi com os professores Celso Falaschi e Lara Scalise na live da AATESP sobre escrita criativa terapêutica, disponível no youtube. 

Referências Bibliográficas:

ANDRADE, Raissa Guimarães de. “Luto na maioridade”. In: “Criatividade e envelhecimento”  Celso Falaschi; Otília Rosângela Souza (org). Ed Labour, Campinas, 2017.

BRADLEY, Fiona. Surrealismo: Movimentos da Arte Moderna. Ed Cosac Naify, SP, 2014.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 2014.

PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: Uso, indicações e propriedades. Ed Wak, Rio de Janeiro, 2013

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga.

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2