segunda-feira, 8 de junho de 2026

O CORPO NO "MODO AVIÃO": A Dessensibilização Contemporânea e o Resgate pela Arteterapia



Por Camila Camargo da Silva /SP


Olhe ao seu redor por um instante. No metrô, bares, restaurantes e nas salas de espera a cena se repete como um espelho coletivo: cabeças baixas, dedos num correr sem fim em telas, fones de ouvido isolando o ambiente. Na era da hiper conexão cruzamos oceanos virtualmente, acessamos dados e bibliotecas enquanto estamos falando com pessoas em fusos horários diferentes. Mas por detrás desse espetáculo tecnológico, um fenômeno silencioso e preocupante tem se instalando em nós: a dessensibilização.

Mecanizados pelo ritmo acelerado do mundo contemporâneo, estamos numa espécie de "modo avião" desconectados da existência. Bombardeados por muito estímulo e pouca presença. Como disse Byung-Chul Han em sua obra A Sociedade do Cansaço:

"O excesso de informação e de estímulos não enriquece a alma; ao contrário, ele a embota. Vivemos em uma sociedade do cansaço e da hiperatividade, onde a aceleração destrói a capacidade de contemplação e de escuta profunda de si mesmo."

Nossos sentidos anestesiados e afogados em informação; o toque é no vidro liso do celular, o olhar estreitado em telas e o próprio corpo só é notado na dor física ou se o mental grita por socorro. Desaprendemos a notar o peso de nossos passos, a textura do que nos cerca e o ritmo da nossa respiração.

Essa descolar do mundo e de si mesmo vai em busca de ambientes terapêuticos. Serviços e dicas de bem-estar se infiltram no ambiente que aumenta o mal-estar. Profissionais de saúde dispostos a ajudar e aliviar desgaste, cansaço e ansiedade quase que pandêmicos. Para quem trabalha com Arteterapia isto criou o grande desafio de não apenas entender o que o paciente vivencia, mas ajudá-lo a voltar a sentir. No mundo em que sucesso e trabalho se apresentam como o único caminho para a felicidade, pacientes intelectualizam e racionalizam suas dores com maestria: sei que tenho ansiedade por conta do problema “Y” ou de meu trauma “X".  Mas o canal de comunicação com a emoção está meio perdido. A palavra falada, que descreve para explicar, fica racional demais e reforça a anestesia. É preciso mudar a rota.

É na rachadura entre o mundo real e o digital que a arteterapia se faz urgente. Afastando-se das exigências da estética ou da performance da "obra de arte perfeita", o fazer artístico na terapia funciona como um ancoradouro seguro. Torna-se a via suave de expressão de sentimentos e dores, armazenados em áreas não-verbais do cérebro. A expressão criativa pelo desenho, pintura, modelagem, escrita etc. convidam o paciente/cliente a sujar as mãos com argila, sentir a resistência do giz de cera ou ver a imprevisibilidade da aquarela escorrer pelo papel. E isto retira do plano abstrato da mente e devolve ao reino dos sentidos. Para organizar o que está dentro, é importante primeiro restabelecer contato com o que está fora.

Quando um paciente atravessa a porta do ateliê terapêutico, imerso nessa anestesia contemporânea, o contato com os materiais expressivos tende a disparar um choque cultural interno. Adestrado na mesmice disfarçada de variedade nas telas controladas pelos algoritmos, deslizar o dedo apaga erro; o filtro corrige imperfeições. É o que faz a mente digitalizada buscar essa mesma previsibilidade no papel. Aí o setting da arteterapia revela sua faceta provocativa: a matéria resiste.

É comum nas primeiras sessões observar a ansiedade frente ao real e concreto. Diante de uma folha em branco, tintas e pincéis, o paciente por vezes paralisa ou verbaliza um medo quase infantil: "E se eu errar? Tem como apagar?". Na falta do Ctrl+Z  no traço imperfeito, a frustração é imediata. A aquarela que escorre sem pedir licença, o giz de cera que borra a margem que limita, ou a argila que racha se for manuseada com pressa, são vistos, inicialmente, como inimigos.

É a reação que mostra como a dessensibilização e o imperativo da perfeição digital andam de mãos dadas. Na vida mediada por telas, o erro se deleta, o feio se camufla e o tempo é já. A psique humana escapa da lógica matemática ou linear que se acredita infalível. Ao insistir no controle rígido, o paciente tenta racionalizar o fazer artístico da mesma forma que racionaliza seus sintomas. Ele quer um plano, uma técnica, um manual de instruções. Quando percebe que a matéria exige entrega, o corpo reage: as mãos hesitam em se sujar de tinta, o toque na argila é feito com a ponta dos dedos, quase com asco, demonstrando a dificuldade de se deixar afetar pelo mundo físico. Nossas vivências são multidimensionais e permitem que sentimentos que parecem opostos, amor e raiva, medo e coragem, coexistam e coabitem.                              

Testemunhar essa resistência é o ponto de partida do processo terapêutico. Momento de renunciar ao intelecto defensivo e deixar o corpo falar. Como afirmava Carl Jung em O Desenvolvimento da Personalidade:

"Muitas vezes as mãos resolvem um enigma contra o qual o intelecto lutou em vão."

Sustentar o desconforto da impossibilidade de apagar o traço, a obrigação de lidar com o borrão e o exercício de olhar para o "imperfeito" são o ensaio geral para a vida fora do ateliê terapêutico. Pois nossas escolhas, lutos e encontros não têm botão de desfazer. Aceitando o erro no papel, o paciente/cliente aos poucos vai tolerando falhas num pedacinho de sua história de vida.

Se a mente contemporânea flutua na abstração das nuvens digitais, os materiais da arteterapia funcionam como âncoras que a puxam de volta para a terra. Cada textura, densidade e viscosidade oferece um tipo específico de convite ao corpo. O material expressivo não é um suporte passivo para a mente; possui uma linguagem própria, densidade e resistência que convocam o corpo do sujeito ao diálogo. Ao tocar a matéria, o sujeito é, inevitavelmente, tocado por ela.

Manipulando esses elementos o paciente é obrigado a abandonar o discurso racionalizado que justifica, para entrar no reino da pura experiência sensorial.

Vou procurar descrever como recursos tão distintos, como argila e colagem, operam esse resgate:

A Argila e a Força do Enraizamento



A argila é, por excelência, o material do confronto e da corporeidade. Diferente do toque sutil em uma tela de vidro, a argila exige força física, peso e a musculatura das mãos. Ela é fria, úmida e maleável, mas também impõe seus limites.

Para o paciente dessensibilizado, tocar a argila é um choque de realidade. Não dá para moldá-la sem se sujar, e essa quebra da "limpeza digital" é profundamente terapêutica. Ao amassar o barro, o paciente descarrega tensões musculares crônicas que ele sequer notava que carregava. A argila ativa o tato profundo (a nossa percepção do próprio corpo no espaço) e obriga o sujeito a estar inteiramente ali: respirando o cheiro da terra, sentindo a temperatura mudar com o calor das próprias mãos e dando contorno físico ao que antes era apenas um vazio angustiante na mente. Na argila a forma vai saindo das mãos, ao invés de chegar dura e já pronta para nossas retinas.

A Colagem e a Reorganização do Caos



Se a argila convida ao transbordo e à força, a colagem atua na outra extremidade: a da organização, do limite e da escolha. No mundo digital, somos bombardeados por fragmentos de imagens que passam pelo nosso feed sem que possamos digeri-los. A colagem desacelera esse processo, parando o carrossel.

Rasgar uma revista, sentir a textura do papel que pode ser áspero, jornal ou papelão, recortar e escolher onde fixar cada elemento é um exercício de foco e discernimento. O paciente precisa usar as mãos de forma delicada e precisa. Além disso, a colagem permite que ele pegue os "fragmentos" do mundo e de si mesmo e os reorganize em um novo espaço com limites claros (as bordas da folha). É um processo que ajuda a dar contorno e borda para quem se sente psiquicamente transbordando ou diluído no infinito da internet.

A matéria não aceita a pressa; ela impõe o próprio tempo. E, ao respeitar o tempo do material, o paciente finalmente aprende a respeitar o tempo de si mesmo.

Em um mundo que exige produtividade e respostas imediatas, o ateliê terapêutico torna-se um "oásis de lentidão". Mais ou menos como a diferença entre fast-food e cozinhar o que se quer comer. O papel do arteterapeuta não é o de fornecer soluções rápidas como um algoritmo de rede social, mas o de sustentar o tempo do fazer: o tempo de secar da tinta, o tempo do silêncio, o tempo da tentativa e do erro.

Esse cenário é descrito no conceito de "espaço potencial" trazido pelo psicanalista Donald Winnicott em O Brincar e a Realidade:

"É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fluem em sua liberdade criativa, e é na criatividade que o indivíduo descobre o si-mesmo (Self)."

O ambiente da arteterapia resgata justamente esse espaço sagrado do brincar e do experimentar sem julgamentos. Nele, as telas são deixadas de lado para que o sujeito recupere sua capacidade de ser afetado pelo mundo. Diante das cores que se misturam e das formas que ganham vida, o paciente contemporâneo descobre que não precisa estar blindado ou anestesiado para sobreviver.

Tocar a matéria, sujar as mãos e aceitar os caminhos imprevistos da criação, são os primeiros passos para que o indivíduo saia do "modo avião", reconecte seus sentidos e volte a habitar, com presença, afeto, autoconhecimento e bem-estar a sua própria história.

“A arte não controla e não impõe. Se sente e vivência. O momento de criar é silencioso, é um estado alterado de consciência” como bem nos descreve a professora Selma Ciornai.

“Vivemos a dessensibilização das nossas necessidades de contato que a mesma Selma Ciornai cita no podcast Gestalt aberta #41 A Gestalt-terapia resiste ao tempo?

E você, como tem cuidado da sua presença no mundo hoje?

Que tal fazer um pequeno combinado consigo mesmo e passar alguns minutos da sua semana longe das telas, experimentando tocar a matéria seja cozinhando, pintando, plantando ou arriscando alguns traços no papel? Compartilhe este artigo com alguém que também esteja precisando desse "oásis de lentidão" e deixe suas impressões nos comentários!

 

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Sobre a autora: Camila Camargo

 


Idealizadora do Vidaadentro e grata por ter conhecido a arte de recordar e preservar memórias (Scrapbook), que me pôs no caminho que me trouxe até a Arteterapia, depois de ser Bacharel em Administração de Empresas e pós-graduada em Negócios. Venho, passo a passo, procurando aumentar a presença e a importância da expressão pela arte, como forma de acolher o ser humano na busca da integração saudável com a natureza e as pessoas.​

Arteterapeuta formada pelo Instituto Sedes Sapientiae (UBAAT 081239/0325), atuo na mediação de grupos terapêuticos que acolhem mulheres em situação de violência doméstica. E sou cofundadora da equipe multidisciplinar Psi+Arte, em que atuo oferecendo atendimento clínico na modalidade online.


terça-feira, 2 de junho de 2026

ÀS VEZES A MÚSICA ENTENDE ANTES DA GENTE



Por Isa Ramos – RJ 

@psicologaisaramos 

site:www.psicologaisaramos.com.br

Existem sentimentos que demoram para ganhar nome. Às vezes, a vida continua acontecendo normalmente por fora, enquanto por dentro algo já não encontra mais sentido da mesma forma e nem sempre conseguimos explicar isso. Talvez seja por isso que algumas músicas nos atravessam tanto. Não porque contam exatamente a nossa história, mas porque conseguem acessar emoções que ainda estavam silenciosas dentro de nós. 

Foi assim que muitas pessoas se sentiram ao ouvir Shallow, de Lady Gaga. A música parece tocar justamente naquele vazio emocional difícil de explicar. Na sensação de estar vivendo na superfície enquanto uma parte interna pede profundidade, conexão e verdade. 

"Tell me something, girl… are you happy in this modern world?" ("Me diga uma coisa… você está feliz neste mundo moderno?") 

A pergunta da música parece simples, mas emocionalmente ela é enorme. Porque muitas pessoas aprenderam a funcionar no automático. Trabalham, cumprem responsabilidades, cuidam de todos ao redor e seguem a rotina normalmente, mas emocionalmente já não conseguem se sentir presentes dentro da própria vida. 

Talvez seja exatamente por isso que a arte emocione tanto. Porque existem sentimentos que ainda não conseguimos dizer, mas conseguimos sentir quando uma música toca, quando uma cena de filme nos atravessa ou quando algo desperta emoções que estavam guardadas em silêncio dentro da gente. Às vezes, a arte alcança lugares que as palavras ainda não conseguiram alcançar. 

Na Arteterapia, acredita-se que a expressão artística pode funcionar como uma ponte entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos comunicar. Nem sempre é fácil explicar uma emoção. Muitas vezes, sabemos que algo nos incomoda, nos entristece ou nos inquieta, mas não encontramos as palavras certas para traduzir essa experiência. 

É justamente nesse espaço que a arte pode se tornar uma aliada. Seja por meio da música, da pintura, da escrita, da fotografia ou de outras formas de expressão. Ela oferece caminhos para que sentimentos encontrem uma forma de existir fora de nós e quando conseguimos olhar para uma emoção, ainda que através de uma música ou de uma imagem, começamos também a compreendê-la de maneira diferente.

 Quem nunca ouviu uma canção e pensou: "É exatamente isso que eu estou sentindo"? Muitas vezes, a identificação acontece porque a música dá forma a algo que ainda estava confuso internamente. Ela organiza emoções, desperta memórias, resgata experiências e nos conecta com partes da nossa história que estavam esquecidas ou guardadas. Curiosamente, a mesma música pode ganhar significados completamente diferentes ao longo da vida. Uma canção que ouvimos na adolescência pode parecer apenas bonita. Anos depois, ao revisitá-la em outro momento da nossa história, ela pode nos emocionar profundamente, não porque a música mudou, mas porque nós mudamos. 

As experiências que vivemos transformam a forma como escutamos o mundo. Uma perda, um recomeço, uma decepção, uma conquista ou até mesmo uma fase de maior amadurecimento emocional podem fazer com que determinadas letras passem a fazer sentido de uma maneira que antes não faziam.

 Talvez seja por isso que tantas pessoas tenham uma música que marcou uma fase específica da vida. Ao ouvi-la novamente, não escutam apenas a melodia. Revivem lembranças, sensações, cheiros, lugares e versões de si mesmas que existiam naquele momento. A música tem essa capacidade de conectar passado e presente de uma forma muito singular. 

E não é apenas a música. Quantas vezes um filme, uma fotografia, um livro ou uma obra de arte despertaram emoções que pareciam adormecidas? A arte possui uma linguagem própria, que muitas vezes ultrapassa aquilo que conseguimos explicar racionalmente. 

Em uma sociedade que valoriza tanto a produtividade e as respostas rápidas, nem sempre encontramos espaço para sentir. Somos incentivados a resolver, superar, seguir em frente, mas as emoções não costumam funcionar nessa lógica. Algumas precisam de tempo. Outras precisam de acolhimento e algumas simplesmente precisam ser reconhecidas. 

Nesse sentido, a arte nos oferece algo precioso: a possibilidade de pausar. De observar o que está acontecendo dentro de nós sem a obrigação imediata de mudar, corrigir ou controlar aquilo que sentimos. É um convite para a presença. 

Talvez seja por isso que tantas pessoas encontrem conforto em determinadas músicas durante períodos difíceis. Não porque elas tragam soluções prontas, mas porque oferecem companhia emocional. De alguma forma, a pessoa percebe que aquilo que sente pode ser compartilhado, compreendido e acolhido. 

Quando uma música nos emociona profundamente, ela pode estar funcionando como um espelho. Um espelho que reflete partes de nós que estavam esquecidas, silenciadas ou esperando o momento certo para serem vistas. 

No caso de Shallow, a pergunta sobre felicidade e autenticidade continua ecoando justamente porque fala de uma busca que atravessa muitas histórias: a busca por viver de forma mais verdadeira, mais conectada consigo mesmo e menos presa às expectativas externas. 

E talvez essa seja uma das maiores contribuições da arte para a saúde emocional: criar espaços de reflexão. Espaços onde não precisamos ter todas as respostas imediatamente. Espaços onde podemos apenas sentir, observar e, aos poucos, compreender melhor quem somos. 

Porque, às vezes, antes mesmo de entendermos o que está acontecendo dentro de nós, uma música já encontrou o caminho. 

Talvez seja por isso que certas músicas permanecem conosco por tantos anos. Elas não guardam apenas melodias ou letras. Guardam pedaços da nossa história, guardam emoções, lembranças e versões de nós mesmos que existiram em determinados momentos da vida. 

No final das contas, talvez a arte não tenha a função de responder todas as perguntas. Talvez sua maior contribuição seja nos ajudar a fazer contato com aquilo que sentimos. E isso, por si só, já pode ser profundamente transformador. 

Porque, às vezes, a música entende antes da gente. 

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Sobre a autora: Isa Ramos



Psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.