segunda-feira, 20 de novembro de 2023

PRÁTICAS ARTETERAPÊUTICAS E SUAS DIVERSAS MODALIDADES

 


Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

 

Cada vez mais dedicada à formação continuada do arteterapeuta, tenho observado com atenção as questões mais recorrentes em espaços de supervisão. A partir dessa escuta atenta, pretendo escrever conteúdos orientadores para os profissionais que permanecem na busca pelo seu desenvolvimento.

Compreendemos que a Arteterapia é um campo de atuação que recebe estudantes das mais variadas formações anteriores. Essa é uma característica marcante de nossa profissão, a qual possui sua luz e sombra. Em um aspecto positivo, isso potencializa a diversidade e multiplicidade, bem como, amplia o alcance das práticas arteterapêuticas.

Por um outro lado, observo que alguns arteterapeutas – principalmente os que não vêm da Psicologia – possuem certa dificuldade em compreender a dinâmica do ofício do terapeuta, diferenciando-se de um manejo com viés pedagógico e didático, ou mais diretivo e sugestivo. Nesse contexto, gosto de resgatar o princípio da psicanálise sobre o “saber”.

Para a psicanálise, apenas o sujeito é capaz de “saber” sobre si. Ocorre que ele “esqueceu o que sabe” e este saber encontra-se inconsciente. Quando esse sujeito elege um analista/terapeuta, ele coloca este profissional no lugar de “suposto saber”. Ou seja, o sujeito precisa supor, acreditar, que aquele analista/terapeuta possui um saber que ele não tem. Ser colocado nesse lugar de “suposto saber” é importante para que ocorra a transferência, as projeções necessárias para que o sujeito confie, se abra e vincule com seu analista/terapeuta. Por outro lado, esse lugar deve ser muito bem compreendido pelo profissional, acolhendo a necessidade projetiva de seu paciente, mas mantendo a clareza e consciência de que “ele não tem o saber”. Caso contrário, ele desloca-se para o lugar de conselheiro, mentor, orientador, guru, etc. Quem tem o saber é o próprio sujeito e o papel do analista/terapeuta é ajudá-lo a lembrar de seu saber sobre si. O que o analista/terapeuta possui é um distanciamento emocional e o conhecimento de alguma técnica que possa colaborar com o sujeito na (re)apropriação de seu saber.

De posse desse princípio, cada abordagem terapêutica irá partir de sua técnica. E no caso da Arteterapia é necessário que o profissional conheça as diversas modalidades que compõem nosso repertório, suas características e propriedades, para delas fazer bom uso, com consciência técnica.

Já de início podemos destacar duas modalidades de atendimento bastante características das práticas arteterapêuticas: os atendimentos grupais e individuais.

Em um texto anterior desse blog, chamado “Grupos arteterapêuticos e suas diversas modalidades” (CLIQUE AQUI) discorro mais profundamente sobre algumas variáveis dos atendimentos grupais como o fluxo de pessoas, o tempo e o número de sessões e a estrutura da proposta. Neste texto retomaremos o último item.

Uma proposta estruturada se dá quando o arteterapeuta já conhece todo o conteúdo a ser trabalhado. Geralmente essa proposta funciona com encontros pontuais ou um ciclo breve. Em Arteterapia, uma modalidade muito presente em nosso repertório são as vivências ou oficinas, caracterizadas por um encontro temático ao qual o facilitador já possui a estrutura de seu começo, meio e fim.

Já uma proposta semiaberta ou semiestruturada se dá quando o moderador elege uma proposta inicial – um material, uma temática, um estímulo, uma consigna – e se mantém aberto para ouvir o movimento gerado nos experienciadores por aquele estímulo. A partir dessa escuta ele irá construir a proposta do próximo encontro elegendo as propostas pertinentes àquele movimento grupal. 

Por fim, a proposta aberta acontece quando o moderador oferece o encontro terapêutico sem planejamento anterior, deixando com que os estímulos disparadores surjam de forma espontânea, na experiência do “aqui e agora”. Desta forma, o processo criativo acontece  naturalmente, a partir de algum estímulo surgido no momento.

E aqui vale destacar que (salvo exceções) o atendimento individual se configura como uma proposta aberta.

Atendimento individual

Percebo que para arteterapeutas que não vêm da Psicologia, um dos desafios para desenvolverem o manejo do atendimento individual está em terem sido apresentados à Arteterapia por propostas estruturadas ou semiestruturadas nas aulas do curso de formação e outras vivências, e não terem tido a oportunidade de vivenciarem uma sessão aberta, seja grupal ou individual.

É essencial que o arteterapeuta que oferece atendimentos individuais possa se despir das sessões estruturadas ou semiestruturadas e compreenda que aquele encontro terapêutico se dá a partir da demanda trazida pelo paciente/cliente no “aqui e agora”. A destreza da escuta arteterapêutica está em acolher a demanda subjetiva trazida pelo sujeito e em tempo, criar uma decodificação para o material objetivo e a técnica pertinente.

Naturalmente, o arteterapeuta, conhecendo o percurso de seu paciente, pode deixar como “cartas na manga” possíveis propostas arteterapêuticas para o encontro. Porém, receber o paciente e ouvir o que ele traz para sua terapia naquele momento é imperativo para a dinâmica da sessão. E assim, compreendemos o arteterapeuta como um promotor de encontros entre o sujeito que fala sobre sua questão e o material que será mais facilitador do seu processo de expressão, elaboração e ressignificação.

Compreendemos como cenário de exceção, quando um paciente se apresenta bastante esvaziado, ensimesmado e apresentando pouco repertório. Aqui, há a possibilidade do arteterapeuta inicialmente construir sessões semiestruturadas com objetivo terapêutico de desbloqueio criativo. Tal manejo é um dos recursos singulares da Arteterapia em auxílio à pacientes que possuem alguma angústia, mas que têm dificuldade de expressá-la através da linguagem verbal. Esses pacientes apresentam bastante dificuldade nas psicoterapias tradicionais, enquanto em Arteterapia podemos oferecer a oportunidade de ampliação da linguagem e o contato com estímulos projetivos que serão muito facilitadores a esses pacientes. Entretanto, de toda forma, é importante que o arteterapeuta compreenda que esse é um manejo pontual e temporário, com o objetivo de desbloqueio do paciente, e que a medida que este adentre ao fluxo terapêutico, suas demandas apresentadas na sessão serão norteadoras do processo.

Nesse contexto, outro ponto bastante trabalhado em supervisões se dá no desenvolvimento da sensibilidade de acolhimento do tempo singular de elaboração de cada paciente/cliente. Para arteterapeutas ainda vinculados às modalidades estruturadas e semiestruturadas, por vezes parece desafiador acompanhar o tempo de cada paciente e suas possibilidades, sua resistência ou dificuldade no caminhar. Como nos diz Freud em seu texto “Recordar, repetir e elaborar”, o enfrentamento das resistências é uma árdua tarefa para o paciente e por vezes uma prova de paciência para o analista/terapeuta. Porém, deixar com que o próprio paciente vá desconstruindo suas resistências é o trabalho mais eficaz. Assim, compreendemos que o papel do arteterapeuta não é sugestionar ou apontar caminhos de forma diretiva, mas sim acompanhar, testemunhar e dar suporte ao processo, tempo e caminhar de cada experienciador.

 

A formação continuada e o desenvolvimento do arteterapeuta é um dos objetivos do Não Palavra Arteterapia e suas propostas. Estamos em processo de fechamento do ano de 2023 cientes de que nesse ciclo consolidamos esse lugar e com o desejo renovado para 2024.

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

VIVÊNCIA: UMA EXPERIÊNCIA DE ENCANTAMENTO

 


A Grande Onda de Kanagawa – Katsushika Hokusai

 

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

Instagram: @claudia_abe_

 

Depois de mais de mil dias vivendo praticamente no mundo virtual chega o momento oportuno, KAIRÓS, e ao canto do sabiá, os alegres e potentes encontros presenciais se tornam possíveis mais uma vez.

No começo de 2023 iniciamos uma rica e estimulante parceria – Claudia e Rita Maria – para a divulgação do nosso trabalho em Arteterapia.  Convidamos amigos e conhecidos para uma experiência singular.

Arte, Criatividade e Reflexão.  Oferecemos uma vivência cortesia, como uma degustação para saborearem, conhecerem o que é a Arteterapia. (Rita Maria Erhart de Souza Dias)

 

No início de 2023, eu e Rita Maria, ambas arteterapeutas, começamos as reuniões de planejamento, para iniciarmos o atendimento em seu ateliê, com o objetivo de divulgar a Arteterapia e o nosso trabalho.  Era janeiro quando passamos a convidar pessoas para uma experiência única, de encantamento, no Kairós Ateliê Terapêutico na Praça da Árvore em São Paulo, pertinho da estação de metrô, e, portanto, de fácil acesso. A cada mês criávamos um e-flyer com um texto específico para convidarmos por WhatsApp.

“Você gostaria de participar de uma vivência cortesia em Arteterapia?” (eu)

“O que é Arteterapia?” (o outro)

“Então, que tal você vir para a vivência, e aí você conhece a Arteterapia, o ateliê e o nosso trabalho. O que você acha?” (eu) 


 

E foi assim que começamos a colocar o Kairós Ateliê Terapêutico para funcionar, por meio de uma “Vivência Cortesia” – mais que uma gratuidade, uma gentileza.  Com a sugestão da fisioterapeuta Patrícia Ladeia Trindade, das minhas aulas de Pilates – “Ah, não faça grátis...peça a doação de um quilo de alimentos e depois entregue em uma instituição”, Rita Maria trouxe o conceito do “Ciclo Virtuoso”, ou seja, os alimentos arrecadados no Kairós Ateliê Terapêutico, durante as vivências cortesia, passariam a ser entregues pessoalmente por nós ao Instituto Meninos de São Judas Tadeu, próximo ao Santuário São Judas Tadeu em São Paulo. 

 


Entrega de alimentos doados 

Convites foram feitos aos amigos e conhecidos, por WhatsApp, lembrando que cada pessoa poderia trazer um convidado, sendo parente ou amigo. O número de participantes variou bastante em cada encontro, chegando ao total de 61, no período de fevereiro a agosto de 2023. E refletindo ao final de cada encontro tivemos a certeza de que aquelas eram as pessoas que deveriam estar ali naquele momento. Nem a mais, nem a menos.

Mas, e qual atividade deveríamos levar para uma vivência inicial, de apresentação? Não poderia ser nada muito superficial, mas também nada muito profundo nem muito mobilizador, afinal, não se tratava de um início de processo arteterapêutico. Tínhamos pensado numa atividade com colagem.

Ouvi uma voz na minha cabeça: “Entre com a onda de Hokusai”.

E assim, acabamos por optar em oferecer uma vivência inspirada na atividade online, dias antes criada e conduzida pela arteterapeuta Leda Nogueira Maekawa, durante o grupo de estudos em Arteterapia do qual participamos.

O encantamento começou na entrada da casa, com toda a natureza se apresentando por meio de plantas e flores. No interior do ateliê, vários objetos colecionados e obras produzidas por Rita Maria.

 

O jardim secreto de Kairós 

Após a recepção e acolhimento dos participantes, iniciamos a atividade apresentando o artista japonês Hokusai, sua vida e suas obras. “A Grande Onda de Kanagawa” serviu de inspiração, para a construção de suas ondas, com seus formatos, cores e complementos; cada onda com sua intenção. Ondas fixas ou móveis, encontraram seu cenário. A escrita livre individual e “secreta” encerrou este momento. Passamos para o compartilhamento em grupo, garantindo o sigilo para a confiança de todos. 

 


Dentro de Kairós – um tempo poético


Materiais para cor e colagem

 

Preservamos neste texto, os trabalhos e conteúdos compartilhados por todas as pessoas que participaram das vivências, e assim, coloquei nossas próprias obras executadas anteriormente, no grupo de estudos online.

 


 Claudia: “Como uma onda no mar” 

Minhas ondas estão coladas no papel.

Alguns escritos nas minhas ondas: “Tudo se mistura dentro de mim. As águas vão se acalmando dentro de mim”. 


Rita Maria: “É pôr do sol, e eu vejo uma baleia no horizonte”

Minhas ondas são soltas como no mar, não estão fixas no papel. Elas estão presas apenas com clips, e assim eu posso movimentar as ondas. E tem praia.  Minha onda tem espuma de algodão.

Atrás de cada onda tem escrito qualidades, palavras positivas, como “Amor, Energia, Fé, Humildade, que me encorajam a prosseguir.”   

Terminamos a vivência, passando para o “momento marketing”, ou seja, contando um pouco sobre nós, aproveitando para mostrar livros dos quais fazemos parte e as atividades que o espaço oferece.

 

 


Livros (veja abaixo em Bibliografia)

 

Nos despedimos com a certeza de que a maioria dos convidados saiu tocada, de alguma forma, mobilizados ou reflexivos, quer seja pelo contato com a natureza presente tão fortemente no local, quer seja pelo ateliê muito diferente de uma sala comercial, quer seja pela própria atividade. E ficamos pensando em criar experiências no Kairós Ateliê Terapêutico.

Foram momentos intensos e únicos para cada participante que se permitiu deixar se tocar pela proposta. Um olhar para si e o encontro com Alegria, Choro, Coragem e Acolhimento.

 

CONCLUSÃO

Essa experiência foi muito enriquecedora e serviu como um grande aprendizado para nós mesmas, já que nos foi necessário confrontar situações e conceitos na prática. Começamos com a parceria, que já é um desafio. Trabalhar em dupla, conduzir uma atividade de modo que as pessoas consigam conhecer as duas profissionais atuando. Respeitar o espaço do outro profissional. Compartilhar conhecimentos. Administrar conflitos, se ocorrerem.

Depois tivemos outro desafio: a organização, o modo operacional, ou seja, fazer a divulgação, fazer os contatos via WhatsApp, controlar a agenda. O rigor em manter os horários de início e fim foi necessário, pois muitas pessoas tinham outros compromissos logo após a vivência. E outras simplesmente queriam ficar.

Diminuímos as variáveis para observarmos o comportamento dos grupos. Aplicamos sempre a mesma vivência, com o mesmo tema e os mesmos materiais. Aprendendo, e aperfeiçoando o manejo a cada encontro, tivemos que fazer uma adaptação na atividade para poder controlar melhor o tempo.

Nos grupos de inclusão, eu mesma me sentei ao lado da pessoa com alguma necessidade para auxiliá-la, enquanto Rita Maria dava suporte aos demais.

Surpresas acontecem, não é mesmo? Então providenciamos uma caixinha de lenços de papel. A arteterapia é mobilizadora de conteúdos, mesmo não aprofundando, tudo pode acontecer.

Completamos a experiência com uma vivência online, com a amiga arteterapeuta lá de Fortaleza, Tania Salete Moreira. Combinamos o dia e horário. Mas, para ter uma experiência completa e de encantamento, fizemos uma chamada de vídeo pelo WhatsApp. Fiz exatamente como se a estivesse recebendo presencialmente. Ela pode ver a entrada da casa, o corredor, a natureza, o pátio, e finalmente adentrar o espaço do ateliê para a atividade. É claro que neste caso, não conseguimos permanecer só na atividade. Rolou muito papo e descontração. 

 


Tania Salete na vivência cortesia online, direto de Fortaleza. 

Finalizo contando aqui o quanto fomos surpreendidas com os relatos, com a criatividade nas produções plásticas e usos inusitados dos materiais. Ondas com formatos e cores diversas. Cenários apresentando os mesmos elementos sem ninguém olhar o trabalho do outro, e não era nem céu, nem mar. Detalhes maiores não poderemos citar aqui para manter nosso acordo de sigilo. Mas certamente mergulhamos profundamente no mar da icônica gravura do Mestre Hokusai, e nas inspirações-relato que foram despertadas em cada um dos convidados.

O Mundo Encantado – este é o nome que dei para o ateliê. Fadas e duendes estão por toda a parte. Um lugar de paz. Uma experiência única num lugar encantador. Gosto de brincar dizendo: “Você vai experimentar a Arteterapia, mas vai se lembrar é do café* da Rita!” (quem participou saberá do que eu estou falando).

Para finalizar este texto, deixo aqui uma pergunta:

“E você, gostaria de participar de uma Vivência Cortesia?”

 

Nota 1: Dedico esse texto à Vera Helena Erhart de Souza Dias (mãe de Rita Maria) pela empolgação e atitude positiva, frente aos nossos atendimentos no Kairós Ateliê Terapêutico.

Nota 2: Agradeço à Rita Maria Erhart de Souza Dias por sua parceria e contribuição neste texto. Contato pelo Instagram @kairos.atelieterapeutico

Nota 3: Agradeço à Leda Nogueira Maekawa, por apresentar a inspiradora vivência trazendo A Grande Onda de Hokusai. Contato pelo Instagram @leda_nogueira50

Nota 4: Agradeço à Patrícia Ladeia Trindade, fisioterapeuta do movimento, pelo significativo incentivo relacionado aos meus atendimentos arteterapêuticos. Contato pelo Instagram @patladeiat

Nota 5: Agradeço à Tania Salete Moreira por autorizar a publicação de sua foto com seu trabalho. Contato pelo Instagram @caminhartes.arteterapia

Nota 6: Agradeço a todos que participaram da Vivência Cortesia no Kairós Ateliê Terapêutico, nos formatos presencial e online.

Nota 7: café nos sabores: amêndoas torradas, baunilha e nozes, trufas de chocolate.

 

Bibliografia:

CIORNAI, Selma e PIECZARKA, Natália Pieczarka (orgs). Arteterapia no contexto social e comunitário: ruas, abrigos, instituições e comunidades. –  Rio de Janeiro: Wak Editora, 2021.

MORAES, Eliana (org) Escritos em Arteterapia: Coletivo Não Palavra. 1.ed. Divino de São Lourenço, ES: Semente Editorial, 2020.

POUSADA, Carmen Elisabeth (curadoria). Arte brasileira na contemporaneidade. Vol. III. São Paulo: Ornitorrinco, 2018.

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

20- O Uso do Giz Pastel Seco na Art Nouveau de Mucha – 26/09/22

19- Tô Vivo! – 22/08/22

18- A Massa Caseira como Recurso Arteterapêutico – 18/07/22

17- As Bailarinas de Degas – 16/05/22

16- Degas e as Mulheres – 21/03/22

15- Ah, o Tempo... – 14/02/22

14- As Cores em Marilyn Monroe – 13/12/21

13- Um Desafio – 11/10/21

12- O Branco no Branco – 23/08/21

11- Tudo Começa em Pizza – 28/06/21

10- Um Material Inusitado – O Carimbo de Placenta – 10/05/21

9- As Vistas do Monte Fuji – 22/03/21

8- É Pitanga! – 07/12/20

7- O que é que a Baiana tem? – 26/10/20

6- Escrita prá lá de criativa – 27/09/20

5- Fazer o Máximo com o Mínimo – 01/06/20

4- Tempo de Corona Vírus, Tempo de se reinventar – 13/04/20

3- Minha Origem: Itália e Japão – 17/02/20

2- Salvador Dalí e “As Minhas Gavetas Internas” – 11/11/19

1- “’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19

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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe


 

Arteterapeuta e Farmacêutica-Bioquímica

Assim sou eu, apenas vivendo, mas querendo sempre novas experiências!!

Meu contato pelo Instagram: @claudia_abe_

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

ESTUDOS SOBRE A PROJEÇÃO, NO COTIDIANO E NA ARTETERAPIA

 

Obra: René Magritte


Por Eliana Moraes - MG

naopalavra@gmail.com

 

O fenômeno da projeção dá-se como um tema de grande importância a ser estudado pelo arteterapeuta. Algumas teorias buscam pesquisar sobre esse fenômeno mas compreendo que a Psicologia Analítica mostra-se como um bom ponto de partida para esse estudo. Acredito que a Arteterapia pode articular-se com as mais variadas teorias psicológicas, dentre elas a Psicologia Analítica.  Sendo a amplitude do fluxo projetivo uma das especificidades de um setting arteterapêutico, torna-se muito válido compreender as palavras de Jung que muito me orientam em meu trabalho: “A razão geral e psicológica das projeções é sempre um inconsciente ativado que busca expressão.” (JUNG apud SHARP, 1991, 127)

No percurso desse estudo encontrei o livro “Psicoterapia” Marie-Louise von Franz que aborda diversos temas da Psicologia Analítica, em especial o capítulo: “A projeção: seu relacionamento com a doença e com o amadurecimento psíquico”. Nesse capítulo Von Franz discorre sobre a projeção no cotidiano, o que demonstra a validade de seu estudo para o embasamento da escuta do terapeuta quanto às demandas trazidas pelo paciente sobre suas relações interpessoais.

A autora inicia o capítulo conceituando a projeção:

Na visão de Jung [...] todos os conteúdos psíquicos dos quais ainda não temos consciência aparecem de uma forma projetada como supostas propriedades de objetos externos. A projeção, a partir desse ponto de vista, é um deslocamento que ocorre de uma maneira não intencional e inconsciente, ou seja, sem ser percebido, de um conteúdo psíquico subjetivo para um objeto externo. Nesse processo, o inconsciente da pessoa que faz a projeção, via de regra, não escolhe simplesmente qualquer objeto ao acaso, e sim aquele que contém algumas, ou até muitas, das características da propriedade projetada. Jung fala de um “gancho” no objeto no qual a pessoa que faz a projeção a pendura como um casaco. (VON FRANZ, 1990/2021, 307-308)


Obra: "Ligações Perigosas" Renê Magritte

É importante considerar que a projeção é um movimento inconsciente automático e cotidiano. Mais além, a projeção promove uma “ponte” entre o indivíduo e uma outra pessoa, um objeto, uma experiência, ou seja, com o mundo exterior. Inicialmente ela é, de fato, mobilizadora de experiências de vida, sejam elas positivas ou negativas. Elas podem gerar simpatia, antipatia, interesse, rejeição, aproximação, afastamento, enfim, vivências geradas pelo cotidiano. Ela não é “boa” ou “má” em si, apenas devemos observá-la com mais atenção quando constatamos que uma manifestação projetiva ou sua retirada provocou uma resposta intensificada no sujeito:

Somente quando nossa energia psíquica por algum motivo se retira dessas projeções, por exemplo, quando nosso amor se transforma em rejeição ou nosso ódio começa a parecer absurdo até para nós mesmos – somente nesse ponto é chegada a hora, a oportunidade de reflexão se apresenta, para que nós reconheçamos a até então inconsciente projeção. (VON FRANZ, 1990/2021, 311)

Segundo a autora, em todo processo de projeção envolve um emissor e um receptor. Elas emanam dos complexos ou arquétipos do inconsciente do emissor como uma forma pontuda, como uma flecha mágica ou um míssil:

A projeção dos conteúdos psíquicos não percebidos conscientemente provoca no emissor a “perda da alma”, uma das doenças mais temidas entre os povos nativos. Isso torna o indivíduo apático, depressivo ou suscetível de ser dominado pelas outras pessoas. (VON FRANZ, 1990/2021, 313-314)

Na visão primitiva, um deus, demônio ou pessoa má lançava as “pontas mágicas”. O receptor atingido ficava doente e a extração do projétil o curava:

O indivíduo sobre quem outra pessoa faz uma projeção também é afetado – na visão primitiva, ele é afetado por uma flecha. Se o receptor tiver consciência do ego fraca (como as crianças, por exemplo), será facilmente influenciado e levado a agir de acordo com o que foi projetado sobre ele. Na visão primitiva, significa que ele está possuído. Nós nos sentimos compelidos a nos relacionarmos com a paixão de outra pessoa por nós, ou fazemos involuntariamente ao indivíduo a coisa má que ele está esperando de nós baseado na sua projeção. (VON FRANZ, 1990/2021, 314-315)


Obra: "Os amantes" René Magritte

Aqui reside uma das maiores importâncias de se estudar o fenômeno da projeção para o desenvolvimento da escuta terapêutica. Os sofrimentos e queixas trazidos pelo paciente/cliente muitas vezes envolvem tramas projetivas em suas relações pessoais, seja amorosa, familiar, profissional ou social. Como emissores ou receptores, os indivíduos relatam seus encontros e desencontros causadores de intensas experiências que, a depender da maneira que são vividas, causam algum impacto emocional importante.

Ampliando essa perspectiva, faz-se necessário ressaltar que nos dias atuais, vivemos em um campo altamente propício para que essas trocas projetivas aconteçam. Na esfera coletiva esses fenômenos também se manifestam, tendo sido estudados em outros momentos da história. Porém, ao lermos a descrição sobre as manifestações das projeções de Von Franz, temos a impressão de que descreve nossos dias e observamos que sua articulação teórica faz eco a tantos de nossos casos clínicos atuais:

A manifestação mais gritante das projeções se dá nas rígidas convicções políticas – os “ismos” – e nas teorias apaixonadamente defendidas, como ideias científicas preconcebidas. Tão logo a tolerância e o humor desaparecem, podemos supor que as projeções entraram em cena. Quando notamos que alguém está reagindo com uma afetividade exagerada em uma discussão e começa a ceder à tentação de desacreditar seu oponente, existe motivo para suspeitarmos de que a pessoa está projetando algo no oponente ou na teoria dele. Se tivermos o proveitoso hábito de prestar atenção aos nossos sonhos, veremos que frequentemente sonhamos com esses oponentes. Isso nos dá o sinal: “Alguma coisa a respeito desse oponente repousa dentro de mim”. Ainda que apenas outras pessoas estejam projetando, é difícil não nos deixarmos arrastar pela situação. Como os afetos e as emoções são extremamente contagiantes, é preciso uma tremenda coragem para não perdermos o equilíbrio nas situações de grupo, como todo moderador de grupo ou líder de discussão em grupo sabe muito bem. (VON FRANZ, 1990/2021, 312)

Se o fenômeno projetivo pode ser algo bastante prejudicial a um indivíduo, na mesma medida é importante que o terapeuta tenha o devido cuidado no trabalho de “retirada” dessas projeções. Cabe lembrar que se um sujeito está fazendo uma projeção, significa que aquele conteúdo inconsciente lhe é bastante assustador à ser integrado a consciência. Faz-se necessário a observação do terapeuta sobre o quanto aquele sujeito está fortalecido para recolher aquele conteúdo à sua consciência ou o quanto é necessário um processo de preparo para tal. Caso contrário, a retirada da projeção de forma abrupta, pode ser fatal para o paciente:

[...] qualquer retirada de uma projeção põe uma carga sobre a pessoa que reflete. Ela se torna responsável por uma parte da sua psique que até então ela não encarara como um fardo por achar que não fazia parte dela. O psicoterapeuta precisa, portanto, avaliar cuidadosamente quando pode pedir a um paciente ou parceiro que reconheça. A consciência do ego é como um pescador em um bote grande ou pequeno; ele só pode acomodar certa quantidade de peixes (os conteúdos inconscientes) no barco, caso contrário esse afunda. Às vezes, somos forçados a permitir que o analisando continue a acreditar em maus espíritos ou em pessoas que o estão perseguindo, porque o reconhecimento de que ele tem esse demônio dentro de si literalmente o mataria.

Mas mesmo as pessoas com grande capacidade de reconhecimento têm seus limites. (VON FRANZ, 1990/2021, 316)


Obra: René Magritte

Diante do que foi exposto, compremos que o objetivo terapêutico se dá na busca de autoconhecimento encaminhado para uma autorresponsabilização do indivíduo por si e suas relações. É necessário ao sujeito um trabalho de conscientização do ego, o que colabora para minimizar, suas projeções ao outro, bem como de corresponder às projeções do outro em si.

Quanto mais a pessoa se conhece, por conseguinte, menos faz projeções sobre os outros, mais pode se relacionar consigo mesma e com as outras pessoas de maneira objetiva, genuína e sem ilusões. Aí reside, em última análise, a distinção entre a simpatia ou paixão e o verdadeiro amor, ou entre o ódio e a rejeição objetiva e o desapego. Todo progresso realizado na compreensão mútua e na melhora das relações entre as pessoas depende da retirada das projeções. (VON FRANZ, 1990/2021, 317)

 

Especificidades da Arteterapia: a projeção no setting arteterapêutico



Uma das especificidades da Arteteterapia, bem como uma de suas complexidades, está no fato de que a partir da tríade arteterapeuta-paciente-material abre-se um leque de fluxos projetivos para além das projeções relatadas em demandas terapêuticas.

Neste texto poderemos elencar pelos menos quatro fluxos projetivos presente e atuantes em um setting arteterapêutico:

- A projeção na figura do terapeuta

No recorte do setting, a projeção do paciente em direção ao terapeuta recebe uma nomenclatura específica, a transferência. E a projeção do terapeuta para com o paciente é denominada contratransferência.  Aqui reside um conteúdo de grande importância que o arteterapeuta deverá beber da fonte das teorias da psicologia e obter recursos para o devido manejo dessas projeções inseridas na dinâmica terapêutica.

- Projeções em expressões artísticas

Como arteterapeutas nosso primeiro instrumento de trabalho é a Arte. Antes do processo criativo em si podemos tomar da Arte como fruição, contemplação, alimento da alma.  Nesse sentido, é interessante que o arteterapeuta vá construindo seu repertório com expressões artísticas que lhe servirão como estímulos projetivos diversos. Compreendemos que toda expressão artística, em qualquer linguagem da arte, é a manifestação de conteúdos humanos constelado em uma imagem. Por essa razão podemos concluir que as expressões artísticas servirão de estímulos projetivos, disparadores e mobilizadores de grandes conteúdos inconscientes a serem elaborados.

- Projeções nos processos criativos

Antes da imagem resultante, o próprio ato criativo se revela como a projeção do funcionamento interior do criador. Assim, o processo de criação projeta conteúdos inconscientes do sujeito nos gestos, ações e atuações.

Além disso, o sujeito também projeta na transformação da materialidade, sua transformação interior. Agindo sobre o material, ele se percebe e toma decisões de transformações de si e perante a vida.

- Projeções nas imagens criadas

Por fim, como produto de todo esse percurso, as imagens e símbolos criados pelos experienciadores sempre espelham (projetam) conteúdos psíquicos interiores, sejam eles figurativos ou abstratos. 

 

Todos esses fluxos projetivos são materiais de trabalho do arteterapeuta. Simultaneamente.

Que através da formação continuada o arteterapeuta possa reconhecer a complexidade e a beleza da técnica que tem em mãos, bem como desenvolver-se para seu manejo cada vez mais consistente.

 

Referências Bibliográficas:

DUCHASTEL, Alexandra. "O caminho do imaginário"

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 

SHARP, Daryl. Léxico Junguiano.

VON FRANZ, Marie-Louise. Psicoterapia.

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

A IMPORTÂNCIA DO GRUPO DE ESTUDOS ARTETERAPÊUTICO

 


Por Eliana Moraes

naopalavra@gmail.com

@naopalavra 

Diante da proposta do projeto Não Palavra em se consolidar como um espaço de formação continuada livre em Arteterapia, temos como orientação de produção de conteúdos e eventos o que acreditamos ser “o quadripé” que sustenta o arteterapeuta. Tomando como inspiração o o modelo da psicanálise que sugere um tripé para a sustentação de um bom analista, acreditamos que o arteterapeuta necessita de quatro bases que o sustentem:  terapia pessoal, o estudo teórico (individual e em grupo) e em específico, a experiência pessoal com seu processo criativo e a própria produção de imagens. Como modelo orientador dessa proposta, e consequentemente do Não Palavra Arteterapia, desenvolvi o esquema abaixo:

 


Esquema de autoria de Eliana Moraes 

Cada base que compõe o quadripé sustentador do arteterapeuta merece um aprofundamento teórico em si. No presente texto pretendo me aprofundar na terceira perna: a continuidade do estudo teórico ao longo da prática arteterapêutica, mas em específico na modalidade grupal.

Compreendemos que em todo curso formação profissional, é apresentado ao aluno as bases teóricas que compõem aquele saber. E no decorrer de seu desenvolvimento, o profissional tem como autorresponsabilidade buscar especializações que possam lapidar sua atuação. Em Arteterapia, entretanto, acreditamos que esse processo adquire outras ramificações uma vez que ela possui a característica de dialogar e fazer interseções com diversos outros saberes, tanto da Psicologia em suas várias teorias, mas também de outras disciplinas além desta.

Nesse sentido acreditamos ser fundamental ao arteterapeuta aquilo que chamamos de formação continuada, aquela que se estende de forma livre e autogestiva, mantida pelo profissional ativo.

Para tanto, compreendemos que a modalidade de estudos grupais faz-se como um excelente recurso de desenvolvimento e amadurecimento, teórico e prático, ao arteterapeuta. Porém, a partir da experiência dos últimos anos com a rede de arteterapeutas inserida nos territórios do Não Palavra, observamos que, para além de uma lapidação técnica, o grupo de estudos proporciona aos profissionais uma experiência de ancoramento, pertencimento, vínculo e coperação mútua.

Fazer parte de um grupo de estudos pós formação coopera para um maior comprometimento do estudo continuado através da relação com o outro. A regularidade dos encontros promove o desenvolvimento do raciocínio e do manejo clínicos, experimentando em si o compartilhamento teórico e prático do outro semelhante. Mas sobretudo, constatamos que a consolidação desse território de relações gera um desenvolvimento do sujeito-terapeuta, integrando a persona profissional com sua pessoalidade. 

Vale destacar que a consolidação do Não Palavra como um espaço de formação continuada só foi e é possível contando com algumas parcerias, em especial, do Espaço Crisântemo-SP, regido pela batuta da maestra Regina Célia Rasmussen. Por esse motivo, o presente texto é escrito na primeira pessoa do plural, pois ele só existe como “nós”. Nesse território virtual construímos um grande grupo de estudos aberto, através do qual são oferecido diversos encontros teóricos e/ou práticos que, mesmo tendo a proposta de participação a medida da disponibilidade de cada participante, conquistamos um núcleo de arteterapeutas que se relacionam, aprendem, debatem, se desenvolvem e trocam entre si, continuamente.

Para embasar nossas percepções práticas, encontramos eco nas palavras de Beatriz Cardella em seu tão belo livro “De vonta para casa”, especialmente no capítulo “Grupo de estudos e pertencimento: caminhos para a formação continuada em Gestalt-terapia”. Natualmente observamos que a autora orienta sua escrita para seu campo de atuação, qual seja, psicoterapeutas orientados pela Gestalt Terapia. Entretando, nossa proposta é beber da fonte de sabedoria da autora e aplicar suas reflexões em nossos contornos arteterapêuticos.

Grupos de estudos e seus benefícios

Um primeiro ponto que gostaríamos de destacar se refere justamente à passagem de uma vivência profissional no singular, para uma experiência plural. A profissão de terapeuta por muitas vezes se constrói como uma jornada solitária pois em seu ofício, o comprometimento ético com o sigilo de tudo aquilo que ouve, fala e vivencia dentro do setting terapêutico, é imperativo. Porém, em sua humanidade, o terapeuta ainda guarda suas necessidades fundamentais de inclusão, troca e pertencimento:

As necessidades de pertencimento e inclusão são necessidades fundamentais da pessoa humana, dando sentido ao papel dos Grupos de Estudos e Pertencimento não só como possibilidade de ampliação  e aprofundamento do conhecimento em Psicoterapia, mas de troca viva de experiências entre psicoterapeutas, cujo ofício é caracterizado por uma solidão decorrente do imperativo ético do sigilo profissional. (CARDELLA, 2020,271)

Essa caminhada solitária também acontece devido a características específicas da “relação terapêutica”. Nesses contornos, o terapeuta se relaciona com muitas pessoas, porém imbuído de sua persona de profissional – recurso bastante importante para a boa condução de sua prática. Por outro lado, faz-se bastante salutar que este terapeuta-sujeito tenha a oportunidade de adentrar em algum espaço seguro, entre seus pares, para que possa (re)ver-se sobre suas humanidades contidas por detrás da persona:

Diferente de outros profissionais, o psicoterapeuta muitas vezes inundado pela intensidade e pela complexidade de suas vivências junto aos seus pacientes, conta apenas consigo mesmo para elaborá-las e atravessá-las, impossibilitado que está de compartilhar essas mesmas vivências com amigos ou familiares.

Embora possa contar com seu próprio terapeuta e com supervisores, observo que o compartilhamento com colegas, ou seja, o pertencimento a uma comunidade, possibilita a apropriação de suas dúvidas, angústias, problemas, conflitos, descobertas, conquistas, inseguranças, encantamentos, conhecimentos e sabedorias, tornando-as experiências e contribuindo para a constituição de senso de si mesmo. (CARDELLA, 2020, 271)

Na comunidade formada por um grupo de estudos arteterapêutico é possível encontrar ecos de nossas experiências pessoais, espelhamentos, acolhimento e devolutivas à possíveis contratransferências, sincronicidades que apontam o campo formado pela união dos inconscientes dos terapeutas e seus pacientes, enfim, consolida-se um grupo de “ajuda mútua” onde terapeutas-sujeitos vivenciam o que Beatriz Cardella chama de “alternância de cuidados”, tão importância para a manutenção de sua saúde.

Retomando a reflexão de uma prática profissional em experiência plural, é possível apontar outra conotação para essa  expressão: refere-se à oportunidade de ampliação de olhares, perspetivas, pontos cegos. A caminhada solitária do arteterapêuta também contém o perigo de formar um olhar parcial e  limitado às percepções  e repertórios pessoais do sujeito-terapeuta e consequentemente construindo uma escuta clínica reducionista frente à complexidade humana. A experiência do grupo de estudos arteterapêutico proporciona a abertura para o contato e integração da diversidade humana à ser recebida do setting arteterapêutico. O chão seguro para o compartilhamento da multiplicidade de experiências proporciona ao sujeito-terapeuta o desenvolvimento de seu autossuporte:

Compartilhar com colegas estabelece uma rede de sustentação e uma comunidade de destino, apaziguando tensões, ajudando a dar significados e sentidos em suas vivências, olhando-as de múltiplas e diferentes perspectivas e abrindo possibilidades e esperanças.

O compartilhamento de experiências e o confronto com as diferenças possibilita, paradoxalmente, o desenvolvimento do autossuporte no exercício da profissão, já que nos constituímos sempre em presença do outro. (CARDELLA, 2020, 271-272)

Na experiência plural, em contramão de uma vivência solitária, observamos que algo fundamental que compõem nossa rede se dá na troca de experiências e narrativas. O compartilhamento das sensações de conquistas, sucesso, insights, saltos e superações ou então sensação de insegurança, fracasso e equívocos. Em um grupo bem vinculado é possível compartilhar todas as experiências entre luz e sombra. Compartilhamentos de minha experiência no lugar de sustentadora do espaço, também tem seu lugar nesse campo de amadurecimento:

Percebo que quando relato experiências contando episódios e impasses na relação com determinados pacientes e de acontecimentos que marcaram meu percurso profissional, minhas dificuldades, dúvidas e desafios passados ou atuais, sentem-se legitimados, confirmados, apaziguados, consolados, inspirados, acompanhados e provocados em seus próprios embates.

Encontram referências para compreender suas intervenções e passam a ser capazes de nomear algumas de suas experiências […]

As narrativas acontecidas durante os encontros, tanto da coordenadora quanto dos colegas são formas de Transmissão Oral, tão rara no nosso mundo [atual]. (CARDELLA, 2020, 276)

 

Assim, como antídoto de uma prática arteterapêutica solitária, formamos um  território de enraizamento e pertencimento:

As narrativas possibilitam também o encontro de raízes, o estabelecimento das comunidades, a apropriação da Tradição, fundamentais na experiência de pertencimento e inclusão. (CARDELLA, 2020, 277)

Nessa caminhada, Beatriz Cardella também tounou-se uma grande referência para mim mesma, como supervisora-sujeito. Sempre acreditei que o papel do supervisor é cooperar para o desenvolvimento do estilo pessoal do terapeuta em construção. Ajudá-lo a encontrar seus recursos singulares e fazer o melhor uso de cada um deles, de maneira autônoma e segura. Na sustentação de um grupo, acredito que o papel do coordenador seja sustentar o campo para que o grupo faça seus movimentos de autorregulação e ajustamento criativo, para além do meu “poder de controle”. Sinto felicidade quando vejo os arteterapeutas de nossa rede se relacionando, trocando se desenvolvendo entre si. Essa é uma experiência plural e enraizadora:

Tanto a presença do coordenador como dos colegas oferece ao participante a possibilidade de enraizamento e de abertura; a depender das atitudes do coordenador na direção de promover autossuporte e autonomia dos colegas menos experientes, iniciará o importante processo de deixar heranças, desocupando gradativamente os lugares alcançados […]

Construção e desconstrução acontecem durante os encontros entre terapeutas no processo de formação continuada; os novos controem, crescem para cima e vão se tornando experientes, e o experiente cresce para baixo, deixa heranças, desconstrói e desocupa os lugares alcançados, realizando e atualizando as tarefas do percurso humano, processos de contínuos ajustamentos criativos. (CARDELLA, 2020, 273)

Encontrei nas palavras de Beatriz uma orientação que eu já vivia de forma intuitiva. Meu desejo é que meus alunos arteterapeutas “cresçam para cima”, se desenvolvam, se desafiem e levem a Arteterapia ao mundo como uma prática potente e consistente. Enquanto isso, sigo “crescendo para baixo”, deixando minhas heranças e abrindo espaço para que eles possam voar cada vez mais alto!!!

Referência Bibliográfica:

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. De volta para casa: ética e poética na clínica gestáltica Contemporânea. Editora Amparo, SP. 2020

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra