segunda-feira, 28 de agosto de 2023

EXPERIÊNCIAS COM A DIMENSÃO NOÉTICA: DIÁLOGOS ENTRE LOGOTERAPIA E ARTETERAPIA



Por Eliana Moraes

naopalavra@gmail.com 

O Não Palavra Arteterapia estabeleceu-se como um espaço de formação continuada do arteterapeuta – aquela que se dá após o curso, permanente, de forma autônoma, enquanto o profissional estiver em atuação. Nosso objetivo geral é colaborar para o desenvolvimento da escuta arteterapêutica e um de nossos objetivos específicos é apresentar ao arteterapeuta a diversidade de teorias possíveis a serem articuladas com a Arteterapia. 

Meu estilo arteterapêutico é constituído a partir do diálogo entre algumas teorias da psicologia, sendo a última delas inserida, a Logoterapia. Em 2023 concluo o curso de MBA em Logoterapia e desenvolvimento humano e tenho por desejo produzir conteúdos que articulem conceitos básicos da Logoterapia com as práticas arteterapêuticas, pois ao longo do curso percebi diversas associações entre esses dois saberes tão pertinentes à nossa contemporaneidade. 

O caminho dessa pesquisa vem sendo compartilhado dentro das palestras mensais do Não Palavra, o que temos considerado como um grupo de estudos aberto. Essas palestras estão gravadas, disponíveis para aquisição e no texto de hoje trago um breve resumo da primeira delas. 

A Logoterapia e conceitos iniciais 

Esta é uma teoria criada e desenvolvida por Viktor Frankl. Viktor nasceu em Viena, em 1905, em uma família de origem judaica. Estudou medicina na Universidade de Viena e especializou-se em neurologia e psiquiatria. Organizou desde 1920 Centros de Aconselhamento para a juventude. Exerceu a psiquiatria de 1937 a 1942. Neste ano, foi deportado, junto com sua esposa e família para um campo de concentração, sendo liberado em 1945 pelo exército americano. Diferente de sua esposa e família, Frankl sobreviveu ao holocausto,  e após sua libertação, retornou a Viena. 

Em 1945 escreveu o best seller “Em busca de sentido”, onde descreve a vida no campo de concentração sob a perspectiva da psiquiatria e de conceitos da Logoterapia. Nesta obra expõe que, inclusive nas condições mais extremas de desumanização e sofrimento, o homem deve encontrar sentido para viver, baseada em sua dimensão espiritual (noética). Esta reflexão lhe serviu para confirmar e terminar de desenvolver a Logoterapia: a terapia baseada no sentido, no significado. 

Desde então se dedicou a escrever (aproximadamente 40 livros, traduzidos em 40 idiomas), a dar conferências ao redor do mundo, fazer psicoterapia e formar logoterapeutas. Faleceu em 1997. 

O ponto de partida da reflexão logoterapêutica se dá na diferenciação entre os animais e o homem:


... enquanto cada animal possui seu meio ambiente adequado, o homem tem acesso a um mundo do sentido. Em resumo, o homem penetra na dimensão espiritual. (FRANKL in AQUINO, 2013, 43)

 

“Dessa forma, a diferença entre os homens e os animais não seria apenas gradual, pois emoções como medo, raiva e prazer são compartilhadas entre ambos, como também alguns processos básicos, como percepções, recordações e aprendizagem. O que os diferencia seria uma dimensão qualitativamente nova, aquela pela qual a pessoa humana é capaz de valorizar, posicionar-se e decidir (LUKAS, 1992ª).” (AQUINO, 2013, 45)

 

Ao contrário dos animais, homens e mulheres se preocupam com o sentido de suas vidas, pois possuem a consciência da finitude da existência. (AQUINO, 2013, 53) 

Neste princípio, Frankl cunhou a visão antropológica (a visão de homem) e o conceito chave de sua teoria: a Ontologia Dimensional. A palavra Ontologia significa o estudo ou o conhecimento do Ser, e dimensional porque ela se dá em dimensões. Frankl compreende o ser humano em três dimensões conforme representação abaixo.


Assim, a Logoterapia compreende o ser humano numa unidade biopsíconoética:


O ser humano não poderia mais ser concebido apenas como um ser autômato, reduzido a processos psicológicos, sociológicos ou somáticos.

Para tanto, Frankl introduz mais uma dimensão, na qual se localizam os fenômenos especificamente humanos. Na concepção da Logoterapia, o indivíduo possui um corpo(soma), uma psiquê, entretanto sua essência se encontra numa dimensão além: a dimensão noética/espiritual, essa última dimensão compreendida mais como uma dimensão antropológica do que religiosa. Dessa forma, Frankl constitui uma maneira de abordar o ser humano e compreendê-lo de forma integral. (AQUINO, 2013, 43-44)

 

Apesar de suas diversas dimensões, a pessoa humana não pode ser fragmentada, posto que além de ser in-divi-duum, ou seja, não pode ser dividido, é também in-sum-mabile – além de unidade, o ser humano é uma totalidade. Assim o ser humano é uma unidade na multiplicidade, unitas multiplex...

A dimensão noética seria o núcleo integrador do ser humano. (AQUINO, 2013, 45) 

Assim nasce o conceito da Dimensão Noética ou Espiritual, tão própria da teoria Logoterapêutica, sendo compreendida como uma dimensão mais humana do que religiosa. Esta está inserida no campo da dimensão noética – para aqueles que lhe fazem sentido – mas mão representa sua totalidade.

 

... a dimensão espiritual ou noética localiza as posturas do ser humano... como, por exemplo “as dimensões da vontade, intencionalidade, interesses práticos e artísticos, pensamento crítico, religiosidade, senso ético (consciência moral) e compreensão do valor. (LUKAS, 1898, 28-29)” (AQUINO, 2013, 44-45) 

Atitudes humanas como consciência, senso crítico, liberdade e responsabilidade, ética, valores, religiosidade, experiências artísticas e criativos compõem a dimensão noética. Nesse sentido, qual seria o plano terapêutico para a Logoterapia?

 

... o grande desafio da psicoterapia atual é compreender os problemas filosóficos trazidos pelos pacientes, abrindo-se para a investigação da dimensão noética e suas possibilidades para a cura psíquica...

A Logoterapia é concebida como a psicoterapia a partir do noético... assim, o logoterapeuta deve trabalhar no sentido de desbloquear a dimensão noética. (AQUINO, 2013, 78)

 

Aqui reside uma questão bastante sensível, mas que diz respeito à ética terapêutica: a necessidade do terapeuta considerar, respeitar e trabalhar com o ser humano integral, incluindo sua dimensão noética individual, ou seja, a visão de mundo, valores, espiritualidade, religiosidade e sentido de vida DO PACIENTE. É imperativo que o terapeuta desprenda-se de sua cosmovisão pessoal, de seus conceitos e preconceitos para trabalhar com a cosmovisão de seu paciente, pois esta faz parte de seu ser integral e entendemos que não é possível uma psicoterapia profunda sem acolher o sujeito em sua integralidade. Faz parte do manejo logoterapêutico proporcionar que o paciente se sinta seguro para se expressar sobre sua dimensão noética sem juízo de valores ou não legitimação de suas questões existenciais.   

Arteterapia e espiritualidade

Em Arteterapia temos um livro que estuda as associações entre Espiritualidade e Arte: “Pensando a Arteterapia – com arte, ciência e espiritualidade” organizado por Sonia Tommasi, que tem me auxiliado na articulação entre a Logoterapia e a Arteterapia. No capítulo “Arteterapia potencializando o desenvolvimento espiritual”, Wasiack e Paraboni defendem que:


Espiritualidade é inerente ao homem, e este sempre estará trabalhando com ela.

Sendo assim, é importante definir o que entendemos por espiritualidade, e para isso nos questionamos: Mas o que vem a ser espiritual? Como, quando, para que e por que as pessoas despertam para o espiritual? (WASIACK & PARABONI in TOMMASI, 2012, 80) 

E respondem:

Rothem (1996), um arteterapeuta israelense, afirma que o espiritual é aquilo que dá sentido à vida. Sendo assim, o que a Arteterapia busca, ao utilizar-se do processo criativo durante o desenvolvimento de atividades expressivas, que o participante consiga dar sentido à sua vida. (WASIACK & PARABONI in TOMMASI, 2012, 78)

 

Espiritualidade não tem a ver com religião... É o profundo senso de pertencer e participar. Sempre participamos do espiritual, quer saibamos ou não.

Após definir o espiritual, podemos afirmar que, assim como a espiritualidade, a criatividade é também um atributo da natureza humana, pois com materiais e recursos artísticos a pessoa pode construir uma obra na qual projeta sentimentos, vivências e percepções. E é justamente essa projeção a base da criatividade artística...

A obra, então, é um verdadeiro registro da alma de seu autor. (WASIACK & PARABONI in TOMMASI, 2012, 82) 

Assim, considerando que a arte, a criatividade, a espiritualidade e o sentido de vida compõem a dimensão noética, percebemos que na experiência  arteterapêutica sempre trabalharemos a dimensão noética, de forma nomeada ou não. Mais além:

 

De acordo com Corrêa (2000), para que a espiritualidade seja manifesta no cotidiano de cada um é preciso o desenvolvimento da criatividade e também da sabedoria adquirida... por meio da experiência de vida. (WASIACK & PARABONI in TOMMASI, 2012, 82) 

Conforme mencionado anteriormente, um dos princípios da Logoterapia se dá em ouvir o paciente como um indivíduo em sua integralidade, acolhendo-o em suas dimensões constitutivas. Percebemos então que esta é uma proposta bastante associada ao convite arteterapêutico:

 

Lukas (1988, p 44) também inclui o espiritual nas vivências arteterapêuticas. Para ela, a Arteterapia acessa três dimensões do ser: o nível biológico, que compartilhamos com o mundo dos animais e vegetais; o nível mental, que compartilhamos com o mundo animal; e o nível espiritual, exclusivo para a humanidade...

Além de adicionar processos nesses três níveis, o arteterapeuta, ao realizar atividades expressivas, pode encontrar as dores e anseios da alma do participante e, também, de sua própria alma. Esse fato oportuniza que nesse encontro (terapeuta x participante) seja possível viver o amor espiritual. (WASIACK & PARABONI in TOMMASI, 2012, 83-84)

O potencial arteterapêutico de receber o paciente de forma integral já foi escrito por mim em um texto anterior desse blog, compilado no livro Pensando a Arteterapia Volume 2. Embora muito antes de conhecer o conceito de Ontologia Dimensional, no texto “Primeiras observações sobre a depressão”  defendo que:

 

Considero que uma das belezas da Arteterapia dá-se pelo fato de ser um procedimento terapêutico que por definição acessa o ser humano de forma integral...

Psíquico: por meio do criar... aquele sujeito terá a oportunidade de se revisitar e se rever, fazer movimentos de reinvestimento, enfrentamento e tomadas de decisão, acessando seu desejo. Esse processo coopera para que ele se responsabilize por si como autor e protagonista da sua obra/biografia.

Cognitivo: ... o paciente naturalmente é estimulado a manter-se atento e concentrado, analisando, planejando, buscando estratégias e soluções criativas para a materialização daquilo que tem em mente...

Físico: O processo criativo... inclui o corpo como expressão. Estimula o corpo catatônico ao movimento e à ação. Convoca um corpo enfraquecido ao esforço... [além de se comunicar através de expressões, gestos, sintomas, memórias corporais, agir criativo...]

Espiritual: ... aqui me lembro de Kandinsky que, através da arte propõe uma “mudança de rumo espiritual”: 

“Quem quer que mergulhe nas profundezas de sua arte, em busca de tesouros invisíveis, trabalha para erguer essa pirâmide espiritual que chegará ao céu. (KANDINSKY, 1990, p 57)” (MORAES 2019, 103-105) 

Considero que aqui também reside uma questão bastante sensível:  a prática de uma Arteterapia que acolha o ser humano integral em suas dimensões biopsíconoética, acolhendo o que faz sentido ao paciente, para além do repertório holístico que nos é tão recorrente. Acredito que o cuidado do arteterapeuta em trabalhar com a cosmovisão do paciente, seus valores, suas referências, seu vocabulário, diz respeito à ética arteterapêutica. 

Por fim, se compreendemos que o logoterapeuta deve trabalhar no sentido de desbloquear a dimensão noética, encontramos embasamento nas palavras da arteterapeuta Alexandra Duchastel, para a articulação entre a Logoterapia e a Arteterapia. Em seu livro “O caminho do imaginário”, a autora descreve em outras palavras, o potencial da Arteterapia em acessar e potencializar a dimensão noética:

 

... a arte-terapia como uma medicina da alma, uma via natural de cura psicoespiritual que favorece a autonomia e o gerenciamento das pessoas por elas mesmas... a alma nos revela suas feridas mais profundas e, ao mesmo tempo, nos entrega seus segredos de autocura pela linguagem do imaginário. (DUCHASTEL, 2010,10)

 

Os diversos meios de expressão artística nos colocam em contato com nossa essência divina, nossa sabedoria interior ou simplesmente nosso processo natural de cura. (DUCHASTEL, 2010, 39)

 

.. a terapia pelas artes constitue uma verdadeira medicina da alma: elas permitem exprimir simbolicamente os segredos mais profundos da alma.” (DUCHASTEL, 2010, 44) 

O caminho de articulação entre a Logoterapia e a Arteterapia continua em construção. Acredito que a amizade entre essas duas disciplinas tem um imenso potencial curativo para os indivíduos de nossa contemporaneidade.

 

Referências Bibliográficas: 

AQUINO, Thiago. “Logoterapia e Análise Existencial: uma introdução ao pensamento de Viktor Frankl”

DUCHASTEL, Alexandra. "O caminho do imaginário"

MORAES, ELIANA. “Pensando a Arteterapia Volume 2”


TOMMASI, Sonia. “Pensando a Arteterapia – com arte, ciência e espiritualidade”

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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

A MATERIALIDADE VINCULADA À CRIATIVIDADE EM FAYGA OSTROWER

 


Por Heloísa Pires de Lucca - Natal (RN)

heloisapsicanalista@gmail.com 

A materialidade é um elemento fundamental em Arteterapia. Assim como a criatividade, é um lugar de partida e de chegada no fazer arteterapêutico. A Arteterapia não existe sem a materialidade e sem a criatividade, sendo esta segunda aquela que consiste em dar forma à primeira. Fayga Ostrower nos aponta que o conhecimento da materialidade a ser trabalhada é necessária para o processo criativo. Isso quer dizer que, se não conhecermos e não vivenciarmos uma determinada materialidade, torna-se impossível o processo de criação, porque cada materialidade tem a sua linguagem. Ostrower exemplifica este pensamento por meio da música. Se não conhecemos a materialidade da música, não sabemos o que em realidade significa imaginar musicalmente. Para imaginar formas específicas, lidamos com todo um sistema de signos, que são próprios de uma matéria específica.  “[...] O único caminho aberto para nós, seria conhecer bem uma dada materialidade no próprio fazer.” Assim, não é possível conhecer uma determinada materialidade apenas lendo. Tem que “pôr a mão a massa”, como se diz. 

Fayga Ostrower usa o termo materialidade, em vez de matéria, para abranger não somente alguma substância, e sim tudo o que é formado e transformado pelo homem. Assim ela amplia o sentido de “material”. 

No campo das artes, e portanto, da arteterapia, a materialidade diz respeito não somente as artes plásticas, mas todas as linguagens artísticas, por meio das quais o indivíduo possa fazer, formar e transformar, ordenar, expressar, e dar sentido. 

Afirma Ostrower que a imaginação criativa nasce do interesse e do entusiasmo de um indivíduo pelas possibilidades de certas matérias ou certas realidades e da sua capacidade de se relacionar com elas.  Para a autora, o interesse e o entusiasmo por certa matéria constituem formas de relacionamento afetivo. Assim, para poder ser criativa, a imaginação necessita identificar-se com uma materialidade. “Criará em afinidade e empatia com ela, na linguagem específica de cada fazer.” 

            De acordo com Fayga Ostrower, “todo processo de elaboração e desenvolvimento abrange um processo dinâmico de transformação, em que a matéria, que orienta a ação criativa, é transformada pela mesma ação.” Ao configurar uma matéria, o homem se configura.   

Ostrower compreende que todos os processos de criação representam tentativas de estruturação, de experimentação e de controle. São processos produtivos onde o homem se descobre, onde ele próprio se articula à medida que passa a identificar-se com a matéria. “São transferências simbólicas do homem à materialidade das coisas e que novamente são transferidas para si.”

 

Formando a matéria, ordenando-a, configurando-a, dominando-a, também o homem vem a se ordenar interiormente e a dominar-se. Vem a se conhecer um pouco melhor e a ampliar sua consciência nesse processo dinâmico em que recria suas potencialidades essenciais. (OSTROWER, 2014, p.53)

 

Ao transformarmos as matérias, agimos, fazemos. Segundo Ostrower, os processos de criação são experiências existenciais.

Em Arteterapia, o cliente é convidado a agir sobre uma materialidade e a criar livremente. Neste agir, o cliente percebe conteúdos que estavam inconscientes, se organiza psiquicamente e se reconfigura diante de seus conflitos internos e em suas relações.

 

REFERÊNCIAS

·         OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 30.ed. Petrópolis, Vozes, 2014.

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       Sobre a autora: Heloísa Pires de Lucca




       Psicanalista e Arteterapeuta

Realiza atendimento clínico nos campos da Arteteterapia e Psicanálise. Atuou como assistente

social em programas habitacionais de interesse social e programas de incentivo à diversidade

cultural na Prefeitura de São Paulo. Atuou como professora em cursos de graduação no curso

de Serviço Social e pós-gradução em Políticas Públicas.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

REFLEXÕES SOBRE A ESCUTA ARTETERAPÊUTICA: A ARTE PREPARANDO O TERRENO DA CONSCIÊNCIA



Por Eliana Moraes – MG

Retomando o percurso de minha escrita caminhante no pensar a Arteterapia, percebo que desde meus primeiros textos, algo que tanto me chamava a atenção na prática arteterapêutica se dava nos limites da palavra: quando os pacientes/clientes chegavam ao setting imbuídos de alguma angústia, mas a palavra como forma de expressá-la, parecia interditada. Meus primeiros textos abordando essas observações clínicas e os potenciais arteterapêuticos para a ampliação da linguagem foram compilados no primeiro volume da série “Pensando a Arteterapia”.

Passados, desde então, dez anos de atuação e atualmente também acompanhando como professora e supervisora a prática de outros arteterapeutas, essas observações se atualizam e se ampliam. Este texto faz parte de um dos objetivos específicos do Não Palavra Arteterapia: colaborar para o desenvolvimento da escuta do arteterapeuta em sua formação continuada.

No “chão da vida” do setting arteterapêutico, observamos que há momentos em que o paciente/cliente descreve grande angústia mas, por estar tão inconsciente de si, não consegue associá-la à alguma causa raiz. Ou então, em casos de expressões racionais, teóricas, um discurso viciado no campo já conhecido, sendo este um mecanismo de defesa e evitação da dor de se fazer contato com suas questões psíquicas mais profundas. Casos como esses são um grande desafio para a psicoterapia tradicional pois aqui a palavra está associada à resistência. Já a Arteterapia, com seu convite à ampliação da linguagem para além da verbal, se mostra como um caminho de desbloqueio expressivo. Nas palavras de Duchastel:

Certo conteúdos inconscientes estão profundamente enterrados no fundo da alma simplesmente porque nós não estamos prontos para recebê-los. Essas imagens são muito dolorosas ou muito vastas para serem apreendidas por um eu frágil ou imaturo. A clandestinidade dessas imagens nos protege como nós protegemos nossos filhos de certas realidades, pois eles não são ainda suficientemente maduros para apreender plenamente seu sentido. Os símbolos do imaginário servem de agentes de ligação entre a consciência e o que nos anima subterraneamente. (DUCHASTEL, 2010, 51-52)


Obra: Susano Correia

Em Arteterapia compreendemos que é possível, através do processo criativo e a formação de imagens, provocarmos um rebaixamento da consciência resistente e recebermos pela “não palavra” a anunciação de conteúdos psíquicos tão sensíveis ao paciente/cliente.

O imaginário sempre precede o consciente. Todo conteúdo inconsciente se expressa antes sobre a forma metafórica, em nossos sonhos, nossas imagens, nossos desenhos ou nosso corpo. Por meio do imaginário, a psique anuncia, previne, age. (DUCHASTEL, 2010, 39)

Entretanto, um dos cenários clínicos que mais tem me tocado nos últimos tempos – recebidos com mim e supervisionandos – está em pacientes/clientes que estão vivenciando uma dor exacerbada, como por exemplo, em casos depressivos graves, ou a dor do luto pela perda de um ente querido ou ainda a dor de lembrar-se de traumas como experiências de abusos. Para essas pessoas, muitas vezes não é possível falar dessas dores através da palavra. O paciente/cliente não suporta falar sobre sua dor por uma sensação de “colocar o dedo na ferida”. Considero que para esse cenário a Arteterapia proporciona, com maestria e beleza, a possibilidade do sujeito permanecer no processo terapêutico com o recurso da “não palavra” das diversas linguagens da arte. Através do contato com esta, o paciente vai se fortalecendo e acessando seu potencial de saúde e seus recursos internos que muito colaborarão para o enfrentamento de sua profunda dor. Nas palavras poéticas de Angela Philippini, que são para mim uma bússola como arteterapeuta:

A experiência criativa  nos “transpassa” e permite que “trans-bordemos” e atravessamos limites e interdições,  resgatando “notícias de nós mesmos”, nem sempre claras e acessíveis no meio dos inúmeros ruídos e dispersões da vida cotidiana... (PHILIPPINI, 137)

Além disso, a oportunidade da ampliação da linguagem coopera para que o sujeito amplie também os conteúdos expressados, advindos do inconsciente, de forma que amplie também seu olhar sobre outras perspectivas além da dor:

Contrariamente às abordagens  psicoterapêuticas tradicionais, onde se relata principalmente eventos dolorosos ou traumatizantes decorridos no passado, a arte-terapia implica uma experiência imediata, que é vivida aqui e agora. Voltando ao instante presente, evita-se uma armadilha frequentemente vista em terapia: o aprisionamento do cliente em seu mito pessoal. A pessoa conhece e conta sua história pessoal como se tratasse de um cenário imutável, e com frequência, estéril. (DUCHASTEL, 2010, p 32)

Essa ampliação da linguagem e da percepção do sujeito coopera para a construção de um “novo vocabulário” e a abertura para uma “nova experiência”:

A utilização de diferentes meios de expressão... permite um contato direto com a sabedoria inconsciente e estimula a emergência de emoções bloqueadas. O terapeuta ajuda o cliente a observar seus modos de funcionamento e ultrapassá-losintroduzindo uma nova experiência. Essa experiência imediata no plano da relação terapêutica, oferece a possibilidade de ser surpreendido pelo poder das imagens e descobrir novas facetas de sua personalidade. Assim, aumentamos seu “vocabulário” de reações a diferentes situações da vida. (DUCHASTEL, 2010, 32)

Em síntese, em Arteterapia é possível acolher pacientes mergulhados em tão profunda dor que não é possível falar sobre ela através da palavra. É possível sustentar um processo terapêutico através da experiência com a arte em si. Através dela o inconsciente já é mobilizado ao processo de “cura” de suas dores. Basta, como arteterapeutas, termos a humildade de sustentar o setting no “silêncio elaborativo” do paciente/cliente, preparando o terreno para sua consciência: 

Estar à escuta do imaginário e honrá-lo é criar um espaço seguro e protegido para alimentar suavemente suas realidades inconscientes, às vezes, ameaçadoras, às vezes difíceis de aceitar. Desenhar, pintar, modelar, jogar, cantar ou dançar permite preparar o terreno da consciência. (DUCHASTEL, 2010, 51-52)

Concluímos que o papel de arteterapeuta é sustentar um têmenos – “espaço sagrado” para que o paciente/cliente mergulhe em no seu inconsciente através da arte. Mas especialmente, em cenários em que o caminho da palavra está impedido – o que pode gerar desconforto e vulnerabilidade para o sujeito e para o terapeuta – cabe ao arteterapeuta sustentar esse campo, terreno de potentes fenômenos do inconsciente, até que seja possível a expressão pela palavra. Nosso papel é abrir mão do controle e compreensão racional e sustentar esse campo com nossa própria energia psíquica porque:

Através dos meios artísticos, a pessoa exprime o que ela não saberia revelar de outra forma...

Para se revelar, a alma precisa desse contato contemplativo com a imagem, o gesto, o ritual. As palavras, a compreensão lógica, a disposição racional vêm em seguida, mais claras, mais precisas. (DUCHASTEL, 2010, 32-33)

 

 Referências Bibliográficas:

DUCHASTEL, Alexandra. O caminho do imaginário.

PHILIPPINI, Angela. “Linguagens e materiais expressivos”

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"


segunda-feira, 31 de julho de 2023

REFLEXÕES SOBRE OS PRIMEIROS PASSOS DA PRÁTICA ARTETERAPÊUTICA

 


Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

@naopalavra

 

O Não Palavra Arteterapia tem-se consolidado como um espaço de formação continuada ao arteterapeuta, um território sustentado para que este profissional se desenvolva nos mais variados aspectos que compõem esse ofício. 

Entretanto, desde 2021, tenho atuado pelo Instituto FACES-SP, em um momento anterior na construção do arteterapeuta. Em parceria com Mariana Farcetta, temos orientado os alunos da pós graduação em Arteterapia na fase do estágio supervisionado e em seguida na produção de um artigo científico a partir dessa prática. 

No texto de hoje compartilho com a rede Não Palavra algumas reflexões que fui construindo nesse delicioso desafio que é acompanhar arteterapeutas em formação em seus primeiros passos de atuação. Essa reflexão pode inspirar outros estudantes em seus primeiros passos, mas também arteterapeutas recém formados, que também compõe nossa rede, para embasar seu início de jornada profissional. 

O início de uma nova caminhada 

O curso de formação em Arteterapia é basicamente teórico-vivencial. Em geral, as aulas se dividem em um momento de estudo teórico, mas deste decorre uma profunda experiência arteterapêutica pessoal. Não é raro ouvirmos o quão mobilizador foi para o aluno de Arteteapia a vivência desta em sua biografia. Essa é uma experiência extremamente importante para a construção do “arteterapeuta de alma”, porém, no momento do estágio faz-se necessária uma pequena mudança no “registro vivencial”. Este é um tempo de viver na prática a aplicação do que vivenciamos e aprendemos ao longo do curso. É tempo de um deslocamento de parte da energia psíquica investida em si, para ser investida no outro e seu processo de individuação. Uma mudança no olhar, uma mudança de lugar. 

Para o início do estágio, é necessária a compreensão de que a Arteterapia é um procedimento terapêutico riquíssimo em modalidades. O estágio se dá como a primeira oportunidade de colocar em prática os conteúdos estudados no curso. Percebo aqui, alguma ansiedade nos alunos no momento de fazer escolhas e delinear a proposta do seu estágio. Entretanto, é importante manter em mente que o arteterapeuta poderá se experimentar em outras modalidades após a conclusão do curso: este é apenas o primeiro passo da jornada. As modalidades arteterapêuticas disponibilizadas no período do estágio dependem da orientação específica do curso de formação. Será um atendimento individual ou grupal? Presencial ou online? Atenderá qual público? 

Quanto à este, observados uma grande variedade de possibilidades: crianças, adolescentes, adultos, 3ª idade, mulheres, grupo LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, mães, cuidadores, pessoas em situação de rua, professores, profissionais de saúde,  Instituições de Longa Permanência, ONGs, grupos vulneráveis, grupos religiosos, etc... De fato, essa é uma decisão importante: qual público mais instiga o aluno para esta primeira oportunidade de prática? Em geral, minha sugestão é que ele escolha um público que fuja de sua zona de conforto (por exemplo algo que ele já conheça por atuação profissional anterior) e seja desafiador, para que se aproveite a oportunidade do suporte da supervisão e troca do grupo de colegas de curso na experimentação dessa nova prática. Porém, ponto essencial é que se respeite os limites do terapeuta em formação. Cabe ao supervisor orientar aos alunos para observar os potenciais de contratransferência nessas escolhas iniciais, encaminhando-os para que observem seus limites e não escolham um público que possa afetá-los em suas questões pessoais. É sempre bom lembrar que para o período do estágio – e ao longo da vida do terapeuta – há uma condição essencial para sua sustentação: a manutenção da terapia pessoal. 

Escolhido o público alvo, a orientação é que o aluno mergulhe em uma pesquisa sobre este recorte. As bibliografias já disponíveis em livros e textos, o resgate das aulas teóricas  do curso de formação, são um bom pontapé inicial. Entretanto, (já encaminhando o estudo para a produção futura de um artigo científico) Mariana e eu também estimulamos que os alunos busquem embasamentos atualizados em artigos científicos em bases de dados, com destaque para as revistas científicas em Arteterapia que já possuímos: “Cores da Vida” da Associação Brasil Central de Arteterapia e “Revista de Arteterapia da AATESP”. Diante da vastidão de conteúdos possíveis a serem estudados pelo arteterapeuta, o que muitas vezes assusta os alunos, tenho utilizado uma expressão criada por uma de minhas alunas: em Arteterapia nosso estudo é “sob demanda”, ou seja, buscamos aprofundamentos teóricos a partir do que nossa prática nos pede. E assim seguimos, um passo de cada vez. 

Outra orientação interessante é que o aluno revisite as técnicas expressivas experimentadas durante o curso e outras vivências, e selecione aquelas que se encaixam com sua proposta de atuação mas também que se afine com seu estilo pessoal. Esse é um momento tão belo quanto importante, quando o arteterapeuta em formação começa a desenvolver seu estilo de práticas, manejos e repertório próprios. É interessante abrir espaço para a construção de uma nova e singular identidade profissional. 

Dos cursos de formação que tenho conhecimento, percebo que na maioria dos estágios orienta-se que a prática seja feita na modalidade grupal, o que considero interessante, pois com a sessão semiestruturada (quando o terapeuta elege a estrutura inicial da sessão) colabora-se para que haja mais tempo de preparo das práticas arteterapêuticas; o que se difere do atendimento individual que nos pede uma sessão aberta (quando o terapeuta ouve a demanda do seu paciente e naquele momento constrói a intervenção arteterapêutica), que demanda o desenvolvimento de uma destreza de escuta e manejo no momento da sessão. 

Outra proposta que observo ser mais comum aos cursos é a orientação para que o estágio seja feito em dupla, o que ao meu olhar e escuta de tantos alunos e arteterapeutas recém formados, possui grandes potenciais, em luz e sombra. 

A dupla de arteterapeutas 

Inicialmente, o atendimento em dupla é interessante para que se amplie as possibilidades de escuta, observações e percepções além de dividir um fluxo de energia psíquica do fenômeno grupal. 

Porém, essa configuração também instiga um grande desafio: uma dupla produz uma relação, um grupo, com suas dinâmicas e fenômenos. Não é raro ouvirmos relatos de duplas de estágio que não se afinaram, não se integraram, que viveram conflitos e angústias na sustentação do estágio. E aqui não se trata de identificar “quem está certo e quem está errado”, mas sim a constatação de que existem pessoas diferentes, com estilos, bagagens, referências, funcionamentos, diferentes. Nessa perspectiva, a condição fundamental para a manutenção desse trabalho é manter um diálogo continuado e persistente (ainda que eventualmente mediado pela supervisão). Todas essas diferenças podem ser ouvidas e acolhidas como complementaridade, não oposições. É possível integrar visões diferentes e experimentar possibilidades nesse período de construção do estilo do terapeuta. 

Fechamento 

Nesse texto compartilho a primeira parte de minhas reflexões na orientação de arteterapeutas em formação em seus primeiros passos na prática. Acredito que esse seja um momento muito importante na construção de uma nova identidade profissional, uma nova persona, uma nova maneira de atuar. Todo o estudo e embasamento teórico é essencial para que essa base seja bem formada. Por um outro lado, na construção de um bom terapeuta, sempre precisamos lembrar que nosso ofício se baseia em outro alicerce. Nas palavras de Von Franz:

 

Embora esse problema diga principalmente respeito ao treinamento intelectual e ao conhecimento do futuro analista, não devemos nos esquecer do sentimento, ou seja do coração. Por mais inteligente que um analista insensível possa ser, nunca vi nenhuma pessoa desse tipo curar ninguém! E o “coração” não pode ser instilado. A pessoa que não o possui, na minha opinião, é a menos adequada para essa profissão. (VON FRANZ, 2021, p 325-326) 

Em síntese, como orientadora e supervisora de arteterapeutas  conscientes, responsáveis e éticos,  sempre esclareço a importância de um comprometimento com o estudo, durante a formação e ao longo de toda atuação profissional. Porém, sempre ecoando as palavras tão conhecidas quanto potentes de nosso mestre Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Ou seja, o saber teórico nos embasa para uma prática do sentir e do intuir, que visa o encontro de almas e a formação de um vínculo curativo.

Referência Bibliográfica:

 VON FRANZ, Marie-Louise. Psicoterapia. 2021

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"