Por Eliana Moraes
Em
um texto anterior deste blog dei início a uma série de textos que
compartilham meu diálogo com um artista surrealista que têm me atravessado em
minhas reflexões pessoais e na prática como arteterapeuta: Renné Magritte. A
pintura deste artista instigante:
... não oferece um meio de identificação, como uma fotografia de
passaporte; a sua intenção é chamar a atenção, não para a realidade exterior
como tal, mas para o insondável mistério
por trás desta realidade. Na produção de Magritte, a imagem pintada é
sempre a imagem de um pensamento e,
como tal, o pintor exige que se reflita a sua condição inerente, como imagem.
(PAQUET, 2000. p 67)
Na
ocasião do texto anterior, defendi que a obra de Magritte, característica por
suas “imagens poéticas”, são potentes estímulos projetivos, pois:
percebemos que não raramente as questões terapêuticas,
fontes de angústia relatadas... pelo paciente, são traduzidas pelo artista em
imagens... não literais, ricas em simbolismos, metáforas, paradoxos,
características tão presentes e ao mesmo tempo tão desestabilizadoras da vida.
Propor ao cliente/paciente de arteterapia um diálogo com grandes artistas, e
neste contexto específico com Magritte e suas imagens provocativas, mostra-se
uma experiência riquíssima e eficaz na prática da arteterapia.
Das
imagens do artista que tenho utilizado em minha clínica, talvez a que se faz
mais presente é a que ilustra este texto. Uma imagem que demanda um olhar
curioso e uma atitude reflexiva para se compreender a profundidade de seu
simbolismo. Magritte retrata um dilema tão profundamente humano, que nos faltam
palavras para alcançá-lo.
Agraciados
somos, quando podemos desfrutar de um encontro com poetas – artistas, seres
humanos sensíveis às questões humanas e que possuem uma intimidade singular com as palavras. Não raramente, em um momento vivido por nós como “não palavra”, eles nos estendem a mão. E
assim, refletindo sobre a imagem de Magritte, pude encontrar eco nas palavras
de Dostoievski em "Os irmãos Karamazov", que parecem ter sido escritas em um diálogo perfeito com
Magrite, um diálogo entre imagem e texto, pintura e poesia:
Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as
alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o
vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens
querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o
voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas.
Experiência marcante é quando um paciente se
depara com a chance de reconhecer e nomear as suas gaiolas. E admitir que não
apenas elas o pertencem, mas que ele é a
própria gaiola. Neste momento de tomada de consciência, há um convite ao
responsabilizar-se e a pergunta se apresenta: “qual é o meu desejo? Voar um salto para a liberdade, mas me expondo ao
desconhecido ou manter-me no lugar restrito porém seguro?” Esta é uma
resposta absolutamente individual e somente cada sujeito poderá dizer qual é o
seu caminho possível.
Um último impacto que experimentei com esta obra
se deu quando soube seu nome: “O
terapeuta”. Magritte sempre fez questão de não fazer qualquer descrição ou
identificação de suas obras nos títulos, porém neste caso ele nos provoca uma
interrogação.
Após (me) pensar, imagino que o segredo esteja na
capa vermelha que o sujeito da imagem carrega. Pois, terapeutas são aqueles que
têm a vocação e a técnica para estar ao lado dos que estão reconhecendo, nomeando
e se responsabilizando por suas gaiolas. E neste momento, precisa lançar mão de
uma “capa protetora” de si para desempenhar
seu ofício de tamanha responsabilidade. Entretanto, também faz parte do ofício
do bom terapeuta reconhecer que quando ele encerra seu trabalho, é necessário abrir
(mão de) “sua capa”, admitir sua humanidade e que ele também precisa encarar de
frente suas próprias gaiolas.
PAQUET, Marcel. Magritte. Paris: Taschen, 2000.
Parabéns, Eliana.Belíssima reflexão.
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ResponderExcluirMuito muito bom. Gratidão
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ResponderExcluirObrigada por compartilhar...
ResponderExcluirParabéns!!!
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ResponderExcluirMuito bom Eliana, amo Magritte e você me mostra como entender melhor suas obras... bjsss!
ResponderExcluirBoa e singular reflexão, apontando desafios. Obrigada por compartilhar.
ResponderExcluirMuito obrigada por compartilhar. Achei muito rico o texto. Vou aprofundar mais neste artista que parece fascinante. Bjs
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