segunda-feira, 5 de agosto de 2019

SOBRE A ARTE E OS SORRISOS DE GENUÍNA GRATIDÃO


Suzane Guedes - RJ
olharparasi@gmail.com

Uma das alegrias de morar no Rio é me deparar vez ou outra com a arte na rua. Uma arte que nem sempre foi “de rua”, mas que com os desdobramentos políticos e sociais está cada vez mais presente nos espaços públicos. Artistas que querem dar a voz, literalmente, ao seu talento e não encontram espaço para expressá-lo. E essa falta de espaço vai sendo observada inclusive nos pequenos espaços que eles ocupam e fazem destes, grandes palcos e marcam seus lugares.

Nos trens dos metrôs isso fica visível e claro. Fazer do pouco o muito, do pequeno o grandioso. E a arte não é mesmo trabalhar com a criatividade, resiliência e adaptação? Quem teve a oportunidade de fazer um curso de teatro sabe da importância da improvisação. Na arte e na vida.

E num desses dias, entre minhas idas e vindas em vagões, me deparei com uma arte que não costumo enaltecer ou mesmo olhar com mais demora, mas parei para observar. Uma arte hip hop de alguns jovens que faziam barulho, mas em harmonia, e seus corpos dançavam como se tivessem elástico e muito ritmo. Nossa que incrível! A energia que eles emanavam contagiava os que estavam presentes e dispostos a presenciar. Tirou-me de um estado de desligamento e me convidou a entrar no clima e na vida real para além de meus próprios pensamentos e reflexões. Trouxe-me um sentimento de genuína gratidão por estar ali, vivenciando a vida na arte.

Pausa no texto que se iniciou em janeiro de 2019 e não foi concluído. 
Interessante, não?

Chegamos em junho do mesmo ano de 2019 com uma notícia de tirar o fôlego e nos depara no real da nossa política atual. “O Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) considerou inconstitucional a Lei Estadual 8120/2018, que regulamentava performances artísticas em estações de barcas, trem e metrô.” A decisão foi divulgada após uma ação movida pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), hoje senador, como informado por vários meios de comunicação.

"A cada um cabe escolher, de acordo com os seus valores e convicções, que tipo de arte e em que momento pretende assisti-la, não sendo razoável ou proporcional qualquer imposição, haja vista a possibilidade de simplesmente pretender exercer seu direito ao sossego, o que não é possível, diante da exposição a gritarias e ruídos estridentes de aparelhos musicais", escreveu o desembargador relator Heleno Ribeiro Pereira Nunes, do Órgão Especial do TJ-RJ.



Direito ao sossego... Essas palavras fizeram eco em meus ouvidos perante a disparidade que encontramos nossos meios públicos de transporte: que sossego? Desde quando andar em um transporte público na cidade do Rio de Janeiro é exemplo de sossego? Não querendo entrar em questões políticas, mas já entrando, pois arte é também um ato político, um ato de conexão e transferência.

 Inclusive em arteterapia, como bem coloca Eliana Moraes no texto “O manejo do fenômeno da projeção em Arteterapia”, do livro Pensando a Arteterapia, o material utilizado na produção arteterapêutica faz também um papel de contratransferência na relação terapeuta-cliente, e acredito sim, que a arte de rua também tem esse papel a nos tirar de nossas próprias projeções pessoais e sociais e conhecer o novo, novos sons, novos movimentos e que sejam, novos ruídos, para além dos nossos barulhos internos e das violências externas e medos cotidianos.

Fico pensando no que senti no metrô naquele dia do hip hop que me convidou a sair de mim e ir a outros mundos e o quanto me fez bem. Fico me lembrando das pessoas que também observo sendo espectadoras da arte nos locais públicos e os quantos sorrisos de genuína gratidão a arte desperta. Fico pensando em quantas vezes eu pude sentir alegria com a arte e em quantos desdobramentos já vi meus clientes sentirem boas emoções também através da arte, muitas vezes tendo sido convidados a experimentar pela primeira vez materialidades que eles não tinham vivência ou conforto algum. Fico pensando o quão potente a música é e nos desperta de estados de ânimos esvaziados nos reportando a estados de alma cheios de vivacidade. Fico pensando se quando os autores e executores das leis viajam para fora do país, se eles dão suas costas às artes ou admiram como superficiais, mas genuínos espectadores.

Meu convite sempre será para a simplicidade, genuinidade e sensibilidade. E existe caminho melhor que pela arte?

Com amor, Suzane Guedes.

Referência Bibliogrática:

MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia. Divino de São Lourenço, ES: Semente Editorial, 2018.

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Sobre a autora: Suzane Guedes


Suzane Guedes é Psicóloga (CES-JF), Especialista em Psicologia e Desenvolvimento Humano (UFJF) e Arteterapeuta (POMAR).
Colunista no blog O psicólogo Online, no qual escreve sobre Autoestima.
Atua nas cidades do Rio de Janeiro e Três Rios-RJ com atendimento clínico presencial a crianças, jovens, adultos e idosos; ministra grupos e oficinas terapêuticas. Também trabalha como orientação psicológica online.
Suzane acredita na psicoterapia e arteterapia como grande ferramenta de auxílio à transformação e desenvolvimento pessoal e social.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

GRANDES ARTISTAS NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: BEATRIZ MILHAZES



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram @naopalavra

No último ano estive dedicada ao estudo sobre uma artista brasileira bastante instigante: Beatriz Milhazes. O despertar para esta artista nasceu no grupo de estudos “Teorias da Arte e Arteterapia” ao qual temos como leitura mestra o livro “Do espiritual na arte” de Wassily Kandinsky. Nesta obra, dentre tantos pontos tão profundos, Kandinsky nos fala da expressão artística com alma, ao qual o artista entrava em contato com o “belo interior”. 

Ao nos debruçarmos sobre o conceito de “belo” na arte, que está muito além da conotação banal que dele utilizamos no sendo comum (para saber mais sobre este tema, veja o texto “Para 2019, a fúria da beleza”), nos deparamos com Beatriz Milhazes, considerada por alguns críticos como “o oásis do belo na arte contemporânea”. 

No aprofundamento na vida e obra de Beatriz, nasceu em mim a sensação de que esta artista, de fato, é um oásis na arte contemporânea e na contemporaneidade como um todo. A pesquisa sobre possíveis inspirações (diretas ou indiretas) e aplicabilidades de seu trabalho para a Arteterapia foi um deleite. Este estudo foi compartilhado em alguns encontros do grupo de estudos e palestras e hoje trago uma síntese do que (até aqui) pude ouvir deste encantador diálogo entre Beatriz Milhazes e a Arteterapia. 

Beatriz Milhazes


Beatriz, artista-mulher-brasileira-viva, nasceu no Rio de Janeiro, 1960.  É pintora, gravadora e ilustradora. Realizou sua formação em artes plásticas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no período de 1980 a 1983. Participou das exposições que caracterizaram a Geração 80 - grupo de artistas que buscaram retomar a pintura em contraposição à vertente conceitual dos anos de 1970.

A partir dos anos 1990, destacou-se em mostras internacionais nos Estados Unidos e Europa e integra acervos de importantes museus pelo mundo. É a artista brasileira mais bem cotada no mercado exterior. O quadro “Mágico” foi arrematado em 2009 por mais de 1 milhão de dólares em um leilão na Sotheby’s em NY. É o maior preço pago por um quadro de artista brasileiro vivo até hoje.  

Beatriz mistura abstração, geometria, modernismo, pop art, concreto e neoconcretismo brasileiros. Mas a cor é um elemento estrutural na obra da artista. São cores intensas e padronagens que atraem o olhar, intensificam sensações. A manufatura é muito importante nos trabalhos da artista, que tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais. Também faz colagens sobrepondo camadas de cor com materiais como embalagens de bala e chocolate, e papéis de diversas cores e texturas.  

Inspirações para a Arteterapia

“[Na tela em branco] posso construir meu mundo... Desenvolver minhas ideias, meus conceitos...” Beatriz Milhazes 

1)    A construção de um estilo próprio

No início de seu percurso como artista, seu trabalho era diferente de tudo que se fazia na época, mas fiel a si, insistiu em seu “caminho solo”. 
Fazia parte de um grupo de artistas que buscavam o resgate da pintura em contraposição a vertente conceitual em vigor. Mas ainda assim, diferente de seus pares,  buscava uma pintura não gestual, geométrica. Certa vez, quis incluir em sua pintura um pedaço de chitão ou renda, o que causou grande espanto em seus professores, mas seguiu na construção de seu caminho autoral. 

Em Arteterapia, nos inspiramos em Beatriz, quando um sujeito está em busca de si e seu estilo. Em busca de sua singularidade e seu aprimoramento. Mas este processo demanda um trabalho de construção e um grande investimento de energia psíquica.  

2)    Pesquisa de técnicas e materiais

Este percurso de construção é calcado na busca dos recursos necessários e possíveis. E por isso o trabalho da artista tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais, fazendo com que a manufatura seja muito importante no processo. 

A artista conta que sempre teve um olhar voltado para a colagem e que desejava incluí-la em seu trabalho. Em meio às suas pesquisas descobriu a técnica da tinta acrílica sobre o plástico para criação de camadas, alcançando a colagem, mas com o intuito de permanecer no bi apesar da sensação de tridimensional.

Em Arteterapia nos inspiramos em Beatriz em sua pesquisa e persistência na busca de recursos e soluções no processo de construir(-se). Este percurso é construído com tentativas, erros e acertos, rumo ao encontro de seus desejos. 

3)    Construção em camadas



Para mim, uma das grandes riquezas do trabalho de Beatriz está no processo de construção em camadas. Em seus trabalhos, a artista também faz colagens sobrepondo camadas de cor, tanto com materiais como embalagens de bala e chocolate, e papéis de diversas cores e texturas, mas também colagens com suas próprias imagens. Sendo assim, seu processo criativo se dá em camadas, como um passo a passo, em um mesmo trabalho.

Descobri em Beatriz a inspiração para a permanência em uma mesma imagem ao invés de a cada sessão arteterapêutica iniciar um trabalho novo. Afinal, o processo de construir-se se dá com a permanência e o aprofundamento do olhar para um cenário de vida. O convite ao paciente é para que antes de partir para algo novo,  que ele não se contente com uma (falsa) sensação de conclusão mas possa experimentar a continuação e o aprofundamento da imagem: “O que mais?”, “Qual é o próximo passo?”, “Como continuar?”, “Como aprofundar?”.

Na prática este processo pode ser feito alterando os materiais a cada reencontro com a imagem: de uma pintura podemos propor uma segunda camada de materiais de desenho e uma terceira camada com materiais de colagem, por exemplo. Eis um verdadeiro caminho de construção. 

Pintura

Desenho

Colagem


4)    O tempo: lento

Naturalmente este processo criativo de permanência do olhar demanda um demorar-se sobre a imagem e a experiência. 

Beatriz é conhecida por ser uma artista bastante meticulosa, que dá muita atenção aos detalhes. Tem o hábito de ficar de seis a sete horas por dia no ateliê, num processo que ela afirma ser muito lento. A produção se mantém a mesma até hoje: no máximo 10 telas por ano. 

Em nossa contemporaneidade tão acelerada naturalmente ficamos prejudicados quando é necessário um aprofundamento. Beatriz nos convida ao demorar-se no processo criativo, ao permanecermos na imagem e entrarmos em contato com sua essência. A cada camada somos convidados a reencontrá-la, explorá-la, reinventá-la, aprofundá-la.   

5)    Preenchimento

“Por enquanto o que mais me desafia é a possibilidade de preencher uma tela em branco.” Beatriz Milhazes 

As obras de Beatriz têm como marca os múltiplos elementos que se harmonizam de forma bem equilibrada. Integrar muitos elementos sem que se dê um aspecto entulhado demanda a capacidade de organização. Naturalmente esta capacidade não é algo que alcançou com facilidade, mas demandou bastante investimento para o desenvolvimento do método. 

Em Arteterapia, nos inspiramos em Beatriz quando buscamos o preenchimento do vazio, mas no encontro do ponto de equilíbrio entre o vazio e o excesso. A prática nos mostra que quanto mais exploramos o método do trabalho em camadas, mais compreendemos a forma de composição dos elementos de maneira harmônica. 


6)    Beatriz Milhazes, palavras chave:

Tenho por hábito buscar as palavras chave de cada técnica ou material, para que oriente minha escuta e manejos arteterapêuticos no momento do atendimento. No mergulho na obra e processo da artista pude destacar algumas palavras chave. 

Cor.
Abstrato, geometria.
Preenchimento, estruturação, organização, equilíbrio, integração.
Lentidão, demorar-se, aprofundar-se.
Mergulho, introspecção, introversão, intuição.
Camadas, etapas, sobreposição, crescimento, composição, construção.
Experimentação, pesquisa, persistência, disciplina, busca de recursos, encontrar soluções. 
Continuação, explorar mais, evolução. 

7)    Técnica mista, intermediária, de interseção e integração:

O processo criativo em camadas, principalmente ao autorizar-nos a abertura para o tridimensional, se dá na integração de diferentes linguagens da arte: pintura, desenho, colagem, assemblagem, escultura e outros. Sendo assim, uma técnica mista. 

Os trabalhos arteterapêuticos inspirados na obra de Beatriz, têm como  propriedade a integração por ser uma técnica de expansão e contenção, uma técnica de expressão de sentimentos através da cor ao mesmo tempo que estruturante e organizadora. Sendo assim, acessa simultaneamente as funções sentimento e pensamento. 

8)    Estimulação cognitiva:

A prática com idosos mostrou que este processo criativo é bastante estimulante cognitivamente em várias funções. Neste texto destaco o potencial do estímulo da atenção, sendo ela um processo cognitivo pelo qual o intelecto focaliza e seleciona estímulos, estabelecendo relação entre eles. Sua função é focar a consciência, distinguir prioridades e estabelecer critérios de raciocínio. 

Dentre as múltiplas subdivisões da atenção, todo o processo criativo descrito acima é rico no estímulo da atenção concentrada (quando os outros estímulos menos importantes, passam a fazer parte do “fundo” e a capacidade de retenção de informações relevantes) e da atenção sustentada (capacidade de focalizar um estímulo e se manter em uma mesma atividade contínua por tempo prolongado sem distrações).

O diálogo entre Beatriz Milhazes e possíveis inspirações diretas ou indiretas para as práticas da Arteterapia deu-se como um grande deleite dentro dos meus estudos. Beatriz me ensinou sobre o trabalho em camadas e com ele o demorar-se, o aprofundar-se e o construir-se. 

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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga. 


Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A CONTRIBUIÇÃO DA ARTETERAPIA EM PACIENTES COM TUMOR CEREBRAL


Por Juliana Ohy - Jundiaí, SP
julianaohy@gmail.com
Instagram: @psi_julianaohy


Estima-se que, para cada ano (2018/2019), sejam diagnosticados 11.320 novos casos de tumores cerebrais (TC) do sistema nervoso central, sendo 5.810 em homens e 5.510 em mulheres, no Brasil. A taxa de sobrevida dos tumores do sistema nervoso central varia e depende do seu tipo, localização e estadiamento. Em geral, a probabilidade de uma pessoa desenvolver um tumor cerebral maligno durante sua vida é inferior a 1% (INCA, 2018). 

Os principais sintomas de pacientes com TC são: crises convulsivas, cefaleia, náuseas, vômitos, visão turva, hemiparesia, sonolência, angústia, boca seca, problemas de equilíbrio e alteração da marcha, alteração de comportamento e comprometimento cognitivo. Ao longo da doença, os sintomas podem aumentar e diminuir, desaparecer completamente ou emergir latentemente. Sabe-se que o avanço do tumor diretamente em áreas cerebrais eloquentes pode contribuir ainda mais para déficits cognitivos. Consideram-se áreas eloquentes aquelas relacionadas à linguagem, funções motoras e sensoriais.  (Klein; Duffau, 2012; Cahill et al, 2012).

O desempenho cognitivo de pacientes oncológicos pode ser afetado por questões que vão além do tratamento quimioterápico (Chemobrain) ou radioterápicos e que devem ser considerados em qualquer avaliação cognitiva, tais como: depressão, ansiedade, fadiga e distúrbios do sono (Ascher, 2011). O funcionamento cognitivo pode servir como um indicador precoce da progressão da doença e ter significado prognóstico (Klein; Duffau, 2012).

Diante dessa realidade, faz-se necessário novas práticas de atuação com o paciente, tanto no âmbito emocional quanto no cognitivo. 

A Arteterapia vem crescendo ao longo dos anos, mas ainda precisamos de mais evidências científicas em diversos contextos para que o alcance de sua prática possa beneficiar ainda mais pessoas. Neste caso, com pacientes oncológicos, com TC em especial, a Arteterapia pode ser um método que abrange as necessidades emocionais e cognitivas.  

Pode-se utilizar técnicas em que o paciente entre em contato com seus medos, suas angústias diante da ameaça que um tumor causa em sua vida. 

Atualmente, existem nas redes sociais grupos de discussão e troca de experiências de pacientes com tumor cerebral, principalmente de pessoas com a faixa etária de 30 anos. Isso indica a necessidade de falar sobre, de compreender o que está acontecendo, o significado da vida e a aceitação da fragilidade humana. Através de técnicas expressivas, que incitam as emoções mais profundas, como a pintura, por exemplo, podemos atingir pontos de angústia que nem sempre a fala alcança. 

Com relação aos déficits cognitivos que, por ventura, possam aparecer, podemos aplicar a reabilitação através da arte. O nosso cérebro adora a relação da interação cognitiva e motora. A técnica expressiva através da arte, facilita a tríade cognitiva, motora e emocional. Além disso, nosso cérebro também precisa criar, ser estimulado, desenvolver, sonhar e fantasiar. É através das experiências e vivências que aprendemos que praticamos a neuroplasticidade. Neuroplasticidade pode ser definida como a capacidade que o sistema nervoso tem de alterar sua estrutura e sua função através das exigências ambientais e experiências que podem se dar através do processo de aprendizagem ou reabilitação. É moldar o cérebro através das experiências (Amaral e Ohy, 2018, p. 32).

O diagnóstico de um tumor cerebral para pacientes, em qualquer faixa etária, causa dor, medo, angústias, desesperança e cabe a nós, profissionais, saber utilizar as ferramentas adequadas para minimizar o sofrimento, cuidar e tratar desses pacientes.

A Arteterapia, ao meu ver, ainda é uma das abordagens mais completas quando precisamos cuidar do ser humano como um todo. Com música, arte, cores e sensações, atingimos mais áreas cerebrais fazendo uma reabilitação mais intensa e genuína.

Referências Bibliográficas

Amaral, A.; Ohy, J. Aprendizagem sob olhar da Psicomotricidade. Revista Escola Particular. Ano 22, No 241, 2018: 32.
Asher A. Cognitive dysfunction among cancer survivors. Am J Phys Med Rehabil. 2011;;90(5):S16–26.
Cahill J, Lobiondo-Wood G, Bergstrom N, Armstrong T. Brain Tumor Symptoms as Antecedents to Uncertainty: An Integrative Review. J Nurs Scholarsh. 2012.
Instituto Nacional do Câncer. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de e Câncer José Alencar Gomes da Silva, Coordenação de Prevenção e Vigilância-Rio de Janeiro.. INCA. 2018;1– 130.
Klein M, Duffau H, De Witt Hamer PC. Cognition and resective surgery for diffuse infiltrative glioma: An overview. Journal of Neuro-Oncology. 2012.

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Sobre a autora: Juliana Ohy


Formação: Psicóloga, Arteterapeuta, Psicopedagoga, Especializada em Psicogeriatria e Neuropsicologia, Mestre em Saúde Mental e Doutoranda em Ciências da Saúde

Área de atuação/projetos/trabalhos:
Sócia-diretora da Clínica Synapse: Geriatria e Estimulação Cognitiva (Jundiaí – SP), Professora dos cursos Arte e Cognição: Estimulando o cérebro através da arte e Jogos Cognitivos, membro da equipe e professora do curso Neurociências da Educação do CBI of Miami, palestrante na área de Neurociências, Gerontologia e Arteterapia, autora do Livro: Jogos Cognitivos: Um olhar multidisciplinar, pela editora WAK e pesquisadora na área de Neurocirurgia pelo Hospital Sírio-Libanês - SP.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

ARTETERAPIA COM IDOSOS EM ATENDIMENTO DOMICILIAR




Sonia Santos - RJ 
soniamsantos442@gmail.com

É com imenso prazer que recebo convite do blog “Não Palavra” para compartilhar um pouco da minha experiência de Arteterapia com idosos, em atendimento domiciliar.
O primeiro passo para um bom atendimento é a entrevista com o familiar, acompanhante e  também com o idoso, onde conheceremos um pouco da sua história, como se sente naquele momento e observamos o ambiente onde vive.
 Muitas vezes aos idosos já faltam palavras para se expressarem, mas podem fazê-lo através de formas, cores, materiais diversos e gestos. E que tal acrescentar música aos encontros? Ah! Quantos resgates através da música. Uma sugestão é selecionar um repertório de músicas antigas de artistas como: Lupicínio Rodrigues, Nélson Gonçalves, Ângela Maria, Cartola, etc, não esquecendo das marchinhas de carnaval, valsas e dos chorinhos. Há idosos que gostam muito de Roberto Carlos, músicas sertanejas, Martinho da Vila e até de cantores atuais, mas a preferência (com relação aos idosos que atendo) é sempre por músicas antigas.
A música é grande facilitadora no processo criativo.
A poesia é também bem aceita. Quem não se encanta com “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu? Mário Quintana, Cora Coralina, Castro Alves, Rubem Alves ...
De uma poesia podemos partir para um trabalho plástico e até uma “escrita criativa” e caso esse idoso tenha dificuldade em escrever usamos a “escuta criativa”. Há também a possibilidade de gravar a sua fala (mas muitos não se sentem à vontade com essa proposta). Precisamos estar atentos ao que dá ou não prazer ao idoso.
Apesar de utilizarmos diversas técnicas como pintura, desenho, construção, modelagem, canto, dança sênior, dobradura, a colagem é normalmente muito bem aceita por essa faixa etária, por ser de pouca complexidade. Muito importante por ser a organizadora do pensamento. 
 Costumo usar a colagem também como base para uma atividade que envolva desenho e/ou pintura. Como exemplo: a colagem de um belo vidro de perfume (escolhido pelo paciente) pode se transformar num belo vaso de flores, com a ajuda de lápis de cor, lápis cera, pastel oleoso ou até guache. 

Importante termos sempre uma pasta com diversas gravuras de figuras masculinas, femininas, família, crianças, animais, lugares, religiosidade, dentre outras.
Ao trabalhar com idosos podemos trazer exercícios de memória, mas devemos ter o cuidado de não infantilizá-los, como também não sugerir atividades que eles não consigam finalizar devido ao grau de dificuldade e assim, frustrá-los.
O idoso deve ser sempre estimulado e temos observado que às vezes ao chegarmos para o atendimento, o encontramos triste, apático, desanimado e no final do encontro nos dizem: 
-  Já vai? Quando voltas?
Pode acontecer também o contrário, o encontramos sem desejar participar de nenhuma atividade (pode ter dormido mal, ter mudado ou acrescentado algum medicamento, etc), mas nossa presença pode ser revitalizante, pois o afeto é, normalmente, o que aquele idoso mais precisa. Então sentar ao seu lado, acolhê-lo com carinho, respeitar o seu momento, colocar uma música, pois a música pode levar-nos a um lugar mágico, belo e transformador, é muito importante.
Nos atendimentos uso letras de música, desafios com imagens, jogos, atividades diversas para que sejam estimulados cognitivamente. Alguns jogos podem ser adaptados e até criados.
Podemos e devemos usar nossa criatividade e criar jogos como os das fotos a seguir: 
  



 Dominós com figuras geométricas em EVA, frutas, flores, botões coloridos e jogos da memória através do tato (principalmente para idosos com deficiência visual) utilizando materiais diversos como rolhas, lacres de refrigerantes, algodão, lixa, bombril, prendedor de roupa, e demais jogos que a imaginação construir. 
Existe muito material de baixo custo, como os criados pelo professor Anderson Amaral, e que são grandes aliados para os nossos atendimentos. 
             Atender idosos através da arte e com atividades que estimulem a memória é muito importante.
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Sobre a autora: Sonia Santos