segunda-feira, 27 de março de 2023

MITOS E AUTOCONHECIMENTO: ARTETERAPIA E TCC

 Por Juliana Mello – RJ

entrelinhas.artepsi@gmail.com 

“Há de se falar, mas também entrar em contato com algo que está além do organismo desorganizado, que é o Ser profundo dessa pessoa”. (LELOUP, 2021, pg. 28)

Muitas pessoas procuram atendimento com queixas específicas, mas no decorrer do percurso percebem que precisam melhorar seu autoconhecimento, desenvolvendo a capacidade de olhar verdadeiramente para si e aprimorar seus questionamentos sobre seus sentimentos, pensamentos e comportamentos diante das diversas situações da vida.

Desenvolver o autoconhecimento é importante, pois nos faz repensar sobre nossos padrões de funcionamento, nossas crenças e nos traz a opção de escolher fazer diferente, a partir do momento que tomamos consciência de quem somos, do que queremos, gostamos. Nos traz de volta ao nosso processo de individuação, nos possibilitando ressignificar o que nos incomoda, limita e paralisa.

Como repertório para nossa autoanálise, neste texto quero referenciar dois mitos Gregos, que manifestam simbolicamente nossos padrões disfuncionais e, muitas vezes, rígidos.

“E que o tempo seja o grande devorador até das coisas essenciais, pois a tudo devora, mas a memória dos mitos nos preservará”. (VASQUES, 2015, pg 6)

Mito de Narciso

Da mitologia grega, Narciso era um caçador, que fascinado pela própria beleza, desprezava todas as pretendentes. Ele preferia viver só, pois não encontrava ninguém à altura que pudesse corresponder ao seu amor. Uma ninfa, chamada Eco, ao ter seu amor desprezado, procura a deusa da Vingança Nêmesis, que lança sobre ele a maldição de que que se apaixonará, mas não será correspondido.

Ao ser atraído, pela ninfa Eco para uma fonte, viu seu reflexo na água cristalina e ficou completamente encantando pelo que viu. Não percebeu que a imagem era seu próprio reflexo e não conseguindo possui-la, passou dias sem comer e nem beber admirando a imagem na fonte, e morreu.  

Mito de ECO

Também da mitologia grega, Eco era uma ninfa da montanha, que adorava a própria voz. E como sua voz era bela, conseguia manter uma pessoa entretida durante muito tempo.

Hera, ao desconfiar das traições de Zeus, vai em sua procura e Eco ficou com o papel de entreter a deusa, para que ele pudesse fugir. Quando Era descobre que foi enganada pela Eco, amaldiçoa a ninfa, que passa a repetir somente a última palavra de qualquer conversa, não conseguindo mais iniciar uma conversa.

 

Mas o que esses dois mitos têm a ver com autoconhecimento?

“Os mitos narram experiências que têm sido vividas repetidamente por toda história da humanidade, retratam a grande experiência interna que é o processo de individuação” (DINIZ, 2014, pg. 18)

Muitas vezes tentamos encontrar respostas para nossos questionamentos pessoais externamente, nas fontes de águas que parecem cristalinas: ficamos focados em situações, pessoas, circunstâncias, memórias e não agimos para mudar o que está nos incomodando. Não percebemos que as respostas estão no nosso reflexo, isto é, dentro de nós.

Em muitos casos também, não procuramos ajuda de profissionais que podem ajudar a sair desse estado de hipnose, que podemos identificar na TCC como a distorção cognitiva de Atenção Seletiva, onde permanecemos no que está disfuncional. E acabamos por morrer simbolicamente nesta situação, isto é, gastamos nossa energia psíquica e emocional em algo que aparentemente está fora, mas que é interno, através da crença “eu consigo sozinho”, por exemplo.

E, olhando para o reflexo no lago, repetimos nossos padrões de comportamento, como um eco, que começam a surgir desde a infância e vão ecoando ao longo de nossas vidas, sendo repetidos em diversas situações e momentos diferentes. Passamos a ter os mesmos resultados, mas ficamos tão fixos no externo ou no problema, que não reparamos que repetirmos as mesmas atitudes e mantemos os pensamentos, não ressignificando as nossas experiências internas e externas.

E como podemos trabalhar a ampliação desse olhar?

Em TCC podemos identificar os pontos fortes, os pontos a melhorar, desenvolver habilidades interpessoais, identificar crenças e padrões de funcionamento, dentre outras coisas, para ampliar o repertório diante do dia a dia e da vida.

E quando estamos tão fixados em nossos lagos e nossos ecos, que não conseguimos nos perceber? Podemos trabalhar a Arteterapia.

“Os símbolos são parte do processo de autoconhecimento e transformação, vão aonde as palavras não pisam, alcançam dimensões que o conhecimento racional não pode atingir. Conectam a essência de cada ser [...], apontando o rumo que a energia psíquica segue”. (DINIZ, 2014, pg. 13)

Com atividades lúdicas, é possível trabalhar a percepção que a pessoa tem de si mesma, no processo de dar-se conta do seu funcionamento, ampliando o repertório pessoal e o fortalecimento de si, para posteriormente flexibilizar e ressignificar suas escolhas, pensamentos, comportamento, resultando em uma maior inteligência emocional e qualidade de vida.



Como exemplo de atividades que podemos trabalhar essa autopercepção são o acróstico e a mancha do nome, onde, de forma intuitiva e projetiva, é feito um autorretrato simbólico da pessoa.

Para não expor os pacientes, apresentarei o trabalho inicial com o meu nome, em vivências arteterapêuticas pessoais, e os conteúdos simbólicos foram feitos em atendimento por pacientes.

O primeiro acróstico foi feito através da escrita, de forma intuitiva, o segundo como colagem, através de palavras encontradas em revistas. As palavras das revistas foram recortadas conforme iam chamando a atenção do olhar, acreditando assim, na sincronicidade da vida.            

 A segunda atividade, a Mancha do Nome, foi realizada em um grupo de meninas, que possuem algum comprometimento cognitivo, direcionado por mim e pela psicóloga e arteterapeuta Sheila Leite. Aqui, não entrarei em detalhes sobre as questões das pacientes, mas apresentarei o resultado simbólico da atividade.





Dobramos um papel ao meio, escrevemos o nome e recortamos seguindo o contorno da escrita, sem recortar a parte inferior. Em seguida abrimos, e cada uma percebe a imagem que apareceu, de forma inconsciente e significativa.

Nos trabalhos apresentados foram, respectivamente, uma dualidade de emoções, uma porta e uma cabeça cheia de pensamentos. Cada uma pode expressar de uma outra forma, conteúdos que as palavras não davam conta.

Nas duas técnicas apresentadas acima, é possível perceber que o olhar fixo para o lago e a repetição de comportamentos. No acróstico, por exemplo, as pessoas extrovertidas (no sentido junguiano) costumam olhar no entorno procurando palavras para completar sua atividade. Não é raro escutar: “Não consigo encontrar nada”, e assim, peço para respirar e buscar dentro de si. São também pessoas que buscam se encaixar no perfil do outro, ecoando essas buscas em várias áreas de sua vida.

Na mancha do nome, peço para que digam o que a imagem representa para si, o que significa, o que encontra. Também não é raro o significado ser o que a pessoa pensa sobre si mas não se dá conta, ou algum comportamento que se repete. Por exemplo, a imagem da porta foi representada por uma pessoa que fica dentro do seu quarto, não olha para si, e lamenta que outras pessoas não a deixam fazer nada, revelando um olhar para fora, uma espera do outro, que precisa começar com ela mesma. Através desse espelhamento, a paciente pôde se ressignificar ao dar-se conta de sua própria imagem.

 

Bibliografia:

DINIZ, Ligia. Mitos e arquétipos na arteterapia: rituais para alcançar o inconsciente. Rio de Janeiro: Wak editora, 2ª edição, 2014.

LELOUP, Jean-Yves. Uma arte de cuidar: estilo alexandrino. Petrópolis: Editora Vozes, 4ª edição, 2021.

Mito de Narciso. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/~labfil/mito_filosofia_arquivos/narciso.pdf Acesso em: 14/03/2023.

VASQUES, Marciano. O voo de Pégaso e outros mitos gregos. São Paulo: editora Volta e Meia, 2ª edição, 2015.

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Sobre a autora: Juliana Mello

Psicóloga, Arteterapeuta e Coach

Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.

segunda-feira, 20 de março de 2023

DA PSICOLOGIA ANALÍTICA À ARTETERAPIA: INTROVERSÃO E EXTROVERSÃO

 


Imagem: Renê Magritte

Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

Ao longo de 2022 o ciclo de palestras promovido pelo Não Palavra em parceria com o Espaço Crisântemo se consolidou como um grupo de estudos que, apesar de um formato aberto, se tornou um grupo consistente e coeso quanto aos participantes e um fluxo de estudos com seu fio condutor. Um dos aspectos estudados nesse período foi o desenvolvimento da escuta arteterapêutica frente aos acontecimentos históricos presentes e suas especificidades. Percebemos que ainda estamos construindo literaturas próprias ao contexto atual, sendo assim, um tempo para resgatarmos embasamentos teóricos tradicionais e atualizarmos nossa leitura para o que temos de específico na atualidade.

Gosto de tomar como inspiração a fala de Edza Pound que defende que os artistas são “antenas da raça” ao captarem os movimentos humanos e os constelarem em expressões artísticas acessíveis ao seu tempo. Entendo que nós arteterapeutas somos participantes desse dom, ao nos apropriarmos, cada  vez, mais de nossa sensibilidade artística, enquanto nos oferecemos em atenção e cuidado, como terapeutas,  aos seres humanos inseridos nesse movimento coletivo.

Neste contexto, um dos estudos desenvolvidos em nosso ciclo de palestras foi pensar os caminhos do fenômeno pandemia e a escuta terapêutica a partir de algumas teorias psicológicas, dentre elas a Psicologia Analítica. Os parceiros que acompanham o desenvolvimento do meu trabalho sabem que tenho por estilo transitar entre as variadas teorias, por entender que cada uma delas ilumina algum aspecto específico da complexidade humana.

Considerando-me não uma expert, mas uma estudiosa continuada da teoria junguiana, entendo que conceitos da psicologia analítica se fizeram bastante instrumentalizadores da escuta e atuação terapêutica em 2022 - compreendendo também que esse estudo se aplica em tantos outros contextos. No texto de hoje trago uma síntese desse estudo compartilhado em uma palestra de 2022, porém que nos servirá de base em outros cenários clínicos e históricos.


Observações históricas e coletivas

Tomamos como ponto de partida o texto de James Hillman, de 2010, chamado “Intoxicação Hermética”, através do qual, o autor defende que:

Segundo a perspectiva da psicologia arquetípica, o fascínio com a troca entre os povos em toda parte, a hipercomunicação do globalismo, a ênfase no comércio e finanças, a instantaneidade oferecida pelos aparelhos eletrônicos, a compulsão de viajar – tudo isso indica o cosmos mítico de Hermes-Mercúrio, o deus veloz de asas nos pés, capacete de invisibilidade e pensamentos alados.

O globalismo parece uma overdose de Hermes, assim como a Era da Razão sofria de uma overdose de luz solar apolínea e um excesso da racionalidade normalizadora de Minerva...

Com a virada do século, um monoteísmo de Hermes nos aprisiona a todos...

A hipertrofia de Hermes preenche nossos dias com ansiedade apressada, temendo ficar para trás. Parece que nunca somos capazes de estarmos atualizados – o tempo é tão fugidio, a vida é tão rápida. Não podemos estar onde estamos e em vez disso vivemos em um futuro, nossas cabeças inclinadas para frente, nossos pés tentando calçar as sandálias aéreas do deus. Então vivemos nossas agendas, não nossos dias – nossos compromissos, não nossos ritmos. (HILLMAN, 2010)

O cenário descrito por Hillman como “hipertrofia de Hermes”, de agendas hiperativas  que, de alguma forma, nos aprisionava a todos, ajuda a compreender como era nosso cotidiano antes da pandemia. Até que a partir deste fenômeno, fomos impelidos a um LIMITE em nossas atividades, relações interpessoais e do repertório constituinte do nosso cotidiano.

Lembro de um pequeno texto que escrevi para as redes sociais do Não Palavra que sintetizava minhas percepções clínicas para aquele início de 2020:

A PSICOTERAPIA EM TEMPOS DE CONFINAMENTO

A orientação que recebemos e acatamos quanto ao isolamento social e confinamento tem promovido um desdobramento na dinâmica psicoterapêutica ao qual venho pensando. O empobrecimento do repertório e esvaziamento das dinâmicas exteriores faz com que o paciente tenha menos demanda terapêutica quanto às experiências extrovertidas. Consequentemente ocorre um maior investimento de energia psíquica “para dentro”, um movimento de introversão.  

Na escuta clínica isso aparece quando o paciente começa a acessar memórias antigas, sentimentos guardados há muito, questões existenciais e espirituais, aumento de relato de sonhos, diálogos com a própria sombra... Conhecedores deste fenômeno precisamos nós terapeutas nos instrumentalizar para esta escuta e manejo...

A início do fenômeno pandemia nos impeliu a um movimento de introversão, que naturalmente constelou-se na dinâmica dos processos terapêuticos.  Em um cenário com tantos limites e interditos exteriores, abriu-se um momento de grande potencial para caminho de autoconhecimento.


Conceitos Junguianos e a escuta clínica: Introversão e Extroversão

Retomamos então os conceitos de Introversão e Extroversão:

Jung acreditava que a introversão e a extroversão estão presentes em todos nós, mas que um tipo atitudinal é invariavelmente dominante. (SHARP, 1991, 63)

Qualquer atitude que existe na mente consciente, ou qualquer que seja a função psicológica dominante, o oposto está no inconsciente... (SHARP, 1991, 116)

 

Ou seja, a extroversão e a introversão são atitudes constitucionais. Em cada atitude há um interesse, que significa uma presença consciente, para onde se encontra o centro da atenção e investimento de energia psíquica. O interesse básico do extrovertido está sobre o objeto (entendido como um objeto externo, de forma ampla). Já o interesse básico do introvertido encontra-se no próprio sujeito.

Compreendido que existe a tipologia própria do sujeito, sabemos que ao longo de cada jornada de individuação, os eventos psíquicos (externos e internos) podem promover um reinvestimento de libido, também contrário da tipologia original.

Eis então a questão estudada pelo grupo: como os caminhos da pandemia afetaram o investimento de energia psíquica “para dentro” e “para fora” de cada sujeito? Partimos do estudo das tipologias e levantamos hipóteses sobre os caminhos possíveis.

Em seu Léxico Junguiano, Daryl Sharp define a Extroversão como um:

Modo de orientação psicológica no qual o movimento de energia é na direção do mundo exterior.

             A extroversão caracteriza-se pelo interesse pelo objeto externo, pela              responsabilidade e pela pronta aceitação dos acontecimentos externos,  pelo     desejo de influenciar e ser influenciado pelos acontecimentos, pela    necessidade de aderir e de ‘estar com’, pela capacidade de suportar o alvoroço e todo tipo de       barulho e considerá-los até agradáveis, pela   constante atenção dada ao mundo         circundante, pelo cultivo de amigos e          de relações nem sempre escolhidos com               cuidado, e finalmente, pela              grande importância atribuída à imagem com que nos mostramos. [JUNG]...

Embora todos sejam afetados pelos dados objetivos, os pensamentos do extrovertido, suas decisões e seu comportamento são por ele determinados. Os pontos de vista pessoais e a vida interior vêm em segundo lugar em relação às condições externas. (SHARP, 1991, 62-64) 

Aqui reside o aspecto sombrio característico da tipologia extrovertida:

Vive para os outros e pelos outros; tudo que seja íntimo lhe dá calafrios. Aí se ocultam os perigos, sendo mais convenientes que  sejam abafados              pelo barulho.     Se por acaso tiver um “complexo”, encontrará refúgio         social    e várias vezes por dia tratará     de assegurar-se que tudo está em ordem. [JUNG]...

A tendência do extrovertido de sacrificar a realidade interior às circunstâncias externas não será problema enquanto a extroversão não for muito extrema; mas, na medida em que se torna necessário compensar a inclinação à unilateralidade, surgirá uma tendência marcadamente autocentrada no inconsciente. Todas aquelas necessidades ou desejos que foram sufocados ou reprimidos pela atitude consciente voltam pela porta do fundo, sob forma de pensamentos e emoções infantis, que têm como centro a própria pessoa. (SHARP, 1991, 64-65)

Partindo do conceito teórico de Extroversão, podemos levantar as questões:

- Como viviam os extrovertidos antes da pandemia? Estariam em uma possível zona de conforto?

- Como se sentiram os extrovertidos durante a pandemia? Além da angústia coletiva, quais conteúdos singulares emergiram nas dinâmicas terapêuticas neste período? A prática mostrou-nos um desafiador caminho de introversão, alguns deles apresentando possíveis sintomas depressivos. Observamos o resgate de memórias antigas, sentimentos negligenciados, aspectos sombrios vindo à luz, o contato com questões existenciais e espirituais dentre outros.

- Como se sentiram os extrovertidos com o processo de retorno à extroversão? A teoria junguiana nos alerta sobre o caminho de compensação entre os opostos (abordado mais a frente), fazendo-nos sinalizar o ponto de atenção ao qual, na falta de autoconhecimento e elaboração do movimento de energia psíquica, haja um potencial movimento compensatório desenfreado de movimento “para fora”.

Quanto à tipologia Introvertida, Sharp define como:

Modo de orientação psicológica, no qual o movimento de energia é em direção ao mundo interior.

Todo aquele cuja atitude é introvertida pensa, sente e age de modo a demonstrar              claramente que o sujeito é o fator primário da motivação, e que o objeto é de importância secundária. [JUNG]

Uma consciência introvertida pode muito bem estar ciente das condições externas, mas não é motivada por elas. O introvertido extremo responde primariamente às impressões internas.  (SHARP, 1991, 99-100)

Esta renúncia para dentro de si mesmo não é uma       renúncia definitiva ao mundo, mas uma              procura                de quietude, pois somente nela lhe é possível fazer          sua contribuição à vida da comunidade. [JUNG]” (SHARP, 1991, 101)

Aqui me lembro dos versos de Mario Quintana ao descrever-se: “Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?” Eis um introvertido que se acolhe!

Entretanto, o aspecto sombrio da tipologia introvertida se encontra em sua resistência ao relacionar-se com a vida externa:

Em uma grande assembleia, sente-se perdido e solitário. Quanto maior a          multidão, maior se torna sua resistência. Não está de modo algum “com ela” e não tem nenhum prazer no ajuntamento entusiástico. Não se mistura bem. Tudo o que faz, o faz a seu modo, pondo barricadas contra a influência de fora... Sob   condições normais, é pessimista e preocupado, porque o mundo e os seres humanos não são nem um pouco bondosos, e sim o esmagam...

Seu mundo particular é um porto seguro, um jardim cuidadosamente protegido e              cercado, fechado ao público e aos olhares curiosos. Nada melhor do que sua      própria companhia. [JUNG]

A atitude introvertida tende a desvalorizar as coisas e as outras pessoas, negando sua importância. Daí, por via de compensação, a introversão extrema leva a um reforço inconsciente da influência do objeto. Esta se faz sentir como uma amarra, com as concomitantes reações emocionais em relação às circunstâncias externas e às outras pessoas… (SHARP, 1991, 99-101)

Partindo do conceito teórico de Introversão, podemos levantar as questões:

- Como viviam os introvertidos antes da pandemia? Qual ou quais era(m) seu(s) desconforto(s)?

- Como se sentiram os introvertidos durante a pandemia?

Observamos na clínica que pacientes introvertidos sentiram-se autorizados e legitimados em seu desejo de introversão, permanecendo em alguma zona de conforto quanto ao isolamento e redução de repertório externo.

- Como se sentiram os introvertidos com o processo de retorno à extroversão?

A escuta terapêutica mostrou-nos um processo bastante desafiador aos intrvertidos, causando-lhes angústias, sintomas de ansiedade e sintomas psicossomáticos bem como sinais de evitação social, por vezes atingindo o estágio de fobia social. Este cenário é muito bem descrito por Jung, quando traduz o esforço do introvertido para o exterior:

Estes esforços veem-se constantemente frustrados pelas impressões avassaladoras recebidas do objeto; este continuamente impõe-se a ele contra sua vontade, fazendo surgir nele os mais desagradáveis e intratáveis afetos, perseguindo-o a cada passo. Uma tremenda luta interior se faz necessária a cada passo para “continuar em frente”. (JUNG in SHARP, 1991, 101)

 

Conceitos Junguiandos e a escuta clínica: os opostos e outros conceitos

Um dos pilares que embasam a Psicologia Analítica está na tensão dos opostos entre luz e sombra, consciente e inconsciente. Na definição de Daryl Sharp:

Qualquer atitude que existe na mente consciente, ou qualquer que seja a função psicológica dominante, o oposto está no inconsciente...

O conteúdo reprimido deve tornar-se consciente, de modo que produza          uma      tensão de opostos, sem a qual nenhum movimento ulterior será          possível. A           mente consciente está no topo, a sombra, abaixo; é assim    como o alto        sempre anseia pelo baixo, e o calor pelo frio, do mesmo     modo, toda consciência, talvez sem estar disto ciente, busca seu oposto          inconsciente, sem o qual está condenada à estagnação, congestão e ossificação. A vida        nasce apenas da fricção dos opostos. [JUNG]

Isto, por sua vez ativa o processo de compensação...

Um certo grau de tensão entre a consciência e o inconsciente é inevitável e necessário. Por isso, a finalidade da análise não é eliminar a tensão, mas compreender o papel que ela desempenha na autorregulação da psique. Além disso, a assimilação de conteúdos inconscientes faz com que o ego se torne responsável por aquilo que estava previamente inconsciente. (SHARP, 1991, 116)

Nestas citações surgem outros dois conceitos estruturais da teoria junguiana: a compensação e a autorregulação, aos quais também nos cabe compreender a definição:

Compensação: um processo natural para estabelecer ou manter o equilíbrio dentro da psique.

          ... Os conteúdos que são excluídos e inibidos pela direção             escolhida mergulham    no inconsciente, onde formam um           contrapeso à orientação consciente... [JUNG]

Na neurose, em que a consciência é unilateral ao extremo, a meta da  terapia analítica é a realização e a assimilação de conteúdos inconscientes, de modo que a compensação possa ser restabelecida. (SHARP, 1991, 36-37)

 

Autorregulação da psique: conceito baseado no relacionamento compensatório que existe entre o consciente e o inconsciente... O processo de autorregulação está continuamente atuando dentro da psique. E só se torna perceptível quando a consciência do ego tem uma dificuldade específica em adaptar-se à realidade interior ou exterior. (SHARP, 1991, 33)

Estudamos aqui a dinâmica dos opostos de forma ampla, aplicada nos variados aspectos contidos no psiquismo. Neste texto, aplicamos o estudo desta dinâmica no eixo extroversão-introversão. E assim chegamos a mais um conceito junguiano norteador do processo terapêutico, a adaptação:

Processo através do qual, por um lado, chegamos a um acordo com o mundo exterior, e por outro, com nossas próprias características psicológicas...

Em seu modelo de tipologia, Jung descreveu dois modos de adaptação substancialmente diferentes: introversão e extroversão. Jung também ligou os fracassos na adaptação ao surgimento da neurose.

A perturbação psicológica da neurose e a        própria neurose podem ser        definidas              como um ato de              adaptação que fracassou. [JUNG] (SHARP, 1991, 13-14)

 

Através desse estudo, podemos articular sobre os caminhos de formações de neuroses individuais de sujeitos que vivenciaram os anos pandêmicos e possíveis atuações terapêuticas sobre eles. Porém esta não é uma dinâmica apenas individual, mas age também no coletivo.

Para além dos opostos introversão-extroversão, sabidamente hoje vivemos em uma época em que está intaurado do fenômeno da polarização em diversos aspectos. E aqui a Psicologia Analítica também embasa e dá sentido ao nosso ofício, quando defende que trabalhar com os opostos na esfera individual se faz uma grande contribuição à esfera coletiva:

Jung acreditava, além disso, que todo aquele que tenta resolver o problema dos opostos no nível pessoal, está fazendo uma significativa contribuição para a paz no mundo.

A regra psicológica diz que       quando uma situação   interior não se torna      consciente, ela acontece          fora, como destino. Isso equivale a          dizer que quando o indivíduo              permanece indiviso e não se torna           consciente de seus          opostos íntimos, o mundo deve à força atuar o conflito, e dilacerar-se em metades opostas. [JUNG] (SHARP, 1991, 116)

 

Da Psicologia Analítica à Arteterapia

A partir do estudo dessa teoria que tanto nos embasa como arteterapeutas, é necessário pensarmos na contribuição arteterapêutica em suas especificidades. Neste sentido compartilho com o leitor um esquema de minha autoria, criado grupo de estudos, ao qual venho trabalhando nos últimos anos.

Neste esquema é ilustrado os os movimentos de introversão e extroversão de forma adaptada e também em seus aspectos sombrios. Mas ilustra o potencial da arte em proporcionar um movimento de autorregulação: quando extrovertido, ao criar, o sujeito é convidado a olhar para si, seu processo criativo e formações de imagens pessoais; quando introvertido, ao criar, o sujeito é convidado à dar forma, dar visitibilidade e externar seus conteúdos internos.



Esquema: autoria de Eliana Moraes

Meu desejo é que cada vez mais nós arteterapeutas possamos buscar os diversos embasamentos teóricos que podem nos orientar, mas nos apropriando daquilo que nos é específico. E assim, possamos acolher os sujeitos que procuram a Arteterapia propriamente dita, para seus movimentos de autorregulação.

 

 

Referências Bibliográficas:

HILMAN, James. Intoxicação Hermética. 2010

SHARP, Daryl. Léxico Junguiano.

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 13 de março de 2023

RECURSOS INTERNOS

 

Por Silvia Quaresma - SP

othila.arteterapia@gmail.com

Incontestável a importância da terapia na vida do arteterapeuta. É um processo contínuo de busca de significados, de pequenos acertos, de soluções transformadas aos poucos em resoluções.

É comum observar o terapeuta ser surpreendido pela crise do impostor. Como auxiliar o outro, como contribuir em sua melhoria e cura trazendo dentro de si conteúdos de dor e sofrimento também? E outro detalhe, supostamente é preciso anos de prática.

O processo arteterapêutico além de surpreender e encantar, aprofunda e traz à tona ferramentas não percebidas. E neste momento, a razão incomodada quer tomar a frente e trazer explicações que ela própria desconhece. A emoção como pouco entende do assunto, só sente, e não parece ser suficiente.

Numa sensibilização a leitura de um trecho de livro chamou a atenção:

As velhas tinham muitos anos de prática numa imensa variedade de ofícios das mãos – fiar, tecer, tingir, bordar, crochetar, fazer renda, tricotar, acolchoar, fazer filé, plantar, colher, arrancar, fazer conservas, moer, queimar, tornear, semear, ver e curar. (ESTÉS, 2007, p.69).

 

Percebi que o simples utilizar das mãos de forma coerente e constante durante a vida possibilitava a prática sempre tão desejada. Fácil entendimento para uso de fios, para a confecção de uma renda, por exemplo, que vai exigir certa maestria para um efeito uniforme e preciso.

 


A razão não parava de questionar: quanto tempo é necessário para que a experiência se instale? A leitura continuou:

Através de suas práticas diárias, tornou-se aparente para mim que não era apenas o quê da vida de uma velha que era importante, mas também os recursos interiores – o que havia dentro dela, que sabedoria e força de coração tinham sido acumuladas... parte semeada de propósito, parte trazida pelo vento -, mas tudo colhido com consciência. (ESTÉS, 2007, p.70)

 

A resposta tão almejada e que a emoção já sabia: recursos interiores. É o que se tem dentro, a soma que tudo que se viveu, aprendeu, sofreu, sentiu, experimentou.  É um acervo de tudo. Um todo que colabora, que modifica, que ajuda ressignificar.

Os recursos internos agem na medida em que é preciso agir. A mesma situação com novo olhar e consequentemente nova forma, traz novo resultado. 


O tecer, a mesma renda monocromática, algo alterado com os recursos que se tem, que se almeja, que são criados. A sensibilização fala de mulheres sábias, que ensinam, que promovem mudanças, que lembram o que se tem:

Elas me revelaram as camadas psíquicas em que era possível estar constantemente animada por ideias, invenções e pela perseverança de viver uma vida caracterizada por aquilo que se poderia chamar de racionalismo apaixonado – uma vida repleta de paixão e impregnada de razão. (ESTÉS, 2007, p.68).

 

A sessão terminou com a certeza que sim é possível buscar dentro de si o que fazer, como fazer e para que fazer. É possível sim contribuir com a mudança do outro enquanto mudo também e é possível entender que existe um combinado perfeito entre razão e emoção chamado  racionalismo apaixonado.

Mas isto é assunto para outro texto.

 

Bibliografia

ESTÉS, Clarissa Pinkola. A Ciranda das Mulheres Sábias,  Rio de Janeiro,  Editora Rocco, 2007.

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 Sobre a autora: Silvia Quaresma

 


Arteterapeuta

AATESP 665/0720

Graduada em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Moema - SP

Pós-Graduada em Finanças, Ibmec - SP

Pós-Graduada em Arteterapia e Criatividade – NAPE – Faculdade Vicentina em parceria com Instituto Freedom

Professora especialista de artesanato

Idealizadora do Projeto Customizando Emoções –Interface entre Artesanato e Arteterapia

Idealizadora Othila Arteterapia em ação (@othila.arteterapia)

Idealizadora Fio que sente (@fioquesente)

Coordenadora de Grupos de Arteterapia em Instituição para cuidadores e voluntários

Atendimento em Arteterapia (individual e grupos)



segunda-feira, 6 de março de 2023

COMO UM RIO QUE FLUI: A ARTETERAPIA NO CONTEXTO DO AUTISMO

 Por Tania Salete RJ-CE

 Instagram/Facebook: @caminhartes.arteterapia

“Por dentro de nossa casa
passava um rio inventado.
Tudo que não invento é falso.”
 

    Manoel de Barros/

Márcio de Camillo*

 INTRODUÇÃO

                          

    A Arteterapia, desde seus primórdios, se caracteriza como uma prática inovadora, um ofício disruptivo e transformador.  A trajetória profissional da Dra. Nise da Silveira, por exemplo, evidencia o quanto a arte, em suas infinitas possibilidades, é capaz de dar vez e voz àquelas pessoas que nem sempre são capazes de verbalizar ou utilizar a fala como principal meio de expressão ou comunicação


                                                 A arte tem um aspecto universal, evoca uma linguagem primária e pré-verbal versátil e, é ao mesmo tempo, flexível, possibilitando uma forma de expressão e comunicação humana. Ela expõe normalmente o não exprimível pela linguagem comum.  Todo ser humano tem a necessidade de criar e expressar sua criação, sendo esta facilitada pelo processo arteterapêutico. Ademais, a arteterapia encoraja o desenvolvimento das partes saudáveis da personalidade, ajudando o paciente a transformar os sintomas manifestados, propiciando maior expressividade e, assim, de satisfação imediata. (Valladares & Fussi,  p.287-293) 

    Refletindo sobre este contexto, destacaremos a atuação da Arteterapia com crianças com transtorno do espectro autista atendidas em instituição conveniada ao SUS e a Prefeitura da cidade de Fortaleza/CE e para isso, utilizaremos a metáfora do rio e seu percurso,  muitas vezes sinuoso e cheios de obstáculos, mas que segue até desaguar no mar. 

   Segundo a definição do Ministério da Saúde, o transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento que costuma iniciar os sintomas antes dos três anos de idade, tendo como principais alterações: déficits na comunicação e na interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados, podendo apresentar repertório restrito de interesses e atividades. 

O CURSO DO RIO: A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO 

   Para além das discussões sobre a função do diagnóstico, interessa-nos ressaltar as potencialidades de cada um, como indivíduo único e singular. Entretanto, é importante conhecer o nível de suporte (classificação atual) de cada paciente,  ao traçarmos os objetivos, manejo e as adaptações necessárias no processo arteterapêutico. 

   Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM5), uma criança com  TEA pode ter níveis de intensidade, ou seja, o quão grave são os sintomas e o quanto interferem em suas habilidades sociais e comportamentais.

 

Nível 1: Apresenta prejuízos leves, podem ter dificuldades em situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos, mas requerem apenas um suporte mínimo para ajudá-los em suas atividades cotidianas. São capazes de se comunicar verbalmente, mas podem ter dificuldade em sustentar uma conversa, manter contato visual, de fazer e manter amigos. Preferem rotinas estabelecidas, evitam mudanças e eventos inesperados. Precisam de previsibilidade e gostam de certas coisas do seu jeito.

Nível 2: É a faixa intermediária. Tem maior grau de dependência e necessita de auxílio para desempenhar funções cotidianas. Geralmente tem dificuldades com habilidades sociais e contato visual. Podem ou não se comunicar verbalmente ou expressar emoções pela fala ou por expressões faciais. Apresentam comportamento restritivos e rotinas rígidas. Mudanças podem causar desconforto em seu comportamento.

Nível 3 —São aquelas que precisam de muito apoio e são bem dependentes. É a forma mais grave de TEA, normalmente associada à outras patologias (comorbidades). Tem severa dificuldade na comunicação (alguns não são verbais), no funcionamento cognitivo, nas habilidades sociais, com comportamentos restritivos, movimentos repetitivos (estereotipias e ecolalias). Às vezes, tem alterações sensoriais mais acentuadas (toque, cheiro, alimentos, sons). (DSM5)

 

Vale ressaltar a prevalência de diagnóstico em torno de 4 vezes maior em meninos do que em meninas, de acordo com estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (Centers for Disease Control and Prevention - CDC). 

A INTRODUÇÃO DA ARTETERAPIA NA CLINICA NA EQUIPE 

Diante de um quadro tão complexo, multifacetado e desafiador, a Arteterapia poderia ter uma atuação relevante com as crianças TEAs? A resposta é sim! A Arteterapia é uma prática inclusiva, integrativa e que se fundamenta na ideia principal de que toda pessoa tem capacidade inata de expressar-se através de imagens visuais, táteis, auditivas, corporais, entre outras, logo perfeitamente aplicável para todas as crianças, sobretudo porque requer pouca ou nenhuma interação verbal, mas é um excelente canal de acesso às emoções, auxiliando no desenvolvimento de diversas habilidades cognitivas, motoras, sociais, além de um poderoso estimulo a criatividade. 

Segundo Vale e Naves, “A Arteterapia propicia uma vivência integradora em que as potencialidades são trazidas para a cena em que o limite predominava; onde o ambiente é da criança que brinca, que pinta, que é estimulada a criar algo seu (autoidentificação), mesmo que o início seja uma pincelada com a cor que mais goste”. (2010, p. 90). Ainda, segundo Duchastel, “A utilização de diferentes meios de expressão, como o desenho, a pintura, a colagem, a modelagem, a música, as representações teatrais ou o movimento, permite um conato direto com a sabedoria inconsciente e estimula a emergência de emoções bloqueadas”. (2010, p. 33). 

 GARIMPANDO NO RIO: MATERIAIS EXPRESSIVOS 

        Faz parte do cotidiano da pessoa com autismo, a possibilidade de enfrentar ambientes estressores e situações desencadeadoras de sobrecarga sensorial que normalmente causam desconfortos e mais estresse. Este é um cuidado e uma conquista diária no trabalho do arteterapeuta no que diz respeito a escolha do material expressivo. Alguns não se sentem confortáveis em manusear tintas ou cola líquida. Para outros o desconforto pode ser mais tátil, por exemplo, texturas ásperas, outros têm dificuldade com barulhos, iluminação ou até excesso de estímulos no ambiente. 

                    Entretanto, após um tempo de conhecimento e investimento no vínculo terapêutico, é possível oferecer o material e a técnica que proporcione mais bem-estar, autoconfiança, sentimento de pertencimento, ainda que as experimentações sejam na tentativa e erro, porque cada um é diferente do outro, conquanto haja interesses semelhantes, eles são indivíduos com caraterísticas próprias e respostas individuais ao mesmo estímulo. Duchastel cita Winniccott referenciando a brincadeira e, sobretudo, o jogo como uma excelente estratégia de aproximação e adesão para as crianças e adolescentes:

(...) é jogando, e talvez somente quando ela joga, que a criança ou o adulto é livre de se mostrar criativo. Os meios artísticos são utilizados para nos propulsar em um ar de brincadeira que nos permitirá reatar com a riqueza do nosso imaginário e de encontrar nosso poder natural de criação. Todas as crianças desenham, cantam, dançam, inventam personagens: a criatividade é uma atividade natural que pode se desenvolver em cada um de nós. (DUCHASTEL,2010, p.33) 

           O importante é observar por qual canal a criança está lhe direcionando e a partir de seus interesses, ir ampliando a oferta e expandindo as possibilidades, mantendo o olhar atento para o objetivo proposto para aquele paciente. 

COLHENDO PEDRAS PRECIOSAS NO RIO: RELATO DE EXPERIÊNCIAS 

*Ametista, 4 anos, não verbal. Curiosa, exploradora, gosta de manipular os objetos e movimenta-se bastante pela sala. Brinca com funcionalidade, embora tenha pouco foco.  Após alguns encontros, inserimos livros de histórias. Gostou atividade de dobradura. Em outro encontro, Ametista organizou o cenário da contação da história e barco foi a primeira palavra dita. Repetimos a história e dobradura, mas acrescentam os a pintura. Nos encontros seguintes, foi nomeando outros objetos e atualmente, tem um repertório mais ampliado não só em vocabulário, mas também nos aspectos relacionado ao protagonismo e autonomia durante as sessões. Ametista escolhe e solicita o que deseja trabalhar nas sessões, criando seu próprio percurso. Evoluiu na interação social com outros pares, conseguindo compartilhar não só o espaço, como os materiais e brinquedos. Outros terapeutas da equipe perceberam o progresso de Ametista após ingresso na Arteterapia. Neste próxima fase, será direcionada para outro segmento terapêutico afim de prosseguir, conquanto a Arteterapia continue perpassando e interligando as ações interdisciplinares da equipe. 

*Rubi, 9 anos. Muito explorador e com foco em construir objetos tridimensionais com materiais não estruturados (sucatas). Normalmente já trazia uma ideia do que desejava realizar nas sessões. Apesar da dificuldade na coordenação motora tanto ampla quanto fina, era persistente e finalizava seu trabalho. Durante as sessões a atuação do arteterapeuta era de coadjuvante e disponibilizando os materiais mais apropriados visando facilitar e promover experimentações ao paciente.  

Ametista, 4 anos, jan/2022


Ametista, 4 anos, out/22

Porém, lidar com a frustração era um ponto desafiador para Rubi.  Nem sempre seus projetos saiam como desejava. Neste aspecto, o manejo consistia estimular Rubi na busca de soluções possíveis e até oferecer outras possibilidades, pois crianças TEAs tendem a se desorganizar quando lidam com mudança de planos e frustrações.

Rubi, jan/22 – Fusca feito de papelão e tampinhas de refrigerante.


Rubi, 9 anos- fev/22 Personagem “Come-come” feito com dobradura e tampinha de refrigerante 

1ª MOSTRA DE ARTES 

Nas comemorações do dia da criança, em outubro de 2022, toda equipe participou, coletando inúmeros trabalhos de cunho artístico produzido em vários momentos pelas crianças atendidas na instituição. Como inspiração e fio condutor, foi escolhida a poética e as obras e Manoel de Barros, poeta das infâncias. A exposição foi composta por pinturas, desenhos, apresentação musical por algumas crianças e pela equipe, além de poesias que permeavam todo espaço. 

Durante dois dias, as famílias e as crianças puderam apreciar as obras produzidas. Todas foram catalogadas e divididas em espaços, tendo como base a poesia o Menino e o Rio. O impacto deste evento para as crianças e suas famílias, bem como para toda instituição, foi um marco na história recente do segmento que atende somente as crianças TEAs. Além de promover uma maior integração da equipe em torno do trabalho arteterapêutico, fortaleceu e ampliou o olhar destas famílias em relação ao potencial de cada criança. Um momento de valorização, validação, empoderamento e autoafirmação do potencial criativo e expressivo de cada criança.           

Água marinha,7 anos, reconhecendo seu trabalho: -“Mãe, foi eu que fiz este!”!


1ª. Mostra de Artes. Outubro 2022




DESAGUE DO RIO: CONSIDERAÇÕES FINAIS 

                      Promover e sustentar um espaço de Arteterapia é um desafio constante, considerando as particularidades e especificidades do público e da geografia.  Mas, nas palavras de Ostrower, “nas crianças, a criatividade se manifesta em todo seu fazer solto, difuso, espontâneo, imaginativo, no brincar, no sonhar, no associar, no simbolizar, no fingir da realidade e que no fundo não é senão o real. Criar é viver, para a criança.” (2014, p. 217). 

 

                  Concluo com trechos da poesia de Manoel de Barros, onde encontro tanta similaridade com as crianças TEAs que convivo diariamente e me presenteiam com criatividade, espontaneidade e possibilidade de crescimento enquanto ser humano.

 

“O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA”. 

(...) A mãe reparou que o menino

gostava mais do vazio, do que do cheio.

Falava que vazios são maiores e até infinitos.

 

Com o tempo aquele menino

que era cismado e esquisito,

porque gostava de carregar água na peneira.

 

O menino aprendeu a usar as palavras.

Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

E começou a fazer peraltagens.

 

A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: - Meu filho você vai ser poeta!

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

 

Você vai encher os vazios

com as suas peraltagens,

e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

 

*Poemas musicados por Marcio de Camillo em homenagem ao poeta Manoel de Barros.  

 

BIBLIOGRAFIA:

 

1.       BARROS, Manoel.  Exercícios de ser criança. Bordados de Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre os desenhos de Demóstenes. São Paulo, Salamandra,1999 

2.       BONAFÉ, FECCHIO. Arteterapia Com Grupos – Aspectos Teóricos e Práticos. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1ª Edição, 2010.

3.       BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Brasília/DF. 2020. Disponível em https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtorno-do-espectro-autista/definicao-tea/ - Acesso jan/2023 

4.        CENTROS DE CONTROLE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS- CDC (2018, 26 de abril )                                                                      Fonte:https://www.cdc.gov/media/releases/2018/p0426-autism-prevalence.html - Acesso:janeiro/23

5.       CUNHA, Eugenio. Autismo e Inclusão – Psicopedagogia e práticas educativas na escola e na família, 9ª edição, Rio de Janeiro. Wak Editora,

 

6.       DUCHASTEL, Alexandra. O caminho do Imaginário: o processo de Arteterapia, São Paulo, Paulus, 2010. 

7.       FERREIRA, Natalia. A arteterapia no desenvolvimento de crianças com autismo. Monografia de Pós-Graduação da Universidade Cândido Mendes. Rio de Janeiro, 2015.

8.       FRANCISQUETTI, Ana Alice. (Org) Arte-Reabilitação. São Paulo:2011

 

9.       KERCHES, Deborah. Autismo ao longo da vida. São Paulo, Literare Books International, 2022.

 

10.    MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia. 1ª.Edição, Divino de São Lourenço/ES: Semente Editorial, 2018

 

    11.. OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 30. Edição, Petrópolis: Vozes, 2014.

      12. ORRÚ, Silva. Autismo, Linguagem e Educação – Interação Social no Cotidiano Escolar. WAK Editora, 

           3ª edição, Rio de Janeiro,  2012  

13.     VALLADARES, A. C. A., FUSSI, F. E. C. Arteterapia: possibilidade de um outro olhar. In: BRANCO, R. F.                  G. R. A relação com o paciente: teoria, ensino e prática. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.

 

14.    URRUTIGARAY, M.C. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens. Rio de Janeiro, WAK Editora, 5° edição, 2011. 

15.    https://ambientes.ambientebrasil.com.br/agua/recursos_hidricos/hidrografia_do_brasil.html -Último acesso em 20.01.2023 

 

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Sobre a autora: Tania Salete 



Graduação em Fonoaudiologia, pós-graduação em psicopedagogia/UERJ.  Especialização em Arteterapia pela POMAR/RJ. Atuou com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Grupos de Mulheres online (Grupo Rede).  Residindo em Fortaleza/CE há 6 anos, atua no Instituto da Primeira Infância (IPREDE) - Clínica Conecta em atendimentos a crianças no Transtorno do Espectro Autista.

Contatos: Instagram/Facebook:@caminhartes.arteterapia



Textos publicados no Blog:

ARTETERAPIA – DANDO VIDA E COR - RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS - 2016

PRÁTICAS EM ARTETERAPIA COM INDIVIDUOS EGRESSOS DE RUA E ADICTOS EM RECUPERAÇÃO - 2017

FENIX: PARA ALÉM DO CRACK – RESGATE DO FEMININO EM COMUNIDADE TERAPÊUTICA PARA MULHERES - 2017

DESENHANDO E PINTANDO COM A TESOURA COMO O VOVÔ MATISSE - 2018

O BORDADO COMO INSTRUMENTO DE ARRAIGAMENTO E CONDUTOR DE VIDA - 2018

LEONILSON – BORDANDO A VIDA, AS DORES E OS AMORES - 2018

 “DOIS METROS ACIMA DO CHÃO” – AS BOAS NOVAS DE BISPO DO ROSÁRIO - 2019

ESTENDENDO A REDE – ABRINDO OS BRAÇOS PARA O NOVO - 2020

ENTRE OS MÓBILES E STÁBILES DE CALDER – LIDANDO COM A DOR NA ARTETERAPIA - 2021

EXPERIENCIAR É BEBER DA PRÓPRIA FONTE - 2022