segunda-feira, 31 de agosto de 2020

EFEITOS COLATERAIS DO COVID 19 – O LADO BOM DOS GRUPOS ONLINE

 


Por Silvia Quaresma -SP

silvia.sasq@gmail.com 

Muitos resultados incríveis e positivos surgem da necessidade de se realizar um estágio. E assim, em 2018, para cumprirmos este dever surgiu o processo arteterapeutico intitulado “Cuidando do cuidador”. À época, nossa escolha tinha como justificativa a simplicidade da vida:  o indivíduo nasce, precisa ser cuidado por alguém; o ciclo mágico é repetido quando envelhece, quando morre. Ao ser humano é apresentada a arte de cuidar de si mesmo e até o “dito” independente precisa ser cuidado.  Durante a vida somos sim objeto de cuidados, o que é agradável. Cuidar dos outros passa a ser natural e melhor ainda. Só que às vezes os acontecimentos não seguem uma ordem lógica e racional, quando temos em nosso convívio diário pessoas que envelhecem fisicamente e continuam dependentes intelectuais. E o que fazer quando estas pessoas dependentes transformam outras em cuidadores permanentes? 

E nascia neste momento um projeto cuja proposta era o atendimento aos cuidadores:  um espaço para reflexão, compartilhamento de ideias e interação por meio dos recursos expressivos arteterapêuticos. O local, uma instituição cuja finalidade é o desenvolvimento integral das potencialidades humanas, por meio da assistência à criança, ao adolescente, ao jovem e ao adulto com deficiência intelectual. 

Tamanho sucesso e aceitação fez com que o processo fosse repetido em 2019. Em 2020 a instituição já reconhecia a arteterapia como atividade essencial para o equilíbrio. Decidimos então trazer o projeto “Cuidando de si” aberto aos cuidadores e voluntários. 

Havíamos tido dois encontros e ainda estávamos nas atividades de vinculo quando tudo começou. Veio a pandemia e sem nos pedir licença mudou nossas vidas, nossas atividades, rabiscou nas nossas agendas, cancelou nossos compromissos, nos invadiu. Não sabíamos se voltaríamos e se sim, quando e como seria. Nossas quartas feiras simplesmente deixaram de acontecer. 

Pois bem, tínhamos em contrapartida um grupo de artesanato que mantinha contato pelo WhatsApp. Nem todo o grupo de artesanato, que atuava às segundas feiras, fazia parte do grupo de arteterapia, mas todo o grupo de arteterapia fazia parte do grupo de artesanato. 

Neste momento, intuitivamente começamos a usar o grupo apenas para mensagens de cumprimentos, algumas informações sobre o que era e o que fazer com Covid 19, para checar o bem-estar de todos. 

Começamos a ponderar sobre a plataforma WhatsApp. Democrática em sua essência, cuja instalação se faz de forma quase automática, facilitava o acesso para pessoas intimas ou não da internet e o mais importante, os recursos de áudio incluíam as pessoas semi analfabéticas. Por outro lado, temíamos que o excesso de informação característico pelas correntes, cumprimentos e textos, prejudicasse o vínculo grupal fenômeno este tão presente em muitos dos grupos de nossas redes pessoais.

A solução encontrada foi simples: estabelecer horários. Como estávamos nos adequando a uma realidade que nos “cortou” momentos de afeto, ao invés de acabarmos com ele fizemos uso racional. Estava instituído horário para cumprimentos, para “jogar conversa fora”, para se aproximar do outro e banidos os assuntos que pudessem “roubar a energia do grupo” , trazer debates e embates desnecessários. 

Era um relacionamento diário que começou a tomar vulto, criar forma e foi crescendo em conteúdo e temática. Um grupo altamente heterogêneo que se visitava e que precisava falar. Via enfim a janela para o contato exterior. E foi exatamente por conta de uma atividade cujo tema era “o que você vê através da janela” que surgiu a primeira reflexão.  O uso de uma tecnologia possibilitaria o canal necessário. 

O trabalho terapêutico em grupo parece-nos bastante pertinente em nossa contemporaneidade, pois uma das características que mais saltam aos olhos em nossa sociedade atual faz-se no fenômeno da tecnologia atravessando as relações humanas (MORAES, 2018, p 108) 

O grupo então se formatou. Trazemos atividades diárias para entretenimento, e dentre elas atividades arteterapêuticas em especial as de escrita criativa. Todos são incentivados a pensar o tema e o compartilhamento funciona como um exercício continuo de escrita criativa (alguns participantes que não conseguem se expressar através da escrita encontraram no recurso “áudio” a possibilidade de expressão). 

Quando percebemos a dificuldade dos cuidadores com seus “cuidandos” que, retirados de sua rotina escolar não conseguiam entender o que nós não conseguíamos explicar, estes atendidos passaram a efetiva participação, e o enriquecimento foi notório. 

Um dos participantes, aluno da instituição e que faz atendimento arteterapeutico desde 2018, sugeriu um tema, ”árvore da vida “; deveriam fazer a sua utilizando o material que tivesse em casa. Ele resolveu explicar como fazer.



O resultado, surpreendente, provou, sem esforço que a arteterapia atua para romper barreiras sócio culturais, intelectuais e até presenciais.

E continuamos seguindo com este trabalho... convívio diário, atividades relacionadas a um tema previamente escolhido, entretenimento, atividades arteterapêuticas e reflexões para garantir um fechamento.

 Uma das participantes do grupo sugeriu que as reflexões diárias tomassem corpo, dessem origem a compilação de textos que poderia ser nomeada de “Efeitos colaterais do Covid 19”. E se tudo tem seu lado bom, a arteterapia com certeza assume seu lugar neste espaço.  




Bibliografia

MORAES, E. Pensando a Arteterapia. Rio de Janeiro: Semente Editorial, 2018.

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Sobre a autora: Silvia Quaresma


Arteterapeuta

Graduada em Letras

Pós-Graduada em Finanças

Pós-Graduada em Arteterapia e Criatividade

Professora especialista de artesanato

Idealizadora do Projeto Customizando Emoções –Interface entre Artesanato e Arteterapia

Coordenadora de Grupos de Arteterapia em Instituição para cuidadores e voluntários

Atendimento individuais e em grupos em Arteterapia

terça-feira, 25 de agosto de 2020

ESTENDENDO A REDE – ABRINDO OS BRAÇOS PARA O NOVO



Por Tania Salete – RJ, atualmente residindo em Fortaleza CE

taniasalete@gmail.com

domingo, 23 de agosto de 2020

SOBRE ATENDIMENTO ARTETERAPÊUTICO ONLINE DE GRUPOS


Por Vera de Freitas (RJ)
verafguimaraes@gmail.com

Partindo de que TUDO É NOVO, e depois de perceber algumas coisas importantes nesse novo modo de trabalhar, onde mudou o protocolo, mudou a maneira de estar com o outro ou com o grupo, mudou a dinâmica da proposta e a forma de fazer arte, venho contar um pouco do que já percebi de importante pra mostrar que realmente TUDO É NOVO. E precisamos nos adaptar para conseguir seguir com nosso trabalho, com disposição de orientar, de cuidar e acompanhar o processo de cada membro de um grupo.

Trabalho com grupos arteterapêuticos desde meu primeiro estágio de Formação em Arteterapia, e segui fazendo a Pós-Graduação e outro estágio, sempre adorando acompanhar os grupos. Com muito cuidado no acompanhamento de cada membro e atenta a identidade e necessidades do grupo. Enfim, foi o trabalho que segui fazendo desde então.

E de uma hora pra outra tudo mudou, como tudo no mundo e o mundo. Era março de 2020, por causa da pandemia do COVID 19, sem qualquer aviso prévio.

Eu que muito pouco conhecia da tecnologia e informática, das possibilidades, das facilidades da Internet, no primeiro momento entrei no pânico, mas imediatamente busquei alternativas e encarei o que foi necessário. Cursava outra Pós-Graduação do Envelhecimento Ativo - Subjetividade e Arte e as aulas passaram automaticamente para o ambiente virtual, tive que aprender tudo que não sabia e nem me interessava. Ainda tenho muito medo, muitas dificuldades, mas sei que algumas vezes precisamos olhar de frente, aprender, superar e se surpreender por ter conseguido. Sim, TUDO É NOVO, tudo é desafio e adaptação. É preciso ter coragem para experimentar.

Havia feito um estudo sobre mídias digitais possíveis para o idoso, definindo o aplicativo de WHATSAPP como o mais adequado, por ser mais fácil e acessível para comunicação e interação desse indivíduo que conhece pouco das redes sociais, como de todas as possibilidades da Internet, pelo fato de não ter vivido e usado esse imenso mundo de informações quando jovem.

Com a possibilidade de assistir aulas em plataformas diversas, e inúmeras lives, percebi ser possível encontrar virtualmente com grupos. E foi assim que chamei o meu mais novo grupo, iniciado na segunda quinzena de janeiro desse ano, com sete mulheres adultas. Passamos para o encontro virtual, e apenas algumas puderam ou quiseram experimentar essa nova forma de funcionar. Mas logo nos primeiros encontros algumas desistiram, pelo fato de ser virtual. Conversamos e resolvemos convidar novos participantes. E mais pessoas aderiram a idéia de experimentar, era novo para todo mundo. Assim, esse grupo segue com encontros semanais, muitas atividades, fortes relações, muitas manifestações e importantes descobertas e constatações de cada um. A cada encontro o grupo se conhece e se fortalece. E este grupo foi de fato criado no ambiente virtual.

Outro grupo de adultos que atendo há quase quatro anos, com encontros presenciais e semanais, também resolveu experimentar as plataformas digitais para seguir com nossos encontros e atividades com artes. Desse grupo nem todos migraram para o virtual e houve uma desistência depois de experimentar. O grupo também segue com reuniões semanais. Muito interesse e comprometimento, muitas atividades plásticas e muito apoio e solidariedade. Esse grupo é, como sempre foi, uma importante experiência.

Entendi que para uns, os encontros virtuais são difíceis, desagradáveis ou desinteressantes, enquanto para outros, exatamente por serem virtuais, passam a ser possíveis e bastante interessantes.

Para algumas pessoas que não conseguem participar desse atendimento virtual, por inúmeras e diferentes questões, envio regularmente atividades de artes, para estimular o movimento das mãos, o fazer, o criar, o colorir e pintar, o produzir arte. Partindo sempre da idéia de que se não for o ideal, é o melhor nesse momento.

Recentemente recebi mensagem de uma ex-paciente, e depois de longa conversa sobre suas necessidades e dificuldades combinamos tentar fazer arte para melhorar. Encaminhei um kit preparado especialmente pra ela, com materiais, propostas e idéias, que ela recebeu e em seguida parecia mais animada e se sentindo melhor. Essa era a proposta. Acertamos o caminho, a arte.

Outro ponto que deve ser cuidado, preservado e respeitado é o espaço terapêutico virtual, onde deve-se manter a privacidade, para ser um encontro eficiente. Tive experiências importantes sobre isso, e mais uma vez, vi a necessidade de ajuste e adaptação urgente. Nesse espaço de atendimento virtual o terapeuta não tem o controle total do ambiente, o que pode ser arriscado com a interferência de terceiros, prejudicando o desenvolvimento de qualquer proposta. Além, da exposição e conseqüente bloqueio do paciente, que deixará de se expressar, por mais que necessite, devemos considerar também, a reação natural de constrangimento dos demais participantes do grupo. E qualquer interferência afetará de uma maneira ou de outra toda a atividade do grupo. Por isso se faz necessário o compromisso de cuidado com o espaço terapêutico. Em alguns casos houve a necessidade de conversar individualmente para mostrar a importância do sigilo, do respeito e da privacidade. Também presenciei manifestações inversas e imediatas de participantes do grupo impedindo interferência de terceiros. E eu, mais uma vez aprendendo com os grupos.

Coisas acontecem o tempo todo, por ser novo, por estarmos ainda conhecendo ou para conhecer, por circunstâncias que não sabemos explicar, por ter muita gente envolvida e vários fatores que precisam se ajustar para funcionar, detalhes e mais detalhes... tentamos o tempo todo, ou o tempo novo. É sempre experimentar e adaptar.

Sobre as inúmeras e não perfeitas plataformas digitais, sobre a conexão de cada um à rede, sobre as dificuldades com nossos equipamentos ou mesmo com nossos conhecimentos sobre eles, enfim, todas as dificuldades tecnológicas e nossas limitações, fazem nesse momento, sermos todos corajosos, por experimentar, superar para seguir ou, para acompanhar. E vejo meus grupos tentando, experimentando, seguindo e crescendo com isso.

Finalizo dizendo que esse texto foi escrito a partir de observações e reflexões pessoais, baseados nas vivências dos grupos que se encontram semanalmente desde o início da pandemia, com inúmeros acontecimentos, reações e adaptações. Num método possível, adaptado também, para facilitar as experiências individuais, e a importância de estar no grupo, com outros. Isolados socialmente, por prevenção, mas não sentindo solidão.

Nesse período onde TUDO É NOVO, em grupos, podemos viver coisas novas, descobrir coisas importantes, experimentar e explorar novas possibilidades com outras pessoas. Aproveitando os estímulos e a oportunidade para descobrir nossos talentos e potenciais, não exatamente novos, mas não utilizados.

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Sobre a autora: Vera de Freitas


Advogada, Fomação e Pós Graduação em Arteterapia (POMAR)

Cursando Pós Graduação Envelhecimento Ativo (POMAR)

Administradora do Instituto VENHA CONOSCO - Tijuca, RJ

Professora de Iniciação Artística - Instituto ZECA PAGODINHO

Facilitadora de Grupo de Arteterapia  para adultos, atendimento individual e Grupo de Desenho Livre.

Ateliê  de PAPEL MACHÊ


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

SÉRIE: ARTETERAPIA EM GRUPOS ONLINE

 


Por Eliana Moraes (MG) RJ

naopalavra@gmail.com 

E assim chegamos a cinco meses deste fenômeno chamado pandemia. De março a agosto, quantas surpresas, mudanças, reinvenções, quanta resiliência! Quantos ciclos se fecharam e quantos outros abriram-se. Quantas transformações, no mundo, na vida e... na Arteterapia.

Algo tão inimaginável aconteceu quando a Arteterapia corajosamente decidiu adentrar aos territórios virtuais quando a ordem era o isolamento social. Afinal, não nos cabe resistência à palavra “tecnologia” uma vez que, por definição, ela está intimamente ligada ao nosso mote como arteterapeutas: a criatividade. Com origem no grego "tekhne", que que significa "técnica, arte, ofício" juntamente com o sufixo "logia" que significa "estudo", esta palavra se refere a toda invenção humana de um recurso ou instrumento, que colaborou para seu progresso e evolução ao longo da história. Nisto incluímos a roda, o fogo, a escrita e, mais especificamente a partir do século XX, as tecnologias da informação, como por exemplo a internet.

No cenário em que vivemos, a internet como tecnologia é o produto da criatividade humana e é a partir dela que encontramos recursos para lidar com tamanhos desafios que enfrentamos e aqueles que estão por vir. E a Arteterapia se fez participante deste fenômeno. Neste período, adentramos um tempo de desenvolvimento de novas práticas arteterapêuticas quando admitimos a modalidade online.

Considero esta uma prática de suma importância se fizermos uma escuta do social em tempos de pandemia e seus desdobramentos na saúde mental. Tenho estimulado e instrumentalizado arteterapeutas para que assumam este campo de atuação com consciência e responsabilidade. Acredito que todos estamos aprendendo uma nova forma de atuar e penso que a construção desta nova modalidade se faz através da troca entre nossa rede.

Hoje iniciamos no blog uma série de textos de arteterapeutas que têm atuado em práticas grupais no formato online dentro do contexto da pandemia. Nosso objetivo é compartilhar nossas impressões, aprendizados, pontos positivos ou pontos de atenção, para que possamos instrumentalizar e encorajar outros arteterapeutas para que se lacem ao campo de atuação, com a consciência do desafio que temos a frente.

Iniciando esta série, hoje trago alguns pontos que têm permeado minhas reflexões ao sustentar encontros online de modalidade teórico-vivencial, uma vez que meu público alvo, nesta fase de minha jornada profissional, está direcionado à arteterapeutas e estudantes com o objetivo de colaborar para o aprimoramento de suas atuações.

Vale ressaltar que justamente o primeiro ponto que tenho pensado ser de extrema importância é que o arteterapeuta tenha clareza de qual é a sua proposta e por consequência seu público alvo. O território online é característico por ser tão sem contorno, sem fronteiras e desta forma, podemos nos perder dentro das diversas modalidades teórico e/ou vivenciais, assim como a mistura do público profissional/estudante e o leigo.

Tenho sugerido que os arteterapeutas percebam a diferença de uma proposta téorico-vivencial, em que haverá uma parcela do encontro oferecendo um embasamento teórico e referência de autores, direcionado para um público que se propõe a aprimorar-se em sua prática e naturalmente experimentará uma vivência inspirada nestes conceitos. Em outro contexto, quando a proposta é efetivamente vivencial, os estímulos devem ser estritamente disparadores de profundas experiências nos participantes e este campo é aberto para todo o público que se faça interessado em vivenciar a Arteterapia. (Cabe ressaltar aqui, minha impressão de que nesta última modalidade seja interessante um número reduzido de participantes para que se possa haver um bom acolhimento, compartilhamento e fechamento dos conteúdos acessados, sendo o terapeuta responsável por aquilo que estimula à vivência)

Temos percebido que em tempos de isolamento social e aumento da exploração de ofertas no campo virtual, está ocorrendo a proliferação da curiosidade das pessoas de forma geral, aos mais variados assuntos disponíveis na internet. Assim, naturalmente, as propostas arteterapêuticas estão acessíveis a todo e qualquer público que acesse as divulgações dos eventos. Penso que uma triagem atenta dos interessados que nos acessam, faz parte da preparação do arteterapeuta para sua proposta, cabendo aqui algum recurso como ficha de inscrição ou até mesmo uma entrevista, para separarmos o que são possíveis alunos e possíveis pacientes.

Em minha percepção, a participação de possíveis pacientes em propostas téorico-vivenciais pode ser um caminho não indicando pois corremos o risco de acessarmos questões vivenciais que não poderemos dar contorno em um contexto de aprendizado. Por outro lado, terapeutas e estudantes, podem participar de propostas vivenciais, desde que estejam conscientes de que aquele espaço se destina a retirarem suas personas profissionais, para efetivamente beberem da fonte daquilo que oferecem em seu trabalho, inclusive sendo uma prática altamente saudável para sua regeneração periódica.

Outro ponto interessante à nossa reflexão é que o território online pode ser bastante frio ou impessoal, sendo um desafio que deve estar no radar do arteterapeuta, o investimento na formação do vínculo grupal com uma atenção diferenciada. Tenho percebido em minha prática que a firmeza do arteterapeuta para a sustentação do têmenos é a espinha dorsal do processo, atualizando com ainda mais propriedade o que nos diz Angela Philippini:

A presença do arteterapeuta como facilitador é de fundamental importância, pois, de sua firmeza para sustentar o território criativo e simbólico para o grupo e o ritmo regular das atividades, depende uma parte significativa do processo. Esta responsabilidade com a tarefa terapêutica é fundamental, conforme nos assegura Almeida (2009), quando lembra que: “em vários momentos é necessário que o terapeuta sustente com sua energia o processo, por exemplo, promovendo o acolhimento empático, não fazendo grandes exigências, favorecendo uma visão mais ampla.” (PHILIPPINI, 2011, 31-32)

A prática nos surpreendeu de forma muito positiva: é possível gerar e sustentar um setting arteterapêutico em campos virtuais, mas é essencial que o arteterapeuta sustente com sua própria energia e faça circular o afeto catalizador que gerará as mobilizações psíquicas de cada experienciador da Arteterapia. Em específico, nas vivências grupais, tenho dedicado um tempo de sensibilização para que os participantes visualizem e se apropriem de uma grande roda formada com todos os presentes de mãos dadas, e assim fazemos com que a energia do vínculo grupal seja gerada.

Neste contexto, um grande recurso para minha prática se faz na trilha sonora compartilhada. A música tem um acesso direto à alma (como nos diz Kandinsky). Sendo assim, tenho utilizado de forma bastante consciente a música de sensibilização para colaborar que os participantes mudem o registro de suas experiências, não racionais mas vivenciais. E quando a música é compartilhada com todo o grupo de forma única, ela colabora para a homogeneização daqueles que chegam, cada um em uma frequência e possivelmente dispersados com os não contornos da internet.

Aliás a música tem sido uma grande aliada em minhas práticas artetereapêuticas online. Mas deixo para explorá-la melhor em outros espaços da rede Não Palavra. Na próxima semana voltamos com um texto de outra autora que seguirá compartilhando suas experiências sobre grupos arteterapêuticos online.

Sigamos nossa construção compartilhada!

Referência Bibliográfica:

PHILIPPINI, Angela. Grupos em Arteterapia, WAK, 2011.

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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga.

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

domingo, 9 de agosto de 2020

REGULAÇÃO EMOCIONAL EM ARTETERAPIA: ELEMENTO ÁGUA

 

Pintura do Guache

Por Juliana Mello – RJ

entrelinhas.artepsi@gmail.com 

Regulação emocional é a capacidade que temos de lidar com as emoções de maneira funcional. Ser funcional significa, como a palavra diz, funcionar, de forma que não traga nenhum prejuízo ao nosso dia-a-dia. Quando equilibramos a intensidade das nossas emoções e a forma como as expressamos damos o nome de Inteligência Emocional, e é desenvolvida através da Regulação Emocional.

E por que as emoções são tão importantes? Porque é a forma que nosso cérebro processa as informações, procurando em nossas “caixinhas” mentais experiências parecidas com a que estamos vivenciando, para adaptá-las e nos orientar em como iremos nos comportar. Ou então, criando uma nova experiência, para nos auxiliar futuramente.

O objetivo não é deixar de sentir a emoção, mas acolhê-la, aceitá-la e expressá-la de forma funcional, nos familiarizando com as sensações que as emoções produzem.

A Arteterapia é a uma forma lúdica de expressar nossas emoções, identificando pensamentos e comportamentos refletidos no ato da criação. A Arteterapia se define como:

“Por meio do criar em arte e do refletir sobre os processos e os trabalhos artísticos resultantes, o indivíduo pode ampliar o conhecimento de si e dos outros, aumentar a autoestima, lidar melhor com sintomas, estresse e experiencias traumáticas, desenvolver recursos físicos, cognitivos e emocionais” (BITTENCOURT, 2014).

Em Arteterapia, os elementos que representam as emoções são a água e as cores. Manusear materiais que contenham esses elementos, podem auxiliar na expressão das emoções, e consequentemente, na regulação emocional. Neste presente texto falarei sobre o elemento água.

ÁGUA

Pintura com lápis de cor aquarelável

Claci Strieder, psicóloga Junguiana, descreve como uma das funções da água:

A proteção é uma delas, na composição da lágrima, que protege os olhos e simbolicamente limpa a visão, permitindo enxergar o que não se via antes; do líquido amniótico, que protege o feto no útero da mãe, ambos gerando luz e vida”.  (STRIEDER)

Além da função de proteção e limpeza, a água também pode simbolizar o poder do sagrado, a purificação e a cura. Podemos encontrar a água no estado líquido, sólido e gasoso, que representam as diversas situações da vida, já que esta está em constante movimentação. Ao falarmos em plenitude, podemos pensar em um estado psicológico não linear, os famosos “altos e baixos”, trazendo a água como uma representação da flexibilização do nosso modo de pensar e consequentemente de sentir e agir.

Algumas expressões populares utilizam-se do elemento água como forma de expressão das emoções. Temos como exemplo: “gota d’água”, referindo-se a uma forma de exaustão, de cansaço, de limite. “de dar água na boca”: sensação agradável, prazer, satisfação. Este elemento também pode ser encontrado em músicas: “águas de março fechando o verão” (Tom Jobim); “Água pra vazar a vida” (Água – Djavan); “É uma gota de água pra viver” (Palavra Cantada). Na mitologia grega podemos encontrar Poseidon, o deus da água, citado também no filme “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”, produzido em 2010 por 20th Century Fox. No filme, o personagem principal Percy é filho do deus Poseidon com uma humana, e este restaura suas feridas através da água.

Na prática, podemos utilizar os tipos de tintas que possuem água, consequentemente, fluidez, movimento, que são, por exemplo, tinta guache, nanquim, lápis de cor aquerelável, aquarela, tinta para pintura a dedo e anilina líquida. Danielle Bittencourt descreve:

“Na pintura, enquanto ela flui, fluem também emoções e sentimentos mais abrangentes. A fluidez da tinta com a sua função libertadora induz o movimento de soltura, de expansão, trabalhando o relaxamento dos mecanismos de defesa de controle” (BITTENCOURT, 2014).

Pintura com nanquim

Vanessa Coutinho diz:

“A tinta costuma ser um material que provoca a liberação de afeto, por sua fluidez. De modo diverso dos materiais mais secos, não permite tanto controle, fazendo emergirem emoções diversas com seu uso” (COUTINHO, 2013)

Mas por que, em alguns casos a Arteterapia, com o uso das tintas, é necessária no auxílio a Terapia Cognitivo-comportamental (TCC)? Porque as emoções são abstratas e em alguns momentos somente as palavras não conseguem expressá-las, sempre deixando a sensação de que “existe algo mais profundo que não sei dizer o que é”. Além de, através da criação, experimentarmos “ao vivo” o nosso dia a dia, nos auxiliando a identificar pensamentos e comportamentos disfuncionais, assim como perceber nossas habilidades em sentir as emoções. Quando identificamos as nossas emoções, nosso funcionamento, no momento da criação, é possível sair do automático, e o desconforto da emoção pode ser melhor trabalhado e elaborado, com o auxílio do terapeuta.

Além da fluidez e do relaxamento, podemos trabalhar com esses materiais a liberação das emoções, a imaginação, superação de limites, paciência, sensibilidade, atenção e concentração, a ampliação da visão (das possibilidades) para uma determinada situação.

Ainda sobre este tema, o próximo texto será sobre a Regulação Emocional com as cores.

Não deixe de comentar, seu feedback, dúvidas e sugestões são muito importantes!

 

Pintura com aquarela

Bibliografia:

BITTENCOURT, Danielle. DIAGNÓSTICO INTERVENCIONISTA EM ARTETERAPIA: DINÂMICAS PSICOARTÍSTICAS E CRIATIVIDADE EXPRESSIVA. Rio de Janeiro: Wak Editora, 1ª edição, 2014.

COUTINHO, Vanessa. ARTETERAPIA COM CRIANÇAS. Rio de Janeiro: Wak editora, 4ª edição, 2013.

STRIEDER, Claci Maria. O ARQUÉTIPO ÁGUA: FONTE DE VIDA E DE EXPRESSÃO. Disponível em: https://www.ijep.com.br/artigos/show/o-arquetipo-agua-fonte-de-vida-e-de-expressao#:~:text=Em%20seus%20livros%2C%20o%20arqu%C3%A9tipo,e%20com%20as%20opera%C3%A7%C3%B5es%20alqu%C3%ADmicas. Acesso em 24/06/2020.

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Sobre a autora: Juliana Mello


Psicóloga, Arteterapeuta e Coach
Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.