segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A IMPORTÂNCIA DO ATELIÊ NA FORMAÇÃO CONTINUADA DO ARTETERAPEUTA

 


Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

 

Cada vez mais o Não Palavra vem se estabelecendo como um espaço de colaboração à formação continunada do arteterapeuta. Tomamos como inspiração para a produção de conteúdos o tripé que sustenta um bom terapeuta – terapia pessoal, supervisão e  grupo de estudos -, mas acrescentamos para a Arteterapia uma quarta perna: a prática criativa continuada.

O exercício contínuo de uma experiência pessoal com os materiais artísticos, com o  processo criativo e a própria produção de imagens sustenta um arteterapeuta em sua atuação de forma consistente. O caminho de contato pessoal com a prática criativa se inicia no curso de formação, mas na realidade se estende a todo o tempo da formação continuada do arteterapeuta, ou seja, enquanto o este se mantiver ativo em seu estudo e práticas. É essencial que ele conheça e experimente por si mesmo os potenciais e as propriedades da grande variedade de materiais possíveis a serem usados em um setting arteterapêutico, em cada uma de suas singularidades. É importante que vivencie os processos de estímulos, resistências, enfrentamentos, desbloqueios, busca e encontro de soluções, encantamentos, mas sobretudo, a criação de intimidade com as materialidades para que possa dar a sustentação necessária para os futuros experienciadores da Arteterapia, que a seu tempo viverão estes enfrentamentos na condição de pacientes/clientes.

Eleger um espaço de experimentação e criação de intimidade com os materiais arteterapêuticos compõe a quarta perna que sustenta o arteterapeuta, alcançando aqueles que não possuem experiência anterior com as materialidades e práticas artísticas, mas também aqueles que possuem essa experiência, porém necessitam vivenciar uma experimentação mais intuitiva, sensível e emocional para o criar.

Estas reflexões foram geradas e aquecidas a partir de minha experiência pessoal (uma arteterapeuta advinda da psicologia), das minhas observações como supervisora de arteterapeutas em atuação, mas também pela oportunidade de lecionar em cursos de pós graduação em Arteterapia e observar, de forma geral, alguma carência de intimidade com os materiais e processo criativo dos estudantes e profissionais. Tenho me motivado a gerar espaços de ateliês arteterapêuticos destinados à arteterapeutas por acreditar que desta forma os alunos e profissionais estarão mais sustentados e instrumentalizados para uma prática arteterapêutica rica, consistente e potente.

 

Um embasamento teórico



Para o segundo semestre de 2022, adotei como leitura base o livro “Ser Criativo: o poder da improvisação na vida e na arte” de Stephen Nachmanovitch. Tenho o estudado em conjunto com minha grande parceira, Vera de Freitas, e a partir dele tenho produzido diversos conteúdos para o Não Palavra e para os cursos de formação que leciono.

No texto presente, trago fragmentos do precioso capítulo “Prática”, através do qual o autor discorre sobre a importância de uma prática criativa continuada:

Qualquer pessoa que pratique um esporte, um instrumento ou qualquer forma de arte tem que se exercitar, experimentar, treinar. Só se aprende fazendo. Existe uma enorme diferença entre os projetos que imaginamos e os que realmente colocamos em prática. É como a diferença entre um romance de ficção e um encontro real de dois seres humanos, com todas as suas complexidades. Todos sabemos disso, embora inevitavelmente nos deixemos abater diante do esforço e da paciência necessários à realização de um projeto. Uma pessoa pode ter fortes tendências criativas, gloriosas inspirações e elevados sentimentos, mas sem criações concretas não há criatividade...

A fórmula estereotipada que diz que “a prática leva à perfeição” traz consigo alguns sérios e sutis problemas. Imaginamos que a prática seja uma atividade executada em preparação para uma performance “de verdade”...

A prática não é só necessária à arte, ela é arte. (NACHMANOVITCH, 1993, 69-70)

Nachmanovitch descreve com destreza sobre um ponto de equilíbrio que um artista precisa encontrar, em relação à sua técnica. Penso que este ponto de equilíbrio deve servir em muito de inspiração para o arteterapeuta em sua formação. Por um lado, temos o arteterapeuta que não possui profundo conhecimento prévio sobre a utilização dos materiais:

O aspecto mais frustrante e aflitivo do trabalho criativo, um aspecto que enfrentamos na prática diária, é a descoberta de um abismo entre o que sentimos e o que somos capazes de expressar. “Falta alguma coisa”...

A técnica pode transpor esse abismo... Se improvisamos com um instrumento, uma ferramenta ou uma ideia que conhecemos bem, possuímos uma sólida técnica para nos expressarmos. (NACHMANOVITCH, 1990, 70)

Para criar, é preciso ter técnica e libertar-se da técnica. Para isso, precisamos praticar até que a técnica se torne inconsciente...

Quando a técnica se oculta no inconsciente, revela esse mesmo inconsciente. A técnica é o veículo capaz de trazer à tona o material inconsciente contido no mundo onírico e mítico para que ele possa ser visto, falado ou cantado. (NACHMANOVITCH, 1993, 75)

Neste trecho, o autor nos inspira sobre a importância do arteterapeuta, pouco a pouco, se dedicar a conhecer mais profundamente as técnicas e materiais que oferece em seu setting. Não para “dar aula de artes”, mas para instrumentalizar o seu paciente para começar a se expressar em outra linguagem e sustentar o campo de enfrentamento do “novo” ao experienciador da Arteterapia.

Aqui reside também um desafio específico para alunos que se formaram em tempo de cursos online, modalidade que muito nos surpreendeu positivamente, mas que como qualquer fenômeno humano, possui suas sombras e pontos cegos. O desafio desta geração de arteterapeutas se faz em buscar de forma mais assertiva espaços em que possam se dedicar à “mão na massa” em experimentação à riqueza e pluralidade de materiais possíveis a serem usados na Arteterapia.

Se por um lado temos arteterapeutas que não possuem tanta intimidade com os materiais, por outro, temos os que vêm da arte e trazem em sua bagagem uma sólida relação com a técnica. Entretanto, segundo o autor:

A técnica pode transpor esse abismo. Mas também pode alargá-lo... a técnica pode se tornar sólida demais – sabemos tão bem o que deve ser feito que nos distanciamos ao frescor da situação presente. Esse é o perigo inerente à competência que se adquire pela prática. A competência que perde suas raízes de diversão se transforma em rígido profissionalismo...

Por maior que seja a técnica adquirida, precisamos reaprender continuamente a tocar como um principiante, com o toque de um principiante, com o sopro de um principiante, com o corpo de um principiante. Só assim poderemos recuperar a inocência, a curiosidade, o desejo que nos impeliu a tocar. Só assim poderemos encontrar a necessária unidade entre prática e performance. (NACHMANOVITCH, 1993, 70)

Aqui está o desafio de arteterapeutas que já possuem uma relação com a arte e a técnica: vivenciar o processo criativo não por meio de um registro racional e extrovertido, mas um registro intuitivo, emocional e introvertido. Para se encontrar esse registro interno realmente propício para a criação é um processo de (re)construção.



Assim entendemos que o ponto de equilíbrio da técnica na arte e na Arteterapia, só é possível a partir de uma exposição ao exercício contínuo de experimentação:

O exercício, a experimentação, deve estar totalmente livre de julgamento, brotar diretamente do coração...

Quando nos exercitamos, trabalhamos num contexto seguro em que podemos experimentar não apenas o que sabemos fazer, mas também o que ainda não podemos fazer...

A prática dá ao processo criativo um momento de calma, de modo que, quando as surpresas ocorrem (quando elas chegam a nós por acaso ou trazidas do inconsciente), possam ser incorporadas ao organismo vivo da nossa imaginação. Aqui nós realizamos a síntese essencial – alongar os momentos de inspiração até transformá-los em fluxo contínuo...

A perícia nasce da prática; a prática nasce da experimentação compulsiva mas prazerosa... E de uma sensação de  deslumbramento... (NACHMANOVITCH, 1993, 73-74)

Torna-se responsabilidade do arteterapeuta eleger um tempo e um espaço propício para que possa manter a chama da sua criatividade sempre ativa. Esse “espaço sagrado” é chamado de “temenos”:

... aprendi que grande parte da eficácia da prática reside na preparação...

Minha preparação específica começa quando entro no temenos.  Na Grécia antiga, o temenos era um círculo mágico, um espaço sagrado dentro do qual a atividade estava sujeita a regras especiais e acontecimentos podiam ocorrer livremente. Meu estúdio, ou seja, qual for o lugar onde eu trabalho, é um laboratório onde realizo experimentos com minha própria consciência...

Prepare suas ferramentas de trabalho. Crie e desenvolva um relacionamento íntimo, vivo e duradouro com suas ferramentas: desde sua escolha até a limpeza, a manutenção e o reparo...

Quando faço uma apresentação ao vivo, o palco e todo o teatro se tornam o temenos...

Com o tempo aprendi a tratar cada sessão solitária em casa da mesma maneira como trato uma apresentação pública. Em outras palavras, aprendi a dedicar a mim mesmo o cuidado e respeito que dedico ao público. E não foi uma lição sem importância. (NACHMANOVITCH, 1993, 75-77)

Considero este um belo e precioso conselho do autor ao arteterapeuta: viva sua experimentação pessoal com a arte e a Arteterapia com o mesmo cuidado e respeito que você as oferece em seu setting. Experiencie um têmenos da mesma forma que você o sustenta. Beba da fonte que você distribui. Alimente-se da nutrição que você disponibiliza.


Referência Bibliográfica:

NACHMANOVITCH, Stephen. Ser Criativo: o poder da improvisação na vida e na arte. Summus Editorial, SP. 1993.

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

EXPERIENCIAR É BEBER DA PRÓPRIA FONTE

 


Mosaico igualdade e respeito 

Por Tania Salete (RJ) CE

@caminhartes.arteterapia

O homem cria, não apenas porque quer, ou  porque gosta, e sim porque precisa: ele só pode crescer,

                     enquanto ser humano, coerentemente,

 ordenando, dando forma, criando.” (Ostrower, Fayga)

 

Ao relembrar momentos de minha formação inicial em Arteterapia, recordo o quão empolgante e desafiador era cada vivência. Explorar, sentir, descobrir, ser confrontada com diversos materiais e técnicas faziam parte, semanalmente, do processo formativo.  A experimentação de novos materiais através de diferentes técnicas era fundamental tanto individualmente quanto no coletivo para que houvesse maior consistência na nossa futura prática arteterapêutica.

Segundo Alessandrini, “… a experiência vivida pode, então, ser apreendida com nível de consciência tal que permite uma aprendizagem significativa.”(CIORNAI,  2004, p.118)

Entretanto, após a formação, a assiduidade e disciplina de pesquisar novos materiais, tende a diminuir consideravelmente. A agitação e os ruídos da vida cotidiana podem nos afastar das nossas produções e, principalmente, das experimentações e descobertas.

Porém, a arte é como uma isca e basta entrar numa papelaria que automaticamente somos atraídas pelos papéis, gramaturas, tintas, pincéis, lápis e novamente o desejo de experimentar algo novo reacende. E foi o que aconteceu durante o período da pandemia, pois a oferta de tempo era maior, assim a oportunidade de investir de maneira consciente neste processo de manter contato próximo com as experimentações e prática de técnicas expressivas e artísticas foi algo natural, principalmente estimulada por palestras vivenciais, lives, mas sobretudo, pelos   encontros do Grupo Quíron: encontros com o curador ferido. São encontros em grupo e online oferecidos pelo Não Palavra, que nasceu na pandemia, com objetivo de ser um espaço onde os arteterapeutas pudessem se reenergizar e manter contato próximo com suas produções.

Em cada encontro, minha experiência era de acessar um portal de nutrição, suporte e compartilhamento tão necessário naquele momento de isolamento “duplo” para mim (além da pandemia, moro na região Nordeste e longe do meu epicentro familiar e arteterapêutico).

A título de testemunho deste suporte nos encontros do Grupo Quiron, recordo-me de que em agosto de 2020, estava com Covid e meu esposo hospitalizado também pela Covid,  mas resolvi participar assim mesmo do encontro e foi fortalecedor receber palavras de ânimo e motivação do grupo naquele momento de tantas incertezas e apreensão para minha família. Mas, vencemos!

Superado este tempo, consegui manter com maior frequência, as experimentações e reencontro com as minhas produções imagéticas, além de conhecer inúmeros colegas arteterapeutas de vários estados do Brasil. Como diz o povo nordestino: pense como foram ricos estes encontros num momento de lockdown!

“As linguagens expressivas guardam em si um potencial curativo e transformador (…) e as experiências criativas nos ‘transpassam’ e permitem que ‘trans-bordemos’ e atravessamos limites e interdições, resgatando notícias de nós mesmos.” (PHILIPPINI,  2009, p. 137)

  

Abrindo o baú de tesouros


Florescer - Tema trabalhado: Limites -Material: Giz de cera em bandeja de isopor  e em papel

Quando nos permitimos acessar este lugar de criação livre para explorar, experimentar, avançar, retroceder, de brincar, imaginar no que vai dar aquele experimento, algumas coisas interessantes surgem: flexibilidade em nossas ações, leveza, mais disposição, alegria, prazer e capacidade de deslumbramento diante das surpresas inusitadas que podem aparecer no processo, tal qual a criança diante de um brinquedo novo, de uma caixa de papelão ou algo que possibilite inventar e criar. 

Para Ostrower, 

nas crianças, a criatividade se manifesta em todo o seu fazer solto, difuso, espontâneo, imaginativo, no brincar, no sonhar, no associar, no simbolizar, no fingir da realidade e que no fundo não é senão o real. Criar é viver, para a criança.” (OSTROWER, 2016, p.127)


                      “ O ato criativo é uma necessidade tão básica quanto respirar (…)  

Somos impelidos a criar.”(ZINKER, 2007,  p 21)

 

Fazendo referência à formação do Arteterapeuta, somos incentivados a buscar nossa “técnica de base”, aquela com a qual mais nos aproximamos ou descobrimos ter mais domínio ou destreza. Isso nem sempre é simples, principalmente para quem não veio do campo das artes plásticas ou que tenha habilidades manuais, logo tornar-se um “terapeuta criativo”, como diz Zinker é um desafio constante.  Entretanto é fato que só se aprende fazendo, correndo riscos, submetendo-se ao fracasso, frustração, deixando o medo de errar de lado e exercitar a persistência. 

         “Invente um canal por onde a criatividade possa fluir do coração para realidade, e uma maneira de registrar o trabalho para que mais tarde, num outro estado de espírito, você possa avaliá-lo e corrigi-lo. O exercício, a experimentação, deve estar totalmente livre de julgamento, brotar diretamente do coração.” (NACHMANOVITCH,1993,  p. 72)

 

Limites e improvisação


Desenho livre em tampinha de Nescau

Dentre os muitos aprendizados que a pandemia de COVID nos trouxe em termos de atendimentos arteterapêuticos, exercitamos a capacidade de lidar com os limites que esta realidade nos impôs. Passados os primeiros meses de susto e apreensão, muitos recalcularam suas rotas e retomaram as atividades da maneira que foi possível - no caso, na modalidade online. Certamente, o manejo com a materialidade foi uma grande questão que exigiu muita criatividade e originalidade dos terapeutas e também de nossos clientes, pois diante das limitadas ofertas de materiais, precisávamos trabalhar com o que se tinha em casa: sucata, bandejas de isopor, alimentos, grãos, temperos, corantes comestíveis, sabonetes, plantas, folhas, sementes.

“...a necessidade nos obriga a improvisar com o material que temos à mão, a recorrer a uma engenhosidade e a uma inventividade que talvez não emergisse se pudéssemos adquirir soluções prontas. Os limites estimulam a intensidade…. descobrimos que a contenção amplifica a força. Trabalhar dentro dos limites impostos pelo meio nos obriga a mudar nossos próprios limites.” (NACHMANOVITCH,1993, p 81,83)

 

Conclusão:


Pandemia é o meu casulo - Vou sair e voar

            Concluo com a recomendação do sábio Rei Salomão (970-931 a.C):

          Portanto, bebe a água da tua própria fonte, sacia tua sede com as águas que brotam do teu próprio poço”. ( Biblia Sagrada, Provérbios 5:15).

          O arteterapeuta é um arauto da criatividade, como tal, precisa se nutrir do seu ofício permanentemente, para que, só então, realize seu papel como companheiro de jornada de outros.  Portanto, avante nas experimentações! Caminhemos porque as possibilidades são infinitas.

 

BIBLIOGRAFIA:

BÍBLIA, A.T. Provérbios, Bíblia de Estudos Facilitado, São Paulo/SP, Editora Mundo Cristão, 2013

CIORNAI, Selma - Percursos em Arteterapia: ateliê terapêutico, arteterapia no trabalho comunitário, trabalho plástico e linguagem expressiva, arteterapia e história da arte, coleção novas buscas em psicoterapia, volume 63 - São Paulo, Summus editorial, 2004 

NACHMANOVITCH, Stephen. Ser Criativo: O poder da improvisação na vida e na arte, 5a. edição - São Paulo,  Summus editorial, 1993 

OSTROWER, Fayga - Criatividade e processos de criação - 30a ed - Petrópolis, Vozes, 2014 - 2ª Reimpressão , maio 2016 

PHILIPPINI, Angela -  Linguagens e Materiais expressivos em Arteterapia:uso, indicações e propriedades, Rio de Janeiro, Wak Editora, 2009 

ZINKER, Joseph - Processos criativo em gestalt-terapia,  Summus editorial, São Paulo, 2007

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Sobre a autora: Tania  Moreira  



Graduação em Fonoaudiologia, pós graduação em psicopedagogia/UERJ.  Especialização em Arteterapia pela POMAR/RJ. Atuou com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Grupos de Mulheres online (Grupo Rede).  Atualmente residindo em Fortaleza/CE, atua no Instituto da Primeira Infância (IPREDE) - Clínica Conecta em atendimentos a crianças no Transtorno do Espectro Autista, em Fortaleza/CE

Contatos: Instagram/Facebook:@caminhartes.arteterapia

Textos publicados no Blog:

ARTETERAPIA – DANDO VIDA E COR - RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS - 2016

PRÁTICAS EM ARTETERAPIA COM INDIVIDUOS EGRESSOS DE RUA E ADICTOS EM RECUPERAÇÃO - 2017

FENIX: PARA ALÉM DO CRACK – RESGATE DO FEMININO EM COMUNIDADE TERAPÊUTICA PARA MULHERES - 2017

DESENHANDO E PINTANDO COM A TESOURA COMO O VOVÔ MATISSE - 2018

O BORDADO COMO INSTRUMENTO DE ARRAIGAMENTO E CONDUTOR DE VIDA - 2018

LEONILSON – BORDANDO A VIDA, AS DORES E OS AMORES - 2018

 “DOIS METROS ACIMA DO CHÃO” – AS BOAS NOVAS DE BISPO DO ROSÁRIO - 2019

ESTENDENDO A REDE – ABRINDO OS BRAÇOS PARA O NOVO - 2020

ENTRE OS MÓBILES E STÁBILES DE CALDER – LIDANDO COM A DOR NA ARTETERAPIA - 2021

 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

DIÁLOGOS ENTRE ARTE, TARÔ E ARTETERAPIA: A RODA DA FORTUNA E AS MANDALAS

Por Mercedes Duarte - RJ

duarte.mercedes@gmail.com

@mercedesdu.arteterapia

@baoba.arteterapia

Esse é mais um texto da sequência de reflexões acerca dos 22 arcanos maiores do tarô, associados a elementos da arte que possam nos aproximar dessas imagens arquetípicas encontradas nas cartas de tarô. Nesse artigo, trago o Arcano X, a Roda da Fortuna, em diálogo com as mandalas. Aqui não há a pretensão de esgotar as dimensões do arquétipo, o que seria inalcançável, tampouco explanar com profundidade a diversidade das concepções simbólicas acerca das mandalas. O escopo é trazer um recorte que privilegie as afinidades entre o arquétipo e algumas das concepções acerca dos círculos e mandalas. 

O intuito desse diálogo, portanto, entre arte e tarô, como já mencionado e aprofundado em outro texto[1], é o de proporcionar reflexões e possibilidades arteterapêuticas - experimentadas na Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô[2] - que permeiam esses elementos em diálogo, buscando, assim, contribuir para as reflexões do fazer arteterapêutico e a ampliação de seu repertório.

 A Roda da Fortuna – Arcano X


Tarô de Marselha

Tarô de Waite e Smith

         A Roda da Fortuna frequentemente está associada ao destino, às suas leis e engrenagens. Vemos na carta do tarô de Marselha dois animais que parecem estar presos à roda. Enquanto um sobe o outro desce. Há uma manivela que foge ao enquadramento. E tais seres não possuem acesso a ela. E quem o teria? Temos uma incógnita. Os dois seres estariam, portanto, submetidos aos movimentos da roda, desprovidos de direcionamento consciente. Poderíamos considerar aqui as leis de causa e efeito, ação e reação, vividas de maneira instintual, inconsciente, dado o caráter animal dos seres presentes, ainda que com vestes humanas. 

No alto da roda temos uma espécie de esfinge empunhando uma espada. Seria o guardião de um tipo de transcendência que nos leva a um lugar mais alto, seguro, menos ao sabor das inconstâncias, dos altos e baixos, da roda da vida? A esfinge, como é sabido, pressupõe um enigma a ser desvendado para que não sejamos devorados. 

No tarô de Waite e Smith os quatro elementos da natureza aparecem representados  nos quatro cantos da carta. De acordo com Carl Jung (2002) o self frequentemente é representado pelos quatro cantos do mundo, ou quatro elementos, com o centro de um círculo dividido em quatro.

 Nessa carta ainda que todos os seres estejam alados, o touro pode estar associado à terra, o leão ao fogo, a ave ao ar e o anjo à água (JODOROWSKY & COSTA, 2004). Terra, fogo, ar e água são elementos que também falam das dimensões humanas, respectivamente, material, espiritual, mental e emocional. Assim, nessa imagem arquetípica, teríamos contidos os elementos que nos compõe e a possibilidade de realização da integração e equilíbrio de tais elementos, seja por meio do desvelamento do enigma da esfinge e/ou pelo encontro da perspectiva do eixo da roda que, além do topo que parece ser estável, representa o centro de equilíbrio, lugar onde se tem sustentação. 

Os círculos, as mandalas e a roda da fortuna 

Carl Jung (2002) recorreu as imagens dos círculos, ou mandalas, para designar a representação simbólica da psique, ou seja, do próprio self. Esse que ao mesmo tempo é o centro da psique e sua totalidade. Símbolo da completude, o círculo, ou a mandala, “teria esse significado de lugar sagrado, um tememos para proteger o centro da personalidade (...), pois impede que ela seja atraída para fora ou que seja influenciada pelo mundo exterior” (SHARP, 1997, p.154). 

Jung introduziu então o termo mandala -  palavra de língua sânscrita que significa “círculo”, sendo também entendida como o “círculo da essência” (GREEN, 2005) - na psicologia moderna, pois descobre que essas imagens aparecem espontaneamente em nossos sonhos em épocas de estresse, configurando uma forma de compensação de conflitos internos e externos (NICHOLS, 1997). É nesse cenário que a psiquiatra brasileira Nise da Silveira passa a ser interlocutora de Jung quando identifica várias mandalas produzidas espontaneamente por seus clientes com diagnóstico de esquizofrenia. 

Outro conceito de Jung importante para compreendermos essas imagens, é o de individuação. O processo de individuação, grosso modo, é aquele que engendra a realização do si mesmo, do self, e que se definiria pelo descentramento do ego, em favor da realização da totalidade da psique. Isso pressuporia a integração dos diferentes aspectos que compõe a psique, como é o caso da dimensão inconsciente. A individuação é, portanto, definida “pelo processo de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual” (SHARP, 1997, p.90). E aqui devemos enfatizar que se trata de um processo, sempre em movimento, um estado constante de vir a ser. 

De acordo com o Léxico Junguiano (1991) de Daryl Sharp “o processo de individuação, levado a termo de modo consciente, conduz à realização do self como uma realidade psíquica maior do que o ego. Assim, a individuação é, em essência, diferente do processo de simplesmente tornar-se consciente” (p.92). 

Nesse sentido podemos considerar duas características, interrelacionadas, do círculo que podem dialogar com a imagem arquetípica da roda da fortuna. A primeira se relaciona aos “altos e baixos” possibilitados pelo movimento da roda, que podem dizer dos “altos e baixos” de que sofre o ego, sobretudo quando ele ocupa um lugar central na psique, em detrimento da abertura para a assimilação de outras dimensões psíquicas. O outro aspecto da roda, ou do círculo, pode se referir à ideia de integração, ou ao processo de individuação, que oportunizaria a experiência de totalidade da psique, o que pode conversar com o enigma da esfinge: o que eu deveria desvendar que possibilitaria essa experiência de totalidade, e/ou me traria espaço para conexão com o meu eixo, me tornando mais  íntegro/a e protegido de ser devorado pela roda da vida, pelas influências externas?  Como vemos, esses dois aspectos da roda apresentados trazem a relação entre o “dentro e fora”, sem a qual o processo de individuação não seria possível. 

Em síntese, a roda da fortuna nos faz experimentar opostos, consciente e inconsciente, expansão e retração, integração e desintegração, que em relação produzem movimento e configuram um sistema de constante transformação. Assim, “se observarmos uma roda girando, veremos como esses opostos funcionam juntos - como o amplo movimento do aro externo, que é a sua raison de’etre, seria impossível sem a estabilidade do centro fixo” (NICHOLS, 1997, p.190).

 Proposta arteterapêutica

         A proposta arteterapêutica levou em consideração a experiência de situações desafiadoras que frustram projetos e expectativas e a possibilidade de reestruturação, reorganização e centramento frente ao que ruiu. Pequenas folhas de papel, de cores diferentes, representaram tais projetos e expectativas, e a ação de rasgá-la em pequenos pedaços representou a roda da vida que passa, muitas vezes, frustrando os projetos cultivados. O segundo passo foi construir uma mandala com esses fragmentos de papel, buscando a organização e a ideia de integração da psique.

 Abaixo temos algumas imagens das mandalas produzidas:          


  Gira Vida


Roda da Vida


Árvore da vida

Algumas participantes trouxeram relatos a respeito de situações disruptivas que viveram, e sobre ter sido gratificante a sensação de assimilação e reorganização do que foi vivido através da oficina. Outras participantes enfatizaram acerca do vislumbre de seus centros, eixos de estabilidade internos, especialmente no momento da visualização dirigida realizada ao longo da oficina.

Esses relatos, e a imagem da Roda da Fortuna, vem no sentido de corroborarem a importância do fortalecimento do centro que nos dá sustentação para a abertura do “vir a ser”, dos processos de desenvolvimento pessoal, que podem ser representados por espirais, dando a ideia de processo e movimento, como vemos em algumas das imagens produzidas na oficina.

 


[1] DUARTE, Mercedes. Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio, 2021. http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/

[2] A Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô consiste em oficinas inspiradas nos arcanos maiores do tarô em diálogo com determinados elementos da arte.


Referências bibliográficas 

DUARTE, Mercedes (2021). Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio. Disponível em http://nao-palavra.blogspot.com/20215/. Acesso em 10/07/2022 

GREEN, S. (2005). El Livro de los mandalas del mundo. Editora Océano Âmbar: Santiago, Chile. 

JODOROWSKY, Alejandro; COSTA, Marianne (2004). O Caminho do Tarô. Editora Chave: São Paulo. 

JUNG, C. G (2002). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Editora Vozes: Petrópolis. 

NICHOLS, Sallie (1997). Jung e o Tarô: Uma Jornada Arquetípica. Trad. Laurens Van Der Post. Editora Cultrix: São Paulo. 

SHARP, Daryl (1997). Léxico Junguiano: Dicionário de Termos e Conceitos. Editora Cultrix: São Paulo.


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Sobre a autora: Mercedes Duarte



Arteterapeuta (AARJ - 1117/0621), Mestre em Ciências Sociais. Faz atendimentos individuais e em grupo; com Tarô & Arteterapia. É facilitadora da Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô. E integra a equipe do Espaço Baobá de Arteterapia em Niterói-RJ.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

NO MEIO DA MEIA IDADE VEIO A MENOPAUSA: COMO A ARTETERAPIA PODE AJUDAR?


Fotos do grupo Autocuidado: Mulher 45+, para mulheres no climatério


Por Isabel Pires - RJ

bel.antigin@gmail.com 

Nos dias de hoje, pensar a meia idade tornou-se muito relevante, já que, com o aumento da expectativa de vida, vivemos mais tempo nessa etapa de vida do que alguns anos atrás. Por exemplo, nos anos 40, o brasileiro esperava viver até os quarenta e cinco anos, segundo dados do IBGE (educa.ibge). Hoje, a população brasileira na faixa dos quarenta representa um quarto da população do país, a qual apresenta, também, uma queda na taxa de natalidade.

Mas, por conta das recentes mudanças na pirâmide etária do país, definir o que é a meia idade tornou-se menos óbvio. Até pouco tempo atrás, uma pessoa com 35 anos poderia considerar-se na meia idade, mas, hoje, situa-se essa fase entre os 40 e os 60 anos, embora não haja consenso sobre isso. Essa etapa do desenvolvimento humano é marcada pela chamada crise da meia idade, com importantes consequências na vida dos indivíduos. Apesar disso, pouco se sabe, pouco se estuda, pouco se fala sobre essa famosa crise.

No entanto, os teóricos junguianos Murray Stein e James Hollis fizeram importante contribuição sobre o tema. Stein (2007) chama essa fase de meio da vida e diz que é um momento de reestruturação da vida intrapsíquica e de profundo contato com o inconsciente. Para o autor, é a hora de se livrar da persona, do antigo modo de atuar na vida, entrar em contato com a sombra e gerar um novo estado, em contato com a alma. Já Hollis (1995) chama essa etapa de passagem do meio e afirma ser um momento de reavaliação da vida, de autoconhecimento e de renovação. Segundo o autor, é aí que se devem enfrentar os dragões internos, ouvir a alma negligenciada até aqui e assumir a responsabilidade sobre sua própria vida. “Somos convidados a recobrar a própria vida, a vivê-la mais conscientemente, a extrair da desgraça um significado” (HOLLIS, 1995, p. 24). Porém, sem saber da existência e das características dessa crise, muitas pessoas destroem casamentos, largam suas profissões e, assim, perdem uma oportunidade de autotransformação profunda.

No caso das mulheres, além da crise da meia idade, entre os 45 e os 55 anos, a mulher entra no climatério, enfrentando um período crítico de mudanças físicas, emocionais e psicológicas. Por sua vez, este momento marcante na vida da mulher madura também precisa ser mais explorado e estudado como uma fase do desenvolvimento feminino com características próprias e determinantes na vida da mulher.

Antes de mais nada, é preciso definir climatério. O termo é usado tanto para homens quanto para as mulheres, mas hoje se fala apenas, praticamente, em andropausa, no caso masculino, e menopausa, no caso feminino. A menopausa é um evento pontual, que marca o momento da última menstruação da mulher, após uma ausência consecutiva de menstruação por 12 meses. Já o climatério se refere à perimenopausa ou pré-menopausa (antes da menopausa) e à pós-menopausa. Nesse momento, o corpo da mulher passa por muitas transformações, advindas principalmente da queda dos hormônios sexuais estrogênio e progesterona. Algumas das manifestações físicas mais frequentes do climatério são as ondas de calor, a secura vaginal e a dificuldade de concentração. Mas, hoje, é comum também, neste período, a depressão e a irritabilidade. Junte-se a isso a crise da meia idade, pois a menopausa atinge a mulher no meio da fase de meia idade. Ou seja: é um momento sério, importante, que tem sido relegado, até agora, pelos estudiosos, em geral, e pela psicologia, em particular. Mas, na terapia, acredito ser fundamental levar em conta esses fatores quando se atende uma mulher na meia idade. E o que a arteterapia pode fazer por essa mulher que vive uma mudança generalizada? Muito, pois a arteterapia permite o desenvolvimento completo do indivíduo - corpo, mente, espírito –, e a arte, instrumento do trabalho arteterapêutico, leva à transformação, característica chave deste momento da vida feminina.


Fotos do grupo Autocuidado: Mulher 45+, para mulheres no climatério

Primeiramente, o processo climatérico começa no corpo, quando as taxas hormonais diminuem e vêm os calores, as falhas de memória, o ressecamento da pele, entre outras manifestações. Assim, podemos pensar num trabalho arteterapêutico que desenvolva a linguagem corporal, como a dança e outras técnicas de expressão corporal ligadas ao autoconhecimento e a uma expansão da consciência. No climatério, muitas vezes, por desconhecimento das alterações pertinentes a essa fase, a mulher madura tem a sensação de não se reconhecer mais num corpo em rápida transformação. Além do mais, ao perceber os primeiros sinais de envelhecimento corporal, é invadida pelo medo da velhice e da morte. Várias mulheres climatéricas também temem perder sua feminilidade, quando sua vida reprodutiva se encerra, e apresentam dificuldades sexuais e baixa autoestima. Ao trabalhar a expressão corporal no ateliê de arteterapia, a mulher madura poderá reconhecer e escutar seu corpo, o que levará a um aumento de autoestima e a um autocuidado físico necessário para a melhora na sua qualidade de vida. Ademais, sentir o próprio corpo permitirá à mulher na menopausa encontrar respostas autênticas e intuitivas para as suas várias questões internas.

É preciso lembrar que, independentemente de um trabalho específico de expressão corporal, em arteterapia, o corpo trabalha o tempo todo na criação artística, através do manuseio dos materiais artísticos.

O corpo está cheio de símbolos, gestos, movimentos e significados, que podemos aprender a ouvir, dar uma forma, uma cor no espaço arteterapêutico, permitindo enriquecer não só o repertório expressivo do sujeito, como também ampliar a percepção de si. (POLICARPO, 2022)

            Em relação à psique, como já foi dito, na meia idade, o indivíduo vive uma transformação interna profunda. No caso da mulher madura, é necessário ressignificar a menopausa, que costuma ser vinculada a uma ideia de decadência. Numa sociedade em que apenas o jovem é belo e valoroso, envelhecer é uma ameaça. Para a mulher madura, o envelhecimento tem ainda mais peso, pois, desde cedo, a mulher sofre maior cobrança social em relação à sua aparência física. Assim, a mulher climatérica frequentemente vê-se quase que “forçada” a buscar juventude eterna, através dos diversos tratamentos estéticos e produtos disponíveis no mercado e da famosa reposição hormonal. Neste caso, um trabalho arteterapêutico pode ajudá-la, através da expressão artística, a estimular sua criatividade e a despertar habilidades e talentos adormecidos, o que levará ao desenvolvimento de sua autonomia e autoestima.

O trabalho artístico conduz à abertura ao novo, a novas experiências e à criatividade necessária para lidar com as próprias dificuldades. Assim, a mulher climatérica poderá se reinventar, recriar-se e encontrar novos caminhos e significados para sua vida. Na crise da meia idade, a mulher madura poderá, através da arte, despir-se de sua antiga persona, no confronto com suas criações artísticas, e vivenciar diferentes modos de se expressar. Desta forma, conseguirá passar pela transformação necessária de forma mais leve e criativa.

Finalmente, em relação ao aspecto espiritual, esse momento da crise de meia idade do indivíduo, em geral, e da mulher climatérica, em particular, requer o resgate do sentido da vida e a busca por novos objetivos. Nesta etapa da vida, a dimensão espiritual aflora e o encontro com o numinoso, o transcendente passa a ser ansiado. Aí é que um trabalho com a arte se torna fundamental, pois “a arte é a linguagem da alma”, como nos diz Lígia Diniz (2018). Na arteterapia, a expressão artística propicia a materialização de símbolos, provindos do inconsciente, pois a arte é a ponte entre a consciência e o inconsciente. Essa vivência simbólica propicia a experiência com o numinoso, a conexão com o mais profundo e sagrado dentro de nós mesmos. Assim, a mulher madura terá a chance de desenvolver sua espiritualidade e dar voz à sua alma.

No caso da mulher na menopausa, o trabalho arteterapêutico em grupo pode potencializar/otimizar os benefícios do processo terapêutico pela arte. No grupo, não precisará viver o climatério e suas manifestações de forma solitária, como é comum acontecer, já que falar no tema ainda gera constrangimento e preconceito. Nele, poderá encontrar apoio emocional e experimentar acolhimento, aceitação, companheirismo, compreensão, compartilhamento e cooperação, para citar alguns dos sentimentos vividos dentro de uma experiência grupal. Costumo trabalhar com grupos arteterapêuticos de mulheres de meia idade, com vistas ao autocuidado físico, emocional e espiritual, com vistas a uma qualidade de vida mais plena.

Para terminar, acho importante lembrar do poder da imagem. Nos dias atuais, somos invadidos por imagens o tempo todo, de forma tão intensa e avassaladora, que dificilmente conseguimos processá-las de maneira mais crítica. Por isso, o trabalho arteterapêutico se torna ainda mais fundamental, sobretudo para a mulher de meia idade, a qual se vê dominada por imagens (quase sempre alteradas por Photoshop) de rostos jovens que refletem um padrão de beleza imposto pela sociedade de consumo. Neste caso, a expressão artística propicia o trabalho com as próprias imagens, advindas do inconsciente, imagens essas que trazem símbolos e significados relevantes para dar sentido ao seu viver.

 


Fotos do grupo Autocuidado: Mulher 45+, para mulheres no climatério


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Educa.ibge. Pirâmide etária. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18318-piramide-etaria.html#:~:text=A%20popula%C3%A7%C3%A3o%20acima%20de%2030,anos%2C%204%2C9%25. Acesso em: 28/09/2022.

Policarpo, D. O corpo na arteterapia. Disponível em: https://www.institutofreedom.com.br/blog/o-corpo-na-arteterapia/ Acesso em: 29/09/2022.

STEIN, M. No meio da vida: uma perspectiva junguiana. São Paulo: Paulus, 2007.

 HOLLIS, J. A passagem do meio: da miséria ao significado da meia idade. São Paulo: Paulus, 1995.

 DINIZ, L. Arte Linguagem da Alma: arteterapia e psicologia junguiana. Rio de Janeiro: RJ, 2018.

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SOBRE A AUTORA:



Oi! Eu sou Isabel Pires psicóloga, professora de línguas e arteterapeuta. Também possuo formação em Jornalismo e em Antiginástica® Thérèse Bertherat e pós-graduação em Psicologia Junguiana. Já publiquei alguns textos aqui no blog do Não Palavra e um deles, “Vygotsky e a arte”, faz parte do livro Escritos em Arteterapia: coletivo Não Palavra (2021). Faço atendimentos individuais e em grupo (presencial e online), como o trabalho de autocuidado da mulher de meia idade. Adoro gatos e viagens, presenciais ou através dos livros, que tenho em abundância. Se quiser falar comigo, pode me contactar pelo Whatsapp: (21) 97567-568; pelo e-mail: bel.antigin@gmail.com ou pelo Instagram:@isabelpires.artepsi.