segunda-feira, 14 de outubro de 2019

TRANSDISCIPLINARIDADE: A ARTETERAPIA ATRAVESSA OS 12 PASSOS


Por Paulo Antunes - RJ

contato@ateliedoself.com


O Processo Alquímico

A ARTETERAPIA ganha espaço no universo terapêutico. Porém a aplicação de métodos arteterapêuticos na abordagem, tratamento e manutenção da abstinência às drogas, DROGADICÇÃO (dependência química), ainda carece de reconhecimento e sistematização. Praticamente, não existem arteterapeutas especializados em reabilitação de ADICTOS (dependentes químicos). Até mesmo encontrar literatura específica como referência para trabalhos e pesquisas é navegar sem bússola. Mesmo as clínicas que anunciam “trabalhos de arteterapia”, na grande maioria, não sabem sequer o que é ARTETERAPIA. Não se trata aqui de premissa, mas de uma realidade. Então, vamos escrever...

Lendo artigos de arteterapia, me deparei com a seguinte ideia de Ângela Philippini sobre “Transdisciplinaridade e Arteterapia”: “Parece-me que, quanto maior o afastamento da práxis arteterapêutica, maior também será a ênfase na tentativa de vincular arteterapia a uma única área de conhecimento. Mas aqueles que estão realmente envolvidos com o dia-a-dia da prática arteterapêutica sabem, de forma visceral, que o campo é transdisciplinar.” ¹
Pensei imediatamente nas clínicas, centros de reabilitação, comunidades terapêuticas que cuidam de adictos e adictas, sejam de internação ou ambulatorial. E na “profecia” de que trabalhar com adicção é trabalhar a frustração. E na massificação de tarefas terapêuticas sem o aproveitamento da ludicidade que ocupa parte da psique do adicto. E no uso abusivo de medicamentos para tratar de pacientes que apresentam comprometimento em laços afetivos, hábitos e comportamentos, mais do que nas esferas cognitiva e psiquiátrica. E nos baixos índices de adictos que se mantêm em recuperação, ou seja, a enorme maioria que recai mesmo após meses internados.

E lembrei-me do “Método Minnesota e os 12 Passos”, que teve origem no Estado de Minnesota, capital Sant Paul, ao norte dos EUA, por isso recebeu este nome e é utilizado na grande maioria das instituições com este fim.

Ora, o “Programa dos 12 Passos” é baseado essencialmente em mudanças de paradigmas, em transformações comportamentais, respeitando a individualidade de cada paciente que aceita o tratamento. Começou em 1935, com o surgimento do AA (Alcóolicos Anônimos), pelos seus idealizadores Bill e Bob, e deu origem ao NA (Narcóticos Anônimos), AL-ANON e NAR-ANON (familiares e amigos de compulsivos), CCA (Comedores Compulsivos), DASA (Dependentes de Amor e Sexo) e várias outras organizações anônimas que ajudam efetiva os adictos de toda natureza e seus familiares.

Estas ideias reverberaram em minha cabeça por anos. Acompanhavam-me em clínicas por onde trabalhei, congressos, workshops, simpósios, curso de pós-graduação. Até que fui convidado pelos Narcóticos Anônimos para criar, produzir e montar peças de teatro juntamente com os membros de NA. A partir daí, o convívio com aqueles adictos, o empirismo na aplicabilidade do programa foram transformando a minha percepção dos 12 Passos e a necessidade de uma abordagem mais dinâmica veio com folheto “Uma Outra Perspectiva” - de Narcóticos Anônimos:  Se pudermos chegar a um acordo do que não é adicção, então o que ela é talvez nos surja com maior clareza.”, mais adiante fala que “Ação Criativanão é adicção, “embora seja um esforço interno de reconstrução ou de reintegração das nossas personalidades fragmentadas ou em desordem.” Pronto. Eureca! Ou melhor, Alquimia: os 12 Passos com Arteterapia!

Arte, Terapia e Ação



Minha teoria é: se descobrir o que bloqueia uma pessoa, poderá também achar a contraparte mitológica para essa dificuldade de passagem de uma etapa para a outra.” Joseph Campbell. ³  Adictos são bloqueados. “Parece que nós, adictos, tropeçamos em algum ponto desse percurso. Parece que nunca alcançamos a auto-suficiência que os outros encontram.” 4 , Narcóticos Anônimos. Essa ideia vai de encontro aos conceitos da Psicologia Analítica de Carl Jung e, à luz destes, pode ser analisada. Em 1934, Carl Jung escreveu para Bill Wilson, criador dos 12 Passos, e prognosticou: “... você (Bill) já adquiriu uma visão superior do problema do alcoolismo, bem acima dos lugares comuns que via de regra, ouve-se sobre ele (alcoolismo).” 5.

Diante desse aval do mestre e inspirado pelas palavras de Nise da Silveira “A palavra fracassa. Mas a necessidade de expressão, necessidade imperiosa inerente à psique, leva o indivíduo a configurar suas visões, o drama de que se tornou personagem, seja em formas toscas ou belas, não importa.” 6 , me lancei na transcodificação da literatura dos 12 Passos para a produção artístico-terapêutica, a ARTETERAPIA. O entendimento e a internalização do programa universal de Bill Wilson toma as formas das imagens e símbolos do inconsciente, através de técnicas e materiais artísticos diversos.

Os 12 Passos foram adaptados a mais de 30 irmandades anônimas para os mais variados tipos compulsivos. Primeiramente, possibilitam o indivíduo reconhecer a sua impotência diante do objeto da compulsão e da perda de controle da sua vida; em seguida, a admissão de um poder superior, individual ou coletivo, que acolha as suas vontades e a aceitação a novos princípios de vida. Daí, por diante, os Passos avançam na busca do autoconhecimento e finalmente levam o adicto à jornada da individuação, que perpassa por um processo de rendição, reconhecimento do eu individual, do outro e da sociedade; personas (máscaras), sombras, arquétipos e mitos. É imprescindível ao arteterapeuta o conhecimento profundo da matéria dos 12 Passos e dos processos psicocomportamentais dos adictos.

O fazer arteterapêutico na cena dos 12 Passos é a utilização de materiais e técnicas artísticas diversas, cada qual adaptada ao devido passo, respeitando o propósito e a proposta do passo, de acordo com a linguagem e natureza dos materiais e efeitos das devidas técnicas artísticas. Surgem com o fazer artístico imagens do consciente e do inconsciente de locais de difícil acesso da psique, com significados arquetípicos e mitológicos, como também aparecem figuras e formas da imaginação ativa. A percepção do terapeuta tem que estar focada no que se apresenta plasmado nas imagens produzidas pelo paciente, em consonância com as suas palavras, colocando também foco nas expressões do corpo, gestual e postura, que o acompanham. A manifestação do espírito artístico, em toda sua extensão – colagem, argila, pintura, mosaico, poesia, expressão corporal, fotos, recicláveis – é o grande protagonista desta obra juntamente com os 12 Passos de AA. O arteterapeuta estará lá para anuir, orientar e devolver para o paciente aquilo que é próprio da sua demanda psíquica.

Minha proposta é oferecer uma nova abordagem, outra perspectiva, que acate a demanda do adicto no mesmo nível de ludicidade e transcendência que os usuários, equivocadamente, buscam nos efeitos das drogas. E com arte e terapia revelar o verdadeiro potencial dessas pessoas, que sofrem com as drogas o que poderia ser transmutado em criatividade.

“Uma flor nasceu na rua!...
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não esta nos livros.
                                                                                 É feia. Mas é realmente uma flor...
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
(Carlos Drummond de Andrade – A FLOR e a NÁUSEA)



BIBLIOGRAFIA
¹ Philippini, Ângela, Revista Imagens da Transformação, nº 2, 1995 - Artigo publicado originalmente no Livro Questões de Arteterapia. Universidade de Passo Fundo, RS
² Uma Outra Perspectiva. COPYRIGHT-1993 by NARCOTICS ANONYMUS World Service, Inc.
³ CAMPBELL, J. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athenas, 1990.
4 O triângulo da auto-obsessão. COPYRIGHT-1991 by NARCOTICS ANONYMUS World Service, Inc.
5 https://passeamensagem.wordpress.com/2013/03/29/carta-de-bill-w-a-carl-jung/
6 SILVEIRA, N. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ed. Ática, 2001.

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Sobre o autor: Paulo Antunes

Formação: Arteterapeuta com especialização em Dependência Química e outras compulsões. Autor, ator e diretor de teatro.
Área de atuação/projetos/trabalhos: Paulo Antunes realiza atendimentos individuais e em grupo há 25 anos, tendo atuado durante este período também na Clínica Ana Café Núcleo Integrado de Psicologia e Psiquiatria (Barra da Tijuca/Recreio-RJ). Idealizador e sócio-fundador do Ateliê do Self (Niterói-RJ), onde realiza atendimentos individuais, cursos e oficinas e dirige o grupo "Teatro para Si". Professor da Pós-graduação e da Formação em Arteterapia da Clínica Pomar (RJ). Professor da Pós-graduação "Arte e Cultura na Saúde" da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Contato: (21) 996390881

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

SONHOS E A "ASSOCIAÇÃO LIVRE DE IMAGENS": UM RECURSO NO PROCESSO ARTETERAPÊUTICO

"The Reckless Sleeper" René Magritte

Por Sueli Antonusso - SP 
antonusso@gmail.com


DAS PEDRAS
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada, um leito,
uma casa, um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
(...)
Cora Coralina

A ideia de escrever este segundo texto para o blog surgiu da minha experiencia com imagens oníricas, imagens que sempre me instigaram a buscar significados. Tenho imagens de alguns sonhos guardadas na memória, de outros, tenho registradas no meu caderno de sonhos. Lembro de um sonho que tive numa fase de transição, por volta da meia idade. Um momento de crise no qual buscava por outro caminho a seguir. Nessa época estava insatisfeita com a profissão de Designer de Interiores que exercia há 20 anos. Fazia terapia com uma psicóloga que trabalhava na abordagem transpessoal e usava a técnica da imaginação ativa nos atendimentos. No sonho, eu

estava levando minha filha para fazer a matrícula, dela, no colégio. Atravessamos um viaduto a pé para evitar um cruzamento. Ao chegar na secretaria da escola a matrícula não era para minha filha, mas para mim. A secretária falou que eu não poderia fazer matrícula pois faltava cursar uma disciplina. Fiquei indignada e aleguei ter diploma e colado grau. Perguntei qual era a disciplina. Aí aparece alguém dizendo que era a psicologia.

Esse sonho foi impactante e, com a ajuda da psicoterapia constatei, entre outros conteúdos, que uma das questões indicava que havia algo a ser “revolvido” em minha profissão. Entendi que era uma fase de transição, incertezas e mudanças e, assim iniciei uma especialização em psicanálise.

Logo que terminei a formação em psicanálise surgiu um sonho recorrente:

eu procurava, dentro de um condomínio, por uma casa em construção que meu pai havia comprado para nossa família. O condomínio era um lugar distante do bairro onde morávamos, as casas eram bonitas, havia várias casas prontas e pessoas morando, mas a nossa nunca ficava pronta. Em minhas visitas, ao local, eu subia ao sótão onde seria o meu quarto, mas o local sempre estava escuro e fechado e eu me sentia frustrada por não conseguia entrar.

Do ponto de vista de Jung (2016) sonhos recorrentes podem constituir uma “tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; (...) Pode também, ser a antecipação de algum acontecimento importante que está para acontecer.” (p. 62).

Durante esse tempo, criei o Workshop de Decoração “A casa dos meus sonhos” - uma vivência na qual mesclava decoração com psicanálise. Depois disso, tive o mesmo sonho só mais uma vez, mas o sótão estava iluminado e eu pude entrar e me apropriar do espaço.

Considero importante ressaltar aqui que a intenção deste texto não é fazer análise nem interpretação de sonhos, pois demandaria um estudo aprofundado que está muito além do âmbito desta proposta.

Nessa fase iniciei meu percurso em direção à Arteterapia, participei de grupos de estudos e fiz uma pós-graduação em Arteterapia com embasamento na teoria junguiana.

Dessa forma, parte da teia tecida pelas imagens que apareciam em alguns dos meus sonhos, entrelaçadas com a psicanálise, com a filosofia, costuradas com fios e cores da vida e da arte foram formando minha teia de Ariadne. Além disso, compreendi que a vida nos coloca diante de situações inesperadas que nos sensibiliza e instiga a promover transformações surpreendentes.

Dando continuidade à formação como arteterapeuta venho participando do ciclo de palestras mensais sobre Arteterapia e História da Arte e grupo de estudos com Eliana Moraes em São Paulo. O estudo sobre o movimento surrealista despertou meu interesse e inspirou-me a usar as imagens criadas por Renê Magritte e Salvador Dalí associadas às imagens oníricas trazidas pelos pacientes nos atendimentos arteterapêuticos individuais. Utilizo os fundamentos da psicanálise e da teoria junguiana como aporte teórico, tendo em vista que a Arteterapia dialoga com diferentes abordagens em sua prática arteterapêutica.
Segundo Moraes (2018),

as imagens oníricas surrealistas apresentam-se como potente estímulo projetivo na prática da Arteterapia. Pois, assim como os sonhos, impactam o espectador com a sensação de que são ao mesmo tempo familiares e desconhecidas, causando estranhamento. (p. 152).

Os surrealistas buscaram inspiração na teoria psicanalítica enfatizando o papel do inconsciente na atividade criativa como meio de expressar o mundo inconsciente do sonho e assim desligar-se das exigências da consciência lógica e racional de vida cotidiana. A técnica de transposição de imagens entre os sonhos e a realidade, característica do movimento surrealista, “possibilita-nos a reprodução da técnica da associação livre da psicanálise, originalmente por palavras, na associação livre por imagens, sendo essa outra forma do sujeito se falar tão legítima quanto”, segundo Moraes (2018, p.148).

Caso clínico

Eunice (nome fictício), 44 anos, mulher aparentemente forte e inteligente, casada, mãe de dois filhos adolescentes, trabalha na área financeira de uma empresa de porte médio, trouxe o seguinte sonho:

Cheguei num lugar estranho onde havia uma escada de cimento que tinha sido pintada de preto. Aí alguém apareceu e perguntei quem tinha pintado e uma pessoa falou que foi um homem que tinha saído para fazer o que ele gostava, que era aprender a trabalhar com terra. Comecei a subir a escada e percebi que o homem não tinha terminado de pintar, então fui subindo e pintando cada degrau. Quando cheguei no topo vi que tinha acontecido uma demolição das paredes, tinha ficado só uma plataforma e restos do entulho das paredes derrubadas, no chão. De repente aparecem três homens tocando instrumentos vestidos com roupa colorida, como se fossem mexicanos, sentados em cima de um caixão de defunto todo preto. 

Após ouvir seu relato, como sensibilização, pedi para Eunice fechar os olhos e entrar em contato com as sensações do sonho. Após algumas tentativas ela disse não conseguir sentir nenhuma sensação, “apenas um estranhamento” (sic). Sugeri que Eunice desenhasse a imagem do sonho a qual também resistiu. Então, para auxiliar o contato com as sensações apresentei algumas imagens de René Magritte para facilitar a associação com as imagens do sonho, visto que a Arteterapia possibilita a utilização de diferentes recursos expressivos.

Eunice escolheu a imagem – “O domínio encantado IX (1953)”.



Imagem do sonho de Eunice

Depois de um tempo observando a imagem, do quadro de Magritte, Eunice comentou que se sentia como “a pessoa que está olhando de dentro da árvore” (sic)... “ela parece ter uma base firme, que é o tronco da árvore, mas seu olhar está voltado para fora...parece que fora, o ambiente é árido e rígido, dá um pouco de medo. Lá atrás tem uma montanha em forma de águia que assusta, mas também desperta o desejo de voar longe”. (sic).


A partir dessa observação parece que Eunice começou perceber algumas das questões que estavam “obscurecidas”. Então, sugeri a escrita criativa para expressar seus sentimentos.

 “Quero voar...
Quero voar, mas a terra me segura com seus apuros.
Quero voar, mas a vida me segura e sinto dor.
Quero voar longe, mas meu voo é rasante.
O que me impede de voar longe?
O medo da vida?
O medo da morte?
O medo da perda?
O medo do perdão?
O medo do medo?
O medo de ser?
O medo de vencer?
O medo de viver?
O medo de ser livre?”

Dessa forma, Eunice pode entrar em contato com o sentimento de solidão e o medo de uma provável separação devido ao divórcio iminente o qual queria evitar a todo custo. A partir da imagem de Magritte, ela foi associando às imagens que emergiram no sonho possibilitando o contato com as sensações imprecisas e incompreensíveis imersas em seu inconsciente conseguindo aproximá-las da consciência e só depois conseguiu desenhar uma imagem do sonho.

O contato com o conteúdo desse sonho teve vários desdobramentos, inclusive a elaboração de alguns lutos, um processo que já vinha delineando-se e que pode ser trabalhado nos encontros seguintes usando diferentes recursos da Arteterapia.

O emprego da Arteterapia como recurso surpreende por sua riqueza de possibilidades no setting arteterapeutico, favorece o acesso a camadas mais profundas do psiquismo promovendo insigths e favorecendo a elaboração de conteúdos inconscientes de forma mais amena e prazerosa.

Assim venho construindo a minha trajetória, sigo, como Ariadne, tecendo a minha teia, só que desta vez seguindo meus sonhos diurnos aceitando os desafios dos fios que se entrelaçam formando nós e criam imagens surpreendentes a cada teia tecida.

REFERENCIAS
JUNG, C.G et al. “O homem e seus símbolos”. trad. Maria Lúcia Pinho. 3. ed. especial. Ed. HaeperCollins. Rio de Janeiro, 2016.
Participação no Workshop “Sonhos – Discursos da Alma”. Ministrado por Marisa Catta Preta. Instituto Freedom. Carga horária – 8 horas. 

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Sobre a autora: Sueli Antonusso 



Arteterapeuta, com registro na AATESP – 453/0618. Especialista em Psicanálise e Orientação Profissional e Carreira pelo Instituto Sedes Sapientiae. Bacharel e Licenciada em Filosofia pela PUC-SP. Idealizadora do projeto “CICLOS – que idade a idade tem?”. Atua com atendimento clínico à jovens, adultos, idosos e grupos, com o foco voltado para a ressignificação da história de vida e o acolhimento de demandas em fase de finalização e/ou início de Ciclos, como: início da idade adulta, maturidade, transição de carreira e tantas outras que fazem parte dos Ciclos de Transição. Coordenação de oficinas de Formação e Capacitação para educadores da rede pública. Realiza palestras e cursos destinados ao desenvolvimento pessoal e realização do potencial criativo com o objetivo de incentivar a exploração do novo e encorajar a autonomia.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

RESSIGNIFICANDO O LIXO EM ARTE: Reflexões sobre o documentário "Lixo Extraordinário"




Por Patricia Serrano -  RJ
patriciaserrano.psi@yahoo.com

Falar sobre o documentário “Lixo Extraordinário”, antes de mais nada é falar sobre o artista plástico que idealizou esse projeto.

Vik Muniz é um artista brasileiro, fotógrafo, desenhista, pintor e gravador, conhecido por usar materiais inusitados em suas obras como lixo, açúcar e chocolate. Seu processo de trabalho consiste em compor imagens com os materiais, normalmente instáveis e perecíveis, sobre uma superfície e fotografá-las resultando no produto final de sua produção. As fotografias de Vik fazem parte de acervos particulares e também de museus em Londres, Los Angeles, São Paulo e Minas Gerais.

Em 2010, foi produzido o documentário “Lixo Extraordinário” sobre o seu trabalho com catadores de lixo de Jardim Gramacho / Duque de Caxias, cidade localizada na área metropolitana do Rio de Janeiro. A filmagem recebeu um prêmio no festival de Berlim na categoria Anistia Internacional e no Festival de Sundance.

“Tudo começou com a sensação de que devíamos fazer algo que pudesse reverter para eles. Faremos algo a partir do lixo que irá render dinheiro e irá tornar-se algo no qual eles possam pôr as mãos. Que eles sintam que os está ajudando. No final, eles não vão dizer que foi o Vik que fez, mas que nós fizemos.”
Vik Muniz

E assim, o artista nos apresenta o que foi o principal objetivo do projeto, mudar a vida de um grupo de pessoas com o mesmo material que eles lidam todos os dias – o lixo. Para isso, pensou na criação iconográfica a partir do contato direto com esses trabalhadores que não eram vistos nem sequer ouvidos nas suas necessidades: “Quero ver o que é importante para eles, o que eles acham que faz uma grande imagem, o que eles acham importante.”

Somos conduzidos, através do olhar sensível e entregue do artista, a um universo que estava literalmente escondido sob o lixo. Vik Muniz nos fala de dois momentos iniciais: a chegada a Gramacho e suas primeiras impressões e depois o seu olhar a partir de um sobrevoo da área.

Na chegada, o olhar impressionado pela quantidade enorme de lixo e as condições precárias de trabalho em contrapartida as relações humanas se estabelecendo através de conversas, risos e brincadeiras entre si. A despeito de todas as dificuldades do ambiente existia uma leveza no convívio dos catadores – o fator humano era belo!


Ao sobrevoar a região, o distanciamento físico evidenciou toda a degradação, tristeza e abandono – não havia sorrisos, olhares, vozes. A massa de pessoas estava imersa ao lixo e o artista desabafa: “É a pior coisa que já vi”.

Daí se inicia o mergulho de Vik Muniz nas relações humanas num ambiente que visto à distância era extremamente desumano e somos convidados a conhecer homens e mulheres que antes “misturados” e “jogados” ao lixo agora podem ser ouvidos e têm a oportunidade de ressignificar o produto do seu trabalho diário – o lixo – em arte.

Convido o leitor a assistir o documentário e entrar em contato com o belo do humano, o belo da arte e por que não dizer o belo do lixo!

Ressignificando o lixo em arte no setting terapêutico


O título do documentário já nos coloca diante de uma definição incomum quando falamos de objetos que descartamos – Lixo Extraordinário – e nos convida a um olhar que sai do lugar comum para algo novo, fora do previsto, notável.

E a quê nos remete o processo terapêutico senão também a um convite a esse novo olhar sobre as questões mais profundas do ser e a possibilidade de ressignificá-las? Quantos recursos internos/psíquicos “descartamos” que podem ser revisitados e trabalhados de forma que possam novamente trazer potência e beleza para o ser!

No texto, “O que é bom para lixo é bom para poesia – mito e poesia, sucata e arterapia” (publicado em agosto de 2018 no blog Não Palavra) Eliana Moraes nos apresenta com muita propriedade a articulação entre poesia e a utilização de sucata na sua experiência prática e relata:

“Aquecida por estas reflexões, para alguns espaços de trabalho, levei o poema ‘Matéria de Poesia’ e dispus sobre a mesa LIXO. Se Manoel de Barros nos diz ‘O que é bom para lixo é bom para poesia’, perguntei aos experienciadores da Arteterapia:
‘Onde está a poesia destes objetos que estão sobre a mesa?
Que poesia você pode criar a partir daquilo que seria jogado fora?
Quais recursos podemos utilizar e reaproveitar a partir do(s) lixo(s) na arte e na vida?’”

As técnicas expressivas são de grande valor no trabalho terapêutico e são ferramentas que possibilitam trazer para a superfície conteúdos internos de difícil acesso pela consciência. O simbolismo do material “lixo” que é oferecido no setting terapêutico (individual ou grupal) para receber um novo olhar e para além disso ser manuseado e ressignificado, nos possibilita oferecer também um espaço de novos questionamentos e como consequência natural novas respostas e possibilidades.

Referências Bibliográficas:
Documentário “Lixo Extraordinário” Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=61eudaWpWb8
MOREAS, E. “O que é bom para lixo é bom para poesia” – mito e poesia, sucata e arterapia. Blog Não palavra. Rio de Janeiro, 13/08/2018. Disponível em: http://nao-palavra.blogspot.com/2018/08/o-que-e-bom-para-lixo-e-bom-para-poesia.html?m=1. Acesso em 20/09/2019.
VIK Muniz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9203/vik-muniz>. Acesso em: 25/09/2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

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Sobre a autora: Patrícia Serrano


Psicóloga 

Pós-graduada em Psicologia Hospitalar pela FIOCRUZ
Atendimentos clínicos individuais
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos materiais e eventos

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

QUAL IMAGEM SOMOS?


Laila Alves de Souza - Curitiba/Rio de Janeiro
lai_ajt@hotmail.com


Estudando James Hillman resgatamos a força da imagem. A premissa "fique com a imagem" consolida os fundamentos (que não são fundamentos conceituais) da psicologia arquetípica.

Em tempos de redes sociais, principalmente com a supremacia do Instagram, vemos uma comunicação através das imagens. Se escreve pouco e se diz muito pela imagem. 

São inúmeras imagens que nos deparamos através de uma tela. Imagem da pessoa indo na academia, imagem da comida, a imagem do encontro com os amigos, a imagem do filho/sobrinho, a imagem do lugar onde se está, a imagem do momento em que gostaria de estar (o #tbt), a imagem da música que se ouve, a imagem do trabalho, a selfie e por aí vai...

Nossa alma também se expressa por imagens, já dizia Jung. Vemos nos sonhos, por exemplo, a sua expressão. As técnicas expressivas, assim como a Arteterapia, transforma o que seria a palavra em imagem. Um sintoma e um afeto, que geralmente se mostram como conteúdos confusos, por serem de natureza inconsciente, acham expressão nesses campos. A alma se revela por aí. Como enfatiza Hillman, a patologia diz mais sobre a alma do que a normalidade. Portanto, vemos o quanto somos mais imagem do que classificações. 

Este mesmo autor em seu livro "O sonho e o mundo das trevas" revela um modo diferente e mais profundo de olhar o sonho, questionando as metodologias tradicionais de interpretação do mesmo. Apresentar esse olhar não vem ao caso no presente artigo, mas o que quero salientar é uma parte em que ele menciona a importância de dar nomes e epítetos para os eus e a ações que esses eus se apresentam no drama onírico. Segundo Hillman (2013): "O modo como nós mesmos estamos sendo imaginados também pode ser revelado ao nos apelidarmos no sonho: eu-atrasado; eu-consumista; eu-do-salão-de-beleza; eu-sem-calças." (p. 104)

Também podemos revelar nossos eus e seus epítetos nas redes sociais, ou seja, queremos passar uma ou diversas imagens. Mas a questão é: qual imagem somos?

Podemos ser sim as imagens que mostramos no instagram, mas não atingimos aquilo que somos verdadeiramente. Essas imagens postadas são oriundas de um desejo do ego. Queremos mostrar para o mundo como nós queremos ser vistos: "Olha como sou bonito(a)." "Olha como sou fitness." "Olha como sou trabalhador(a)." "Olha como sou descolado(a)" "Olha como sou viajante." "Olha como sou engraçado(a)."... Vendemos nossa imagem e somos marketeiros natos nesse trabalho. Portanto, fabricamos as imagens.

A fabricação é algo que se constrói na superfície, mas não atinge as profundezas inerente da nossa natureza psíquica. Podemos então perguntar: O que está por trás dessas imagens que queremos mostrar? Daí surge o começo das verdadeiras imagens; por exemplo, atrás do "olha como sou bonito(a)" existe o eu-inseguro, e atrás desse eu-inseguro pode estar o eu-carente e por trás desse, o eu-romântico, o eu-cínico, o eu-vaidoso, o eu-potente, o eu-ingênuo... Quando entramos em relação com todas essas facetas nossas, nós chegamos mais próximo da nossa essência e não do marketing que queremos fazer.

É claro que não precisamos anunciar essa pluralidade para o mundo, mas em tempos de imagens fabricadas nós não conseguimos nem chegar perto de dialogar com nossas imagens mais profundas e, consequentemente, nem permitimos que o outro relacione seus eus "estranhos" com os nossos. Continuamos, dessa maneira, a nos relacionarmos via redes sociais, pela superfície.

Vemos então que o belo, o desejável, o bom, o desagradável ficam enrijecidos nas imagens fabricadas, e se encaixar nessas categorias vira fundamental para o processo de individuação da pessoa. Mas o individuar-se é exatamente o contrário disso, é acolher a pluralidade e a multidão de eus que habitam em nós e deixar que cada um contribua para fazer com que nós respondamos a vida da melhor maneira possível (se conseguirmos fazer o melhor).

Portanto, se você pudesse imaginar como seria o instagram (ou qualquer rede social) de sua alma, quais seriam as fotos e stories que teriam nele? Esse exercício poderá fazer com que você descubra mais tesouros e mais belezas do que ficar tentando encontrar filtros que escondam as imperfeições do seu eu-básico. 


Referência Bibliográfica:
Hillman, James. O sonho e o mundo das trevas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

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Sobre a autora: Laila Alves de Souza


Psicóloga

Pós- graduada em psicologia clínica na abordagem da Psicologia Analítica.
Atendimentos clínicos pela abordagem da Psicologia Analítica no Rio de Janeiro.
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos projetos.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

NÍVEIS COGNITIVOS E A CAIXA DO EU



Por Juliana Mello – RJ
entrelinhas.artepsi@gmail.com


A Terapia Cognitivo-comportamental (TCC) leva em consideração que os sentimentos e os comportamentos são resultantes dos pensamentos, e as consequências de nossos comportamentos reforçam esses pensamentos.  A TCC “parte da hipótese de que as emoções, os comportamentos e a fisiologia de uma pessoa são influenciados pelas percepções que ela tem dos eventos” (Beck, 2013). Podemos entender como pensamentos tudo o que passa em nossa mente, como ideias, frases, palavras, lembranças, sonhos, imagens.

Diferente de outras abordagens, na TCC não temos um inconsciente inacessível, porém nossos pensamentos são apresentados por níveis de cognição: Consciente, Sub-consciente Cognitivo e o Inconsciente Cognitivo. O Consciente são os nossos conhecimentos, raciocínio, percepção, decisão, tudo o que já sabemos sobre nós mesmos. O Sub-consciente Cognitivo é um nível abaixo, e é regido pelos pensamentos Automáticos, que ocorrem de forma rápida e imperceptível. Geralmente são pensamentos distorcidos e desadaptativos. O Inconsciente Cognitivo é dividido em duas partes: crenças intermediárias e crenças centrais. A primeira se refere a regras condicionais, do tipo “se eu não fizer x, não consigo alcançar y”. Já as crenças centrais são regras globais e absolutas, geralmente relacionadas a autoestima.  Esse nível de pensamento é que nos guiam e nos mantém nos ciclos viciosos disfuncionais.

No trabalho em Arteterapia, podemos representar os níveis de cognição com a Técnica da Caixa do Eu. Através do externo e do interno da caixa, é possível trabalhar de forma lúdica como o paciente se coloca para o mundo e para si mesmo, possibilitando um insight cognitivo do funcionamento dos seus pensamentos, que ficarão mais conscientes e menos automático. Ao identificarmos as crenças, nosso nível cognitivo mais profundo e que nos rege de maneira disfuncional, podemos flexibilizar pensamento-sentimento-comportamento, trazendo possibilidades funcionais para vivenciarmos nossa realidade.
Caso clínico:


Paciente D., 35 anos, profissional da área da saúde, começou a apresentar em seu processo de terapia angústia em suas relações interpessoais, não conseguindo criar vínculos com outras pessoas, mesmo informando não ser difícil socializar-se em um grupo. Relacionamento afetivo também era uma de suas queixas. Além disso, sentia muita ansiedade com relação a sua vida profissional, com pensamentos de que não conseguiria manter a sua independência financeira e que seus projetos nunca iriam para frente. Em suas palavras informa: “Não sei o que acontece comigo”. Foi apresentada a caixa do eu e o mesmo, incialmente, apresentou resistência. As imagens e as palavras foram sendo procuradas diretamente da revista, em um processo de algumas sessões.
Externamente foi representado o que era conhecido de si mesmo, o que não se incomodava em mostrar as outras pessoas e o que falavam para ele, isto é, a Consciência. De acordo com as perspectivas da caixa, as palavras e imagens foram colocadas de acordo com o grau de proximidade com as pessoas do qual se relacionava e o que estas conheciam dele: família, amizade, conhecidos.







Na parte interna da tampa, foi representado o Sub-consciente, que, no decorrer da terapia, já não estão mais tão automáticos. As novas escolhas estão sendo realizadas através do conhecimento de seu funcionamento e na decisão do que é possível realizar neste momento, saindo do ciclo vicioso.





O inconsciente Cognitivo ainda está sendo trabalhado, mas já é possível perceber as crenças limitantes de desvalor, desamor e não merecimento de possibilidades diferentes de vivencias, até o momento desconhecidas. Vale ressaltar que, as crenças são pensamentos com origem principalmente na infância e que são reforçadas ao longo da vida, e por isso, a reflexibilização é um processo feito passo-a-passo, e que o primeiro passo e tomar consciência de que elas existem.





A proposta posterior é que nesta caixa sejam colocados objetos representativos de situações ao longo de sua vida, para que, através de outras técnicas, seja possível a reestruturação cognitiva. Porém, o andamento da atividade será realizado de acordo com o ritmo do paciente.




Bibliografia:

BECK, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e prática. 2ª edição. Porto Alegre: Artemed, 2013.
WILLSON, R; BRANCH, R. Terapia Cognitivo-Comportamental para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books Editora, 2012.


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Sobre a autora: Juliana Mello 


Psicóloga, Arteterapeuta e Coach
Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia
Palestras e Workshop motivacionais.