segunda-feira, 29 de agosto de 2022

REFLEXÕES SOBRE O “ESTADO DE AMOR” NA ESCUTA E PRÁTICAS ARTETERAPÊUTICAS ATUAIS

 


Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

 

O ciclo de palestras mensais sustentado pelo Não Palavra e Espaço Cristântemo, adentrou em uma nova fase em 2022. Por sua regularidade de estudo continuado e frequência dos participantes, atuamente temos vivenciado este espaço como um grupo de estudos com contornos mais abertos, porém que mantém grande consistência. Nosso objetivo é colaborar para o desenvolvimento da escuta arteterapêutica de forma ampla, mas em especial, para a escuta atenta dos fenômenos coletivos da atualidade que se apresentam nas demandas terapêuticas individuais. 

Percebemos que uma das demandas tão recorrentes no decorrer de 2022, foram os caminhos trilhados para a retomada de um repertório externo –  como o retorno ao trabalho e estudos presenciais, reencontro com familiares, amigos e conhecidos em eventos sociais - e seus enfrentamentos. Desta forma, tornou-se notório dentro do setting terapêutico o reaquecimento de temáticas que envolvem os relacionamentos interpessoais. 

Para instrumentalizar a escuta terapêutica atual precisamos, retomar a literatura e atualizá-la para aquilo que se apresenta como específico de nosso tempo. Um dos embasamentos teóricos que tenho me dedicado ao estudo é a teoria da Gestalt Terapia, em especial os (tão belos e poéticos) livros da professora Beatriz Cardella (dos anos 1994 e 2020, que se mostram extremamente atuais). Neste texto trago fragmentos da palestra “Reflexões sobre o ‘estado de amor’ na escuta e práticas arteterapêuticas”, construída com fragmentos de dois livros da autora que abordam aspectos sobre os relacionamentos humanos, em diálogo com questões terapêuticas recorrentes na escuta clínica neste recorte temporal. São eles “O amor na relação terapêutica: uma visão gestáltica” (1994) e “De volta para casa: ética e poética na clínica gestáltica Contemporânea” (2020). 



O sofrimento humano 

Em seus livros, Beatriz nos apresenta sua visão sobre o sofrimento humano em suas relações:


Atualmente, o homem ocidental... Reconhece-se isolado e cheio de receios diante de seus semelhantes. Percebe que as relações e a capacidade para amar e sentir-se amado não evoluíram tanto quanto seu intelecto, seu poder e raciocínio. Busca meios e formas (nem sempre eficazes) para sentir-se amado, aceito e valorizado, de dar sentido a suas realizações...

No contexto terapêutico, observo que as dificuldades relativas à vivência do amor estão frequentemente presentes... Observo que quanto mais carentes de amor e aceitação alguns clientes se apresentam, mais isolamento, desconfiança e descrença manifestam em suas relações, que ficam comprometidas em sua qualidade. Muitos não se sentem amados, percebem-se incapazes de amar, de discriminar e expressar sentimentos, além de desconhecerem a experiência de entrega e plenitude em seus relacionamentos.” (CARDELLA, 1994, 13-14)

 

“Observo no cotidiano da clínica as formas do sofrimento produzidas pela contemporaneidade; muitos sofrem ao viverem num mundo excessivamente competitivo, de relações superficiais e de dilaceramento dos vínculos humanos; testemunho o anseio de meus pacientes por viverem relações significativas, amorosas, de confiança e de intimidade...

A clínica revela que muitas pessoas estão ávidas e carentes de vínculos, porém pouco disponíveis e preparadas para a desarrumação que uma verdadeira relação certamente provoca. Amar e ser amado implica consentimento para ser perturbado.” (CARDELLA, 2020, 34) 

As relações humanas são um tema recorrente da escuta clínica desde sempre. Mas, o que temos de específico na escuta atual? A clínica nos mostra que no convite à um retorno processual à extroversão, alguns pacientes têm relatado sintomas de ansiedade, algum nível de evitação/Fobia Social e até mesmo sintomas psicossomáticos às vésperas do encontro com um outro, além da intolerância ao diferente. Ao observarmos o coletivo, percebemos um campo propício para fenômenos de grupo autodestrutivos, aos quais são relatados em sessões psicoterapêuticas. 

Nesta contramão, Beatriz Cardella discorre sobre o “estado de amor”:

 

Concebo o amor como um estado... O amor é a polaridade oposta do egocentrismo... Em estado de amor, podemos nos apresentar disponíveis ao outro, porém, o outro só poderá compartilhar o amor a partir do próprio estado de amor. Dessa forma, o amor pode ser recebido apenas em estado de amor, para ser percebido, sentido ou vivido.

O estado de amor permite-nos apreciar as qualidades e potenciais de outra pessoa e aceitar suas limitações como um ser em aprendizado e crescimento. O amor é de natureza incondicional, o que implica a capacidade de amar o diferente e não apenas o semelhante. Isso não significa permitir ou concordar totalmente com as atitudes e os modos de ser do outro, mas sim aceitar as diferenças. (CARDELLA, 1994, 16-17)

 

O amor manifesta-se, então, como uma atitude diante da vida, do mundo, da humanidade, do desconhecido e do mais próximo. (CARDELLA, 1994, 22) 

O processo de autoconhecimento vivenciado na psicoterapia colabora para que o sujeito se reconheça em suas dificuldades para amar e até mesmo em comportamentos neuróticos que o atrapalham no desenvolvimento de relações afetivas saudáveis. Cardella nos descreve estes mecanismos pela perspectiva da Gestalt terapia:

 

Os obstáculos para o desenvolvimento da capacidade de amar são as atitudes, as crenças, os sentimentos, e os mecanismos de defesa que ocorrem na fronteira de contato entre o indivíduo e o meio...

Para falar em amor, temos de considerar o contato, que ocorre na fronteira do ego, onde o indivíduo diferencia-se dos demais. A fronteira de contato não é fixa, assim o indivíduo saudável deve poder diferenciar-se do ambiente e relacionar-se com ele num ritmo fluido de aproximação e retraimento, na fronteira de contato.

Quando o indivíduo não consegue discriminar o que é “si mesmo” e o que é o outro, cristaliza-se mais próximo ou mais afastado da fronteira, utilizando-se de mecanismos de evitação do contato que são considerados disfunções, ou distúrbios de contato. Essas disfunções de contato caracterizam-se por grande rigidez ou grande permeabilidade da fronteira, o que leva o indivíduo ou ao isolamento, ou à perda da capacidade de diferenciação e identificação. Em outras palavras, o indivíduo confunde-se com o ambiente ou isola-se dele. (CARDELLA, 1994, 41-42)

 

O amor implica a capacidade de estabelecer limites entre si e o outro, um contato de boa qualidade de retração, além de espontaneidade e autenticidade. (CARDELLA, 1994, 16-17) 

A autora nos lembra ainda da fala de Fritz Perls, grande teórico da Gestalt Terapia:

 

“o contato com o meio e a fuga dele, esta aceitação e rejeição do meio, são as funções mais importantes da personalidade global”. Segundo o autor, a neurose surge quando o indivíduo é incapaz de modificar suas formas de interação e cristaliza-se num modo de atuar obsoleto, afastando-se de suas necessidades, como por exemplo, a necessidade de contato com outros seres humanos. (CARDELLA, 1994, 42) 

Aqui cabe a reflexão sobre como a vivência do isolamento social e/ou a redução de repertório tão acentuada, ao longo de dois da pandemia, contribuíram para “cristalizações” de um modo de atuar nas relações, aos quais já se tornaram obsoletos. Entretanto, a clínica nos mostra a dificuldade que alguns sujeitos estão encontrando para a flexibilização de seus mecanismos de evitação por conta da sensação de medo: 

... para desenvolver seu potencial amoroso, o indivíduo necessita romper a evitação e confrontar os medos subjacentes que o mantêm, cristalizando comportamentos e atitudes que não favorecem o livre fluxo do crescimento individual e relacional...

O momento em que o cliente se depara com os próprios medos é geralmente vivenciado com muito sofrimento e angústia, já que está “despido” das formas de proteção obsoletas usadas até então...

[Se os medos não forem] resolvidos, apenas camuflados, as gestaltlen permanecem inacabadas, tornando repetitivos os comportamentos em busca de satisfação. Assim, as necessidades de proteção e segurança permanecem sempre prioritárias na hierarquia das necessidades da pessoa, o que impede que ela estabeleça relacionamentos de entrega plena. (CARDELLA, 1994, 49-54) 

Este tamanho enfrentamento só é possível a partir do vínculo terapêutico. A profunda relação que se estabelece entre terapeuta e paciente é, de fato, o campo possível e necessário para que este experimente algum caminho de “cura”. A partir desta relação é possível fazer ensaios de espelhamentos, ressignificações e novos padrões de relacionar-se, que irão reverberar nos vínculos estabelecidos pelo sujeito, para além do setting terapêutico.

 

Os sofrimentos humanos acontecem no entre, nos encontros e desencontros vividos ou nos encontros não acontecidos. A cura é também fenômeno do entre, concebida em Gestalt Terapia como a restauração da abertura, do ritmo, do fluxo, do diálogo, da criatividade, e dos laços que nos unem/diferenciam do outro, processo de crescimento, atualização e realização da singularidade.

A relação terapêutica pode ser a experiência matriz da abertura... (CARDELLA, 2020, p 103)

 

A cura em Gestalt Terapia, está intimamente ligada com relação, com restauração ou constituição do Diálogo. É o que chamamos de cura pelo Encontro...

O que cura na terapia é a relação em si, é o entre. É o “sou amado, logo existo”. (CARDELLA, 2020, p 119) 

Diante da reflexão exposta, nasce a pergunta: como podemos colaborar para um resgate do “estado de amor” dentro do nosso campo de influência (profissional, mas também pessoal)? 

Grupos arteterapêuticos 


Dentro do repertório do arteterapeuta, contamos com a modalidade terapêutica grupal, sendo este um espaço para que o sujeito caminhe em seu processo de autoconhecimento na presença do outro. O campo de um grupo terapêutico é bastante fértil para dinâmicas como ver e ser visto, ouvir e falar, dar e receber, transmitir e aprender, demonstrar e observar, contribuir e agregar. Este fluxo de trocas colabora para o exercício da regulação entre o eu e o outro. 

Entretanto, como especificidade, o grupo arteterapêutico oferece a arte como mediadora desta contínua regulação, facilitando o enfrentamento do medo e os mecanismos de defesa que ocorrem na fronteira de contato entre o indivíduo e o meio. Dentre suas propriedades, a vivência com a arte proporciona uma “experiência estética”, experiência que desperta a sensação de belo, de enlevo, sensibilidade, quebra de resistências, faz contato com dimensões emocionais e intuitivas, alterando o estado psicológico e a disponibilidade à uma abertura de si mesmo. Para Viktor Frankl, a arte nos coloca em contato com nossa Dimensão Noética, a dimensão psíquica da espiritualidade (não necessariamente religiosa) e sentido de vida. 

Desta forma, concluímos que um grupo arteterapêutico nos coloca em experiência com a arte e seus potenciais sensíveis e espirituais, na presença do outro. Compreendemos, a Arteterapia como um grande potencial para promover espaços de “cura” pelo encontro com o outro e com a arte, em grupos arteterapêuticos. Colabora assim para o resgate do “estado de amor” em tempos em que o desamor está na ordem do dia.

Concluo as belas palavras de Beatriz: 

O amor, capacita-nos a perceber e participar da existência do outro; permite-nos transcender nossas limitações e é a grande força geradora do crescimento pessoal, através da relação com outros seres humanos. (CARDELLA, 1994, 19) 

Que a Arteterapia nos ajude a sustentar espaços de “estado de amor”!

 

Referências bibliográficas:

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. O amor na relação terapêutica: uma visão gestáltica. Summus Editorial, SP.  1994.

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. De volta para casa: ética e poética na clínica gestáltica Contemporânea. Editora Amparo, SP. 2020

Beatriz Helena Paranhos Cardella

_________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

TÔ VIVO!

 


Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

Instagram: @claudia_abe_

 

“A Morte” – Este tema é confortável para você? Por que será que muitas pessoas o evitam, temem ou morrem de medo? Você teria coragem de abordar esse tema em uma sessão arteterapêutica junto ao seu cliente? Estaria preparado para o que poderia surgir do seu cliente, em suas produções e falas?

Jung, quando fala da morte, mostra nela a beleza que, por vezes, não se consegue vislumbrar. Ele compara o medo que o jovem tem da vida com o mesmo sentimento que o idoso tem da morte, mas de uma forma inversa. Para ele, a morte na velhice, assim como a vida na juventude, é “uma meta, uma consumação”. (ANDRADE, 2017, p. 194)

E se você percebesse que seria a hora de lhe dar voz, de criar um espaço onde ele poderia se expressar, onde poderia colocar para fora suas emoções e até deixaria fluir aquilo que talvez o incomodasse, como você agiria?

Bem, eu percebi e assim agi.

O papel da Arteterapia é levar a esses idosos a possibilidade de expressarem as suas angústias e vivências, medos, perdas e alegrias. (COSTA, 2017, p.163)

Levou pouco mais de 50 anos para eu descobrir que meu pai trabalhou como servidor público, encarregado no setor de benefícios em casos de pensão por morte e auxílio funeral, antes de ser dentista. Foi por meio das atividades que fiz e faço com meu pai que ele me contou como trabalhava, com riqueza de detalhes. Falava que era muito organizado e tinha todas as orientações por escrito, numa folha de papel, para entregar ao familiar, no caso de falecimento do ente querido. Explicava como dar entrada na papelada para receber o auxílio funeral a que tinha direito por parte do servidor público falecido na ocasião. Como ele mesmo me contou, às vezes a viúva chegava, ele a cumprimentava, dava os pêsames enquanto ela chorava, explicava o procedimento, entregava o papel com as orientações e pedia para que se sentasse ali na sala e lesse cuidadosamente o que estava escrito para ver se não havia nenhuma dúvida antes de ir embora.

Esse é um dos motivos pelo qual ele assegura não ter problema em lidar com o assunto morte. Trata-a com naturalidade. Há anos ele já deixou separado o seu kimono (roupa tradicional japonesa) para o seu funeral. Seu desejo em ser cremado segue a tradição dos meus familiares de origem nipônica.

Voltando à nossa sessão arteterapêutica, desta vez eu trouxe como tema: O que eu quero e o que eu não quero ver (lembrando que meu pai ficou viúvo em 2017 e esta sessão ocorreu em 14/01/2019).

Entreguei-lhe uma folha branca A3 com o desenho de um círculo. Pedi para que ele dividisse o círculo em 2 partes (não utilizou régua), para ter campo para cada uma das reflexões citadas anteriormente. E canetinhas coloridas...escolheu a caneta preta para escrever.

“Eu não tenho resposta para isso”. – Me disse referindo-se que não conseguia preencher a parte do que queria ver.

No campo inferior, sobre o que não queria ver, descreveu os tipos de morte ocorridas e suas causas.

 


 Título: “O Destino de cada um” 

“Morte – Acidental: queda, atropelamento por veículos na rua e estradas, por doença degenerativa, vítima de roubo, por ser confundido com alguma pessoa que causou uma desgraça numa família, por falta de recurso monetário, plano de saúde, ou finalmente solidão, solidão”.

No caso dos idosos, há de se convir que a ocorrência de vicissitudes como morte de entes queridos ou contemporâneos com os quais havia ligações de amizade, ruptura definitiva com a capacidade produtiva, perda da autonomia econômica, separação familiar, dentre outras, são razões fortes para a quebra de vínculos com a sociedade. Impactos como os descritos e muitos outros de mesma natureza podem direcionar o velho a um isolamento, que trará além de dificuldades emocionais, doenças crônicas advindas da solidão e tristeza. (MACHADO, 2017, p.20)

Pai – “Põe aí: Por eu ter trabalhado diariamente em contato com familiares (dos falecidos), eu criei em mim uma certa indiferença; porque eu trabalhava diariamente com a morte, eu adquiri uma certa indiferença com esse assunto”.

Palavra de Encerramento da sessão: “Morte é o fim”.

Terminou a sessão dizendo: “Estou bem e não tenho medo da morte, não tenho medo de morrer. Tô bem”.

As transformações no campo biológico, que acarretamos em nossos organismos com o passar dos anos são muitas e inevitáveis. Algumas silenciosas, outras bem visíveis, mas todas, sem exceção, nos trazem a certeza da vulnerabilidade da vida, da mortalidade que nos bate à porta e, principalmente, da efemeridade dos momentos. Viver a vida com saúde, principalmente no que diz respeito ao lado psicológico e social, nos ajuda a retardar ou, quem sabe, até burlar, as regras da natureza; e, mesmo com a degeneração física proeminente, fazer com que o tempo passe por nós desgastando a matéria de tal forma que não atinja aquilo que guardamos na subjetividade da alma. (MACHADO, 2017, p, 20)

Batemos um papo após o término, para me certificar que ele estava saindo bem deste encontro.

É sabido que a Arteterapia favorece o contato com conteúdos emocionais inconscientes, ampliando as possibilidades de ressignificação de vivências e conteúdos internos, favorecendo a melhoria da qualidade de vida. (MONTIJO, 2017, p.129)

E assim, continuamos juntos nessa caminhada. Ele mantendo seu bom humor. Quando chego na casa dele e pergunto: “Pai, como você está?” – Ele me responde: “Tô vivo!” e dá um sorriso !!!

 

Nota 1: Alguns dos trabalhos do meu pai e da minha tia materna farão parte de uma exposição na UMAPAZ, Parque do Ibirapuera, São Paulo, no período de 5 a 16 setembro 2022 – “Mostra UMAPAZ: Exposição Yoshio Abe & Luciana Orfei: Arte na Melhor Idade”. (link abaixo).

Nota 2: UMAPAZ – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Prefeitura do Município de São Paulo. Av. Quarto Centenário, 1268, Jardim Luzitânia, São Paulo.

 

Bibliografia:

ANDRADE, Raissa Guimarães de. Luto na maioridade. In: Criatividade e envelhecimento: ressignificação da vida. Celso Falaschi, Otília Rosângela Souza (orgs). Campinas (SP): Labour Editora, 2017.

COSTA, Maria Helena Ribeiro. Poesia na solidão do terceiro ato. In: Criatividade e envelhecimento: ressignificação da vida. Celso Falaschi, Otília Rosângela Souza (orgs). Campinas (SP): Labour Editora, 2017.

MACHADO, Edith Suely. Velhice e criatividade. In: Criatividade e envelhecimento: ressignificação da vida. Celso Falaschi, Otília Rosângela Souza (orgs). Campinas (SP): Labour Editora, 2017.

MONTIJO, Cristiane Alessandra. Registro fotográfico e ressignificação de histórias de vida. In: Criatividade e envelhecimento: ressignificação da vida. Celso Falaschi, Otília Rosângela Souza (orgs). Campinas (SP): Labour Editora, 2017.

Internet:

Mostra UMAPAZ: Exposição Yoshio Abe & Luciana Orfei: Arte na Melhor Idade:

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/meio_ambiente/umapaz/escola_municipal_de_jardinagem/programacao_mensal/index.php?p=332493 Acessada em 18/08/2022.

Sobre a UMAPAZ:

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/meio_ambiente/umapaz/sobre_a_umapaz/index.php?p=243 Acessada em 18/08/2022.

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

18- A Massa Caseira como Recurso Arteterapêutico – 18/07/22

17- As Bailarinas de Degas – 16/05/22

16- Degas e as Mulheres – 21/03/22

15- Ah, o Tempo... – 14/02/22

14- As Cores em Marilyn Monroe – 13/12/21

13- Um Desafio – 11/10/21

12- O Branco no Branco – 23/08/21

11- Tudo Começa em Pizza – 28/06/21

10- Um Material Inusitado – O Carimbo de Placenta – 10/05/21

9- As Vistas do Monte Fuji – 22/03/21

8- É Pitanga! – 07/12/20

7- O que é que a Baiana tem? – 26/10/20

6- Escrita prá lá de criativa – 27/09/20

5- Fazer o Máximo com o Mínimo – 01/06/20

4- Tempo de Corona Vírus, Tempo de se reinventar – 13/04/20

3- Minha Origem: Itália e Japão – 17/02/20

2- Salvador Dalí e “As Minhas Gavetas Internas” – 11/11/19

1- “’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19

_______________________________________________________________

Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe

 


Arteterapeuta e Farmacêutica-Bioquímica

Neste momento descobrindo a pintura em aquarela, as mandalas, a natureza, a história e a arte.

Meu contato pelo Instagram: @claudia_abe_

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

COLANDO O CAOS E RESGATANDO MEMÓRIAS



Por Rosangela Nery - RJ

rosanery1975@hotmail.com

              Há 04 anos participo de um projeto que atende as comunidades ribeirinhas no Rio Negro, na região de Manaus.  Trata-se de um grupo de voluntários que se reúne, mora por 10 dias em um barco, dorme em redes e se disponibiliza à atender as demandas das comunidades, sejam elas de saúde, construção civil, montagem de horta comunitária, dentre outras. Normalmente passamos 10 dias acolhendo e sendo acolhidos por um povo afetuoso e cordial. As maiores demandas sempre são por atendimento medico e odontológico para adultos e crianças, porém, dessa vez, do dia primeiro à 11 de julho de 2022, levamos atendimento psicológico também.



              É importante ressaltar que nos deparamos com uma comunidade de 68 famílias devastadas pela pandemia e muito castigada pela exploração do trabalho manual na produção de espetinhos de churrasco, feitos de madeira e vendidos para Manaus por um valor ínfimo. Não é possível atribuir a situação de caos da comunidade somente a esse fato, porém, é necessário cuidar de todo esse caos que, como consequência, tem o uso abusivo de álcool e outras drogas, violência doméstica de praticamente todas as mulheres (incluindo adolescentes), quadros depressivos graves com a presença de automutilação, atrasos na linguagem de crianças com 7 anos ou mais e outros.

Enquanto profissional da psicologia, fiquei pensando em como abordar e acolher todas essas demandas e minimamente contribuir para produção de saúde   daquelas famílias, principalmente no que tange à saúde mental.

É pela ARTE!

Tinha na bagagem uma caixa com recortes de revistas, pincéis, lápis de cor, tintas diversas, folhas coloridas e muito desejo de estar perto delas, entendi que era o que precisava e assim lá fui eu.

 


Dentre muitas experiências, hoje quero dividir a história de Dona R., 55 anos, mãe de 9 filhos, sendo que somente 5 estão vivos. Conheci Dona R. na feira de saúde que nossa equipe prepara, para falar sobre alimentação e outros remédios da natureza.  Dona R. me vê e diz: “Minha filha, eu tô muito agoniada, posso ir embora?” Na mesma hora disse a Dona R. que ela podia ir sim, mas, se quisesse conversar sobre a sua “agonia”, eu estava disponível. Ela foi embora e não falou mais nada. Terminamos a feira e no caminho de volta para o barco encontrei M.I, filha de Dona R. e decido perguntar o que ela achava se eu fizesse uma visita à sua mãe. M.I. me diz que certamente a mãe me receberia, mas, ressaltou que ela poderia não me dar muita atenção, pois, a mesma se dedica muito ao trabalho. Rapidamente fui até a casa de Dona R. e perguntei se poderia voltar no outro dia para bater um papo, ela disse que sim e que eu fosse às 14h.

Lá fui eu com minha caixa de imagens diversas, cola, papéis coloridos e tesoura.

Afinal, a  técnica da colagem de apresentação tem sido minha parceira nos atendimentos do consultório e também na unidade de saúde que trabalho.

Segundo Philippini (2009), a colagem permite ao paciente um campo simbólico de inúmeras possibilidades de estruturação, integração, organização espacial e descoberta de novas configurações

A colagem tem sido um recurso de muita potência, onde as palavras não dão conta de expressar os sentimentos. Ouvir os relatos dos pacientes após as produções criativas, tem colaborado na interpretação e ressignificação dos fatos da vida, e era isso que Dona R. precisava naquele momento, pois, a dor de perder seus quatro filhos  de forma brutal, apesar de já ter passado muito tempo do ocorrido, ainda estava muito latente. E como ela mesma disse chorando: “Ainda dói muito!!!”

O PROCESSO

Assim que cheguei, Dona R. me fala: “Achei que não vinha.”. Ela estava com dois filhos, um vizinho e todos trabalhando na produção de “espetinhos” de madeira. Perguntei se poderíamos conversar a sós e naquele momento ela se levantou, deixou o trabalho e me levou para dentro de sua casa. Sentamos no chão, apresentei o material para Dona R., e pedi que ela me contasse um pouco sobre ela através das imagens. Preciso dizer que os olhos de Dona R. brilharam de forma diferente ao ver os papéis coloridos. Enquanto olhava as imagens, Dona R. foi me falando do quanto gostava de trabalhos manuais, do quanto gostava de recorte e colagem, porém, há tempos que não fazia isso. Lembram que cheguei na casa de Dona R. ás 14h? Pois é! Já eram 15:30 e Dona R. havia produzido muito, mas não eram “espetinhos” e sim uma “colagem” de parte da sua vida e uma parte que a mesma nunca conseguira falar até aquele momento. Que potência! Finalizamos o trabalho às 15:50 e perguntei a Dona R. se eu poderia voltar no outro dia no mesmo horário, ela me disse que sim e pediu desculpas por não ter uma mesa para sentar.



Atendi Dona R. por mais 4 dias consecutivos e o que pude recolher enquanto profissional é o poder de cura da arte! Um dia antes do meu retorno para o Rio de Janeiro, ao me despedir de Dona R. recebi um abraço,  um remo de madeira pintado por ela e toda energia dessa mulher gigante que resiste às mais duras provas que a vida pode dar à uma mãe: perder um filho.

Foi preciso pensar em como dar suporte para Dona R. após a minha saída do processo. Porém, àquela altura da nossa relação, Dona R. já estava familiarizada com os materiais e ficou muito feliz quando eu disse que ela poderia ficar com a cola, as folhas coloridas e que quando se sentisse “agoniada” poderia escrever, colar e redescobrir uma forma de continuar.

Ao final daquele último dia de atendimento, como faço no consultório, perguntei à Dona R. se gostaria de  ficar com sua produção e rapidamente ela me disse: “Rosangela, você pode colar bem aqui na minha parede?” Eu disse que sim e enquanto fazia a colagem, seu neto entrou e perguntou o que era aquilo, ela respondeu: “Minha vida!”

Foi difícil segurar as lágrimas.


* As imagens publicadas foram altorizadas por Dona R.

Referência Bibliográfica:

PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades, Rio de Janeiro, WAK Editora, 2018

____________________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Rosangela Nery



Psicóloga,  especialista em Ciência, Arte e Cultura na saúde pelo IOC - Instituto Oswaldo Cruz - FIOCRUZ  e  em Saúde Mental e atenção Psicossocial pela ENSP - Escola Nacional de saúde pública - FIOCRUZ.

Estudante de Arteterapia no Instituto Faces. 

Atendimento individual à adolescentes e adultos no Espaço Recriar-se, RJ.

Diretora do Núcleo de desinstitucionalizacão Franco da Rocha no Instituto Municipal de Assistência a saúde  Juliano Moreira/RJ.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

PRIMEIROS DESAFIOS NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL



Por Simone Aguiar – MG

@gayaarteterapia

 

Há 4 anos atrás, ao me formar em arteterapia, estava com a mente cheia de ideias, uma vontade imensa de levar os recursos terapêuticos através da arte para as pessoas.  Na cidade onde moro, Nova Lima, bem pertinho de Belo Horizonte, até onde sabia, não havia arteterapeutas atuantes. Então comecei um movimento, ainda tímido, para divulgar a prática na cidade.

Durante um workshop, conheci uma participante que teve uma vivência muito profunda e ela, alguns meses depois, convidou-me para participar de uma feira que estava promovendo no condomínio em que morava, para que eu pudesse divulgar a arteterapia. Aceitei na hora, claro! Afinal, meu objetivo ainda estava firme.

Passado o entusiasmo, veio a grande pergunta: como vou divulgar a arteterapia em uma feira? Arteterapia é uma abordagem terapêutica, um processo, não é algo que eu possa expor em um estande e a pessoa comprar e levar para casa. Aí bateu um leve desespero... e um dilema, porque eu não queria desistir, mas ao mesmo tempo não queria banalizar o processo. Então entreguei e deixei que a intuição pudesse emergir. Quando abrimos as portas da intuição e confiamos, podemos ter a certeza que ela fará a sua parte. E fez! Arteterapia é vivência, é processo, então seria isso que eu levaria para a feira. De uma forma bem simples, levaria algo na prática que pudesse, de maneira rápida, mostrar a sua potência.

Fiz a impressão de 4 imagens: uma porta entreaberta, uma árvore frondosa, “O Grito”, de Munch e uma imagem com duplicidade de sentido, no tamanho 13x18cm e fui para a feira.

 





Chegando lá, dividi o estande com a pessoa que me convidou e, sobre a mesinha, coloquei algumas lembrancinhas para entregar aos visitantes, meus cartões e flyer, mas não deixei as imagens à vista. Os olhares eram de estranheza e ao mesmo tempo, de curiosidade. Aos poucos, algumas pessoas se aproximaram, querendo saber o que eu estava oferecendo. Procurava não falar muito, pois as palavras nem sempre conseguem explicar o que é sentido, então logo apresentava a proposta da prática. Escolhia uma imagem e mostrava para a pessoa. Eu mesma não esperava as reações que se apresentaram. Algumas pessoas tinham uma reação de susto, outras sorriam, outras demoravam o olhar sem dizer nada e ou só soltavam um “Nossa!” ou “Uau!”. E quando eu pedia para dizerem o que sentiram ou o que as imagens lhes remeteram, cada uma dizia algo diferente de uma mesma imagem, como lembranças, associações, ou sensações diversas. Cada um tem a sua história, os seus próprios conteúdos que foram sendo construídos ao longo da vida. A cada momento, o estande era mais e mais procurado, algumas pessoas demoravam um pouco mais, querendo conversar e expressar as impressões. Nesse momento eu tive a certeza de que tinha alcançado o meu objetivo.

Essa experiência foi muito importante para o meu processo dentro da arteterapia. Pude ver que não é necessário um grande aparato para tocarmos a alma de alguém e que podemos atuar em qualquer lugar. Os recursos da arte são poderosos, sejam quais forem, pois atuam diretamente nas emoções, memórias, sentimentos. O arteterapeuta, com sua sensibilidade e estando com o coração aberto, consegue ter um olhar e uma escuta para além das palavras ditas ou não ditas. Esse é o trabalho. Esse é o objetivo.

_______________________________________________________________________________

Sobre a autora: Simone Soares de Aguiar


 

Sou natural de Belo Horizonte, atualmente resido na cidade de Nova Lima/MG.

Fiz minha graduação em Engenharia Elétrica, pela PUC Minas, em 1991. A partir daí iniciei uma caminhada dentro da engenharia, especializando-me em projetos de iluminação e análise de sistemas, mas incessantemente ouvia uma voz interna me chamando para a área da psicologia. Sempre gostei de arte e acreditava em seu poder curativo. Foi assim que conheci a arteterapia em 2017. Fiz a especialização na Integrarte, em Belo Horizonte e atualmente sou especializanda em Psicologia Analítica, também pela Integrarte, com a finalização prevista para final de 2022.

Idealizadora do atelier Gaya Arteterapia, com sede em Nova lima, onde atuo com a arteterapia, individual e em grupo, presencial e online.

Facilitadora do grupo A Arte do Encontro, grupo arteterapeutico que acontece no último sábado do mês, presencial, no Gaya Arteterapia.

Idealizadora do projeto Vamos Poetar!, que acontece todas às terças-feiras, às 7h20, com a leitura de uma poesia, que tem por objetivo levar um pouco de leveza e inspiração para as pessoas no início do dia e da semana. As lives duram de 5 a 10 minutos e são feitas pelo Instagram do Gaya Arteterapia.

Participei do Festival Reverbera, em Nova Lima, de iniciativa da Prefeitura Municipal, com a apresentação de um workshop.

Participei do XIV Congresso Brasileiro de Arteterapia em 2022, com a apresentação em mesa temática, com o trabalho “O que existe do outro lado?” e o workshop “Qual é a sua obra?”.

Integrante do grupo Entrelinhas Arteterapia. Composto por 4 arteterapeutas, realizamos oficinas presenciais e online e, atualmente, estamos promovendo mini cursos, palestras e oficinas online, em parceria com o Não Palavra e outros profissionais, com o objetivo de proporcionar a formação continuada do arteterapeuta e do estudante de arteterapia. Com o Entrelinhas, já participei do Festival World Wellness Weekend e de um workshop na Editora Aletria, ambos em 2019, além de workshops presenciais. O Entrelinhas também tem feito lives mensais com temas relacionados à arteterapia e autoconhecimento.

 

Instagram: @gayaarteterapia

                    @entrelinhasarteterapia