segunda-feira, 28 de maio de 2018

SÉRIE ARTETERAPIA CLÍNICA: O ARTETERAPEUTA, UM PROMOTOR DE ENCONTROS



Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

Ao longo de 2017 me dediquei a pensar, escrever e compartilhar sobre a modalidade clínica dentre as práticas da Arteterapia. Destas articulações nasceu o ciclo de palestras “Série: Arteterapia Clínica”, ao qual sigo oferecendo em diversos espaços ao longo de 2018. 
Este ciclo nasceu a partir da fala de uma aluna: “Eliana, como saber quando devo usar cada material em um atendimento em Arteterapia? Quando saberei que devo usar colagem, pintura ou modelagem?” 
Esta pergunta saltou aos meus ouvidos até porque  percebi que não era a primeira vez que a ouvia, nos espaços de cursos, palestras e supervisões. De fato, a raiz da resposta se encontra no estudo aprofundado sobre as linguagens dos materiais, uma das disciplinas básicas do curso de formação em Arteterapia. Entretanto, o refinamento para a escuta clínica arteterapêutica é algo que é construído com o tempo de estudo e prática, pois se difere das modalidades semi-estruturada ou estruturada, típicas de vivências pontuais ou propostas breves, oferecidas principalmente para grupos: aqui, parte do arteterapeuta um disparador inicial para que o paciente/cliente projete de si e crie a partir deste "estímulo externo". Na clínica, o arteterapeuta recebe um paciente, ouve a demanda daquele sujeito e a partir desta escuta aciona algum material para oferece-lo, sendo este um facilitador expressivo e mobilizador de atos criativos, na arte e na vida.
Acatei o chamado desta e outras alunas e me dediquei a temática da clínica da Arteterapia em suas especificidades, até mesmo porque delinear a tênue fronteira entre ser uma psicóloga que eventualmente utiliza das técnicas expressivas e ser uma arteterapeuta propriamente dita é uma das questões que desenham minha identidade profissional. 
Neste pensamento, tenho usado a metáfora do arteterapeuta como um grande maestro que sustenta uma variedade de instrumentos, cada um em sua singularidade e potencial. Em uma orquestra temos os instrumentos de cordas, de sopro, de percussão, sons graves, agudos, de base, de solo... Cabe ao maestro ser conhecedor de cada um destes instrumentos para que em sua regência mantenha-os em harmonia e saiba o momento de fazer com que um deles, a partir do que lhe é próprio, no momento oportuno, seja o solista ou que permaneça no fundo dando sustentação aos outros. 
Assim se dá um setting arteterapêutico. A parti da entrada do 3º elemento – o material – na dinâmica relacional, uma gama de estímulos se abre nos campos verbal e não verbal, objetivos e subjetivos, conscientes e inconscientes. Neste contexto de uma escuta ampliada, própria do arteterapeuta, de fato a pergunta é estrutural: Como manejar os materiais e as técnicas expressivas de forma consciente e consistente? Quando investir em cada material/técnica? 
Naturalmente esta escolha não se dá de forma aleatória ou "irresponsável". Afinal, a natureza do material oferecido agirá de forma específica no autor:
“Todas as características dos materiais atingem diretamente quem usa, causando determinadas emoções que serão acolhidas na relação terapêutica. Entender essas características e as necessidades de cada pessoa é a chave para saber escolher o material adequado à situação.” (BRASIL)
Desta forma, cabe ao arteterapeuta o estudo teórico e prático das propriedades de cada material e linguagens da arte, pois cada uma delas possui suas “forças próprias”:
“Não basta comparar os procedimentos das mais diferentes artes: esse ensino de uma arte por uma outra não pode dar frutos se permanecer unicamente exterior. Deve ajustar-se aos princípios de uma e de outra. Uma arte deve aprender de outra arte o emprego de seus meios, inclusive os mais particulares, e aplicar depois, segundo seus próprios princípios, os meios que são só dela e somente dela. Mas não deve o artista esquecer que a cada meio corresponde um emprego especial que se trata de descobrir... Somos levados assim a constatar que cada arte possui suas forças próprias. Nenhuma das forças de outra arte poderá tomar seu lugar.” KANDINSKY
Aqui se da um ponto de responsabilização do arteterapeuta sobre a seriedade de seu oficio: aquele que oferece o material que promove o que Fayga Ostrower chamou de “intensificação do viver” do sujeito que cria. 
Mas a escolha deste material não partirá do olhar voltado para o próprio terapeuta mas a partir da escuta do sujeito que fala. A prática clínica da Arteterapia nos mostra que o paciente/cliente em meio ao seu discurso já “pede” o material de forma intuitiva. Ao arteterapeuta cabe a tarefa de saber ouvir este pedido, identificar o material e oferecer a técnica expressiva, contextualizada às demandas trazidas através de metáforas entre os conteúdos expressados e os materiais.
Cabe sublinhar ser estrutural que a analogia feita entre a demanda terapêutica e o material seja acessível e compreensível para o paciente/cliente pois somente assim ele poderá investir de si de forma plena para aquele agir. 
Concluímos que faz-se essencial a instrumentalização do arteterapeuta clínico quanto à dinâmica do setting arteterapêutico para o refinamento de sua escuta e manejo das linguagens dos materiais, investindo em uma profunda intimidade teórica e vivencial de suas propriedades e potencias. Somente desta forma poderá desempenhar seu trabalho de forma consistente em promover um encontro entre o sujeito que fala e o material pertinente, facilitador do caminho de autoconhecimento e processo arteterapêutico daquele que cria, na arte e na vida.

Atendendo este chamado, sigo engajada em compartilhar este fluxo de reflexões e articulações sobre a Arteterapia Clínica em palestras, supervisões, grupos de estudos e em textos para este blog. 

 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:
BRASIL, Cláudia. Cores, formas e expressão: Emoção de lidar e Arteterapia na Clínica Junguiana
KANDINSKY, Wassily. Do Espiritual na Arte
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação
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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga. 
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia.
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

LEONILSON – Bordando a vida, as dores e os amores


Por Tania Salete – RJ, atualmente residindo em Fortaleza CE
taniasalete@gmail.com

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A CASA COMO METÁFORA DO EU: UMA PROPOSTA ARTETERAPÊUTICA


Por Fabiana Juvencio – Vitória ES
fabiana.decore@gmail.com


A ponte para esse trabalho veio a partir da minha própria experiência familiar com a “casa”, casa como expectativa de lar e as experiências profissionais com as casas dos meus clientes e suas necessidades e conflitos. Cada um de nós absorve nossas bagagens a partir do que vivenciamos em casa, com nossos entes queridos e é nessa casa que simbolicamente acumulamos nosso conhecimento de vivências dentro de cada momento da vida, o que mudamos, o que trocamos, o que acumulamos, o que nos desfazemos, o que reformamos.

A casa como lar pode nos direcionar para um local harmônico onde se respeite o “espaço” de cada um, tanto o espaço físico como o espaço emocional, nos libertando de esferas condicionantes e crenças limitantes que carregamos ao longo do tempo. “O lar é um espaço único, onde nos desarmamos e vivemos de modo autêntico. Por isso, é essencial ter as necessidades atendidas nesse espaço para sermos felizes” segundo Angelita Scardua.
Minha experiência de vida e pessoal no contexto casa
Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há coisas para consertar. Isso também é estilo de vida.

Há casas em que tudo o que é aparente está em ordem, mas reina confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto.

Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas pequenas onde cabem toda a família e os amigos, há casas com lareira que se mantêm fria, há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida.
Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto, onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes.

A minha casa na infância não era o melhor lugar do mundo de se viver, ainda estou (re)descobrindo se há alguma coisa boa, pois o que ficou, honestamente falando, foram as vivências mais tristes, me faltou um sentido de pertencimento. Erroneamente eu me enganei durante muito tempo em acreditar que a beleza e a estética dariam um sentido e preenchimento ao vazio do meu peito. Talvez seja por isso que veio a compensação da profissão designer de interiores, creio que ao longo da construção de mim mesma eu me “perdi” em fantasias, para construir um mundo imaginário para mim. O fato é que eu cresci e acabei trazendo a fantasia para a vida adulta de forma negativa.

Mas os enganos também foram um caminho, um caminho para a reforma de mim mesma, a engenharia interior só foi e está sendo possível a partir dos erros ao achar que o problema era o outro.

A arteterapia e o diálogo com outros saberes: O desing de “interiores”      

Esse projeto propõe como possibilidade trabalhar os espaços internos de fora para dentro, trazendo como auxilio o próprio ambiente e seus referentes simbólicos. Trazemos reflexão sobre a reforma íntima quando buscamos na arrumação externa um referencial do que se reorganiza internamente, o teto, a fachada, os cômodos com seus quartos, cozinhas, salas e varandas como propostas simbólicas das projeções do eu, a casa lúdica. A reforma íntima nos possibilita escolher com quais materiais iremos trabalhar nossos ambientes internos, nossas bases e pilares fortes nos motivando ir além e exercitar as nossas motivações, sonhos, desejos e significados, quais são nossas metas e objetivos. A reforma intima é o caminho para conhecer a engenharia de si mesmo, para reconstruir aqueles ambientes internos que estão esquecidos ou saturados, entulhados de coisas que precisam ser doadas, reformadas ou descartadas.

“A casa como metáfora do eu: Um processo arteterapêutico” foi tema da minha monografia no ano passado. Foi uma jornada do herói literalmente e o trabalho se deu em um estudo de caso com uma atendida de meia idade, super jovem com grandes sequelas de abandono deixada pelo complexo materno onde suscitou uma criança ferida e recuada. Foram 10 encontros no qual os espaços da casa e objetos da casa nos levavam para ambientes projetados na infância, nestes momentos usei muitos recursos da imaginação ativa/meditação ativa para adentrar no mundo obscuro da criança interna que estava ferida e isolada.

Numa vivência muito intensa, em nosso quinto encontro, saímos do setting arteterapêutico e partimos para conhecer a   casa da atendida. A importância de cada espaço, objetos, mobílias, seus significados e como cada ambiente se mostrava como seu lar. Como na arteterapia nada é estático, o que levamos como proposta pode se desdobrar em outros caminhos, acredito que como veículos, somos apenas condutores do “Cosmo, Universo, Poder Superior, Sagrado, Eu Sou, Divino, Consciência”. O Deus da forma que cada um concebe, somos condutores de um poder maior e é esse poder que traz o que precisa vir, é nessa energia que se dá o fazer arteterapêutico e sua “mágica”.  Cheguei com flores, margaridas simbolizando beleza e doçura, aroma e serenidade, dessas flores mais adiante se daria outros contextos.




A proposta era que a atendida trouxesse 3 objetos significativos que ela escolheria na casa. Ela me trouxe dois portas retratos com fotos dela com 4 ou 6 anos e o da filha com 7 e um colar de pérolas. Essas peças e imagens reverberaram emoções profundas. Pedi que falasse de cada peça, mas ao pegar a foto dela na infância declarou que olhar para aquela criança era difícil e que não tinha nada para falar. Perguntei o que ela via ao olhar e ela disse que não via nada, nada e ao mesmo tempo que começou um choro profundo. Foi um momento intenso que usei a música “Meu jardim” do Vander Lee como fundo e reflexão e pedi que ela expressasse em desenho o que reverberou dos retratos que ela trouxe. O que veio? Uma trajetória entre mãe e filha e um labirinto de uma criança querendo achar o caminho da saída.





De repente ela ajunta as duas folhas e me mostra, numa união, que há um desdobramento. Peço que me explique como se deu aquilo para ela: “Eu quero sair desse emaranhado que estou presa, não consigo ver NADA na criança que fui, sempre quis esquecer.” Digo que há uma criança ferida dentro dela querendo ser resgatada e acolhida, uma criança interna ferida que precisa ser protegida por ela hoje adulta. Faço algumas indagações sugestivas, e peço para ela olhar novamente para as imagens juntas, a criança ferida lá na ponta direita, o caminho do labirinto triste, o sol, o portal, as duas meninas. Peço para ela fazer uma retrospectiva interna, a trajetória com a filha, sua adoção, o anjo que ela se tornou. Peço pra olhar de novo, pra ela mudar os papeis do desenho, peço para ela adulta se colocar no lugar da filha de verde, falo que ela pode ser a menina de verde, ela pode começar a fazer uma nova caminhada, uma nova trajetória na busca de curar a si mesma, de cuidar da sua criança ferida e começar um processo de “maternagem de si mesma” no sentido de (re) descobrir um novo caminho na aproximação do contato com sua criança interior ferida e abandonada.

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Referências Bibliográficas:

ANGELITA SCARDUA - A casa e seu significado: Refúgio para o bem estar físico e emocional. (On Line) https://angelitascardua.wordpress.com/2011/08/02/a-casa-e-seu-significado-para-o-bem-estar-fisico-e-emocional/ Acessaso em 20/08 2017
ANIELA JAFFE, CARL G. JUNG, JOLANDE JACOBI E M-LOUISE VOM FRAZ – O Homem e seus Símbolos.
Gomes Filho, João – Ergonomia do objeto
___________. Design do Objeto: Bases conceituais
Leslie, Vera Fraga. Lugar comum-Auto ajuda de decoração e estilo.
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Sobre a autora: Fabiana Juvêncio



Formada em Gestão de Marketing
Técnica em design de interiores 
Arteterapeuta 
Atua como designer de interiores e como arteterapeuta numa clínica de reabilitação trazendo a abordagem da arteterapia e o programa de 12 passos dos anônimos(AA) fazendo uma junção das partes com foco na “neurose” para o trato de drogas de escolha.
Como voluntária, trabalhou na Secretaria municipal de políticas públicas para mulheres e no Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População de Rua (Centro-POP)

segunda-feira, 7 de maio de 2018

REFLETINDO SOBRE MONOTIPIAS


Por Liane Esteves - RJ
lianeesteves@gmail.com


As águas de Março lavaram minha Alma e os excessos, prepararam a terra para receber as folhas secas, que plenas de histórias adubarão o solo onde dormirão em sono profundo. Uma profusão de imagens emergirá dos sonhos e inspirará os rebentos da Primavera! E então novas emoções serão gravadas, novas impressões surgirão num ciclo ininterrupto de renascimento e morte, de cujas cinzas surgirão as novas estações.

Em um momento propício e fecundo, durante o recesso de carnaval de 2018, me recolhi com a finalidade de refletir sobre meus estudos recentes para uma série de oficinas que desenvolvi com o objetivo de pensar e praticar terapeuticamente a linguagem da gravura. Após meses de gestação dessas oficinas, que denominei “Gravando Emoções”, minhas percepções jorravam como as chuvas de verão. Um dia após a quarta-feira de cinzas acordei com as palavras brotando pelos poros. Com o lápis na mão deixei grafado esse turbilhão de pensamentos e emoções. Durante um mês, em sincronia com as águas de Março que fechavam o verão, cuidei e reguei essas emoções e reflexões em sua própria água, uma verdadeira solutio. Ao findar a estação, tinha concluído a primeira parte desse projeto, minhas impressões sobre a monotipia, cujo resultado eu partilho abaixo. 


            A monotipia é considerada uma técnica simples da gravura, consistindo na pintura de uma imagem sobre uma superfície plana (ferro, metal, vidro, madeira etc.), seguida de sua impressão em uma folha de papel. É tão simples que costuma ser usada em escolas com crianças bem pequenas. Porém tamanha simplicidade nos remete a reflexões bastante profundas revelando complexidades que nos escapam em uma observação superficial. Compartilho da opinião de Oscar Wilde* quando disse: Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo.

Se formos pensar na complexidade de nossos pensamentos e ações, não pensamos, escapamos. É nesta fuga que as imagens nos inundam, vindas de um inconsciente reprimido e sombrio. Elas vêm em sonhos, pinturas, desenhos, colagens, modelagens, poesias e onde mais permitirmos. São estranhas, incompreensíveis, enigmáticas e muitas vezes tão bonitinhas que nos permitimos enganar com sua beleza, fofura e graça. Desviamos o olhar daquilo que é potente, da mensagem oculta por onde deveria ir o pensamento. Simplificamos! E ainda completamos com frases como: Tá tão bonitinho...; Ihhh tá horrível...; Não sei fazer isso...; Credo que horror...; Adorei...; Amei...; Não entendi nada...; Que doideira... Depois simplesmente jogamos fora, guardamos na gaveta, enfiamos embaixo do tapete, ou deixamos esquecido em qualquer canto escuro e profundo. Ahhhhhh, respiramos aliviados! Pronto, resolvido! Será?

Andei pensando num remédio para isso, um remédio bem simples para cuidar das coisas que insistimos em simplificar. Algo parecido com o princípio da homeopatia: semelhante cura semelhante. O remédio chama MONOTIPIA, aquela mesma que expliquei ali em cima, lembra? Simples, tão simples, que até criancinha faz (sem desmerecer as crianças, por favor)!  A cura? Esta acontece quando compreendemos a frase de Oscar Wilde, ou quando uma pulga atrás da orelha nos faz levantar o tapete e ver quanta coisa tem ali debaixo. Na realidade, vamos levantar a folha de papel (e não o tapete) para ver o que aparece! Explicarei melhor na receita do bendito remédio que coloco a seguir.             

Passo a passo para fazer uma monotipia:

1- pegue uma superfície plana (ferro, metal, vidro, madeira etc.) menor ou igual ao tamanho de uma folha qualquer de papel (de preferência com maior gramatura);
2- faça uma pintura sobre ela com guache ou outra tinta que disponha;
3- pegue a folha de papel e coloque delicadamente sobre a pintura;
4- passe a mão por cima de toda a folha, fazendo certa pressão para absorver a tinta e a pintura que você fez;
5- retire delicadamente a folha, puxando por um dos cantos;
6- observe a imagem que ficou impressa na folha; 
7 - observe como ficou a pintura original sobre a superfície que pintou. Se desejar continue imprimindo outras folhas, quantas quiser ou até não sair mais tinta nenhuma. Estas impressões são chamadas de fantasmas (você vai descobrir por que).
Simples, não?

Um detalhe é muito importante nas monotipias: você pode se automedicar à vontade e sem efeitos colaterais, mas nada disso vai funcionar se a base do processo não for um caminho focado no autoconhecimento e conduzido por um bom arteterapeuta ou psicoterapeuta que utilize as linguagens artísticas em seus atendimentos. O mínimo que pode acontecer é você se divertir bastante, mas também pode se chatear se não gostar de surpresas, pois elas acontecem em monotipia. O máximo e o desejável de acontecer é descobrir um atalho para o refúgio das complexidades, parafraseando Oscar Wilde. É pegar o ego no pulo!

Por coincidência (sincronicidade, como diria nosso caro Jung) o item sete do passo a passo que criei acima é justamente a etapa que revela os fantasmas! Incrível, não? Lembrem-se que o sete é considerado um número sagrado, místico e mágico. Mas não tem magia nem sobrenaturalidades, são vestígios, pistas. Cá para nós, acho que tem muita alquimia, mas isso já é outro papo.

 O que de fato acontece no item sete da monotipia é que as imagens impressas são fantasmas ou vestígios da pintura original. A cada nova impressão os vestígios ficam mais tênues, os excessos vão sumindo e revelando aquilo que é simples e que ficou perdido em nossa complexidade. Ou então, revelando nossa complexidade de forma muito simples.

É simples, porém complexo ao mesmo tempo. Tentarei elucidar alguns aspectos desse processo.

Inicialmente gostaria de esclarecer que o termo monotipia sugere apenas uma impressão (do grego: monos – um e typos – impressão). Mas não precisamos ficar limitados à nomenclatura, podemos chamar os fantasmas para ajudarem a clarear a situação e limpar os excessos.  Edgar Degas (1834-1917) fez belíssimas obras a partir de fantasmas, só para citar um exemplo na história da arte.


Em se tratando de processo terapêutico, a primeira impressão da monotipia já é bastante reveladora. Em primeiro lugar porque ela traz a imagem invertida da pintura feita, como num espelho. O que se pintou sobre a placa se mostra diferente ao levantarmos a folha, está ao contrário e causa surpresa, às vezes até estranheza. As nossas verdades absolutas nos pregam uma peça, percebemos a realidade por outro viés, enxergamos por outro ângulo forçosamente, pois o que fizemos originalmente não é o que se revela para nós. Temos a possibilidade de ver o outro lado da moeda, analisar de outra forma o que foi feito. Será que o que fazemos tem apenas uma versão, será que podemos pensar e ver nossos gestos e atitudes de outra maneira? É bastante interessante sugerir a monotipia para pessoas que não conseguem perceber situações de forma clara, para as que estão habituadas a agir sempre da mesma forma com padrões fixos e enrijecidos, ou para os perfeccionistas. Mas também funciona em outras situações, pois é uma oportunidade de avaliar e ver uma nova perspectiva, de criar novas formas de atuação a partir de um olhar diferente ou invertido sobre o que se faz, de criar novos caminhos e soluções, de descobrir que pode haver uma forma mais interessante de pensar. Também podemos nos questionar quanto à nossa impressão sobre nossas atitudes e como na verdade elas se mostram na impressão feita sobre a folha. O que fazemos? Como se revela? Como impressionamos, ou como nos deixamos impressionar, também são reflexões possíveis e cabíveis na monotipia.
As demais impressões ou os fantasmas são depurações. A imagem vai sumindo até desaparecer completamente, se prosseguirmos com o processo. Vamos retirando matéria, camadas de ilusão que construímos ao longo da vida, vamos clareando e simplificando as situações.  Às vezes basta um fantasma para dar conta do recado, outras vezes pode-se precisar de mais alguns. Não tem receita de bolo, depende de cada caso. 
Eventualmente o impacto das impressões pode ser grande e é sempre prudente oferecer outros materiais como lápis de cor, pastéis ou canetinhas para aplicar sobre a monotipia seca. É um momento importante de resgates e constatações, de corrigir falhas, de dar novas cores e formas ao que se revelou.
O gesto ao pintar e imprimir é bastante simbólico e denuncia comportamentos rotineiros nas mais variadas situações. Podemos colocar muita ou pouca tinta, movimentar o pincel de forma ampla ou restrita, pressionar delicadamente o papel ou colocar todo o peso do corpo sobre ele. A tinta pode escorrer e extravasar pelas bordas do papel, pode ser suficiente ou insuficiente. Podemos nos decepcionar, surpreender, encantar, questionar...Cada gesto gera um resultado e cada um revela um modo de ser. Quanta riqueza de detalhes, quanta subjetividade e informação gravadas numa folha de papel com uma técnica tão simples.
Enfim, adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo! Gratidão Oscar Wilde, por inspirar-me nessas reflexões sobre a monotipia, a vida e a arte e, constatar que a simplicidade da vida e da arte pode nos conduzir à descoberta de nós mesmos, e ao mesmo tempo abrigar nossa complexidade e multiplicidade.
                                                                                                                                  
 * Oscar Wilde (1854-1900) foi um influente escritor, poeta e dramaturgo britânico.
Referencias Bibliográficas:
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
ARIEIRA, Gloria. O yoga que conduz à plenitude. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.
EDINGER, Edward. Anatomia da Psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006.
OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Editora Campus Ltda., 1984.
Shrimpton, R. H. Monotipia: Uma investigação Técnica e Artística. Algarve, 2012. Dissertação (Mestrado em Comunicação, Cultura e Artes) - Universidade do Algarve,129 págs. Disponível em:https://sapientia.ualg.pt/bitstream/10400.1/3522/1/Monotipia170513.pdf
VON FRANZ, Marie-Louise. Alquimia- Introdução ao simbolismo e à psicologia. São Paulo: Cultrix, 1980.
Weiss, L. (2003). Monotipias, algumas considerações.  Cadernos de [gravura], Campinas nº 2, p. 19-27,Nov.2003. Disponível em: https://www.iar.unicamp.br/cpgravura/cadernosdegravura/downloads/p2_GRAVURA_2_nov_2003.pdf                                                          
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Sobre a autora: Liane Esteves


Arteterapeuta e Arte-educadora, especialista em História da Arte e pós graduanda em Psicologia Junguiana.
Faz  atendimentos individuais e facilita oficinas e vivências em Arteterapia.
Leciona Artes Visuais na rede pública de ensino do Rio de Janeiro.
Tem interesse em Arte, Psicologia, Yoga, Vedanta, Espiritualidade, Sustentabilidade, Cinema, Dança e Paisagismo.
Acredita na Harmonia, Amor e Respeito entre os Seres.