segunda-feira, 30 de setembro de 2019

RESSIGNIFICANDO O LIXO EM ARTE: Reflexões sobre o documentário "Lixo Extraordinário"




Por Patricia Serrano -  RJ
patriciaserrano.psi@yahoo.com

Falar sobre o documentário “Lixo Extraordinário”, antes de mais nada é falar sobre o artista plástico que idealizou esse projeto.

Vik Muniz é um artista brasileiro, fotógrafo, desenhista, pintor e gravador, conhecido por usar materiais inusitados em suas obras como lixo, açúcar e chocolate. Seu processo de trabalho consiste em compor imagens com os materiais, normalmente instáveis e perecíveis, sobre uma superfície e fotografá-las resultando no produto final de sua produção. As fotografias de Vik fazem parte de acervos particulares e também de museus em Londres, Los Angeles, São Paulo e Minas Gerais.

Em 2010, foi produzido o documentário “Lixo Extraordinário” sobre o seu trabalho com catadores de lixo de Jardim Gramacho / Duque de Caxias, cidade localizada na área metropolitana do Rio de Janeiro. A filmagem recebeu um prêmio no festival de Berlim na categoria Anistia Internacional e no Festival de Sundance.

“Tudo começou com a sensação de que devíamos fazer algo que pudesse reverter para eles. Faremos algo a partir do lixo que irá render dinheiro e irá tornar-se algo no qual eles possam pôr as mãos. Que eles sintam que os está ajudando. No final, eles não vão dizer que foi o Vik que fez, mas que nós fizemos.”
Vik Muniz

E assim, o artista nos apresenta o que foi o principal objetivo do projeto, mudar a vida de um grupo de pessoas com o mesmo material que eles lidam todos os dias – o lixo. Para isso, pensou na criação iconográfica a partir do contato direto com esses trabalhadores que não eram vistos nem sequer ouvidos nas suas necessidades: “Quero ver o que é importante para eles, o que eles acham que faz uma grande imagem, o que eles acham importante.”

Somos conduzidos, através do olhar sensível e entregue do artista, a um universo que estava literalmente escondido sob o lixo. Vik Muniz nos fala de dois momentos iniciais: a chegada a Gramacho e suas primeiras impressões e depois o seu olhar a partir de um sobrevoo da área.

Na chegada, o olhar impressionado pela quantidade enorme de lixo e as condições precárias de trabalho em contrapartida as relações humanas se estabelecendo através de conversas, risos e brincadeiras entre si. A despeito de todas as dificuldades do ambiente existia uma leveza no convívio dos catadores – o fator humano era belo!


Ao sobrevoar a região, o distanciamento físico evidenciou toda a degradação, tristeza e abandono – não havia sorrisos, olhares, vozes. A massa de pessoas estava imersa ao lixo e o artista desabafa: “É a pior coisa que já vi”.

Daí se inicia o mergulho de Vik Muniz nas relações humanas num ambiente que visto à distância era extremamente desumano e somos convidados a conhecer homens e mulheres que antes “misturados” e “jogados” ao lixo agora podem ser ouvidos e têm a oportunidade de ressignificar o produto do seu trabalho diário – o lixo – em arte.

Convido o leitor a assistir o documentário e entrar em contato com o belo do humano, o belo da arte e por que não dizer o belo do lixo!

Ressignificando o lixo em arte no setting terapêutico


O título do documentário já nos coloca diante de uma definição incomum quando falamos de objetos que descartamos – Lixo Extraordinário – e nos convida a um olhar que sai do lugar comum para algo novo, fora do previsto, notável.

E a quê nos remete o processo terapêutico senão também a um convite a esse novo olhar sobre as questões mais profundas do ser e a possibilidade de ressignificá-las? Quantos recursos internos/psíquicos “descartamos” que podem ser revisitados e trabalhados de forma que possam novamente trazer potência e beleza para o ser!

No texto, “O que é bom para lixo é bom para poesia – mito e poesia, sucata e arterapia” (publicado em agosto de 2018 no blog Não Palavra) Eliana Moraes nos apresenta com muita propriedade a articulação entre poesia e a utilização de sucata na sua experiência prática e relata:

“Aquecida por estas reflexões, para alguns espaços de trabalho, levei o poema ‘Matéria de Poesia’ e dispus sobre a mesa LIXO. Se Manoel de Barros nos diz ‘O que é bom para lixo é bom para poesia’, perguntei aos experienciadores da Arteterapia:
‘Onde está a poesia destes objetos que estão sobre a mesa?
Que poesia você pode criar a partir daquilo que seria jogado fora?
Quais recursos podemos utilizar e reaproveitar a partir do(s) lixo(s) na arte e na vida?’”

As técnicas expressivas são de grande valor no trabalho terapêutico e são ferramentas que possibilitam trazer para a superfície conteúdos internos de difícil acesso pela consciência. O simbolismo do material “lixo” que é oferecido no setting terapêutico (individual ou grupal) para receber um novo olhar e para além disso ser manuseado e ressignificado, nos possibilita oferecer também um espaço de novos questionamentos e como consequência natural novas respostas e possibilidades.

Referências Bibliográficas:
Documentário “Lixo Extraordinário” Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=61eudaWpWb8
MOREAS, E. “O que é bom para lixo é bom para poesia” – mito e poesia, sucata e arterapia. Blog Não palavra. Rio de Janeiro, 13/08/2018. Disponível em: http://nao-palavra.blogspot.com/2018/08/o-que-e-bom-para-lixo-e-bom-para-poesia.html?m=1. Acesso em 20/09/2019.
VIK Muniz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9203/vik-muniz>. Acesso em: 25/09/2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

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Sobre a autora: Patrícia Serrano


Psicóloga 

Pós-graduada em Psicologia Hospitalar pela FIOCRUZ
Atendimentos clínicos individuais
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos materiais e eventos

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

QUAL IMAGEM SOMOS?


Laila Alves de Souza - Curitiba/Rio de Janeiro
lai_ajt@hotmail.com


Estudando James Hillman resgatamos a força da imagem. A premissa "fique com a imagem" consolida os fundamentos (que não são fundamentos conceituais) da psicologia arquetípica.

Em tempos de redes sociais, principalmente com a supremacia do Instagram, vemos uma comunicação através das imagens. Se escreve pouco e se diz muito pela imagem. 

São inúmeras imagens que nos deparamos através de uma tela. Imagem da pessoa indo na academia, imagem da comida, a imagem do encontro com os amigos, a imagem do filho/sobrinho, a imagem do lugar onde se está, a imagem do momento em que gostaria de estar (o #tbt), a imagem da música que se ouve, a imagem do trabalho, a selfie e por aí vai...

Nossa alma também se expressa por imagens, já dizia Jung. Vemos nos sonhos, por exemplo, a sua expressão. As técnicas expressivas, assim como a Arteterapia, transforma o que seria a palavra em imagem. Um sintoma e um afeto, que geralmente se mostram como conteúdos confusos, por serem de natureza inconsciente, acham expressão nesses campos. A alma se revela por aí. Como enfatiza Hillman, a patologia diz mais sobre a alma do que a normalidade. Portanto, vemos o quanto somos mais imagem do que classificações. 

Este mesmo autor em seu livro "O sonho e o mundo das trevas" revela um modo diferente e mais profundo de olhar o sonho, questionando as metodologias tradicionais de interpretação do mesmo. Apresentar esse olhar não vem ao caso no presente artigo, mas o que quero salientar é uma parte em que ele menciona a importância de dar nomes e epítetos para os eus e a ações que esses eus se apresentam no drama onírico. Segundo Hillman (2013): "O modo como nós mesmos estamos sendo imaginados também pode ser revelado ao nos apelidarmos no sonho: eu-atrasado; eu-consumista; eu-do-salão-de-beleza; eu-sem-calças." (p. 104)

Também podemos revelar nossos eus e seus epítetos nas redes sociais, ou seja, queremos passar uma ou diversas imagens. Mas a questão é: qual imagem somos?

Podemos ser sim as imagens que mostramos no instagram, mas não atingimos aquilo que somos verdadeiramente. Essas imagens postadas são oriundas de um desejo do ego. Queremos mostrar para o mundo como nós queremos ser vistos: "Olha como sou bonito(a)." "Olha como sou fitness." "Olha como sou trabalhador(a)." "Olha como sou descolado(a)" "Olha como sou viajante." "Olha como sou engraçado(a)."... Vendemos nossa imagem e somos marketeiros natos nesse trabalho. Portanto, fabricamos as imagens.

A fabricação é algo que se constrói na superfície, mas não atinge as profundezas inerente da nossa natureza psíquica. Podemos então perguntar: O que está por trás dessas imagens que queremos mostrar? Daí surge o começo das verdadeiras imagens; por exemplo, atrás do "olha como sou bonito(a)" existe o eu-inseguro, e atrás desse eu-inseguro pode estar o eu-carente e por trás desse, o eu-romântico, o eu-cínico, o eu-vaidoso, o eu-potente, o eu-ingênuo... Quando entramos em relação com todas essas facetas nossas, nós chegamos mais próximo da nossa essência e não do marketing que queremos fazer.

É claro que não precisamos anunciar essa pluralidade para o mundo, mas em tempos de imagens fabricadas nós não conseguimos nem chegar perto de dialogar com nossas imagens mais profundas e, consequentemente, nem permitimos que o outro relacione seus eus "estranhos" com os nossos. Continuamos, dessa maneira, a nos relacionarmos via redes sociais, pela superfície.

Vemos então que o belo, o desejável, o bom, o desagradável ficam enrijecidos nas imagens fabricadas, e se encaixar nessas categorias vira fundamental para o processo de individuação da pessoa. Mas o individuar-se é exatamente o contrário disso, é acolher a pluralidade e a multidão de eus que habitam em nós e deixar que cada um contribua para fazer com que nós respondamos a vida da melhor maneira possível (se conseguirmos fazer o melhor).

Portanto, se você pudesse imaginar como seria o instagram (ou qualquer rede social) de sua alma, quais seriam as fotos e stories que teriam nele? Esse exercício poderá fazer com que você descubra mais tesouros e mais belezas do que ficar tentando encontrar filtros que escondam as imperfeições do seu eu-básico. 


Referência Bibliográfica:
Hillman, James. O sonho e o mundo das trevas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

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Sobre a autora: Laila Alves de Souza


Psicóloga

Pós- graduada em psicologia clínica na abordagem da Psicologia Analítica.
Atendimentos clínicos pela abordagem da Psicologia Analítica no Rio de Janeiro.
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos projetos.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

NÍVEIS COGNITIVOS E A CAIXA DO EU



Por Juliana Mello – RJ
entrelinhas.artepsi@gmail.com


A Terapia Cognitivo-comportamental (TCC) leva em consideração que os sentimentos e os comportamentos são resultantes dos pensamentos, e as consequências de nossos comportamentos reforçam esses pensamentos.  A TCC “parte da hipótese de que as emoções, os comportamentos e a fisiologia de uma pessoa são influenciados pelas percepções que ela tem dos eventos” (Beck, 2013). Podemos entender como pensamentos tudo o que passa em nossa mente, como ideias, frases, palavras, lembranças, sonhos, imagens.

Diferente de outras abordagens, na TCC não temos um inconsciente inacessível, porém nossos pensamentos são apresentados por níveis de cognição: Consciente, Sub-consciente Cognitivo e o Inconsciente Cognitivo. O Consciente são os nossos conhecimentos, raciocínio, percepção, decisão, tudo o que já sabemos sobre nós mesmos. O Sub-consciente Cognitivo é um nível abaixo, e é regido pelos pensamentos Automáticos, que ocorrem de forma rápida e imperceptível. Geralmente são pensamentos distorcidos e desadaptativos. O Inconsciente Cognitivo é dividido em duas partes: crenças intermediárias e crenças centrais. A primeira se refere a regras condicionais, do tipo “se eu não fizer x, não consigo alcançar y”. Já as crenças centrais são regras globais e absolutas, geralmente relacionadas a autoestima.  Esse nível de pensamento é que nos guiam e nos mantém nos ciclos viciosos disfuncionais.

No trabalho em Arteterapia, podemos representar os níveis de cognição com a Técnica da Caixa do Eu. Através do externo e do interno da caixa, é possível trabalhar de forma lúdica como o paciente se coloca para o mundo e para si mesmo, possibilitando um insight cognitivo do funcionamento dos seus pensamentos, que ficarão mais conscientes e menos automático. Ao identificarmos as crenças, nosso nível cognitivo mais profundo e que nos rege de maneira disfuncional, podemos flexibilizar pensamento-sentimento-comportamento, trazendo possibilidades funcionais para vivenciarmos nossa realidade.
Caso clínico:


Paciente D., 35 anos, profissional da área da saúde, começou a apresentar em seu processo de terapia angústia em suas relações interpessoais, não conseguindo criar vínculos com outras pessoas, mesmo informando não ser difícil socializar-se em um grupo. Relacionamento afetivo também era uma de suas queixas. Além disso, sentia muita ansiedade com relação a sua vida profissional, com pensamentos de que não conseguiria manter a sua independência financeira e que seus projetos nunca iriam para frente. Em suas palavras informa: “Não sei o que acontece comigo”. Foi apresentada a caixa do eu e o mesmo, incialmente, apresentou resistência. As imagens e as palavras foram sendo procuradas diretamente da revista, em um processo de algumas sessões.
Externamente foi representado o que era conhecido de si mesmo, o que não se incomodava em mostrar as outras pessoas e o que falavam para ele, isto é, a Consciência. De acordo com as perspectivas da caixa, as palavras e imagens foram colocadas de acordo com o grau de proximidade com as pessoas do qual se relacionava e o que estas conheciam dele: família, amizade, conhecidos.







Na parte interna da tampa, foi representado o Sub-consciente, que, no decorrer da terapia, já não estão mais tão automáticos. As novas escolhas estão sendo realizadas através do conhecimento de seu funcionamento e na decisão do que é possível realizar neste momento, saindo do ciclo vicioso.





O inconsciente Cognitivo ainda está sendo trabalhado, mas já é possível perceber as crenças limitantes de desvalor, desamor e não merecimento de possibilidades diferentes de vivencias, até o momento desconhecidas. Vale ressaltar que, as crenças são pensamentos com origem principalmente na infância e que são reforçadas ao longo da vida, e por isso, a reflexibilização é um processo feito passo-a-passo, e que o primeiro passo e tomar consciência de que elas existem.





A proposta posterior é que nesta caixa sejam colocados objetos representativos de situações ao longo de sua vida, para que, através de outras técnicas, seja possível a reestruturação cognitiva. Porém, o andamento da atividade será realizado de acordo com o ritmo do paciente.




Bibliografia:

BECK, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e prática. 2ª edição. Porto Alegre: Artemed, 2013.
WILLSON, R; BRANCH, R. Terapia Cognitivo-Comportamental para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books Editora, 2012.


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Sobre a autora: Juliana Mello 


Psicóloga, Arteterapeuta e Coach
Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia
Palestras e Workshop motivacionais.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

GRANDES ARTISTAS NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: PAUL KLEE – PARTE 2




Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram @naopalavra

Neste texto dou continuidade às reflexões que a exposição “Equilíbrio Instável”, que esteve em cartaz no CCBB-RJ até o mês passado, tanto me despertou. Uma ampla exposição sobre a vida e obra de um dos mais importantes artistas do século XX, Paul Klee, me atravessou pessoalmente e como arteterapeuta.

No texto anterior conto um pouco sobre a vida do artista e destaco três pontos sobre seus pensamentos, aos quais convido ao leitor que não teve a oportunidade lê-lo, o faça antes de seguir esta leitura. Ratifico também o convite para que busque o documentário “O diário de um artista”, disponível no youtube, para que possa enriquecer seu estudo.

Hoje destaco três inspirações que Paul Klee nos oferece, mais destinadas a práticas que podem ser atualizadas nos settings arteterapêuticos, não apenas a partir do que mais conhecemos do artista, como as pinturas em aquarela, mas na experimentação de outras possibilidades. Lembro aqui que as referências do texto são extraídas das legendas da exposição e as citações foram transcritas do documentário referido.

1) As marionetes e fantoches: o mundo imaginário


Paul Klee era antes de tudo, um pintor do sonho e da poesia. Seu rico mundo imaginário é evidente ao longo de sua obra. Era também um apaixonado espectador do teatro, da ópera ao popular teatro de fantoches. Personagens de músicas e de peças dramatúrgicas como o palhaço, a marionete ou o acrobata povoavam seu imaginário. Klee fez constantes associações entre o teatro e a vida. Em suas obras, as representações de personagens como o equilibrista ou o acrobata, com suas arriscadas exibições de equilíbrio e em risco constante, assemelhavam-se à insegurança da vida do artista. Como um espectador de teatro, Klee observava as pessoas ao seu redor e comentava os acontecimentos nas suas obras, quase sempre com uma visão irônica e distanciada.

A brincadeira com marionetes começou despretensiosamente, para distrair o filho ainda pequeno e dali nasceu um teatro de marionetes. Estas refletiam seu mundo imaginário e o permitiam fazer uma paródia do mundo dos adultos. Criou personagens como “O poeta coroado”, “O barbeiro de Bagdá”, “O nacionalista alemão” e “a morte”.

“Meu pai criou umas 50 figuras. Fazia as cabeças com gesso ou com outros materiais como caixas de fósforo, ossos de boi e papel maché. Ele mesmo dirigia as cenas e criou uma marionete com a sua aparência.” Felix Klee

A criação de personagens compõe o repertório do arteterapeuta. O diálogo com Paul Klee pode nos inspirar na rica associação entre o teatro e a vida. Na criação de fantoches ou marionetes e buscando inspirações nos acontecimentos cotidianos, de forma lúdica nascem personagens que carregam ricas metáforas e simbolismos que colaboram para o processo de espelhamento e autoconhecimento dos experienciadores da Arteterapia. 

Trabalho de Arteterapia

     2) As técnicas e materiais

Um dos seguimentos da exposição muito me encantou, ao mostrar que Paul Klee era um artista que gostava muito de fazer experiências com materiais. Ele construía suas próprias ferramentas e como suporte para seus quadros não hesitava em explorar materiais inusitados. Os suportes de suas pinturas  mostram uma variedade excepcionalmente grande, como diversos tipos de papéis, madeira, tecidos variados como tela, juta, seda, algodão, musselina, pano de camisa, tecido adamascado, ou gaze. Klee colava esses tecidos sobre um segundo suporte rígido ou sobre um outro tecido preso em bastidor. As superfícies das camadas de revestimento eram diversas: grossas, finas, pastosas, enrugadas ou riscadas. Com ou sem revestimento, o tecido já servia ao artista como elemento estrutural da superfície.

Klee desenvolveu também técnicas próprias, até então nunca aplicadas à pintura. Por esta razão, muitos de seus trabalhos são frágeis e sensíveis, e requerem algumas condições muito específicas para serem expostos. Três técnicas do artista destacadas na exposição são “Desenho transferido a óleo”, “Técnica da ranhura” e “Técnica do borrifado”, que valem a pena uma pesquisa mais profunda.  

Aqui o artista nos inspira à criatividade na experimentação de materiais. A abertura para além dos materiais tradicionais de arte é um dos legados da Arte Moderna que cooperam para a Arteterapia. Acredito que investir na experimentação e crescente intimidade com diversos materiais faz parte da construção continuada de um arteterapeuta. Pessoalmente, esta abertura para a pesquisa da pluralidade e propriedades dos materiais foi fundamental para a construção da minha identidade profissional, que migrou de uma psicóloga que utilizava de técnicas expressivas, para uma arteterapeuta propriamente dita.

Klee é uma inspiração para nós, tanto ao experimentarmos as técnicas e materiais que ele ousou experimentar, quanto para que cada um de nós aguce a intuição para nossas próprias experimentações.

3) A ligação com a natureza

Paul Klee era um artista que mantinha uma profunda ligação com a natureza. Para ele, as leis da natureza são parecidas com as do processo de criação artística. Ele a contemplava em seu movimento, como por exemplo em uma folha de árvore. Ele observava os fenômenos de crescimento mais elementares e os transpunha para a composição. Para ele uma obra poderia nascer, se desenvolver e se organizar como uma planta.

“Quando a necessidade surgir, leve seus alunos para a natureza. Deixe que experimentem, como um botão se forma, como uma árvore cresce, como uma borboleta nasce. Eles também se tornarão tão ricos e tão determinados quanto à natureza, pois a contemplação é uma revelação. Um olhar sobre o ateliê de Deus. É no que repousa o mistério da criação.” Klee

Paul Klee era um observador minucioso das pequenas coisas do mundo que o rodeava, pois ele sabia que era no detalhe que ele encontraria o que buscava. Porém, ele não ia à natureza como um pintor que busca um motivo ou tema. Ele a observava, não para reproduzi-la, mas para descobrir sua essência.  

“Na arte, nunca se precipita nada. É preciso sempre deixar a obra desabrochar ao seu ritmo. E se um dia ela chegar à maturidade, melhor ainda.” Klee

Desde meus estudos sobre o impressionismo venho refletindo sobre as aproximações da arte com a natureza inspirando a ampliação das práticas arteterapêuticas para além das quatro paredes do setting. Os impressionistas se deslocaram do interno da academia para pintar suas impressões ópticas da natureza.

Klee também nos inspira ao encontro com a natureza, porém não para pintar o que podemos ver, mas na busca de sua essência: a criação. Pois sua contemplação nos proporciona uma revelação.

O diálogo com Paul Klee, outros artistas e a História da Arte com a Arteterapia, segue como uma pesquisa e um deleite! A jornada continua.


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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga.
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

GRANDES ARTISTAS NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: PAUL KLEE – PARTE 1



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram @naopalavra

A jornada de estudo sobre grandes artistas e suas aplicabilidades, diretas ou indiretas, nas práticas da Arteterapia cada vez mais torna-se fascinante. Recentemente mergulhei em um diálogo com Paul Klee a propósito da exposição “Equilíbrio Instável” que esteve no CCBB-RJ de 15 de maio a 12 de agosto de 2019. Particularmente, conhecia algumas poucas informações sobre este artista, pois sabia de sua convivência e afinidade com Wassily Kandinsky, um artista que tanto admiro e estudo. A exposição veio para me apresentar Paul Klee com muita riqueza e profundidade e hoje trago alguns fragmentos do meu diálogo com este artista, na intenção de contribuir para o diálogo entre História da Arte e Arteterapia.

Paul Klee (1879-1940), um dos artistas mais importantes do século XX, nasceu em Berna, capital da Suíça e ainda jovem sentiu-se atraído por Munique, cidade alemã que era um dos mais importantes polos artísticos da época. Entre 1916 e 1918, foi recrutado para servir na Primeira Guerra Mundial, mas como não foi destacado para os campos de batalha, sobrava-lhe tempo para continuar sua trajetória artística.

Klee era um artista rico, transitava entre pintura, escrita e música. Tinha o hábito de registrar em seu diário memórias de sua infância, sonhos, reflexões sobre a pintura e música, narrativas de viagens... Este diário tornou-se fonte de muito do que hoje podemos ter acesso de seus pensamentos e teorias.

Em 1921 passou a lecionar na Bauhaus, uma escola vanguardista alemã de desing e arquitetura, mas as atribuições como professor aos poucos foram se tornando insuportáveis, pois sobrava-lhe pouco tempo para a criação individual.

Após a tomada de poder pelos nacional-socialistas, Paul Klee, como muitos artistas, foi perseguido e boicotado. Em 1933, bastante confrontado com o cotidiano alemão daqueles tempos, o artista e sua esposa retornam para Berna, depois de ter sido atacado pelos meios de comunicação e sua casa ter sido revistada. Na Suíça, Klee passou os últimos anos de sua vida, bastante consternado com o cenário político que se desenhava. Observando suas obras deste período, descobrimos um homem aflito, que se isolava, sofria, mas que reagia e se exprimia em silêncio através de seu trabalho. Sua arte se transformou em figurações rabiscadas, nervosas, as vezes violentas, produzindo 245 desenhos somente neste ano.

A última fase criativa de Klee, em seus trabalhos tardios, é marcada por seu estado de saúde precário. Ele foi acometido por esclerodermia, que fez endurecer seus tecidos conjuntivos, a pele e os órgãos internos. Em seus últimos anos de vida criou uma obra multifacetada e rica até sua morte em 1940.

A exposição “Paul Klee – Equilíbrio Instável” apresentou-nos uma completa retrospectiva sobre o artista, exibindo ainda o documentário “The silence of an angel”,  que posteriormente descobri disponível no youtube em português como “Diário de um artista” – documentário ao qual sugiro que o leitor assista com bastante atenção.

Em uma série de dois textos, destaco alguns pontos que as teorias e as práticas de  Paul Klee me tocaram e inspiraram como arteterapeuta. As fontes são as legendas da exposição e as citações do artista são extraídas de seu diário, recitadas no documentário referido.  

1) O caminho para o interior, caminho para a abstração  

A citação mais conhecida de Paul Klee é: “A arte não reproduz o visível, ela torna visível.” Este pensamento se transformou em um dos princípios fundamentais da arte moderna e esta declaração sintetiza claramente o movimento de inversão que a arte fazia naquele momento histórico, deslocando-se do olhar exterior. Em suas reflexões sobre a arte do retrato, técnica inventada e popularizada não há muito tempo em seus dias, dizia: “... a minha intensão não é refletir a superfície assim como a chapa fotográfica, mas penetrar no interior.”

Klee cresce em uma época em que o desenvolvimento da ciência e das técnicas amplia os limites da percepção e propõe novas representações de mundo. O acesso ao que até então era invisível, se torna possível. E ele faz destas descobertas uma transposição artística. Seu interesse não estava nas coisas exteriores, mas na busca da essência:

“Antigamente pintávamos as coisas que podíamos ver na terra, que gostávamos de ver ou que gostaríamos de ver. Hoje em dia, a relatividade do visível se tornou uma evidência e aceitamos ver uma simples partícula na totalidade do universo.” Klee

Assim como Kandinsky, este caminho para o interior nas expressões artísticas, teve como estímulo a relação com a música, inspirando-os principalmente em suas obras abstratas. Kandinsky dizia que a música tinha um acesso direto à alma. Conta-se que antes de pintar, Klee tocava violino por uma hora, em seguida partia para seu ateliê e “pintava como um músico”. Em suas experimentações perguntou-se: seria a aquarela a transição ideal entre figuração e abstração? Uma passagem secreta aberta na transparência?

Esta inversão de olhar do exterior para o interior e da arte da representação para a arte da expressão se faz em essência a concepção de arte que nós arteterapeutas nos embasamos e bebemos da fonte. Penso que sem esta mudança de percepção histórica, a Arteterapia não poderia ter sido concebida como prática, saber e profissão.

Como consequência na imagem, esta que era figurativa, foi se transformando em direção a arte abstrata. Ao estudarmos a História da Arte nos primórdios da Arte Moderna, constatamos que quanto mais os artistas se dirigiam para o interior e sua expressão, mais suas imagens se tornavam abstratas. Esta é a razão pela qual cada vez mais tenho estudado a arte abstrata e estimulado que os experienciadores da Arteterapia experimentem expressar suas emoções mais profundas unicamente através da potência das cores e das formas.

2) A relação com a cor


Em 1914, Klee fez uma viagem para a Tunísia que mudou sua vida como pintor. Estimulado por tudo o que estava a sua volta, recebeu uma espécie de revelação e assim desenvolveu uma linguagem visual própria, afastando-se do modelo da natureza que havia estudado intensamente na juventude. A Tunísia expandiu seu repertório artístico e assim pôde criar uma linguagem visual abstrata em aquarelas de pequenos formatos, onde a cor era experimentada e sentida de uma maneira especial:

“A atmosfera penetra em mim com tal suavidade que se notar, sinto com cada vez mais segurança: a cor me possui. Não preciso procurá-la, ela me possui, eu sei disso. Eis a sensação do momento feliz. A cor e eu somos um, eu sou pintor.” Klee

A profunda relação com a cor vai ganhando proporção a medida que ela vai se tornado protagonista na imagem. No caminho para a abstração, a cor vai ganhando autonomia em relação a figura ou ao tema:   

“Robert Delanoy encontrou uma solução radical, surpreendente. Seus quadros são inteiramente abstratos, sem nenhum motivo figurativo conhecido, mas com a própria cor como assunto. Elas parecem ter uma existência autônoma.” Klee

Ao longo deste processo, desde suas aquarelas tunisianas, Klee aprofundou suas descobertas cromáticas a partir de estruturas quadriculadas. Através de múltiplas variações, ele explorou incessantemente estas possibilidades.

As expressões de “sentimentos puros” – como nos diz Kandinsky – torna-se cada vez mais possível quando nos deixamos afetar pela vibração das cores. Para além disto, Klee nos mostra o caminho para sermos possuídos por ela e assim nos encontrarmos como pintores.

Estimular, cada vez mais, que os experienciadores da Arteterapia mergulhem em um profundo diálogo com as cores, os tornarão mais seguros para explorar esta forma de expressão. Neste sentido, o contato com os sentimentos se tornará mais direto e segundo Klee, consequentemente na imagem, a cor ganhará cada vez mais autonomia.

3) O equilíbrio instável


O ensino estimulava Klee. Na Bauhaus, era encarregado das aulas teóricas de composição pictórica. Interessava-se, em particular, pelos jogos de equilíbrio e para tanto, se inspirava nas leis da física. Ele as estudava e depois as transpunha para sua pintura, e para preparar suas aulas construía móbiles com astes flexíveis, elásticos e fios.   

“Exercícios de equilíbrio e de movimento aprendem a se ligar ao essencial à função e não à impressão exterior. Aprende-se a reconhecer as forças subjacentes. Aprende-se da pré-história do visível.” Klee

A partir destes experimentos, Klee acreditava que a mão deve ser levada pela linha assim como o equilibrista deve ser levado como uma corda bamba.

Kandinsky nos dizia que a arte deveria respeitar o “Princípio da Necessidade Interior” do artista. Klee mostra-nos sua necessidade interior: o equilíbrio. Ele acreditava  que ao buscarmos o diálogo com o equilíbrio da vida, que não é estático, mas instável, podemos reconhecer nossas forças subjacentes e o que é essencial. Todo este movimento de diálogo com o equilíbrio interno nos moveria ao traço na imagem, gerando o visível.


O fascinante diálogo com Klee continua em um próximo texto, abordando aspectos de sua prática que podem nos estimular como arteterapeutas!


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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga.
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.


Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI