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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

“O QUE É BOM PARA LIXO É BOM PARA POESIA”: MITO E POESIA, SUCATA E ARTETERAPIA



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
“Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia


O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
 ... 
As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima 

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral


O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, grampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
 ... 
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
 ... 
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada
 ... 
O que é bom para o lixo é bom  para poesia
 ... 
As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora”

Manoel de Barros em “Matéria de Poesia”

O processo de gestação deste texto se iniciou desde que li o texto “Série olhares sobre os mitos: hécate e a sucata” de Laila Alves de Souza CLIQUE AQUI publicado no blog em junho. Na ocasião, Laila nos apresentou a deusa Hécate, considerada sombria e infernal, sendo não ao acaso que ela tenha sido “esquecida do arcabouço dos mitos”. Suas palavras me atravessaram: 

“Hécate também está associada ao lixo, a podridão e aos restos.  De acordo com Hillman esta deusa ‘(...)torna sagrados os lixos da vida, de forma que tudo conta, tudo importa.’ (Hillman, p. 70). Dessa forma, honrar essa deusa significa iluminar nossos lixos psíquicos, aquilo que não prestou para nossa casa egóica, ou seja, que apresenta característica desagradável e incompatível.” (SOUZA, 2018)

Como tenho uma ligação muito forte com a poesia, automaticamente retomei o diálogo com um poeta muito querido, Manoel de Barros, que uma das características mais marcantes de sua escrita está em seu olhar singular para as coisas mais “desimportantes” da vida. 

Este diálogo vai mais além: enquanto  Hécate possui “atributos que são considerados fétidos e feios para os olhos da consciência” (SOUZA, 2018), Manoel é capaz de escrever um poema chamado “Obrar”:

“... Obrar não era construir casa ou fazer obra de arte.
Esse verbo tinha um dom diferente.
Obrar seria o mesmo que cacarar.

Sei que o verbo se aplica mais a passarinhos
Os passarinhos cacaram nas folhas nos postes nas pedras do rio nas casas.

Eu só obrei no pé da roseira da minha avó.
Mas ela não ralhou nem.
Ela disse que as roseiras estavam carecendo de esterco orgânico.
E que as obras trazem força e beleza às flores...
A vó então quis aproveitar o feito para ensinar que o cago não é uma coisa desprezível.

Eu tinha vontade de rir porque a vó contrariava os
ensinos do pai.
Minha avó, ela era transgressora...
Daí que também a vó me ensinou a não desprezar as coisas
desprezíveis
E nem os seres desprezados.

Manoel de Barros em “Obrar”

Do diálogo entre Hécate e Manoel de Barros me nutri para algumas práticas em Arteterapia, individuais ou grupais, que estimulassem o olhar para tudo aquilo que parecia desprezível. Aquilo que seria descartado, jogado fora. Enfim, uma proposta para olharmos o lixo – objetivo e subjetivo, literal e simbólico, material e psíquico. 

Sucata e(m) Poesia


“... Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes...
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.  
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto
Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.”

Manoel de Barros em “O apanhador de desperdícios”

Uma das características de nossa contemporaneidade se faz em um modelo materialista e consumista. Estamos acostumados aos “descartáveis” e todos os sentidos que este termo contém. Pensar desta forma acarreta uma série de desdobramentos, desde subjetivos, quando não investimos na “reutilização” e “reciclagem” de nossos conteúdos psíquicos mais profundos, quanto materiais, quando objetivamente entulhamos nosso planeta/casa de tudo o que entendemos que já cumpriu sua função em nossa vida.
O arteterapeuta, como um administrador de materiais, pode investir em uma conscientização e responsabilização daquilo que utiliza como recursos em seu setting arteterapêutico. Como uma prática cidadã, muitas vezes não precisará comprar materiais novos, mas sim ampliar suas percepções e reutilizar/reinventar aquilo que está a sua volta.
Além disto, esta é uma prática que coopera com o próprio arteterapeuta, que não deve entender que a Arteterapia só se faz com uma riqueza de materiais sobre a mesa. “O chão da vida” da prática arteterapêutica, principalmente em ambientes institucionais como escolas, hospitais, instituições de longa permanência etc, se dá na falta de possibilidade de grandes investimentos financeiros em materiais por parte da instituição e do próprio arteterapeuta. Na escassez de material, não se faz Arteterapia? Ao contrário, muitas vezes a realidade da vida não está na riqueza de materiais/possiblidades e a verdadeira criatividade está justamente em criar a partir do (quase) nada. 
Começando em nós mesmos, arteterapeutas, esta prática será uma transmissão de um movimento muito importante, necessário em nosso cenário social atual. Em um texto anterior chamado “Reflexões sobre o ‘simples’ nas práticas da Arteterapia” defendi que:
“A realidade da clínica nos mostra que vivemos em tempos de crise financeira, perdas sucessivas de poder aquisitivo, redução de possibilidades múltiplas aos quais nossos pacientes nos contam com ar de frustração, derrota e o discurso do ‘não posso’ é a tônica. 

Então eu pergunto aos arteterapeutas, não seria justamente esta metáfora de vida que precisamos remontar em nossos settings terapêuticos? Diante do (que parece) pouco, para onde sua criatividade te leva? O que sua intuição te instiga? Quais possibilidades você pode se fazer enxergar diante do que você tem a frente?” (MORAES, 2018)

Aquecida por estas reflexões, para alguns espaços que trabalho, levei o poema “Matéria de Poesia” e dispus sobre a mesa LIXO. Se Manoel de Barros nos diz que “O que é bom para lixo é bom para poesia”, perguntei aos experienciadores da Arteterapia: ”Onde está a poesia destes objetos que estão sobre a mesa? Que poesia você pode criar a partir daquilo que seria jogado fora? Quais recursos podemos utilizar e reaproveitar a partir do(s) lixo(s) na arte e na vida?”
Se o assunto era o “desinteressante” lixo, gratidão à Hécate, Manoel, Laila e participantes da Arteterapia que tanto me atravessaram para esta tão profunda reflexão até aqui e tantas outras que estão por vir. 

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:

MORAES, Eliana. Reflexões sobre o "simples" nas práticas da Arteterapia
SOUZA, Laila Alves. Série Olhares sobre os mitos: Hécate e a Sucata. Blog Não Palavra, 2018. 

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Sobre a autora: Eliana Moraes 



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".

Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

2 comentários:

  1. Como sempre seu blog me encanta e me faz pensar, cada vez mais em ARTE e aprendro muito com seus comentáros e sua atividades criativas! parabens"!

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  2. Parabéns! Tenho pensado bastante nessa questão do lixo, reaproveitavel ou não e como Arteterapeuta e Psicopedagoga, faço uso de muitos descartáveis para mediar alguns lixos trazidos pelos meus clientes. Tem sido uma experiência fantástica! E pontuo: "Para onde vão os seus lixos, quando deixamos de interagir com eles?"

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