segunda-feira, 30 de setembro de 2019

RESSIGNIFICANDO O LIXO EM ARTE: Reflexões sobre o documentário "Lixo Extraordinário"




Por Patricia Serrano -  RJ
patriciaserrano.psi@yahoo.com

Falar sobre o documentário “Lixo Extraordinário”, antes de mais nada é falar sobre o artista plástico que idealizou esse projeto.

Vik Muniz é um artista brasileiro, fotógrafo, desenhista, pintor e gravador, conhecido por usar materiais inusitados em suas obras como lixo, açúcar e chocolate. Seu processo de trabalho consiste em compor imagens com os materiais, normalmente instáveis e perecíveis, sobre uma superfície e fotografá-las resultando no produto final de sua produção. As fotografias de Vik fazem parte de acervos particulares e também de museus em Londres, Los Angeles, São Paulo e Minas Gerais.

Em 2010, foi produzido o documentário “Lixo Extraordinário” sobre o seu trabalho com catadores de lixo de Jardim Gramacho / Duque de Caxias, cidade localizada na área metropolitana do Rio de Janeiro. A filmagem recebeu um prêmio no festival de Berlim na categoria Anistia Internacional e no Festival de Sundance.

“Tudo começou com a sensação de que devíamos fazer algo que pudesse reverter para eles. Faremos algo a partir do lixo que irá render dinheiro e irá tornar-se algo no qual eles possam pôr as mãos. Que eles sintam que os está ajudando. No final, eles não vão dizer que foi o Vik que fez, mas que nós fizemos.”
Vik Muniz

E assim, o artista nos apresenta o que foi o principal objetivo do projeto, mudar a vida de um grupo de pessoas com o mesmo material que eles lidam todos os dias – o lixo. Para isso, pensou na criação iconográfica a partir do contato direto com esses trabalhadores que não eram vistos nem sequer ouvidos nas suas necessidades: “Quero ver o que é importante para eles, o que eles acham que faz uma grande imagem, o que eles acham importante.”

Somos conduzidos, através do olhar sensível e entregue do artista, a um universo que estava literalmente escondido sob o lixo. Vik Muniz nos fala de dois momentos iniciais: a chegada a Gramacho e suas primeiras impressões e depois o seu olhar a partir de um sobrevoo da área.

Na chegada, o olhar impressionado pela quantidade enorme de lixo e as condições precárias de trabalho em contrapartida as relações humanas se estabelecendo através de conversas, risos e brincadeiras entre si. A despeito de todas as dificuldades do ambiente existia uma leveza no convívio dos catadores – o fator humano era belo!


Ao sobrevoar a região, o distanciamento físico evidenciou toda a degradação, tristeza e abandono – não havia sorrisos, olhares, vozes. A massa de pessoas estava imersa ao lixo e o artista desabafa: “É a pior coisa que já vi”.

Daí se inicia o mergulho de Vik Muniz nas relações humanas num ambiente que visto à distância era extremamente desumano e somos convidados a conhecer homens e mulheres que antes “misturados” e “jogados” ao lixo agora podem ser ouvidos e têm a oportunidade de ressignificar o produto do seu trabalho diário – o lixo – em arte.

Convido o leitor a assistir o documentário e entrar em contato com o belo do humano, o belo da arte e por que não dizer o belo do lixo!

Ressignificando o lixo em arte no setting terapêutico


O título do documentário já nos coloca diante de uma definição incomum quando falamos de objetos que descartamos – Lixo Extraordinário – e nos convida a um olhar que sai do lugar comum para algo novo, fora do previsto, notável.

E a quê nos remete o processo terapêutico senão também a um convite a esse novo olhar sobre as questões mais profundas do ser e a possibilidade de ressignificá-las? Quantos recursos internos/psíquicos “descartamos” que podem ser revisitados e trabalhados de forma que possam novamente trazer potência e beleza para o ser!

No texto, “O que é bom para lixo é bom para poesia – mito e poesia, sucata e arterapia” (publicado em agosto de 2018 no blog Não Palavra) Eliana Moraes nos apresenta com muita propriedade a articulação entre poesia e a utilização de sucata na sua experiência prática e relata:

“Aquecida por estas reflexões, para alguns espaços de trabalho, levei o poema ‘Matéria de Poesia’ e dispus sobre a mesa LIXO. Se Manoel de Barros nos diz ‘O que é bom para lixo é bom para poesia’, perguntei aos experienciadores da Arteterapia:
‘Onde está a poesia destes objetos que estão sobre a mesa?
Que poesia você pode criar a partir daquilo que seria jogado fora?
Quais recursos podemos utilizar e reaproveitar a partir do(s) lixo(s) na arte e na vida?’”

As técnicas expressivas são de grande valor no trabalho terapêutico e são ferramentas que possibilitam trazer para a superfície conteúdos internos de difícil acesso pela consciência. O simbolismo do material “lixo” que é oferecido no setting terapêutico (individual ou grupal) para receber um novo olhar e para além disso ser manuseado e ressignificado, nos possibilita oferecer também um espaço de novos questionamentos e como consequência natural novas respostas e possibilidades.

Referências Bibliográficas:
Documentário “Lixo Extraordinário” Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=61eudaWpWb8
MOREAS, E. “O que é bom para lixo é bom para poesia” – mito e poesia, sucata e arterapia. Blog Não palavra. Rio de Janeiro, 13/08/2018. Disponível em: http://nao-palavra.blogspot.com/2018/08/o-que-e-bom-para-lixo-e-bom-para-poesia.html?m=1. Acesso em 20/09/2019.
VIK Muniz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9203/vik-muniz>. Acesso em: 25/09/2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

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Sobre a autora: Patrícia Serrano


Psicóloga 

Pós-graduada em Psicologia Hospitalar pela FIOCRUZ
Atendimentos clínicos individuais
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos materiais e eventos

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