segunda-feira, 2 de setembro de 2019

GRANDES ARTISTAS NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: PAUL KLEE – PARTE 1



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
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A jornada de estudo sobre grandes artistas e suas aplicabilidades, diretas ou indiretas, nas práticas da Arteterapia cada vez mais torna-se fascinante. Recentemente mergulhei em um diálogo com Paul Klee a propósito da exposição “Equilíbrio Instável” que esteve no CCBB-RJ de 15 de maio a 12 de agosto de 2019. Particularmente, conhecia algumas poucas informações sobre este artista, pois sabia de sua convivência e afinidade com Wassily Kandinsky, um artista que tanto admiro e estudo. A exposição veio para me apresentar Paul Klee com muita riqueza e profundidade e hoje trago alguns fragmentos do meu diálogo com este artista, na intenção de contribuir para o diálogo entre História da Arte e Arteterapia.

Paul Klee (1879-1940), um dos artistas mais importantes do século XX, nasceu em Berna, capital da Suíça e ainda jovem sentiu-se atraído por Munique, cidade alemã que era um dos mais importantes polos artísticos da época. Entre 1916 e 1918, foi recrutado para servir na Primeira Guerra Mundial, mas como não foi destacado para os campos de batalha, sobrava-lhe tempo para continuar sua trajetória artística.

Klee era um artista rico, transitava entre pintura, escrita e música. Tinha o hábito de registrar em seu diário memórias de sua infância, sonhos, reflexões sobre a pintura e música, narrativas de viagens... Este diário tornou-se fonte de muito do que hoje podemos ter acesso de seus pensamentos e teorias.

Em 1921 passou a lecionar na Bauhaus, uma escola vanguardista alemã de desing e arquitetura, mas as atribuições como professor aos poucos foram se tornando insuportáveis, pois sobrava-lhe pouco tempo para a criação individual.

Após a tomada de poder pelos nacional-socialistas, Paul Klee, como muitos artistas, foi perseguido e boicotado. Em 1933, bastante confrontado com o cotidiano alemão daqueles tempos, o artista e sua esposa retornam para Berna, depois de ter sido atacado pelos meios de comunicação e sua casa ter sido revistada. Na Suíça, Klee passou os últimos anos de sua vida, bastante consternado com o cenário político que se desenhava. Observando suas obras deste período, descobrimos um homem aflito, que se isolava, sofria, mas que reagia e se exprimia em silêncio através de seu trabalho. Sua arte se transformou em figurações rabiscadas, nervosas, as vezes violentas, produzindo 245 desenhos somente neste ano.

A última fase criativa de Klee, em seus trabalhos tardios, é marcada por seu estado de saúde precário. Ele foi acometido por esclerodermia, que fez endurecer seus tecidos conjuntivos, a pele e os órgãos internos. Em seus últimos anos de vida criou uma obra multifacetada e rica até sua morte em 1940.

A exposição “Paul Klee – Equilíbrio Instável” apresentou-nos uma completa retrospectiva sobre o artista, exibindo ainda o documentário “The silence of an angel”,  que posteriormente descobri disponível no youtube em português como “Diário de um artista” – documentário ao qual sugiro que o leitor assista com bastante atenção.

Em uma série de dois textos, destaco alguns pontos que as teorias e as práticas de  Paul Klee me tocaram e inspiraram como arteterapeuta. As fontes são as legendas da exposição e as citações do artista são extraídas de seu diário, recitadas no documentário referido.  

1) O caminho para o interior, caminho para a abstração  

A citação mais conhecida de Paul Klee é: “A arte não reproduz o visível, ela torna visível.” Este pensamento se transformou em um dos princípios fundamentais da arte moderna e esta declaração sintetiza claramente o movimento de inversão que a arte fazia naquele momento histórico, deslocando-se do olhar exterior. Em suas reflexões sobre a arte do retrato, técnica inventada e popularizada não há muito tempo em seus dias, dizia: “... a minha intensão não é refletir a superfície assim como a chapa fotográfica, mas penetrar no interior.”

Klee cresce em uma época em que o desenvolvimento da ciência e das técnicas amplia os limites da percepção e propõe novas representações de mundo. O acesso ao que até então era invisível, se torna possível. E ele faz destas descobertas uma transposição artística. Seu interesse não estava nas coisas exteriores, mas na busca da essência:

“Antigamente pintávamos as coisas que podíamos ver na terra, que gostávamos de ver ou que gostaríamos de ver. Hoje em dia, a relatividade do visível se tornou uma evidência e aceitamos ver uma simples partícula na totalidade do universo.” Klee

Assim como Kandinsky, este caminho para o interior nas expressões artísticas, teve como estímulo a relação com a música, inspirando-os principalmente em suas obras abstratas. Kandinsky dizia que a música tinha um acesso direto à alma. Conta-se que antes de pintar, Klee tocava violino por uma hora, em seguida partia para seu ateliê e “pintava como um músico”. Em suas experimentações perguntou-se: seria a aquarela a transição ideal entre figuração e abstração? Uma passagem secreta aberta na transparência?

Esta inversão de olhar do exterior para o interior e da arte da representação para a arte da expressão se faz em essência a concepção de arte que nós arteterapeutas nos embasamos e bebemos da fonte. Penso que sem esta mudança de percepção histórica, a Arteterapia não poderia ter sido concebida como prática, saber e profissão.

Como consequência na imagem, esta que era figurativa, foi se transformando em direção a arte abstrata. Ao estudarmos a História da Arte nos primórdios da Arte Moderna, constatamos que quanto mais os artistas se dirigiam para o interior e sua expressão, mais suas imagens se tornavam abstratas. Esta é a razão pela qual cada vez mais tenho estudado a arte abstrata e estimulado que os experienciadores da Arteterapia experimentem expressar suas emoções mais profundas unicamente através da potência das cores e das formas.

2) A relação com a cor


Em 1914, Klee fez uma viagem para a Tunísia que mudou sua vida como pintor. Estimulado por tudo o que estava a sua volta, recebeu uma espécie de revelação e assim desenvolveu uma linguagem visual própria, afastando-se do modelo da natureza que havia estudado intensamente na juventude. A Tunísia expandiu seu repertório artístico e assim pôde criar uma linguagem visual abstrata em aquarelas de pequenos formatos, onde a cor era experimentada e sentida de uma maneira especial:

“A atmosfera penetra em mim com tal suavidade que se notar, sinto com cada vez mais segurança: a cor me possui. Não preciso procurá-la, ela me possui, eu sei disso. Eis a sensação do momento feliz. A cor e eu somos um, eu sou pintor.” Klee

A profunda relação com a cor vai ganhando proporção a medida que ela vai se tornado protagonista na imagem. No caminho para a abstração, a cor vai ganhando autonomia em relação a figura ou ao tema:   

“Robert Delanoy encontrou uma solução radical, surpreendente. Seus quadros são inteiramente abstratos, sem nenhum motivo figurativo conhecido, mas com a própria cor como assunto. Elas parecem ter uma existência autônoma.” Klee

Ao longo deste processo, desde suas aquarelas tunisianas, Klee aprofundou suas descobertas cromáticas a partir de estruturas quadriculadas. Através de múltiplas variações, ele explorou incessantemente estas possibilidades.

As expressões de “sentimentos puros” – como nos diz Kandinsky – torna-se cada vez mais possível quando nos deixamos afetar pela vibração das cores. Para além disto, Klee nos mostra o caminho para sermos possuídos por ela e assim nos encontrarmos como pintores.

Estimular, cada vez mais, que os experienciadores da Arteterapia mergulhem em um profundo diálogo com as cores, os tornarão mais seguros para explorar esta forma de expressão. Neste sentido, o contato com os sentimentos se tornará mais direto e segundo Klee, consequentemente na imagem, a cor ganhará cada vez mais autonomia.

3) O equilíbrio instável


O ensino estimulava Klee. Na Bauhaus, era encarregado das aulas teóricas de composição pictórica. Interessava-se, em particular, pelos jogos de equilíbrio e para tanto, se inspirava nas leis da física. Ele as estudava e depois as transpunha para sua pintura, e para preparar suas aulas construía móbiles com astes flexíveis, elásticos e fios.   

“Exercícios de equilíbrio e de movimento aprendem a se ligar ao essencial à função e não à impressão exterior. Aprende-se a reconhecer as forças subjacentes. Aprende-se da pré-história do visível.” Klee

A partir destes experimentos, Klee acreditava que a mão deve ser levada pela linha assim como o equilibrista deve ser levado como uma corda bamba.

Kandinsky nos dizia que a arte deveria respeitar o “Princípio da Necessidade Interior” do artista. Klee mostra-nos sua necessidade interior: o equilíbrio. Ele acreditava  que ao buscarmos o diálogo com o equilíbrio da vida, que não é estático, mas instável, podemos reconhecer nossas forças subjacentes e o que é essencial. Todo este movimento de diálogo com o equilíbrio interno nos moveria ao traço na imagem, gerando o visível.


O fascinante diálogo com Klee continua em um próximo texto, abordando aspectos de sua prática que podem nos estimular como arteterapeutas!


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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga.
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.


Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

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