segunda-feira, 22 de abril de 2019

DIÁLOGOS ENTRE A HISTÓRIA DA ARTE E A ARTETERAPIA


Por Eliana Moraes (MG) RJ
Instagram @naopalavra 

No percurso de construção da minha identidade profissional, houve um tempo em que me questionei sobre qual seria a fronteira entre ser uma psicóloga que se utilizava de técnicas expressivas e uma arteterapeuta propriamente dita. Intuitivamente busquei e encontrei algumas respostas. Uma delas foi a necessidade de me dedicar ao estudo da Arte em suas teorias, em especial a História da Arte.

De fato, esta foi uma grande descoberta, antes de tudo como um ser humano inserido na história. Estudar História da Arte amplia nosso olhar e percepções sobre a história da humanidade, bem como a fatia da história ao qual estamos inseridos. No que se refere a arte, ao longo do tempo ela desempenhou diversos papéis, sendo sempre um dos pilares de sustentação da construção da história e seu registro.

De posse destes estudos, pude entender o arteterapeuta como um portador da arte e do ofício de oferece-la ao social em nossos tempos e tudo o que ele contém. Este insight trouxe a mim o impacto de compreender a magnitude da profissão que abracei.

Os estudos sobre História da Arte começaram intuitivamente e continuaram de forma um tanto autônoma. O diálogo com a Arteterapia como embasamento teórico e inspirações práticas foi tomando forma ao longo do caminho. Até que senti a necessidade de formalizar estes estudos e me apropriar deste conteúdo. Decidi cursar um MBA em História da Arte e definitivamente entendi que este é um estudo fundamental para alguém que se reconhece como um arteterapeuta. Chegado o tempo de avaliações finais deste curso, me sinto motivada a compartilhar alguns fragmentos deste percurso tão instigante!

Considero-me ainda (e eternamente) uma estudante de História da Arte, pois ela abarca um mundo de conteúdos não tão próximos de minha formação original, a Psicologia. Entretanto, percebo que esta ponte entre História da Arte e Arteterapia não é um conteúdo muito explorado em nosso meio. Acredito que permanecer na motivação original do blog Não Palavra – compartilhar enquanto estudo – pode ser estruturante para mim mesma e de alguma forma colaborar para que outros arteterapeutas também sejam “picados pelo bichinho” da História da Arte e suas aplicabilidades na Arteterapia.

Por que História da Arte na Arteterapia?

Na construção da história da humanidade, alguns atores sociais sempre estiveram presentes e entre eles, o artista. Dentre a pluralidade humana, os artistas são aqueles seres sensíveis às questões mais profundamente humanas. Eles têm o dom de captar, sentir e expressar conteúdos que pertencem ao coletivo traduzindo-o na linguagem de seu tempo. Nas palavras de Nise da Silveira:

 “O artista é ‘um homem coletivo que exprime a alma inconsciente e ativa da humanidade’. No mistério do ato criador, o artista mergulha até as funduras imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as intuições primordiais e assim, fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida.” (SILVEIRA, 1981, p 161)

Na esfera individual, o artista pode trazer temas autobiográficos e expressar emoções a partir de sua própria história. Entretanto, ao contemplarmos sua obra, podemos identificar conteúdos que pertencem à humanidade. Um grande exemplo é Frida Khalo, que nos conta sua biografia em sua obra, ao mesmo tempo em que podemos nos identificar e nos reconhecer em suas pinturas.

Na esfera coletiva, o artista inserido no social, pode constelar em suas obras os movimentos culturais de seu tempo, fazendo um espelhamento à humanidade sobre o que tem produzido para si. Exemplo disto é o movimento dadaísta, movimento emblemático do início do Séc XX, que em sua essência denunciava a dor humana diante da Primeira Guerra Mundial.  

Ezra Pound, poeta e crítico literário americano, em seu livro “ABC da literatura” diz-nos que todo grande artista é um “antena da raça”, pois funciona como uma espécie de radar dos anseios e dos objetivos sociais e psíquicos do mundo, aos quais consegue captar e revelar com grande antecedência em suas obras. Ele captura tudo o que os desejos humanos querem ou precisam ver, ouvir, aprender, descobrir e entender de seu momento histórico.

Em outras palavras, Wassily Kandinsky, pintor e teórico, diz-nos em seu livro “Do espiritual na arte”, que “Toda obra é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos”.

Neste contexto, cada vez mais tenho acreditado na eficácia do estudo sobre a História da Arte pelos arteterapeutas, para que tenham acesso e compreendam a magnitude da expressão artística ao longo da história e possa desenvolver a escuta e o método de aplica-la em sua prática na Arteterapia. 

A História da Arte aplicada à Arteterapia

Na prática, a História da Arte se mostra um riquíssimo instrumento de trabalho para o arteterapeuta. Sendo por definição, a expressão de conteúdos profundamente humanos ao longo da história, carregam em si um grande potencial de identificação e projeções por parte dos espectadores/ experimentadores da Arteterapia.

Demonstra-se também um estímulo bastante “democrático”, pois alcança todos os perfis de público em diferentes idades, escolaridades, religiosidades, perfis psicológicos, ou capacidade cognitiva para a abstração/simbolização. Basta apenas  adequar a maneira de apresenta-la.

Como estímulos geradores, apresenta algumas especificidades: tratam-se de fatos, histórias reais, localizadas no tempo e no espaço, tornando-se assim imagens mais próximas e de fácil acesso ao experimentador da Arteterapia, pois frequentemente não são totalmente desconhecidas. Por vezes, são referências que são mencionadas no dia a dia ou atualidade, como, por exemplo, quando trazemos ao setting arteterapêutico o tema de alguma exposição ativa na cidade.

Em minha prática ao sustentar grupos arteterapêuticos permanentes, a História da Arte como fonte de inspiração mostrou-se inesgotável, além de muito estimulante. De toda forma, demanda uma vasta pesquisa e estudo para convertê-la em embasamentos teóricos e vivenciais aplicáveis à Arteterapia.

Em meus estudos, conclui que para a Arteterapia, podemos nos utilizar de pelo menos quatro campos da História da Arte:

- Movimentos Artísticos e seus contextos: ao estudar os diversos homens ao longo da história, podemos entrar em contato com eles e nos experimentar naquele contexto sociocultural, estilo de criação, linguagens expressivas e motivações, pois assim como os “arquétipos” da teoria junguiana, estes homens fazem parte de nosso psiquismo e inconsciente coletivo. Em minha prática, destaco os   movimentos da Arte Moderna e Contemporânea que além de estímulos vivenciais próximos a nossa cultura, embasam nossa escuta do social e do indivíduo de nossa época

- Produções artísticas e obras de arte: conforme citado anteriormente, sendo as obras de arte a constelação de conteúdos humanos, elas se configuram como estímulos projetivos muito eficazes na prática da Arteterapia, em suas mais variadas linguagens, como pinturas, esculturas, desenhos, poesias, músicas, filmes, etc. Faz-se necessário que o arteterapeuta vá construindo seu repertório a medida que vá experienciando a arte, coletando expressões artísticas que considere próximas às questões que comparecem em sua prática.

- Artistas e suas biografias: as histórias de vida dos artistas muitas vezes  dialogam com a história dos experimentadores da Arteterapia. Podemos conta-la como uma história, porém vivida por um ser humano como cada um de nós. Este diálogo entre artista e cliente/paciente pode trazer a este, a sensação de não estar só, além do estímulo para se utilizar da arte como instrumento de expressões, elaborações e ressignificações ao longo de sua biografia.    

- Os processos criativos: ao estudarmos as técnicas e materiais desenvolvidos por grandes artistas, adquirimos uma infinidade de técnicas que podem  ser contextualizadas, experimentadas e inseridas ao repertório do arteterapeuta. Basta conhecermos as motivações dos artistas ao mergulharem nestes processos e associá-las as questões recorrentes da escuta arteterapêutica.  

O diálogo entre História da Arte e a Arteterapia é um dos temas que vou me dedicar nos próximos tempos. Compartilhar enquanto estudo é minha forma de caminhar. Deixo o convite aos que se sentiram curiosos com esta temática, que compartilhe deste caminho comigo, em textos e encontros do Não Palavra.

Referência Bibliográfica:

SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra. 7a edição. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1981. 
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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 


Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.


Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".

Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

segunda-feira, 15 de abril de 2019

“DOIS METROS ACIMA DO CHÃO” – AS BOAS NOVAS DE BISPO DO ROSARIO




Por Tania Salete – RJ, atualmente residindo em Fortaleza CE
taniasalete@gmail.com
“Os loucos são como beija-flores:
nunca pousam, ficam a mais de dois metros do chão”.
Bispo do Rosário
                                                                                                                            

INTRODUÇÃO: 
No mundo midiático em que estamos imersos, a sede pela última notícia é real e constante. Todos buscam novas e, de preferência, boas notícias.  “Boas novas” ou “boas notícias” é o que significa a palavra Evangelho, derivada do grego, euangelion (eu, bom, -angelion, mensagem). Toda obra do Bispo do Rosário na verdade representava a sua boa notícia para humanidade.  

Artur Bispo do Rosário foi classificado como “esquizofrênico-paranoico” em dezembro de 1938, aos 29 anos, depois de peregrinar pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, com destino  à Igreja da Candelária, antes,  porém, passando por todas as igrejas da Rua Primeiro de Março,  terminando  no Mosteiro de São Bento, para apresentar-se aos monges  seu “Evangelho, as boas novas” da qual foi incumbido, pelas “vozes”, pois proclamava-se Jesus Cristo, tendo em vista que ambos possuíam  “a mesma missão na terra”. 

Bispo foi chamado “pelas vozes” para reconstruir um mundo em miniatura com as próprias mãos, (uma espécie de inventário do mundo) antes do terrível dia do juízo. Era uma missão urgente e demandaria muita dedicação, tenacidade, persistência e resistência. E foi assim que este homem extraordinário concebeu sua vasta e riquíssima obra durante os 50 anos de “aprisionamento” na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, onde atualmente abriga o Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea. 

A vida e obra do Bispo do Rosário já foi amplamente estudada, resultando em teses de mestrados, doutorado, peças de teatro, inúmeras exposições, documentários, filmes e livros, debates, e tantas outras discussões, devido ao impacto que causa e pela importância para a Arte Contemporânea. 

Dentre a vastidão e diversidade da obra do Bispo, desejo realçar o protagonismo do bordado, como recurso e ferramenta de arraigamento à vida e preservação de alguma forma de saúde mental. 

            BREVE BIOGRAFIA: 

            Bispo nasceu em Japaratuba, Sergipe, e foi adotado por uma família de fazendeiros de cacau (possivelmente os donos da plantação onde seus pais trabalhavam), onde aprendeu a ler e escrever.  

Em 1925, matriculou-se na Escola Aprendizes Marinheiros de Sergipe, servindo por nove anos. Em 1928 também atuou como pugilista, chamando atenção da imprensa tanto pela violência quanto pela capacidade de suportar golpes por tempo maior. Foi dispensado por indisciplina.

            Em 1933 foi contratado pela Light & Power como lavador. Ainda lutava boxe, mas sofreu uma lesão no pé, impedindo-o de continuar carreira. 

Em 1937 foi demitido da empresa por desobediência e por ameaçar seu superior. Nesta época, conheceu o advogado José Maria Leone, que o representou judicialmente e conseguiu um acordo com a empresa. Bispo foi acolhido pela família de Leone e passou a ser um empregado doméstico, encarregado de todo tipo de serviço, embora não quisesse ser remunerado em espécie. Preferia só a alimentação e moradia como pagamento. Foi guarda-costas do José Maria, durante seu breve período na carreira política e esteve com a família até seu primeiro surto psicótico ou “sua visão da missão”. 

             Tendo fracassado na tentativa de ser “reconhecido” pelos padres da Igreja São José, Bispo foi levado para hospital psiquiátrico da Praia Vermelha, Botafogo/RJ e recebeu o diagnóstico de esquizofrenia-paranoide. Algumas semanas depois, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde passou maior parte da sua vida.                                                                                       

INÍCIO DAS PRODUÇÕES

            Antes de sua reclusão definitiva na Colônia Juliano Moreira, Bispo prestou serviços na Assistência Médica Infantil de Urgência (AMIU), onde sua arte chamou atenção do pediatra Avany Bonfim que relata: 

                  “Espantei–me com o sem–número de miniaturas que ele fabricara em seu isolamento        esquizofrênico. Eram navios de guerra, automóveis, galardões, mantos, estes em veludo, policromicamente bordados à mão. Vi também dois ou três caixotes cheios de plaquetas de flandres, que ele recortava das latas de leite em pó. Tais plaquetas eram picotadas a prego, contendo os nomes das pessoas que ele conhecia. (…)        Nos caibros ele armazenava os carretéis e demais apetrechos do seu artesanato misterioso que ele exerceu na clínica por quatro anos”.

Nesta época, já com 50 anos, como alguns episódios relacionados a “religiosidade” se intensificaram e foi necessária uma nova internação. O médico relata que foi preciso uma certa logística em relação a mudança do “acervo” artístico que já existia: “Tivemos que fretar um caminhão para transportar toda a produção armazenada no sótão”.

            Bispo foi “etiquetado” como paciente número 01662, do pavilhão 10, destinado aos doentes “perigosos”. Dono de um temperamento forte, Bispo foi nomeado “xerife” do pavilhão. Um dia, por excesso de truculência para controlar um paciente, foi punido com período de três meses no confinamento. Justamente durante este tempo, ele escutou uma voz que ordenou que ele se isolasse a fim de realizar a sua tarefa: “representar” os materiais existentes na Terra para o uso do homem. Ele obedeceu e ficou confinado durante sete anos construindo a maior parte de seu acervo. 

            Interessante destacar que de seus ofícios anteriores, Bispo foi dispensado justamente por desobediência, insubordinação aos superiores, entretanto foi bastante cordato às vozes que ordenara tão difícil tarefa, exigindo dele grande submissão.

Nos primeiros trabalhos, Bispo utilizou geralmente utensílios do cotidiano da Colônia, como canecas, botões, colheres, caixas de madeira, garrafas plásticas, calçados, pentes, objetos de cozinha e uma infinidade de outros materiais, tidos como lixo ou refugo. Interessante perceber que havia uma organização, uma preocupação em catalogar, ordenar, organizar por função, cores ou semelhança. 

“Sua obra consiste numa grande coleção de objetos que ele reuniu, teceu, organizou, classificou, como um grande arquivista que coletava pedaços da vida cotidiana para levá-los à luz, no reino dos céus. Muitos dos objetos que colecionava e organizava criam grupos tipológicos da vida cotidiana - que ele chamava de "vitrinas" -, como se realmente quisesse mostrar para alguém que não nos conhecesse o que usamos para beber, vestir, comer, construir, celebrar”. Frederico Morais, crítico e curador de arte.              

            Segundo Frederico Morais, renomado crítico e curador de arte, “descobridor de Bispo”: “Enquanto viveu, Bispo do Rosário protegeu sua obra como quem protege um bem precioso, um tesouro, dificultando ao máximo o acesso a ela e recusando-se a exibi-la”. 

            Além dos médicos e da equipe de funcionários, Frederico Morais e Hugo Denizart foram alguns dos poucos a terem contato com a obra de Bispo do Rosário no seu contexto de produção (seu atelier-cela). Aliás, havia uma espécie de senha, uma pergunta curiosa feita por ele aos que desejavam penetrar em seu espaço: “Qual a cor do meu semblante?”. Se gostasse da resposta, tudo certo, caso contrário, encerrava a visita.  

 Tinha muito cuidado com suas obras e não gostava de se separar das mesmas. Certa vez, Morais se ofereceu para organizar uma exposição, mas Bispo recusou sua proposta. Não se via como artista e recusa este título. Frequentemente dizia: “Não sou artista. Eu escuto as vozes e as vozes me obrigam a fazer tudo isso. Se eu pudesse não fazer nada, eu não fazia nada disso. Eu recebo ordens e sou obrigado a fazer”.

  Havia um sentimento de obrigação e responsabilidade para além de algum prazer, pois em seu confinamento voluntário trabalhava incessantemente por 12 a 16 horas. Alimentava-se pouco, dormia pouco e fazia constantes jejuns. 

ARTE E RESISTÊNCIA

            Inusitada é a palavra que vem à mente ao entrar em contato com os bordados do Bispo do Rosário, não só pela singularidade de suas séries de estandartes e faixas, mas também pela maneira como foram confeccionadas. Uma das características marcantes do bordado é a possibilidade de desfazer, refazer, descoser as estruturas que aparentemente estão prontas, rígidas e inflexíveis. É furar e deixar uma marca da imagem desejada. 

            Na absoluta precariedade e escassez de materiais, Bispo desfiava os uniformes azuis dos internos e, de posse destas linhas azuis, bordava suas obras e que, segundo Flávia Corpa, esta funcionava, também, como uma sustentação e ponte de vínculo social com pacientes e funcionários que de alguma forma,  o ajudavam a viabilizar sua produção.

            Por outro lado, não se pode ignorar que Bispo do Rosário, através de seu fazer artístico, principalmente dos bordados, propôs uma espécie de “luta simbólica” contra o confinamento e as limitações institucionais as quais estava sujeito, como ressalta Frederico Morais:  Arthur Bispo do Rosário (…) desconstruíra dois emblemas poderosos da instituição manicomial – o uniforme azul do qual arrancava o fio com que teceria sua obra, e as celas da prisão, transformadas em seu ateliê de artista”.

E sobre esta espécie de resistência à sua situação manicomial, Cabañas diz: “Bispo, ao mesmo tempo em que não coincidia com aquilo que a sociedade esperava dos insanos, também não se adequou às demandas normativas das instituições psiquiátricas”. 

            Por assim dizer, Bispo do Rosário encontrou na sua arte uma forma de driblar as práticas desumanas como os choques elétricos e lobotomia, tão violentamente rechaçado pela Dra. Nise da Silveira, no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, também no Rio de Janeiro. Segundo Carneiro, Bispo do Rosário:

“criou um universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos durante um período em que a psiquiatria utilizava amplamente lobotomia, eletroconvulsoterapia e outros tratamentos enérgicos para tentar controlar os surtos psicóticos. Bispo soube contornar os mecanismos de poder no hospital e utilizou para criar suas obras todos os materiais que podia encontrar”.  Kaira Cabañas, professora de História da Arte Global, Moderna e Contemporânea na Universidade da Flórida

SÍNTESE DE SUA OBRA:

 O “Manto da Apresentação” é considerado por Morais como sua “obra prima, a síntese mental e visual de sua obra”, coberto por inúmeros bordados e representações do universo do Bispo do Rosário. Embora para o Bispo este manto tivesse o propósito de estar bem adequado para se apresentar a Deus no dia da sua “passagem”, também o usava nas raras entrevistas, filmagens ou quando era fotografado. Não apenas esta peça, mas os demais trajes que também bordou, como o “Fardão Azul”.




O “Manto da Apresentação” é um aglomerado de suas obras, um entrelaçamento de suas criações. Sua superfície é marrom, com inúmeras miniaturas de objetos bordados, franjas amarelas nos ombros, utilizadas em uniformes militares, cruzadas por diversos cordões coloridos na frente e nas costas. No interior da vestimenta, nomes de mulheres que ele julgava serem merecedoras de subir aos céus ou que aceitaram acompanhá-lo em sua jornada. A maioria dos nomes eram bordados em fios azuis sobre um tecido branco formando uma espiral em direção à gola. Afinal, nomear é também uma forma de se apropriar, de chamar ao pertencimento, de não esquecer. Bordado são pontinhos de resistência.

Segundo Cruz, “...o modelo de bordado utilizado no Manto é fortemente marcado pela tipologia usada em Japaratuba, na época das Festas de Reis, quando as bordadeiras usavam a técnica para enfeitar estandartes, mantos e trajes”.
      


Parte externa e interna do Manto da Apresentação


CONCLUSÃO

Artur Bispo do Rosário marcou definitivamente a história da arte ao ser identificado como artista, mesmo jamais tendo reivindicado este título. Marcou as instituições psiquiátricas porque depois de sua aparição na mídia através de uma reportagem sobre as péssimas e precárias condições destas instituições, intensificaram-se os debates e o clamor por uma grande reforma na conduta e tratamento dos doentes institucionalizados.  Sobre sua própria situação e a de seus pares, Bispo tinha opiniões muito pessoais: “Os doentes mentais são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão”. 

Nas palavras de Morais: “A doença mental para Bispo era circunstancial, pois sua arte transbordava para ‘além da loucura’, mas apenas para quem vê”.

Sobre esta habilidade de enxergar além do convencional, do que está posto, Flávia Corpas menciona: “Poderia ter sido o caso da “barafunda de objetos” que cercava Bispo do Rosário ser vista apenas desta forma, não fosse a habilidade de Morais e outras pessoas sensíveis que ajudaram a inserir definitivamente o Bispo na história da arte”. Continua afirmando: 
“...Não é de se surpreender, então, que Morais tenha visto em Bispo do Rosário aquilo que antes ninguém havia enxergado: seus objetos como obras de arte. Não posso, diante da frase que acabei de escrever, deixar de pensar nas palavras do próprio Bispo do Rosário: ‘Mas pra quem enxerga. Pra quem não enxerga, não dá pé.'”

Estátua em tamanho natural de Artur Bispo do Rosário em sua cidade natal, Japaratuba, em Sergipe, onde estão seus restos mortais sobre uma base em mosaico com cacos de cerâmica.


BIBLIOGRAFIA
1 - MORAIS, Frederico, CORPAS, Flavia. Artur Bispo do Rosário – Arte além da loucura - 1ª edição, 2013 
2- Dossiê Arthur Bispo do Rosário – Setembro, 2012. Disponível em <http://www.bienal.org.br/post/351> 
3 - Blog da Comissão de Humanidades Médicas do CFM. Disponível em < <http://humanos.cfm.org.br/2018/11/08/bispo-do-rosario-pra-quem-nao-enxerga-nao-da-pe/>
4 - CORPAS, Flavia. Bispo do Rosário e a representação dos materiais existentes na Terra. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382012000200010>
5 - CABAÑAS, Kaira Marie. A Contemporaneidade de Bispo. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1678-53202018000100047&script=sci_abstract&tlng=pt>
6 - CARNEIRO, Anna B. F., O original e o singular no Bispo do Rosário. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952015000100003>

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Sobre a autora: Tania Salete


Graduação em fonoaudiologia, pós graduação em psicopedagogia. Especialização em Arteterapia pela POMAR, Rio de Janeiro, atuando com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Atualmente residindo em Fortaleza.

Instagram: .instagram.com/caminhartes.arteterapia/
Blog: caminhartesarteterapia.blogspot.com/

segunda-feira, 8 de abril de 2019

ARTETERAPIA E PSICOPEDAGOGIA: Desdobramentos das oficinas criativas na interdisciplinaridade



Regina Célia Rasmussen – São Paulo
reginaceliacz@gmail.com

A Psicopedagogia atende crianças, adolescentes e adultos que demandam uma atenção em situação de aprendizagem. Não se trata de um trabalho que busca a transmissão de conhecimento, mas sim do auxílio ao indivíduo como um todo, partindo do princípio de que a aprendizagem é inerente à condição humana.
Para Alícia Fernández – referência fundamental na Psicopedagogia -, o problema de aprendizagem se encontra na anulação das capacidades e bloqueio das possibilidades e, nesse contexto, a expressão artística surge como um suporte não só para o atendimento, mas também para o fortalecimento do potencial criador do próprio psicopedagogo.
Como professora de oficinas de Arteterapia em pós-graduação de Psicopedagogia, tenho observado que os vínculos formados com os meus alunos costumam extrapolar as minhas aulas. Em cada término de módulo, muitos demonstram a necessidade de dar continuidade às vivências proporcionadas pelo conteúdo oferecido, não só que os auxiliem em seus futuros atendimentos, mas que também os ajudem na sua própria saúde mental para que possam exercer a profissão com mais significado.
Ao ensinar algumas técnicas de estimulação da expressão artística aos estudantes de psicopedagogia com o objetivo de acessarem em seus pacientes a criatividade, ficou evidente a oportunidade desses alunos desenvolverem o seu próprio processo criativo a partir das sensibilizações vivenciadas.
Visualizações criativas, poemas, contos, músicas e filmes foram as formas apontadas de sensibilizar, mover e estimular o fazer artístico, e que favoreceram uma expansão do potencial psíquico na realização do objeto das oficinas, ou seja: a imagem simbólica na arte - por eles produzidas – trouxe uma reflexão sobre a própria atuação e as singularidades dos seus autores.
Segundo Fayga Ostrower: 
 “(...) criar representa uma intensificação do viver, um vivenciar-se no fazer; (...) é uma realidade nova que adquire dimensões novas pelo fato de articularmos, em nós e perante nós mesmos, em níveis de consciência mais elevados e mais complexos. Somos, nós, a realidade nova. Daí o sentimento do essencial e necessário no criar, o sentimento de um crescimento interior, em que nos ampliamos em nossa abertura para a vida.” (p.28)
As oficinas criativas foram oferecidas como uma noção de técnicas importantes, como um suporte para o trabalho do psicopedagogo na sua missão de ser o facilitador da integração do emocional e do cognitivo na situação de aprendizagem, mas foi além ao provocar a experiência e a expressão artística com a diversidade de materiais naqueles que aprendiam. 
O que era apenas uma aprendizagem sobre a utilização das sensibilizações e as propriedades e possibilidades dos materiais expressivos para fins da terapêutica psicopedagógica provocou a necessidade de um maior autoconhecimento para atuação como psicopedagogo. Esse desdobramento endossa a importância da arte como ferramenta para compreender melhor o mundo, as pessoas, e a si mesmo, pois traduz e ressignifica as experiências de vida. 
Esses ex-alunos se mostraram motivados a se desenvolver psiquicamente e a procurar uma autonomia mais plena em sua nova prática. Sabem que são capacitados para a profissão que abraçaram, mas percebem que o novo caminho requer saúde mental, disponibilidade para o outro, concentração, acessibilidade à criação e a todo o processo que a envolve para a possibilidade de se (re)conhecerem e serem os protagonistas do seu fazer psicopedagógico.

Para atender a esse desdobramento do início do percurso dos profissionais de Psicopedagogia nas suas inquietações e constatações que permeiam a realização efetiva do atendimento em clínicas psicopedagógicas, faz-se necessário um espaço gerador de possibilidades de criatividade e expressividade.
Nesse contexto, a Arteterapia propicia a construção desse espaço para desvelar e transformar os novos “cuidadores da aprendizagem prazerosa” em profissionais mais harmônicos, onde o arteterapeuta funciona como o guia que organiza, estimula e conduz as atividades em consonância com o funcionamento do grupo.
Da interdisciplinaridade, surge a configuração de um ciclo de encontros arteterapêuticos que visa proporcionar a esses novos profissionais e seus pares um encontro com a arte - em atividades de criação e reflexão - para essa nova jornada: a ressignificação de sua própria aprendizagem, a melhora da autoestima, a ampliação do seu (auto)conhecimento, e, assim, qualificar de maneira mais segura o “ser psicopedagogo”. 

Bibliografia:

FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada:  abordagem psicopedagógica clínica da criança e de sua família. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
LACAVA, Lídia. Eros e Psiquê: um caminho possível para pensar a docência. São Paulo: Porto de Ideias, 2018.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 25ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
PHILIPPINI, Angela. Grupos em Arteterapia: redes criativas para colorir vidas Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011
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Sobre a autora: Regina Célia Rasmussen


Pedagoga, psicopedagoga e arteterapeuta
Professora em pós-graduação de Psicopedagogia
Coordenadora do Espaço Crisântemo - onde atende e gerencia workshops e oficinas criativas.