segunda-feira, 15 de julho de 2019

ARTETERAPIA COM IDOSOS EM ATENDIMENTO DOMICILIAR




Sonia Santos - RJ 
soniamsantos442@gmail.com

É com imenso prazer que recebo convite do blog “Não Palavra” para compartilhar um pouco da minha experiência de Arteterapia com idosos, em atendimento domiciliar.
O primeiro passo para um bom atendimento é a entrevista com o familiar, acompanhante e  também com o idoso, onde conheceremos um pouco da sua história, como se sente naquele momento e observamos o ambiente onde vive.
 Muitas vezes aos idosos já faltam palavras para se expressarem, mas podem fazê-lo através de formas, cores, materiais diversos e gestos. E que tal acrescentar música aos encontros? Ah! Quantos resgates através da música. Uma sugestão é selecionar um repertório de músicas antigas de artistas como: Lupicínio Rodrigues, Nélson Gonçalves, Ângela Maria, Cartola, etc, não esquecendo das marchinhas de carnaval, valsas e dos chorinhos. Há idosos que gostam muito de Roberto Carlos, músicas sertanejas, Martinho da Vila e até de cantores atuais, mas a preferência (com relação aos idosos que atendo) é sempre por músicas antigas.
A música é grande facilitadora no processo criativo.
A poesia é também bem aceita. Quem não se encanta com “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu? Mário Quintana, Cora Coralina, Castro Alves, Rubem Alves ...
De uma poesia podemos partir para um trabalho plástico e até uma “escrita criativa” e caso esse idoso tenha dificuldade em escrever usamos a “escuta criativa”. Há também a possibilidade de gravar a sua fala (mas muitos não se sentem à vontade com essa proposta). Precisamos estar atentos ao que dá ou não prazer ao idoso.
Apesar de utilizarmos diversas técnicas como pintura, desenho, construção, modelagem, canto, dança sênior, dobradura, a colagem é normalmente muito bem aceita por essa faixa etária, por ser de pouca complexidade. Muito importante por ser a organizadora do pensamento. 
 Costumo usar a colagem também como base para uma atividade que envolva desenho e/ou pintura. Como exemplo: a colagem de um belo vidro de perfume (escolhido pelo paciente) pode se transformar num belo vaso de flores, com a ajuda de lápis de cor, lápis cera, pastel oleoso ou até guache. 

Importante termos sempre uma pasta com diversas gravuras de figuras masculinas, femininas, família, crianças, animais, lugares, religiosidade, dentre outras.
Ao trabalhar com idosos podemos trazer exercícios de memória, mas devemos ter o cuidado de não infantilizá-los, como também não sugerir atividades que eles não consigam finalizar devido ao grau de dificuldade e assim, frustrá-los.
O idoso deve ser sempre estimulado e temos observado que às vezes ao chegarmos para o atendimento, o encontramos triste, apático, desanimado e no final do encontro nos dizem: 
-  Já vai? Quando voltas?
Pode acontecer também o contrário, o encontramos sem desejar participar de nenhuma atividade (pode ter dormido mal, ter mudado ou acrescentado algum medicamento, etc), mas nossa presença pode ser revitalizante, pois o afeto é, normalmente, o que aquele idoso mais precisa. Então sentar ao seu lado, acolhê-lo com carinho, respeitar o seu momento, colocar uma música, pois a música pode levar-nos a um lugar mágico, belo e transformador, é muito importante.
Nos atendimentos uso letras de música, desafios com imagens, jogos, atividades diversas para que sejam estimulados cognitivamente. Alguns jogos podem ser adaptados e até criados.
Podemos e devemos usar nossa criatividade e criar jogos como os das fotos a seguir: 
  



 Dominós com figuras geométricas em EVA, frutas, flores, botões coloridos e jogos da memória através do tato (principalmente para idosos com deficiência visual) utilizando materiais diversos como rolhas, lacres de refrigerantes, algodão, lixa, bombril, prendedor de roupa, e demais jogos que a imaginação construir. 
Existe muito material de baixo custo, como os criados pelo professor Anderson Amaral, e que são grandes aliados para os nossos atendimentos. 
             Atender idosos através da arte e com atividades que estimulem a memória é muito importante.
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Sobre a autora: Sonia Santos


segunda-feira, 8 de julho de 2019

SÉRIE OLHARES SOBRE OS MITOS: HADES E A DEPRESSÃO


Laila Alves de Souza - Curitiba/Rio de Janeiro
lai_ajt@hotmail.com
Nos outros textos dessa série “Olhares sobre os mitos” enfatizei a importância que a psicologia profunda atribui aos mitos. Estes não apenas carregam meras narrativas descrevendo sobre o comportamento humano, mas trata da vida da alma. Diz HILLMAN: “Os mitos governam nossas vidas. Governam uma história de caso a partir de baixo, através da história de alma.” (20011, p. 93)
Considerar a perspectiva pela história da alma é diferente da perspectiva pela história de caso. Numa história de caso temos como metodologia a descrição e a interpretação dos eventos e das emoções. E o tratamento, nessa perspectiva, se molda por essas colocações, trazendo luz as questões até então obscurecidas. Portanto, seguindo por esse caminho “de dar luz” ou “trazer à luz” partimos do pressuposto que a luz representa um critério que diz respeito a algo saudável e adequado. No entanto, quando nos atemos à história da alma, esta nos coloca em contato com aquilo que subjaz da EXPERIÊNCIA. A alma reclama a experiência! Ao invés de debruçarmos na tentativa de desvendar o que quer dizer essa experiência, nós vamos para as profundezas do que o indivíduo está experenciando. Tiramos, desse modo, qualquer tipo de parâmetro ou critério que indique que algo é adequado ou inadequado, sadio ou patológico, bom ou mal. Apenas ficamos com a escuta para alma daquele sujeito.
Peguemos uma das experiências psíquicas mais discutida da atualidade, a depressão. Ao imaginá-la nós já conseguimos agrupar certas associações e parâmetros a respeito da “doença”. Felizmente, já há um progresso na conscientização da depressão, ou seja, já existe um movimento de profissionais da saúde e outras áreas que a qualifica como algo sério e que a condição depressiva ultrapassa a força de vontade (força egóica) do sujeito. Este fica completamente vulnerável e à mercê da depressão. Essa experiência o consome, consome seu ego e sua orientação consciente, pondo-se à vista a natureza psíquica, a alma.
Na ótica da psicologia analítica, dentro da estrutura psíquica proposta por Jung, a condição depressiva é justamente a perda de energia psíquica que o ego possuía. Uma pessoa que se mantém ativa, com a capacidade cognitiva intacta e sem alterações nas suas necessidades físicas detém de uma quantidade específica de energia que a permite desenvolver suas atividades cotidianas. Sem essa energia concentrada na consciência nenhum movimento do ego é possível. A energia, portanto, regrediu às profundezas, isto é, há uma regressão da libido. Isso nos dá um panorama muito elucidativo da situação específica, que consiste naquilo que anteriormente foi mencionado como história de caso. No entanto, para a história da alma a linguagem é outra. Aí adentramos ao mito. 


HADES 
Hades é o deus que reina o submundo ou mundo das trevas, assim também designado como o reino dos mortos. Como Hécate (já mencionada em outro texto CLIQUE AQUI) ele é um deus ctônico. Esses deuses são deuses que residem na escuridão, no subterrâneo. Não se tem certeza de como eram o rosto desses deuses, uma vez que, o que está debaixo dos nossos pés, além da terra, não passa pelo nosso campo de visão, não sabemos o que jaz nessa escuridão desconhecida. 
Hades é “(...) o escuro reverso não só de Zeus, mas também de Hélio.” (KERÉNYI, 2015, p. 208). Esses dois últimos deuses estão associados com a luz e o reino celeste e Hades, no entanto, nos puxa para seu reino sombrio de escuridão, para baixo. Vemos no rapto de Perséfone exatamente essa dinâmica. Resumidamente, Core, filha de Deméter, estava colhendo flores quando de repente a terra se abriu e dela se irrompeu Hades em sua carruagem com seus corcéis negros. Hades a raptou e a levou para seu reino ctônico. Core a princípio, tentou lutar contra o raptor, mas foi levada à força. Deméter ficou desesperada pelo sumiço da filha, até que descobriu, por Hélio - aquele que tudo vê - que foi Hades quem a raptou. Ao tentar resgatar sua filha, viu que esta se tornara a rainha do submundo, Perséfone, esposa do deus temível. E constatou também que esta comera sementes de romã e que quem come no Hades não sai mais de lá. Porém, a insistente Deméter reivindicou a Zeus o retorno de sua filha junto a ela, alegando que se isso não acontecesse a terra não ia mais prosperar, já que ela era a deusa da vegetação e fertilidade. Zeus conseguiu negociar com seu irmão Hades de que Perséfone ficaria com ele um terço do ano e o resto com sua mãe. Fazendo a terra florescer quando as duas se encontram.     
Esse rapto por Hades, ou seja, esse puxar para baixo é exatamente a experiência da depressão. Estamos como Core, colhendo flores nas pradarias da vida, quando, de repente, o chão se abre para o caminho das profundezas. Descemos aos ínferos, ou seja, a energia psíquica cai nas trevas. Os gregos chamavam essa queda de katabasys. Vemos esse motivo da queda em muitos mitos e contos, e como sendo uma experiência arquetípica, sofremos ou sofreremos essa experiência. Por isso podemos dizer que a depressão é uma das katabasys da mitologia atual. Frases tais como “estou no fundo do poço”, “estou caindo num abismo”, “perdi o chão”, “me sinto fraco e impotente”, revelam que a experiência do rapto de Hades ao reino da morte é o começo de um processo de morte propriamente dito.

O REINO DE HADES
Ao chegar no reino dos mortos, forçadamente, nós nos defrontamos com o desespero e o tédio. Como afirmam CHEVALIER & GHEERBRANT (2009) o reino de Hades é "(...) lugar invisível, eternamente sem saída (salvo para os que acreditava nas reencarnações), perdido nas trevas e no frio, assombrado por monstros e demônios, que atormentam os defuntos."(p. 505). É a escuridão total! De nada adianta puxar o indivíduo para a luz, pois ele já está mergulhado nesse reino de trevas. Aqui, quando vemos pela perspectiva da clínica, é imperativo que o terapeuta abrace a experiência do rapto de Hades. Ficar erguendo seu paciente para a direção da luz em tentativas de tirá-lo do reino da morte é perder o processo que alma pede daquele paciente. Ao invés de se perguntar “como faço para tirá-lo dessa condição sombria?” se propor fazer a pergunta “o que a alma quer com essa experiência sombria?”.
Por estar no reino da morte, uma das respostas para essa pergunta é justamente a morte. Ela tem que se apresentar para ambos envolvidos no processo – o paciente e o terapeuta. Fugir dela é não permitir que Core se transforme em Perséfone. Como diz HILLMAN (2011) “(...)cada morte é a nossa própria criação.” (p. 73-74). No entanto, a tendência é que sintamos uma angústia demasiada na presença dela e que, assim, queiramos acelerar o processo. Dessa forma, é importante salientar aqui que no reino de Hades não existe tempo, o deus Cronos (cronológico) que estamos acostumados no mundo “de cima” não existe aqui embaixo. Por isso que o depressivo entra em outro estado de tempo, bem mais vagaroso e pesado, se culpando, inclusive, por não conseguir fazer as coisas no tempo em que as outras pessoas estão. Exigir essa aceleração do depressivo é praticamente deixá-lo mais culpado no mundo de Hades.
Como foi mencionado acima, estar preso a esse reino é ser assombrado por monstros e demônios. Nessa experiência, como o ego não tem energia psíquica pois essa regrediu, esse é um momento precioso para a alma. Quando o eu está em “bom estado e funcionamento”, as resistências estão em dia e são facilmente consteladas, além do que, as personas estão firmemente encaixadas com as propostas do ego. Porém, sem a força usual desse, somos obrigados a ver o que jaz nas nossas profundezas, aspectos esses bem escondidos pelos mecanismos do bom funcionamento. Nossos monstros e demônios já são da casa de Hades e são eles, justamente, o alimento que necessitamos para essa experiência, como são as sementes de romã ingeridas por Perséfone. São monstros que viram valiosos materiais psíquicos. 
Hades também é chamado de Plutão que significa “o rico”. "Então Plutão refere-se às riquezas escondidas ou às riquezas do invisível." (HILLMAN, 2013, p. 53). Portanto, por mais temível e perturbador que possa ser o caminho ao passar por essa experiência em que reina a morte, só se possibilita dar esse mergulho nas riquezas escondidas quando o ego não está em seu trono na luz. 
Assim podemos perceber que algo tão ameaçadoramente desestruturador, cujo nome damos de patologia (relacionando-a com termos tais como desordem, doença e desvio), mostra-se, no final das contas, como uma criação feita pela alma. Olhar a depressão pela ótica do trono na luz é olhá-la por esse perfil negativo e tomar todas as providências para tirar a pessoa do reino das trevas. Quando Hillman afirma que a alma patologiza, ele quer dizer que a é através de manifestações “não normais e sadias” que o indivíduo é forçado a olhar para sua individualidade; individualidade esta que está além desses termos: normal e adequado. Pelo contrário, a alma que se individua tem que ir além do que o coletivo afirma como sujeito adaptado, para assim poder se diferenciar como indivíduo. Um indivíduo, portanto, a serviço de seu Self e não das personas coletivas. Esse é o processo de individuação.     
 A subida então, como Perséfone faz para encontro de sua mãe, a terra, é o percurso de saída do estado depressivo. O mundo é outro porque se adquire uma nova percepção do mesmo: “Não sou mais aquele que foi raptado”, uma amiga um dia me afirmou: “Aquilo foi em outra existência.” Passado pela morte, agora o indivíduo se vê mais “psiquizado”, ou seja, muitas coisas se tornaram psíquicas; as cascas que antes eram sustentadas pelo ego foram derrubadas e as essências foram reveladas. O olhar de Perséfone é justamente o olhar para essência das coisas, diz BERRY (1997): 
Com isso entendo que a percepção das diferenças no reino da natureza de Deméter é também uma percepção de essências no reino de Perséfone - onde essência é o “Não-visto”, a semente oculta da romã, ou o “invisível”. Desse modo, notar as diferenças do mundo da superfície é ter, ao mesmo tempo, uma percepção através de uma consciência dos invisíveis do mundo inferior.” (p. 89)  
É olhar as coisas e as situações pela perspectiva da alma. Esse olhar de Perséfone para as essências é imprescindível aos terapeutas, pois enxergar através do aparente, seja ele um sintoma ou o discurso literal, é poder enxergar o que a alma pede. Além do que, a Perséfone tem uma função psicopompa, ou seja, ela é a guia que tem familiaridade com os dois reinos, o terrestre e o submundo; o material e o psíquico. Assim, o terapeuta é o guia que ajuda a travessia do paciente, permitindo e vivenciando a experiência do reino da morte, mas não se dissolvendo junto com o paciente. A Arteterapia é o campo que também proporciona uma atitude de Perséfone, que no manuseio do material (Perséfone com Deméter), traz o reino das essências (Perséfone com Hades).
Portanto, o olhar para o mito, na sua própria linguagem, nos permite o aprofundamento naquilo que se apresenta. Temos uma psicologia muito voltada para as histórias de caso, onde a percepção e a abordagem para a depressão pegam um outro rumo. No entanto, quando nos voltamos para aquele indivíduo e paramos para escutar (com Eros) seu rapto, sua katabasys, sua estadia no mundo de Hades e sua subida, de forma que nenhuma outra pessoa terá igual, estamos pegando o rumo da psicologia da alma.        

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BERRY, Patricia. Encarando os Deuses (org. James Hillman). São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1997.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. RJ: José Olympio, 2009.
HILLMAN , James. Sonho e o mundo das trevas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
 _______________. Suicídio e Alma. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
KERÉYNI, Karl. A mitologia dos gregos: vol I: A história dos deuses e dos homens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015
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Sobre a autora: Laila Alves de Souza

Psicóloga
Pós- graduada em psicologia clínica na abordagem da Psicologia Analítica.
Atendimentos clínicos pela abordagem da Psicologia Analítica no Rio de Janeiro.
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos projetos.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A ESCUTA CLÍNICA DO MASCULINO E A ARTETERAPIA

Por Juliana Mello – RJ
entrelinhas.artepsi@gmail.com


Como tenho falado em textos anteriores, a terapia cognitivo-comportamental trabalha com a identificação de pensamentos, sentimentos e comportamentos disfuncionais, para que estes possam ser flexibilizados e, consequentemente, tornarem-se mais funcionais. Porém, em muitos casos, é difícil identificar o que estamos pensando ou sentindo. A expressão somente por palavras parece insuficiente para alcançar a descrição do que nos incomoda e gera angústia. 
Tenho recebido em meu consultório, uma demanda de pacientes do sexo masculino de grande relevância, visto que este público apresenta grande dificuldade de se enxergar e expressar sentimentos, que, de certo modo, os fazem se sentir vulneráveis. Em muitos casos, conseguem descrever através do diálogo todas as suas queixas. Porém somente as palavras não dão conta de resolver os conflitos internos. O trabalho lúdico realizado com esse público tem se mostrado muito eficaz.   
C., 17 anos, chegou ao consultório com a demanda das escolhas que precisava fazer em seus últimos anos no colégio. Precisava tomar uma decisão entre voltar a estudar o ensino regular e se preparar para o Enem ou continuar no preparatório para uma área específica. Trabalhamos algumas técnicas da TCC, porém algo não o permitia avançar e agir nas escolhas. Ao realizarmos uma colagem, C. pode perceber que seu comportamento estava disfuncional e que o mesmo “esquivava-se” de atitudes que apresentavam obstáculos aparentemente difíceis, não conseguia arriscar. Seu desejo ao fazer a colagem era criar um personagem com partes de cada figura. Posteriormente, tomou sua decisão e está cursando o preparatório de seu interesse.
Colagem refletindo o comportamento de C.

V., 21 anos, apresentava dificuldades na escolha do curso da faculdade e para se preparar para o Enem. Estava há 3 anos tentando aprovação e não alcançava um resultado satisfatório. Iniciamos a Arteterapia, para trazer a reflexão sobre seus interesses, desejos e conseguir fazer suas próprias escolhas, além de se organizar para os estudos, dentro do prazo que era permitido. Dentro deste processo, V. percebeu que havia outras questões pessoais que precisavam ser trabalhadas, para que ele pudesse se sentir mais funcional. Em um momento da terapia, V. informou que precisava de um tempo só para falar, que gostaria de pausar o processo da Arteterapia. Prosseguimos com a TCC somente. Porém as palavras foram perdendo suas forças, o progresso do agir foi paralisando e então sugeri que voltássemos a Arteterapia, quando V. ressaltou: “Eu ia mesmo te pedir isso”. Atualmente, está cursando uma faculdade pública e adaptando-se a novos hábitos. Em seus movimentos em Arteterapia, sempre expressa que as imagens e palavras de revistas passam exatamente como ele se sente.  

Trabalho com mandalas para organização de V.



Colagem sobre sentimentos de V.


G., 28 anos, chegou ao consultório com quadro depressivo moderado à grave, esvaziado de sentimentos e com pensamentos disfuncionais que o paralisavam em todas as áreas de sua vida. Iniciamos o processo de Arteterapia e nos primeiros trabalhos foi possível perceber fisicamente a dificuldade de movimentar-se, através da respiração ofegante e desconforto com os materiais. No exemplo desta colagem, o mesmo ressaltou que “estas imagens relatam exatamente o que eu estava querendo dizer e não estava conseguindo”.

Colagem sobre pensamentos de G.
Atualmente, G. trabalha como professor, retornou a faculdade e está trabalhando suas habilidades sociais. Em suas palavras: “A Arteterapia tem esse lado que para se expressar você tem que estar em contato com suas emoções. E muitas das vezes esse contato força o resgate e a reflexão de coisas importantes que esquecemos ou reprimimos”.
 

Pintura para expressão de sentimentos e para a agir de G.


Continuidade do trabalho de tintas, em papel vegetal e giz de cera de G.
Ainda é muito pequena a procura por atendimento por pessoas do sexo masculino em relação a procura feminina. Porém, é muito importante a promoção de saúde também para o público masculino e um olhar mais atento a estes, visto que é alto o índice de “acidentes” emocionais neste público.

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Sobre a autora: Juliana Mello

Psicóloga, Arteterapeuta e Coach
Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia
Palestras e Workshop motivacionais.



segunda-feira, 24 de junho de 2019

NO PERCURSO DE ESTUDOS SOBRE HISTÓRIA DA ARTE: reflexões sobre o filme “O sorriso de Monalisa”



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram: @naopalavra

Nos últimos tempos tenho me apropriado do percurso de estudos sobre a História da Arte e a pesquisa sobre suas aplicabilidades na Arteterapia, nos campos teórico e prático. Esta jornada é alimentada por cursos, livros, vídeos... e filmes. 

Há algumas semanas uma pessoa querida me soprou ao ouvido o nome do filme “Sorriso de Monalisa”, dizendo que ao assisti-lo se lembrou de mim (quanta honra). De fato, me identifiquei com a personagem principal, a professora de História da Arte Katherine Watson (vivida por Julia Roberts) que em meio ao seu ofício guardava o sonho de “mudar o mundo”. 

Tenho assumido o movimento de compartilhar enquanto estudo, as diversas descobertas e encantamentos que esta pesquisa me proporciona. Considero importante que o arterarapeuta se aproprie da história daquilo que carrega em seu nome: arte. O estudo de toda a linha do tempo é importante para que possamos contemplar os diversos homens ao longo da história, compreendendo que todos eles ainda existem em nós. Mas em especial, tenho direcionado meu estudo para a fatia da história do século XX até os nossos dias, período da Arte Moderna e Contemporânea. 

Considero importante este recorte por alguns motivos, dentre eles, o fato de que estes são os movimentos artísticos mais atuais, próximos de nossa cultura e maneira de enxergar o mundo. Estudando-os somos instrumentalizados para a escuta do social e do indivíduo (naquele inserido) que nos procura como terapeutas. 

Penso também que as quebras de paradigmas e as novas formas de se enxergar a arte e o mundo trazidas pela Arte Moderna, são estruturais para que a profissão da Arteterapia pudesse ser pensada e assim se tornar possível. Ao assistir “Sorriso de Monalisa” pude associar fragmentos do filme aos meus estudos e observar como pontos que de certa forma parecem pacíficos hoje em dia, nem sempre foram assim. As desconstruções conceituais que a Arte Moderna proporcionou e sustentou, não sem grande resistência, merecem nossa atenção e aprofundamento teórico. Desconstruções estas que apontam para nossa cultura atual e para a maneira de se enxergar e fazer arte ao qual nós arteterapeutas bebemos de sua fonte. 

O filme

“Sorriso de Monalisa” é um filme americano de 2003, dirigido por Mike Newell, ao qual retrata os padrões socioculturais da década de 1950. O filme conta a história de Katherine Watson, uma “boêmia da Califórnia [que] estava a caminho da mais conservadora escola do país” para lecionar a disciplina de História da Arte. Katherine tinha um tamanho desafio pela frente, até porque o que “... tinha de inteligência [era] o que lhe faltava em pedigree”.

Wellesley College, tradicional escola  feminina, investia na melhor educação para suas alunas, mas orientando-as para que se transformassem em cultas esposas e responsáveis mães.  Recebiam aulas como oratória, locução e postura. O tradicionalismo era tamanho que em determinado momento uma enfermeira do campus foi demitida por fornecer um método contraceptivo a uma aluna e assim encorajar a promiscuidade. Saindo da escola, com um alto preparo intelectual, as únicas responsabilidades das ex-alunas seriam cuidar dos maridos, filhos e casas. 



Nas primeiras cenas do filme, Katherine que viaja de trem, já demonstra seu apreço pela Arte Moderna ao contemplar um slide da clássica obra de Picasso “Les demoiselles d’Avignon”. Quando é recebida pela diretoria da escola é arguida sobre seu tema de dissertação:

- “’Picasso fará pelo século XX o que Michelangelo fez pelo Renascimento’ você diz em sua tese. Então estas telas produzidas hoje só com borrões de tinta merecem tanto nossa atenção quanto à Capela Sistina?”   

Cenas destacadas: (atenção, a partir de agora o texto conterá muitos spoilers. Caso você não goste deles, sugiro assistir o filme antes de concluir sua leitura)  

- O início das aulas:  



Para o primeiro dia de aula da disciplina “Introdução a História da Arte” Katherine havia preparado uma sequência de slides que remontava a linha do tempo das expressões artísticas desde a pré-história. Para sua surpresa as alunas sabiam citar os nomes e datas de todas as obras mostradas e assim descobriu que as alunas haviam lido todo o conteúdo programático e o decorado antes mesmo do início das aulas. 

Após um primeiro momento de frustração, Katherine é movida a buscar novos caminhos para afetar suas alunas, mostrando a elas o potencial da arte e uma visão de mundo para além dos livros e apostilas. 

No segundo dia de aula Katherine surpreende as alunas com a imagem de uma obra que não estava no programa: “Carcaça” (1924) de Soutine. 


“Ele é bom?... Vamos moças! Não há resposta errada. Não há livro texto lhes dizendo o que pensar.”

E o diálogo entre as alunas acontece:

“- Não, nem diria que é arte. É grotesco.
- E a arte não pode ser grotesca?
- Se sugere que isto é arte, o que iremos aprender?”

E assim Katherine define o programa a ser estudado:

“- O que é arte? Quando uma obra é boa ou ruim? E quem define? ‘A arte só é arte até as pessoas certas dizerem que é'. E quem são estas pessoas?”

- Contemplando Pollock 

Um momento marcante do filme é quando Katherine leva suas alunas para uma aula externa, onde ela as apresenta à uma autêntica obra de um dos mais importantes artistas americanos daquela momento: Jackson Pollock.


Diante daquela enorme tela marcada com o estilo único de Pollock, as alunas não esconderam seus rostos de estranhamento:

“- Já ia aceitando a carne com vermes como arte, agora isso...”

Katherine completamente absorvida com aquela imagem, apenas diz:

- “Façam um favor a si mesmas. Calem-se e apreciem. Não haverá nenhum ensaio sobre. Não precisam nem gostar dele. Só precisam apreciar. É a única tarefa de hoje. Quando acabarem, podem ir.”


- Sinais de resistência

Mas estes conteúdos inovadores, naturalmente não passaram desapercebidos pela direção da escola. Em determinado momento a diretora revela a Katherine que tem recebido telefonemas sobre os métodos da professora, um tanto heterodoxos para Wellesley e adverte: 

“Somos tradicionalistas... Então, se quer permanecer aqui... menos Arte Moderna.” 

- Van Gogh e a mudança de rumos na arte

Para mim, o ponto alto do filme se dá quando Katherine ensina sobre Van Gogh, mas além dos livros, mostra às alunas uma caixa como de brinquedo e fala sobre a nova forma de “arte para a massa: uma pintura com manual”.


“ - Ele pintava o que sentia. Não o que via. Ninguém entendia. Achavam infantil e tosco. Levou anos até reconhecerem sua técnica e verem como suas pinceladas faziam o céu noturno se mexer. Ainda sim, ele não vendeu nenhum quadro em vida... Agora, 60 anos depois, ele é tão famoso que todos têm cópias suas. A reprodução disponibilizou a arte para as massas. [Hoje]... ninguém precisa ter um original... eles fazem as próprias cópias.”

A caixa continha um kit para pintura a óleo e dizia:

“Agora todos podem ter um Van Gogh. É fácil. Siga as instruções e em minutos você se tornará um artista.”

Katherine segue:

“Veja o que fizemos com um homem que se recusava a conformar seus ideais ao gosto popular. E se recusava a comprometer sua integridade. Nós o encaixotamos e pedimos a vocês que o copiem. A escolha é de vocês. Podem se conformar ao que esperam de vocês ou podem ser quem vocês são.”

A beleza da cena chega ao ápice quando ao final do ano letivo, as alunas decidem “pintar seus Van Gogh’s” para presentear a professora, porém cada uma trazendo seus próprios traços, cores, estilo. Este fragmento do filme traduz o simbolismo da abertura à subjetividade na expressão artística e a possibilidades de cada um de nós nos experimentarmos como artistas em nossas expressões, aspectos tão característicos da Arte Moderna e consequentemente embasadores da Arteterapia. 


- Fechando um ciclo

Katherine é convidada pela direção a continuar na escola para o ano seguinte, porém exigiu-se o acompanhamento de todo o conteúdo curricular para que a tradição da instituição fosse mantida. Ela, por mais que desejasse essa função, não aceitou e dela abriu mão.

Katherine deixa Wellesley College, mas deixa sua marca naquela turma de moças, mostrando que não basta reproduzir o conhecimento, mas sim a capacidade de pensar, de desenvolver o senso crítico. Assim ela demonstra que o papel do professor – e da arte – é fazer o aluno pensar sobre sua época e questioná-la. 

Ao fim, ela recebe uma homenagem da aluna que mais resistiu ao que pretendia transmitir:

“Dedico meu último editorial à uma mulher extraordinária, que nos serviu de exemplo. A professora que nos incentivou a ver o mundo com novos olhos. Quando lerem este editorial, ela estará a caminho da Europa, onde sei que derrubará novas barreiras e semeará novas ideias. Ela foi taxada de fracassada por partir, uma transviada e sem rumo. Mas, nem todos que se desviam carecem de rumo. Especialmente quem procura a verdade além da tradição, além da definição, além da imagem.

Eu nunca a esquecerei.”

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia"  CLIQUE AQUI