segunda-feira, 12 de novembro de 2018

SÉRIE CORES: COR/LUZ = EMOÇÃO/ENERGIA PSÍQUICA


Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram @naopalavra


Fazer uso das cores em produções é facilitar a passagem da mensagem feita pelo canal do inconsciente à consciência, dos afetos reprimidos, esquecidos ou ainda imaturos para o alcance da mesma.” (URRUTIGARAY, 2011, pag 212)
No último mês compartilhei no blog Não Palavra fragmentos de minha pesquisa e estudo sobre as cores e suas aplicabilidades no setting arteterapêutico. Até aqui trouxe referências a partir das teorias da arte, Wassily Kandinsky CLIQUE AQUI e Fayga Ostrower CLIQUE AQUI. Hoje teremos como referência teórica a Arteterapia propriamente dita, com o livro "Arteterapia: A transformação pessoal pelas imagens" de Maria Cristina Urrutigaray que no capítulo 4 aborda o "Emprego da Cor na Arteterapia". 
Conforme dito anteriormente, meu percurso com as cores iniciou-se com a busca de estímulos de fácil acesso, compreensão e potencial projetivo, visando a pluralidade de pacientes/clientes recebidos pela Arteterapia em suas diversas modalidades e campos de trabalho, contemplando principalmente aqueles que chamo de “pacientes leigos”: que não possuem qualquer histórico com a Arteterapia, técnicas expressivas e materiais. Segundo Maria Cristina, fazer uso das cores é facilitar a passagem de conteúdos inconscientes para a consciência. Creio que essa facilidade advém da “simplicidade” do estímulo, e na mesma proporção da simplicidade se faz o imenso potencial projetivo e simbólico, basta sabermos investir neste diálogo e projeção.
Em seu texto, Maria Cristina nos apresenta uma relação muito interessante entre a cor e a luz, a emoção e a energia psíquica: 
“Assim como as cores são uma variedade de ondulações da luz e provocam a sensação cromática, as emoções, do mesmo modo, também variam de acordo com a cor ou com a intensidade da energia psíquica. Poderíamos, então, por analogia, atribuir que a variação da intensidade ondulatória da luz assemelha-se ao movimento da energia psíquica e, portanto, poderíamos associar o elemento cor com a emoção de acordo com a seguinte comparação: COR/LUZ = EMOÇÃO/ENERGIA PSÍQUICA” (URRUTIGARAY, 2011, pag 121)
“Sabemos que onde há cor, há uma onda eletromagnética. Assim, do mesmo modo, onde há emoção, há energia psíquica em ativação. Desta forma, podemos vincular à presença de cores nas expressões criativas como representação de nossos afetos. (URRUTIGARAY, 2011, 127)  
Neste contexto, entendemos que o uso de cores como estímulos pode ser acionado pelo arteterapeuta, quando entende que é necessário trabalhar-se com emoções. Seja para expressar aquelas já se encontram manifestas no sujeito e necessitam de escuta e elaboração ou aquelas que se mostram latentes, adormecidas, mas buscam um caminho para a expressão e consciência:
“As cores possuem fortes propriedades expressivas e estão relacionadas aos estados emocionais... As cores por meio das emoções, são despertadas pelas estimulações sensoriais ou pela recordação de algum fato, ou de algum tipo de experiência, seja ela boa ou má, que ficou armazenada durante um tempo.” (URRUTIGARAY, 2011, pag 132) 
A prática mostra o quão interessante é quando o paciente/cliente de Arteterapia é estimulado a ter um encontro íntimo com cada cor, percebendo qual é a vibração e o impacto causado de forma singular e pessoal. Desta forma ele poderá inclusive desconstruir algumas falas do senso comum como “verde é esperança”, “preto é luto”... O mergulho e a experiência pessoal com cada cor promove a criação de um (outro) vocabulário próprio e individual para as expressões imagéticas que estão a caminho no processo arteterapêutico: 
“A intensidade da cor, de acordo com critérios de tonalidade, claridade e saturação imprime a vibração ou a frequência natural dos nossos estados psíquicos....
Por meio dessa percepção visual, conhecemos e identificamos  a cor, mas o que visualizamos como sendo cor não é tudo sobre ela, pois a sensação por ela produzida no nosso corpo é sentida em nível psicológico como sentimento, seja de amor, ódio, calor, repulsa, prazer ou desprazer.” (URRUTIGARAY, 2011, 127)  
Para esta experiência é necessário um “demorar-se” em cada cor. É necessário um tempo de mergulho, percepção, escuta e elaboração daquela vibração. Um caminho interessante é proporcionar ao paciente/cliente de Arteterapia a oportunidade de produzir as cores, ao invés de recebe-las prontas em potes de tintas. Pois segundo Maria Cristina:

“... o cliente ao fabricar cores pode ir se exercitando no controle e na adequação de sua emoção, pois, assim como dar mais luz à cor significa adicionar mais branco, para diminuir a intensidade da luminosidade, basta colocar mais preto.” (URRUTIGARAY, 2011, pag 131) 
“Poesias e Cores”: Aplicabilidades para a Arteterapia



“então o amor é verde...
ou é o elo do mais puro acaso, que só é do azul com amarelo para rimar com elo...
ou o elo da liberdade azul e da riqueza amarela...

enfim, não importa o que seja, importa que se trata de um haikai, de um verso que começa, verso que parte (definição de hokku e, posteriormente, haikai). E parte para terminar na nossa boca, seja como for, basta que ele apenas parta para chegar em nós... a mim ele chegou.”
 

Paulo Leminski


No ciclo “Poesias e Cores”, percurso experienciado por grupos arteterapêuticos que coordeno, em um dado momento tomamos como referência as palavras de Maria Cristina: "o cliente ao fabricar cores pode ir se exercitando...". Foi proposto que a cada dia os participantes criassem com as próprias mãos as cores secundárias. Ao dialogarmos as cores primárias, amarelo e azul, fomos presenteados pela poesia de Paulo Leminsky, que com o gracejo de um haikai, registrou sua experiência ao fazer o elo entre estas duas cores e dali nascer o verde que lhe despertou o amor. 


A partir de uma proposta aparentemente tão simples, quanta profundidade podemos experimentar e agir sobre: a partir das polaridades cromáticas (e da vida) fazer nascer um terceiro, a partir de uma mistura. A disponibilidade em fazer elos entre partes que parecem não dialogar, mas ao se encontrarem nasce um novo. O investimento de energia psíquica para o criar e dar forma à estas cores e comtemplar a beleza de sua integração. 

Para Leminsky, “o amor é verde” pois nasce do elo entre o azul e o amarelo.
E para você? 

Por hora, concluo esta série sobre cores, ciente que este caminho continua. Tanto teoricamente, pois outras referências ainda pretendo buscar, quanto em experiência, pois a prática sempre nos surpreende. A motivação que mantém a chama aquecida está na constatação do quão potente é o mergulho nas cores em vivências arteterapêuticas. 


 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências Bibliográficas: 
URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia: A transformação pessoal pelas imagens. Editora Wak, RJ. 2011. 
_____________________________________________________________________


Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga. 


Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 


Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".


Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 


Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O PROCESSO DE CRIAÇÃO




Laila Alves de Souza - Curitiba/Rio de Janeiro
lai_ajt@hotmail.com

“A criatividade é a capacidade de ser sensível a tudo que nos cerca, a escolher em meio às centenas de possibilidades de pensamento, sentimento, ação e reação, e a reunir tudo isso numa mensagem, expressão ou reação inigualável que transmite ímpeto, paixão e determinação.
Clarissa Pinkola Estés

Acredito que todo o ser humano carrega uma capacidade que, na maioria das vezes, não tem consciência ou não tem força para desenvolver tal capacidade. A capacidade de criar. Ter uma vida criativa é pegar a rotina e o sentido de sobrevivência e transformá-los em algo a mais, colocar alma, colocar sabor. Percebemos que a criatividade pode aparecer em momentos oportunos e instantâneos, são aqueles momentos pontuais que chamamos de inspiração. É como se a ideia viesse do nada e iluminasse a consciência. A sensação é tão gostosa que podemos afirmar que entramos em contato com outras camadas, o que, na psicologia junguiana, designamos de conexão do eixo ego-Self (arquétipo da totalidade). Contudo, essa inspiração pode aparecer num lampejo e sumir logo em seguida, sem que possamos alimentar todo o processo da criação. Desse modo, toda a potência emergida e a sensação que se traz disso se perdem no nada e a pessoa volta para o mesmo, ou pior, retorna para o empobrecimento de ideias e/ou para o tédio.    
A vida criativa nos apresenta de forma cíclica. Por mais que sempre queiramos estar na ativa e criando, ela, como qualquer condição da natureza e psíquica, tem seus momentos de incubação e baixa. Respeitar isso é essencial para a saúde psíquica. Vemos, hoje em dia, uma dificuldade na aceitação desses pontos baixos. Como diz HILLMAN, no ego heroico há uma exaltação da atividade (HILLMAN, 2013). Essa exaltação, ou melhor, forçar constantemente essa atividade, nos cansa tanto que chegamos a largar a mão de todo o processo. 
São alguns desses aspectos que acabam por minar a nossa vida criativa, tornando-a estéril. Clarissa Pinkola Estés, no livro Mulheres que correm com os lobos, menciona, em um dos capítulos sobre a vida criativa, cinco fases da criação.  São fases que, além da inspiração, nos ajudam a materializar as ideias e nos manter ativos no processo de criar.  A autora não desenvolve profundamente cada fase, abordando outros pontos pertinentes, mas esse texto vem com a tentativa de refletir sobre possíveis desdobramentos que cada fase pode ter.
São essas as fases: a inspiração, a concentração, a organização, a implementação e a manutenção.
Antes de começar a descrever cada fase é importante citar Henri Matisse: “a criatividade exige coragem”.  Assim, de acordo com essa citação, observamos que por mais que a inspiração para um projeto possa surgir, como de uma intuição que vem do nada, o que promove o ato de criatividade é toda a energia, tempo e confiança que é investido no ato de criar. E é aí que começamos a nos defrontar com as dificuldades, e disso começamos a acumular diversos projetos inacabados e ou até mesmo nem começamos a planejá-lo. É um trabalho, uma opus alquímica, que exige toda uma elaboração e demanda tempo, por isso concordo com que Matisse diz.
A fase de inspiração é algo delicado de descrever. Como já foi dito acima, às vezes, pode surgir de um lampejo proveniente de outras camadas, sem qualquer conhecimento ou autorização da consciência. Porém, lembro de assistir uma palestra em que o palestrante jogava a pergunta: “De onde nasce a ideia?” E respondia: “Ora, como qualquer outro nascimento, de uma ideia mãe e uma ideia pai.” Desse modo, podemos acessar muitas ideias que já passaram por nossas mentes e juntar com outras novas e assim podemos desencadear inúmeras possibilidades. Isso é criatividade! A criatividade é a capacidade de ser sensível a tudo que nos cerca, a escolher em meio às centenas de possibilidades de pensamento, sentimento(...)” (ESTÉS, 1994, p. 395) 
Uma das dificuldades que é possível já na fase da inspiração é que as pessoas possuem a crença de que elas não têm ideias boas. Inventamos qualquer tipo de desculpa para confirmar que nós não somos criativos e que esse empreendimento se restringe aos artistas. As nossas são ideias ridículas ou não tão boas. Para essa questão recomendo a leitura do capítulo 10 do livro Mulheres que correm com os lobos, em que a escritora discorre sobre as desculpas que nos damos.
Contudo, a inspiração permanece num campo sem profundidade. Muitas pessoas abandonam justamente nesse ponto. Elas se empolgam com suas ideias, mas não sabem o que fazer com elas, ou seja, elas têm dificuldades de passar a ideia do mundo invisível para o mundo físico. Para dar profundidade ao ato de criar, seguimos para a próxima fase, a concentração. A ideia ou a intuição podem até vir com a ajuda da fonte inconsciente, mas essa fase seguinte requer a capacidade exclusiva da consciência do ego.
Na concentração elementos práticos são essenciais. Tempo, espaço, energia são pilares para essa fase. O tempo, por exemplo, é um forte aliado no processo de criação. Diz ESTÉS: “É uma enorme crueldade regá-los (os projetos) apenas uma vez por semana, uma vez por mês, ou menos uma vez por ano” (ESTÉS, 1994, p. 397). Para que possamos realizar nossa criatividade é preciso investir tempo, como qualquer outra coisa que está sob os nossos cuidados. Além do que, para fazer arte é necessário disciplina e para a disciplina ficar leve é necessário fazer as coisas com arte, e toda essa dinâmica só dá certo com uma boa relação com o tempo. 
Encontrar um lugar propício para desenvolver a criação é de suma importância. O espaço favorece a concentração. Dessa forma, se o ambiente for promissor, é possível empregar uma energia ativa no processo de criação. Tais questões parecem ser óbvias, mas podemos perguntar: “Quantas pessoas que conhecemos (ou até nós mesmos) que desistem de dar forma às suas ideias porque não levam a sério esses três pilares?” 
Antes de passar para a próxima fase, em que parte para a ação, é essencial dar ênfase a essa fase da concentração. Essa fase significa um preparo, um momento em que se assenta, que respira, que se conecta para a próxima fase. Na nossa percepção de “ego heroico” como Hillman designou, temos uma forte ânsia de colocar rapidamente a ideia em prática para não deixar escapar, e na ansiedade acabamos, muitas vezes, por queimar a largada. A energia que podia ser conscientemente empreendida, sem a concentração, pode ser facilmente desperdiçada. Esse momento de preparação é como uma iniciação ou um aquecimento, no intuito de conectar com aquilo que está borbulhando no mundo das ideias. Em qualquer atividade hindu ou budista, seja ela uma vivência ou até uma palestra, a atividade é iniciada por um mantra. Uma das funções do mantra é se conectar e fazer com que a pessoa se concentre para a etapa que está por vir, ou seja, sair do mundo lá de fora e entrar para o mundo aqui de dentro.       
Seguindo de fase, já preparado e aquecido, entramos efetivamente na ação. Aqui entra a organização. A ideia, que ainda se encontra no mundo invisível, se encontra em um formato fantasioso e absolutamente abstrata. É necessário a organização para ela ir adentrando ao mundo físico e material. Como já mencionado anteriormente, a sensação de ser inspirado é uma sensação gostosa e muitas vezes quando chegamos à fase de organizar deparamos com um outro tipo de sensação. Muitas pessoas acham chato organizar e por esse motivo largam o processo de criação porque já não sentem o mesmo prazer da fase da inspiração.  Outro ponto que surge é a consciência de que a imagem que pertencia ao mundo da fantasia não será a mesma que se apresentará na realidade, e é aqui que os perfeccionistas caem em uma armadilha muito perigosa. A fantasia toma proporções que nos distraem na hora de agir. 

A organização é começar colocar na concretude, aquilo que na alquimia se refere ao processo de coagulatio. Diz EDINGER:
 “Em termos essenciais, a coagulatio é o processo que transforma as coisas em terra. ‘Terra’ é, por conseguinte, um dos sinônimos de coagulatio. Pesada e permanente, a terra tem forma e posições fixas. (...) Sua forma e localização são fixas; assim, para um conteúdo psíquico, tornar-se terra significa concretizar-se numa forma localizada particular (...).” (EDINGER, 2006, p. 101)
Para se efetivar uma opus alquímica tem que existir a parte “densa” dessa operação. Na prática consiste em colocar no papel, dar voz, procurar contatos, fazer o balanço financeiro, administrar o tempo e metas. Estes são modos de coagular e, por isso, é a parte do processo que fica denso. Porém, nos tratados alquímicos vemos alguns pontos que mantinham os alquimistas persistindo em sua Arte. Os alquimistas entregavam sua alma para o trabalho e esta, por sua vez, era transformada pelo processo. Isso gerava ingredientes como alegria e êxtase. Segue um trecho do tratado de Lambspring: “O tempo e o esforço devem ser oferecidos com ‘alegria’ e não como sacrifício(...)” e “Por conseguinte, esteja seguro do seu coração.” (LAMBSPRING apud FIERZ, 1997, p. 336- 337). São esses ingredientes que podem nos segurar no momento denso da criação.
A próxima fase é a de implementação. Se o processo não teve um adequado investimento de energia na fase da organização, se torna muito difícil e pesado ir para essa fase. É o momento da ação plena do processo. Talvez não seja tão chata como a anterior, mas é a mais trabalhosa. É onde se focaliza a atenção e a disciplina. É o pôr as mãos à obra. No entanto, alguns pontos têm que ser levados em consideração. Existe uma ânsia de que nossa atenção e disciplina tenha que se manter constante, mas não é o que ocorre muitas vezes. Existem, por exemplo, os ciclos internos, externos, os imprevistos, o cansaço, etc... De certa forma, aqui temos que despertar uma certa disciplina, como um chefe interno, porém, temos que ter um chefe que também desenvolva paciência e cuidado com nós próprios. Um chefe interno tirânico que cobra a atenção constante, e que nos culpa de não termos energia naquele momento específico, faz com que a nossa vontade de abandonar a criação seja maior. Um chefe bondoso, por sua vez, que mantém o incentivo do fazer e respeita o ritmo próprio, faz com que, pacientemente, nós consigamos seguir passo a passo, dia após dia, no processo de criação. Em outro tratado alquímico citado por EDINGER diz: “Todos os que buscamos seguir essa Arte não podemos atingir resultados úteis senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, com uma coragem perseverante e com uma dedicação contínua.” (EDINGER, 2006, p. 25).
A coragem e a confiança são aspectos nossos que temos que acessar para colocarmos as duas últimas fases em prática. Clarissa Pinkola Estés, no capítulo já sugerido acima, debruça sobre esses aspectos. Muitos são os projetos que, for falta de confiança, por medo ou por complexos negativos são deixados de lado. Temos inúmeras justificativas, mas por trás delas estão estes complexos e medos que nos paralisam.
Depois de implementar, ainda temos que ter uma energia guardada para a manutenção. É preciso cuidar do que foi gerido, senão todo esforço é em vão.  
A empreitada de criar não é tarefa fácil. Mas como citado anteriormente, os alquimistas, em seus tratados, sempre transcreviam essa empreitada com muito amor e cuidado, tanto que eles chamavam a obra de Arte (com A maiúsculo). A vida criativa vale a pena e depois que se pega o jeito fica mais fácil de realizar o processo, mas claro, respeitando os momentos de baixa do ciclo criativo.
Existe um ingrediente, no entanto, que parece manchar toda a nossa empolgação e impulso de criar, que é o fracasso. Às vezes, o medo de fracassar é tão grande que nem começamos nossos projetos para não vivenciá-lo. Diz ESTÉS: “Não é o fracasso que nos detém, mas é a relutância em recomeçar que nos faz estagnar.” (ESTÉS, 1994, p. 396).  Para se ter uma vida criativa, no entanto, é preciso suportar os muitos recomeços. Além do mais, é através dos recomeços que podemos costurar uma vida mais criativa.
Sobre o fracasso CAROTENUTO afirma: "Quando nos sentimos 'aniquilados' por um fracasso, quer dizer que nos identificamos completamente com aquele empenho determinado e prefixado, descuidando o fato de que a nossa existência é muito mais rica do que os atos realizados ou realizáveis." (CAROTENUTO, 1994, p.197)
O medo e a dúvida sempre vão permear cada etapa do processo de criação. Nunca teremos certeza se essa ideia ou projeto dará certo. Esse mesmo autor fala: “As nossas histórias podemos construir, mas somente no início, e não poderemos jamais saber como iremos terminar.” (CAROTENUTO, 1994, p. 130) Dessa forma, criar uma obra, seja ela grande ou pequena, é um trabalho de fazer alma.
Coragem e mãos à obra!   
 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo: Paulus, 1994.
EDINGER, Edward. Anatomia da Psique. SP: Cultrix, 2006.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.
FIERZ, K. Heinrich. Psiquiatria Junguiana. São Paulo: Paulus, 1997.
HILLMAN, J. O sonho e o mundo das trevas. Petrópolis. RJ: Vozes, 2013 
_______________________________________________________________________
Sobre a Autora: Laila Alves de Souza
Psicóloga

Pós- graduada em psicologia clínica na abordagem da Psicologia Analítica.
Atendimentos clínicos pela abordagem da Psicologia Analítica no Rio de Janeiro.
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos projetos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

SÉRIE CORES: A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA



Eliana Moraes (MG) RJ
Instagram @naopalavra

“... Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional...”

Gilka Machado em “Emotividade da cor”

Há algumas semanas iniciei uma série de textos ao qual compartilho alguns fragmentos do meu estudo sobre as cores e aplicações em minha prática arteterapêutica. No primeiro texto o teórico protagonista foi Kandinsky, ao qual defende que a cor exerce sobre a alma uma influência direta, provocando uma vibração psíquica. CLIQUE AQUI

Outra artista que alimenta minha pesquisa é Fayga Ostrower, que em seu livro “Universo da arte” discorre sobre os cinco elementos da linguagem visual:

“Há um dado deveras interessante! Se fôssemos perguntar de quantos vocábulos se constitui a linguagem visual, de quantos elementos expressivos, a resposta seria: de cinco. São cinco apenas: a linha, a superfície, o volume, a luz e a cor. Com tão poucos elementos, e nem sempre reunidos, formulam-se todas as obras de arte, na imensa variedade de técnicas e estilos.” (OSTROWER, 1983, pag 65)

Nesta perspectiva, tenho como projeto me aprofundar em cada um destes elementos, atualmente me debruçando sobre a cor. Conforme defende a autora “cada elemento visual configura o espaço de um modo diferente” (OSTROWER, 1983), sendo assim estrutural conhecermos as propriedades de cada um deles:

“Se compararmos, por exemplo, linhas com cores, sentimos de imediato, o clima expressivo diferente. Enquanto que a linha evoca toda uma ambiência intelectual, a cor é antes de tudo sensual.” (OSTROWER, 1983, pag 68) 

No capítulo X do livro, intitulado “Cor”, Fayga constrói um percurso pelas cores, defendendo que o tema da cor é “uma questão de relacionamentos e não de cores isoladas... O importante é entender que com poucas cores básicas – e sempre as mesmas – é possível estabelecer relações diferentes.” (OSTROWER, 1983) Aborda questões como tonalidades, cores primárias e secundárias, cores quentes e frias, cores opostas e complementares; que serviram como um embasamento para o percurso de experimentação das cores no ciclo “Cores e Poesias” que tenho oferecido em um grupo arteterapêutico. 
Sublinho aqui a importância da experiência com as cores, pois nas palavras da autora, seu conhecimento intelectual não é suficiente:
“A cor se caracteriza pela carga de sensualidade que lhe é inerente. Ao vê-la diante de nós... é que podemos dar-nos conta do quanto nosso conhecimento anterior, através das informações verbais, fora intelectual... Por maior que seja nossa experiência prática, uma coisa é imaginar cores e outra, completamente diferente, é percebê-las... Há uma excitação dos sentidos, que é própria da cor e que não existe em nenhum outro elemento visual.” (OSTROWER, 1983, pag 236)
“Poesias e Cores”: Aplicabilidades para a Arteterapia


“... Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
 — A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.”
Gilka Machado em “Emotividade da Cor”

Conforme nos orienta Fayga, conhecer as cores não é suficiente. Precisamos ser atravessados por elas, e isso só se dá através da experiência. Nas palavras de Gilka Machado, devemos lançar à elas olhares investigadores, para que possamos perceber o subjetivo ruído de cada uma. 

No ciclo “Poesias e Cores” percorremos uma jornada que se iniciou com o preto e o branco, atravessamos o cinza, mergulhamos nas cores primárias, produzimos com as próprias mãos cada uma das secundárias, dialogamos as cores opostas complementares, e por fim, integramos todas as cores do círculo cromático mais o preto, branco e cinza em uma mandala. 

Todo este caminho foi importante para que proporcionasse um “demorar-se” em cada cor. Cada participante pôde experimentar um diálogo profundo com cada uma delas, percebendo suas vibrações e como cada uma o impactava de forma singular.  Creio que ao passar por esta jornada, aquele que experiencia a Arteterapia pode formar uma espécie de “vocabulário próprio”, ao qual utilizará em suas produções posteriores para criar em cores, não por combinações exteriores, mas pelo simbolismo interior. 


Quando experimentamos as cores primárias, uma referência no campo da arte foi o pintor Mondrian, que simplificou a imagem às últimas consequências, chegando ao seu característico padrão de inúmeras variações de relações entre os elementos cores primárias e linhas retas. As imagens que ilustram este texto retratam esta experiência ao qual partimos da inspiração do artista, mas cada participante pôde dar asas à sua criatividade a partir da vibração que as cores primárias os provocavam.

Esta série sobre as cores continua, mas por hora, concluo com a poesia:

Olhar a cor
é ouvi-la
,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhec
idas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...


Cores são vagas, sugestivas toadas...

Cores são emoções paralisadas...”
Gilka Machado em “Emotividade da Cor”




Referências Bibliográficas:

 OSTROWER, FAYGA. Universo da Arte. 1983.
________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga. 
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

GESTALT E ARTE: AJUSTAMENTO CRIATIVO


Por Valéria Diniz – RJ
valdiniz.td@gmail.com
Instagram @valeriadiniz50

Ajustamento Criativo - É o processo utilizado para alcançar uma autorregulação saudável.
“...todo contato é um ajustamento criativo. Ele não pode ser rotineiro, estereotipado ou simplesmente conservador porque tem de enfrentar o novo, uma vez que só este é nutritivo” (Perls, Heferline e Goodman).
Ajustamento Criativo é o método pelo qual a pessoa sobrevive e cresce, atuando de forma a se manter ativa e responsável, providenciando seu próprio desenvolvimento, suas necessidades físicas e psicossociais” (Orgler).
Em Gestalt Terapia, para além do sintoma ou doença, busca-se descobrir onde está a potência criativa. Ela é o lado saudável, presente em todos nós.
Quando criança somos absolutamente criativos e facilmente encontramos novas formas de agir e lidar com o meio. Um bebê quando aprende a engatinhar contorna obstáculos, passa por cima ou por baixo do que estiver em seu caminho. Rapidamente descobre que precisa descer um pequeno degrau com apoio das mãozinhas. Ele interage com o meio a seu favor. E, conforme se desenvolve e cresce cria nova formas de brincar, inventa novas estórias, se experimenta. Cai, rala o joelho, chora e volta a insistir. Escorrega, cria um galo, mais choro e volta a tentar. Recomeça, de novo, segura de outra forma, com novo apoio. 
Então podemos pensar, talvez um pouco melancólicos ou até meio desanimados:
Já fui assim. Cresci. Tudo mudou!”
Verdade. Sim é verdade! Mudamos, ficamos enrijecidos, engessados em repetições, pesados com os fracassos, ansiosos, medrosos, depressivos, tristes, adoecidos, conformados, presos na rotina que a dureza da vida nos apresenta.
Como nos ajustar criativamente ? 
A Arte nos aponta um caminho. A criatividade está dentro de nós. Talvez um pouco adormecida ou esquecida. Ou até mesmo escondida em um cantinho de difícil acesso.
Mas, sim. Está aqui dentro. Aí dentro e em todos nós.
______________________________________________________________________

Em minha prática clínica e nas oficinas de Técnicas Expressivas, vejo essa criatividade emergir poderosamente, com toda sua potência. E, nesse texto, especificamente, escolhi compartilhar produções das oficinas.
Em uma das primeiras oficinas de Colagem que ofereci a proposta era cortar os papéis sem uso de tesoura, apenas com as mãos. Havia uma jovem com deficiência que a impedia de usar uma das mãos (se eu tivesse visto antes teria mudado a proposta). Percebendo que seria difícil para ela sugeri que quem sentisse necessidade poderia pedir ajuda.
 Ela não pediu. Construiu um cenário colorido de pequenas bolinhas amassadas.
Quando você falou que não tinha tesoura, que era para usar as mãos... pensei que ia ter dificuldade. Mas eu me adaptei e consegui fazer. Foi importante para mim, um novo desafio.” ( TH.LB )
Que bom não ter mudado a proposta. Ela teve a oportunidade de ajustar-se criativamente para realizar a atividade e seu modo de usar as mãos trouxe a possibilidade de fazer novas experiências e a descoberta de capacidades escondidas.
Ainda com a mesma proposta da oficina anterior, escolher o material e criar livremente usando as mãos. Dentre as participantes havia uma médica e, pela profissão, habituada com protocolos, regras e métodos.
“No primeiro momento fiquei pensando como iria cortar o papel para confeccionar desenhos. Para mim foi estranho não ter um objeto facilitador e ter que usar apenas minhas mãos. Eu amei o meu trabalho.” (NT)  .

Descobrir que podia ajustar-se criativamente e produzir sozinha trouxe nova percepção, inclusive, de poder ampliar sua área de trabalho.
Em outra oficina a proposta era partir de uma imagem que simbolizasse o momento da história pessoal e posteriormente fazer intervenções com novos materiais.
“Percebi que estou criando uma nova história de vida, cheia de possibilidades e tirando o foco do passado, mas não preciso deixar toda a minha história para trás. É importante ficar com algumas coisas” (D.R ). 

A capacidade de interferir e criar ou recriar sua própria história e fazer seus ajustes, deixar o que não faz mais sentido e ficar com o que é importante é um belo exemplo de ajustamento criativo.
_______________________________________________________________________

Como tenho aprendido, a possibilidade de ajustamento criativo é vivenciada através da Arte, na riqueza de suas técnicas e processos. 
Criar através da Arte para realizar na vida.
Organizar, priorizar, escolher, ajustar e tantas outras habilidades. No colar e nas situações de confusão, desordem, caos.
Diluir, fluir, flexibilizar, expandir, descobrir, preencher, e tantas outras atitudes. Com as tintas e com a auto estima, a consciência, o comportamento.
Modelar, dar a forma, criar um jeito, um novo jeito, tentar , errar e começar de novo e tantas outras alternativas .Com  argila, massa e na  própria história.
Volto à pergunta do começo do texto:
Como nos ajustar criativamente?
Tenho uma ligeira desconfiança de que a resposta está em resgatar a criança que vive dentro de nós. Lembra dela? Onde ela ficou? 
Vou revelar um segredo somente aqui para nós.
Pegue um papel, qualquer coisa que rabisque, pode ser lápis, tinta, canetinha, carvão ou simplesmente use as mãos e comece a cortar pedaços de papéis coloridos ou revistas. Respire e crie.
Então, surpreenda-se ao encontrar sua criança interior!
Permita-se ajustar-se criativamente. 

Gratidão às arteiras que autorizaram utilizar suas palavras e imagens para enriquecer esse texto.
Este é o segundo texto da série GESTALT E ARTE. Para ler o primeiro texto 
Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
_______________________________________________________________________________

Sobre a autora: Valéria Diniz
Psicóloga 

Gestalt terapeuta

Mestra em Saúde Mental
Atendimento individual e casal .
Oficinas de Técnicas Expressivas em Gestalt