segunda-feira, 10 de junho de 2019

TÉCNICAS EXPRESSIVAS E SAÚDE MENTAL: A DESCOBERTA DE TESOUROS MARAVILHOSOS


Por Patricia Serrano -  RJ
patriciaserrano.psi@yahoo.com 

“É fundamental valorizar o lado saudável do cliente, e não ficar procurando sintomas para adoentá-lo cada vez mais. Ora, se você observa com desprezo o doente mental, só enxergará tristeza, miséria, decadência. No entanto, se você for mais além e conseguir olhar o outro lado do ser, descobrirá tesouros maravilhosos, incalculáveis . . . Como eu não sou boba nem nada, decidi olhar o lado mais rico. Foi exatamente desta riqueza que nasceu o meu trabalho.”
Nise da Silveira
Tive a oportunidade de trabalhar numa unidade de saúde mental e o que no início foi um desafio, ao longo do tempo se tornou uma paixão pela possibilidade de ampliar a minha escuta clínica, estar diante de um trabalho extremamente rico e de pessoas igualmente ricas no potencial criativo mesmo no momento de adoecimento.
A colocação da Dra. Nise da Silveira me sensibiliza quando ela fala desse “olhar além” sobre a doença mental e encontrar o lado mais rico do sujeito que atravessa o sofrimento psíquico. Trata-se de um trabalho que envolve entrega e sensibilidade diante de pessoas que muitas vezes não são ouvidas e ainda são tratadas à margem da sociedade pelas dificuldades que apresentam. 
Na condição de internação psiquiátrica, mesmo que de curta duração (em média 15 dias), o sujeito se vê num primeiro momento confuso e tentando entender o sentido de estar afastado da sua vida cotidiana. O estado agudo da doença faz com que ele algumas vezes não se lembre dos acontecimentos que precederam e motivaram a internação. Diante desse cenário é imperativo proporcionar ao sujeito um espaço de escuta bem como de fala sobre as suas questões psíquicas e emocionais.
Um passo importante para a construção desse espaço de escuta e fala foi a oportunidade de realizar a oficina de grupo semanal com técnicas expressivas. Pretendo nesse texto compartilhar a experiência nesses grupos e mostrar o potencial da técnica expressiva num contexto de grande sofrimento psíquico.



O formato dos grupos
Devido ao curto tempo de internação, os grupos eram compostos de forma aberta. Então a cada semana trabalhava com pacientes novos salvo algumas exceções.
Não era estabelecido um critério específico de perfil de paciente que iria participar: todos eram convidados e estimulados a compartilhar desse momento, o que tornava a dinâmica do grupo muito rica pela heterogeneidade de pessoas e suas possibilidades de expressão bem como de troca um com o outro.



Técnicas e materiais utilizados
O trabalho era proposto de forma semi-estruturada onde inicialmente era feita uma sensibilização com o recurso da leitura de uma poesia, de um texto ou uma música o que já promovia uma abertura para ideias, reflexões e trocas entre os participantes. A partir desse momento inicial passávamos para a segunda etapa voltada para o processo criativo individual.
A criação de mandalas, por exemplo, que ao trabalhar com as formas, contornos e cores possibilita uma vivência estruturante em busca de um equilíbrio auxiliando no reestabelecimento da ordem psíquica. 



Segundo Reis (2014), a função terapêutica de desenhar mandalas está ligada à autodescoberta, pois elas registram o estado psíquico do indivíduo em diferentes momentos, representando, a partir de linhas, cores e formas, sua energia psíquica e a organização de seu mundo interno. 
Outro recurso utilizado foi a colagem com imagens de revista, recortes de palavras ou papéis coloridos.
Moraes (2018) nos fala que o processo de colagem se dá em dois tempos, riquíssimos em simbolismos, que remontam dinâmicas tão presentes na vida cotidiana: o primeiro se refere à desconstrução, fragmentação, um caminho para a abstração; o segundo, a colagem propriamente dita, se refere à (re)construção e (re)composição como um caminho possível diante dos fragmentos físicos e/ou subjetivos.
Percebendo a demanda psíquica e emocional dos participantes que em sua maioria vêm de um processo de desconstrução, desorganização e transbordamentos optei por trabalhar com esse segundo momento da colagem que proporciona a vivência de construção de uma nova possibilidade através daquilo que está fragmentado. Nesse processo é visível o quanto a colagem é um recurso estruturante e que permite “encontrar um ‘novo possível’ (as vezes ‘não belo’, não harmonioso, não equilibrado), (re)compor, ressignificar, reinventar(-se)” (Moraes, 2018). 
Durante essa segunda etapa, onde a atividade era proposta e os materiais oferecidos, observar o movimento de cada um, sedento por se expressar e ao mesmo tempo organizar seus sentimentos é um momento que exige do terapeuta um olhar atento, delicado e inteiro para que se faça presente mas sem interferir no processo de cada um. 



Após o processo criativo individual, todos eram convidados a compartilhar no grupo a sua experiência. Momento único onde surgia a beleza e a riqueza de um espaço de fala, escuta e troca de histórias, sentimentos, dores, perdas, vitórias, conquistas, lágrimas e sorrisos. Pessoas em sofrimento psíquico acolhendo umas as outras através do que cada uma produziu plasticamente sobre a sua história e o afeto gerado aquecendo o coração de todos os presentes.
Parafraseando a Dra. Nise da Silveira, “como não sou boba nem nada” optei por olhar e acolher essa riqueza coletiva que tive a oportunidade de vivenciar. Agradeço a cada uma dessas pessoas que ao compartilhar as suas dores tocaram de forma muito especial o meu coração e certamente me conduziram nessa linda estrada que é ser terapeuta.
Obs.: Não poderia deixar de registrar o meu agradecimento especial pela presença através de supervisão da arteterapeuta e psicóloga Eliana Moraes que acreditou nesse trabalho e na minha riqueza como terapeuta para realizá-lo!

 Referências Bibliográficas:

HORTA, B.C. Nise – Arqueóloga dos Mares. Rio de Janeiro: e+a edições do autor, 2008.

MOREAS, E. A colagem na prática da arteterapia: propriedades e aplicabilidades. Blog Não palavra. Rio de Janeiro, 30/04/2018. Disponível em: http://nao-palavra.blogspot.com/2018/04/a-colagem-na-pratica-da-arteterapia.html?m=1. Acesso em 04/06/2019.

REIS, A.C. Arteterapia: a arte como instrumento no trabalho do psicólogo. Revista Psicologia: Ciência e Profissão. Santa Catarina, 34 (1), 142-157, 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pcp/v34n1/v34n1a11. Acesso em 02/06/2019.
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Sobre a autora: Patrícia Serrano




Psicóloga 
Pós-graduada em Psicologia Hospitalar pela FIOCRUZ
Gestora de materiais do Não Palavra
Atendimentos clínicos individuais 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

UM MERGULHO PESSOAL COM A COLAGEM




Vera de Freitas – RJ
verafguimaraes@gmail.com



A COLAGEM é uma técnica expressiva organizadora, sintética, integradora e estruturadora. Uma eficiente proposta arteterapêutica.

Tem como procedimento compor uma imagem, com elementos de diferentes origens, como recorte de imagens de revistas, figurativas ou não, papéis coloridos, partes de jornal e impressos, tecidos, fios etc... É a composição feita a partir do uso de materiais diversos, criando uma nova imagem.

Foi utilizada no século XX principalmente por Picasso e George Braque, fundadores do CUBISMO, primeiro movimento artístico que utiliza a COLAGEM.  Este movimento tratava as formas da natureza por meio de figuras geométricas. A representação do mundo passou a não ter nenhum compromisso com a real aparência das coisas.

Depois de muito ler, estudar e produzir, consegui enfim entender ou justificar o meu interesse, a minha preferência pela COLAGEM. Usando esta técnica para me expressar, para me ver, para me analisar e me conhecer, produzia de diversas formas. Fiz o curso e dezenas de cartões de Soul Collage ®, montei cadernos de colagem e fiz colagens de vários tamanhos. Fui fazendo, experimentando, criando e me libertando. 


Desde sempre separava e guardava imagens que me encantava de alguma forma, e assim fui criando o meu acervo de imagens prazerosamente selecionadas.

Recolocar essas imagens em uma nova produção, além de ser uma facilidade, era também um encantamento e uma descoberta de um novo sentido, um novo significado.
O efeito de unificar, de compor, de integrar, ganha um novo sentido.

Trabalhar com a COLAGEM mexe especialmente com a Função Pensamento, descrita por Jung como uma das funções de adaptação que a consciência usa para reconhecimento do mundo exterior e orientar-se. Esta função esclarece o que significam os objetos, trabalha para reconhecer as coisas como são. Julga e classifica. E tudo faz sentido para  a organização e equilíbrio psíquico, uma vez que mexe com a desconstrução, a fragmentação, a quebra, o corte, mas também mexe com o poder da escolha, o poder de decisão, com a seleção, a prioridade, a organização, o planejamento, a união e a descoberta do novo.

Para materializar um conteúdo expressivo é preciso fazer ordenações, elaborar idéias dando-lhes novas formas. Segundo Fayga Ostrower todos os processos de criação representam tentativas de estruturação, experimentação e controle. 

Assim, a COLAGEM possibilita o equilíbrio psíquico e emocional a partir da flexibilidade, da organização, de contornos e limites.

Selecionar, integrar e compor para criar o novo. O efeito da composição, da integração ganhando um novo sentido.

E falando um pouco mais sobre a minha experiência com essa técnica, sinto realmente como num caminho cheio de cores e formas, repleto de significado, como Angela Phillipini se refere ao processo arteterapêutico. 



Foi um trajeto com experiências muito interessantes para o processo de autoconhecimento, de possibilidades de transformações, e ainda de puro prazer e exercício de liberdade, promovendo organização, equilíbrio e mais saúde psíquica reverberando na vida de modo geral.

E uma das importantes transformações foi me sentir segura e autônoma o suficiente para estimular no outro o criar e o experimentar, observando os efeitos de fazer arte.

Foi com o uso da liberdade e da autonomia criativa, onde tudo se completa, se organiza e se compõe que tudo vai contar de você. Você se descobre e descobre o que estava encoberto. 

E foi fazendo, experimentando, criando, organizando, superando, observando e escrevendo que me descobri, me conheci e me reconheci.

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Sobre a autora: Vera de Freitas 


Advogada, Arteterapeuta (POMAR)
Cursando Pós Graduação em Arteterapia (POMAR)
Administradora do Instituto VENHA CONOSCO - Tijuca, RJ 
Professora de Iniciação Artística - Instituto ZECA PAGODINHO
Facilitadora do Grupo de Arte e Expressão  para adultos e Grupo de Desenho Livre.
Ateliê  de PAPEL MACHÊ

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A ARTETERAPIA NO ATENDIMENTO DE PACIENTE COM GAGUEIRA GRAVE

Desenho Automático, 1925 por André Aimé René Masson (1896-1987, France)

Por Sueli Antonusso - SP 
antonusso@gmail.com

De Botton (1969), filosofo e escritor suíço, refere-se a Arte, 
Como outros instrumentos, a arte tem o poder de ampliar nossas capacidades para além dos limites originalmente impostos pela natureza. A arte compensa algumas de nossas fraquezas inatas, nesse caso mais mentais do que físicas, fraquezas que podemos chamar de fragilidades psicológicas. (p. 5).
Entre a primeira e a segunda Guerras Mundiais surgiu o movimento artístico e literário surrealista que reuniu artistas de vanguarda e ganhou dimensão mundial. O surrealismo destacava o papel do inconsciente na atividade criativa influenciado pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (1856 – 1939). Alguns dos objetivos do surrealismo era produzir uma arte autônoma, livre do pensamento lógico e da consciência cotidiana buscando expressar o mundo inconsciente e os sonhos. 
Ainda que o reconhecimento da utilização das artes com fim terapêutico tenha surgido há bastante tempo, a estruturação de estratégias terapêuticas que deram origem a Arteterapia são mais recentes. O protocolo mais recente de atividades próximas a Arteterapia foi feito pelo médico alemão Johann Christian Reil, contemporâneo de Pinel, no início do século XIX. (SEI, 2011, p. 23). 
A Arteterapia propõe atividades artístico-expressivas com objetivo terapêutico. Materiais e recursos provenientes das Artes em geral são utilizados para realização de produções que ocorrem durante o processo terapêutico com a finalidade de atender a necessidade expressiva de cada indivíduo na busca de significado e sentido para a própria vida. 

No Brasil o exercício da Arteterapia fundamenta-se, de maneira mais frequente, em dois referenciais teóricos: a Gestalt-terapia e a psicoterapia Junguiana, enquanto que nos EUA e alguns países da Europa a psicanálise configura-se como estrutura na qual baseia-se o setting arteterapeutico. 
Para Freud (1909), médico e psicanalista alemão, a criatividade emana do inconsciente, de forma livre. Relacionou as imagens e sensações dos sonhos às lembranças de um passado reprimido e retido no inconsciente. Seus conceitos sobre arte foram extraídos do teatro grego, dos contos fantásticos alemães, de Shakespeare, entre outros artistas.
Contudo, Jung (1920), psiquiatra e analista suíço, empregava recursos da arte como elemento do tratamento. Solicitava que seus pacientes desenhassem seus sonhos e conflitos como atividade criativa e integradora da personalidade no qual atribuía significados simbólicos considerando o inconsciente pessoal e coletivo.
Em meu trabalho como arteterapeuta e psicanalista faço uma mescla entre a teoria psicanalítica e junguiana nos atendimentos em Arteterapia. 
Ao realizar encontros com grupos proponho atividades mais estruturadas. Utilizo recursos como filosofia, visualizações criativas, Rodas de Conversa, Arte Moderna, poesias, contos e mitologia para sensibilizar e estimular a expressividade de conteúdos inconscientes favorecendo, assim, o autoconhecimento e a ampliação do potencial criativo, a partir de um plano de ação pré-definido. 
Já, nos atendimentos individuais, o processo criativo é deixado mais solto e espontâneo, seguindo a proposta de Winnicott (2005 [1964 – 1968]), pediatra e psicanalista inglês, para as primeiras entrevistas por favorecer a confiança na relação no início do processo.
De acordo com Winnicott (2005 [1964 – 1968]), o paciente necessita de 
um setting estritamente profissional, no qual fique livre para explorar a oportunidade excepcional que a consulta proporciona para a comunicação. A comunicação do paciente com o psiquiatra referir-se-á às tendências específicas que têm forma atual e raízes que remontam ao passado ou se entranham profundamente na estrutura da personalidade do paciente e de sua realidade interior pessoal. (p. 230). 
Winnicott (2005[1964 – 1968]) criou o Jogo do Rabisco com a finalidade de oferecer ao paciente um setting profissional preparado para acolher seus sentimentos e emoções, uma forma de sustentação [holding] capaz de surpreender, facilitar a comunicação e a expressividade.
Utilizo o Jogo do Rabisco, desenvolvido por Winnicott, na primeira entrevista. Para ilustrar, trago um recorte do atendimento de A, adolescente de 17 anos que foi encaminhado com diagnóstico de gagueira grave e lggm restrita e pensamento concreto, segundo teste psicológico. 
Na primeira entrevista A mal conseguia pronunciar seu nome. Percebi que seria difícil manter um dialogo por meio da palavra. Propus o Jogo do Rabisco no qual fiz uma adaptação. Utilizei uma folha de papel sulfite, em branco, no formato A4. Com um lápis grafite fiz um rabisco na folha e sugeri que A desse continuidade fazendo outro rabisco com seu lápis e, assim, seguimos até que a folha estivesse preenchida. Em seguida pedi que A colorisse os rabiscos até encontrar alguma forma que tivesse algum significado e, assim, surgiu a imagem de um pinguim. 


Li para A, usando a internet, sobre a vida dos pinguins. A mostrou-se interessado pelo fato de os pinguins serem pássaros que não podem voar, metaforicamente traz a ideia de que é um “ser” não convencional. Talvez, A tenha se identificado por ser negro, gago, diferente da maioria, “não convencional”. Além disso, tem a questão da submissão ao que é imposto socialmente, ao que é comum, “convencional”.  A, adolescente e “diferente” sinalizou que uma das suas questões poderia estar relacionada a ter que “submeter-se” às convenções, mesmo sendo “diferente” da maioria.
Os pinguins são seres sociais e comunicativos e A, apesar do largo sorriso simpático, apresentava muita dificuldade para se comunicar por causa da gagueira. Por serem sociáveis, os pinguins partilham a sobrevivência com o grupo. A, por sua condição, comentou sentir-se socialmente isolado.
A demonstrou ter gostado bastante de saber sobre a vida dos pinguins. Seja por identificação ou pelo estranhamento, A conseguiu contar-me algumas questões que lhe causavam muito sofrimento. 
Desde os cinco anos de idade, toda vez que o pai chegava em casa embriagado batia nele com um pedaço de pau, sem motivo. Atualmente, por ter crescido e estar mais forte passou a revidar as surras. Disse sentir muito ódio do pai. 
Falou sobre o bullying sofrido na escola por ser - “não convencional”, como os pinguins. Como os pinguins, gostaria de conviver socialmente, de ser aceito sem precisar passar por tanto preconceito. 
Assim que A terminou pontuei que talvez o desenho do pinguim tenha “facilitado” sua fala. Ele conseguiu, através do desenho, reconstruir uma pequena parte da sua história e contado um pouco sobre sua vida, fazendo uma pequena “pausa” em sua gagueira. Ele sorriu e concordou balançando a cabeça. 
Às vezes, a comunicação através da linguagem ou da palavra é bloqueada por ser angustiante. Quando a angústia provém de fases mais “arcaicas”, isto é pré-verbal, ou através do trauma o indivíduo sente de forma mais intensa pelo fato de não ter constituído recursos internos para lidar com sofrimentos profundos. Nesses casos, os recursos expressivos da Arte constituem canais criativos que facilitam a comunicação dessas experiencias de intenso sofrimento. 
Para Winnicott (2005 [1964 – 1968]), cabe ao terapeuta proporcionar, ao paciente, um relacionamento natural e humano, um vínculo capaz de tornar possível a integração da personalidade através do que chamou de Holding. O Holding consiste numa forma de “sustentação”, de disposição empática e afetiva para perceber e atender às necessidades do paciente. 
Nesse sentido, a Arte pode configurar-se como um meio no qual, somado ao Holding fornecido pelo setting arteterapeutico “pode colaborar para a emergência do gesto criativo e espontâneo do paciente, com a vivencia de ser alguém singular e único a partir da própria espontaneidade.” (SEI, 2001, p. 41). 
Dessa forma, acredito que podemos pensar a Arteterapia como um espaço continente e seguro, conduzido pelo arteterapeuta profissional que auxilia e facilita a comunicação de questões profundas da personalidade e possibilita a expressão criativa de forma livre e prazerosa, como num jogo ou numa brincadeira.

REFERENCIAS:

De Botton, A. e Armstrong J. Arte como terapia; tradução Denise Bottmann. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
Sei, M.B. Arteterapia e psicanálise – São Paulo: Zadodoni, 2011.
Winnicott, C. Explorações Psicanalíticas: D.W. Winnicott, Ray Shepherd & Madeleine Davis; Trad.: José Octávio de Aguiar Abreu – Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994. 
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Sobre a autora: Sueli Antonusso 

Arteterapeuta, com registro na AATESP – 453/0618. Especialista em Psicanálise e Orientação Profissional e Carreira pelo Instituto Sedes Sapientiae. Bacharel e Licenciada em Filosofia pela PUC-SP. Idealizadora do projeto “CICLOS – que idade a idade tem?”. Atua com atendimento clínico à jovens, adultos, idosos e grupos, com o foco voltado para a ressignificação da história de vida e o acolhimento de demandas em fase de finalização e/ou início de Ciclos, como: início da idade adulta, maturidade, transição de carreira e tantas outras que fazem parte dos Ciclos de Transição. Coordenação de oficinas de Formação e Capacitação para educadores da rede pública. Realiza palestras e cursos destinados ao desenvolvimento pessoal e realização do potencial criativo com o objetivo de incentivar a exploração do novo e encorajar a autonomia.


segunda-feira, 20 de maio de 2019

SOBRE O REAPROVEITAMENTO DE MATERIAIS EM ARTETERAPIA: O ISOPOR



Por Eliana Moraes (MG) RJ
Instagram @naopalavra

Neste ano tenho me dedicado mais profundamente à reflexão e busca de possibilidades quanto ao reaproveitamento de materiais nas práticas da Arteterapia. Este tema vem me atravessando há algum tempo, porém mais assertivamente desde a publicação do texto “Hécate” de Laila Alves de Souza. CLIQUE AQUI

Desta reflexão nasceu alguns textos* e o encontro vivencial “O que é bom para lixo, é bom para poesia”, oferecido pelo Não Palavra em diversos espaços ao longo do ano. Nesta vivência, refletimos sobre o tempo de escassez ao qual estamos vivendo. Na escuta clínica, ela se apresenta com frases como “não tenho”, “não posso”, “não há mais”. Ao acreditarmos nestes imperativos limitantes, a vida vai reduzindo-se, empobrecendo-se. Mas a  pergunta que se faz é: diante de tantas impossibilidades, o que ainda é possível? Diante de tanto “não ter”, o que ainda temos? 

Esta reflexão também transborda para os materiais em Arteterapia. Não estamos em tempos de mesa farta e isto não pode ser vivido como a impossibilidade do criar. Pelo contrário, aqui nasce o convite à uma outra criatividade, aquela que se faz a partir do muito pouco ou quase nada. Este é o verdadeiro desafio de nossos tempos.  

Neste contexto tenho pensado sobre possíveis materiais aos quais inicialmente seriam descartados e por já terem cumprido sua função primordial, seriam jogados no lixo. Porém, se sairmos do movimento automático, dispensarmos um pouco de atenção e nos demorássemos a observar aquilo que em um primeiro olhar seria desinteressante e desimportante, quantas possibilidades e riquezas seriam descobertas!

Um dos materiais que mais ganho como sucata, são bandejas de isopor e suas variáveis. São aquelas bandejas que servem de suporte de mercadorias, como  pizzas, bolos, frios, carnes, frutas... Este material altamente descartável em nosso cotidiano, vale a pena ser observado. Embora o isopor seja considerado um material ecológico já que não contamina o solo, a água e o ar, na natureza ele demora 150 anos a ser degradado. Mas um ponto positivo é que este material é altamente reciclável e reaproveitável. 

Cabe aqui o discernimento entre o que é reciclar e reaproveitar materiais. A reciclagem subentende o processamento de um item com o intuito de produzir um outro produto útil, como por exemplo as garrafas pet que podem se transformar em fibras de poliéster, o chamado “tecido pet”. Já no reaproveitamento ou reutilização de materiais o item não é transformado em um novo produto, mas pode ser reaproveitado em diversas possibilidades de uso, como papéis que podem ser usados como blocos de rascunho ou garrafas que podem se tornar objetos de decoração. 

Embora o reaproveitamento de materiais não colabore diretamente na questão dos resíduos como a reciclagem, ela contribui enormemente para a gestão do lixo, reaproveitando uma matéria prima que seria facilmente descartada em lixões ou aterros. Sendo assim ela age contra a cultura do desperdício e colabora para a redução da exploração de recursos naturais para a produção de novos materiais.  

O discurso do empobrecimento dos recursos é antagônico à uma das grandes preocupações ambientais da atualidade: o elevado consumo humano de produtos que são facilmente descartados, quando poderiam ser reutilizados. No entanto, são transformados apenas em lixo e poluição para nosso planeta.

Como arteterapeutas, trabalhamos essencialmente com materiais, e assim entendo que devemos pensar sobre como estamos administrando-os. Se os utilizamos de forma sábia e sustentável ou se ainda operamos com a lógica da fartura, do consumo e do desperdício.  

Este é um terreno ainda novo para mim, mas tenho me dedicado à busca de novas alternativas e inspirações. Hoje compartilho algumas possibilidades que tenho explorado na reutilização de bandejas de isopor em minha prática arteterapêutica. 

O isopor em técnicas de Arteterapia 

Desenho


O isopor reage muito bem como um suporte para desenho quando utilizado com pastel oleoso e seco. Neste contexto ele pode substituir o uso do papel alcançando um excelente resultado. E ainda possível explorar sua forma original como superfície. Se redondo, serve como uma mandala. Em forma de bandeja é possível explorá-lo como uma superfície tridimensional: além da altura e largura, contempla a profundidade. 

Colagem



Para colagens diversas, a bandeja de isopor também pode ser utilizada como superfície análoga ao papel. Mas outra técnica interessante se dá com a possibilidade de quebrá-la em pedaços e dos fragmentos nascer uma nova forma e composição. 

Quando a questão terapêutica gira em torno da palavra “quebra” – de padrões, de pensamentos, crenças e enrijecimentos diversos – o ato de quebrar e recompor sob novas combinações mostra-se um processo bastante simbólico dentro do setting arteterapêutico. Em um segundo momento é possível explorar as cores desta nova composição, na imagem e na vida. 


 Gravura 

A gravura é uma imagem obtida através da impressão dos traços gravados em uma matriz. O material da matriz pode variar e é ela quem nomeará o tipo de gravura. Por exemplo, xilogravura é o nome que se dá para a impressão de uma imagem gravada em madeira. Litogravura, a impressão sobre pedra. 


No contexto do setting arteterapêutico é possível reproduzir esta técnica gravando traços sobre a superfície do isopor com diversos materiais de corte, como palitos variados ou pregos. Uma vez que a matriz é preservada, a impressão pode ser feita e refeita inúmeras vezes em papeis com diferentes gramaturas e cores. 

Este trabalho é interessante ao proporcionar que o autor marque na superfície os traços aos quais deseja deixar gravado, registrando ali a sua marca e desta forma poderá potencializar a manifestação daquilo que deseja transmitir para si e para "o mundo". Em um segundo momento, explorar diversas possibilidades de impressão a partir de uma mesma matriz, mostra-se como uma experiência muito rica e bastante simbólica em uma jornada de autoconhecimento.   


O exercício do olhar que reaproveita os materiais (a princípio) descartáveis enfim torna-se uma postura de vida. Ao compreendermos a profundidade deste hábito dentro do processo criativo, naturalmente conseguiremos enxergar com outros olhos tantos recursos antes negligenciados, seja na vida objetiva mas também na subjetiva. Desta forma, é possível atravessar o tempo de escassez de outra maneira, experimentando outras possibilidades.  

E você? Como reaproveita seus recursos materiais e psíquicos? 

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 


Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI