segunda-feira, 18 de novembro de 2019

O CHAMADO PARA A ARTETERAPIA


Por Sheila Leite - RJ

Tomo, enfim, a iniciativa de me inserir no mundo da Arteterapia – com certa precaução, claro, assim como todo iniciante em novos caminhos. Caminhos esses que não são desconhecidos totalmente, mas têm novas propostas de atuação. O incentivo maior veio de uma supervisão que já se estende por quase dois anos, de uma grande profissional e amiga, Eliana Moraes. O carinho e o valor com os quais ela trata a Arteterapia me direcionaram ao curso de formação que iniciei. E também ao presente texto.

Pensando bem, as sementes já tinham sido lançadas alguns anos antes: durante o período de supervisão, ainda na graduação em Psicologia, na Universidade Estácio de Sá. Dessa vez, com outra grande mestra, analista Jungiana e arteterapeuta, Maria Cristina Urrutigaray. Em seu livro “Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens”, ela cita Jung. É com a mesma citação que dou início ao meu primeiro texto sobre arteterapia:

Numa época em que toda a energia disponível é empregada na pesquisa da natureza, pouca atenção se dá ao essencial humano, isto é, sua psique, ainda que haja muitas pesquisas sobre suas funções conscientes. Mas sua parte realmente desconhecida, que produz os símbolos, continua sendo terra desconhecida. (JUNG in URRUTIGARY, 2011, p.14)

A intensidade da energia psíquica não pode ser verificada e nem medida, mas pode ser observada quando se volta para alguma ação, pensamento ou atitude. Isso porque, naquele instante, ela está sendo direcionada a um ponto específico. Dependendo da direção, pode estar em um movimento de regressão, levando a pessoa a novas possibilidades de desenvolvimento ou a um movimento de progressão, promovendo a sua adaptação ao mundo.

Tal energia é vista por nós, por nossa consciência, através das imagens que são geradas em nosso inconsciente e que se manifestam por representações mentais. Nós somos seres psíquicos e somáticos portanto, a psique atua no corpo e este atua na psique.

Com as técnicas trazidas pela Arteterapia, o corpo vai propiciar à psique diferentes formas de comunicação, facilitando a sua manifestação simbólica nas imagens que são produzidas por ele.

Por símbolo, devemos entender algo, seja na forma de um termo, um conceito ou mesmo uma imagem que, apesar de nos parecer familiar, pode alcançar outras conotações diferentes de seu significado evidente e convencional. Assim, uma imagem é portadora de um conteúdo simbólico porque ela transcende a realidade manifesta, ou empírica, possuindo um aspecto inconsciente mais amplo, que não consegue ser precisamente definido ou explicado, sendo sempre uma aproximação. (URRUTIGARY, 2011, p.32-33)

O ato de criar, assim, apresenta-se de forma terapêutica, ao trazer conteúdos emocionais através das imagens.

Como exemplo, trago uma técnica de colagem feita por mim. Intitulada “Qual o seu chamado para a Arteterapia?”, desenvolvi o trabalho durante o curso de formação em Arteterapia. O objetivo foi realizar uma experiência pessoal e individual dentro do grupo, na qual cada um deveria fazer uma colagem que traduzisse o porquê de estarmos ali.



Ao recortar imagens de revistas, logo me deparei com a figura do estresse. Esta imagem me remeteu imediatamente ao meu trabalho de atendimento na clínica. Vi-me no consultório, sentada em minha cadeira e, diante de mim, alguns pacientes se dizendo muito estressados e desorganizados mentalmente. “O mesmo que gavetas amontoadas”, foi o que me veio à mente. Coloquei-me no lugar deles. Naquele momento, eu era o paciente, e foi quando pude perceber o quão difícil é traduzir em palavras algo que possa concretizar aquilo dentro de mim.

 As emoções e os sentimentos dos pacientes são complexos, geralmente confusos. Por isso a dificuldade de falar, em voz alta, o que realmente se passa no íntimo. Isso se traduz, muitas vezes, em uma espécie pedido de socorro silencioso: que, na minha colagem, ilustrei com a figura do olhar do menino. O choro, que muitas vezes aparece como um desanuviador, deixa surgir uma angústia de alguém sem forças: nesse caso, como a imagem da moça, que aguarda uma “fórmula mágica” para ser curada.

É aí que entra a Arteterapia. Trata-se de um trabalho na terapia que faz uso de outros instrumentos do corpo além da fala. Utiliza as mãos, por exemplo, o que às vezes por si só já traz certo alívio ao estresse. Estimula a criatividade, o olhar. Através das imagens que vão surgindo, as emoções podem emergir, para que sejam trabalhadas de forma consciente. É como se uma luz envolvesse a escuridão e o paciente pudesse nela penetrar, enfrentar a sombra e visualizar o que o aflige: na colagem, isso é representado pela luminária. O foco de luz iluminando o corpo escuro simboliza o inconsciente, que seria, assim, a transformação na existência do indivíduo.

Tudo isso que retratei no trabalho de colagem trata-se de um processo, lento e pessoal. O passo a passo desse encontro é o tempo da terapia, chamado de Kairós, segundo a mitologia grega (diferente do Cronos, o tempo cronometrado ao qual estamos acostumados). É um processo atemporal, pois depende do despertar da consciência de cada um.

Dito isso, podemos concluir que as técnicas expressivas usadas pela Arteterapia são meios do paciente se conectar com o inconsciente, usando uma linguagem que é própria do mesmo. É assim que a Arteterapia nos convoca para resgatar o potencial de entrar em contato com o “eu” interior.

E você? Qual o seu chamado para a Arteterapia?



Referências bibliográficas:

URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia: a transformação pessoas pelas imagens. 5. Ed. Rio de Janeiro, 2011.


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Sobre a autora: Sheila Leite




Psicóloga e Arteterapeuta em formação

Pós Graduação em Psicologia Junguiana
Psicóloga convidada da Rádio Rio de Janeiro, 1400 AM,  Programa Ouvindo Você.
Atendimento Clínico: individual e grupo. Crianças, adolescentes e adultos na Ilha do Governador

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

SALVADOR DALI E "AS MINHAS GAVETAS INTERNAS"




"Girafa em chamas" Salvador Dali 

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo / SP

É com muito entusiasmo que escrevo aqui o meu segundo texto no blog Não Palavra, cuja equipe me acolheu tão bem na minha primeira experiência, com o texto “'O olhar que não se perdeu': diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” CLIQUE AQUI

Em fevereiro de 2018, iniciei sessões arteterapêuticas com meu pai e minha tia, num setting terapêutico na casa dele, com sessões estruturadas, temas diversos e experimentações de materiais, com o objetivo de trabalhar a estimulação cognitiva.
Denominei aqui carinhosamente “pai” e “tia” para descrever suas características e participações:

Pai – 85 anos, viúvo há dois anos e meio, cinco filhos, ascendência japonesa, dentista aposentado, caminhando para estágio moderado da Doença de Alzheimer. Faz uso de rivastigmina e sertralina. Tem artrose nos joelhos, utiliza andador, possui certa autonomia e tem cuidadores formais 24 horas. Perdeu a visão do olho direito no início deste ano por causa de glaucoma.

Tia – 93 anos, solteira, sem filhos, ascendência italiana, professora de português aposentada. Estado de saúde bom.

Em 04/outubro/2019, fizemos a sessão de número 57, denominada “Minhas Gavetas Internas”.

Foi a mais longa sessão, com duração de uma hora e quarenta e cinco minutos, comparada com as sessões iniciais que costumavam ter a duração média de meia hora.


Setting arteterapêutico

Iniciei perguntando se eles conheciam o pintor espanhol Salvador Dali. Mostrei a pintura “A Persistência da Memória”, e em seguida trabalhamos com uma fotocópia em preto e branco da obra “Girafa em Chamas”.

Ao perguntar “O que você vê nesta obra?”, pai e tia descreveram literalmente as imagens com detalhes.

Em seguida perguntei: “O que você sente ao ver a obra?”:

Tia: Sinto que se fossem pessoas reais elas estariam sofrendo uma terrível dor.

Pai: Eu acho que é uma deformação humana. O artista estava totalmente alterado com a mente, a visão alterada. Eu sinto que esses dois seres humanos inexistem ao vivo, muito menos a girafa pegando fogo. Um desenho mal inspirado. Um desenho ilógico.

Em seguida perguntei: “O que vocês querem falar sobre as gavetas (na obra)?”:

Tia: Devem estar repletas de alguns materiais: joias, dinheiro, lenços.

Pai: Eu acho que as gavetas contêm a atividade humana.

Pai e tia passaram a construir suas “gavetas internas” utilizando as caixas de fósforos, os retalhos de tecidos e escolhendo peças como puxadores; definiram a montagem e posição das gavetas, abertas ou fechadas.

Meu pai colou o tecido de modo que uma gavetinha não abria... “As suas explicações vieram um pouco tardia...”.

Durante a atividade, pai fala: “Meus trabalhos manuais eram admirados, viu tia, porque eu tinha habilidade (referindo-se ao período escolar quando criança). Os outros alunos nem sabiam pegar na tesoura... eu causava até inveja dos meus colegas de classe. Vou fazer a terceira (gaveta) e depois vou para o recreio”.

“O que você tem ou gostaria de ter nelas? Objetos ou sentimentos?”, perguntei.


Tia: “Gavetas Abertas”
Conteúdos: Anéis, Pulseiras, Colares.
Palavra final: Utilidade


Pai: “Gavetinhas Empilhadas”
Conteúdos: Ideias, Realização da Ideia, Carinho.
Palavra final: Pura Arte
(Utilizou grãos de milho como puxadores, nos dois lados da gaveta que não abria).

Durante o compartilhamento:

Tia: Achei que ficou muito bonito.

Pai: Gavetas - guardam recordações agradáveis e bem sucedidas.

Aproveito para agradecer duas pessoas queridas, Silvia Quaresma e Grace, por terem me presenteado em outra ocasião, com tecidos e peças de bijuterias, os quais foram utilizados nesta sessão.

Esta sessão me chamou muito a atenção pela duração e principalmente porque pude perceber que os dois estavam trabalhando com bastante concentração e calma e pareciam estar apreciando a atividade.

Pela primeira vez, minha tia fica muito satisfeita e contente com o resultado e adora olhar a foto de suas gavetinhas no meu celular, de vez em quando.


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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe




Arteterapeuta e Farmacêutica

Farmacêutica-Bioquímica graduada pela UNESP Araraquara-SP.
Especialista em Farmácia Homeopática pela USP-SP.
Especialista em Organização de Serviços em Dependência Química pela UNIFESP-SP.
Especialista em Gestão da Assistência Farmacêutica pela UFSC-Universidade Federal de Santa Catarina-SC
Especialista em Arteterapia e Criatividade pela Faculdade Vicentina-PR  
Focalizadora de Danças Circulares pela Prefeitura do Município de São Paulo-SP

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

PROCESSO CRIATIVO: Sobre a construção de um método e um estilo







Vera de Freitas – RJ
verafguimaraes@gmail.com

Conheci e experimentei a Arteterapia no final de 2014, num momento difícil e com a necessidade de renovar, reinventar, reiniciar a minha vida.

Com poucos meses desta terapia de criar, de fazer, fui em busca do curso de Formação Clínica no Pomar-RJ e ali, de fato, renovei-me,  reinventei-me e reiniciei. E com a arte encontrei-me, conheci-me, identifiquei-me. Foi um tempo de ''formação''. Intenso, experimentado, superado, vivido. Um tempo de descobertas, de criação, de criatividade, de olhar-me, de perceber-me, de muito ler, de escolher, de mergulhar, de experimentar, de superar, de encantar-me, de conhecer-me e de crescer. Um tempo que eu tanto precisava, no momento que eu tanto procurava.

Lembro-me da última aula, da autoavaliação, de ter ficado claro que tudo que fora estudado e experimentado tinha sido exclusivamente para a ''minha formação''.

Segui usando como referência uma das frases de Jung em A Prática da Psicoterapia (1986) que “ninguém pode levar ninguém além do lugar onde conseguiu chegar.” (JUNG apud PHILIPPINI Angela, 2013,p..26) e entendi que havia encontrado um caminho. Uma possibilidade para o autoconhecimento, para as transformações, para o crescimento. E quantas outras possibilidades. Quantas melhorias. Resolvi continuar estudando e seguir no curso de Pós Graduação, ainda no Pomar, onde encontrei excelente instrução, orientação e estímulos.

Com muita leitura, estudo e pesquisa, muita experimentação plástica, visitações a exposições e centros culturais, inúmeras oficinas, muitos cursos, terapia, supervisões, atendimentos, formação de grupos, algumas dinâmicas e muita arte, pude escolher como praticar com liberdade e prazer, e escolhi a colagem.

Encantada com a SoulCollage®, selecionando e colecionando imagens maravilhosas, fui fazendo lindos cartões, e lindas colagens maiores, até iniciar um caderno de colagens. Acompanhada semanalmente pelo arteterapeuta, fomos analisando, estudando, lendo e descobrindo sentidos em todas as produções.

Sem parar de produzir e estudar, passei da colagem para um trabalho ainda mais livre, combinando com outras linguagens expressivas, fazendo grandes composições, construindo novas imagens. A colagem era feita numa base aquarelada, em papel A3, seguido de desenhos com materiais diversos. Depois disso, permiti-me usar diferentes materiais, desde rendas, peças de bijuteria, até folhas e flores naturais. Era, sim, o uso da liberdade criativa, onde tudo pode, tudo se completa, tudo se organiza e se compõe. E tudo conta de você. Você se descobre  e descobre o que estava coberto.



A partir desse trabalho, com várias produções, usando livremente linguagens e materiais variados, montei um projeto piloto, onde oferecia linguagens, materiais e possibilidades de experimentação, de criação, de livre expressão.

Organizei então, um conjunto imagético e simbólico relacionado às estratégias experimentadas, o que configurou uma “metodologia criativa”, montando um Projeto Expressivo Piloto, com quatro encontros de três horas, onde foram oferecidos materiais, linguagens expressivas e possibilidades plásticas diversas para as atividades de experimentação e criação de imagens, estimulando a livre expressão.



A partir de julho de 2018 foram compostos 5 grupos, com 38 participantes no total, de adultos, basicamente do gênero feminino, com média de 50 anos de idade.

E foi sempre muito intenso, muitos mergulhos, muitas descobertas e muitas possibilidades. Novas possibilidades de transformações, de renovações. Possibilidades de criar, de fazer, de expressar. Possibilidades de experimentar e especialmente de ser livre. 

O exercício, sua aplicabilidade e os resultados, serviram, de forma mais estruturada, de estudo e pesquisa para monografia do Curso de Pós Graduação em Arteterapia (POMAR/FAVI), apresentado em maio de 2019, e registrado no EDA - Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional.

Sigo pesquisando, experimentando, criando novas possibilidades e estratégias para configurar uma segunda etapa deste método criativo.

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Sobre a autora: Vera de Freitas




Advogada, Arteterapeuta (POMAR)
Cursando Pós Graduação em Arteterapia (POMAR)
Administradora do Instituto VENHA CONOSCO - Tijuca, RJ 
Professora de Iniciação Artística - Instituto ZECA PAGODINHO
Facilitadora do Grupo de Arte e Expressão  para adultos e Grupo de Desenho Livre.
Ateliê  de PAPEL MACHÊ

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

UNIVERSO ARTETERAPÊUTICO EM RODA DE CONVERSA I: IMAGINAÇÃO ATIVA

Por Andréa Goulart de Carvalho – BH/MG
goulart17@hotmail.com
Instagram @agc017
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Ascenção Florescente – Cartão de SoulCollage®
Andréa Goulart de Carvalho


Falar em Universo Arteterapêutico não é nenhum exagero. A Arteterapia é multidisciplinar. Conjuga saberes da arte, da psicologia, filosofia, mitologia, das ciências em geral. Tece sua história e seu trajeto através da experiência e vivências embasadas em literatura de qualidade e vem atuando, de maneira eficaz, em áreas da saúde, da educação, na empresarial, entre outras.


Com uma visão aberta e inovadora a AMART, Associação Mineira de Arteterapia, me convidou para mediar a 1a Roda de Conversa, realizada no dia 5 de setembro último, com o objetivo promover debates para troca de saberes e fazeres referentes ao imenso universo Arteterapêutico.

A perspectiva é promover a nossa profissão/atividade, embasar profissionais arteterapeutas, estudantes e interessados na gama da Arte/Saúde, com conteúdos pertinentes, em seus muitos aspectos.

As Rodas de Conversa são ferramentas didáticas, utilizadas principalmente na educação e também em grupos diversos, para diferentes fins como aprendizagem, busca de soluções econômicas, politicas, etc. Para esta 1a Roda de Conversa da AMART foram escolhidos a Imaginação Ativa e a Visualização Criativa como temas.

Me atenho aqui ao tema da Imaginação Ativa e tentarei relatar um pouco do que foi apresentado para o grupo. Tarefa desafiadora com um assunto tão vasto e de difícil compreensão, abordado apenas teoricamente, sem uma prática vivencial, a qual deve ser conduzida por um profissional psicólogo/analista, habilitado para tal.

Nos posicionamos em círculo, respiramos profundamente e iniciamos o nosso encontro com uma a Visualização Criativa – tema da atividade e uma das formas de acesso ao inconsciente, que difere da Imaginação Ativa e poderá ser abordada, com mais detalhes, numa próxima oportunidade.

Como mediadora pedi que cada um buscasse uma imagem com a qual gostaria de ser apresentado naquele momento. No centro da roda, sobre uma toalha estendida no chão, há uma vela, alguns papeis de desenho e giz de cera.

Terminado o breve momento de introspecção os participantes representaram plasticamente a imagem vinda da imaginação. Flor, sol, animal, objetos, formas e cores diversas. Cada desenho é observado e apresentado pelo seu criador, dizendo: Eu sou um sol brilhante; Eu sou uma bonita flor; Eu sou um elefante colorido e engraçado, e assim por diante.

Pedi que reservassem os desenhos e que “ficassem com as imagens”.
O que é ficar com a imagem? Isto é a Imaginação Ativa? Respirar e deixar vir uma imagem? E o que fazer com ela? Em que isto me auxilia? Como atua em minha vida, em minhas questões?

Com estes pertinentes questionamentos a Roda de Conversa efetivamente foi iniciada com a apresentação, em Power Point, de alguns dados sobre Jung e o surgimento da Imaginação Ativa. Enquanto mostro as lâminas seguimos conversando sobre a coragem do médico psiquiatra e cientista que, corajosamente, se submeteu ao próprio experimento e, através da vivência, estruturou a teoria da Psicologia Analítica e a própria IA. Outro aspecto importante  é o fato de Jung ter sidr filho de pastor protestante e que sua mãe sofreu a perda de três filhos antes do seu nascimento, dados interessantes e muito relevantes em sua formação. Sabemos que desde muito criança era criativo, curioso, introspectivo, solitário e, com sua enorme capacidade imaginativa, se envolvia em pensamentos e brincadeiras fantásticas e surpreendentes. Por vezes sentia possuir duas personalidades, uma de criança e outra de um velho sábio. Esculpiu um pequeno boneco de madeira e fez um pergaminho com um alfabeto criado por ele mesmo. Tinha visões e experiências diversas, incomuns para sua idade. Era culto, desde cedo teve acesso à vasta biblioteca de seu pai. Tais visões e brincadeiras foram, mais tarde, constatadas como experiências de conteúdo arquetípico.

Ainda jovem, ao se especializar em psiquiatria, elaborou os estudos com as Associações Livres de Palavras originando a teoria dos Complexos o que favoreceu, em 1906, o contato com Freud.

O contato foi intenso e perdurou até que, em 1913, quando divergiram a respeito do conceito de libido, acarretando uma ruptura do contato, uma forte crise existencial e muitos questionamentos internos, inspirando-o na busca de seu mito pessoal.

A crise gerada pela ruptura com Freud nos presenteou com o que conhecemos como O Livro Vermelho – Liber Novus, com as experiências das Imaginações Ativas, as ilustrações maravilhosas e enigmáticas.

Alguns dos participantes da Roda de Conversa conheciam, outros não, a publicação do Livro Vermelho que esteve guardada por mais de 40 anos.

Os comentários sobre o conteúdo das experiências de Jung, o formato exótico do livro, sobre Jung ser ou não ser um artista, qual o significado das pinturas e da escrita gótica, foram sendo colocados gerando interesse ainda maior sobre o tema da Imaginação Ativa e as suas singularidades.

Em resposta aos comentários e questionamentos conversamos sobre vários aspectos da vida e obra de Jung que mostram um homem habilidoso e criativo que teve aulas de arte em Paris, apesar do foco não ser a arte. Vimos que anotava suas experiências e estudos em cadernos de capa preta, relatos de suas visões e fantasias e que o Liber Novus é o registro da profunda experiência psíquica na qual Jung mergulhou, durante meses, e elaborou nos 16 anos seguintes, originando a Psicologia Analítica.

Indagamos sobre os motivos de o livro ter ficado guardado, a pedido do próprio Jung, por mais de 40 anos, para ser liberado quando sua obra já tivesse sido mais difundida, finalizando esta parte da conversa indagamos sobre a interrupção da elaboração do Livro Vermelho quando Jung teve contato com a Alquimia, constatando a semelhança da sua experiência com o processo de transformação alquímico denominado o Processo da Individuação.

A  realização de uma IA possibilita, sem garantia, entrarmos em acordo com o inconsciente. Não é uma tarefa fácil. Estamos diante do desconhecido e devemos tomar os devidos cuidados.

Coube a Robert Johnson, na década de 80, a sistematização e publicação do livro: Inner Work: A Chave do Reino Interior (1989), no qual descreve uma forma mais facilitada de como experimentar uma IA.

Uma Imaginação Ativa, para ser verdadeira, requer a participação efetiva do consciente na experiência imaginativa e deve acontecer um diálogo real, livre, espontâneo com as imagens trazidas do inconsciente, que representam as diferentes partes de nós mesmos.


Tempo para conexão – Cartão de SoulCollage®
Andréa Goulart de Carvalho

As imagens podem ser acessadas através e além dos sonhos, por visualização e imaginação criativa, fantasias passivas, através da arte com suas inúmeras formas e técnicas de expressão como a dança,  a pintura, o desenho, o SoulCollage®, o cinema, teatro e a literatura em geral, nos contos de fadas e nos mitos.

A observação quanto aos valores humanos e a ética pessoal, com relação ao conteúdo do inconsciente foi bem frisada, pois as imagens internas são expressão de forças instintivas, como se fossem deuses internos, coletivos, uma vez que tais forças, os arquétipos, são amorais e atemporais.

O surgimento de imagens de pessoas conhecidas e ainda vivas em nossas imaginações deve também ser cuidado. A medida a tomar é modificar a aparência e/ou nome para que as energias e vibrações  emanadas não se transformem em uma espécie de magia.

Após a apresentação do material sobre Jung e IA retomamos as imagens surgidas na Visualização Criativa, como dito anteriormente, uma das formas de acesso às imagens do inconsciente. Cada participante da Roda de Conversa se debruçou em sua representação plástica da imagem buscando reflexões sobre qual e quanta emoção surgiu naquele momento, dando sentido ao comando inicial de “ficar com a imagem”, de cuidar do que é parte de nós, uma faceta do que nos compõe e nos faz sermos quem somos, com nossos acertos e desacertos.


Bad Idea – Cartão de SoulCollage®
Andréa Goulart de Carvalho

As imagens e diálogos foram compartilhadas e as questões referentes a conceitos como a Sombra, a Persona, os Complexos, os Arquétipos e demais aspectos da Psicologia Analítica foram sendo comentados, proporcionando maior entendimento do que surge e é trabalhado quando acessamos nosso inconsciente, através das várias ferramentas de que dispomos.

Encerramos a 1a Roda de Conversa ávidos por mais encontros como este, para mais ricas trocas de conhecimento e saberes.

A Arteterapia é instigante, abrangente e a iniciativa da AMART tem grande potencial, prometendo ficar cada vez melhor!
Grata pela oportunidade!

Indicações de leituras
- Johnson, Robert A. , 1989, (Inner Work) A Chave do Reino Interior
- Boechat, Walter , 2014, O Livro.14 Vermelho de C.G,. Jung – Jornada para as profundezas desconhecidas.
- Cadernos Junguianos, v. 14, n. 14, setembro 2018. São Paulo: AJB,2018.
- Sanford, John A.,1987, Os Parceiros Invisiveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de nós.
Jung, Carl G., O Homem e seus símbolos. Edição Especial brasileira- 3a Edição.
_____________ O Desenvolvimento da Personalidade, OC.
- Kast, Verena, 2019, Jung e a Psicologia Profunda, um guia de  orientação prática.
  ___________ 2016, O caminho para o si mesmo.
- Hillman, James, 2010, Ficções que Curam , Psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler.
- Barcellos, Gustavo,2012, Psique e imagem , estudos de psicologia arquetípica.
- Franz, Marie-Louise von, 1988, O caminho dos Sonhos.
- Shamdasani, Sonu, 2015, O livro Vermelho, Liber Novus.
- Lyra, Sonia (Org.)[et. al.], 2016, Imaginação Ativa e Criativa, Ichthys.
   ___________2017, Imaginação Ativa, matéria – prima da cura e quintessência da Arte, Ichthys.
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Sobre a autora: Andréa Goulart de Carvalho


Bacharel em Desenho e Gravura pela EBA/UFMG; 
Arteterapeuta - AMART 107/0112, afiliada a UBAAT. 
Facilitadora de SoulCollage®/2015; Artista Plástica; 
Atendimento arteterapêutico individual e em grupos no AME – Arteterapia
Ministrante de curso introdutório de SoulCollage® e aulas de desenho no Ateliê de Artes AGC Artes & Arteterapia. 
Pós graduanda em Psicologia Analítica na USCS.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

CONVERSANDO COM CORA CORALINA: UM RELATO



Por Eliana Moraes (MG) RJ

naopalavra@gmail.com
Instagram @naopalavra


No último mês de setembro, a Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro, promoveu o ciclo “Encontros de Arteterapia” ao qual tem como proposta que diversos espaços de Arteterapia abram suas portas oferecendo oficinas com temas variados e que recebam o grande público. O objetivo é promover a Arteterapia, seja para os próprios arteterapeutas e estudantes como também para os interessados em experienciá-la.

Neste contexto, o Não Palavra em parceria com o Centro Cultural Venha Conosco, promoveu o encontro “Conversando com Cora Coralina”. O texto de hoje se faz um relato sobre esta experiência tão marcante para cada um que participou, a começar pelas próprias facilitadoras: Vera de Freitas e eu.

A proposta inicial deu-se para duas turmas, no dia 13 de setembro, mas a procura foi tão grande que estendemos para um terceiro encontro no dia 11 de outubro. Ao todo foram 36 participantes que nos deram um feedback bastante positivo.

A ideia de convidar Cora Coralina para nosso diálogo, inicialmente se deu por dois motivos. Primeiramente porque Cora, por sua própria história de vida já nos ensina que nunca é tarde para realizarmos nossos sonhos, pois sabemos que embora ele escrevesse desde sua adolescência, publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade, deixando sua marca e fazendo história na literatura brasileira. Mas escolhemos Cora principalmente porque ela era uma doceira de profissão e vocação: era especialista em fazer doces em compotas, mas, mais profundo do que isto, em oferecer “doces” com seus versos.

Está claro que estamos vivendo uma contemporaneidade bastante pesada. Densos fenômenos coletivos que transbordam para as histórias dos indivíduos inseridos na cultura. Cedermos a pensamentos negativos, um olhar pessimista e uma desesperança é o caminho natural. Entretanto, resgatamos uma poesia de Cora Coralina que, embora antiga, parece ter sido escrita para nossos dias. Que o leitor a saboreie como um doce:

Ofertas de Aninha
(Aos moços)
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências do presente.

Aprendi que mais vale lutar
Do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

“Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”.
6ª ed., São Paulo: Global Editora, 1997, p.145.

Proposta arteterapêutica



A poesia é lida pelo grupo e relida pela facilitadora, pois assim é a poesia: deve ser saboreada e degustada para que possamos entender cada vez mais em profundidade sua mensagem. O debate sobre os versos levanta palavras como otimismo, esperança, persistência, recomeços, resiliência, fé, amor, relações, sentido e outras.

Nesta poesia Cora aborda aspectos do passado, do seu presente e seu olhar para o futuro. Escrevendo em primeira pessoa, escreve versos autobiográficos sobre aquilo que viveu, que aprendeu e que acredita.

De posse desta inspiração, sugerimos que cada participante traduzisse o que esta poesia despertava em si para a imagem. Com um olhar autobriográfico, que fizesse uso da técnica da Assemblagem para deixar que diversos materiais disponíveis o  atravessasse e que assim formasse uma composição de tudo aquilo que viveu, aprendeu e acredita.



Vera e eu fomos testemunhas de processos tão bonitos de participantes que fizeram um contato profundo com sua história e um convite a se apropriarem dos seus presentes e futuros.

Encerramos o encontro oferecendo uma compota com doces versos de Cora e a sincronicidade se encarregou de entregar a cada um a mensagem que lhe era verdadeiramente encaminhada.



Ouvimos relatos de que aquele encontro foi um oásis em meio às demandas da vida. Que saíram daquele encontro muito diferentes de como entraram – afinal não seria este o sentido da Arteterapia? Um encontro com a experiência do Belo, eis uma das minhas grandes motivações como arteterapeuta na contemporaneidade.

Conversar com artistas é uma prática extremamente enriquecedora. É por isso que Vera e eu estamos motivadas a promover outros encontros como este. Em breve, notícias sobre os próximos!



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Sobre a autora: Eliana Moraes





Arteterapeuta e Psicóloga.
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI