segunda-feira, 19 de março de 2018

O BORDADO COMO INSTRUMENTO DE ARRAIGAMENTO E CONDUTOR DE VIDA




Tania Salete (RJ) - CE
taniasalete@gmail.com
“O mais importante do bordado
É o avesso...
O mais importante em mim
É o que eu não conheço
O que de mim aparece
É o que dentro de mim Deus tece...
É o segredo do ponto
O rendado do tempo
É como me foi passado o ensinamento”
J.Vercilo

Introdução:                

 O bordado é um oficio milenar e intergeracional, sendo a arte de ornamentar os tecidos com fios diferentes, coloridos, formando desenhos. A palavra bordar etimologicamente também quer dizer “seguir junto à borda, orlar, margear, delimitar as margens". O ato de bordar provém da tecelagem e há registros desta atividade na pré-história, quando se tecia peles de animais para vestimentas, usando ossos como agulhas.

               Nas antigas civilizações que se desenvolveram as margens do Rio Eufrates, a arte do bordado foi muito cultivada. Os romanos descreviam o bordado como “pintura de uma agulha”. Em alguns textos bíblicos, no Velho Testamento, encontramos referências ao bordado como atividade manual importante e artística. 

             Na idade Média, principalmente, o bordado estava vinculado à nobreza e religiosidade, alguns deles confeccionados em conventos para ornamentar e diferenciar vestimentas comuns daquelas usadas em cerimônias especiais. Só mais tarde adquiriu status de lazer e ocupação do tempo livre, principalmente para as mulheres das classes mais elevadas. Assim sendo, ampliou-se a variedade e   foi possível criar figuras, desenhos, contornos e aplicação de cores e pontos variados.

               Historicamente, o bordado estava atrelado ao universo feminino e, durante décadas, foi disciplina obrigatória e inseparável do currículo de uma “boa esposa”, assim como cozinhar, tricotar, cuidar dos filhos e da casa. A despeito do estigma, o bordado atualmente vem ganhando força e outros significados, ocupando novos espaços, conquistando públicos de diferentes culturas e ocupações, inclusive servindo de estudo e tese no meio acadêmico, além de ser utilizado como  técnica terapêutica, como no caso da Arteterapia.

                Como ferramenta de conscientização política, o bordado é  reconhecido como possibilidade de fonte de renda familiar, dando maior autonomia às mulheres, ou como instrumento de denuncia de condições abusivas e repressivas , como caso das mulheres no Chile, onde  existem as Arpilleras, técnica de bordado utilizada para denunciar as violações cometidas pela ditadura militar no país, na época do ex Presidente Pinochet. As Arpilleras foram criadas por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, no litoral chileno, que costuravam à mão imagens feitas de retalhos e  distribuídas clandestinamente. Esta mesma técnica que relata, através do bordado, as angústias, dores, a vida e o cotidiano de uma comunidade,   servirá  de fio condutor para o desenvolvimento do documentário “Arpilleras: bordando a resistência”, sobre pessoas atingidas por barragens no Brasil. (CLIQUE AQUI)

Da fragmentação à desfragmentação – O Bordado na Arteterapia: um relato pessoal 



            Em Arteterapia, a construção do símbolo significa concretização do “não-dito”, ou daquilo que as palavras não alcançam. Fonseca (2015), afirma que: 

 “Ao olhar para o símbolo, o indivíduo adquire a capacidade de olhar seu sentimento sob outra dimensão e com isso elabora outros tantos sentimentos que podem acolher essa dor, aceita-la para depois transformá-la como parte de seu desenvolvimento, de sua superação”. FONSEA                                                            
Em um tempo recente, foi preciso mudar toda organização da minha vida: familiar, profissional, relacional, em função de transferência para outro estado. Apesar do entusiasmo pelas novas possibilidades que um lugar diferente pode causar, lidar com a realidade desta mudança repentina não foi fácil. Passados os primeiros momentos, fui envolvida por sentimentos ambíguos e em pouco tempo, sem a estrutura anterior que me permitia alguma segurança emocional, percebia-me fragmentada, partida e sem chão ou raízes. Literalmente, parecia ter sido “desarraigada” da vida. 

Buscando o devido acolhimento junto à Arteterapia, o bordado surgiu como um caminho natural para iniciar o processo de arraigamento ou enraizamento. Esta possibilidade de lidar com linhas coloridas, bastidor, agulha, tesoura, vários pontos, me remeteu ao passado quando minha avó me ensinava várias atividades manuais, como bordado, tricô e crochê, “para sossegar essa menina um pouco”, dizia ela.  

             Assim como as demais técnicas artísticas abordadas na Arteterapia, o bordado não está associado à questão da estética, e sim ao que representa como função simbólica para indivíduo. Neste contexto específico, para além de suas funções próprias como a possibilidade de escolha, atenção, minuciosidade, delicadeza, ritmo, gradualidade, experimentação, lidar melhor com erro, pelo fazer, desfazer, refazer,  o bordado teve a função de preencher os espaços, ligar os pontos,  seguir um risco, um caminho traçado, pelo desenho escolhido (que já é um símbolo) e, principalmente, dar contorno ao trabalho, à vida.  A atividade uma vez iniciada, conscientizou-me de que era preciso fixar bem os pontos, que não poderiam ser nem frouxos ou apertados demais e equilíbrio foi a meta a conquistar.  Fui automaticamente absorvida pela sensação de introspecção e concentração por aquele trabalho.  

             Pouco a pouco, ponto a ponto, o sentimento anterior foi dando espaço para novas percepções como no processo de “desfragmentação”.  Desfragmentar é “ação de reorganizar, juntar arquivos fragmentados em um só local do disco rígido”. Interessante que essa palavra advinda da informática, rima  com individuação, auto avaliação, construção e integração.

Conclusão:                          

              O bordado manual estimula a criatividade, eleva os níveis de concentração, tranquilidade mental, estimula a ações equilibradas e amplia a  plenitude, o prazer, além de outros benefícios. Fonseca, cita que “...legitimar o bordado como recurso arteterapeutico é trazer para seu contexto inúmeras possibilidades de representações simbólicas. Ao tecer, o paciente entra em contato com sua ancestralidade, suas crenças e sua história...”.

                     E pensando na atividade com as mãos, como instrumentos de arraigamento, Philippini afirma:

“...mãos ferramentas de muitos bordados, delicadas tramas de afetos, desejos e emoções.  No processo arteterapêutico, ao colocá-las em movimento, vamos redescobri-las como sensíveis instrumentos de captação do mundo... É preciso ativar as mãos como instrumentos terapêuticos em suas inúmeras possibilidades de execução, pois a cada transformação externa com os materiais expressivos, analogamente são geradas transformações internas. E neste universo de mãos e materialidade construímos nossa autonomia expressiva e ativamos nosso processo criativo, deste modo, estas mãos são instrumentos potenciais de germinação e construção.” PHILIPPINI 

                  Diante desta experiência pessoal, ficaram claros para mim os novos traços e riscos que podem surgir neste novo espaço que agora  transito. Conhecer novos costumes, novos cheiros, sabores, ter outros amores, dentre eles, o bordado. Afinal, estar na terra de tantas bordadeiras é dar asas à imaginação, à criatividade e à vida.



1 Arpilleras: atingidas por barragens bordando a resistência (teaser)
https://www.youtube.com/watch?v=U1Q-36to_uI


Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referência Bibliográfica:

PHILIPPINI, Angela -  Cartografia da Coragem, 2008 - 4ª edição, Ed.Wak 
                               Linguagens e materiais expressivos em arteterapia, 2009,  Editora Wak

FONSECA, Erica L  - O Bordado como representação simbólica no atendimento arteterapeutico
Artigo Arterevista, número 5, 2015 


VASCONCELOS, Isabella Karim M F – Tese de Mestrado em Historia -UFRPE -  Uma prática, um bem cultural : uma história sobre o bordado na cidade de Passira-PE, Fev 2016
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Sobre a autora: Tania Salete


Graduação em fonoaudiologia, pós graduação em psicopedagogia. Especialização em Arteterapia pela POMAR, Rio de Janeiro, atuando com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Atualmente residindo em Fortaleza.





13 comentários:

  1. Muito bom. Morando no interior, juntei-me ao grupo de bordado da professora e artesã Lourdinha França e temos produzido...para a vida! Parabéns ao NÃO PALAVRA.

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  2. Que lindo texto. É possível ser levada pelas palavras e sentir seu percurso de enraizar_se.
    Inspirador!!!

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  3. Maravilhoso saber que o não palavra expressa o quanto o não dito é importante e por isso reconhecido por sua veracidade num ponto que leva a vários pontos de sua emoção e razão do ser humano. Bjsss amiga parabéns

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  4. Excelente!!! Texto
    Na sua experiência relatada , deparei - me exatamente com minhas emoções na época em que tive tb desterrar- me da minha cidade de origem e vivenciar um novo tempo numa outra cidade.
    Sim , O " Não palavras " através dessa arte milenar revela o "Não dito " de forma a nos auxiliar a reorganizar o nosso jardim interior.

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  5. Me encontrei nesse texto.... me remeti ao tempo em que vim para o Rio....ertou me reestruturando.....a vida....Deus no controle.

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  6. Amei o texto Tania!
    Queria ter conhecido a arteterapia em meus tempos em BH. Teria sido ótimo! ;)

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  7. Eu não sabia que bordar significava tanto, mas me recordo que nos meus 14 anos, fazia correndo as tarefas de casa pra sobrar tempo com o bastidor e as linhas. Horas e horas de concentração e prazer.
    Bacana Tânia!!!!

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  8. Nunca tinha parado pra pensar na dimensão que o bordado pode ter. Gostei muito do texto!

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  9. Parabéns Tânia por todo o seu processo. Considero importante o encontro do arteterapeuta com a SUA técnica / linguagem expressiva, para que ele possa viver o mergulho transformador de que tanto falamos em Arteterapia, e que é tão peculiar no fazer artístico.

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  10. Excelente artigo. Temos em Ourinhos o grupo Bordado e Prosa, formado por mulheres não tão jovens, a maioria já aposentadas, é num emaranhado de estórias pessoais, desatamos os nós a cada encontro. Bordamos nas praças da cidade e temos o Literatura Bordada.Esses encontros funcionam como um canal libertador. O bordado para mim é sagrado.

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  11. A mais pura verdade. Muita das vezes me vi SOZINHA,num deserto que eu tinha que atravessar com a companhia de Jesus...venci e venci com o poder que Deus com a sua maravilhosa misericórdia me abençoou ....ARTE ..#ARTETERAPIA...... GLÓRIA A DEUS POR ISSO...A arte liberta!

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  12. Texto muito bom. A arte é uma forma de materializar sentimentos. Infelizmente não sei fazer trabalhos manuais mas admiro muito quem os faz. É um lindo dom...

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  13. Lindo texto! De uma sensibilidade profunda!! Acredito que toda a forma de arte é um modo de expressão da alma. De certa forma, lamento não ter aprendido a fazer artes manuais (Com exceção da tapeçaria na adolescência, mas que pouco pus em prática), pois essa é uma arte tão importante como a música e a poesia. Aliás, penso que na verdade fazem parte de ambas, só que de maneira silenciosa e discreta. Amei o texto, aprendi um pouco mais, e como não podia deixar de ser, adorei o passeio pela história que mostra que essa forma de arte, é tão antiga quanto civilizações do passado. Bravo!!!

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