segunda-feira, 8 de abril de 2019

ARTETERAPIA E PSICOPEDAGOGIA: Desdobramentos das oficinas criativas na interdisciplinaridade



Regina Célia Rasmussen – São Paulo
reginaceliacz@gmail.com

A Psicopedagogia atende crianças, adolescentes e adultos que demandam uma atenção em situação de aprendizagem. Não se trata de um trabalho que busca a transmissão de conhecimento, mas sim do auxílio ao indivíduo como um todo, partindo do princípio de que a aprendizagem é inerente à condição humana.
Para Alícia Fernández – referência fundamental na Psicopedagogia -, o problema de aprendizagem se encontra na anulação das capacidades e bloqueio das possibilidades e, nesse contexto, a expressão artística surge como um suporte não só para o atendimento, mas também para o fortalecimento do potencial criador do próprio psicopedagogo.
Como professora de oficinas de Arteterapia em pós-graduação de Psicopedagogia, tenho observado que os vínculos formados com os meus alunos costumam extrapolar as minhas aulas. Em cada término de módulo, muitos demonstram a necessidade de dar continuidade às vivências proporcionadas pelo conteúdo oferecido, não só que os auxiliem em seus futuros atendimentos, mas que também os ajudem na sua própria saúde mental para que possam exercer a profissão com mais significado.
Ao ensinar algumas técnicas de estimulação da expressão artística aos estudantes de psicopedagogia com o objetivo de acessarem em seus pacientes a criatividade, ficou evidente a oportunidade desses alunos desenvolverem o seu próprio processo criativo a partir das sensibilizações vivenciadas.
Visualizações criativas, poemas, contos, músicas e filmes foram as formas apontadas de sensibilizar, mover e estimular o fazer artístico, e que favoreceram uma expansão do potencial psíquico na realização do objeto das oficinas, ou seja: a imagem simbólica na arte - por eles produzidas – trouxe uma reflexão sobre a própria atuação e as singularidades dos seus autores.
Segundo Fayga Ostrower: 
 “(...) criar representa uma intensificação do viver, um vivenciar-se no fazer; (...) é uma realidade nova que adquire dimensões novas pelo fato de articularmos, em nós e perante nós mesmos, em níveis de consciência mais elevados e mais complexos. Somos, nós, a realidade nova. Daí o sentimento do essencial e necessário no criar, o sentimento de um crescimento interior, em que nos ampliamos em nossa abertura para a vida.” (p.28)
As oficinas criativas foram oferecidas como uma noção de técnicas importantes, como um suporte para o trabalho do psicopedagogo na sua missão de ser o facilitador da integração do emocional e do cognitivo na situação de aprendizagem, mas foi além ao provocar a experiência e a expressão artística com a diversidade de materiais naqueles que aprendiam. 
O que era apenas uma aprendizagem sobre a utilização das sensibilizações e as propriedades e possibilidades dos materiais expressivos para fins da terapêutica psicopedagógica provocou a necessidade de um maior autoconhecimento para atuação como psicopedagogo. Esse desdobramento endossa a importância da arte como ferramenta para compreender melhor o mundo, as pessoas, e a si mesmo, pois traduz e ressignifica as experiências de vida. 
Esses ex-alunos se mostraram motivados a se desenvolver psiquicamente e a procurar uma autonomia mais plena em sua nova prática. Sabem que são capacitados para a profissão que abraçaram, mas percebem que o novo caminho requer saúde mental, disponibilidade para o outro, concentração, acessibilidade à criação e a todo o processo que a envolve para a possibilidade de se (re)conhecerem e serem os protagonistas do seu fazer psicopedagógico.

Para atender a esse desdobramento do início do percurso dos profissionais de Psicopedagogia nas suas inquietações e constatações que permeiam a realização efetiva do atendimento em clínicas psicopedagógicas, faz-se necessário um espaço gerador de possibilidades de criatividade e expressividade.
Nesse contexto, a Arteterapia propicia a construção desse espaço para desvelar e transformar os novos “cuidadores da aprendizagem prazerosa” em profissionais mais harmônicos, onde o arteterapeuta funciona como o guia que organiza, estimula e conduz as atividades em consonância com o funcionamento do grupo.
Da interdisciplinaridade, surge a configuração de um ciclo de encontros arteterapêuticos que visa proporcionar a esses novos profissionais e seus pares um encontro com a arte - em atividades de criação e reflexão - para essa nova jornada: a ressignificação de sua própria aprendizagem, a melhora da autoestima, a ampliação do seu (auto)conhecimento, e, assim, qualificar de maneira mais segura o “ser psicopedagogo”. 

Bibliografia:

FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada:  abordagem psicopedagógica clínica da criança e de sua família. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
LACAVA, Lídia. Eros e Psiquê: um caminho possível para pensar a docência. São Paulo: Porto de Ideias, 2018.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 25ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
PHILIPPINI, Angela. Grupos em Arteterapia: redes criativas para colorir vidas Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011
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Sobre a autora: Regina Célia Rasmussen


Pedagoga, psicopedagoga e arteterapeuta
Professora em pós-graduação de Psicopedagogia
Coordenadora do Espaço Crisântemo - onde atende e gerencia workshops e oficinas criativas.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

A SOMBRA E OS CAPRICHOS DE GOYA

"O sono da razão produz monstros" Capricho 43

Liane Esteves – RJ
lianeesteves@gmail.com


A arte tem importância fundamental na história da humanidade. Desde as expressões mais antigas do homem cunhadas nas paredes das cavernas até os dias atuais, as produções artísticas são testemunho de uma história pessoal e coletiva estritamente relacionada a seu ambiente e época. Revelam aspectos muitas vezes indecifráveis ou inadequados para os costumes e a cultura de determinado tempo e local. Fazer um recorte histórico para melhor compreender os motivos e as questões socioculturais subjacentes às manifestações artísticas propicia o entendimento da dimensão psicológica por trás da criação das obras de arte. Através da psicologia analítica podemos buscar uma forma de compreender, por exemplo, a criação de obras grotescas, sombrias e que de alguma forma subvertem as normas acadêmicas e os costumes de uma época.
Enquanto indivíduos, buscamos uma unidade diante das polaridades que teimam em nos cindir. Luz e trevas, bem e mal, deus e diabo dançam no desenrolar da história e de nossas vidas. Ideias trevosas de repressão diante das luzes de novos ideais teimam em travar uma batalha enquanto não aprendermos a dialogar com elas e lhes dar a devida importância. 
Neste sentido algumas tentativas de diálogo são feitas, entre elas podemos citar as criações artísticas. O universo da arte e da expressão artística envolve uma série de fatores determinantes que contribuem para aflorar no artista questões caras ao seu tempo. Além das particularidades pessoais e biográficas, o contexto histórico e social no qual o artista está inserido muito influencia sua vida psíquica e consequentemente sua produção artística.
Entender os pares dessa dança de opostos na criação artística e também nos trabalhos artísticos produzidos em processos terapêuticos como a arteterapia e psicoterapia, pode auxiliar na compreensão dos mecanismos psíquicos envolvidos. Acredito ser valoroso compreender a possibilidade de integração da sombra na configuração estética.  Jung nos deixou como exemplo o Livro Vermelho ilustrado com as imagens que produziu oriundas desse diálogo interno.
Para ilustrar essa hipótese escolhemos o pintor e gravador espanhol Francisco de Goya e Lucientes (1746-1828). O contexto da Espanha à época de Goya, sob o peso de um regime absolutista e da tradição da igreja católica, frente às luzes da revolução francesa e dos ideais iluministas são importantes na compreensão dos aspectos acima citados. 
"Aonde vai a mamãe?" Capricho 65


Goya era pintor da corte espanhola, dotado de prestígio e profundamente envolvido com os ideais iluministas. Em 1792 adquiriu uma grave doença que deixou como sequela uma surdez permanente, provocando uma grande crise em sua vida e uma transformação em sua obra.  Todo um cenário político e religioso afeta sua vida, seus amigos intelectuais são perseguidos e a inquisição espanhola ganha novo fôlego. Paralelamente aos retratos que fazia para a corte e a nobreza, passa a desenvolver uma série de obras em que irá revelar uma sátira da sociedade espanhola de seu tempo, sobretudo da nobreza e do clero, e também representar seres fantásticos e delírios absurdos. Destaco aqui sua série de 80 gravuras intitulada Los Caprichos. Nestas gravuras pôde explorar e inovar com auxílio dos efeitos da técnica da água-forte e água-tinta, criando gradações de manchas do branco ao preto além de deformações e exageros nas representações dos vícios e das atitudes questionáveis de sua sociedade. Criticava o fanatismo religioso, as superstições do povo, o clero e a Inquisição.  
Podemos aqui conjecturar que a doença e a surdez de Goya teriam facilitado sua interiorização, mudado sua atitude e consequentemente sua criação artística. Seriam suas pinturas e gravuras (repletas de visões oníricas, violência, sátiras e críticas aos costumes, ao clero e ao regime absolutista) a expressão de seu inconsciente e das sombras reprimidas? A irrupção de imagens grotescas em sua obra seria a expressão da sombra pessoal do artista e também da sombra cultural de seu país?  
"Não escaparás" Capricho 72


Segundo Jung, a sombra abarca todos os aspectos de nossa personalidade que desconhecemos, negamos, achamos inaceitáveis e também aspectos da vida coletiva pelos quais nos deixamos influenciar. Representa as características que detestamos nos outros, sendo portanto, o oposto de nossa personalidade consciente. Ter consciência da própria sombra é doloroso e difícil, razão pela qual projetamos nos outros o que permanece rejeitado na região sombria do inconsciente, sendo uma forma de defesa para aquilo que não aceitamos em nós. A região da sombra, na estrutura tipológica de Jung, seria a que envolve a função inferior e a terceira função auxiliar, em contraposição à região "iluminada" da nossa consciência regida pela função principal e pela segunda função auxiliar.
A formação da sombra se inicia na infância, durante o desenvolvimento do ego, quando aspectos da personalidade vão sendo reprimidos ou negados em função de uma adaptação ao ambiente externo. A sombra faz parte do inconsciente pessoal do indivíduo e funciona como um tampão entre a consciência e o inconsciente coletivo. Dessa forma, a sombra tem a importante função de impedir que conteúdos arquetípicos invadam a consciência, evitando um colapso psíquico. 
A sombra, porém, apresenta também caraterísticas positivas, construtivas e criativas necessárias à nossa consciência e que, portanto devem ser postas em prática e não reprimidas ou negadas.  Contém potenciais de desenvolvimento desconhecidos pelo consciente, podendo nos conectar aos nossos instintos e formas espontâneas de agir. Marie Louise Von Franz sugere uma renúncia da vaidade e orgulho do ego para que seja possível vivenciarmos aspectos que foram, equivocadamente, por ele considerados negativos.
"Até seu avô"  Capricho 39



A sombra também se manifesta socialmente. Toda a sorte de desentendimentos entre pessoas, grupos e comunidades são projeções dos aspectos inconscientes da sombra. Eventos em massa estão sujeitos a contágios coletivos, como os eventos históricos da Inquisição, Nazismo, entre outros.  
Integrar à consciência áreas sombrias da psique, nos tornarmos “íntegros”, seria parte do processo de individuação. Para tanto, é fundamental nos confrontarmos com nossa sombra e promover um diálogo entre ela e a persona, de forma a compensar as polaridades entre ambas. Assim sendo, nossa integridade depende do bom relacionamento entre nossas “entidades” psíquicas, o que pressupõe o conhecimento das mesmas.
Para Jung, a saúde de nossa psique está condicionada às relações harmônicas entre consciente e inconsciente. Reconhecer as imagens arquetípicas do inconsciente manifestadas nos sonhos, visões, sintomas e doenças e poder integrá-las à consciência, superando uma percepção unilateral das experiências, é uma forma de lançar luz nas áreas sombrias do inconsciente e avançar no processo de individuação. Pressupõe-se que Goya teria feito uma espécie de diálogo com o sombrio de seu inconsciente através de sua criação artística. 
 Hal Stone e Sidra Winkelman afirmam que é “preciso uma grande coragem para permitir que a voz do demoníaco se expresse, pois muito daquilo que ela tem a dizer é inaceitável para os nossos valores tradicionais” (Zweig, pg. 311). É notória a coragem de Goya na fidelidade que teve aos seus valores e à sua arte perante as perseguições inquisitórias de seu tempo. Tal atitude corajosa fez dele um dos maiores artistas da história cuja obra influenciou gerações de artistas e movimentos artísticos como o Romantismo, o Expressionismo e o Surrealismo. 


"Linda mestra" Capricho 68

Referências Bibliográficas:
ARGAN, G.C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.
_________. O eu e o inconsciente. O.C. Vol. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2018.
_________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. O.C., Vol. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2017.
_________. A Função Transcendente. In: _______. A natureza da psique. Obras Completas de C. G. Jung, Volume VIII/2. Petrópolis: Vozes, 2000.
_________. Adaptação, individuação e coletividade. In.: _______. A vida simbólica: escritos diversos. Obras Completas de C. G. Jung Volume XVIII/2. Tradução de Edgar Orth. Petrópolis: Vozes, 1998.
_________. Da formação da personalidade. In: ________. O Desenvolvimento da personalidade. Obras Completas de C. G. Jung. Volume XVII. Tradução de Frei Valdemar do Amaral. 2ª Edição. Petrópolis: Vozes, 1986.
TODOROV, T. Goya à sombra das luzes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
ZWEIG, C. e ABRAMS, J. Ao encontro da sombra – O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. São Paulo: Cultrix.
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Sobre a autora: Liane Esteves

Arteterapeuta e Arte-educadora, especialista em História da Arte e pós graduanda em Psicologia Junguiana. Faz atendimentos individuais e facilita oficinas e vivências em Arteterapia.
Leciona Artes Visuais na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Tem interesse em Arte, Psicologia, Yoga, Vedanta, Espiritualidade, Sustentabilidade, Cinema, Dança e Paisagismo. Acredita na Harmonia, Amor e Respeito entre os Seres.

segunda-feira, 25 de março de 2019

ARTE E GESTALT: UM CAMINHO


Por Valéria Diniz - RJ
valdiniz.td@gmail.com
Instagram @valeriadiniz50


O que é necessário pra ser uma boa psicóloga?
Essa era minha indagação e inquietude nos primeiros anos de trajetória profissional. Tudo era encantadoramente assustador.
Procurava em curso, workshops, terapia pessoal, leitura e mais leitura. Queria chegar naquele nível de meus mestres .Pessoas que me inspiravam na vida e na carreira. Queria ser tão boa como eles!
Algum dia, eu, de fato, poderia ajudar alguém? Como apurar a escuta? Como entender o que não é possível ser falado? Como ouvir o que não pode ser dito?
Meu primeiro supervisor e mestre para a vida me convidava a “desenvolver a percepção”.
Gente, como se faz isso?
Ele me chamava carinhosamente de “garotinha”. Aborrecia-me, mas, no fundo estava certo.
Era apenas o começo, o primeiro estágio no SPA (Serviço de Psicologia Aplicada). Tinha muito ainda que caminhar!
“Tá tudo bem, ainda vou fazer a especialização!”. Era um jeito de diminuir minha cobrança.
Escolhi fazer a formação em Gestalt por ser uma abordagem criativa. Meus supervisores na formação me estimulavam através de vivências e experimentos a desenvolver a percepção através do sentir, de estar em contato.
Isso não facilitava, era mais difícil!
"Como saber qual técnica, qual experimento usar?  E quando, e como, e para quê?"
Por que não desisti?
Porque desde menina sempre gostei de estórias. E ser psicóloga é ter o privilégio de acompanhar histórias únicas. Conhecer bem de perto seu autor, e, talvez, contribuir um pouquinho para esse enredo que se constrói diante de mim.
Logo nos primeiros anos  da minha caminhada conheci as histórias de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual e violência doméstica no serviço público.
Chorei com muitas mães.
Sim, chorei.
Mas, psicólogos não choram em seus atendimentos. E a postura profissional? E a escuta técnica?  Leve suas dores para sua terapia.

Mais uma pós para, quem sabe, virar um boa profissional. E mais uma sensação de impotência diante de bebês agredidos. Meninas e meninos violados.
Noites em claro debruçada sobre livros.
Na clínica surgiam as compulsões, as tentativas de suicídio, as perdas, as dores¸ a psicopatia. A vida humana com suas histórias de beleza e horror. Preciso de mais uma pós. E de mais noites em claro.
Melhor, vou fazer um mestrado e estudar a “loucura”. Deve ser o que preciso para “virar fera”. E, no hospital psiquiátrico me deparo com oficinas em técnicas expressivas. Pintura, colagem, argila, música, teatro.
“Onde estava tudo isso por favor???”  Agora a inquietude dá lugar a indignação e revolta. “Por que não aprendi isso antes?”
Minha adolescente interior mostra a cara. Julgando o mundo acadêmico, o projeto pedagógico, as faculdades, os professores, a formação, a psicologia, o CRP (Conselho Regional de Psicologia) e o mundo ao meu redor.
Posso lembrar agora enquanto escrevo esse texto de uma voz firme e suave que dizia: “O artista aprende muito mais do íntimo do outro que um médico (ou psicólogo).”
Meu primeiro contato com a arte e sua potência terapêutica foi iluminada pela genialidade, criatividade, garra e força de Nise da SiIveira. Mestra querida!
De lá até aqui já se vão alguns anos.
Viajei por outras estradas. Conheci outras áreas da psicologia: Educação, Empresarial. Mas, ainda carregava a indignação do “tempo perdido”. Minha adolescente ainda gritava. Entendi que precisava apresentar o mundo das possibilidades artísticas para outros profissionais. Venho oferecendo uma oficina por mês em Técnicas Expressivas.
E tudo, finalmente, faz sentido. Fechei essa Gestalt ou, na linguagem comum, cheguei à compreensão.

Minha pergunta no começo era: Como ser uma boa psicóloga? Quando eu ia virar fera?
A gente não “vira” como um passe de mágica. A gente se “faz”.
Fui me “fazendo”, me “construindo”, com estudo sim, com cursos sim, com terapia sim, com supervisão sim.
E para se fazer é preciso desconstrução. Isso é arte!
Fui desenvolvendo a percepção abrindo o peito e deixando o outro chegar. E estar disponível é estar em contato consigo e com o outro.
Tocar o outro é Arte!
Não perdi o gosto pelas histórias, continuo apaixonada.
Ouvir histórias é Arte!
Manter viva a “garotinha”, que meu supervisor enxergava, e, o que na verdade sempre foi um elogio. A minha criança interior que se permite brincar e se divertir para não endurecer.
E brincar é fazer arte!
Permitir que a adolescente rebelde faça seus apelos com a coragem de mudar o mundo.
                              Acreditar em mudanças pelo caminho da Arte!
Nesse meu caminho integrei a Gestalt e a Arte.
Não virei fera. Não preciso mais.
Tudo continua encantadoramente assustador.
Não me debruço mais sobre os livros durante a noite. Prefiro estudar de dia porque a vista já anda cansada.
Faço-me uma psicóloga arteira. A cada dia, em cada encontro, em cada nova história, em cada oficina.
Meu consultório é meu ateliê. Pinto, colo, crio, experimento, construo possibilidades, descubro caminhos sozinha ou acompanhada daqueles que graciosamente me presenteiam com suas histórias.
Parei de chorar.
Sim parei.
Agora são apenas meus olhos que ficam molhados diante da alegria e da dor.
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Sobre a autora: Valéria Diniz

Psicóloga 
Gestalt terapeuta
Mestra em Saúde Mental
Atendimento individual e casal .
Oficinas de Técnicas Expressivas em Gestalt 

segunda-feira, 18 de março de 2019

OS MATERIAIS E A INTENSIFICAÇÃO DO VIVER: SOBRE O ATO DE RETIRAR

"Pietá" Michelangelo 


Eliana Moraes (MG) RJ 
naopalavra@gmail.com
Instagram: @naopalavra

No percurso da formação de minha identidade profissional me deparei com a questão sobre o que me diferenciava de uma psicóloga que se utiliza de técnicas expressivas e uma arteterapeuta propriamente dita. Uma das respostas que encontrei e me constituiu se dá no manejo dos materiais pelo arteterapeuta. 

Tenho pensado no arteterapeuta como um “promotor de encontros” entre o sujeito que fala e um material que será facilitador de seu discurso, da elaboração de conteúdos psíquicos e de retificações subjetivas a partir do ato criativo. Neste sentido faz-se estrutural que o arteterapeuta se dedique a conhecer e se aprofundar cada vez mais na riqueza e pluralidade de materiais possíveis a serem aplicados no setting terapêutico. 

O arteterapeuta deve trabalhar com metáforas. Investir em apresentar para seu paciente/cliente a analogia entre a questão trazida por ele e aquele material. Sem o devido investimento na construção deste simbolismo o paciente pode não compreender e não investir de si naquela criação, tornando o processo sem sentido e inócuo. A delicadeza e destreza da construção das metáforas e analogias entre as questões subjetivas e os materiais expressivos tem sido um dos pontos mais trabalhados em supervisões que ofereço para arteterapeutas em construção. 

No texto de hoje trago a reflexão sobre o processo criativo que refere-se ao ato de retirar aquilo que não é, retirar o excessos, o que pesa e faz perder a forma essencial: o esculpir. 

Sobre a escultura 

A escultura se faz por imagens plásticas em relevo total ou parcial. É considerada a 4ª das artes clássicas. Através da maior parte da história, permaneceram as obras dos artistas que utilizaram-se dos materiais mais perenes e duráveis possíveis como a pedra - mármore, pedra calcária, granito - ou metais - bronze, ouro, prata. Usavam-se ainda materiais de origem orgânica como argila, terracota, ou materiais mais nobres como madeira, marfim ou âmbar. Mas de um modo geral, pode-se esculpir em quase tudo que consiga manter por pelo menos algumas horas a forma idealizada, utilizando materiais como manteiga, gelo, cera, gesso, areia molhada..

A escolha de um material normalmente implica a técnica a se utilizar. A cinzelação, quando de um bloco de material se retira o que excede a figura utilizando ferramentas de corte próprias. Já a modelagem, quando se agrega material plástico até conseguir o efeito desejado e a fundição, quando se verte metal quente em um molde feito com outros materiais. 

Nas práticas da Arteterapia, a modelagem é amplamente usada, mas hoje o processo protagonista é a cinzelação. Em seu texto “Sobre a psicoterapia” Freud nos lembra as palavras do grande artista Leonardo da Vinci:

“A pintura, diz Leonardo, trabalha per via di pore, pois deposita sobre a tela incolor partículas coloridas que antes não estavam ali; já a escultura, ao contrário, funciona per via di levare, pois retira da pedra tudo o que encobre a superfície da estátua nela contida.” (FREUD,1905 [1904])

E esta metáfora se mostra riquíssima ao arteterapeuta. 

A escultura na prática da Arteterapia 

“Como faço uma escultura? Simplesmente retiro do bloco de mármore tudo que não é necessário.” Michelangelo

Freud dizia que ao longo da vida, em seu processo natural de constituição, o sujeito vai adquirindo e acoplando em si algumas orientações e diretrizes referentes à educação, referências culturais, familiares, códigos de civilização... Mas chega um determinado momento em que o sujeito se estranha, acha-se pesado e sem forma, em angústia. Intuitivamente ao buscar um processo analítico percebe que perdeu sua forma original e todo um trabalho de “retirar” se dá ao longo do tratamento. 

Naturalmente este é um processo penoso pois, cada uma destas referências faz parte da história do sujeito e sua constituição. Porém, agora pesam, e demanda alguma quantidade de força para retirar tudo aquilo que não é mais necessário, ou então que não é mais do sujeito. Esta força precisa ser bem dosada, pois se demasiadamente fraca, não terá o efeito desejado. Se muito forte, pode machucar o sujeito ou até mesmo ser retirada alguma parte que sim lhe pertence. 

Freud defende que o processo de análise é análogo ao processo da escultura. E aqui faz uma distinção entre os métodos terapêuticos que trabalham com a sugestão (análoga à pintura) e o método psicanalítico: 

“De maneira muito semelhante, senhores, a técnica da sugestão busca operar per via di pore; não se importa com a origem, a força e o sentido dos sintomas patológicos, mas antes deposita algo - a sugestão - que ela espera ser forte o bastante para impedir a expressão da ideia patogênica. A terapia analítica, em contrapartida, não pretende acrescentar nem introduzir nada de novo, mas antes tirar, trazer algo para fora...” (FREUD,1905 [1904])

Um processo de esculpir. Retirar tudo que aquilo que se encontra na superfície da forma estrutural nela contida. Este é um processo vivido no setting terapêutico que pode ser objetivado com um material simples: o sabonete. 


Utilizando os materiais de corte específicos, o paciente/cliente de Arteterapia tem a oportunidade de entrar em contato com a sensação inicial de carregar excessos de bagagens, referências, heranças, informações. Percebe a necessidade de investir alguma força na retirada destes excessos, mas também é convidado a dosar sua força para que não seja nem de mais e nem de menos. 

A prática nos mostra que muitas vezes o paciente/cliente inicia este processo de retirada ainda inseguro, sem saber que forma buscar, mas este é exatamente o sentimento de quem se perdeu da forma essencial e deseja reencontrá-la. E este reencontro só é possível quando há a disponibilidade do processo contínuo de retirar, ainda que sem saber aonde este caminho dará. 

O reencontro da forma ali contida e escondida se dá de forma singular. Cada imagem ou símbolo encontrado é único, remetendo-nos ao reencontro da verdade de cada sujeito, sua singularidade. 


Mas neste trabalho também emerge uma segunda questão: o que fazer com os restos, com tudo aquilo que foi retirado? No processo terapêutico esta reflexão se faz muito simbólica pois há um convite a se nomear tudo aquilo que fez parte da construção do sujeito e agora ele retira. Há uma grande tomada de consciência e decisão sobre quais conteúdos devem efetivamente serem jogados no lixo ou quais conteúdos não podem ser simplesmente descartados mas necessitam ser transformados para que não pesem da mesma forma. 

Este processo tem se demonstrado profundamente tocante para aqueles que os experienciam, pois convoca a responsabilização de cada sujeito, para que ele se perceba e tome uma nova postura em relação àquilo que ele é e àquilo que lhe causa sofrimento. 



Referência Bibliográfica: 

FREUD, Sigmund. Sobre a psicoterapia. Obras Completas Vol VII. 
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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 


Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI