segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

PARA 2018, OLHOS DE SEMENTES: DIÁLOGOS COM A ARGILA



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
O Cântico da Terra

“Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.”

Há algum tempo tenho investido na percepção dos fenômenos sociais da atualidade e estimulado os arteterapeutas que me cercam para que exercitem seu olhar para os movimentos coletivos de seu tempo e do seu campo de influência, e assim orientem seu trabalho e propostas em Arteterapia. Emprestar seu corpo, sensações e intuições para a captação e tradução para a esfera objetiva os movimentos da humanidade, compõe a função do artista ao longo da história. Conscientizando-se desta função, podem os arteterapeutas imbuídos desta sensibilidade, orientar suas práticas arteterapêuticas, em propostas estruturadas ou semi-estruturadas, para não oferecerem temáticas a partir de seus próprios desejos, mas oferecer os materiais e linguagens expressivas que as pessoas estão tão  carentes e nos pedem intuitivamente.
Tenho pensado que 2018 será um ano bastante desafiador para a humanidade em diversas esferas. Em nosso país especificamente, acredito que este será um ano bastante aquecido em conflitos relacionais, uma vez que será um ano de eleições no âmbito nacional e estaduais, potencializando assim os discursos polarizados, o não diálogo entre os diferentes: o chamado “clima de ódio”. 
Quem são os profissionais habilitados para lidar com as dores daqueles que não estão conseguindo se relacionar com as pessoas amadas ou que compõem sua biografia, e em última análise consigo próprio, senão nós, terapeutas? Esta é uma convocação que assumi para mim e estendo a quem possa se identificar. 
A partir destas reflexões, escolhi iniciar meus trabalhos de práticas em Arteterapia, oferecendo um material bem específico: a argila. De tudo o que já li sobre este material, uma palavra que se repete e muito me orienta quando entendo que é o momento de oferece-la é: RETORNO.  
“Segundo a Bíblia, Adão foi feito do barro, por isso nos remetemos ao começo de tudo, a origem da vida, o que pode ser extremamente mobilizante esse contato, trazendo recordações de fases muito regredidas da infância” BRASIL 

“... A argila mobiliza intensas e ativas conexões arquetípicas, e seu manuseio pode despertar energias ancestrais, extremamente mobilizadoras... Eu, particularmente... Penso que o barro ativa mais rapidamente conteúdos inconscientes, pois é um material orgânico, vivo, úmido, macio, que propicia trocas de temperatura e oferece ao toque extrema plasticidade e reversibilidade. Ela também nos remete naturalmente às associações e/ou memórias muito antigas, algumas memórias provenientes de nosso inconsciente pessoal... além de ter em sua composição muitos elementos bioquímicos presentes também no corpo humano.” PHILIPPINI

Um retorno ao corpo, à conteúdos do inconsciente pessoal e coletivo, ao primitivo, à natureza, ao começo de tudo, à origem da vida. Acredito que no momento em que o ser humano se encontra perdido de si e do outro, desconectado de sua natureza e da natureza como seu habitat, seja necessário um retorno em busca de sua essência, individual e coletiva.
O cântico da terra: uma proposta em Arteterapia



Neste ano, abri meus trabalhos em atendimentos individuais, grupos arteterapêuticos e grupos vivenciais para arteterapeutas, oferecendo a poesia de Cora Coralina que nos inspira sobre a riqueza de simbolismos que a terra nos traz.  Naturalmente, cada leitor de uma poesia capta e faz laço com algum aspecto muito singular, a partir de suas próprias projeções. 
Assim propus para começarmos o ano, um diálogo com a terra, começo de tudo. Inicialmente um diálogo sensorial, sentindo seu peso, sua textura, temperatura, maleabilidade... Em seguida estimulei que cada um ouvisse o cântico desta terra que tinham em suas mãos – este ano se desenha como uma terra pronta para o cultivo (de que?), para investirmos de nós, plantando, germinando, colhendo... Do diálogo entre as mãos de cada autor com o cântico oriundo da terra e com o auxílio de sementes, nasceria uma imagem de forma espontânea. Caberia a cada autor ouvi-la e dar voz à sua forma. Esta mostrou-se uma experiência intensa para cada um em sua singularidade. 
Das variadas imagens surgidas, uma me capturou de forma específica, pois muito me identifiquei com seu sentido. Um dos autores materializou a imagem de um homem com a expressão de preocupação e tristeza com tudo o que tem visto em seus dias e tudo o que está por vir. Porém, um detalhe me saltou pela profundidade simbólica: os olhos eram feitos de sementes. 
Tomei emprestado esta imagem para me compor neste ano. Preocupada e entristecida com o que tenho visto. Mas que eu não perca meus olhos de sementes pelas terras por onde eu passar.


Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências Bibliográficas:
BRASIL, Claudia. Cores, formas e expressão: Emoção de Lidar e Arteterapia na Clínica Junguiana
PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: Uso indicações e propriedades

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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. 

Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

“PENSANDO A ARTETERAPIA” EM NOVAS SEARAS



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

 O pequeno período sabático que me propus nos últimos dois meses, me levou a uma viagem no tempo. Meus pensamentos passearam por momentos da minha história, desde 2013, quando intuitivamente decidi começar a escrever para registrar minhas observações e reflexões do dia a dia como arteterapeuta. Revisitei meus primeiros textos e pude reviver as sensações tão primárias de quem está aprendendo a andar. Mas revivi também as sensações de quem continua a caminhar, fortalece as pernas, os passos e enfim assume uma marcha. Hoje a escrita faz parte da minha vida e ela me compõe.

Sincronicamente, quando voltei ao consultório em meados de janeiro, uma paciente em meio às suas associações, contou que estava lendo o livro “Romancista por vocação” de Haruki Murakami. O nome daquele livro capturou minha escuta e guardei-o para que pudesse pesquisar no momento oportuno.

Foi assim que conheci Murakami, escritor japonês, considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa. Neste livro, Murakami nos conta sua história pessoal e sua percepção sobre como se tornou um romancista: 
“Afinal, nem eu mesmo entendo direito como me tornei romancista. Não decidi quando era jovem: ‘No futuro quero ser escritor’, não estudei para isso, não fiz treinamento especial, ou seja, não segui nenhum passo específico para me tornar romancista. Eu apenas estava fazendo várias coisas na vida, isso e aquilo, e, por impulso e por acaso, acabou acontecendo assim. A sorte me ajudou muito também. Lembrando disso agora acho até assustador, mas fazer o quê? Foi assim que aconteceu”. (p 63)
Sorri. Senti um calor no peito quando nesta e outras passagens do livro encontrei um eco para meus caminhos pela escrita sobre o que eu trabalho, vivo e acredito. 
Murakami relata seu processo para o desenvolvimento de um estilo próprio de escrita (vale a pena conferir os detalhes no livro) mas em suma, significou um processo de SIMPLIFICAR tudo o que era “demais”, como palavras difíceis ou belas expressões para impressionar as pessoas e tudo o mais que parecesse pesado: 
“... acredito que... para encontrar um estilo ou um discurso pessoal e original, o necessário de fato é subtrair algo. Parece que viemos acumulando muita coisa ao longo da vida. Estamos sobrecarregados de informações, bagagens... quando tentamos nos expressar, todo esse peso acaba sobrecarregando o motor. E não conseguimos mais nos mover. Nesse caso, temos que jogar fora o conteúdo desnecessário e limpar o sistema para que a nossa mente se torne mais livre e ágil...
Eliminar da mente todo conteúdo desnecessário, simplificar e reduzir fazendo a subtração, talvez não seja tão fácil de colocar em prática, apesar de parecer simples.” (p 57-58)
Essa subtração ao que há de mais simples possibilitou-o a continuar a fortalecer suas pernas, seus passos e assim assumir sua marcha. Mais uma vez me identifiquei com Murakami. Quem acompanha meu trabalho de perto sabe o quanto tenho falado sobre a beleza do retorno ao simples e quantas riquezas encontramos quando  nele investimos nossa criatividade.
“Comecei usando esse estilo simples, bem ventilado... e a cada obra que produzia, fui aos poucos acrescentando conteúdos, à minha maneira, em um processo bastante demorado. A estrutura foi se tornando tridimensional e multifacetada e a armação foi ficando cada vez mais espessa, ou seja, fui criando condições para depositar aí uma narrativa maior e mais complexa... o processo de desenvolvimento da minha escrita foi natural, não intencional. Só fui perceber isso mais tarde.” (p58)
Eu seguia minha leitura em um profundo diálogo com o autor, com direito a respostas em voz alta: “Sim Murakami, a gente só percebe mais tarde.” 
Sorri mais uma vez quando o autor contou sobre o movimento de se deslocar dos enquadramentos racionais e acessar outras instâncias mais sensitivas e intuitivas no ato de escrever: 
“A sensação que eu tinha enquanto escrevia era mais próxima de tocar um instrumento musical do que à de escrever. Até hoje guardo essa sensação na mente, com cuidado. Resumindo, talvez eu utilize mais as sensações corporais e não a cabeça para escrever: garantir o ritmo, encontrar um belo acorde e acreditar no poder da improvisação.” (p 30)
Se eu fosse resumir tudo o que li de Murakami em uma palavra, eu diria LIBERDADE. E foi exatamente isto que ele se propôs: 
“... escrever livremente o que eu sentir, o que vier à minha cabeça, abandonar ideias preconcebidas de que romance tem que ser assim, de que literatura tem que ser assim... 
Se existe algo de original nos romances que escrevo, acredito que seja o fato de eu ser livre...
Penso que na base dos romances que escrevo existe essa sensação de liberdade e espontaneidade... Isso é a minha força motriz.” (p. 27/58-59) 

“Pensando a Arteterapia”: meu primeiro livro 
Toda esta jornada interior aconteceu porque, em paralelo às minhas memórias e à leitura de Murakami, eu estava em diálogo com a Larissa da Editora Semente, para a construção do meu primeiro livro “Pensando a Arteterapia” - sua capa ilustra este texto. O livro, com lançamento previsto para o mês de abril deste ano,  será a compilação dos textos de minha autoria publicados no blog “Não Palavra” desde sua criação em 2013 até o início de 2017.  
Receber cada etapa de edição em meu email fazia com que meu coração batesse mais forte, ainda não acreditando que meu caminho com a escrita estava alcançando novas searas. 
Meu desejo é que ele sirva como material de estudo para aqueles que desejam atuar na Arteterapia, mas também como provocador de diálogos – inclusive por meio de discordâncias – pois acredito que é dessa forma que construímos um saber, conscientes de que esse nunca se esgotará. 
Assim começa 2018 e quis abrir os trabalhos do blog com esta novidade. Neste ano o blog segue seu ritmo semanal de produção de textos. Mas este espaço só se sustenta com a participação daqueles que se “atrevem” à escrita. O blog segue recebendo textos, mantendo-se como um espaço colaborativo. 
Minha intenção hoje é incentivar que os leitores do blog “Não Palavra” escrevam (para o blog e tantos outros espaços) pois eu posso afirmar: vale a pena. 
E faço minhas as palavras de Murakami. Escrever: 
“... é uma sensação incrível. Ela é revigorante, como se surgisse mais um dia dentro do dia de hoje. 
E desejo que, se possível, meus leitores sintam a mesma coisa. Quero abrir uma nova janela na parede do seu coração e levar um ar novo até ele. É o que eu penso e desejo, sempre que estou escrevendo. Do fundo do coração, de forma bem simples.” (p 61)

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!
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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga. 
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. 
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

UM PEQUENO PERÍODO SABÁTICO


Por Eliana Moraes (BH) RJ
naopalavra@gmail.com

E chega ao fim o ano de 2017! Um ano tão importante para a abertura e estruturação de novos caminhos para o “Não Palavra Arteterapia”. Mudanças, reestruturações, desafios e superações, todo um processo definitivamente sustentado pelo amor ao trabalho realizado e ao que ainda se realizará. Todo um caminho que somente fez o efeito de solidificar o que frequentemente repito: Eu acredito na Arteterapia.
No blog “Não Palavra – Pensando a Arteterapia”, este foi o ano em que abrimos as portas para que os amigos, antes leitores dos conteúdos produzidos, se lançassem ao desafio da escrita e compartilhamento do seu percurso de estudo e prática da Arteterapia. De fato, este era um desejo guardado, estender a outros os benefícios pessoais e profissionais que o exercício estabelecido de escrever sobre minhas observações, reflexões, articulações promove em minha jornada.
Através do projeto “Não Palavra abre as portas” o blog se tornou um espaço de construção colaborativa em que arteterapeutas, estudantes e interessados puderam escrever, compartilhar e reverberar seus estudos, experiências e práticas em longo alcance! Assim conseguimos manter a rotina de produção de textos semanais sobre a nossa Arteterapia e saberes correlacionados. Neste ano foram ao todo 45 textos e hoje gostaria de agradecer especialmente a cada um dos queridos parceiros que aceitaram o desafio: Mércia Maciel, Maria Matina, Janaína de Almeida Sérvulo, Amanda Machado, Juliana Ohy, Luciana Machado e Sonia Santos, Yann Rodrigues, Tania Salete, Beatriz de Castro Abreu, Renata Fajoli, Suzane Xavier Rocha, Cristiane de Oliveira, Rosangela Nery, Suzane Guedes, Gloria Maria dos Santos e Andrea Goulart de Carvalho. Sem vocês este ano não seria possível! Com cada um de vocês aprendi algo que sozinha eu não poderia pensar, pois é assim que acredito que se constrói o conhecimento: pelo diálogo e pelo compartilhar. No próximo ano as portas continuarão abertas para vocês e à quem mais se sentir a vontade para chegar. Afinal, a cultura mineira que não sai de mim, me acostumou com a casa sempre de portas abertas e a mesa pronta (e farta).
O feedback que tenho recebido destes autores é justamente sobre o quão estimulante se torna o estudo e a prática da Arteterapia com o pensamento na escrita. Com esta motivação, a observação se torna mais instigante, a intuição é aguçada, percepções, hipóteses e teorizações são estimuladas. A prática da escrita proporciona estruturação, materialização das ideias e o compartilhar promove o espelhamento do que tocou um outro ou até mesmo a devolutiva sobre pontos cegos que, feitos com afeto, só nos desafiam a continuar buscando.
Todavia, durante o caminho a trilhar-se, a pausa tem um papel fundamental. E hoje o blog “Não Palavra” se abre para um pequeno período sabático. Na tradição hebraica o “Shabbat” significa uma cessação e um descanso de todo o trabalho realizado, um hiato, uma pausa com duração determinada.
Originalmente este termo está ligado à cessação dos trabalhos agrícolas para o descanso e a restauração da terra e do lavrador cansados. Atualmente, no campo profissional ele tem sido usado para designar uma pausa na carreira de uma pessoa com o objetivo de uma reestruturação e encontro de um novo rumo. Assim, é importante não confundir o período sabático com férias. Aquele se destina ao processo de se recarregar as energias e uma jornada “para dentro” num reencontro consigo, com pensamentos, sonhos, desejos, motivações. Este tempo tem a duração necessária para a gestação de novas possibilidades, criações e projetos.  
O pequeno período sabático do blog “Não Palavra” já tem data para findar: dia 19 de fevereiro de 2018 estaremos de volta com novidades interessantíssimas que já estão no forno, quase prontas!
2018 chegará com a terra descansada e refeita, pronta para o semear, germinar, brotar e colher os bons frutos para nós, que com amor nos empenhamos para o plantio daquilo que alimenta.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

TRADUZIR-SE UMA PARTE NA OUTRA PARTE... SERÁ ARTE!!!: Um ensaio para 2018




Por Eliana Moraes (BH) RJ
naopalavra@gmail.com

“Sobre o mesmo chão está o muro
e o lado de lá, que você esqueceu.
Meu chão é o mundo,
tem dois lados em guerra.
Meu mundo é este chão
onde você cresceu e eu também.
Ao redor de muitos,
me apontaram as cercas e os muros,
Eu quis o caminho...”
Marcos Almeida em “Sobre o mesmo chão”

Caminhamos para o fim de 2017 e olhando para trás começamos a refletir sobre aquilo que se passou e aquilo que está por vir. Já há algum tempo venho aguçando minha escuta a partir da clínica da Arteterapia e psicoterapia sobre as demandas terapêuticas trazidas pelos indivíduos que se mostram como reflexos do cenário coletivo. Penso que faz parte das articulações e estudos de qualquer terapeuta o movimento do social para a compreensão do sujeito angustiado, inserido na cultura. Mas neste ano, dei passos em meu estudo sobre o papel da arte e do artista (ao qual tenho inserido o arteterapeuta como função no social da atualidade) e pude me aprofundar na percepção da importância deste que Kandinsky até mesmo chama de profeta:
“Então sempre surge um homem, um de nós, em tudo nosso semelhante, mas que possui uma força de ‘visão’ misteriosamente infundida nele. Ele vê o que será e o faz ver. Por vezes desejaria libertar-se desse dom sublime, dessa pesada cruz sob a qual verga. Mas não pode. Apesar das zombarias e do ódio, atrela-se à pesada carroça da humanidade, a fim de soltá-la das pedras que a retêm e, com todas as suas forças, impele-a para a frente...
Aquele que, entre eles, é capaz de olhar além dos limites da parte a que pertence é um profeta para os que o cercam. Ele ajuda a fazer avançar a carroça recalcitrante... Essa multidão tem fome – muitas vezes sem que ela própria esteja consciente disso – o pão espiritual quem convém às suas necessidades.” KANDINSKY 
Sem dúvida uma das questões que mais apareceram em minha clínica, individual e grupal ao longo de 2017, foi sobre relacionamentos, especialmente os atritos que em última análise tiveram como disparador inicial a intolerância ao outro, ao diferente. Assuntos não faltam, dentre eles, religião e política. Esta última me preocupa de forma especial pois uma sensação muito estranha me toma quando penso que no próximo ano teremos eleições federais e estaduais e a partir da minha sensibilidade advinda da arte, visualizo um campo de guerra generalizado em nossa terra. 
Um fenômeno de massa ao qual faz crescer as cercas e os muros, dois lados em guerra, uns pela direita e outros pela esquerda, e todos se esquecem que estamos no mesmo chão. Os conflitos invariavelmente partem de um discurso polarizado: o ser humano com seu “eterno dom” de se bipartir e oscilar entre os polos opostos. 
Atendendo a convocação para o artista que “apesar das zombarias e do ódio, atrela-se à pesada carroça da humanidade, a fim de soltá-las das pedras que as retêm e com todas as suas forças, impele-a para frente...”, tenho me inspirado nas cores para colocar pessoas diante de suas polaridades, para que no diálogo com/entre elas percebam que “as partes” habitam em cada um de nós e justamente a não integração delas é que promove o fenômeno da projeção daquilo que não aceito em mim no outro. Assim dispersa-se de prioridades como relação e afeto e instala-se o clima do ódio. 
“Traduzir-se”: vivências em Arteterapia 
Naturalmente o primeiro polo em cores que visualizamos é o preto e branco. Binômio carregado de conceitos (e também preconceitos) culturais, que podem encarnar significados como bom e mal, certo e errado, luz e sombra e tudo o mais que cada subjetividade pode projetar. Mas muitas vezes nos dispersamos de quantas possibilidades existem entre o preto e o branco. As diversas tonalidades de cinzas que nos colocam em contato com aquilo que a arte nos presenteia: o degradê.
Mandala para integração das diversas possibilidades em tons entre o preto e o branco

Mas antes que nossos preconceitos nos afastem do cinza, trago a canção/poesia de Mateus Aleluia, que me orienta à ressignificação desta cor tão generosa: 
“Na linha do horizonte tem um fundo cinza
Pra lá dessa linha eu me lanço, e vou
Não aceito quando dizem que o fim é cinza
Se eu vejo cinza como um início em cor

Quando tudo finda, dizem, virou cinza
Equívoco pois cinza cura, poesia eu sou

O traje cinza lembra fidalguia
Quarta-feira cinza é dia de louvor

Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor
Gota de orvalho prateada é cinza
Massa encefálica é cinza, amor

A purificação também se faz com cinza
Fênix renasceu das cinzas com honor

Só quero dêngo quando o dia é cinza
Ler poesia e cantar ao sol

Dedilho a viola e sonho colorido
E vejo no amante que o cinza desnudou

Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor” Amor Cinza


Outra possibilidade de experienciar as polaridades através das cores se dá quando exploramos o círculo cromático. Pela teoria das cores, há aquelas que são opostas no círculo cromático causando um contraste baseando-se numa oposição de valores cromáticos. Formam-se os binômios que provocam efeitos de tensão e fusão espacial: vermelho/verde, amarelo/roxo, azul/laranja (OSTROWER, 1983). Experimentar estas polaridades através de colagens ou pinturas nos colocam em diálogo com alguns dos paradoxos que nos habitam como seres humanos. Mas vale ressaltar a sabedoria da teoria das cores quando nos diz que estas são “opostas e complementares”: formadas por uma cor primária (vermelho, amarelo, azul) e a secundária composta pelas outras duas (verde, roxo, laranja, respectivamente).  

O “traduzir-se” aos arteterapeutas

Diálogo com as cores opostas complementares: amarelo e roxo

Tenho oferecido a experiência com as “cores opostas complementares” em diversos contextos da minha prática. Porém, em especial, tenho proposto este mergulho especificamente aos arteterapeutas da minha rede de influência por acreditar com toda minha energia que só poderão oferecer ao social a integração das polaridades através da Arteterapia, aqueles que estiverem em profundo contato com suas próprias metades, antagonismos, contradições... Como disparador de grandes insights, podemos nos inspirar na poesia “Traduzir-se” de Ferreira Gullar, que retrata a condição das partes que o habitavam e aponta para a arte como um caminho possível:
Diálogo com as cores opostas complementares: laranja e azul
“Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?”

Para 2018 está posta a arena para o embate entre as polaridades. Polos opostos projetados no outro, mas que efetivamente habitam na humanidade de cada um. Reconhecer as partes que dialogam/digladiam no interior de cada sujeito é o grande desafio lançado. Em 2018 responderemos a pergunta de Ferreira Gullar, traduzir uma parte na outra parte será uma arte! Que nós arteterapeutas estejamos prontos e a postos para oferecermos ao social os materiais propícios para a integração das polaridades nas esferas individual e coletiva.  
Diálogo com as cores opostas complementares: verde e vermelho

Referência Bibliográfica:
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. 1991. 
OSTROWER, Fayga. Universos da arte. Editora Campus. 1983. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Bardot, Individuacão e o SoulCollage®


Por Andrea Goulart de Carvalho – BH/MG
goulart17@hotmail.com

“Olha procê ver”!

Olha procê ver! É um jeitinho que, nós mineiros, usamos para começar a contar um caso. Como não fujo às minhas origens...olha procê ver o meu caso: Me entendo por artista desde muito pequena, quando tive uma “obra” reconhecida, pela família, é claro! A dita obra foi um desenho de uma artista de cinema, Brigitte Bardot, copiada de uma revista e desenhada, com giz branco, na lousa do quarto de estudos, onde meus irmãos estudavam e eu brincava. Eu tinha menos 5 anos de idade. Ah! Esta menina é uma artista! Ouvi de meus pais, depois desta e de mais algumas outras “obras”.
O prazer de desenhar e os elogios sobre a minha aptidão me fizeram desejar fazer arte para o resto da vida. Acreditei e decidi, entre gizes e lousas: - Serei uma artista!
O tempo foi passando e eu, a menina desenhista, não sei exatamente porque, como e quando, comecei a colecionar imagens retiradas de revistas. Selecionava e guardava as figuras separadas por temas - bichos, gente, coisas, etc..
Não sabia o que faria com a minha coleção, mas tinha o maior zelo com ela.
Cresci. Estudei artes plásticas, formei em desenho e gravura e a coleção de figuras aumentou. Primeiramente as figuras se prestaram como material de exercício técnico e criativo, para alguns trabalhos pessoais. Num segundo momento, durante muitos anos, foram utilizadas com os alunos do curso de desenho e pintura que ministrei.
Contingências fizeram que as pastas com as imagens ficassem guardadas por um tempo, nunca esquecidas, até que, aquela menina que tinha vontade de desenhar e de ser artista, colecionadora apaixonada por suas imagens, pode reativar a força de sua coleção e esta revelou uma outra função, talvez a verdadeira vocação da coleção, numa atividade de aprendizagem e autoconhecimento, prazer e satisfação, o estudo e a prática do processo do SoulCollage®.
Assim, o nosso mineiríssimo olha procê ver! ficou mais forte e trouxe mais sentido ao tema que me proponho a tratar aqui, a questão do que estava escrito nas estrelas, a sensação de estar no caminho certo e esta coisa da qual ninguém escapa, o Processo de  Individuação.
A Individuação, aqui simplificadíssima, é a forma que conseguimos distinguir uma coisa das outras coisas. É o desenvolvimento do processo onde a personalidade, em conjunto com as nossas experiências, tem a possibilidade de numa integração onde tudo, ou boa parte do tudo, funcione de maneira a permitir que a pessoa possa se situar e viver em sua comunidade, exercendo suas atividades da forma mais completa possível.
Quem disser que viver e individuar é fácil estará enganado ou não vive nesta terra! Pode ser que viva nas estrelas! Isto, na minha visão, é muito positivo.
O processo de individuação começa no nascimento ou antes, vai se desenvolvendo, sutilmente, à medida que aprendemos coisas sobre as coisas, sobre a vida e as pessoas, os acontecimentos do mundo, bem devagarinho, pelo caminho do amor. Outro jeito de individuar é quando chega um dia, aquele momento da vida, que a necessidade do processo de individuação fica realçada por alguma mazela. Aí o caminho é pela dor.
De uma forma ou de outra, vamos querendo e precisando entender o que somos, a que viemos e para onde iremos. Não tem idade certa, sexo, crença, cor. Todos viveremos a individuação.
Na infância pensamos ou não pensamos em nada do tipo, é hora de aprendizados, de formar valores. Na adolescência tudo parece tão simples, é a hora do desencana. Tudo está tão distante. Envelhecer (individuar) é para velhos.
Já adultos a coisa começa a modificar. Responsabilidades, desafios e resoluções dão os tons e formatos para continuarmos nossas vidas.

Qual será nosso futuro?

Estes questionamentos mexem lá no fundo da alma da gente. Chegamos neste mundo com muitas possibilidades, inatas e prontinhas para serem vividas. A natureza é perfeita e harmônica! Animais, plantas, os elementos, cada um com as suas funções, que cumprem perfeitamente!
Mas, nós os humanos, temos uma coisa a mais no nosso pacote, o dom da complicação! A negação ou falta de visão destas possibilidades são parte deste dom da complicação e nos faz sofrer e adiar a individuação, o atingimento da totalidade de nossa existência, da nossa consciência. Esta é uma das causas dos sofrimento e das patologias físicas e psíquicas.
Existem muitas formas de individuar. Varias correntes, segmentos na filosofia e da psicologia.
Uma  das formas para a individuação é a assimilação do seu tipo psicológico e a suas quatro funções - sensação, pensamento, intuição e sentimento, conceitos da psicologia analítica, que nos ajudam a compreender e aceitar a nós mesmos e aos outros. A maioria de nós não teremos este aprofundamento na teoria Junguiana, mas poderemos permitir, de tantos outros modos que nossos dons se manifestem e que deles possam surgir e surtir efeitos de aceitação e compreensão sobre nós mesmo e de auto realização, que nos leverão ao nosso destino, a Opus Magna dos alquimistas.

E esta tal de Opus Magna? Como faço isto?
Eu sou suspeita para indicar porque a minha paixão é o SoulCollage®. Com certeza será lindo, prazeroso, muito profundo, facilitador e revelador.


E, como no SoulCollage®, se perguntar e fizer a carta, lá do fundo a alma vem a resposta - E esta tal de Opus Magna? Como faço isto?

Entenda, aceite, receba e agradeça Bardot! Aceite, renove reacenda seu amor por você, pelo seu dom e acredite no que está escrito nas estrelas! Seu caminho está no seu traçado e te levará à sua rosa de ouro.



Meu amor estava escrito nas estrelas. Tava sim

Tetê Espindola/1985


Você pra mim foi o sol
De uma noite sem fim
Que acendeu o que sou
E renasceu tudo em mim

Agora eu sei muito bem
Que eu nasci só pra ser
Sua parceira, seu bem
E só morrer de prazer

Caso do acaso
Bem marcado em cartas de tarôt
Meu amor, esse amor
De cartas claras sobre a mesa
É assim
Signo do destino
Que surpresa ele nos preparou
Meu amor, nosso amor
Estava escrito nas estrelas
Tava, sim

Você me deu atenção
E tomou conta de mim
Por isso minha intenção
É prosseguir sempre assim
Pois sem você, meu tesão
Não sei o que eu vou ser
Agora preste atenção
Quero casar com você

Retomando o mineirismo, regado pelo olha procê ver! e acreditando totalmente nos processos de individuação e do SoulCollage®, retomo resumindo o meu caso: Eu menina, desenho uma figura na lousa e desperto um dom que veio no meu pacote. Começo a guardar figuras de revistas, sei lá para o que e, alguns (alguuuuns) anos depois estas figuras me levam ao mundo do inconsciente através do processo do SoulCollage® e me trazem aqui, neste blog, para falar de individuação, da questão do que estava escrito nas estrelas e a sensação de estar no caminho certo, nesta coisa da qual ninguém escapa, o Processo de  Individuação.

Olha procê ver! Tava escrito nas estrelas ou não tava? Tava sim!!!
Vamos falar desta coisa do caminho certo, de sincronicidades? 
No próximo texto daqui, com a Graça de Deus, se Ele quiser!

Referências Bibliográficas:

JUNG, C. G. 1991. Sincronicidade. Petrópolis, Vozes, O.C. VIII/3.

JUNG, C. G. 1991. A Natureza da Psique. Petrópolis, Vozes, O.C. VIII/2.

JUNG, C.G. 1986. Resposta a Jó. Petrópolis, Vozes, O.C. XI/4.

SoulCollage®. Disponível em: <www.soulcollage.com>

Tetê Espindola/1985 - Meu amor estava escrito nas estrelas tava sim


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Sobre a autora: Andréa Goulart de Carvalho



Bacharel em Desenho e Gravura pela EBA/UFMG;
Arteterapeuta - AMART 107/0112, afiliada a UBAAT.
Facilitadora de SoulCollage®/2015; Artista Plástica;
Atendimento arteterapêutico individual e em grupos no AME – Arteterapia
Ministrante de curso introdutório de SoulCollage® e aulas de desenho no AREA - Ateliê de Artes



Este é o segundo texto escrito por Andrea. Veja o primeiro CLIQUE AQUI