segunda-feira, 18 de abril de 2016

ARTETERAPIA E PSICOLOGIA. Série: Pilares da Arteterapia

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com 

Dando continuidade aos textos acerca dos saberes que contribuíram para a construção da Arteterapia, hoje abordaremos as contribuições que a Psicologia forneceu e como hoje ambas dialogam no setting e na relação paciente-terapeuta.

A psicologia enquanto cadeira científica é bem jovem, pois até o final do século XIX víamos sua atuação dentro da filosofia, da teologia e da biologia. Em 1892, Théodore Flournoy – médico e professor de Filosofia e posteriormente de psicologia – recebeu a cadeira de psicologia da Universidade de Genebra, consagrando sua liberdade dos sistemas filosóficos e ganhado status de ciência (SHAMDASANI, 2005). A partir deste ponto uma profusão de teorias começou a se desenvolver e no início do século XX podemos observar inúmeras teorias e teóricos da nova psicologia.

“Parece que hoje todo o mundo está publicando uma Psicologia”, escreveu William James em 1893 para seu amigo e colega psicólogo, Théodore Flournoy. Brotavam de todo lado manuais, princípios, esboços, introduções, compêndios e almanaques de psicologia.
Periódicos, laboratórios, cátedras, cursos, sociedades, associações e institutos de psicologia eram fundados a rodo. Uma verdadeira horda de testemunhas foi chamada e interrogada: o louco, o primitivo, o gênio, o degenerado, o imbecil, o normal, o bebê, e, por fim, mas não em último, o rato branco. Novos personagens entraram socialmente em cena: o esquizofrênico, o narcisista, o maníaco-depressivo, o anal-retentivo, o oral-sádico, e todos os “vertidos” – invertidos, pervertidos, introvertidos, extrovertidos. (SHAMDASANI, 2005) 

                
              Livro Teorias da Personalidade de Susan C. Cloninger, 
                                         Editora Martins Fontes.

Com a publicação de Freud em 1900, A Interpretação dos Sonhos, a mente humana começou a ganhar infinitas possibilidades de estudo, pois Freud traz para esse cenário o conceito de inconsciente enquanto instância, o que mudaria toda a percepção do homem sobre sua mente. Nesta nova ótica o homem deixa de ser dono de sua própria casa e se torna refém de uma instancia desconhecida e inacessível.

Jung, tempos depois nos apresenta a psicologia analítica, posteriormente chamada de psicologia complexa, hoje conhecida como psicologia Junguiana. Nela, o autor traz uma instância ainda mais profunda, o inconsciente coletivo, onde residem forças chamadas de arquétipos, termos derivado da filosofia, arché, ou aspectos primordiais, que também encontramos em Nietzsche e seus imperativos categóricos. A consciência tampouco tem acesso a essas forças e apenas recebe delas as imagens arquetípicas, ou seja, fragmentos que chegam à consciência travestidos com os aspectos pessoais de cada indivíduo.

O acesso a estes conteúdos se dá através dos sonhos, dos atos falhos, das psicopatologias e das projeções, por exemplo. 

Cena de Alice no País das Maravilhas, de Walt Disney, 1951.

Aqui podemos delinear um ponto de diálogo entre psicologia e Arteterapia, pois a expressão através da arte e dos materiais plásticos é uma das possibilidades de construir um caminho direto para tais conteúdos e abrir o diálogo com o inconsciente e suas imagens, logo, a Arteterapia é, por excelência, a abordagem terapêutica que fornece inúmeras possibilidades de acesso a aspectos anteriormente desconhecidos pelo homem. Podemos comprovar esse fenômeno quando observamos o trabalho de Nise da Silveira, seguidora da psicologia Junguiana, com pacientes psiquiátricos usando materiais expressivos como argila, pintura e desenho e possibilitando assim, a comunicação desses pacientes com seus conteúdos inconscientes.

Nesse caldeirão de “novas psicologias”, outros autores construíram seus caminhos após entrarem em contato com a Psicanálise. Frederick Perls ou Fritz Perls desenvolveu a Gestalt-Terapia desdobrando os saberes da Teoria da Gestalt, do teatro, da Fenomenologia, do Existencialismo e de sua experiência pessoal com artes. Teoria que muito acrescenta à prática da Arteterapia no que diz respeito a percepção e leitura de imagens, pois tanto aqui quanto na Teoria da Arte (próximo texto da série), observamos conceitos retirados da teoria da ótica - da física - que são utilizados  na compreensão do funcionamento da nossa capacidade perceptiva e dos seus atravessamentos nas questões emocionais. Gestalt possui como melhor tradução a palavra forma, ou seja, a teoria da forma nos revela como nossa consciência busca “boas formas” e em quais armadilhas podemos cair durante essa busca. É uma teoria que não leva em conta as forças advindas do inconsciente, visto que não se trabalha com esta instancia, apenas com a consciência, resquício da fenomenologia, entretanto é importantíssimo o seu estudo, uma vez que sempre olhamos para as imagens do inconsciente através da consciência, ou seja, é com ela e através dela que percebemos o mundo, seja o nosso mundo interno e desconhecido ou o mundo sensorial, das nossas relações.

Melanie Klein e Donald Winnicott também desenvolveram suas teorias sobre desenvolvimento infantil e suas nuances afetivas importantíssimas para aqueles que buscam especializar-se nos atendimentos infantis.

E diante desse gradiente com tantas nuances, teorias e possibilidades de abordagens teóricas surge um questionamento importante: a Arteterapia se baseia em que teoria da psicologia? O arteterapeuta precisa ser psicólogo? É preciso realizar especializações em teorias da psicologia após a formação em Arteterapia?

Antes de responder a esses questionamentos é importante destacar o território da Arteterapia no meio de tantas abordagens psicológicas. A Arteterapia enquanto outra possibilidade de abordagem e de atuação clínica e institucional de desenvolvimento mental, emocional e cognitivo e enquanto formação de profissionais que atuem com este objetivo tanto no acompanhamento clínico quanto institucional precisa se bastar enquanto teoria e prática metodológica, e para tanto precisamos observar as interseções entre Arteterapia e psicologia na sua prática, estruturar e fortalecer suas bases teóricas.

A Arteterapia é uma área do saber que considero um hibrido e sua construção deriva de muitas fontes. Da psicologia podemos destacar primordialmente a relação paciente-terapeuta, chamada de transferência, um conceito base para o entendimento de qualquer metodologia terapêutica. O estudo da mente, do comportamento, do aprendizado e das forças advindas do inconsciente ou dos fenômenos dados à consciência é importante em qualquer prática terapêutica onde se lida com o outro. Conhecer o funcionamento da mente humana a partir de qualquer teoria da personalidade ou usando qualquer área de estudo da psicologia – social, aprendizagem, organizacional, institucional, etc – é fundamental para quem deseja enveredar pelo caminho das práticas terapêuticas, porém, não podemos confundir Arteterapia com tais teorias e mais ainda, não podemos colar a prática da Arteterapia com nenhuma delas, pois é preciso construir uma identidade e uma metodologia próprias da Arteterapia que ofereça ao profissional uma formação completa, ou seja, um entendimento do homem em seus diversos contextos de atuação no mundo para que, ao lidar com a subjetividade do outro, seja um paciente individual, um grupo, uma empresa, uma escola ou uma instituição de saúde o arteterapeuta possa oferecer as ferramentas necessárias para aquela demanda.

Caso tenha dificuldades em postar seu comentário, nos envie por e-mail que nós publicaremos no blog: naopalavra@gmail.com

Referências Bibliográficas:
PAÍN, Sara. Os Fundamentos da Arteterapia. Editora Vozes, Petrópolis. 2009.
CLONINGER, Susan C. Teorias da Personalidade. Editora Martins Fontes, São Paulo.1999
SHANDASANI, Sonu. Jung e a Construção da Psicologia Moderna. Editora Idéias e Letras, São Paulo. 2011.
GINGER, Serge. Gestalt a Arte do Contato. Editora Vozes, Petrópolis. 2007.
MARCONDE, Danilo. Iniciação à História da Filsofia. Editora Zahar, Rio de Janeiro. 2007.  










segunda-feira, 11 de abril de 2016

PSICANÁLISE E ARTETERAPIA: Encontros e desencontros (Parte I)



Por Eliana Moraes

A formação de Arteterapia no Brasil se dá basicamente por embasamento teórico na Psicologia Analítica de Carl Jung e é inquestionável sua contribuição teórica para esta prática terapêutica. Entretanto, percebo que ao aceitarmos o convite para o aprofundamento na teoria junguiana, somos sutilmente convidados a torcer o nariz para Freud, psicanálise e afins (o inverso também é verdadeiro).

Lembro-me dos tempos da faculdade em que eu frequentava paralelamente grupos de estudos freudianos e junguianos e quando observava algum olhar de interrogação sobre esta prática, pensava: “Pessoal, Freud e Jung brigaram em 1913, mais de cem anos se passaram, a gente não precisa continuar brigando.”

Penso ser um engano deixar de estudar as teorias desenvolvidas a partir de tanto estudo e observação apurada do ser humano (tão plural) justificando-se por passagens da biografia do teórico, seus afetos e desafetos. E penso que não há como um terapeuta que se proponha a trabalhar com o conceito de inconsciente não ler Freud, o primeiro a sistematizar este conceito e seus desdobramentos.

Desta forma, eu uma arteterapeuta (por formação, vocação e prática) venho me aprofundando nos estudos sobre a psicanálise e articulando com a prática da Arteterapia. Esta é uma teoria que contribui muitíssimo para o olhar e o manejo na clínica e tem sido um caminho instigante pensar sobre os encontros e desencontros entre estes dois saberes.

Uma articulação que venho me debruçando se dá na associação entre o divã e a Arteterapia. A ideia de se deitar ao divã no setting psicanalítico assusta muita gente. Eu particularmente não compreendia a potência desta prática até me submeter a ela (sim, sou paciente de psicanálise ortodoxa desde 2014).

Um dos motivos pelos quais se usa o divã é para que o paciente se liberte do olhar do analista, pois de costas o paciente não poderá buscar sutis expressões faciais, qualquer sinal em seu olhar - aprovação, espanto, decepção.. - ou que busque nele uma “resposta” que influencie ou contamine o fluxo do seu discurso. O paciente se liberta da expectativa de manter um diálogo construído, coerente (racionalizado) com seu analista, e nesta configuração segue trilhando um caminho muito próprio, e a partir da associação livre vai adentrando por caminhos desconhecidos e profundos que lhe pertencem.

Neste sentido, cada vez mais tenho explorado o potencial de não estar no campo de visão do meu paciente. Posso pedir que ele “simplesmente” colora um desenho ou “apenas” fique manipulando um pedaço de argila enquanto fala. Percebo que este procedimento coopera para que o paciente rebaixe sua consciência (resistência), desloque um pouco da expectativa do diálogo com sua terapeuta e fale mais livremente. Abre-se um campo para o espontâneo (tão potente!) e percebo que no fim deste processo, fatalmente tanto a expressão verbal quanto a imagem surgida falaram surpreendentemente.

Em outro momento, quando o paciente mergulha em um processo criativo, em um profundo diálogo com o material (consigo mesmo), me desloco para uma posição lateral, para que ele tenha espaço para “caminhar”. Este formato coopera para que o paciente invista de si naquela produção, responsabilizando-se como autor e protagonista de sua obra/vida. Ele caminha, pensa, (se) cria e (se) constrói.

Muito se brinca com a imagem do analista desatento, sentado, cochilando enquanto o paciente fala sem vê-lo. Mas esta imagem não é real se estamos falando de um terapeuta com comprometimento ético e que tem amor pelo seu paciente. Este lugar de estar ao lado sustentando pela transferência um campo de batalha interna, um espaço de autoconhecimento e promoção de saúde para um sujeito, deve ser ocupado por alguém consciente e preparado para sua tamanha responsabilidade.


Em um próximo texto darei seguimento a esta instigante investigação sobre os encontros e desencontros entre duas das minhas grandes paixões: a Psicanálise e a Arteterapia. 

Caso tenha dificuldades em postar seu comentário, nos envie por e-mail que nós publicaremos no blog: naopalavra@gmail.com

segunda-feira, 4 de abril de 2016

QUASE UMA, "limitações construídas."

por Flávia Hargreaves

Não Palavra entrevista Alex Neoral, diretor e coreógrafo da Focus Cia. de Dança.


Espetáculo "Quase Uma", Focus Cia. de Dança. Bailarinos: Alex Neoral e Carol Pires. Foto: Paula Kossatz.


“Em cena, bailarinos se deparam constantemente com limitações construídas, e a partir de regras são criados novos corpos. QUASE UMA busca encontrar uma construção coreográfica partindo de um lugar onde não se é livre nunca. Dentro desta ideia, a movimentação ultrapassa sua primeira instância e se mostra plena ao longo da coreografia. O foco principal, apesar de em cada momento os bailarinos enfrentarem novas impossibilidades, é a ideia de superação gerando novas possibilidades de movimento. É um espetáculo que explora as relações entre o corpo e seus traços no espaço, e a cada momento se experimentam novos caminhos, que se reinventam a cada segundo.” (texto do catálogo).
Hoje o Não Palavra inicia uma série de conversas com o artista, buscando possíveis diálogos entre o processo criativo na Arte em suas diversas linguagens e estilos e a prática da Arteterapia. “Como” e “se” este processo se reproduz no setting arteterapêutico?

Ao longo dos últimos anos, o Não Palavra tem explorado o temas da Arte e a Arteterapia, mas ainda não havia nos ocorrido a possibilidade de “estar” fisicamente diante do artista e poder dialogar com ele sobre seu processo.

NA PLATÉIA

No dia 11/03/16, eu e Eliana Moraes nos aventuramos na tempestade e fomos ao Teatro Cacilda Becker assistir ao espetáculo QUASE UMA da Focus Cia. de Dança. O espetáculo causou um impacto muito grande e embora eu já o tivesse assistido algumas vezes anos atrás, percebi que a cada vez que nos deparamos com uma obra, esta desperta uma nova experiência. E assim foi. Ficamos profundamente afetadas, pois o espetáculo provocou projeções de nossas questões pessoais atuais. Mas seria tudo projeção nossa? O que o artista quis expressar, o que a obra “diz”? Lendo o texto do catálogo reproduzido acima, e ouvindo o diretor da companhia falando com a plateia após o espetáculo, nos mobilizamos para esta nova pesquisa que compartilhamos com vocês neste blog.

CONVERSANDO COM ALEX NEORAL


Alex Neoral. Foto: Marcelo Rodolfo.

Dia 15/03/16 fui conversar com Alex Neoral sobre o espetáculo e sobre nosso interesse em estabelecer conexões entre sua obra e o processo terapêutico.

Nos encontramos no intervalo de ensaio em Copacabana. Alex contou que o espetáculo, que estreou em 2005, foi criado a partir de um solo executado pela bailarina Carol Pires. Nasceu de um desejo intenso de criar uma companhia, fruto de uma busca que, de certa forma, contrariava o caminho “natural” para o qual sua carreira apontava. Na ocasião era bailarino da Cia. Deborah Colker, e, de fato, foi necessária muita convicção para que este projeto se materializasse.

A ideia inicial do solo era explorar as peças de xadrez e a movimentação das peças de acordo com as regras do tabuleiro. Bispo, Cavalo, Peão ... porém ao observar o que havia criado se deparou com outra imagem: a limitação. Percebeu que cada peça trazia uma limitação, “como jogar com estas limitações? Pernas cruzadas, pé preso no chão, mão presa à cintura, etc.” E a ideia inicial foi abandonada e esta “revelação” passa a dar o tom e a definir o caminho a seguir. O solo é ampliado para um espetáculo de 50min. com todos os bailarinos em cena e estamos diante do formato final de QUASE UMA.

Ainda conversando sobre processo criativo, Alex fala sobre seu espetáculo mais recente SAUDADE DE MIM (2014). Este traz um diálogo entre a obra Cândido Portinari e Chico Buarque, versando sobre nascimento, vida e morte.  O processo de criação desta obra traça um percurso diverso. Ela parte de um “espanto”.  Alex conta que teve o privilégio de estar em contato com os painéis Guerra e Paz, de Portinari, no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao ser convidado para dançar com Ana Botafogo. O impacto causado pela obra o fez buscar mais informações e se aproximar da história por traz da obra. Mas a questão que nos interessa tratar aqui é a mobilização para um processo a partir do impacto, do espanto diante da obra.

E A ARTETERAPIA?

Quantas vezes já nos deparamos com situações como esta na nossa prática em Arteterapia? O cliente parte de uma fala, consciente, elaborada, e inicia uma pintura, por exemplo.  Ao longo do processo tem forte convicção de que está criando algo sobre o tema desenvolvido verbalmente. Porém, ao terminar a imagem e se colocar diante dela, percebe-se que ela traz um conteúdo novo, inesperado, e o processo tem continuidade a partir daí. Como no caso da obra QUASE UMA que iniciou com o jogo de xadrez.

A outra experiência compartilhada por Alex, sobre a obra de Portinari, que de certa forma também diz respeito ao processo anterior ao se referir à surpresa, ao espanto, ao impacto, nos coloca diante de uma experiência comum no setting. O cliente fica mobilizado no contato com a Arte, ao ir a uma exposição, assistir a uma peça de teatro, um filme, um espetáculo de dança, ler uma poesia, etc., e traz esta experiência e o que ela mobilizou para seu processo terapêutico. Mas  é importante ressaltar aqui que a Arteterapia pode ser a responsável por promover este encontro do cliente com a Arte no próprio setting arteterapêutico, criando um ambiente para que se estabeleça um contato profundo com a pintura, com a poeisia, com música, etc. Então, estamos diante de dois modos de como esta mobilização pode se dar e chegar até nós, arteterapeutas: o cliente pode trazer uma experiência externa para o setting, ou a experiência pode se dar no próprio setting acompanhada pelo arteterapeuta. 

Estou convencida de que a aproximação com a Arte em suas diversas linguagens, trazendo-a como experiência para a nossa vida, é fundamental e enriquecedora, amplia nossos horizontes, desperta novas reflexões sobre o viver. Me parece ser essencial para o arteterapeuta que propõe uma terapia pela Arte, que este crie com ela uma relação estreita e íntima.

QUASE UMA?

Que perguntas os movimentos criados e executados com tanta precisão e sensibilidade pelos bailarinos Alex (coreógrafo), Carol, Márcio, Clarice, Gabi, Cosme, Mônica e Felipe, são colocadas diante de nós? Importante citá-los já que somos colocados diante deles e tão próximos a ponto de sentirmos sua respiração naquele pequeno teatro semi-arena. Esta proximidade também intensifica nossa exposição ao tema em torno do qual a movimentação se dá: "as possibilidades diante das impossibilidades". Estamos diante de questões como: "o que te prende?", "onde está o seu pé preso?" ... ou ainda nas palavras do próprio artista: "o que nos impede de sermos UM, o que nos mantêm no QUASE?"

Para conhecer e acompanhar a agenda da Focus Cia da Danca acesse o site
www.focusciadedanca.com.br

Partindo destas reflexões sobre a proximidade com a Arte, o Não Palavra criou o projeto "Arteterapia: Encontro com Grandes Artistas", com workshops mensais, iniciando com Kandinsky no dia 19 de abril.
Informações sobre o evento Encontro com Grandes Artistas : naopalavra@gmail.com 

Caso tenha dificuldades em postar seu comentário, nos envie por e-mail que nós publicaremos no blog: naopalavra@gmail.com

segunda-feira, 28 de março de 2016

Batman & Superman - O Arquétipo do Herói nas HQs.

O texto exposto hoje no Blog Não Palavra fará uma pequena saída de sua temática principal, a Arteterapia, convidando todos para a leitura de uma análise simbólica de uma das grandes histórias em quadrinhos da modernidade: Batman e Superman.
Pegando carona no lançamento do filme Batman X Superman, apresento a todos os interessados um recorte do meu trabalho de conclusão do curso de graduação em Psicologia, pela Universidade Santa Úrsula, apresentado em dezembro de 2007 sob orientação de Nelson Job, hoje pós doutorando pela UFRJ no HCTE.
Neste recorte coloco a importância de olhar e refletir analiticamente sobre as grandes histórias de massa, que diferentemente dos mitos gregos - base da análise junguiana do processo de individuação - são mais acessíveis a grande população e possuem os mesmos impactos que as histórias míticas cantadas por Homero.
Um texto mais longo, porém de igual importância e acréscimo aos interessados em estudar a mente humana e agregar diferentes possibilidades de atuação em sua prática clínica. Lembrando que a história em quadrinhos é uma excelente via de acesso numa intervenção psicológica com arteterapia, e acredito que a leitura deste texto possa agregar valor aos profissionais que atuem com crianças, adolescentes e jovens adultos.
As HQs trazem um conteúdo que atinge as massas, que atravessa gerações e continua lotando cinemas em todo o mundo requer no mínimo um olhar mais aguçado por aqueles que buscam nas entrelinhas o conhecimento do funcionamento da mente, e saber consequentemente, fazer as pontes com os conceitos que a psicologia nos fornece.


 

O principal fio condutor desta análise é a perspectiva simbólica do arquétipo do herói e através das etapas percorridas por ele, ou seja, através de seus ritos de passagem podemos compreender os caminhos que Batman e Superman seguem.
É importante descrever rapidamente os conceitos que estaremos usando para esta análise. Jung traz para sua teoria o conceito de Inconsciente Coletivo, um substrato psíquico comum entre a humanidade onde residem forças chamadas Arquétipos que seriam as bases das relações do homem com o mundo, com o social, com o outro e com a natureza. Estas forças seriam expressas em cada indivíduo através de imagens arquetípicas, que ao chegarem à consciência ganham uma roupagem individual através dos Complexos -"nós" afetivos que habitam o inconsciente pessoal e que dão às imagens arquetípicas a singularidade de cada indivíduo. Assim, as relações do homem com o outro, com o mundo e com a natureza são atualizadas a cada geração, a cada expressão artística do homem, a cada nova modalidade de estar e de ser no mundo.
A análise junguiana das imagens arquetípicas é feita através da perspectiva mitológica, sejam elas gregas, egípcias, hindus, nórdicas, africanas ou indígenas. Etimologicamente a palavra mito vem do grego mythos, que significa fábula, mas em seu sentido figurativo quer dizer utopia, símbolo, enigma, que foi ao longo da história retirado de "todo valor religioso e metafísico, em contraposição ao logos, assim como posteriormente à história". Entretanto, o mito será entendido aqui, como algo "vivo no sentido de fornecer os modelos para a conduta humana" (ELIADE, 1972). O mundo interno do homem e suas relações são revelados através do mito, e para alcançar esse mundo,o ele precisa ser irracional e alegorizado, por isso não devemos nos ater a interpretações pragmáticas em suas leituras, pois os símbolos não comportam significados, eles são passíveis de serem "arremessados ao tempo" (BRANDÃO, 2000). Outra ferramenta muito utilizada como mecanismo de projeção e análise simbólica é o tarô. Esse conjunto de cartas conta uma história, seja ela divinatória ou mítica com suas imagens, de origem e tempo indeterminados, que revelam a trajetória do homem em busca da individuação. 

O encontro da imagem com a palavra - a iconografia e as HQs

A etimologia da palavra iconografia vem do grego eikón, imagem + graph, de graphein, descrever, e é, dentre outros sentidos, a arte de representar através de imagens.
Na antiga civilização egípcia foram encontrados hieróglifos contando histórias de guerras, pragas, religião e tecnologias. Os romanos usavam seus desenhos em grandes colunas para contar as guerras e outras histórias de sua civilização, na Idade Média a via sacra de Cristo fora contada nos vitrais das grandes catedrais e na modernidade a história em quadrinhos pode ser considerada uma iconografia atual.
Considerado o pioneiro nesta arte, o professor Rodolphe Topffer desenhou em 1827 o M. Vieux-Bois.


Entretanto, a primeira tirinha publicada foi Yellow Kid, por Richard Felton Outcault em 1895, onde as falas foram introduzidas nos desenhos mostrando a sequencia narrada. No Brasil, em 1869, As aventuras de Nho-Quim e Zé Caipora foram criadas pelo caricaturista Ângelo Agostini.

  
As Aventuras de Nho-Quim                                                            Zé Caipora

The Yellow Kid

As histórias em quadrinhos conseguem colocar as imagens e a linguagem escrita num mesmo veículo de expressão, utilizando-se ainda da irracionalidade dos mitos, com seus entes sobrenaturais carregados de simbolismos. Sendo assim, surge a questão: é possível usar as histórias em quadrinhos como fonte de imagens arquetípicas na sociedade moderna e contemporânea?
Se pensarmos que o fenômeno da projeção atua sobre qualquer objeto, então sim, as histórias em quadrinhos podem ser usadas como fonte de imagens arquetípicas e analisadas de forma simbólica dentro das relações humanas. 

Superman - O Homem de Aço

A história do Homem de Aço foi escrita em 1938 por Joel Shuster e Jerryl Siegel mudando a cara das histórias em quadrinhos que até então não tinham um herói com um super no nome. Inicialmente Superman seria concebido como um vilão com poderes intelectuais, mas a versão não agradou e então foi mudada para o herói de aço.
Sua saga começa quando seu pai biológico Jor-L, um renomado cientista do Planeta Krypton, descobre que seu planeta será destruído por uma explosão. Ele e sua esposa, Lora, constroem uma nave que levaria seu pequeno filho Kal-L ao Planeta Terra. Ao chegar aqui, a nave cai na fazenda de Jonathan e Martha Kent, que o adotam e rebatizam sob o nome de Clark Kent.
Aos 8 anos, Clark começa a perceber sua diferença em relação aos demais amigos, algumas habilidade começam a aguçar, como a super velocidade, a visão de raio-X e audição super apurada. Aos 17 anos ele já voava e aos 18 ele decide viajar o mundo para aprender mais sobre si mesmo. Após 4 anos de viagens ele cursa a faculdade de jornalismo em Metrópolis e 7 anos depois de sua saída de Smallville ele salva um avião especial da NASA e revela sua identidade como Superman.
Mas ao mesmo tempo que se revela como herói, é preciso manter sua identidade como homem da Terra, e Clark Kent se emprega no Daily Planet, o jornal da cidade. É neste jornal que ele conhece Lois Lane, sua colega de trabalho por quem se apaixona profundamente.
Aos 28 anos ele descore na nave que o trouxe à Terra um artefato deixado por seu pai biológico contando sobre sua origem Kryptoniana (relatado no filme Superman - O Homem de Aço, 2013) e a origem de sua maior fraqueza, a exposição ao mineral kriptonita que o deixa como um terráqueo, vulnerável. Porém, ao ser descarregado pela pedra, ele pode restabelecer seus poderes ao entrar em contato com o Sol amarelo de nosso Sistema Solar, pois é ele que confere as habilidades meta humanas de Superman. Em Krypton, o Sol vermelho, próprio para seu metabolismo, não confere forças especiais ao seus habitantes.
Essas habilidades especiais também podem ser exauridas nos combates mais extenuantes, como a batalha contra o vilão Apocalipse, onde ambos morrem. Esta morte não é o fim das histórias do Homem de Aço, ele retorna anos depois (Superman o Retorno, 2006).

Batman o Homem Morcego

A história do Batman foi criado por Bob Kane em 1939, período onde a popularidade do Superman estava nas alturas e a DC Comics decidiu criar outro herói com capa, mas dessa vez um homem comum, um humano.
Sua história se passa em Gothan City (que pode ser traduzida como cidade maldita, e é um pequeno vilarejo na Inglaterra que na Idade Média seus habitantes fingiam-se de loucos para não pagar impostos). Lá, Bruce Wayne é filho dos milionários Thomas e Martha Wayne.
Uma noite, ao sair do cinema com seus pais, são abordados por um criminoso, Joe Chill, que declara o assalto. Thomas reage para proteger a esposa e o filho, Joe atira no pai e na mãe de Bruce, matando-os em frente ao pequeno que à época estava com aproximadamente 6 anos de idade.
Após a morte ele fica sob os cuidados do mordomo Alfred até terminar seus estudos aos 18 anos, quando decide viajar pelo mundo em busca de um sentido na vida, uma maneira de fazer justiça, de despertar medo nos criminosos que assombram a cidade (retratado no filme Batman Begins, de Cristhopher Nolan).
Ele passa 7 anos fora aprendendo como os criminosos pensam, como eles se sentem, como eles agem. Estudou artes marciais e tudo mais que precisava para conhecer profundamente a mente criminosa, e então retorna à sua cidade para tomar posse de suas empresas e dar início a sua jornada como justiceiro. Entretanto, como Bruce Wayne ele acredita que não conseguirá deter o crime, mas como símbolo sim. Nasce então o Batman, o homem da noite escura (Darknight) que usa seu maior medo, o morcego, como fonte de coragem para conseguir justiça. Começa a saga do homem que de noite é justiceiro mas que durante o dia precisa manter sua identidade de milionário excêntrico e esbanjador, cuja vida amorosa é bem complicada, pois Bruce não cultiva nenhum tipo de relacionamento a dois, marcando sua vida de Cavaleiro Solitário.

O nascimento complicado

Para o herói a vida é cheia de provações e caminhos tortuosos que começam logo no seu nascimento. O nascimento do herói é sempre marcado por complicações no parto, dramas, mortes ou rejeições, logo, não poderia ser diferente com Supeman e Batman.

Logo após seu nascimento, Superman fora colocado dentro de uma nave e levado a um planeta desconhecido. Ainda na nave ele vê os destroços de seu planeta de origem. 
O ato de nascer significa mais que o ato biológico de vir ao mundo. Dentro de uma perspectiva simbólica, nascer significa dar à luz alguma transformação interna, subjetiva e singular de um indivíduo, e no caso do herói o sofrimento e a angústia põem à prova sua condição heroica.
Como em Superman vemos também esse nascimento complicado em outros heróis gregos conhecidos como Édipo, que ao ser predestinado a matar seu pai e casar-se com sua mãe, fora jogado no rio para que o leve à morte. Porém ele é resgatado e salvo. Perseu ao nascer é encerrado em uma arca com sua mãe, mas consegue se salvar. Moisés também foi rejeitado e colocado em uma cesta no rio Nilo para morrer, mas como todos os outros, é resgatado e criado por uma nova família.

Moisés confiado as águas - Nicolas Poussin

Somado a essa condição heroica do nascimento, a morte das primeiras figuras parentais nos revela o momento de ruptura com a simbiose materna, logo a explosão de Krypton pode ser vista como o início de uma diferenciação do Eu. A queda da nave também se encontra nos textos do Novo Testamento, onde a queda do paraíso mostra a perda da condição de paraíso e bonança em que o homem vivia, mais uma metáfora da ruptura da relação simbiótica mãe-filho. 
Após a rejeição, a perda da relação parental e o resgate, há o batismo, ou seja, o novo nome, a nova identidade que tem o valor de "dupla paternidade", ou seja, Jung diz que a criança vê seus pais divinizados e precisam manter essa referência, daí o papel fundamental dos padrinhos, aqueles que mantem a visão divina da relação parental, ou seja, os padrinhos substituem a condição divina que os pais perdem ao longo da diferenciação do Eu.
Em Batman, o momento da morte de seus pais, o momento da queda, onde o paraíso dá lugar ao inferno da dor e do sofrimento pela perda brutal de seus pais marca a ruptura com a simbiose materna. Essa ruptura foi feita aos 6 anos de idade. No tarô o número 6 é a carta dos Enamorados cujo simbolismo é o momento da escolha entre a permanência nas águas maternas ou a busca pela diferenciação do Eu e o encontro com outras figuras femininas. Através dessa percepção podemos colocar como questão a possibilidade desse corte não ter sido feito com sucesso e por isso a fixação de Batman no momento da morte de seus pais e consequente dificuldade de estruturar relacionamentos amorosos. Também através da perspectiva psicanalítica, é neste momento que se dá a resolução do Complexo de Édipo, que quando não bem realizado transforma-se em fixação pela figura materna.

                                   

            Momento da queda de Superman ao sair de seu planeta                             A carta 6 do Tarô de Marsella que     
               e do Batman ao perder seus pais mortos num assalto.                                    revela a escolha do herói


A descoberta da singularidade e os ritos de passagem

Aos oito anos Clark percebe-se diferentes de seus amigos. Este número está presente em diversos mitos e marca o momento dos grandes feitos do herói. Aos 8 meses Hércules estrangula as duas serpentes enviadas por Hera, no tarô o 8 representa a carta da Justiça que fala da busca pelos valores racionais, os princípios norteadores, sem paixão e sem que a emoção tome conta de suas decisões. Esta carta está profundamente ligada a construção do Ego. Para os japoneses o 8 deitado é o infinito cuja simbologia representa "uma multidão organizada", ou seja, uma "organização" do consciente frente aos conteúdos "desorganizados" do inconsciente.
Assim se desenvolve a personalidade do Superman, uma busca pela retidão de valores, pela ética e "pela luta em busca da perfeição concebida pela mente e pelo espírito" (GREENE, 1989).

A carta da justiça no Tarô de Marselha


Aos 18 anos quando sai de Samallville (cuja tradução é cidade pequena) Superman parte em busca de um sentido na vida. Esse é um dos ritos de passagem do herói, o momento que Campbell descreve como o rito em que ele começa sua jornada e formação iniciática onde aprende e desenvolve seus poderes pelo mundo.
Também vemos essa formação iniciática quando Hércules passa pela doze tarefas, quando Buddha deixa seu palácio para descobrir o caminho da iluminação, quando Moisés passa pelas provações do deserto e quando Cristo passa 40 dias também no deserto.
Aqui a ruptura é com a figura do pai, a identidade de referência precisa ser desconstruída e a sua, própria e singular, precisa ser descoberta.
Os ritos de passagem são vistos até hoje em comunidades tribais como as indígenas, as africanas e outras ditas como arcaicas, onde o jovem menino fica recluso um tempo longe de casa e passa por diversos ritos que marcam a sua bravura e sua nova condição de homem.
Também aos 18 anos, Batman parte de sua cidade natal em busca do conhecimento sobre si e sobre o mundo. No tarot a carta 18 é marcada pela figura da Lua, que mostra o herói passando por caminhos tenebrosos e grandes desafios como a passagem pelo dois cães, semelhante ao Cérbero, o cão de duas cabeças que guarda a porta de saída do mundo de Hades, logo este momento de saída pode ser compreendido como a catábase, o momento de confronto com o mundo sombrio de sua própria personalidade. Os vários simbolismos contidos nesta carta revela os perigos desse momento, pois a Lua "suga-lhes as energias, desviando o herói da ação deliberada. A Deusa Lua é feiticeira e encantadora. Como Luna, pode levar o homem à loucura" (NICHOLS, 1988).

Carta 18 do Tarô de Marselha

Este é um momento delicado da história de Batman, pois apesar dele ser apresentado como um herói, há nele, muitas características de um anti-herói, pois a linha que ele caminha entre combater o crime e ser um criminoso é muito tênue, por isso é aclamado por uns e perseguido por outros, diferente de Superman, cuja conduta é tomada como irreparável. Junito Brandão nos diz que
O herói acumula, como fartamente se mostrou, atributos contraditórios. De natureza excepcional, ambivalente, não raro aberrante e monstruosa, o herói se revela resplandescente e tenebroso, simultaneamente bom e mau, benfeitor e flagelo. Dominado por uma (hýbris) incoercível, sua 'demésure', seus descomedimento não conhece fronteiras nem limites.
Entretanto o grande rito que marca definitivamente a condição de herói é a morte. Aqui nesta passagem ele prova a si e aos outros que não é mortal como os homens, visto a continuidade de seus gestos post-morten, mas também não é imortal como os deuses do Olimpo. Em Hércules a morte mata o homem mortal, mas legitima sua condição de filho de Zeus. Cristo é morto na cruz, e sua condição humana dá lugar ao filho de Deus que ressurge e salva a humanidade de todos os pecados.

                                                     


Na história de Superman, ainda que tenha uma superforça, ele não é imortal, e na luta contra Apocalipse sua força se esvai e morre. A etimologia de Apocalipse vem do grego apokálypsis que significa a ação de descobrir, de revelar, ou seja, a morte traz uma revelação, a certeza de sua condição semi-divina, capaz agora de passar por mais um rito de passagem: a união do animus com a anima ou o casamento divino.
O casamento do Superman se dá após seu retorno, assim como Hércules casa-se com Hebe e Perseu com Andrômeda, Superman se casa com Lois Lane.

     


Batman entretanto, segue um curso em sua formação iniciática diferente de Superman mostrando sua complexidade. O número 7, anos que ficou fora de casa, representa a carta do carro no tarô, cuja simbologia revela o momento subsequente da carta dos enamorados, a escolha, o momento em que ele parte sem olhar para traz, rompendo com a simbiose da Grande Mãe assim como Parsifal o fez ao deixar sua mãe caida aos prantos, e sem duvidar parte em busca de seu objetivo para tornar-se cavaleiro. Após essa escolha ele chega à carta do Carro, onde começa sua jornada de encontro com suas possibilidades mas também com suas limitações. Salli Nichols nos diz que
Toda jornada oferece inúmeras oportunidades de novas percepções e também nos expõe aos riscos da desorientação. O fato de ficar sozinhonuma terra estranha, sem o apoio da família, dos vizinhos ou dos amigos, cria certo tempo de verdade qaundo o herói pode descobrir quem realmente é - ou pode ser destruído pela experiência.
Carta 7 do Tarô de Marsella

Neste momento chegamos a outra questão: será ele um herói ou um bandido bonzinho? Essa é a ambiguidade de um anti-herói. Porém, esse dualismo nos leva a relexão sobre os aspectos sombrios que um herói possui.

Persona e Sombra

Persona tem como significado as máscaras usadas pelos gregos em seus teatros, entretanto, contrariando esta explicação, a máscara usada por Batman não é aquela de seu uniforme, é a cara do milionário Bruce Wayne. Máscara vem de maskhara, disfarce, dissimulação, falsa aparência, vemos isso na atuação de Bruce Wayne e não no Batman, mais próximo de sua verdadeira personalidade do que o primeiro, pois ao sair da função de justiceiro sobra o vazio, a dor e a aridez de uma vida solitária. Sombra é o termo cunhado por Jung a tudo aquilo que não está no perímetro da consciência, independente de seus atributos positivos ou negativos. Nas histórias dos heróis a sombra é representada pelos vilões, Lex Luthor o humano que deseja ser o super humano Superman e Coringa, o trickster que coagula as características subversivas do Batman.
Trickster é aquela deidade, homem ou animal antropomórfico que prega peças, desobedece regras e normas de comportamento. Coringa é o trickster do Batman, o provocador sarcástico que se autoriza a fazer em Gotham a justiça sem a moralidade que Batman deseja fazer. Vemos esse personagem na mitologia nórdica através de Loki, na mitologia yorubá com o Exu e Hermes, para os gregos também cumpre esse papel.

     

                Loki num manuscrito do séc. XVIII                                         Coringa de Grant Morisson


Batman e Superman como funções psíquicas em nós

Ao longo das explanações acima podemos ver que os caminhos dos heróis Batman e Superman se diferenciam em muitos pontos, o que nos faz pensar se cada um deles pode reger na verdade funções psíquicas dentro de cada um de nós, cujos caminhos são diferentes e que em alguns momentos de nossas percepções se encontram.
Ao analisarmos a história, os ritos de passagem e a resolução dessas fases na história do Homem de Aço, podemos fazer um paralelo com a história da formação da consciência, ou seja, do Ego. Superman é um herói solar, cuja força é carregada pelo contato direto com a luz do Sol, assim como Apolo, Deus grego que rege a consciência, a beleza, a justiça, a medicina, a música matematicamente perfeita e a mira certeira de suas flechas. É metódico e defensor das regras, das leis e da ordem. Assim é a vida de Clark Kent/Superman, com retidão, ordem e objetividade.
Podemos ver que a maioria das imagens relacionadas ao super herói mostra o Sol, o dia, a clareza, a ordem e a beleza.

 

Enquanto que o Batman está relacionado à noite, a escuridão, ao medo e ao invisível. Um homem sombrio, confuso, sem vínculos afetivos e preso numa história, num nó afetivo que não se resolve. Batman é o representante do inconsciente, dos complexos que habitam nossa mente, é a obscuridade que caminha delicadamente entre a loucura e a justiça.

Batman e Superman ou Batman X Superman

Muitos episódios foram lançados pela DC Comics, empresa que publica as HQs dos heróis Batman e Superman, e em muitas delas vemos a luta entre um e outro e a cooperação mútua contra grandes vilões.
Olhando pela perspectiva simbólica de funções psíquicas que ambos possuem, cabe dizer que as duas atuações acontecem em nossa mente. Há momentos de grande conflito entre consciência e inconsciente e há momentos de diálogo, de fluidez.

                                                    

Importante pontuar que ambos os heróis estão dentro de nós e talvez por isso a grande popularidade de ambos, cabe aos terapeutas e analistas saberem enxergar a evolução das imagens arquetípicas através do tempo, as mudanças das expressões afetivas da humanidade e a atualização das relações do homem com o outro e com o mundo-natureza.
A breve e resumida análise feita neste texto nos mostra que a mudanças das imagens arquetípicas dos grandes mitos gregos para as histórias em quadrinhos não são as únicas modificações da expressão dos arquétipos na humanidade. Mas também o homem dos tempos míticos e o homem das HQs também não é mais o mesmo. Dennis O'Neil chama este momento de problema, pois nos remete a Heráclito quando ele diz que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, isso porque as águas não são mais as mesmas, o fluxo mudou. 
O universo é uma constante mudança, o que era caos se organizou em céu e terra, o que era "Yin tornou-se Yang, a luz se torna escuridão, o calor se torna frio" (IRWIN, 2005).
Assim o problema de Heráclito se soluciona, pois "as mudanças do rio de Heráclito não são o único motivo por você não poder entrar nele duas vezes. Você é o motivo. Você mudou."(DE LANDA, 2002).

Finalizo aqui o pequeno recorte do meu trabalho de conclusão de curso feito em 2007, muito do que foi escrito precisa de atualização, afinal, o rio continua seguindo, assim como eu. 




Bibliografia

BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega. Vol. I, II e III. Petrópolis: Vozes, 2000.
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972
JUNG, C. G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Vol. XVII/1. Petrópolis: Vozes, 1985
__________. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2022
MORRIS, Matt, MORRIS, Tom. Super-Heróis e a Filosofia: Verdade, Justiça e o Caminho Socrático. São Paulo: Madras, 2005.
NICHOLS, Salli. Jung e o Tarô - Uma Jornada Arquetípica. São Paulo: Cultrix, 1988.
SAMULES, Andrews. Jung e os Pós Junguianos. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
SHARMAM-BUCK, Juliet, GREENE, Liz. O Tarô Mitológico: Uma nova Abordagem para a Leitura do Tarô. Rio de Janeiro: Siciliano, 1989.
DC Comics: http://www.dccomics.com/
DE LANDA, Manuel. Geologia da Moral. Tradução de Maria Cristina de Resende e revisão técnica de Nelson Job. Disponível em http://cosmoseconsciencia.blogspot.com.br/2009/02/geologia-da-moral.html



segunda-feira, 21 de março de 2016

GRUPOS ARTETRAPÊUTICOS – Um estudo (Parte 2)


Por Eliana Moraes


Uma modalidade de trabalho muito comum na Arteterapia são os grupos arteterapêuticos, sejam eles em formatos breves – como as conhecidas vivências – ou continuados. Embora esta seja uma prática bastante comum, ela não é banal. Possui seu nível de complexidade e demanda do arteterapeuta um olhar e um manejo instrumentalizado, embora ainda haja pouco material e cursos específicos a respeito.

Ao longo de cinco anos tive a oportunidade de coordenar grupos arteterapêuticos na UIP/Hospital Adventista Silvestre. Pude observar, lapidar o meu olhar, aguçar a minha escuta, testemunhar e aprender muito sobre o que significa e o que abrange um grupo arteterapêutico. Passada esta fase de imersão na prática, neste ano me propus a estudar as teorias sobre grupos terapêuticos e as especificidades de grupos em arteterapia. Posso compartilhar que tenho me surpreendido com o grande potencial que esta modalidade terapêutica possui, mas muitas vezes não temos a real percepção dela. Hoje dou seguimento a uma série de textos que iniciei no dia 26 de outubro de 2015, que se propõe a pensar grupos em arteterapia ao qual o leitor pode conferir neste link: http://nao-palavra.blogspot.com.br/2015/10/arteterapia-high-touch-reflexoes-sobre.html

Formar (e manter) um grupo terapêutico não é fácil. Alguém escolher esta modalidade terapêutica e aderi-la fora do contexto de uma instituição não é comum. Entretanto, tenho aguçado a minha escuta para os pacientes que participaram dos grupos que coordenei quanto às suas percepções e sensações sobre esta experiência e dizem que se despertaram para questões tão importantes, nunca antes pensadas, principalmente sobre suas relações.

De fato, um dos grandes diferenciais do grupo terapêutico para a psicoterapia individual, e um dos pilares que sustentam esta proposta, é que nele o participante tem a oportunidade de se experienciar na relação com o outro.

Na psicoterapia individual, o paciente fala de suas relações e atualiza sua forma de se relacionar com o terapeuta – fenômeno denominado transferência. A psicanálise sustenta que o terapeuta estará nesta relação não como um sujeito, mas como uma função, pois a partir de sua técnica espelhará estes comportamentos relacionais ao paciente, e assim se dará o processo terapêutico. Mesmo a partir de outras abordagens teóricas que sustentam uma relação entre terapeuta-paciente, o senso como é que o terapeuta não agirá com seu paciente da mesma forma que se relaciona com seus amigos, familiares e relações pessoais, pois de toda forma é baseado em uma técnica terapêutica.

Em grupos terapêuticos a configuração é outra, pois no setting haverá outras pessoas na mesma condição de sujeito que comporão um grupo, e as relações se manifestarão de forma natural. A oportunidade da relação com outros sujeitos atualizada dentro de um setting terapêutico abrirá um campo para atuações não antes percebidas e pensadas:

No grupo, o indivíduo dá-se conta de capacidades que são apenas potenciais enquanto se encontra em comparativo isolamento. O grupo, dessa maneira, é mais que um conjunto de indivíduos, porque um indivíduo num grupo é mais que um indivíduo em isolamento.” ÁVILA

O psicanalista Lazsio Antonio Ávila, que muito teorizou sobre grupos, nos diz:

“... criar um dispositivo clínico grupal é por pessoas em conjunto para que a sua intersubjetividade inerente se revele o mais claramente possível, demonstrando sua articulação e sua composição” ÁVILA

Concluímos que o objetivo do grupo terapêutico é conhecer cada “eu” em suas interações com os outros, é o contexto em que podemos visualizar o “eu” se fazendo nos vínculos. Sendo assim, o papel do terapeuta é essencial para criar e sustentar um ambiente propício para grandes tomadas de consciência e movimentos de mudanças de sujeitos em suas relações.

Cada vez mais impressionada com tudo o que envolve este riquíssimo trabalho, neste ano me comprometi a formar grupos arteterapêuticos no consultório particular, ministrar o curso “Grupos em Arteterapia” para aqueles que desejam se aprofundar neste tema e se instrumentalizar teoricamente para esta prática, e continuar compartilhando com os leitores do blog sobre esta jornada de pesquisa e prática arteterapêutica.

Sua companhia será bem vinda!


ÁVILA, Lazsio Antonio. O Eu é plural: grupos: a perspectiva psicanalítica.

Caso tenha dificuldades em postar seu comentário, nos envie por e-mail que nós publicaremos no blog: naopalavra@gmail.com


segunda-feira, 14 de março de 2016

FRIDA KAHLO E ARTETERAPIA – Um relato



No último dia 13 de março, o Não Palavra esteve presente no evento da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro, chamado “Frida Kahlo e Arteterapia”, a propósito da exposição “Frida Kahlo: Conexões entre mulheres surrealistas no Méxino”, na Caixa Cultural – RJ.

 O evento teve início no dia 06 com a palestra de Ângela Philippini “Frida: para que pés, quando se tem asas para voar?” e em seguida a exibição do filme “Frida Kahlo”. Já no segundo dia, a programação se fez em cinco oficinas com temas relacionados à artista: “Vestindo a sua história” com Eveline Carrano e Luciana Pellegrini, “O masculino e o feminino em Frida Kahlo com Rosangela Rozante, “Cores e Natureza: símbolos de esperança e renascimento” com Marise Piloto.

O Não Palavra contribuiu com duas oficinas: “Autorretrato” com Flávia Hargreaves e “Ressignificação da dor através da arte” com Eliana Moraes.

Autorretrato é um gênero muito explorado na História da Arte e destaca-se na obra de Frida Kahlo, que afirma: “... pinto-me porque estou muitas vezes sozinha, porque sou o tema que conheço melhor.” .

“[...] Durante o tempo em que esteve na cama Frida Kahlo teve a oportunidade de estudar intensivamente a sua própria imagem refletida no espelho. Esta autoanálise foi feita numa época em que, tendo escapado da morte, começava a descobrir e a experimentar tanto o seu próprio eu, como o mundo à volta dele a um nível novo e mais consciente. [...] Os autorretratos de Frida Kahlo ajudaram-na a moldar uma ideia do seu próprio eu: ao recriar-se, tanto na arte como na vida, encontrava agora uma identidade.” (KETTENMANN, 2007, p. 19-20)

Estas questões são inegavelmente pertinentes à nossa prática em Arteterapia e trazer Frida significa também estar abrindo um rico dialogo entre Arte e Terapia. Com relação aos materiais, foi utilizado na oficina o desenho direto espelho, experimentando estar face a face consigo mesmo e “congelar” este encontro, uma espécie de "selfie solitário". A segunda etapa foi se colocar em “um lugar”, “um contexto”, refletir e  “falar” de si e seu entorno utilizando desenho e colagem.


No segundo momento, na oficina “Ressignificação da dor através da arte”  Eliana Moraes compartilhou o caso clínico de Alice Glass, polonesa naturalizada brasileira, paciente de arteterapia desde 2012.

Frida Kahlo foi uma artista que fez uso da arte como suplência, expressando sua dor e a luta com o próprio corpo e suas limitações. Da mesma forma, através de suas diversas colagens, Alice revela sua frustração por ter a visão seriamente comprometida após uma cirurgia de catarata mal sucedida. Por meio de sua arte ela permanece lutando por (si e) seus olhos, nos campos físico, mental e espiritual. Em 2015 o blog Não Palavra promoveu uma exposição virtual de alguns dos trabalhos de Alice Glass, que podem ser conferidos neste link.


Na oficina, tomamos como inspiração o processo criativo de Alice e sua frase “Sou uma criança da guerra. Eu sei aproveitar os retalhos que a vida me dá.”. Propus que cada participante se percebesse como ser humano, sujeito da guerra da vida e pensasse: quais são suas guerras? Quais são os retalhos que a vida te dá? Como você os aproveita?



Para nós da equipe Não Palavra foi um prazer participar deste evento, primeiramente porque acreditamos que em espaços de troca a Arteterapia se constrói como saber e técnica em si mesma. E em um segundo lugar, este é um estilo de trabalho ao qual nos debruçamos e investimos como campo de pesquisa e prática: o estudo e a aplicabilidade da História da Arte, os artistas, suas biografias e processos criativos,  na prática da Arteteterapia.


  
Referências:
KETTENMANN, Andrea. Frida Kahlo. Dor e Paixão. Koln : Editora Taschen, 2007.

_________________________
Caso tenha dificuldades em postar seu comentário, nos envie por e-mail que nós publicaremos no blog: naopalavra@gmail.com

segunda-feira, 7 de março de 2016

ARTETERAPIA E ARTESANATO - Série: Pilares da Arteterapia

Por Maria Cristina de Resende

Em minha última palestra do Ciclo de Palestras "Não Palavra" em 2015, dentro do tema Fundamentos da Arteterapia, mostrei alguns pilares que sustentariam a nossa prática e agregariam na formulação de seu corpo teórico: terapia ocupacional, psiquiatria, psicologia, psicanálise, história e teoria da arte e educação. Todavia, este texto veio hoje contemplar uma área da produção artística muito conhecida, porém pouco valorizada, o artesanato. Durante muitos anos eu escuto comparações da Arteterapia com o artesanato, e ainda que o objetivo da produção artística seja diferente, o uso das diversas técnicas e materiais nos sugere uma boa fonte de possibilidades no manejo com materiais possíveis de serem usados no setting.

O artesanato enquanto manifestação da criatividade humana começou desde os tempos remotos da caverna. Ali, as obras confeccionadas tinham como maior objetivo facilitar a funcionalidade das operações do cotidiano. A necessidade de artefatos para beber água, caçar, vestir-se e outras demandas que vinham surgindo, fez o homem experimentar e aperfeiçoar cada vez mais a arte de transformar a matéria bruta em algo bonito, funcional ou religioso.

Sim, porque artesanato também é arte, o que não significa que o artesão seja um artista. Segundo Eduardo Barroso Neto, o artista, todavia, deve ser de antemão um artesão, no sentido de dominar seus materiais, o “saber fazer”, para que possa explorar o máximo possível a matéria prima para sua obra. Porém a obra do artista busca um lugar no mundo diferente da obra do artesão, pois o objetivo do artista é expressar suas questões consigo mesmo, com a sociedade e o mundo que o cerca, já o artesão busca em sua obra uma fonte de renda, de sustento para si e sua família, à partir de necessidades cotidianas, como decoração, vestuário, artefatos para alimentos, etc.

E o paciente de Arteterapia busca o que com sua obra?

Dentro de um setting arteterapêutico a obra realizada pelo paciente, ou artesão, ou ainda como diz Sara Paín, o artistant, exerce sim uma função que na Psicologia Junguina conhecemos como Função Transcendente. Jung, em A Natureza da Psique (2011), nos fala que esta função atua como uma união entre os conteúdos conscientes e inconscientes. Aqui, as diferenças começam a surgir, pois o artesão (em sua maioria) não busca uma qualidade simbólica em seus artefatos e obras, mas sim o fruto de uma organização consciente de técnicas e materiais que possibilitem a construção de um objeto.

Mas ao mesmo tempo em que o artesanato se afasta da Arteterapia pelo paciente, se aproxima pelo profissional, pois esta organização consciente de técnicas e materiais é requisito importante para um bom profissional da área. Não só ter o conhecimento de técnicas, mas saber explorar o material em sua potencia máxima, pois ao construir uma obra no setting terapêutico, o paciente é um artistant, um alquimista que busca naquela forma de expressão um caminho entre os mundos da consciência e do inconsciente, mas cabe ao profissional sugerir técnicas ou apresentar materiais que possibilitem esta expressão. Logo, o paciente não precisa saber o que fazer com o material, mas o terapeuta precisa saber o que oferecer, pois o material é em si o que fundamenta o conceito do artesanato: transformar a matéria prima bruta em algo que exerça uma função.

Para compreendermos melhor a importância de trazer para a discussão os pilares que formam a cadeira da Arteterapia, trouxe um recorte de um caso clínico onde o artesanato atuou intensamente como Função Transcendente e me colocou reflexiva acerca da minha atuação.

Há alguns anos atrás atendi uma paciente cujo diagnóstico fora Transtorno do Pânico. Estava em acompanhamento psiquiátrico, tomando medicação e iniciando seu processo terapêutico. Ao longo dos atendimentos fizemos algumas técnicas básicas de Arteterapia como colagens, alguns desenhos, amplificações de sonhos com alguns contos, mas nada surtiu mais impacto do que uma prática de artesanato.

Esta pessoa gostava muito de artesanatos em caixas. Fazia cursos de artesanato em mdf, mas há algum tempo não participava mais das aulas ou até mesmo do manuseio em casa. A “patologia” a distanciara de seus prazeres e estava completamente afastada daquilo que gostava genuinamente de fazer. Conforme fomos avançando no processo chegamos ao tema da sua identidade e ali ela se percebeu de várias formas e expressando vários formatos. Sugeri então que ela experimentasse algo dentro do artesanato, que ela tanto gostava, para expressar suas percepções sobre este tema. Não queria fazer nada com ela, ou sugerir uma prática, queria que ela resgatasse algo dentro dela, essa habilidade de transformar algo bruto em outra coisa.

E assim ela fez. Foi para casa e construiu uma caixa de papelão, com várias gavetas onde ela dizia conter em cada gaveta uma parte dela. E a partir desta prática o processo tomou um novo rumo. Esta construção não foi rápida. Conforme íamos discutindo as questões, a caixa se formava, e conforme a caixa tomava forma, as questões apareciam.




Esta caixa ficou presente nas sessões durante muito tempo, ora para trabalhar as imagens contidas nela, ora para provocar afetos com sua simples presença. E a partir deste trabalho as diversas percepções sobre si mesma foram sendo acolhidas e percebidas como parte de um conjunto maior, a própria caixa, ou seja, ela mesma. As gavetas por si só não formavam uma caixa, mas a caixa inteira continha as gavetas. Aqui, mais uma vez a Gestalt nos auxilia com os conceitos do todo e a soma das partes.

Oferecer uma caixa pronta e pedir que ela preenchesse com coisas talvez não a afetaria da mesma forma que sugerir que ela explorasse uma habilidade própria. Acredito que este tempo dedicado em sua casa, com suas elucubrações, percebendo cada dificuldade da construção, cada necessidade que ia aparecendo, a cor, a imagem, etc, ficou muito potencializada, e desconfio se teria a mesma potencia caso fosse feito no consultório com caixas semi-prontas e o olhar analítico e o tempo cortante de uma sessão.

Por isso, reafirmo que o artesanato enquanto conceito tem muito a contribuir a Arteterapia, e cabe aos profissionais experimentar aquilo que de melhor ele tem a nos oferecer.

No próximo texto da série confiram: Arteterapia e Psicologia

Bibliografia
JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Ed. Vozes, Petropolis, 2011.
PAÍN, Sara. Os fundamentos da Arteterapia. Vozes, 2009.
NETO, Eduardo Barroso. O que é artesanato? http://www.fbes.org.br/biblioteca22/artesanato_mod1.pdf
http://www.eba.ufmg.br/alunos/kurtnavigator/arteartesanato/artesanato.html

_________________________
Caso tenha dificuldades em postar seu comentário, nos envie por e-mail que nós publicaremos no blog: naopalavra@gmail.com