segunda-feira, 7 de março de 2016

ARTETERAPIA E ARTESANATO - Série: Pilares da Arteterapia

Por Maria Cristina de Resende

Em minha última palestra do Ciclo de Palestras "Não Palavra" em 2015, dentro do tema Fundamentos da Arteterapia, mostrei alguns pilares que sustentariam a nossa prática e agregariam na formulação de seu corpo teórico: terapia ocupacional, psiquiatria, psicologia, psicanálise, história e teoria da arte e educação. Todavia, este texto veio hoje contemplar uma área da produção artística muito conhecida, porém pouco valorizada, o artesanato. Durante muitos anos eu escuto comparações da Arteterapia com o artesanato, e ainda que o objetivo da produção artística seja diferente, o uso das diversas técnicas e materiais nos sugere uma boa fonte de possibilidades no manejo com materiais possíveis de serem usados no setting.

O artesanato enquanto manifestação da criatividade humana começou desde os tempos remotos da caverna. Ali, as obras confeccionadas tinham como maior objetivo facilitar a funcionalidade das operações do cotidiano. A necessidade de artefatos para beber água, caçar, vestir-se e outras demandas que vinham surgindo, fez o homem experimentar e aperfeiçoar cada vez mais a arte de transformar a matéria bruta em algo bonito, funcional ou religioso.

Sim, porque artesanato também é arte, o que não significa que o artesão seja um artista. Segundo Eduardo Barroso Neto, o artista, todavia, deve ser de antemão um artesão, no sentido de dominar seus materiais, o “saber fazer”, para que possa explorar o máximo possível a matéria prima para sua obra. Porém a obra do artista busca um lugar no mundo diferente da obra do artesão, pois o objetivo do artista é expressar suas questões consigo mesmo, com a sociedade e o mundo que o cerca, já o artesão busca em sua obra uma fonte de renda, de sustento para si e sua família, à partir de necessidades cotidianas, como decoração, vestuário, artefatos para alimentos, etc.

E o paciente de Arteterapia busca o que com sua obra?

Dentro de um setting arteterapêutico a obra realizada pelo paciente, ou artesão, ou ainda como diz Sara Paín, o artistant, exerce sim uma função que na Psicologia Junguina conhecemos como Função Transcendente. Jung, em A Natureza da Psique (2011), nos fala que esta função atua como uma união entre os conteúdos conscientes e inconscientes. Aqui, as diferenças começam a surgir, pois o artesão (em sua maioria) não busca uma qualidade simbólica em seus artefatos e obras, mas sim o fruto de uma organização consciente de técnicas e materiais que possibilitem a construção de um objeto.

Mas ao mesmo tempo em que o artesanato se afasta da Arteterapia pelo paciente, se aproxima pelo profissional, pois esta organização consciente de técnicas e materiais é requisito importante para um bom profissional da área. Não só ter o conhecimento de técnicas, mas saber explorar o material em sua potencia máxima, pois ao construir uma obra no setting terapêutico, o paciente é um artistant, um alquimista que busca naquela forma de expressão um caminho entre os mundos da consciência e do inconsciente, mas cabe ao profissional sugerir técnicas ou apresentar materiais que possibilitem esta expressão. Logo, o paciente não precisa saber o que fazer com o material, mas o terapeuta precisa saber o que oferecer, pois o material é em si o que fundamenta o conceito do artesanato: transformar a matéria prima bruta em algo que exerça uma função.

Para compreendermos melhor a importância de trazer para a discussão os pilares que formam a cadeira da Arteterapia, trouxe um recorte de um caso clínico onde o artesanato atuou intensamente como Função Transcendente e me colocou reflexiva acerca da minha atuação.

Há alguns anos atrás atendi uma paciente cujo diagnóstico fora Transtorno do Pânico. Estava em acompanhamento psiquiátrico, tomando medicação e iniciando seu processo terapêutico. Ao longo dos atendimentos fizemos algumas técnicas básicas de Arteterapia como colagens, alguns desenhos, amplificações de sonhos com alguns contos, mas nada surtiu mais impacto do que uma prática de artesanato.

Esta pessoa gostava muito de artesanatos em caixas. Fazia cursos de artesanato em mdf, mas há algum tempo não participava mais das aulas ou até mesmo do manuseio em casa. A “patologia” a distanciara de seus prazeres e estava completamente afastada daquilo que gostava genuinamente de fazer. Conforme fomos avançando no processo chegamos ao tema da sua identidade e ali ela se percebeu de várias formas e expressando vários formatos. Sugeri então que ela experimentasse algo dentro do artesanato, que ela tanto gostava, para expressar suas percepções sobre este tema. Não queria fazer nada com ela, ou sugerir uma prática, queria que ela resgatasse algo dentro dela, essa habilidade de transformar algo bruto em outra coisa.

E assim ela fez. Foi para casa e construiu uma caixa de papelão, com várias gavetas onde ela dizia conter em cada gaveta uma parte dela. E a partir desta prática o processo tomou um novo rumo. Esta construção não foi rápida. Conforme íamos discutindo as questões, a caixa se formava, e conforme a caixa tomava forma, as questões apareciam.




Esta caixa ficou presente nas sessões durante muito tempo, ora para trabalhar as imagens contidas nela, ora para provocar afetos com sua simples presença. E a partir deste trabalho as diversas percepções sobre si mesma foram sendo acolhidas e percebidas como parte de um conjunto maior, a própria caixa, ou seja, ela mesma. As gavetas por si só não formavam uma caixa, mas a caixa inteira continha as gavetas. Aqui, mais uma vez a Gestalt nos auxilia com os conceitos do todo e a soma das partes.

Oferecer uma caixa pronta e pedir que ela preenchesse com coisas talvez não a afetaria da mesma forma que sugerir que ela explorasse uma habilidade própria. Acredito que este tempo dedicado em sua casa, com suas elucubrações, percebendo cada dificuldade da construção, cada necessidade que ia aparecendo, a cor, a imagem, etc, ficou muito potencializada, e desconfio se teria a mesma potencia caso fosse feito no consultório com caixas semi-prontas e o olhar analítico e o tempo cortante de uma sessão.

Por isso, reafirmo que o artesanato enquanto conceito tem muito a contribuir a Arteterapia, e cabe aos profissionais experimentar aquilo que de melhor ele tem a nos oferecer.

No próximo texto da série confiram: Arteterapia e Psicologia

Bibliografia
JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Ed. Vozes, Petropolis, 2011.
PAÍN, Sara. Os fundamentos da Arteterapia. Vozes, 2009.
NETO, Eduardo Barroso. O que é artesanato? http://www.fbes.org.br/biblioteca22/artesanato_mod1.pdf
http://www.eba.ufmg.br/alunos/kurtnavigator/arteartesanato/artesanato.html

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3 comentários:

  1. Faco muito artesanato em MDF, me ajuda muito no processo de organização interna. Muitas vezes apresenta um função decorativa, mas não nos isenta de um mergulho.

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  2. Faco muito artesanato em MDF, me ajuda muito no processo de organização interna. Muitas vezes apresenta um função decorativa, mas não nos isenta de um mergulho.

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  3. Também faço artesanato em MDF. Sou dentista, mas o artesanato tem sido uma verdadeira terapia ocupacional para mim.

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