quinta-feira, 23 de abril de 2026

DESENHO DE OBSERVAÇÃO COMO FERRAMENTA PARA A MANUTENÇÃO DO ENVELHECIMENTO ATIVO

 Por Milena Cavalheiro de Siqueira - SP

                O desenho de observação é uma técnica que pode ser utilizada para fazer com que o idoso seja estimulado cognitiva, sensorial e emocionalmente.

            O que é o desenho de observação?

            É uma técnica de desenho, onde há um objeto real que deve ser copiado com o maior número de detalhes possível: cor, luz e sombra, proporção, textura, entre outros. Essa forma de desenhar amplia a percepção visuoespacial, coordenação motora e foco.

                        No desenho de observação, também podemos utilizar fotos, quadros, imagens para que sejam copiadas.

                        Nos trabalhos com os idosos, essa técnica é muito útil, pois, trabalhamos integralmente as funções cognitivas e executivas.

                       

                                                           (Trabalho realizado em abril de 2026)

                       

          Por que trabalhar com o desenho de observação com idosos?

      O trabalho com os idosos requer paciência e repetição. O desenho de observação, proporciona, no momento do seu processo, a observação mais aguçada, auxilia no foco, favorece a percepção visuoespacial e planejamento.

         Ajuda o profissional a avaliar as condições do idoso, ou seja, como ele se comporta ante a esse processo. Se ele realiza planejamento, como trabalha com a  proporção do objeto, se ele consegue reproduzir as cores como elas são, enfim, conseguimos fazer uma avaliação mais assertiva do processo de envelhecimento.

       Com essas considerações, proporcionamos também o processo de envelhecimento ativo, tanto em idosos senescentes, quanto em idosos sênis e que estejam em ILPI’s.

       Com a repetição do exercício, ainda que a cada momento seja feita uma imagem diferente, conseguimos instigar e manter as funções cognitivas, e dependendo do paciente, conseguimos avanços, não só nessa técnica, mas como em outros processos.

       Percebo, que os idosos participantes, antes de iniciarem ‘as suas cópias’, param, analisam, medem, utilizam soluções para falta de ferramenta. A cada processo novo, essas ações são novamente ativadas, para que o desenho se realize.

 

(Trabalho realizado em Abril de 2025)

                       

         Percebo evoluções na questão de foco, resolução de problemas, melhora na percepção visuoespacial e construção de estratégias.

         A realização do desenho de observação, através da repetição acaba fazendo com que o indivíduo se solte e apareçam as habilidades básicas de percepção e coordenação motora.

        Com esse tipo de atividade, conseguimos fazer com que haja liberação da expressão e a capcidade comunicativa aumenta.

    Ampliar a percepção, inclusive a cada atividade proposta, existe o aumento do reconhecimento de detalhes, sejam eles, em cores, formas e até mesmo na disposição no papel.

     Quando a mão ‘enxerga’ o desenho, o objetivo, suas formas, cores e proporções, estamos fazendo com que haja a preservação da plasticidade neural. O processo estímula a pesquisa, a curiosidade e a exploração por elementos novos.

                        O desenho de observação pode ser um instrumento utilizado para o estudo de proporções e morfologias.

                        Ajuda na articulação do olhar, por conta das texturas e cores.

                        O desenho de observação favorece a experiência visual, ampliando a percepção. Com o trabalho dos idosos, ajuda no planejamento, observação das proporções e dimensões.
                        Para nós, profissionais, ajuda a avaliar como estão: a percepção visuoespacial e a praxia ideomotora.

Em relação ao desenho de observação, realizei um estudo de caso, com uma atendida com Parkinson estabilizado e tenho percebido melhora na percepção visuoespacial e coordenação motora.

 


 


(Esse foi o primeiro trabalho da atendida, em 2023)

 

                        O ato de desenhar envolve o pensar através das imagens visuais.

                        O ‘copiar’ o desenho, passa pelo filtro experiencial de quem está desenhando, tornando-se uma ferramenta útil para a resolução de problemas do cotidiano.

                        Mesmo através de um desenho de observação, conseguimos identificar a ‘personalidade’ do indivíduo através dos traços e utilização das cores.

                        O desenho de observação, proporciona ao indivíduo um ‘saber ver’, ver através daquilo que ele está enxergando, observando, percebendo.

                        “Forguieri (1993) enfatiza que o pensamento abrange todas as funções mentais como o entendimento, o raciocínio, a memória, a imaginação, a reflexão, a intuição e a linguagem. E como linguagem e pensamento estão associados e o desenho é um tipo de linguagem, este também está ligado ao pensamento. E como ainda salienta a autora, o desenho não é só representação, mas uma forma de pensar, mesmo que, segundo Gouveia (1998) o desenho seja conceituado e compreendido como uma linguagem intuitiva, bem mais do que reflexiva”.

                        Quando utilizamos o desenho de observação em nossos trabalhos, estamos estimulando a memória, a percepção e a consciência do momento presente. Mesmo aquele indivíduo com comprometimento cognitivo, no momento do desenho, ele se coloca no momento presente, foca no que está fazendo naquele momento.

                        Pode-se complementar com o que diz Piaget (1983, p.251): “a imagem e o aspecto figurativo do pensamento derivam das atividades sensório-motoras, assim como do aspecto operativo do pensamento”.

                       A adaptação é um estado e não um estágio de registro. A percepção é afetada pela seleção do que o indivíduo percebe.

                        “Os processos cognitivos dizem respeito aos processos psicológicos envolvidos no conhecer, compreender, perceber, aprender, etc. Eles fazem referências à forma como o indivíduo lida com os estímulos do mundo externo: como o sujeito vê e percebe como registra as informações e como acrescenta as novas informações aos dados previamente registrados (ALENCAR, 1995, p.24)”.

 


 (Trabalho realizado em julho de 2025)

 

                        Nesse percurso, vejo o desenvolvimento não apenas nos nossos encontros, mas também no cotidiano da atendida. Facilidade em resolucionar problemas, melhora na percepção visuoespacial, praxia ideomotora, elevação de auto-estima e bem-estar.


Referências Bibliográficas 

EDWARDS, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. 2 ed. Rio de Janeiro. Ediouro, 2000.

RAMOS, Geisel. Desenho de Observação. 1 ed. Pernambuco. Intersaberes, 2024.

FRANCISQUETTI, Ana Alice. Arte-Reabilitação. 1 ed. São Paulo. Memnon, 2011.

RIBAS, Gilmar Alfredo. Arteterapia e Parkinson. 1 ed. Paraná. Appris, 2020.

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Sobre a autora: Milena Cavalheiro de Siqueira

 


É atriz, arteterapeuta, estimuladora cognitiva e mestranda em Gerontologia. Trabalha em ILPI’s desde 2017. O trabalho desenvolvido com idosos surgiu de maneira inesperada e apaixonante. Realiza atendimentos em Clínica de transtornos alimentares e já trabalhou em clínica de desospitalização com atendidos de diversas idades, ampliando a sua visão sobre as possibilidades de ampliação no campo da Arteterapia e expansão da criatividade.

É movida pela arte. Adora compartilhar conhecimento.

Atendimentos: individual, em grupos. Hoje facilita grupos de estudo sobre Arteterapia e Envelhecimento.

 

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