segunda-feira, 9 de julho de 2018

ANDY WARHOL E A SERIGRAFIA

Liane Esteves – RJ
lianeesteves@gmail.com

              Ultimamente tenho investido na gravura como mais uma possibilidade no atendimento terapêutico. Fiz minha estreia aqui no blog com um texto sobre monotipias e agora dedico este espaço para falar da serigrafia, um dos processos em gravura, também conhecido com silkscreen ou gravura planográfica. Falarei, porém de forma “enviesada”, através da obra de um artista que dialogou com a fama, consumo e imagem usando a serigrafia para potencializar sua mensagem e tornando-a cúmplice de seus sentimentos e pensamentos.



Andy Wahrol (1928-1987), americano, filho de imigrantes, tornou-se uma figura lendária e profetizou que um dia todos teriam direito a 15 minutos de fama. Hoje sua “profecia” é realidade e o poder da imagem e das mídias sociais, assim como seus desdobramentos nocivos na vida dos indivíduos e famílias, nos impacta.

Retrocedendo um pouco na história da Arte para compreendermos essa faceta de nossa contemporaneidade, constatamos que na década de 1960, os Estados Unidos, principalmente Nova York, já se consolidara como grande centro artístico. O expressionismo abstrato perdia força para dar lugar a Arte Pop, a arte como caráter público, como mercadoria e objeto de consumo. Nada mais convincente para uma sociedade que privilegiava o efêmero, o sucesso, a escalada social e o enriquecimento.

            Andy Warhol, de origem humilde, não escapou dessa filosofia. Rapidamente ganhou fama e sucesso desenvolvendo uma relação ambígua entre sua vida e sua arte. Começou como desenhista publicitário, trabalhou para revistas como Vogue e Harper’s Bazaar conquistando um lugar no mercado. Seu empenho e dedicação no setor publicitário, além de seu espírito observador, acabaram por revelar-lhe a real faceta do consumo. Não mais focado na venda de produtos para uma elite, voltou-se para grande massa. Seu interesse não residia mais no consumo elitizado, mas no consumo de uma forma geral, no consumo de uma cultura, a americana. Percebeu a grande ilusão por trás de tudo o que era consumido e como isso afetava não apenas um grupo de pessoas, mas toda uma comunidade e mesmo uma nação, revelando a dimensão psicológica por trás das imagens publicitárias. Latas de enlatados, refrigerantes, estrelas de cinema, celebridades, encarnavam o jeito americano de ser e eram vendidos através de repetidas veiculações nas diversas mídias. Warhol transpôs a imagem desses produtos de consumo para a tela fazendo referência a esta realidade e viabilizando o ingresso do mundo popular no mundo da arte e seu próprio ingresso na estrita esfera da arte.

             Ao mesmo tempo em que criticava essa sociedade e seus hábitos de consumo através de suas telas, revelava seu jogo publicitário, criando lendas e fofocas de sua própria vida, num jogo ambíguo onde não se sabe o que é verdade e o que é mentira. Warhol transformou sua vida em obra. A grande verdade para ele era a imagem publicitária que poderia passar uma ideia verdadeira ou falsa num frenético jogo do consumo e da ilusão. A grande verdade revelada é o consumo por trás dessa imagem, onde reside a lenda, o mito do sonho americano. É, portanto, uma imagem abstraída, mítica e efêmera, que dura o tempo que um desejo leva para ser substituído por outro, num processo ininterrupto de consumo. A rapidez desse processo revela o caráter mortal da imagem. Warhol dizia que tudo que fazia tinha a ver com a morte. Os produtos de consumo de massa que usava em sua obra, como as sopas, os molhos, refrigerantes, sabão, todos eles tinham relação com a morte. Seja por seu rápido desgaste ou consumo; seja pela morte provocada por seu consumo. Warhol começou então a, literalmente, estampar a morte em sua obra, como no caso das pessoas envenenadas por atum enlatado, ou mortas por acidentes de carro ou de avião. Todas mortas por terem consumido uma ideia de praticidade, luxo, aventura, modernidade. A morte também aparece na imagem de pop stars como Marilyn Monroe e Elvis, que foram vítimas da fama, ou de outras celebridades cercadas por uma aura de tragédia.

"As duas Marilyns",1962
Serigrafia sobre tela 55 x 65cm 

Elvis Triplicado, 1964
Serigrafia sobre tela, 209 x 152 cm
 
            Apesar de parecer distraído e desligado da realidade, o artista observava friamente a sociedade por trás de suas máscaras, registrando o conformismo e o consumo psicológico. Conforme Argan (1998 p. 647), Warhol estaria interessado em analisar a trajetória desintegradora da imagem de massa, os efeitos da repetição da notícia que se tornariam, segundo ele, um mito de massa que passaria para o inconsciente.   Warhol transpunha para a tela as mesmas imagens e fotografias das manchetes de jornal, já maciçamente conhecidas e consumidas de antemão, e apostava na repetição usando a técnica serigráfica a seu favor. Através dela conseguia repetir a mesma imagem diversas vezes, em preto e branco ou em cores, com mais tinta ou menos tinta, com técnica descuidada ou mais apurada, criando uma dissolução dessa imagem, revelando assim uma nova imagem, abstraída daquela da realidade. Portanto, sua pintura não é figurativa, não é uma mimese da realidade como ela é, mas uma abstração da mesma. A planariade de suas pinturas reforça a ausência de realidade e a bela e cuidada imagem publicitária é manipulada de forma a tornar-se suja, borrada, transformada, denunciando a mentira, o consumismo, a verdade da cultura de massa. Ao mesmo tempo, o processo serigráfico permite uma reprodução estereotipada das imagens e uma produção mecanizada que reforça o caráter impessoal e massificante das imagens produzidas e da cultura fabricada. As distorções conseguidas pelas manipulações na impressão retiram as características pessoais e subjetivas dos retratados, pasteurizando a imagem para consumo.

            Gregory Battcock (1975, p. 51), em seu texto A Geração Warhol, diz que “a arte de Warhol pode subverter (até um certo ponto) a arte formal e, ao mesmo tempo, oferecer documentos socialmente provocadores ao cidadão de classe media”. Cita a aversão do artista pela cultura, por identificar nela uma função policial repressiva. A arte de Warhol refletiria, então, uma cultura oficial de repressão, mais do que de vida, sendo exemplos disso suas pinturas de cadeira elétrica, de ataques policiais, e dos homens procurados pela polícia.

            Passadas algumas décadas ainda são bastante atuais as reflexões e percepções de Andy Warhol sobre o american way of life. A dimensão irônica e crítica de sua arte acabou por perpetuar o consumo por este estilo de vida, criando um ciclo vicioso onde a ideia por trás da imagem ganha mais força quanto mais for veiculada. Entenda-se como ideia o próprio american way of life. O estilo então criticado foi consumido e absorvido perdendo sua força enquanto crítica, mas ganhando força enquanto estilo de vida. Isso acaba por tornar sua arte sempre válida e, ao mesmo tempo, a cultura de massa passível de crítica, uma vez que não percebe sua estrutura e repete sempre o mesmo processo.

            Danto (1990, p. 9) afirma que a obra completa de Warhol é menos um retrato da consciência contemporânea, mas a própria consciência contemporânea, materializada pelas imagens que exprimem nossas fantasias e nossos sentimentos. Para ele Warhol só morrerá realmente quando não mais soubermos quem foi Marilyn, ou quando não mais existir a sopa Campbell’s.
Latas de Sopas Campbell
Serigrafia sobre papel  

            Atualmente a obra de Warhol ainda nos seduz e nos convida a consumi-la em diversos produtos, como almofadas, bolsas, caixas, chaveiros etc.. Paralelamente também é possível estampar a própria imagem nas redes sociais, ter seguidores e tornar a própria vida uma vitrine aberta 24 horas por dia, indo, talvez, muito além das previsões de Warhol. Acredito que a função do arteterapeuta deve ser mais do que a oferta de materiais e linguagens artísticas, cabendo a ele também conhecer a obra de artistas das mais variadas épocas e estilos e poder usá-las como referência em seus atendimentos. Tomar a vida e a obra deste representante da Pop Art pode ser um disparador para estabelecer uma dimensão crítica e um olhar questionador sobre o consumo excessivo, o “desgaste” da imagem nas inúmeras postagens em rede, entre outros fatores. Como estimular a busca pela essência para além das aparências; como desviar o olhar da imagem externa para uma reflexão interna; como reconhecer os vazios interiores e cuidar deles?  A Arteterapia é uma excelente ferramenta na busca do si mesmo, e pode ser mais potente ainda quando auxiliada pelas obras dos grandes mestres da Arte, que tão sensivelmente nos deixaram um legado de imagens passíveis de profundos mergulhos em zonas sombrias.   

            Que Andy Warhol possa ser compreendido de forma mais ampla, para lá da aparente futilidade. Que possamos olhar para as inúmeras Marilyn’s, estampadas em variadas formas, efeitos e cores, e refletir sobre nós mesmos!

     Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências Bibliográficas:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BATTCOCK, Gregory. Geração Warhol in A Nova Arte. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 1975.
DANTO, Arthur C.. Qui était Andy Warhol?. Les Cahiers du Musée National d’Art Moderne. Pais, 1990.
HONNEF, Klaus. Andy Warhol: A Comecializaçao da Arte. Colonia: Taschen, 1992.

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Sobre a autora: Liane Esteves


Arteterapeuta e Arte-educadora, especialista em História da Arte e pós graduanda em Psicologia Junguiana. Faz atendimentos individuais e facilita oficinas e vivências em Arteterapia.
Leciona Artes Visuais na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Tem interesse em Arte, Psicologia, Yoga, Vedanta, Espiritualidade, Sustentabilidade, Cinema, Dança e Paisagismo. Acredita na Harmonia, Amor e Respeito entre os Seres.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O SENTIMENTO DO MUNDO: Drummond e o arteterapeuta




Por Eliana Moraes (MG) RJ 

“Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo”

Carlos Drummond de Andrade

O tempo de gestação deste texto iniciou-se na última semana de maio, às vésperas do dia 27, data em que foi marcado inicialmente o lançamento do livro “Pensando a Arteterapia”. Poucos sabem, mas ao longo do mês de maio eu trazia um peso no peito e não sabia o porquê. As pessoas me abordavam animadas sobre o evento tão esperado e estranhamente eu me esforçava para sorrir e dizer que tudo estava sendo preparado com muito carinho para aquele dia especial. Lá no fundo do meu íntimo eu me justificava que aquele sentimento poderia ser porque eu não estava realmente preparada para aquele momento. 

Porém, na quinta feira dia 24, para a minha “surpresa” recebi um telefonema da editora me informando que os livros estavam presos em São Paulo por conta da greve dos caminhoneiros que se iniciou naquela semana. Além disso, comecei a ouvir de pessoas queridas que estariam impossibilitadas de participar do evento pela dificuldade de locomoção e segurança. 

Apesar do susto, não foi uma surpresa. 
E ali pude compreender parte daquela sensação estranha que eu guardava intuitivamente. 

Neste momento, eu que já estava acompanhando os movimentos do nosso país naquela semana intensa, passei a prestar mais atenção em cada desdobramento daquela verdadeira paralisação, nos campos do coletivo e individuais aos quais tive acesso. Sem entrar no mérito político, mas emprestando meu corpo, percepções e sensações para aquele momento social tão emblemático. 

Afinal esta é a função do artista. Dentre a pluralidade humana, o artista é portador de uma sensibilidade singular para a percepção e compreensão da natureza, da vida e do cotidiano dos seres humanos e a partir dela, dá forma àquilo que vê (além). 

Passada a mudança de data do evento e toda a reorganização necessária com todos os envolvidos, continuei a ouvir aquele sentimento – que embora mais claro, não havia se dissipado. Foi aí, que graças às sincronicidades da vida, alguém “soprou no meu ouvido” o nome do livro “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade. Poeta que tanto me identifico, até mesmo por ser um mineiro de alma e estilo que passou boa parte da sua vida no Rio de Janeiro e tudo que ele contém. 

Pessimismo: o poeta que denuncia 


“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que se esteriliza os abraços...”

em Congresso Internacional do Medo

Dediquei-me à leitura e reflexão deste livro tão importante para a literatura brasileira. Terceiro livro de Drummond, que inaugura a “fase ideológica” do poeta, relacionando o eu e o mundo. Nesta fase, Drummond demonstra que percebeu o que está acontecendo no mundo e que vai lutar para que mais pessoas também entendam e saiam do estado de alienação. Publicado em 1940, este livro que traz 28 poemas, reverbera o contexto mundial e brasileiro dentre guerras e ditaduras. 

“O sentimento do mundo” deve ser lido com calma e atitude meditativa. Neste texto destaco fragmentos, e dois dos poemas que mais me tocaram e fizeram eco ao meu sentimento do mundo atual:

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
...
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

em Os ombros suportam o mundo

Mais uma vez, muito me identifiquei com Drummond, no momento em que se coloca como observador do mundo ao seu redor e através daquilo que lhe é mais caro, a poesia, investe em chamar a atenção de quem o pudesse ouvir. 

Nos dias atuais, basta assistirmos qualquer jornal (mundial ou local) para percebermos o quão estranho está o mundo em que vivemos. E não há como os artistas em sua sensibilidade passarem ilesos ao sentimento do mundo do século XXI. 

Chega um tempo que não adianta fugir ou entregar os pontos. Chega um tempo em que reconhecer a vida é um imperativo. A vida. 

Esperança: a busca de sentido


“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.”

em Mãos Dadas 

No grupo de estudos que coordeno, estamos estudando Kandinsky, que tanto teorizou sobre a sensibilidade do artista. Temos refletido justamente sobre o arteterapeuta como participante desta sensibilidade, mas com o ofício de oferecer a arte para que cada sujeito dê forma aos seus possíveis dentro de um setting arteterapêutico. 

Percebemos o quão importante é que o arteterapeuta se reconheça como portador desta sensibilidade perante ao mundo e à humanidade. Que entre em contato com ela, a estimule, aqueça, pois a partir desta sensibilidade poderá abrir canais intuitivos e exercer com propriedade sua função de oferecer os materiais de arte e apresentar as propostas vivenciais – não a partir de seu próprio desejo, mas respondendo às demandas dos indivíduos do tempo presente. 

Sua matéria são “os homens presentes”, pertencentes a este mundo/país/cidade presentes e suas vicissitudes. Esta consciência colabora para que o arteterapeuta, que tem duas mãos e o sentimento do mundo, ofereça a arte como um “alimento” para a vida presente, pois segundo Kandinsky: 

“Aquele que, entre eles, é capaz de olhar além dos limites da parte a que pertence é um profeta para os que o cercam. Essa multidão tem fome – muitas vezes sem que ela própria esteja consciente disso – o pão espiritual que convém às suas necessidades.” KANDINSKY

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Referências Bibliográficas:

ANDRADE, Calos Drummond. O sentimento do mundo. 
KANDINSKY, Wassily. Do Espiritual na Arte.
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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".

Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 

Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

SÉRIE OLHARES SOBRE OS MITOS: HÉCATE E A SUCATA



Laila Alves de Souza – Curitiba / Rio de Janeiro 
lai_ajt@hotmail.com

O estudo das mitologias nos alude ao conhecimento do nosso mundo psíquico, onde os deuses representam as nossas forças arquetípicas e os mitos representam nossos processos internos e externos. Desse modo, o conhecimento desse estudo nos permite compreender a psique humana.
A psicologia arquetípica, especificamente, evidencia a importância daquilo que nos ensina a mitologia. Os deuses estão presentes na psique e na cultura, e a negação de um deles repercute na estrutura psicológica do indivíduo.  
Nesse texto entraremos em contato com uma deusa desprezada, pois ela pertence ao âmbito do ctônico e do escuro. A deusa Hécate.  
Na mitologia grega, a deusa Hécate é considerada uma deusa sombria e infernal. Assim como Perséfone, ela é uma deusa dos mortos. Como ela se encontra longe do âmbito da luz, e, sendo a luz um dos símbolos da consciência, esta deusa reside nos escombros de nossa psique, ou seja, no escuro do inconsciente. C.G Jung, com seu conceito de sombra, mostrou que são nesses escombros que reside muito de nossa energia psíquica, e sendo estas não conscientes, podem agir autonomamente e perturbadoramente, sem a orientação do ego. Considerando que Hécate pertence a esse terreno ou esse terreno pertence a Hécate, o olhar para ela é de fundamental importância para a saúde psíquica. Sobre a deusa vemos em Chevalier & Gheerbrant:
"Enfim, a nigromante das aparições noturnas simbolizaria o inconsciente, onde se agitam as feras e monstros: o inferno vivo do psiquismo, mas também reserva de energias a organizar, como o caos se organizou em cosmo sob a influência do espírito." (CHEVALIER & GHEERBRANT, p.485)
Hécate também está associada ao lixo, a podridão e aos restos.  De acordo com Hillman esta deusa "(...)torna sagrados os lixos da vida, de forma que tudo conta, tudo importa." (Hillman, p. 70). Dessa forma, honrar essa deusa significa iluminar nossos lixos psíquicos, aquilo que não prestou para nossa casa egóica, ou seja, que apresenta característica desagradável e incompatível.
Não é à toa que, por governar esses atributos, essa deusa tenha sido esquecida no arcabouço dos mitos. Inclusive, ao pegarmos compilações sobre deuses gregos não é comum ter a presença de Hécate. Por mais que um dos indícios também seja a de que a deusa não tenha um mito próprio, essa exclusão pode vir desses atributos que são considerados fétidos e feios para os olhos da consciência.  
A sucata

A sucata pode se apresentar como um material sob os domínios de Hécate. Aquilo que aparentemente se mostra como resto e lixo, sob os desígnios dessa deusa, se transforma em material e energia possíveis de serem trabalhados; é o que o Hillman coloca como "tudo conta, tudo importa".  
O trabalho já começa no olhar sobre aquilo que seria lixo. Essa análise sobre qual material pode virar sucata e qual não, é um trabalho que, na perspectiva da psique, já está se mexendo na sombra. O ego com sua orientação consciente e unilateral já descartaria qualquer resto, mas na psique Hécate tem seu lugar sagrado, ou seja, para psique esses restos têm seu lugar.
Depois de discriminar o que pode virar sucata, o trabalho consiste em construir algo com aquilo que parece ser um amontoado confuso e sem sentido. As energias inconscientes se apresentam dessa mesma forma para o ego consciente. Vários mitos e contos retratam essa dinâmica de amontoados de elementos (geralmente vários tipos de grãos misturados) onde o herói ou a heroína precisam enfrentar o trabalho de separar e classificar. Vemos isso no mito de Psiquê e no conto da Vasalisa, por exemplo.
O olhar, manusear, separar e compor a sucata é um trabalho que exige disposição psíquica, pois pede um olhar e um diálogo para dentro de nós. Se não houver esse movimento, ficaremos na superficialidade e só veremos um conjunto de coisas que poderiam ser jogadas fora. É um trabalho que propicia um contato com novas forças arquetípicas, no caso, com a força de Hécate.
Esse olhar permite, por exemplo, que uma lata velha venha a ser um corpo de um boneco, e a partir disso o corpo se presentifica. Mas como é esse corpo? Duro como uma lata ou mais macio como um rolo de papel higiênico? As fitas coloridas são usadas para enfeitar (entrando em contato com Afrodite)? Ou a obra se compõe com as embalagens nuas e sem embalagens (entrando em contato com a sobriedade)? O manuseio da cola quente é exagerado ou se coloca pouca cola? Percebemos aqui questões de firmeza/rigidez ou flexibilidade/frouxura. 
Um mundo de possibilidades se descortina nesse tipo de trabalho, abrindo-se também, o mundo psíquico. Todo esse processo consiste no que a psicologia arquetípica proposta por James Hillman fala do “fazer alma”, ou seja, a alma se faz na experiência.
Portanto, a psicologia possibilita a expressão daquilo que se encontra inconsciente em nós. No presente caso, a força arquetípica de Hécate traz o sagrado para o olhar para os lixos e o que subjaz no nosso subterrâneo psíquico. E a Arteterapia, por sua vez, vem reforçar essa expressão, dando forma e corpo para o aspecto inconsciente. Aquilo que antes era nebuloso e até mesmo desagradável tem agora uma imagem, imagem material e palpável. Imagem que fala e nos espelha sobre nós mesmos.
É a transformação dos escombros em arte!    


 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
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Referências Bibliográficas:
CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, Al. Dicionário de Símbolos.RJ: José Olympio, 2009. 
HILLMAN, J. O sonho e o mundo das trevas. Petropólis, RJ: Vozes, 2013

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Sobre a autora: Laila Alves de Souza



Psicóloga
Pós- graduada em psicologia clínica na abordagem da Psicologia Analítica.
Atendimentos clínicos pela abordagem da Psicologia Analítica no Rio de Janeiro.
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos projetos. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

FAZER ARTE É COISA SÉRIA




Por Valéria Diniz - RJ
valdiniz.td@gmail.com
Instagram @valeriadiniz50

Olhos grudados no tablet, dedinhos ágeis passam as fases de algum jogo, ouvidos atentos ao discurso preocupado dos pais. A escola encaminhou aos “doutores” entendidos de crianças. Laudos, papéis, receitas, avaliações são apresentados a mim. Espanto-me com a quantidade de papel que acompanha  a história de Viny, 8 anos de idade.
Não gosta da escola, tem dificuldades de aprendizado, não tem amigos porque é agressivo. Larga tudo que começa. O Inglês, o Judô, a Natação. Nem ao “play” ele vai.
Ouço, compreendo e pergunto:
- Quando é que ele brinca?
É nesse momento que sinto aqueles olhinhos desgrudarem do jogo e rapidamente me encontram.

Sempre que ouço expressões do tipo; “fulaninho é muito arteiro!” ou “essa criança só sabe fazer arte!” me surpreendo com o tom de desaprovação. É como se fosse algo proibido e feio.
Mas o que é “fazer arte”?

Arte, do latim “Ars”, significa técnica e/ou habilidade.
Fazer (transitivo direto) - Produzir através de determinada ação, realizar.

Logo:
Fazer arte - Produzir habilidades através da ação.

Fazendo arte, aprende-se do corpo, dos limites, ganha e desenvolve habilidades.
Fazendo arte, expressa-se emoções mesmo antes de saber falar.
Fazendo arte, conhece de si, dos outros e do meio.
Fazer arte é o meio disponível onde a criança encontra uma forma de entender esse mundo e esses adultos tão impossíveis, contraditórios e estranhos.

Criança não brinca apena para se divertir. Brinca para entender. Faz arte para desenvolver seu potencial e habilidades importantes e necessárias para a vida. E, que fique entendido, brincar e fazer arte é muito diferente de ficar preso por horas em alguma tela luminosa retangular.

- Então, vamos brincar Viny?
Ao nosso redor estão caixas de jogos, bonecos de todo os tipos, monstros, heróis, princesas, panelas. Pincéis, tintas, lápis coloridos.
Meu convite é recusado.
A tela luminosa se apresenta menos assustadora. Bloqueia o contato, impede que tenha novas experiências.
Permito que ele traga o tablet para o atendimento e que use como quiser.
Uma hora de encontro com alguém que me desdenha, menospreza e troca monossílabos.
Revejo as teorias e técnicas.
Faço contato com minha impotência e frustração. 
... 
- Hoje quero te propor um jogo.
Explico as regras, mostro, dou exemplos. Ganho nova recusa. E outra e mais algumas.
Olho para aquele menino com um mundo de possibilidades ao seu redor, mas que decide ficar preso em sua confortável missão de passar fases e ganhar bônus apenas mexendo os dedos.
Busco ajuda em minha curiosa criança interior que ainda se encanta diante de coloridas tintas.
Sento no chão e começo a pintar com os dedos. Surgem flores, borboletas, figuras abstratas.
Vamos ver quem faz coisas mais interessantes?  Se ele é rápido no jogo, sou potente com as tintas. Agora é guerra!!
- “Você está sujando a mão”.
- É bom!

E Viny foi fazendo sua arte, foi descobrindo.
Aprendeu que jogos (qualquer um que não seja uma tela, varetas, pega-pega, esconde-esconde, dentre inúmeras possibilidades) implicam em perder ou ganhar. Que tem dias e momentos de perdas e ganhos. Que regras precisam ser cumpridas. É gratificante ganhar, é frustrante perder. Mas, que bom mesmo é quando a “gente empata”!


Com cola, tesoura, recortes, escolhas e ajustes percebeu que limites servem para respeitar, a si e aos outros. Descobriu que podemos nos expressar através das cores. Que nem sempre conseguimos controlar, que borramos, que erramos. Que se ficar difícil é preciso tentar e tentar de novo. Mas que se “prestar atenção dá mais certinho”!

Com argila criou monstros e destruiu e recriou com novos poderes. E foi entendendo que os monstros podiam ser “até legais”.  Já não precisava mais agredir os colegas e podia fazer bons amigos. Nos desenhos foi sabendo de si. Que era um menino curioso, inteligente, criativo, bonito. Um “cara bom”!

Agora está em nova “fase”. Resolveu desmontar alguns objetos de sua casa. Relógios, carrinhos, liquidificador porque quer saber como “as coisas funcionam”. E sabendo das coisas vai entendendo desse mundo que se apresenta diante dele com imensas possibilidades para além de uma tela virtual.

Eu também sigo tentando entender de mim e do mundo através da minha própria arte. 

Então, vamos fazer arte?!

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Sobre a autora: Valéria Diniz




Psicóloga 
Gestalt terapeuta
Mestra em Saúde Mental

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A PINTURA NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: PROPRIEDADES E APLICABILIDADES



Por Eliana Moraes
naopalavra@gmail.com

A partir das perguntas trazidas por arteterapeutas colegas, alunos e supervisionandos, tenho me dedicado à “Série: Arteterapia Clínica”, encontros aos quais estudamos sobre a prática da Arteterapia em atendimentos individuais. Estes encontros têm se configurado em um ciclo de palestras em que estudamos embasamentos teóricos diversos, no campo “psi” e teorias da arte, as propriedades e especificidades da Arteterapia como procedimento terapêutico e estudo de casos clínicos. Penso que o aprofundamento deste estudo para o arteterapeuta que intenta trabalhar com a modalidade clínica, seja estrutural, pois:

“... o refinamento para a escuta clínica arteterapêutica é algo que é construído com o tempo de estudo e prática, pois se difere das modalidades semi-estruturada ou estruturada, típicas de vivências pontuais ou propostas breves, oferecidas principalmente para grupos: aqui, parte do arteterapeuta um disparador inicial para que o paciente/cliente projete de si e crie a partir deste ‘estímulo externo’. Na clínica, o arteterapeuta recebe um paciente, ouve a demanda daquele sujeito e a partir desta escuta aciona algum material para oferece-lo, sendo este um facilitador expressivo e mobilizador de atos criativos, na arte e na vida.” (MORAES) 

Neste sentido, o manejo consciente dos materiais se faz como a espinha dorsal do ofício do arteterapeuta: cabe a ele a escuta do seu paciente/cliente, pois este já pede intuitivamente o material que lhe será facilitador expressivo e mobilizador do ato de criar em um sentido amplo. Assim, o arteterapeuta promoverá o encontro entre o sujeito que fala e o material pertinente, e através deste encontro ele seguirá seu caminho.

Em textos anteriores deste blog, comecei a publicar fragmentos deste ciclo de palestras para potencializar o compartilhamento deste conteúdo para aqueles que estão longe geograficamente, mas que tenham o desejo de estudar conosco. São eles: “Série Arteterapia Clínica: o arteterapeuta como promotor de encontros” CLIQUE AQUI e “A colagem na clínica da Arteterapia: propriedades e aplicabilidades” CLIQUE AQUI. 

No texto de hoje, a protagonista é a pintura, linguagem da arte tão próxima de nós e amplamente utilizada como técnica expressiva no setting arteterapêutico. Entretanto, mesmo tão presente em nosso cotidiano, cabe a reflexão sobre variados aspectos que a compõem como material em Arteterapia. 

Primeiramente, cabe ressaltar que a pintura pode ser utilizada como estímulo projetivo quando lançamos mão de um infindável acervo produzido por artistas ao longo da história. Tomando como princípio que os artistas possuem o dom de mergulhar nas funduras do inconsciente individual e coletivo, e traduzir na linguagem de seu tempo dando forma aos conteúdos mais profundamente humanos, naturalmente estas imagens farão eco ao fruidor, que os reconhecerá. Assim o arteterapeuta poderá compor um repertório de obras de grandes artistas que entenda que dialogará com questões pertinentes em sua clínica. Em meu repertório pessoal conto com imagens de René Magritte, Salvador Dali, Frida Kahlo, Edward Hopper e outros artistas aos quais apresento para meu paciente quando identifico uma ligação entre sua fala e uma obra artística, com o intuito de aquecer sua associação livre e elaborações. Esta é a maneira que utilizamos a pintura como projeção na clínica da Arteterapia. 

Como processo, a oferta das tintas ao paciente/cliente, possui suas propriedades e aplicabilidades aos quais algumas delas abordarei a seguir: 

a) As propriedades

A pintura é uma técnica diluidora, de flexibilidade e não controle. No diálogo com a imagem coloca o autor em relação prioritariamente com a cor em detrimento da forma.

Todas as técnicas expressivas estimulam as quatro funções psíquicas descritas por Jung, mas naturalmente em cada uma delas, uma função específica se torna protagonista. Na experiência da pintura, a função principal é a Função Sentimento.

Na relação com a cor o autor é acessado em seus sentimentos, emoções, sensações, afetos. Uma grande referência teórica que aqui nos embasa é a literatura de Kandinsky, pois segundo ele, cada cor tem uma potência, uma vibração e provoca um impacto específico. Para ele, as cores têm a capacidade de agir como um estímulo sensorial e psíquico e são um “caminho que serve para atingir a alma.” (KANDINSKY)

No manejo com o material, associado a cor, o autor entra em contato com o elemento água, que proporcionará justamente a “expansão” do traço, a flexibilidade, a diluição e o não controle, quanto mais aguada for a tinta.  

b) O processo: verbos, ações e movimentos externos/internos

Colocar o sujeito na experiência com o material significa colocá-lo para agir sobre suas questões. Desta forma é interessante ao arteterapeuta atentar-se para os “verbos” ou as ações que cada material proporcionará externa e internamente em seu paciente/cliente.

No processo da pintura, em relação à cor, as ações provocadas estão no campo do sentir, perceber, sensibilizar,  expressar. Em relação à água, são estimulados os movimentos para umedecer, lubrificar, azeitar, amolecer, diluir, flexibilizar, expandir, dissolver, fluir, “transbordar”, abrir mão do controle.

c) Os potenciais

c.1) Perfis de pacientes/queixas, palavras chave:

Promover o encontro com a pintura é interessante para pacientes/clientes que apresentam a necessidade e busca de expressão de sentimentos, sensações, conteúdos talvez tão profundos que ainda não possuem nome ou possibilidade de expressão verbal. As cores associadas aos sentimentos e os movimentos corporais provocados por eles, servirão como linguagem expressiva. 

Para aqueles que demonstram seus excessos, misturas, espalhamentos  ou transbordamentos, escoar este conteúdo para uma superfície externa, seja ela um papel, tela ou outros, promove um contorno, um tamanho. Este processo de catarse inicial, promove uma “diferenciação”, a visualização destes conteúdos como se fosse um terceiro e como um espelho encaminha-os para a conscientização e elaboração.

Já os que apresentam enrijecimentos diversos, mas que a dinâmica fluida da vida convoca a capacidade de flexibilizar ou lidar com o não controle, o diálogo com as tintas promove a tolerância com as surpresas de traços que escapam das mãos e fogem daqueles idealizados racionalmente.   

Em relação ao elemento água, podemos também explorá-la metaforicamente,  em diálogo com aquilo que é trazido como “seco” ou “ressecado” - objetivo e/ou subjetivo, literal e/ou simbólico, corporal e/ou psíquico – apresentando um material que traz em seu processo o “aguar”.  

c.2) Resistência

A prática nos mostra que a proposta da pintura apresenta alguma resistência quando não há intimidade com o material e uma autoexigência de fazer uma imagem figurativa/símbolo. De fato, originalmente a pintura figurativa demanda alguma técnica para que a imagem se forme. E como arteterapeuta não tenho o procedimento de deslegitimar quando um paciente/cliente demonstra incômodo com sua criação, quando não se trata de resistência ao conteúdo acessado, mas sim pela falta de intimidade com o material. 

Penso que esta sensação deve ser acolhida e compreendida no sentido de que quando recebemos aqueles que chamo de “pacientes leigos”, recebemos sujeitos que ainda “não aprenderam a falar” naquela linguagem (outra que não é a verbal). Visualizo estes sujeitos como uma criança que ainda está em processo de formação de seu vocabulário. Não devemos esperar dela uma associação livre, mas sim acolher seus sentimentos e investir para que ela, passo a passo, se instrumentalize para se expressar. 

Expressar-se através da arte, para quem não possui este histórico, se mostra como um processo de “alfabetização” para uma nova gramática. E este é um caminho construído na companhia do arteterapeuta que orientará o autor no que for necessário. Naturalmente, o arteterapeuta não é um professor de artes, porém faz parte do seu ofício instrumentalizar seu paciente/cliente sobre os materiais, encaminhando-o para a autonomia criativa na expressão por outras linguagens. 

Neste contexto, um caminho eficaz é apresentar o que os surrealistas chamavam de automatismo ou do que Susan Bello chama de Pintura Espontânea: 

“... relaxar a mente crítica racional e pintar corajosamente o que aparecer na mente inconsciente. Na Pintura Espontânea, em vez de usarmos nossos olhos sensoriais para copiar e reproduzir o mundo exterior, expressamos nossa visão interior... A psique fará o trabalho. Nossa mente racional somente tem de suspender seu domínio...” (BELLO) 

Além destas, mais uma vez tomo como referência a literatura de Kandinsky, que tanto teorizou sobre o caminho para a abstração com o intuito de expressar “emoções puras” através das cores e das formas. (Ver texto “Contribuições de Kandinsky ao arteterapeuta” CLIQUE AQUI). Apresentar as imagens abstratas para o autor e estimulá-lo que utilize destas na busca da expressão de seus sentimentos, mostra-se um recurso muito potente na clínica da Arteterapia. 

Quando um “paciente leigo” encontra a Arteterapia, recorrentemente diz a célebre frase: “mas eu não sei desenhar, eu só faço bonequinhos de palitinhos...!”. Penso que o material de desenho – que por definição proporciona maior controle do traço – já se demonstra desafiador para aquele sujeito na produção de uma imagem figurativa, assim as tintas se mostrarão mais desconfortáveis ainda para aqueles que não possuem uma intimidade com a técnica da pintura. A prática nos mostra que neste contexto, a introdução da pintura abstrata inspirada a partir da expressão das emoções, associando cores, movimentos e formas, se dá como uma excelente porta de entrada para a pintura pelo sujeito que cria dentro do setting arteterapêutico. 

Conclusão:

“A forma e a cor harmonizam-se para criar o quadro, segundo o Princípio da Necessidade Interior. Nasce então a obra de arte autêntica, a composição entra em contato ‘eficaz’ com a alma humana, estabelece-se a ressonância” (SERS in KANDINSKY)
A partir destas considerações, podemos concluir que a linguagem da pintura na clínica da Arteterapia se apresenta como um processo menos racional, mais espontâneo, ao qual será encaminhado para a expressão dos sentimentos e emoções mais puros daquele que deseja se expressar. Ao arteterapeuta cabe promover o encontro entre o autor e os materiais de pintura quando entender a partir de sua escuta, que as tintas serão o material mais facilitador para esta profunda expressão. 
Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas: 
BELLO, Susan PhD. Pintando sua alma: Método de desenvolvimento da personalidade criativa. Ed Wak, Rio de Janeiro, 2007.
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. 
MORAES, Eliana. SÉRIE ARTETERAPIA CLÍNICA: O ARTETERAPEUTA, UM PROMOTOR DE ENCONTROS. Disponível em http://nao-palavra.blogspot.com/20
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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".


Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.