segunda-feira, 30 de abril de 2018

A COLAGEM NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: PROPRIEDADES E APLICABILIDADES



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

Quando falamos em colagem, inicialmente podemos nos deparar com uma série de preconceitos, como por exemplo colocando-a como uma técnica infantilizada. Entretanto, ao estudarmos sobre a inserção da colagem na História da Arte, que se deu no início do século XX, no advento da Arte Moderna com raízes no Cubismo,  constatamos a profundidade dos simbolismos contidos nesta linguagem da arte inserida em seu contexto histórico e sociocultural. A contextualização da colagem na História da Arte faz com que o arteterapeuta se conscientize da profunda herança simbólica que ela carrega a cada oportunidade de oferece-la ao seu paciente/cliente. Neste texto não me aprofundarei neste tema, mas deixo aqui a sugestão de pesquisa e estudo. 

Outra percepção equivocada sobre a colagem se dá quando é vista como uma técnica simplória, propícia para uma fase  inicial ou primária da experiência da Arteterapia. Esta percepção se torna falaciosa, quando compreendemos que o fato da colagem ter como benefício a não complexidade durante o ato criativo, não minimiza o grande potencial que está contido em seu processo, podendo ser acessada em qualquer etapa do percurso terapêutico e explorada em diversas complexidades a medida da riqueza de materiais possíveis de serem utilizados. 

O processo da colagem se dá em dois tempos, riquíssimos em simbolismos, que remontam dinâmicas tão presentes na vida cotidiana: o primeiro se refere à desconstrução, fragmentação, um caminho para a abstração; o segundo, a colagem propriamente dita, se refere à (re)construção e (re)composição como um caminho possível diante dos fragmentos  físicos e/ou subjetivos. Colocar o paciente/cliente de Arteterapia na experiência do primeiro tempo fica a critério do arteterapeuta, tendo em vista se o sujeito necessita vivenciar o processo de desconstrução. Mas se ele já se encontra “fragmentado”, somente há sentido na vivência do segundo tempo.

A partir da prática e observação clínica, alguns aspectos sobre a colagem são importantes serem destacados:   

a)    As propriedades

A colagem é uma técnica estruturante e de controle. No diálogo com a imagem, coloca o sujeito em relação prioritariamente com a forma, em detrimento da cor. 

Todas as técnicas da Arteterapia estimulam as quatro funções psíquicas descritas por Jung, mas naturalmente em cada uma delas, uma função específica se torna protagonista. Na experiência da colagem, a função principal convidada é a Função Pensamento.

No primeiro tempo é trabalhada a desconstrução, fragmentação, quebra do estabelecido, o abrir mão: experiências que não raras vezes a vida impõe de forma avassaladora na biografia de um sujeito. Entretanto no segundo tempo, é proporcionada a experiência do controle: as linhas/traços são feitos com a tesoura; o processo envolve escolher, delinear, compor; a composição estimula a organização de múltiplos elementos, associações entre as partes, integração do fragmentado; a imagem se estrutura através dos contornos, limites, localização, circunscrição, tamanho definido.

b) O processo: verbos; ações e movimentos externos/internos

Colocar o sujeito na experiência com o material significa coloca-lo para agir sobre suas questões. Desta forma é interessante ao arteterapeuta atenta-se para os “verbos” ou as ações que cada material proporcionará externa e internamente em seu paciente/cliente.

No processo da colagem, no primeiro tempo, podemos destacar verbos como quebrar, fragmentar, cortar, desconstruir, destruir, decompor.

No segundo tempo, escolher, selecionar, priorizar, ordenar, planejar, organizar, reunir, integrar. Encontrar um “novo possível” (as vezes “não-belo”, não harmonioso, não equilibrado). (Re)compor, ressignificar, reinventar(-se).

c) Os potenciais

c.1) Perfis de pacientes/queixas, palavras chave:

O primeiro tempo é interessante ser proporcionado a sujeitos com enrijecimento de pensamentos, sentimentos, perspectivas, desejos ou construções e que a vida apresenta a necessidade de descontruir-se para reconstruir-se, ou seja a necessidade de  flexibilidade, lidar com o não controle sobre a vida.

O segundo tempo deve ser proposto para aqueles em que já houve a desconstrução, como cenários de perdas e/ou traumas (ego fragmentado). Para pacientes/clientes que apresentam desorganização, falta de equilíbrio, de contornos e limites, excessos, misturas, espalhamentos, transbordamentos de conteúdos, pensamentos, sentimentos.

Vale ressaltar que, ao contrário das ideias simplórias sobre a colagem, estas descrições se encaixam em qualquer momento de uma vida e consequentemente em qualquer estágio de um processo terapêutico.

c.2) Pouca resistência

Uma das grandes qualidades da colagem como técnica arteterapêutica se dá por não demandar grande histórico ou intimidade com o fazer artístico: os elementos já estão prontos, devem “apenas” serem selecionados e compostos. Sendo assim, ela é uma técnica propícia para os primeiros contatos com as técnicas expressivas, excelente porta de entrada para outras linguagens além da verbal, para o mundo das imagens e para o ato de criar, nas modalidades individual ou grupal.

Inicialmente trabalhos com figuras de revista se mostram as propostas mais indicadas, pois as imagens com tanto potencial projetivo estão postas para serem manejadas a partir da subjetividade de cada um. Mas a medida do aprofundamento da intimidade com o criar, abre-se ao arteterapeuta um campo para a ampliação dos materiais, como papéis de variadas cores, estampas e texturas além de tecidos e aviamentos. É possível ampliar ainda mais para utilização de qualquer material “estranho”, à inspiração de Picasso, considerado: 
“o descobridor da colagem, a qual pode ser descrita como a incorporação de qualquer material estranho à superfície do quadro... fragmentos de jornais, maços de cigarro, papéis de parede e tecidos estão relacionados com a nossa vida cotidiana; identificamo-los sem esforço e... formam parte de nossa experiência no mundo material que nos cerca...” (Golding in Stangos) 

Nesta perspectiva, cabe ao arteterapeuta fugir do senso comum e enriquecer ao máximo as possibilidades de materiais para colagens em seu atelier. É possível também estimular que o próprio paciente/cliente invista (de si) em coletar seu próprio material. Como referência na História da Arte, temos as assemblagens de Kurt Schwitters e sua Merz Art, vistas como uma espécie de coluna, quase um totem, feita de coisas encontradas ao acaso e acrescidas às outras, dia após dia. Uma composição de tudo o que por acaso caiu sob suas vistas ou esteve ao alcance da mão, chamou sua atenção por um instante, ocupou sua vida por algum momento - passagens usadas de bonde, pedaços de cartas, barbantes, rolhas, botões, etc. Com o objetivo de "criar relacionamentos entre as coisas do mundo", os elementos recolhidos e combinados que haviam sido descartados pela sociedade por não servirem mais, por terem cumprido suas funções (algumas pessoas podem se identificar com esta descrição), mas por serem "vividas", comporão o quadro, arte.
c.3) Repetição Criativa

“Repetir, repetir – até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo.”  Manoel de Barros 

O tempo de elaboração da clínica individual é singular e caminha ao ritmo do sujeito. Sendo assim, na prática, não há necessidade de trocar de material a cada sessão, pelo contrário manter-se em diálogo com um material e uma técnica (demorar-se, algo que tem se perdido em nossa contemporaneidade), proporciona o aprofundamento das reflexões e dos movimentos externos/internos. 

A colagem em sua diversidade de possibilidades em propostas e materiais, é uma excelente técnica que proporciona por tempo estendido a oportunidade da repetição para a elaboração: não a repetição obsessiva, mas a “repetição criativa” que possibilita retificações ao longo do processo de autoconhecimento.

c.4) Estimulação cognitiva idosos/seres humanos

Um dos benefícios da Arteterapia no trabalho com idosos se dá porque de forma criativa, lúdica, leve e convidativa os pacientes/clientes estimulam as mais variadas funções cognitivas como atenção, concentração, memória, linguagem, funções executivas, praxia, abstração. A estimulação cognitiva é um imperativo da gerontologia e no processo da colagem isto se dá de forma especial, acionando diversas funções cognitivas para a resolução da composição da imagem. 

Porém, independente da faixa etária, a colagem é encaminhada para qualquer contexto em que o arteterapeuta intente estimular a busca de soluções, o reconhecimento dos recursos, a criação de estratégias e suas execuções, além de trabalhar a proatividade, pensar fora da caixa, principalmente quando explorada a pluralidade de materiais.

d) Materiais de apoio

A medida da ampliação dos materiais utilizados na colagem, inclusive caminhando para a assemblagem, o arteterapeuta deve atentar-se para dispor em seu atelier de materiais de apoio que deem sustentação para o processo criativo e o encontro de soluções por parte do sujeito. É essencial  disponibilizar bases resistentes como papelão, papel paraná, cartão kraft grosso (de cor parda), papel duplex ou triplex (de cor branca), madeira, tela... Deve dispor também de materiais para colar diferentes elementos como cola cascorez, cola quente, fita crepe, grampeador, arame, gominha, tachinha, tachinhas tipo bailarina, prego...

Vale ressaltar que a pluralidade de materiais envolvidos na colagem, em geral, envolve materiais de baixo custo ou até mesmo reaproveitamento de materiais. Este é um dado que vai ao encontro da realidade prática de arteterapeutas que possuem poucos recursos de investimentos para materiais, como por exemplo em trabalhos institucionais em que a direção não oferece recursos para manutenção do material. 

e) Herança Simbólica

“Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível se reinventada.” Cecilia Meireles em Reinvenção

Na contramão de ideias preconcebidas que colocam a colagem como uma técnica simplória, o aprofundamento do estudo sobre sua história e sobre o potencial mobilizador de seu processo empodera o arteterapeuta para seu manejo no setting arteterapêutico. É importante que ele esteja seguro que o ato criativo da colagem possui uma profunda herança simbólica que remonta nos materiais movimentos de vida que demandam o (re)criar, o (re)construir e o (re)inventar, encaminhando o sujeito para uma “resiliência criativa”, as vezes imperativa para o atravessamento de uma biografia

Conclusão:

“Fracionar e rejuntar, como faz a colagem, não repõe a unidade quebrada. Ela não pasteuriza nem pacifica. Não tem vocação democrática se isto for entendido como união de todas as diferenças. Há diferenças que não cabem em determinadas formas mas cabem em outras.” Marx Ernst (Golding in Stangos)

Diante dos conteúdos citados, aos quais ainda se encontram em aberto, concluímos que a colagem se mostra  uma técnica com riquíssimas possibilidades e imenso potencial na prática da Arteterapia, cabendo ao arteterapeuta se aprofundar em seu estudo histórico e prático, além de investir em explorar sem reservas suas tantas variações em possíveis propostas, aplicáveis em todo e qualquer estágio do processo arteterapêutico.  

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:

PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades 
STANGOS, Nikos (org). Conceitos da Arte Moderna

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.

5 comentários:

  1. Excelente texto! Parabéns Eliana por sempre contribuir com seus conhecimentos nos auxiliando em nosso olhar e práticas. Gratidão!

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  2. Completamente suspeita por se totalmente possuída pelo recorte/colagem e lendo o artigo verfiquei o porque: tenho muito da função pensamento e gosto da "desconstrução" no processo de recorte, por ser uma espécie de desapego, afinal, não sabemos onde vai ser utilizada e em que contexto!

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    1. É muito bom quando nos identificamos com uma linguagem da arte, não é Angela? Um beijo!

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  3. Comentário enviado por Tania Salete:

    Excelente texto!! Contribuição eficaz e eficiente para ampliar, aguçar e buscar mais conhecimento sobre esta técnica tão incrível. Só gratidão por tanto que vc tem nos proporcionado, para além de livros!

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