segunda-feira, 10 de julho de 2023

ARTETERAPIA E LUTO DE PET: UM RELATO DA ELABORAÇÃO SIMBÓLICA DA DOR PELA MORTE DE PET – PARTE 1

  


Por Paula Ribas Carlino - SP

@paularibascomunica

www.nametadedolivro.blogspot.com 

 

“A natureza é um continuum e,

muito provavelmente, a nossa psique também o é”

Carl Jung - vol. 18

 

“Gato simplesmente angorá do mato

azul olhos nariz cinza

gato marrom

orelha castanho macho

agora rapidez

Emoção de Lidar”

 

Luiz Carlos - cliente da Dra. Nise da Silveira, cuja última frase de seu poema frase dá nome ao livro “Emoção de Lidar”, escrito pela Dra. Nise, na qual aborda sobre os animais de estimação como coterapeutas e a relação dos animais domésticos com os seres humanos.   

 

Introdução

A dor da perda de quem se ama nem sempre pode ser expressa por palavras, especialmente quando a perda é um bichinho de estimação (pet), na qual a relação não era efetivamente pela palavra, e sim, por múltiplos modos de comunicação, troca, cuidado, carinho e afeto. 

Aqui refiro-me aos pets qualquer que seja o animal de convívio doméstico e diário, pode ser um cachorro, um gato, uma ave, um porquinho da índia, uma iguana, um coelho, um hamster, enfim, qualquer animalzinho da qual haja cuidados e amor.  

Este artigo pretende compartilhar a elaboração sobre a dor a partir da experiência de vínculos de afetos significativos com pet, da qual extrapola relações consanguíneas como o único modelo para sentir dor e passar por um processo de luto.  A experiência do luto vai além do que se é possível compreender, pois não há um modelo único de como passar pela experiência da morte, seja física ou simbólica. Esse artigo, dividido em duas partes, pretende compartilhar a elaboração e a ritualização física e simbólica dos primeiros 30 dias do processo de luto de pet, por meio da Arteterapia.  

O Tabu do Luto Pet 

Se a morte e o luto ainda são considerados temas tabus, difíceis de lidar de modo coletivo e individual, o luto de pet é ainda mais estigmatizado na atual sociedade brasileira. Há pouca compreensão sobre a dor da morte de um bichinho de estimação, pois algumas pessoas passam por essa experiência de modo mais leve e outras pessoas vivem essa experiência de modo agudo e às vezes de modo crônico. 

Quase sempre há comparação da dor da morte de um pet com a dor da morte de uma pessoa. São experiências distintas e não comparáveis, do ponto de vista das emoções, pois essa relação e, consequentemente, essa dor da perda, está ligado ao vínculo de afeto e cuidados estabelecidos entre tutores e pets. A dor não está associada às ligações consanguíneas, e sim de afeto, presença, cuidados e troca.  Haja vista que o processo de luto é algo pessoal, subjetivo, com reverberações e impactos distintos, em tempos diferenciados para cada pessoa. Assim, como o amor, cada qual sente e expressa à sua maneira.

No entanto, processos de luto estão além da morte meramente física, reverberam de modo único e, até mesmo, inesperado, em cada pessoa. Vide a experiência na clínica psiquiátrica da Dra. Nise da Silveira, na cidade do Rio de Janeiro, na qual ela utilizava cães e gatos, como coterapeutas, para auxiliar os internados na reconstrução em experienciar relações de amor e de amizade. Esse vínculo deu novo sentido de vida para muitos internos, especialmente, expresso pela arte.

Na área da psicologia é possível mapear os lutos materiais e os simbólicos, como processo de desligamento ou finitude de uma relação (de qualquer ordem). A psicóloga Dra. Gabriela Casellato, especialista em processos de luto e autora de livros no tema, aborda sobre os “lutos não reconhecidos" e define como: “lutos vividos de maneira silenciosa, nem sempre compreendidos". Na introdução do livro ela já faz o recorte sobre o lugar que essa dor tem: 

Este livro é um convite a refletir sobre a nossa impermanência, as mudanças da vida e os lutos necessários aos ajustamentos das transições normativas ou não, concretas ou simbólicas, experimentadas ao longo de nossa existência. Em especial, aborda como as perdas silenciosas e não validadas são enfrentadas por tantas pessoas diariamente. (CASELLATO, 2015)

Há muitas dores e vivências de modo solitário e, frequentemente não validado e a dor do luto de pet ainda está neste lugar.  É um desafio lidar com a ausência e viver essa dor de modo silencioso. Como encarar a não compreensão e a legitimação do luto pet com a delicadeza e a subjetividade com a qual se apresenta para cada pessoa?

A dor de perder um animal não é um tipo diferente de dor - dor é dor! Por isso, quer perca uma pessoa, uma casa, uma segurança financeira, um emprego, uma relação ou o seu querido animal, está a lidar com as mesmas emoções e tem de processar a perda para poder seguir em frente de forma saudável.  (MILLIE, 2022)

O trecho acima é do livro “O luto por um animal de estimação”, que aborda diretamente este tema. É sabido que na vida não é possível viver sem dor, sem a perda. Pois renunciar a isso significa também renunciar ao amor.  Não amar, escolher não se vincular a um pet parece mais vazio que viver a dor do luto da morte dele. Viver sem amar, definitivamente, não vale a pena. Mas, vale o diálogo e a produção de trocar ideias para minimizar os sofrimentos desta experiência desafiadora. 

A Dra. Gabriela Casellato toca num ponto que intitula como “lutos não reconhecidos” e nos provoca ao afirmar sobre a “crise empática", ela diz:

O problema social não é nem nunca será a morte e o luto, pois estes não apenas organizam e dão contorno à existência como também favorecem o sentido da vida. O desafio é a crise empática que nos aprisiona num universo de identidades verticais num mundo que se transforma constante e rapidamente. Não apenas somos. Estamos. E, diante do inexorável processo de ajustamento à vida, transformamos e somos transformados. (CASELLATO, 2015)

O desafio da crise empática é reconhecer essa dor, essa perda por um animal de estimação como legítima, sem comparações e sem justificativas de validação. Junto com isso existe o trabalho pessoal de transformar essa dor. O que está por trás da dor do luto de pet? Quais sentimentos, carências, fissuras podem ser encontradas? O que essa dor faz emergir, o que permite vir à tona?  Subjacentes aos enfrentamentos se faz necessário cuidar do que essa dor foi capaz de fazer emergir, que até então não estava revelado para a pessoa. Essas questões oportunizam processos de autoconhecimento muito profundos. 

Nos dias de hoje, existem alguns manejos e abordagens que apoiam a dor do luto de pet sem julgamentos, comparações ou até mesmo preconceitos. E, certamente, a Arteterapia tem sido uma aliada nesse cuidado psíquico e emocional, posto que uma das práticas usadas em ateliê terapêutico é o manejo dos 4 elementos da natureza, (entre outras abordagens) que ajuda a olhar a natureza como algo inerente à vida humana. Essa sensibilização quanto a natureza se estende à relação com os animais de estimação e a natureza como um todo. 

A Arteterapia tem condições de dar o suporte necessário para essa questão tão humana, posto que os animais de estimação estão em muitos lares, contribuindo com o conforto emocional de muitos adultos, crianças e idosos. A Arteterapia colabora atuando de modo profundo, leve e criativo dando espaço às expressões e as emoções que precisam fluir e reacomodar-se de modo mais saudável para integrá-las. 

Ritualizar para a elaborar a dor da perda, a dor do luto

A Arteterapia no acolhimento tende a facilitar a abertura de um espaço de expressão e visualização da dor e do sofrimento. A Arteterapia oportuniza materializar, ver fora, o que incomoda dentro. Isso ajuda na compreensão e elaboração de qualquer desconforto, bem como, na dor. E, no luto, não seria diferente, pelos materiais manipulados de modo intuitivo, por quem executa, o sentido aparece por meio dos símbolos, formas e cores.  A produção com arte oferece um modo de atuar diretamente naquilo que não pode ser tocado, mas pela arte esse processo é possível: 

 

Em Arteterapia, os “sinais” são registrados através da produção simbólica, pela cor, formas, movimento, ocupação no suporte e padrões expressivos gerais. Ao apreender gradualmente o significado destas configurações, é possível permitir, que pouco a pouco, conflitos sejam elaborados e conteúdos até então desconhecidos possam acessar a consciência.  (PHILIPPINI, 2008)

Nessa caminhada existe uma jornada a ser feita que consiste em reaprender a ter uma rotina sem o pet, conviver com ausência e, assim, acomodar a dor e construir (ou encontrar) um novo sentido à própria vida.  Ritualizar para continuar e, novamente, encontrar o fio da meada que dá sentido à vida sem esse importante vínculo de amor:

“A maior sombra humana é pensar sobre a morte, isso desde sempre. Por muito tempo, achavam que o único bicho que sabia que iria morrer era o humano. E por um bom tempo se pensou que era o único que ritualizava a morte. Considerado um marco fundador para diferenciar os bichos dos humanos pensantes.   E hoje se sabe que os animais também ritualizam seus mortos, por exemplo, os elefantes, ou seja, eles entendem o que aconteceu e sentem o pesar e se despedem do jeito deles.”   Jaime Vaz Brasil, poeta e psiquiatra *

Ritualizar é celebrar a vida daquele ser que esteve conosco. É considerar e honrar a sua existência, é amor em forma de gratidão.

Minha Experiência com a Tulasi, a gatinha coterapeuta

Neste momento início o compartilhamento com vocês sobre os caminhos que encontrei para lidar com a morte da Tulasi, a gatinha que ficou comigo por 7 anos (de 2016 a 2023). Eu já tive outros pets, desde a infância, mas uma gatinha foi a primeira vez e da maneira como aconteceu meu encontro com a Tulasi foi muito especial.  Nenhum outro me marcou tanto como ela marcou minha vida.

A Tulasi chegou dentro de um relacionamento afetivo, que durou 14 anos. Ela foi fruto de uma história pessoal, da qual encontrei espaço para realizar um desejo da minha adolescência.  Quando eu tinha uns 14, 15 anos achei um filhote de gatinho na rua, muito pequenininho, sozinho, pelinho preto com cinza. Fiquei muito apaixonada por ele e o levei para casa. Meus pais trabalhavam fora o dia todo, então fiquei sozinha com o gatinho o dia inteiro. Brinquei com ele, dei leite, foi uma diversão o dia todo. Quando minha mãe viu não me deixou ficar com ele. Devolvi onde tinha encontrado, mas fiquei com esse desejo de viver com o gatinho. Isso ficou marcado em mim.

Depois de 25 anos esse momento voltou e eu pude realizar em viver essa relação e esse amor. Uma amiga conhecia uma pessoa cuja gatinha estava prenha. Pedi se eu poderia ficar com um filhote. E, assim, a Tulasi entrou na minha vida.

Acompanhei a gestação da Afrodite, mãe da Tulasi, fazia visitas, levava mantimento e ficava já por perto. Assim, fui construindo sua chegada e montei o enxoval.


A Tulasi me escolheu
, pois ao olhar para os filhotes que eu queria, já estavam comprometidos com outros tutores.

Meu critério de escolha era pela aparência, eu tinha uma idealização de como seria a minha gatinha. Essa foi a primeira lição que a Tulasi me proporcionou. Eu queria amar e cuidar e a Tulasi também queria. Foi quando a tutora da Afrodite me mostrou um filhotinho e era a Tulasi. Sempre que eu a visitá-la estava dormindo. Eu a pegava e já falava com ela, pois cabia na palma da minha mão, eu dizia que a amava. E assim foram por 3 meses. Quando ela desmamou eu a levei para casa.  E, assim, começou a minha grande oportunidade de amar e me deixar ser amada. Aqui começa a realização do meu desejo da adolescência, finalmente, tinha chegado o Amor Incondicional na minha vida, em forma de Tulasi com todos os significados. 



                    
A primeira noite da Tulasi em casa.  Foto: arquivo pessoal

 

No próximo texto continuo a reflexão sobre o luto pet a partir da contribuição da Dra. Nise da Silveira, na qual retrata os animais como coterapeutas. E compartilho a minha jornada em processos terapêuticos, por meio da Arteterapia, para ritualizar e lidar com a dor do luto.

 

* PodCast

Podcast Manual do Luto: 4º episódio - Podcast Manual do Luto. Entrevistado: psiquiatra e poeta Jaime Vaz Brasil. Entrevistador: Fabrício Carpinejar, escritor e poeta. 

 

Bibliografia

BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Ed. Saraiva. 1996.

CASELLATO, Gabriela. Os lutos de uma pandemia. In: ______. (org.). Luto por perdas não legitimadas na atualidade. São Paulo. Ed. Record, 2015, pág. 10.

 MILLIE, Jacobs. Livro eBook. Portugal. Ed: ASA, 2022, pág. 9

PHILIPPINI, Ângela. Para Entender ArteTerapia: Cartografias da Coragem. 4. ed. - Rio de. Janeiro: Wak, 2008, pa. 17

SILVEIRA, Nise. Gato, emoção de lidar. Rio de Janeiro. Leo Christiano Editorial. 1998, pag. 30

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Sobre a autora: Paula Ribas Carlino

 


Formação: Arteterapeuta e Jornalista

Área de Atuação: Arteterapeuta especializada em comunicação e expressão, seja na produção de texto, conteúdo em rede social, vídeo, criação de site ou livro autoral/biográfico/autobiográfico. Atua também em trabalho direcionado para mulheres, especializada no estudo do livro: “Mulheres que correm com lobos”, da autora Clarissa Pinkola Estes, entre outros estudos do feminino. Tem a literatura, os livros, as histórias, os contos de fadas e a mitologia como aliados no processo de autoconhecimento e expansão de consciência.


3 comentários:

  1. Ola, Paula! Que tema interessante e inusitado, porém completamente necessário. QUe bom poder ler sobre isso pelo viés da Arteterapia. Certamente o luto é um desafio e experiências pessoais de como lidar com os diversos tipos de lutos é algo que precisamos discutir mais vezes. Tenho algumas experiências de lutos e de como a Arteterapia foi fundamental no processo de ressignificar cada um deles. Estou gostando bastante da temática e desde e já, desejo conforto ao seu coração pela perda da linda Tulasi. Parabéns e obrigada por abordar algo tão importante. Aguardo pelo próximo capítulo e que sejam muitos porque o tema é imprescindível. Tania Moreira - Caminhartes.arteterapia.

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  2. Parabéns pela abordagem e sensibilidade.

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  3. Que forma linda de lidar essa perda! Muito inspirador querida!

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