segunda-feira, 29 de julho de 2019

GRANDES ARTISTAS NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: BEATRIZ MILHAZES



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
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No último ano estive dedicada ao estudo sobre uma artista brasileira bastante instigante: Beatriz Milhazes. O despertar para esta artista nasceu no grupo de estudos “Teorias da Arte e Arteterapia” ao qual temos como leitura mestra o livro “Do espiritual na arte” de Wassily Kandinsky. Nesta obra, dentre tantos pontos tão profundos, Kandinsky nos fala da expressão artística com alma, ao qual o artista entrava em contato com o “belo interior”. 

Ao nos debruçarmos sobre o conceito de “belo” na arte, que está muito além da conotação banal que dele utilizamos no sendo comum (para saber mais sobre este tema, veja o texto “Para 2019, a fúria da beleza”), nos deparamos com Beatriz Milhazes, considerada por alguns críticos como “o oásis do belo na arte contemporânea”. 

No aprofundamento na vida e obra de Beatriz, nasceu em mim a sensação de que esta artista, de fato, é um oásis na arte contemporânea e na contemporaneidade como um todo. A pesquisa sobre possíveis inspirações (diretas ou indiretas) e aplicabilidades de seu trabalho para a Arteterapia foi um deleite. Este estudo foi compartilhado em alguns encontros do grupo de estudos e palestras e hoje trago uma síntese do que (até aqui) pude ouvir deste encantador diálogo entre Beatriz Milhazes e a Arteterapia. 

Beatriz Milhazes


Beatriz, artista-mulher-brasileira-viva, nasceu no Rio de Janeiro, 1960.  É pintora, gravadora e ilustradora. Realizou sua formação em artes plásticas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no período de 1980 a 1983. Participou das exposições que caracterizaram a Geração 80 - grupo de artistas que buscaram retomar a pintura em contraposição à vertente conceitual dos anos de 1970.

A partir dos anos 1990, destacou-se em mostras internacionais nos Estados Unidos e Europa e integra acervos de importantes museus pelo mundo. É a artista brasileira mais bem cotada no mercado exterior. O quadro “Mágico” foi arrematado em 2009 por mais de 1 milhão de dólares em um leilão na Sotheby’s em NY. É o maior preço pago por um quadro de artista brasileiro vivo até hoje.  

Beatriz mistura abstração, geometria, modernismo, pop art, concreto e neoconcretismo brasileiros. Mas a cor é um elemento estrutural na obra da artista. São cores intensas e padronagens que atraem o olhar, intensificam sensações. A manufatura é muito importante nos trabalhos da artista, que tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais. Também faz colagens sobrepondo camadas de cor com materiais como embalagens de bala e chocolate, e papéis de diversas cores e texturas.  

Inspirações para a Arteterapia

“[Na tela em branco] posso construir meu mundo... Desenvolver minhas ideias, meus conceitos...” Beatriz Milhazes 

1)    A construção de um estilo próprio

No início de seu percurso como artista, seu trabalho era diferente de tudo que se fazia na época, mas fiel a si, insistiu em seu “caminho solo”. 
Fazia parte de um grupo de artistas que buscavam o resgate da pintura em contraposição a vertente conceitual em vigor. Mas ainda assim, diferente de seus pares,  buscava uma pintura não gestual, geométrica. Certa vez, quis incluir em sua pintura um pedaço de chitão ou renda, o que causou grande espanto em seus professores, mas seguiu na construção de seu caminho autoral. 

Em Arteterapia, nos inspiramos em Beatriz, quando um sujeito está em busca de si e seu estilo. Em busca de sua singularidade e seu aprimoramento. Mas este processo demanda um trabalho de construção e um grande investimento de energia psíquica.  

2)    Pesquisa de técnicas e materiais

Este percurso de construção é calcado na busca dos recursos necessários e possíveis. E por isso o trabalho da artista tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais, fazendo com que a manufatura seja muito importante no processo. 

A artista conta que sempre teve um olhar voltado para a colagem e que desejava incluí-la em seu trabalho. Em meio às suas pesquisas descobriu a técnica da tinta acrílica sobre o plástico para criação de camadas, alcançando a colagem, mas com o intuito de permanecer no bi apesar da sensação de tridimensional.

Em Arteterapia nos inspiramos em Beatriz em sua pesquisa e persistência na busca de recursos e soluções no processo de construir(-se). Este percurso é construído com tentativas, erros e acertos, rumo ao encontro de seus desejos. 

3)    Construção em camadas



Para mim, uma das grandes riquezas do trabalho de Beatriz está no processo de construção em camadas. Em seus trabalhos, a artista também faz colagens sobrepondo camadas de cor, tanto com materiais como embalagens de bala e chocolate, e papéis de diversas cores e texturas, mas também colagens com suas próprias imagens. Sendo assim, seu processo criativo se dá em camadas, como um passo a passo, em um mesmo trabalho.

Descobri em Beatriz a inspiração para a permanência em uma mesma imagem ao invés de a cada sessão arteterapêutica iniciar um trabalho novo. Afinal, o processo de construir-se se dá com a permanência e o aprofundamento do olhar para um cenário de vida. O convite ao paciente é para que antes de partir para algo novo,  que ele não se contente com uma (falsa) sensação de conclusão mas possa experimentar a continuação e o aprofundamento da imagem: “O que mais?”, “Qual é o próximo passo?”, “Como continuar?”, “Como aprofundar?”.

Na prática este processo pode ser feito alterando os materiais a cada reencontro com a imagem: de uma pintura podemos propor uma segunda camada de materiais de desenho e uma terceira camada com materiais de colagem, por exemplo. Eis um verdadeiro caminho de construção. 

Pintura

Desenho

Colagem


4)    O tempo: lento

Naturalmente este processo criativo de permanência do olhar demanda um demorar-se sobre a imagem e a experiência. 

Beatriz é conhecida por ser uma artista bastante meticulosa, que dá muita atenção aos detalhes. Tem o hábito de ficar de seis a sete horas por dia no ateliê, num processo que ela afirma ser muito lento. A produção se mantém a mesma até hoje: no máximo 10 telas por ano. 

Em nossa contemporaneidade tão acelerada naturalmente ficamos prejudicados quando é necessário um aprofundamento. Beatriz nos convida ao demorar-se no processo criativo, ao permanecermos na imagem e entrarmos em contato com sua essência. A cada camada somos convidados a reencontrá-la, explorá-la, reinventá-la, aprofundá-la.   

5)    Preenchimento

“Por enquanto o que mais me desafia é a possibilidade de preencher uma tela em branco.” Beatriz Milhazes 

As obras de Beatriz têm como marca os múltiplos elementos que se harmonizam de forma bem equilibrada. Integrar muitos elementos sem que se dê um aspecto entulhado demanda a capacidade de organização. Naturalmente esta capacidade não é algo que alcançou com facilidade, mas demandou bastante investimento para o desenvolvimento do método. 

Em Arteterapia, nos inspiramos em Beatriz quando buscamos o preenchimento do vazio, mas no encontro do ponto de equilíbrio entre o vazio e o excesso. A prática nos mostra que quanto mais exploramos o método do trabalho em camadas, mais compreendemos a forma de composição dos elementos de maneira harmônica. 


6)    Beatriz Milhazes, palavras chave:

Tenho por hábito buscar as palavras chave de cada técnica ou material, para que oriente minha escuta e manejos arteterapêuticos no momento do atendimento. No mergulho na obra e processo da artista pude destacar algumas palavras chave. 

Cor.
Abstrato, geometria.
Preenchimento, estruturação, organização, equilíbrio, integração.
Lentidão, demorar-se, aprofundar-se.
Mergulho, introspecção, introversão, intuição.
Camadas, etapas, sobreposição, crescimento, composição, construção.
Experimentação, pesquisa, persistência, disciplina, busca de recursos, encontrar soluções. 
Continuação, explorar mais, evolução. 

7)    Técnica mista, intermediária, de interseção e integração:

O processo criativo em camadas, principalmente ao autorizar-nos a abertura para o tridimensional, se dá na integração de diferentes linguagens da arte: pintura, desenho, colagem, assemblagem, escultura e outros. Sendo assim, uma técnica mista. 

Os trabalhos arteterapêuticos inspirados na obra de Beatriz, têm como  propriedade a integração por ser uma técnica de expansão e contenção, uma técnica de expressão de sentimentos através da cor ao mesmo tempo que estruturante e organizadora. Sendo assim, acessa simultaneamente as funções sentimento e pensamento. 

8)    Estimulação cognitiva:

A prática com idosos mostrou que este processo criativo é bastante estimulante cognitivamente em várias funções. Neste texto destaco o potencial do estímulo da atenção, sendo ela um processo cognitivo pelo qual o intelecto focaliza e seleciona estímulos, estabelecendo relação entre eles. Sua função é focar a consciência, distinguir prioridades e estabelecer critérios de raciocínio. 

Dentre as múltiplas subdivisões da atenção, todo o processo criativo descrito acima é rico no estímulo da atenção concentrada (quando os outros estímulos menos importantes, passam a fazer parte do “fundo” e a capacidade de retenção de informações relevantes) e da atenção sustentada (capacidade de focalizar um estímulo e se manter em uma mesma atividade contínua por tempo prolongado sem distrações).

O diálogo entre Beatriz Milhazes e possíveis inspirações diretas ou indiretas para as práticas da Arteterapia deu-se como um grande deleite dentro dos meus estudos. Beatriz me ensinou sobre o trabalho em camadas e com ele o demorar-se, o aprofundar-se e o construir-se. 

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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga. 


Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

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