segunda-feira, 6 de maio de 2013

"Não acredites em tudo que disser a minha boca..."


"Não acredites em tudo que disser a minha boca.
Sempre que eu fale ou cante, 
Quando não parece, é muito
Quando é muito, é muito pouco
E depois, nunca é bastante"
Cecília Meireles

Tenho observado que alguns pacientes decidem ingressar em um processo terapêutico, mas a demanda que trazem sessão após sessão não são suas questões propriamente ditas, mas suas queixas em relação ao outro: o marido, a mãe, a cunhada, o médico que cometeu um erro...
Sim,  são queixas bastante pertinentes e isso causa dor, angústia, traz sofrimento. E sim, é sabido que falamos de nós mesmos quando falamos do outro. Mas certos pacientes me intrigam por sessão após sessão repetirem suas queixas sobre o outro, durante semanas, meses, anos, o mesmo discursos queixoso. As vezes tenho a sensação de que querem convencer (à quem?) de seu ponto de vista, que o outro é culpado, e ele injustiçado. Até que em um dado momento me vem à mente: “e cadê você?”
Embora estes pacientes, com frequência apresentem grande demanda de fala, em certos momentos tenho lançado mão de algo que pertence à fala do paciente e faço o gancho com alguma proposta em arteterapia. Tenho me surpreendido com o que se segue!
O convite para se fazer um trabalho em arteterapia, seja ele a linguagem que for, desde que faça sentido para o paciente, parece que traz de forma bem subliminar as perguntas: “pois muito bem. E diante disto tudo que você me conta, o que você sente? O que causa em você vivenciar isto? O que você pensa? Aonde você está nisto? Quem é você no meio disto?” Em resumo: a arteterapia vem como um convite a... literalmente, se olhar. E então, se pensar em meio ao que se vive no dia a dia e falar de si.
Ao aceitar este convite, tenho visto pacientes se deslocarem do discurso repetido, conhecido e decorado, falarem mais de si, se perceberem, se reconhecerem e até recolherem algumas expectativas sobre o outro, e voltarem para a relação com este outro de forma mais consciente de si próprio. 

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