segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A ARTETERAPIA E O BRINCAR COM MATERIAIS DE LARGO ALCANCE



Por Claudia Tona

@libelula_psicopedagogia



"A criação de algo novo não é realizada pelo intelecto, mas pelo instinto de brincar agindo por necessidade interior. A mente criativa brinca com os objetos que ama." Jung

O que a arteterapia pode acrescentar ao brincar e vice-versa? Esta pergunta pode ser respondida quando experimentamos as duas coisas juntas, ou melhor, quando descobrimos que brincar carrega muito da arte e que a arte carrega muito do brincar. Lev Vygotsky diz, em sua obra “A Formação Social da Mente” que “ao brincar, a criança assume papéis e aceita as regras próprias da brincadeira, executando, imaginariamente, tarefas para as quais ainda não está apta ou não sente como agradáveis na realidade.” (2007, p. 83). Quando incluímos o brincar nas vivências com crianças, adolescentes e até mesmo adultos, é possível observar uma liberação das inibições e passamos a perceber o quanto a criatividade é impulsionada nesses momentos de criação livre, de inventividade.

O presente texto foi inspirado numa vivência com pessoas adultas, educadoras e educadores ávidos por levar propostas diferenciadas aos seus educandos. Mas, acima de tudo, o que se deseja mesmo, é dar espaço ao arquétipo criança, voltando ao livre brincar e, daí sim, compartilhar estas experimentações. Na Oficina “A Arte do brincar”, além da proposta de criação de brinquedos com materiais de largo alcance (ou materiais não estruturados), surgiu a reflexão em torno dos brinquedos que as crianças mais acessam atualmente e os brinquedos e brincadeiras que carregam a nossa ancestralidade: como podemos reavivar essa chama deixada por quem veio antes de nós? Como reaprender a criar peças que saem da nossa imaginação, como os primeiros humanos? E é aí que surge a flexibilidade dos materiais de largo alcance.

Mas que materiais são esses? O termo "materiais de largo alcance", no contexto pedagógico, é a tradução da expressão em inglês "loose parts" (literalmente "peças soltas" ou "partes soltas") e tem origem na teoria desenvolvida pelo arquiteto e designer paisagista Simon Nicholson, cuja teoria mostra que as crianças deveriam ter a oportunidade de brincar com materiais versáteis e que pudessem ser inventados, construídos, desenvolvidos e modificados por elas mesmas. Ele criticava os ambientes de lazer e playgrounds modernos por serem muito estruturados e limitarem a criatividade infantil.

A relação entre arte e materiais de largo alcance é profunda e simbiótica: os materiais de largo alcance servem como ferramentas essenciais e ilimitadas para a expressão e experimentação artística, enquanto a arte oferece o campo fértil para que o potencial desses materiais seja plenamente explorado.



Em Arteterapia, esses materiais são frequentemente referidos como materiais expressivos ou recursos artísticos, e a sua utilização possui um potencial terapêutico significativo, cuja exploração livre se torna uma ferramenta poderosa para a expressão, a comunicação e o bem-estar emocional. A seguir, alguns pontos de convergência e benefícios do uso desses materiais no setting arteterapêutico:

Expressão Não-Verbal: Para a arteterapia, o ato de criar é um meio de expressão, especialmente para indivíduos que têm dificuldade em verbalizar seus sentimentos ou experiências traumáticas. Os materiais de largo alcance, por sua natureza aberta e versátil (panos, sucatas, elementos da natureza, etc.), permitem que as pessoas projetem seus mundos internos de forma simbólica e metafórica, sem a pressão de "fazer arte" de uma maneira específica.

Foco no Processo Terapêutico: Assim como na, na arteterapia o foco recai sobre o processo de criação e não no produto final. A manipulação, organização e transformação dos materiais ajudam o indivíduo a explorar emoções, a desenvolver a consciência de si mesmo e a encontrar novas perspectivas. A riqueza das situações faz emergir um registro mais fino e matizado das reações, o que facilita a ação terapêutica.

Estímulo à Criatividade e Resolução de Problemas: A ausência de instruções prontas ou de um "uso correto" dos materiais de largo alcance estimula a criatividade e a capacidade de resolver problemas (como juntar peças, equilibrar, construir). Isso se traduz em habilidades de enfrentamento e adaptação na vida real, um objetivo central da terapia.

Acessibilidade e Descompressão: Sendo materiais de baixo custo e fáceis de obter, eles tornam a arteterapia mais acessível e menos intimidadora do que materiais de arte tradicionais. A simplicidade dos materiais ajuda a desarmar resistências e a facilitar a entrada no processo criativo, junto aos materiais específicos de expressão artística ou não.

Reaproveitamento e Transformação: A prática de buscar potencial em objetos "descartados" ou "abandonados" reflete simbolicamente um caminho de transformação e integração de partes da própria vida ou psique do paciente, um conceito poderoso na arteterapia.

Acesso ao Inconsciente: O ato de brincar, sem metas ou julgamentos, permite o acesso ao inconsciente e a expressão de conteúdos simbólicos e arquetípicos, essenciais para a integração psíquica (processo de individuação).

Expressão Simbólica: O brincar simbólico e as narrativas (contos de fadas, mitos) são linguagens da psique que permitem a manifestação de imagens internas, que podem então ser trabalhadas terapeuticamente.

Integração dos Opostos: O brincar pode ser uma forma de integrar opostos (como o consciente e o inconsciente, ou a luz e a sombra), promovendo o equilíbrio psíquico.

Em resumo, os materiais de largo alcance oferecem um vasto leque de possibilidades expressivas e simbólicas que são perfeitamente alinhadas com os princípios e objetivos da arteterapia, que busca a cura e o autoconhecimento através da expressão criativa.



Mas não para por aí. Um dos mais relevantes benefícios do uso desses materiais é o combate ao consumismo infantil, um assunto muito sério. O consumismo infantil é frequentemente impulsionado pela publicidade e pela ideia de que a felicidade vem da posse de brinquedos industrializados, muitas vezes de plástico e com um propósito único e limitado. Os materiais de largo alcance (caixas, tampinhas, tecidos, elementos da natureza) oferecem uma alternativa de baixo custo e alta versatilidade, desafiando a necessidade de comprar constantemente novos brinquedos prontos. Além disso, ao brincar com objetos simples do dia a dia, as crianças (bem como os adultos que delas cuidam) aprendem a valorizar a riqueza do que está ao seu redor, em vez de desejar apenas produtos de marcas específicas, sendo protagonistas na criação, pois participam ativamente de todo o processo de brincar, desde a concepção da ideia até a concretização da brincadeira, o que a torna menos suscetível à passividade imposta pelo consumo. E tudo isso promove a sustentabilidade através do reaproveitamento e da redução de resíduos, resultando na conscientização ambiental tão necessária nos nossos dias.

Para finalizar, o brincar um direito previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA):

Direito à liberdade: O Artigo 16, inciso III, do ECA, estabelece que o direito à liberdade "compreende brincar, praticar esportes e divertir-se". Dever da família, sociedade e Estado: O Artigo 3º do ECA determina que é dever de todos garantir esse direito, sem exceção. Proteção integral: O direito ao brincar é um dos pilares da proteção integral garantida pelo ECA, que assegura que crianças e adolescentes se desenvolvam em condições de liberdade e dignidade.

Isto posto, que tal lembrar de quantas crianças você conhece (inclusive você e seus clientes) que preferem brincar com a caixa do brinquedo novo que ganhou do que com o próprio brinquedo? Proponho então um desafio: conheça e faça uso dos materiais de largo alcance e encontre possibilidades ilimitadas de materiais expressivos para criar e ser feliz!

“É bom recordar que o brincar é por si mesmo uma terapia” (WINNICOTT, 1975, p. 83.)

 


REFERÊNCIAS

VYGOTSKY, L. S., A Formação Social da Mente: o Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores. Edição em Português: Martins Fontes. RJ. 2007.

NICHOLSON, S. Theory of Loose Parts, How Not To Cheat Children: The Theory of Loose Parts. Landscape Architecture, Louisville, v. 62, n. 1, p. 30-34, jan. 1971.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras Oficial da União, Brasília, DF, 16 em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 19, nov. 2025.

 

APRESENTAÇÃO DO AUTOR Nome:

Claudia Tona

Formanda em Arteterapia pelo Espaço terapêutico Caminhos do Self, no Méier, RJ.

Como Pedagogoga e Psicopedagoga, atuou em todos os segmentos da Educação Básica, da Educação Infantil ao Ensino Médio, EJA e Educação Especial e Inclusiva, tanto como professora quanto gestora; nas escolas públicas e privadas, a Arte sempre foi seu instrumento principal, sua varinha de condão.

Atualmente, faz atendimentos individuais e em grupo, tendo como base a Psicopedagogia com abordagem em Arte.

É Coordenadora do Solar do Guri, segmento infanto-juvenil do Solar Artes e Terapias em Piratininga, onde organiza junto com a Trupe Ensolarada, eventos para celebração do brincar através da Arte.

Compõe a equipe multidisciplinar do Espaço Terapêutico Cíntia Magacho, no Centro de Niterói, onde realiza atendimentos individuais e participa da organização de Workshops periódicos sobre aprendizagem e saúde mental.

Na Fundação Cultural Avatar, no Ingá, promove a Oficina Sementes ao Pôr-do-sol, com pessoas maduras as protagonistas do presente relato.

Contato: claudiatona63@gmail.com 
 @libelula_psicopedagogia

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

ARTETERAPIA COMO FERRAMENTA PROFILÁTICA NA SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES

 

Por Luigina Lucia Palermo/ RJ

       e Tania Moreira/ CE

 

                                                                               “O homem saudável é aquele que

                                                                                                                           possui um estado mental e físico em perfeito equilíbrio.”

 

                                                                               (Hipócrates, considerado o pai da

                                                                                     medicina científica. 460 a.C.-37a.C.)

 

INTRODUÇÃO

 

Como a Arteterapia passa a ser um canal de superação e bem-estar para o professor? O que é preciso transformar?

           Esta  resenha explora a percepção que se tem sobre determinados acontecimentos marcantes, que nesta contemporaneidade tem sido observado com uma crescente preocupação, devido às pressões características de um ambiente escolar e nas mudanças que são constantes no sistema escolar, gerando instabilidade na saúde e na vida profissional do professor, e que também, quando em um momento particular sensível de sua transição trabalho-aposentadoria, é seguido de um processo de adaptação de uma nova rotina e identidade, o que faz refletir na forma de como se sente, como deve agir e como deve se determinar às mudanças.

A reflexão aqui proposta é sobre a importância da prevenção, da promoção e de um caminho de superação, que são abordagens diferentes, mas que se complementam, para alertar e trazer luz sobre a da saúde mental dos professores atuantes/ativos e dos professores em processo de transição trabalho-aposentadoria, da Rede Pública de Ensino, com foco no processo terapêutico alinhado à Arteterapia, propiciando a evolução da consciência, numa abordagem da Psicologia Analítica de Carl Jung.

   

 A SAÚDE MENTAL DO DOCENTE

            As jornadas excessivas de trabalho, pressões por resultados, exigências de desempenho e produtividade, desvalorização profissional, falta de suporte institucional, etc., ressoam negativamente e impactam a saúde dos professores em sua atividade laboral, desencadeando,  às vezes,  um conjunto de sinais do corpo e da psique (alma, espírito, mente), que caracterizam um  sofrimento mental, e como também, diante das mudanças da transição trabalho-aposentadoria (por sua vida estar profundamente ligada ao seu senso de propósito e valor), podendo em alguns casos, se perceber uma perda significativa de identidade por não ter mais o seu papel social, estando sujeito à produção de riscos biopsicossociais (que engloba a saúde e a doença através do estudo de elementos biológicos, psicológicos e sociais), e que podem gerar perda da autonomia, sentimentos de desvalorização, vazio, insegurança, ansiedade.

                                     Ao se permitir retirar a persona de profissional e estudante, de acordo com MORAES (2025), mudar o registro da razão para o emocional e intuitivo, do aprendizado para a experiência, há “um encontro com a alma.

         Nem sempre é simples para o profissional que vive intensamente seu ofício, a ação de retirada daquela “capa” que de alguma forma compõe sua personalidade e por que não, faz parte de sua identidade. Despir-se da persona é uma ação que envolve muitas camadas e necessita de um trabalho psíquico muitas vezes exaustivo, porém necessário.

Dentre outros caminhos, um caminho de território criativo através da  Arteterapia, de acordo com Philippini (2008) : 

“Em Arte Terapia o trajeto é marcado por símbolos particulares, que  assinalam, informam e definem sobre os estágios da jornada de individualização de cada um. Este caminho único, compreende as transições e transformações em direção a tornar-se um “in”-divíduo, aquele que não se divide face às pressões externas e que assim procura viver plenamente, integrando possibilidades e talentos, às feridas e faltas psíquicas.” (PHILIPPINI, 2008)

 

RELATO DE CASO: CANAL DE SUPERAÇÃO.  ESTÁGIOS DA JORNADA DA INDIVIDUAÇÃO

                                         A Inteligência Emocional, é a capacidade que nossa mente tem de identificar e administrar nossos sentimentos, para que ajam a nosso favor. O domínio das emoções se faz por meio do autoconhecimento, que significa compreender e reconhecer os nossos pensamentos, sentimentos e limites. À medida que nos conhecemos, passamos a agir de forma positiva e equilibrada. (GUIMARÃES, 2025)

 

O depoimento da professora R. C., diz que o desgaste físico e psicológico tem sido sintomas constantes, por não conseguir desempenhar um trabalho de excelência: - “A gente aprimora, busca novos conhecimentos e não consegue estruturar o trabalho na prática do dia a dia”. Faltam recursos materiais, recursos humanos e falta de tempo de planejamento escolar, verbas que nunca contemplam as necessidades de uma unidade escolar. São várias crianças com muitas necessidades e precisamos identificar e desenvolver diferentes habilidades tanto para crianças típicas, quanto das atípicas. É uma sobrecarga de responsabilidade, das quais somos envolvidas de forma incessante, invadindo as nossas prioridades enquanto ser humano.”

A professora L.P, menciona que vivenciar uma rotina tão desgastante, o dia a dia, o “chão das escolas”, permitiu conhecer e procurar lidar com os desafios, que muitas vezes acreditava não poder superar. O corpo começava a sinalizar dores. Noites mal dormidas. O dia amanhecendo. Falta de credibilidade. Cansaço contínuo. Sentimento de impotência. Saída da escola direto à clínica médica próxima, para aferição da pressão arterial. Sinalizava o início de ansiedade. Tempo de Chronos, com horários e prazos. Como sobreviver a jornada dupla em duas escolas? O estresse estava querendo se instalar. Logo após, ainda passou pelo processo de Transição Trabalho-Aposentadoria. E um novo dia... a cada dia. Diálogo interno. Conseguir transformar a energia negativa, direcionando para a energia positiva, ou seja, transformando em motivação. Tempo de Kairós, do momento certo para realizar algo. Percursos simbólicos.

             "A individualização é tornar-se o si-mesmo, inteiro, pleno, consciente de si mesmo e dos acontecimentos que envolvem a nossa vida e dos demais".  (CARNEIRO, 2010, 208)

 E assim, “a energia psíquica encaminhada, desviada e transformada, ou seja, canalizada (Jung apud Hall e Nodby, 1993), gerou o primeiro percurso simbólico.: Baía de Guanabara (Enseada de Botafogo), produção da professora L.P, com a técnica de pintura Textura Visual, em preto e branco / luz e sombra, com lápis grafite.

 Segundo CARRANO E REQUIÃO (2013), o claro e escuro pode ser associado à determinada situação ou algum fato em suas vidas que estão mais claras ou mais escuras.


 

Tempo depois, no segundo percurso simbólico: criação do Mandala, com fundo escuro indicando o processo do caminho da individuação, em que a professora L.P., utilizou-se do origami na criação das borboletas, símbolo da transformação e renascimento. De acordo com CARNEIRO (2010), Jung “ao pintar uma mandala ou cria-la com mais diversos materiais, a pessoa vai se organizando externa e internamente, direcionando a atenção para o centro do próprio ser – Self... energizando todo o ser para que se torne aquilo que ele é”.

                


 


E no terceiro percurso simbólico, a professora L.P., inspirada nas obras de arte da artista plástica Beatriz Milhazes, fez uma reprodução em arte, entre cores e texturas, superposições de formas, com colagem e pintura aquarela. Construção e integração de diferentes aspectos do “eu”.

 


           


 

APOSENTADORIA: É O FIM OU INÍCIO DE NOVO PERCURSO?

           Para Viktor Frankl (1978/1989), o trabalho representa uma atividade humana que pode contribuir na busca de sentido para a existência humana.

“No modo de produção capitalista, que idolatra a produção aliena o                                                                               trabalhador do processo de produção, a aposentadoria é frequentemente vivenciada como a perda do próprio sentido da vida, uma espécie de morte social. Ao se valorizar apenas aqueles que produzem, deprecia-se o sujeito aposentado.”’ (RODRIGUES et al., 2005 apud MOREIRA).                                        

Os relatos mencionados fazem parte da realidade não só de professores, mas de inúmeros profissionais de áreas diferentes, pois de uma maneira geral, estamos todos imersos em uma sociedade que privilegia o desempenho, as metas, os cronogramas e tudo debaixo de muito estresse, desgastes e adoecimentos.

             Segundo filósofo Byung-Chul Han, a sociedade contemporânea, denominada por ele de sociedade do desempenho, é uma sociedade de autoexploração, onde o sujeito do desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente, em um processo de autoagressividade, bem característico da Síndrome de Burnout. (HAN, 2017, p.101)

           Profissões encaradas como vocacionais, como por exemplo, professores, médicos, terapeutas, o trabalho não é somente uma fonte de renda, mas tem um sentido existencial.  Logo, quando a aposentadoria deixa de ser algo distante e surge como a opção para “descansar” da rotina estressante, o que se percebe é uma crise identitária. Muitos descobrem que perder o papel social também gera um vazio e sensação de desorientação quanto ao pertencimento. Porque este indivíduo    internamente mantém o mesmo padrão de autoexigência — buscando continuar produtivo, ocupado e ainda sem desfrutar de tempo para si. De fato, o descanso não acontece e o cansaço permanece, porque na sociedade do desempenho este sintoma não é somente físico, mas é algo ligado a forma como a pessoa percebe o mundo e a si mesmo.  Neste processo de dissociar que quem se aposenta é o cargo e não a real possibilidade de continuar produzindo de outra forma, sendo útil de maneira mais saudável, reconquistando o sentido de pertencimento e de verdade, investir em autocuidado, o que antes era impraticável e até inviável.

               Concluímos e afirmamos que a Arteterapia é uma proposta que está na contramão da lógica do desempenho, pois é um convite generoso para “ser”, antes de “fazer; processar as situações antes de produzir algo pelo fato em si. Um convite à expressão genuína, muito longe das performances tão idolatradas na sociedade, podendo ofertar ao indivíduo este lugar de pausa, de observação do ritmo interno, do sentir, experimentar e expressar-se sem o peso da produtividade. Assim, a aposentadoria deixa de ser um “fim” e se torna um novo começo — um tempo de florescimento interior, com mais relevância, qualidade e saúde em todos os sentidos.

           

 

REFERÊNCIAS:

CARNEIRO, Celeste. Arte, Neurociência e transcendência. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2020. 208 p.: 21 cm.

CARRANO, Eveline. REQUIÃO, Maria Helena. Materiais em arte: sua linguagem subjetiva para trabalho terapêutico e pedagógico. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013. 216p.: 24cm

GUIMARÃES, Gislene Nunes. Ferramentas e Técnicas de Intervenção em Saúde Mental. [Apresentação em slides]. In: GEPAM, Online, 29 jul. 2025.

HAN, Byung-Chul, Sociedade do Cansaço, 2a edição ampliada, Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 2017

MORAES, Eliana. Quem é você? [Apresentação em slides.]. In: GRUPO QUÍRON: Encontros com o Curador Ferido, Online, 11 out. 2025

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Imaginários sobre aposentadoria, Trabalho, Velhice: Estudo de caso com professores universitários. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 16, n. 4, p. 541-550, out./dez. 2011. Disponível em <URL>. Acesso em: 5/09/2025. https:scielo.br

PHILIPPINI, Angela. Para entender arteterapia: cartografia da coragem. 4 ed. – Rio de Janeiro: Wak Ed.. 2008

OpenAI, Google, Microsoft, 2025. [ABNT]. Acesso: URL.

______________________________________________________________________________

Sobre as autoras:



                                                                                      Tania Salete

Graduação em fonoaudiologia, pós graduação em psicopedagogia/UERJ.  Especialização em Arteterapia pela POMAR, Rio de Janeiro.  Pós graduanda em Envelhecimento Ativo, Artes e subjetividade pela Clinica Pomar.  Atuou com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Atendimentos presencial e online - individuais e Grupos de Mulheres (REDE), crianças e adolescentes. Em Fortaleza, atuou no IPREDE/CONECTA - com atendimento de crianças no Espectro Autista. Atualmente desenvolve atividades no REDE 60+ - Grupo de práticas criativas em Arteterapia para idosos. 


Contatos: @caminhartes.arteterapia (Instagram e Facebook)



                                                           Luigina Lucia Palermo Antas


Formação:

Arteterapeuta AARJ 672/0515

Graduação em Pedagogia/Licenciatura Plena

Graduação em Educação Artística-Artes Visuais

Pós graduada em Arteterapia em Educação e Saúde

Pós graduada em Psicopedagogia

Formação Clínica em Arteterapia na Clínica POMAR

 

Área de atuação/ Projetos/Trabalho

 Professora de Artes Plásticas/Visuais do Município do Rio de Janeiro, no âmbito da Secretaria Municipal de Educação.

Proponente, coordenadora e docente do Projeto Caminhos Facilitadores do Desenvolvimento Humano – Desenvolvido no IBC / Instituto Benjamin Constant – Integrantes: Equipe de Saúde Multidisciplinar e estagiárias do Curso de Pedagogia da Universidade Veiga de Almeida .

 Publicado no site Instituto Arte na Escola em Relato de Experiência; Publicado no Caderno de Resumo dos Anais do CEDERJ, após conclusão do Curso de Aperfeiçoamento em Educação Especial e Inclusiva para Professores de Educação Básica/Fundação CECIERJ.

Projeto Todos Somos: Arte e Cultura Africana. Instituto Arte na Escola. Projeto Semifinalista XIX Prêmio Arte na Escola Cidadã. São Paulo. Brasil

Projeto Caminhos Flexíveis para a Aprendizagem. Caminho Educativo percorrido com Abordagem Terapêutica Breve/Junguiana. Rede Municipal de Ensino/RJ. Turmas do Ensino Fundamental/Alfabetização. E.M. Pedro Ernesto/Lagoa/RJ

 

Pesquisa Independente em Arteterapia, Arte e Educação : sem vínculo institucional.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A ÁRVORE DOS SENTIMENTOS

 

Anderson Amaral & Adriana Limeira do Nascimento - CE

 

A Arteterapia tem se mostrado uma ferramenta valiosa no cuidado de idosos institucionalizados, favorecendo a expressão emocional, a socialização e o estímulo cognitivo. Por meio das atividades artísticas, os participantes são convidados a resgatar memórias, refletir sobre suas vivências e ressignificar emoções, fortalecendo o bem-estar e a qualidade de vida.

A institucionalização de idosos segundo AMARAL e NASCIMENTO (2025) aumentou nos últimos anos no Brasil. Espaços terapêuticos dentro das instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) têm como propostas o envolvimento entre profissionais e idosos, desenvolvendo e fortalecendo vínculos entre eles, promovendo um ambiente de humanização, estimulação e interação entre usuários institucionalizados.

O simbolismo da árvore seca assume um papel central nesta proposta, representando a vida como um ciclo contínuo de transformações. Ao preencher os galhos com folhas que simbolizam emoções, as participantes puderam visualizar e reorganizar seus sentimentos, compreendendo o que desejam manter e o que precisam deixar ir, em um processo simbólico de renovação emocional e existencial.

 

Objetivos da atividade

·         Promover o reconhecimento, a compreensão e a expressão dos sentimentos.

·         Explorar o simbolismo da vida como um ciclo de experiências emocionais.

·         Estimular a reflexão sobre emoções que fortalecem e aquelas que desejamos transformar.

·  Favorecer a ressignificação de experiências e a liberação de sentimentos negativos, promovendo bem-estar emocional.

 

Materiais utilizados

·         Desenho grande de uma árvore seca (tronco e galhos) em uma folha A4

·         Treze faces das emoções impressas numa folha A4

·         Lápis de cor, tesoura e cola

Passo a Passo da Dinâmica

1. Recepção e Relaxamento

O grupo nesse dia foi composto pela presença de mulheres da ILPI Amantino Camara em Mossoró RN. Elas foram convidadas a participar da sessão de arteterapia e acolhidas de forma afetuosa, sendo organizadas ao redor da mesa. Para favorecer a atenção plena e o relaxamento inicial, foi colocada uma música suave de sons da floresta, com o murmúrio de riachos e o balanço das árvores ao vento.
Durante cinco minutos, as participantes foram orientadas a inspirar e expirar lentamente, criando um ambiente calmo, introspectivo e propício à escuta interior. A música permaneceu durante toda a atividade, sustentando a atmosfera de serenidade e conexão.

2. Apresentação da Árvore

Após o relaxamento, foi apresentada a árvore seca e as imagens das faces das emoções. Explicou-se que a árvore simboliza a vida e suas transformações, enquanto as faces representam sentimentos bons e ruins, que fazem parte da trajetória humana. As participantes foram convidadas a refletir sobre as emoções que desejavam cultivar e aquelas que precisavam transformar ou deixar para trás.


 

3. Colorindo as Emoções

Em seguida, foram distribuídas as folhas com as faces das emoções. Cada idosa foi orientada a colorir as expressões com as tonalidades que melhor representassem seus sentimentos. O ato de colorir se mostrou um momento de expressão individual, introspecção, criatividade e liberdade simbólica, no qual cada cor traduzia afetos e lembranças.

 


       

4. Emoções como Folhas

Após o colorido, as participantes recortaram as faces. Aquelas com dificuldades motoras receberam auxílio dos mediadores, assegurando a inclusão de todas as participantes.
Posteriormente, elas escolheram quais emoções desejavam manter na vida, colando-as nos galhos da árvore — representando as folhas vivas. As emoções que desejavam deixar para trás foram coladas no chão ou no tronco da árvore, como folhas caídas, simbolizando a liberação de sentimentos que já não fazem parte de suas trajetórias.
Ao final, a árvore tornou-se um reflexo coletivo das vivências do grupo — um mosaico emocional que unia cores, lembranças, experiências e vivencias e escolhas pessoais.

     


 


Reflexão Coletiva

Para concluir, foi realizada uma roda de conversa, na qual as participantes compartilharam seus trabalhos e as suas percepções e descobertas. As falas revelaram profundidade, sensibilidade e consciência emocional:

“Foi bom colocar no galho só os sentimentos que quero para minha vida. Me senti leve ao deixar os ruins caírem.”

“Percebi que guardo muita alegria e amor dentro de mim, e não preciso ficar segurando a raiva e a tristeza.”

“Essa árvore me fez lembrar de momentos felizes e que quero continuar cultivando e carregando para vida.”

“Ao ver os sentimentos ruins no chão, senti que posso deixar para trás mágoas que me faziam mal.”

“Colorir minhas emoções me ajudou a entender o que é importante e o que posso mudar na minha vida.”

“O passar dos anos temos dificuldades de deixar as árvores secas para trás… às vezes carregamos elas como correntes. Foi bom deixar elas hoje.”

Esses depoimentos traduzem o efeito terapêutico e simbólico da atividade, demonstrando como a arteterapia pode abrir caminhos para o autoconhecimento, a aceitação e o alívio emocional.

 

Considerações Finais

A experiência descrita reafirma o potencial humanizador e transformador da arteterapia no contexto das instituições de longa permanência. A atividade A Árvore dos Sentimentos mostrou-se uma prática rica em simbolismos, capaz de favorecer o contato com o eu emocional, o resgate de memórias e a ressignificação da própria existência.

Durante a vivência, observou-se o envolvimento afetivo das idosas, a concentração, o despertar de lembranças e a reflexão sobre as emoções que desejam preservar ou libertar. A metáfora da árvore seca — que ganha novas cores e folhas — tornou-se imagem viva da capacidade de renascer emocionalmente, mesmo diante das limitações do envelhecimento e da institucionalização.

É importante ressaltar que ressignificar a vida é um processo possível em todas as fases da existência, e ganha ainda mais relevância nesta etapa marcada pela finitude, pelas perdas funcionais e pela reconstrução da identidade. A arteterapia oferece um espaço de acolhimento e expressão, permitindo que sentimentos reprimidos encontrem lugar e significado.

Mais do que uma atividade artística, esta experiência revelou-se um gesto de cuidado integral, em que cada cor e cada escolha expressaram o desejo de continuar sendo. Assim, a arteterapia se reafirma como um instrumento de cuidado emocional, cognitivo e existencial, capaz de devolver ao idoso o protagonismo e o sentido de ser autor de sua própria história.

 


       

 

Referência:

AMARAL, A.; NASCIMENTO, A. L. Gerontoteca como espaço de humanização e estimulação lúdica: o jogo de regras como mantenedor da saúde. In: GIMENES, A.; FONSECA, R. (Orgs.). Tratado do jogo de regras às regras em jogo: dos espaços lúdicos aos tabuleiros da vida. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2025. p. 669–681.

_____________________________________________________________

Sobre os autores:



Anderson Amaral

Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro. Mestre em Tecnologia no Espaço Hospitalar, Pós-graduação em Neurociência com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em Reabilitação Cognitiva. Arteterapeuta do lar Am

antino Câmara. Autor dos Livros Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora; Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora

 Adriana Limeira do Nascimento – Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduação em Saúde Menta, Pós-graduação em Saúde Pública e Brinquedista pela ABBri – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo e do livro Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora




Adriana Limeira do Nascimento 

Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduação em Saúde Menta, Pós-graduação em Saúde Pública e Brinquedista pela ABBri – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo e do livro Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora