segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A ARTE QUE NOS SUSTENTA QUANDO A VIDA NOS ATRAVESSA: prática artística, vulnerabilidade e cuidado de quem cuida




Por Ana Paula Batista - DF

@anabatista.arteterapia

Sabemos que em nosso fazer como arteterapeutas precisamos manter em equilíbrio os pratinhos da análise pessoal, supervisão, conhecimento continuado e prática artística pessoal. No texto de hoje eu gostaria de colocar atenção no último ponto, a nossa prática artística e sua importância não apenas para a formação continuada, mas também em momentos de vulnerabilidade de quem está ali para cuidar do outro.

É comum ouvirmos durante a formação, ou mesmo em cursos e mentorias, pelo menos foi assim para mim, que a prática artística do arteterapeuta é fundamental para que possamos manusear os materiais artísticos, entender suas particularidades e experimentá-los antes de propor a nossos clientes. O contato com os materiais, com a folha em branco, nos possibilita também experimentar o lugar do não saber, de simplesmente iniciar um risco, um movimento e deixar o corpo e o inconsciente guiarem o processo.

Entretanto, como conhecedores da potencialidade da arte no cuidado da saúde, precisamos de um olhar mais amplo para o nosso próprio espaço-tempo de criação. O fazer artístico, para além da experimentação de materiais, pode ser uma forma de nos observar, reconhecer limites e acompanhar o próprio estado interno. Mais do que entender, é preciso sentir.

Com a vida corrida, é comum até que o nosso tempo para criar seja otimizado e facilmente transformado em um momento de estudo e teste de materiais. Aconteceu comigo e talvez tenha acontecido com você também. Até que vem uma turbulência da vida (ou mais), nos colocando diante de feridas e de necessidade de cuidado.

 

Quem cuida do olhar de quem cuida?

 


É quando o coração dói e a alma sangra que mais precisamos da nossa própria medicina: o fazer artístico. Não para substituir a análise nem a supervisão, pois essas já são imprescindíveis especialmente quando nos colocamos diante de clientes, mas como um território de experiência para a autopercepção. Sentir, expressar e entender nossas próprias emoções é fundamental para que possamos olhar para nossos próprios limites e possibilidades do momento, saindo da figura do terapeuta perfeito, acolhedor e disponível para o terapeuta humano que também é atravessado pela vida. Entender o que é nosso e o que damos conta no momento é fundamental para uma postura ética e cuidadosa com a gente e com o outro.

Entre uma sessão de terapia e outra, seja por meio de um diário expressivo, diante de uma tela, de um suporte a ser bordado, da necessidade de movimento do corpo, entre tantas outras possibilidades que a arte nos proporciona, podemos nos questionar: Como estou? O que está difícil? Quais são meus limites no momento? O que tem ocupado espaço demais? O que não estou conseguindo colocar em palavras? Nessa prática, abrimos espaço para expressão e para entrarmos em contato com imagens. Valiosas imagens.

O intuito desse texto, que foi a minha possibilidade diante dos mares emocionais turbulentos que tenho navegado, não foi trazer uma técnica ou novidade, mas sim fazer um lembrete. Lembrete, para você e para mim, para que a gente não negligencie algo tão poderoso e sagrado que temos em nossas mãos: nossa prática artística pessoal.

 


 

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Sobre a autora: Ana Paula Batista



Brasília / DF

Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta, especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e atualmente em formação clínica em Psicologia Analítica.

@anabatista.arteterapia

Site: https://www.anapaulabatista.com.br/

 

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