Por Ana Paula Batista - DF
@anabatista.arteterapia
Sabemos que em nosso fazer como arteterapeutas precisamos manter em
equilíbrio os pratinhos da análise pessoal, supervisão, conhecimento continuado
e prática artística pessoal. No texto de hoje eu gostaria de colocar atenção no
último ponto, a nossa prática artística e sua importância não apenas para a
formação continuada, mas também em momentos de vulnerabilidade de quem está ali
para cuidar do outro.
É comum ouvirmos durante a formação, ou mesmo em cursos e mentorias,
pelo menos foi assim para mim, que a prática artística do arteterapeuta é
fundamental para que possamos manusear os materiais artísticos, entender suas
particularidades e experimentá-los antes de propor a nossos clientes. O contato
com os materiais, com a folha em branco, nos possibilita também experimentar o
lugar do não saber, de simplesmente iniciar um risco, um movimento e deixar o
corpo e o inconsciente guiarem o processo.
Entretanto, como conhecedores da potencialidade da arte no cuidado da
saúde, precisamos de um olhar mais amplo para o nosso próprio espaço-tempo de
criação. O fazer artístico, para além da experimentação de materiais, pode ser
uma forma de nos observar, reconhecer limites e acompanhar o próprio estado
interno. Mais do que entender, é preciso sentir.
Com a vida corrida, é comum até que o nosso tempo para criar seja
otimizado e facilmente transformado em um momento de estudo e teste de
materiais. Aconteceu comigo e talvez tenha acontecido com você também. Até que
vem uma turbulência da vida (ou mais), nos colocando diante de feridas e de
necessidade de cuidado.
Quem cuida do olhar de quem cuida?
É quando o coração dói e a alma sangra que mais precisamos da nossa
própria medicina: o fazer artístico. Não para substituir a análise nem a
supervisão, pois essas já são imprescindíveis especialmente quando nos
colocamos diante de clientes, mas como um território de experiência para a
autopercepção. Sentir, expressar e entender nossas próprias emoções é
fundamental para que possamos olhar para nossos próprios limites e
possibilidades do momento, saindo da figura do terapeuta perfeito, acolhedor e
disponível para o terapeuta humano que também é atravessado pela vida. Entender
o que é nosso e o que damos conta no momento é fundamental para uma postura
ética e cuidadosa com a gente e com o outro.
Entre uma sessão de terapia e outra, seja por meio de um diário
expressivo, diante de uma tela, de um suporte a ser bordado, da necessidade de
movimento do corpo, entre tantas outras possibilidades que a arte nos
proporciona, podemos nos questionar: Como estou? O que está difícil? Quais são
meus limites no momento? O que tem ocupado espaço demais? O que não estou
conseguindo colocar em palavras? Nessa prática, abrimos espaço para expressão e
para entrarmos em contato com imagens. Valiosas imagens.
O intuito desse texto, que foi a minha possibilidade diante dos mares
emocionais turbulentos que tenho navegado, não foi trazer uma técnica ou
novidade, mas sim fazer um lembrete. Lembrete, para você e para mim, para que a
gente não negligencie algo tão poderoso e sagrado que temos em nossas mãos:
nossa prática artística pessoal.
Sobre a autora: Ana Paula Batista
Brasília / DF
Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta,
especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e atualmente em formação clínica
em Psicologia Analítica.
@anabatista.arteterapia
Site: https://www.anapaulabatista.com.br/

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