terça-feira, 8 de setembro de 2026

O MEDO DE ERRAR E A DIFICULDADE DE EXPERIMENTAR COISAS NOVAS




Por Isa Ramos – RJ

@psicologaisaramos

Site:www.psicologaisaramos.com.br

Você já deixou de fazer alguma coisa porque pensou que não faria bem? Talvez tenha desistido de aprender algo novo porque imaginou que seria difícil, evitando uma oportunidade por medo de não conseguir ou simplesmente pensado: “Eu não levo jeito para isso”. O medo de errar pode aparecer de formas muito diferentes na nossa vida e, muitas vezes, nem percebemos o quanto ele influencia nossas escolhas.

Quando temos medo de errar, podemos começar a evitar situações novas. Não tentamos, não perguntamos, não começamos. Preferimos aquilo que já conhecemos porque ali existe uma sensação maior de segurança. Só que, ao evitar constantemente aquilo que nos causa insegurança, também podemos deixar de viver experiências importantes, descobrir novas habilidades e perceber que somos capazes de aprender.

Na Psicologia, podemos observar como nossos pensamentos influenciam a maneira como nos sentimos e agimos. Quando o erro é visto como sinal de incapacidade, fracasso ou motivo para sermos julgados, experimentar algo novo pode se tornar muito difícil. Pensamentos como “se eu não fizer direito, vão pensar mal de mim”, “eu deveria saber fazer isso” ou “é melhor nem tentar” podem aumentar a insegurança e fazer com que a pessoa desista antes mesmo de começar.

Existe também uma diferença importante entre querer fazer algo bem e acreditar que precisamos fazer tudo perfeitamente. Quando a cobrança é muito grande, o processo deixa de ser uma experiência e passa a ser uma avaliação constante. Em vez de pensar “vou experimentar”, pensamos “preciso fazer certo”. Em vez de curiosidade, aparece preocupação. Em vez de prazer, aparece cobrança.

Isso pode acontecer em muitas situações do cotidiano. Pode estar presente no trabalho, quando temos medo de apresentar uma ideia; nos estudos, quando evitamos uma matéria porque achamos que não somos bons o suficiente; nos relacionamentos, quando temos dificuldade de dizer o que pensamos por medo da reação do outro; ou até mesmo em atividades simples que gostaríamos de experimentar, mas nunca começamos.

É nesse ponto que a Arteterapia pode trazer uma experiência interessante para dentro do processo terapêutico. Não é preciso saber desenhar, pintar ou ter qualquer habilidade artística. A proposta não é produzir algo bonito ou perfeito. O processo de criação pode ser utilizado como um recurso para experimentar, perceber escolhas, observar sentimentos e refletir sobre a maneira como nos relacionamos com aquilo que estamos fazendo.

Imagine receber uma folha em branco e alguns materiais e ouvir apenas: “Experimente”. Para algumas pessoas, isso pode ser divertido. Para outras, pode ser bastante desconfortável. “Mas o que eu tenho que fazer?”, “Como é para ficar?”, “Está bonito?”, “E se eu fizer errado?”. Essas perguntas podem revelar algo interessante sobre a nossa relação com o controle, com a cobrança e com a necessidade de acertar.

Uma pessoa pode passar muito tempo tentando decidir qual cor usar antes de começar. Outra pode apagar várias vezes aquilo que fez. Outra pode ficar frustrada porque o resultado não ficou como imaginava. Outra pode procurar confirmação o tempo todo para saber se está fazendo certo. Nenhuma dessas situações, isoladamente, permite tirar conclusões sobre alguém. Mas, dentro de um processo terapêutico, elas podem se transformar em oportunidades de reflexão.

O que acontece quando algo não sai como você imaginava? Você consegue continuar? Consegue mudar de ideia? Consegue tentar de outra maneira? Consegue olhar para aquilo que fez sem imediatamente dizer que está ruim? Essas perguntas podem começar em uma atividade artística, mas muitas vezes levam a reflexões sobre outras áreas da vida.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, é possível trabalhar a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Uma pessoa que acredita que “não é criativa” pode evitar qualquer atividade que envolva criação. Como não experimenta, não desenvolve familiaridade com aquilo. E, depois, pode usar justamente essa falta de experiência como prova de que realmente não consegue.

O mesmo ciclo pode aparecer em outras situações. “Eu não sei falar em público.” Então a pessoa evita falar. “Eu não consigo aprender coisas novas.” Então não tenta. “Eu sempre faço tudo errado.” Então prefere não se arriscar. Quanto menos experimentamos, menos oportunidades temos de descobrir se aquilo que pensamos sobre nós mesmos é realmente tão verdadeiro quanto parece.

Isso não significa que precisamos nos obrigar a fazer tudo aquilo que nos causa medo. Cada pessoa tem seu ritmo, sua história e seus limites. O objetivo não é simplesmente se colocar em situações desconfortáveis, mas compreender o que está por trás desse medo e, quando fizer sentido, construir novas formas de lidar com ele.

A criação artística pode ser um espaço interessante justamente porque não existe necessariamente uma única maneira correta de fazer algo. Podemos escolher uma cor diferente, mudar o traço, experimentar um material, começar novamente ou simplesmente deixar algo como está. Aos poucos, a pessoa pode perceber que nem toda escolha precisa ser definitiva e que nem todo erro precisa ser corrigido imediatamente.

Talvez uma das coisas mais difíceis para muitos adultos seja fazer alguma coisa sem precisar ser bons nisso. Na infância, criar costuma ser mais espontâneo. Uma criança pode desenhar uma casa azul, uma árvore enorme ou uma pessoa com três braços e continuar brincando sem se preocupar tanto com o resultado. Com o tempo, aprendemos a comparar, avaliar e buscar aprovação. E até aquilo que poderia ser prazeroso pode acabar se transformando em mais uma situação em que precisamos provar que somos capazes.

Por isso, permitir-se fazer algo sem precisar fazer perfeitamente pode ser uma experiência importante. Não significa deixar de buscar melhorias ou não se importar com o resultado. Significa entender que aprender exige espaço para aquilo que ainda não sabemos fazer.

Talvez o objetivo não seja aprender a nunca errar. Isso não seria possível. Talvez seja construir uma relação diferente com o erro. Uma relação em que errar não signifique automaticamente “eu não sou capaz”. Em que seja possível pensar: “Não saiu como eu esperava, mas posso tentar de outra maneira”; “Eu ainda não sei fazer, mas posso aprender”; “Não ficou perfeito, mas isso não significa que não tenha valor”.

Na Psicologia e na Arteterapia, esse processo pode abrir espaço para observar essas experiências com mais atenção. A arte não precisa ser interpretada como se cada cor, desenho ou forma tivesse um significado escondido. O mais importante pode estar na experiência da pessoa enquanto cria, naquilo que ela percebe, sente, pensa e aprende sobre si mesma durante o processo.

O medo de errar pode nos proteger de algumas frustrações, mas também pode nos afastar de experiências que poderiam ser importantes. Toda vez que experimentamos algo novo, existe a possibilidade de não dar certo, mas também existe a possibilidade de descobrir uma habilidade que não conhecíamos, encontrar um novo interesse ou perceber que somos mais capazes de lidar com o inesperado do que imaginávamos.

Experimentar não significa ter certeza de que vamos conseguir. Significa permitir-se descobrir o que acontece quando tentamos.

E talvez seja justamente essa uma das coisas mais bonitas que a criação artística pode nos lembrar: não precisamos saber exatamente como algo vai terminar para começar.

Podemos começar, observar, mudar, experimentar e recomeçar.

Na arte, na terapia e, principalmente, na vida.

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Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano.   Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas. 


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