segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

QUANDO O SENTIR AINDA NÃO VIROU PALAVRA



Por Isa Ramos – RJ 

@psicologaisaramos 

Site:www.psicologaisaramos.com.br 

CRP:05/80628


Tem dias em que a gente acorda e não sabe nomear o que sente. Não é uma tristeza clara, mas também não é alegria e está tudo bem. Às vezes, é apenas um peso discreto, difícil de explicar, algo que acompanha o dia sem pedir definição. Nem toda dor pede análise, algumas só precisam de escuta e dispensam explicações. O corpo, muitas vezes, percebe antes aquilo que a mente ainda não conseguiu entender e nem sempre esse entendimento vem por meio de palavras. 

Algumas experiências permanecem confusas por um tempo, não porque não possam ser compreendidas, mas porque ainda precisam ser vividas e organizadas internamente. Há sentimentos que pedem tempo, sem pressa para serem nomeados ou respondidos. Permanecer nesse intervalo também faz parte do processo, mesmo quando ele traz desconforto ou inquietação. O silêncio acompanha esse caminho e nem tudo pede resposta. Às vezes, o silêncio já é cuidado. 

A pergunta “mas o que você tem?” é mais comum do que se imagina e, muitas vezes, difícil de responder. Vivemos em um tempo que cobra explicações rápidas como se toda experiência precisasse ser entendida imediatamente. Existe uma expectativa constante de que saibamos traduzir o que se passa dentro de nós e, quando isso não acontece, surge a sensação de falha. No entanto, nem todas as experiências emocionais nascem prontas para serem ditas, algumas precisam ser sentidas antes de serem compreendidas. 

Esse cenário favorece respostas superficiais, que aliviam a pressão do momento, mas não refletem o que realmente está acontecendo internamente. A dificuldade de nomear pode se transformar em culpa e essa culpa, muitas vezes, nasce da comparação. Observa-se o outro, aparentemente seguro sobre o que sente, e conclui-se que a própria confusão é sinal de fragilidade, no entanto, cada pessoa tem seu ritmo de elaboração. A clareza que se vê no outro nem sempre revela o percurso interno que foi necessário para alcançá-la e para evitar o desconforto do silêncio, muitas vezes aceitam-se explicações que não correspondem à própria experiência. 

Nem sempre a ausência de palavras significa vazio. O silêncio também pode ser uma forma de resposta. Nem toda vivência exige manifestação imediata, seja pela fala ou pela escrita. Os sentimentos precisam amadurecer para que possam ser nomeados, é necessário tempo. Forçar uma definição pode interromper algo que ainda está se organizando internamente. Um espaço seguro permite que a pessoa seja quem é, inclusive quando ainda não sabe dizer o que sente. Aprender a sustentar o “não sei” faz parte desse cuidado. Explicar pode oferecer uma resposta rápida; compreender exige tempo. 

Tudo tem seu tempo, e nem tudo precisa ser dito no instante em que é vivido. Quando o sentir ainda não virou palavra, isso não significa falta de sentido. Significa que algo está sendo elaborado, mesmo que de forma silenciosa. Respeitar esse intervalo é uma forma de cuidado consigo. Há maturidade em sustentar o que ainda não está claro, sem a pressa de definir ou concluir. 

Aos poucos, o que era apenas silêncio pode se transformar em compreensão. O que parecia indefinido ganha contorno, nome e significado e quando a palavra finalmente chega, ela não vem por obrigação, mas porque encontrou espaço para nascer. Talvez esse seja um dos movimentos mais delicados da experiência humana: permitir que o sentir exista antes de ser traduzido. Aceitar que há momentos em que a presença é mais importante do que a explicação. 

Vivemos em uma cultura que valoriza a rapidez, a objetividade e a clareza imediata. No entanto, a vida emocional não obedece à mesma lógica. Ela não funciona por prazos nem se organiza de acordo com a urgência externa. Há sentimentos que precisam atravessar o corpo, a memória e a experiência antes de encontrarem forma na linguagem. 

Quando nos cobramos para entender tudo de imediato, podemos interromper um processo que ainda está em curso. A tentativa de dar nome apressadamente ao que se sente pode produzir rótulos que não traduzem a complexidade da experiência vivida. Nem tudo cabe em definições rápidas, algumas emoções são mais amplas do que as palavras disponíveis naquele momento. Reconhecer isso é um exercício de honestidade emocional, pois existem sentimentos que só precisam de tempo e no tempo certo, o silêncio se transforma em compreensão. 

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Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança.

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

QUANDO O TEMPO FLORESCE: A BELEZA DO ENVELHECIMENTO ATIVO



 Por – Débora Castro 

@deborarteterapia


Registro atividade das participantes

O envelhecimento ativo revela uma beleza que não se mede em linhas do rosto, mas em camadas de história, presença e potência criativa. Na Arteterapia, essa beleza se manifesta quando o sujeito encontra, no fazer artístico, um espaço para reorganizar memórias, fortalecer vínculos e redescobrir sentidos. É nesse encontro entre expressão e cuidado que o tempo, antes visto como perda, passa a florescer. 

A Arteterapia compreende que o processo criativo é um território fértil para a manutenção da vitalidade psíquica e cognitiva. Ao trabalhar com imagens, cores, texturas e símbolos, o idoso acessa dimensões internas que muitas vezes permanecem silenciadas no cotidiano. Não se trata apenas de “estimular a mente”, mas de permitir que cada pessoa se reconheça como autora da própria história ainda em movimento, ainda em construção. 

Toda semana, o grupo se reúne em torno de uma mesa que, aos poucos, se transforma em jardim: papéis coloridos, lápis, tecidos, argila, revistas, pincéis. Cada encontro começa com uma breve roda de conversa, onde surgem relatos sobre a semana, lembranças espontâneas, pequenas conquistas e desafios cotidianos. É nesse aquecimento afetivo que o clima de confiança se estabelece. 

O grupo foi convidado a refletir sobre o tema “De onde vem a beleza do envelhecimento ativo?”. A pergunta abriu um campo fértil de sensações, memórias e percepções. Aos poucos, cada participante foi se permitindo falar e se ouvir. Houve silêncio atento, escuta acolhedora e trocas que revelaram o quanto cada uma carrega uma história única e, ao mesmo tempo, o quanto todas se reconhecem no caminho da outra. 

A beleza desse processo está justamente no lugar de pertencimento de cada participante. Elas sabem que o grupo de Arteterapia é um espaço seguro, onde podem se expressar sem julgamentos, onde suas vivências são valorizadas e onde o envelhecer ganha novos contornos. A cada fala, surgiam reflexões sobre força, delicadeza, autonomia, desafios e descobertas que continuam acontecendo mesmo com o passar dos anos. 

Depois da roda de conversa, seguimos para a prática criativa. Entreguei a cada participante um círculo, símbolo do movimento contínuo da vida aquilo que não se interrompe, apenas se transforma. De maneira intuitiva, cada uma escolheu três palavras que, para elas, representam a beleza da vida. Palavras que nasceram de dentro, carregadas de significado. 

Em seguida, essas palavras foram traduzidas em imagens, cores, formas e gestos criativos. O círculo se tornou espaço de expressão simbólica: algumas criaram mandalas vibrantes, outras optaram por composições mais suaves, e houve quem transformasse as palavras em caminhos, flores, ondas ou luzes. Cada criação refletia não apenas a estética individual, mas também a forma como cada uma percebe sua própria jornada de envelhecer. 

O resultado foi um conjunto de obras que, juntas, formavam uma mandala de vitalidade, sensibilidade e potência. Mais do que um exercício artístico, foi um momento de reconhecimento: a beleza do envelhecimento ativo nasce do movimento interno, da capacidade de continuar criando, sentindo, compartilhando e se reinventando. 

O que se vê nesses encontros não é apenas a melhora da atenção, da memória ou da linguagem, embora isso aconteça de forma evidente. O que realmente se revela é a beleza do envelhecimento ativo: a capacidade de continuar criando, reinventando-se, conectando-se consigo e com o outro. A Arteterapia oferece um espaço de acolhimento, escuta e de expressão . Onde cada traço, cada cor e cada gesto reafirmam que a vida segue pulsando. Onde o envelhecer deixa de ser sinônimo de declínio e passa a ser reconhecido como um campo fértil de possibilidades. Quando o tempo floresce, a beleza se torna visível não apenas no que é criado, mas no que é vivido.

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Sobre a autora: Débora Castro



Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A CORAGEM DE TIRAR A ARMADURA



Por Mônica Ruibal - SP

Recentemente, uma pessoa me falou sobre um livro que eu já conhecia há muitos anos: “O Cavaleiro Preso na Armadura”, Robert Fisher. Ele sempre passou por mim como algo distante, que não me dizia respeito. Eu sabia que existia, já tinha folheado, mas nunca me chamou. Mas dessa vez, chamou — e chamou forte.

Comprei o livro, li, escutei o áudio, mergulhei. E me identifiquei profundamente.

Percebi que todos nós, em algum momento da vida, estamos presos em armaduras invisíveis. Armaduras que um dia foram necessárias para sobreviver: o controle, o silêncio, a perfeição, a força excessiva, a capacidade de dar conta de tudo, a habilidade de não sentir para não quebrar. São brilhos metálicos que, de fora, parecem coragem. Mas por dentro, são presídios.

E chega um instante — um daqueles instantes que mudam tudo — em que a armadura começa a apertar. Fica pesada. Fere. E já não cabemos mais dentro dela.

É um momento dolorido e precioso ao mesmo tempo: perceber que aquilo que nos protegeu está nos sufocando. Que aquilo que um dia foi recurso, agora é prisão.

E aí começa a travessia.

 

A travessia de tirar peça por peça, sem saber quem seremos sem elas. A travessia de voltar a sentir a pele, o vento, o toque. De abandonar a guerra interna e descansar.

Em Arteterapia, esse livro nos convida a trabalhar com aquilo que sustenta nossas armaduras e com o que existe por baixo delas. Podemos explorar as camadas, usando materiais sobrepostos que revelem o peso de carregar tantas expectativas e histórias — como papel cartão, papel kraft, colagens sucessivas, tecidos e dobraduras que criam volume e estrutura. Também podemos investigar os pesos, experimentando materiais densos como argila, barro, gesso ou até pedras pequenas coladas sobre o papel, percebendo no corpo o esforço de sustentar o que já não faz sentido.

Podemos criar um cavaleiro interno e vestir essa figura com essas peças simbólicas — e então escolher remover uma parte, transformar, rasgar, dissolver na água, derreter com as mãos. O gesto simbólico muitas vezes fala mais do que qualquer explicação teórica.

E depois, deixar emergir o que respira por baixo: uma cor mais suave, uma textura mais orgânica, algo que não precisa mais brilhar para existir.

Porque às vezes, para soltar a armadura, basta tocar o metal e reconhecer que ele pesa.

A verdadeira força nunca esteve na armadura, mas na coragem de removê-la.

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Sobre a autora: Mônica Ruibal



De São Paulo, graduada em Pedagogia com pós graduação em Arteterapia e Arte Reabilitação

Especialista em autismo, atuando em equipe multidisciplinar.

Em 2024 foi convidada a compor um painel sobre Arteterapia no Tearteiro, maior Festival de Autismo e Arte da América Latina. 

Criadora do grupo Arte Autismo onde promove encontros e workshops sobre o tema.