Por Isa Ramos – RJ
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Tem dias em que a gente acorda e não sabe nomear o que sente. Não é uma tristeza clara, mas também não é alegria e está tudo bem. Às vezes, é apenas um peso discreto, difícil de explicar, algo que acompanha o dia sem pedir definição. Nem toda dor pede análise, algumas só precisam de escuta e dispensam explicações. O corpo, muitas vezes, percebe antes aquilo que a mente ainda não conseguiu entender e nem sempre esse entendimento vem por meio de palavras.
Algumas experiências permanecem confusas por um tempo, não porque não possam ser compreendidas, mas porque ainda precisam ser vividas e organizadas internamente. Há sentimentos que pedem tempo, sem pressa para serem nomeados ou respondidos. Permanecer nesse intervalo também faz parte do processo, mesmo quando ele traz desconforto ou inquietação. O silêncio acompanha esse caminho e nem tudo pede resposta. Às vezes, o silêncio já é cuidado.
A pergunta “mas o que você tem?” é mais comum do que se imagina e, muitas vezes, difícil de responder. Vivemos em um tempo que cobra explicações rápidas como se toda experiência precisasse ser entendida imediatamente. Existe uma expectativa constante de que saibamos traduzir o que se passa dentro de nós e, quando isso não acontece, surge a sensação de falha. No entanto, nem todas as experiências emocionais nascem prontas para serem ditas, algumas precisam ser sentidas antes de serem compreendidas.
Esse cenário favorece respostas superficiais, que aliviam a pressão do momento, mas não refletem o que realmente está acontecendo internamente. A dificuldade de nomear pode se transformar em culpa e essa culpa, muitas vezes, nasce da comparação. Observa-se o outro, aparentemente seguro sobre o que sente, e conclui-se que a própria confusão é sinal de fragilidade, no entanto, cada pessoa tem seu ritmo de elaboração. A clareza que se vê no outro nem sempre revela o percurso interno que foi necessário para alcançá-la e para evitar o desconforto do silêncio, muitas vezes aceitam-se explicações que não correspondem à própria experiência.
Nem sempre a ausência de palavras significa vazio. O silêncio também pode ser uma forma de resposta. Nem toda vivência exige manifestação imediata, seja pela fala ou pela escrita. Os sentimentos precisam amadurecer para que possam ser nomeados, é necessário tempo. Forçar uma definição pode interromper algo que ainda está se organizando internamente. Um espaço seguro permite que a pessoa seja quem é, inclusive quando ainda não sabe dizer o que sente. Aprender a sustentar o “não sei” faz parte desse cuidado. Explicar pode oferecer uma resposta rápida; compreender exige tempo.
Tudo tem seu tempo, e nem tudo precisa ser dito no instante em que é vivido. Quando o sentir ainda não virou palavra, isso não significa falta de sentido. Significa que algo está sendo elaborado, mesmo que de forma silenciosa. Respeitar esse intervalo é uma forma de cuidado consigo. Há maturidade em sustentar o que ainda não está claro, sem a pressa de definir ou concluir.
Aos poucos, o que era apenas silêncio pode se transformar em compreensão. O que parecia indefinido ganha contorno, nome e significado e quando a palavra finalmente chega, ela não vem por obrigação, mas porque encontrou espaço para nascer. Talvez esse seja um dos movimentos mais delicados da experiência humana: permitir que o sentir exista antes de ser traduzido. Aceitar que há momentos em que a presença é mais importante do que a explicação.
Vivemos em uma cultura que valoriza a rapidez, a objetividade e a clareza imediata. No entanto, a vida emocional não obedece à mesma lógica. Ela não funciona por prazos nem se organiza de acordo com a urgência externa. Há sentimentos que precisam atravessar o corpo, a memória e a experiência antes de encontrarem forma na linguagem.
Quando nos cobramos para entender tudo de imediato, podemos interromper um processo que ainda está em curso. A tentativa de dar nome apressadamente ao que se sente pode produzir rótulos que não traduzem a complexidade da experiência vivida. Nem tudo cabe em definições rápidas, algumas emoções são mais amplas do que as palavras disponíveis naquele momento. Reconhecer isso é um exercício de honestidade emocional, pois existem sentimentos que só precisam de tempo e no tempo certo, o silêncio se transforma em compreensão.
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Sobre a autora: Isa Ramos
Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança.
Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.
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