segunda-feira, 12 de agosto de 2019

PROCESSOS CRIATIVOS COM MANCHAS: Do Surrealismo à Arteterapia



Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram: @naopalavra


Minha porta de entrada para o estudo da História da Arte em diálogo com a Arteterapia se deu a partir do movimento Surrealista: movimento artístico que buscava alcançar expressões do inconsciente através de processos criativos que fugiam da razão. 
Quando falamos em Surrealismo, automaticamente nosso pensamento se dirige a Salvador Dali. Mas vale muito reconhecer que antes dele, este movimento foi bastante potente e rico, além de bastante inspirador para nossas práticas em Arteterapia. 
André Breton, líder do movimento surrealista era médico psiquiatra e poeta, e escreve seu manifesto em 1924. Era estudioso de Freud, que se encontrava em pleno desenvolvimento da teoria psicanalítica, do conceito do inconsciente e o método da associação livre.
Freud, estabeleceu a “cura pela fala” e como parte do método catártico,  pedia que o paciente falasse, sem restrições ou censuras, tudo o que atravessasse a sua mente, com ou sem sentido, visando alcançar seu objeto, o inconsciente. Breton aplicou para fins artísticos o que Freud cunhou como a regra fundamental da psicanálise: a associação livre de Freud inspirou o automatismo surrealista. 
Entretanto: 
“Seria um equívoco... pensar que em virtude de suas origens aparentes na teoria psicanalítica, o espírito de pesquisa científica presidisse aos primeiros anos do surrealismo. A despeito da homenagem prestada a Freud, é evidente que o uso que eles fizeram de suas técnicas de livre associação e interpretação de sonhos foi em muitos aspectos oposto às suas intenções... Encorajar deliberadamente os desejos indisciplinados do homem é contrariar frontalmente a psicanálise de Freud, que tinha por finalidade curar distúrbios mentais emocionais do homem... Freud recusou-se certa vez a colaborar para uma antologia de sonhos organizada por Breton, argumentando que não conseguia vislumbrar em que uma coletânea de sonhos, sem as associações e as lembranças da infância do sonhador, poderia ter de interesse para alguém. O que os surrealistas viam era a imaginação em seu estado primitivo e uma expressão pura do ‘maravilhoso’.” (ADES in STANGOS, 117-118)

Freud e os surrealistas tinham um interesse em comum: o inconsciente. Porém, havia uma bifurcação: Freud possuía um interesse médico/científico. Já os surrealistas buscavam técnicas artísticas de acesso ao inconsciente. A Arteterapia alcança uma interseção entre os dois, pois tem o interesse em técnicas expressivas de acesso ao inconsciente e seus efeitos terapêuticos. 
O Surrealismo nos anos 20: o automatismo
Antes das pinturas surrealistas mais conhecidas do grande público, nos anos 20 a grande contribuição do movimento foi o processo criativo baseado no automatismo ao qual Breton definiu no Manifesto de 1924: 
“Surrealismo – automatismo psíquico puro, por meio do qual alguém se propõe a expressar – verbalmente, utilizando a palavra escrita, ou de qualquer outra maneira – o verdadeiro funcionamento do pensamento, na ausência do controle exercido pela razão, livre de qualquer preocupação estética ou moral.” (BRETON in BRADLEY, 21)
Originalmente um movimento formado por poetas, o automatismo era inicialmente uma empreitada literária. Somente em 1925 houve um programa surrealista para as artes visuais com “Surrealismo e a Pintura” de Breton.
Entretanto, na imagem, o processo automático precisou se reinventar: 
“... a natureza absoluta do automatismo surrealista: poesia, prosa e supostamente a pintura deveriam se originar do encadeamento das primeiras palavras ou imagens que ocorressem à mente...

Para as artes plásticas... o veículo... era a mancha, mais do que a palavra...

A parafernália da pintura a óleo... tendia a dificultar a espontaneidade do impulso... Os pintores surrealistas tiveram que buscar um outro caminho para o maravilhoso.” (BRADLEY, 21) 


Sendo assim, o caminho encontrado pelos pintores surrealistas para a experimentação do automatismo na imagem, se deu com as manchas e suas múltiplas possibilidades. 
Alguns processos experimentados
- Manchas de tinta (explorando o elemento cor)
Contrariando o processo de pintura habitual, ao qual o artista partia de uma ideia temática pré-concebida, os surrealistas abriam-se para “borrões de tinta” aleatórios para dali encontrarem seus temas.  
“Sabe-se que Miró trabalhou de modo similar, mas a partir de um começo ainda mais arbitrário: diz-se que certa vez ele iniciou uma pintura ao redor de manchas de geléia que tinham atingido a tela” (BRADLEY, 22) 
- Decalque/monotipia (explorando o elemento cor)
Os artistas também experimentaram espalhar guache, nanquim ou tinta a óleo numa superfície lisa e não absorvente, como o vidro.  Em seguida, o papel ou a tela eram aplicados sobre a base entintada, e ao serem retirados, retinham a tinta colorida, criando fundos que poderiam ser trabalhados. 
- Frottage: (experimentando texturas)
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Max Ernst criou um método mais ou menos automático que posteriormente era traduzido para a pintura a óleo:  ele criava um padrão para o fundo friccionando o lápis ou o carvão no papel,  posto sobre uma superfície áspera ou irregular qualquer, como fez certa vez, sobre uma espinha de peixe. A partir deste padrão, criou uma imagem que foi traduzida, já de forma mais racional e técnica, para uma pintura. O artista chamava este processo de “ver em”. 
- O desenho automático (explorando o elemento linha)

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Andre Masson adotou o automatismo surrealista e deu início aos seus desenhos à pena e a tinta, logo depois do seu encontro com Breton. Seus desenhos automáticos estão entre os mais notáveis produtos do surrealismo. No processo, a pena move-se rapidamente, sem ideia consciente de um tema, traçando uma teia de linhas firmes, das quais emergem imagens que são, por vezes, aproveitadas e elaboradas, outras vezes deixadas como sugestões. 


Uma variação deste processo, ele fez com areia, ao qual o movimento da linha era feito com a cola e posteriormente a areia era acrescentada. 


Manchas: do Surrealismo a Arteterapia



O imenso e variado repertório de trabalhos com manchas em Arteterapia tem sua raiz na História da Arte no Surrealismo. Com este processo trabalhamos o automatismo em imagens. São processos indicados quando a ideia é abrir mão do racional e da escolha consciente do tema, do processo e das imagens resultantes. Quando rebaixamos o controle racional, manifestações e expressões inconscientes são acessadas, e as as manchas servirão como  estímulos projetivos espontâneos a serem trabalhados. 

A prática nos mostra que o processo criativo que busca expressões inconscientes através da não racionalização, não escolha e não planejamento, abre caminho para o surgimento de símbolos espontâneos, e por isso muito potentes quando acolhidos e elaborados. Naturalmente faz emergir a questão do paciente (através do fenômeno da projeção) causando muitas vezes uma surpresa por parte do autor. Consequentemente também possui um potencial de resistência, que deve ser acolhido pelo terapeuta. 

São interessantes também para pacientes presos à estética exterior e ao “belo reconhecido” para que saiam do processo criativo a partir do escolhido. Interessantes também para clientes/pacientes iniciantes da Arteterapia, inseguros em produzir uma imagem. 

Em um próximo texto, darei seguimento ao diálogo dos artistas surrealistas com a Arteterapia, abordando outra grande contribuição deste movimento para nossas práticas: as imagens oníricas. 

Referências Bibliográficas: 
BRADLEY, Fiona. Surrealismo. 
STANGOS, Nikos (org). Conceitos de arte moderna.
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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga.
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.


Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia" CLIQUE AQUI

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