segunda-feira, 24 de junho de 2019

NO PERCURSO DE ESTUDOS SOBRE HISTÓRIA DA ARTE: reflexões sobre o filme “O sorriso de Monalisa”



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram: @naopalavra

Nos últimos tempos tenho me apropriado do percurso de estudos sobre a História da Arte e a pesquisa sobre suas aplicabilidades na Arteterapia, nos campos teórico e prático. Esta jornada é alimentada por cursos, livros, vídeos... e filmes. 

Há algumas semanas uma pessoa querida me soprou ao ouvido o nome do filme “Sorriso de Monalisa”, dizendo que ao assisti-lo se lembrou de mim (quanta honra). De fato, me identifiquei com a personagem principal, a professora de História da Arte Katherine Watson (vivida por Julia Roberts) que em meio ao seu ofício guardava o sonho de “mudar o mundo”. 

Tenho assumido o movimento de compartilhar enquanto estudo, as diversas descobertas e encantamentos que esta pesquisa me proporciona. Considero importante que o arterarapeuta se aproprie da história daquilo que carrega em seu nome: arte. O estudo de toda a linha do tempo é importante para que possamos contemplar os diversos homens ao longo da história, compreendendo que todos eles ainda existem em nós. Mas em especial, tenho direcionado meu estudo para a fatia da história do século XX até os nossos dias, período da Arte Moderna e Contemporânea. 

Considero importante este recorte por alguns motivos, dentre eles, o fato de que estes são os movimentos artísticos mais atuais, próximos de nossa cultura e maneira de enxergar o mundo. Estudando-os somos instrumentalizados para a escuta do social e do indivíduo (naquele inserido) que nos procura como terapeutas. 

Penso também que as quebras de paradigmas e as novas formas de se enxergar a arte e o mundo trazidas pela Arte Moderna, são estruturais para que a profissão da Arteterapia pudesse ser pensada e assim se tornar possível. Ao assistir “Sorriso de Monalisa” pude associar fragmentos do filme aos meus estudos e observar como pontos que de certa forma parecem pacíficos hoje em dia, nem sempre foram assim. As desconstruções conceituais que a Arte Moderna proporcionou e sustentou, não sem grande resistência, merecem nossa atenção e aprofundamento teórico. Desconstruções estas que apontam para nossa cultura atual e para a maneira de se enxergar e fazer arte ao qual nós arteterapeutas bebemos de sua fonte. 

O filme

“Sorriso de Monalisa” é um filme americano de 2003, dirigido por Mike Newell, ao qual retrata os padrões socioculturais da década de 1950. O filme conta a história de Katherine Watson, uma “boêmia da Califórnia [que] estava a caminho da mais conservadora escola do país” para lecionar a disciplina de História da Arte. Katherine tinha um tamanho desafio pela frente, até porque o que “... tinha de inteligência [era] o que lhe faltava em pedigree”.

Wellesley College, tradicional escola  feminina, investia na melhor educação para suas alunas, mas orientando-as para que se transformassem em cultas esposas e responsáveis mães.  Recebiam aulas como oratória, locução e postura. O tradicionalismo era tamanho que em determinado momento uma enfermeira do campus foi demitida por fornecer um método contraceptivo a uma aluna e assim encorajar a promiscuidade. Saindo da escola, com um alto preparo intelectual, as únicas responsabilidades das ex-alunas seriam cuidar dos maridos, filhos e casas. 



Nas primeiras cenas do filme, Katherine que viaja de trem, já demonstra seu apreço pela Arte Moderna ao contemplar um slide da clássica obra de Picasso “Les demoiselles d’Avignon”. Quando é recebida pela diretoria da escola é arguida sobre seu tema de dissertação:

- “’Picasso fará pelo século XX o que Michelangelo fez pelo Renascimento’ você diz em sua tese. Então estas telas produzidas hoje só com borrões de tinta merecem tanto nossa atenção quanto à Capela Sistina?”   

Cenas destacadas: (atenção, a partir de agora o texto conterá muitos spoilers. Caso você não goste deles, sugiro assistir o filme antes de concluir sua leitura)  

- O início das aulas:  



Para o primeiro dia de aula da disciplina “Introdução a História da Arte” Katherine havia preparado uma sequência de slides que remontava a linha do tempo das expressões artísticas desde a pré-história. Para sua surpresa as alunas sabiam citar os nomes e datas de todas as obras mostradas e assim descobriu que as alunas haviam lido todo o conteúdo programático e o decorado antes mesmo do início das aulas. 

Após um primeiro momento de frustração, Katherine é movida a buscar novos caminhos para afetar suas alunas, mostrando a elas o potencial da arte e uma visão de mundo para além dos livros e apostilas. 

No segundo dia de aula Katherine surpreende as alunas com a imagem de uma obra que não estava no programa: “Carcaça” (1924) de Soutine. 


“Ele é bom?... Vamos moças! Não há resposta errada. Não há livro texto lhes dizendo o que pensar.”

E o diálogo entre as alunas acontece:

“- Não, nem diria que é arte. É grotesco.
- E a arte não pode ser grotesca?
- Se sugere que isto é arte, o que iremos aprender?”

E assim Katherine define o programa a ser estudado:

“- O que é arte? Quando uma obra é boa ou ruim? E quem define? ‘A arte só é arte até as pessoas certas dizerem que é'. E quem são estas pessoas?”

- Contemplando Pollock 

Um momento marcante do filme é quando Katherine leva suas alunas para uma aula externa, onde ela as apresenta à uma autêntica obra de um dos mais importantes artistas americanos daquela momento: Jackson Pollock.


Diante daquela enorme tela marcada com o estilo único de Pollock, as alunas não esconderam seus rostos de estranhamento:

“- Já ia aceitando a carne com vermes como arte, agora isso...”

Katherine completamente absorvida com aquela imagem, apenas diz:

- “Façam um favor a si mesmas. Calem-se e apreciem. Não haverá nenhum ensaio sobre. Não precisam nem gostar dele. Só precisam apreciar. É a única tarefa de hoje. Quando acabarem, podem ir.”


- Sinais de resistência

Mas estes conteúdos inovadores, naturalmente não passaram desapercebidos pela direção da escola. Em determinado momento a diretora revela a Katherine que tem recebido telefonemas sobre os métodos da professora, um tanto heterodoxos para Wellesley e adverte: 

“Somos tradicionalistas... Então, se quer permanecer aqui... menos Arte Moderna.” 

- Van Gogh e a mudança de rumos na arte

Para mim, o ponto alto do filme se dá quando Katherine ensina sobre Van Gogh, mas além dos livros, mostra às alunas uma caixa como de brinquedo e fala sobre a nova forma de “arte para a massa: uma pintura com manual”.


“ - Ele pintava o que sentia. Não o que via. Ninguém entendia. Achavam infantil e tosco. Levou anos até reconhecerem sua técnica e verem como suas pinceladas faziam o céu noturno se mexer. Ainda sim, ele não vendeu nenhum quadro em vida... Agora, 60 anos depois, ele é tão famoso que todos têm cópias suas. A reprodução disponibilizou a arte para as massas. [Hoje]... ninguém precisa ter um original... eles fazem as próprias cópias.”

A caixa continha um kit para pintura a óleo e dizia:

“Agora todos podem ter um Van Gogh. É fácil. Siga as instruções e em minutos você se tornará um artista.”

Katherine segue:

“Veja o que fizemos com um homem que se recusava a conformar seus ideais ao gosto popular. E se recusava a comprometer sua integridade. Nós o encaixotamos e pedimos a vocês que o copiem. A escolha é de vocês. Podem se conformar ao que esperam de vocês ou podem ser quem vocês são.”

A beleza da cena chega ao ápice quando ao final do ano letivo, as alunas decidem “pintar seus Van Gogh’s” para presentear a professora, porém cada uma trazendo seus próprios traços, cores, estilo. Este fragmento do filme traduz o simbolismo da abertura à subjetividade na expressão artística e a possibilidades de cada um de nós nos experimentarmos como artistas em nossas expressões, aspectos tão característicos da Arte Moderna e consequentemente embasadores da Arteterapia. 


- Fechando um ciclo

Katherine é convidada pela direção a continuar na escola para o ano seguinte, porém exigiu-se o acompanhamento de todo o conteúdo curricular para que a tradição da instituição fosse mantida. Ela, por mais que desejasse essa função, não aceitou e dela abriu mão.

Katherine deixa Wellesley College, mas deixa sua marca naquela turma de moças, mostrando que não basta reproduzir o conhecimento, mas sim a capacidade de pensar, de desenvolver o senso crítico. Assim ela demonstra que o papel do professor – e da arte – é fazer o aluno pensar sobre sua época e questioná-la. 

Ao fim, ela recebe uma homenagem da aluna que mais resistiu ao que pretendia transmitir:

“Dedico meu último editorial à uma mulher extraordinária, que nos serviu de exemplo. A professora que nos incentivou a ver o mundo com novos olhos. Quando lerem este editorial, ela estará a caminho da Europa, onde sei que derrubará novas barreiras e semeará novas ideias. Ela foi taxada de fracassada por partir, uma transviada e sem rumo. Mas, nem todos que se desviam carecem de rumo. Especialmente quem procura a verdade além da tradição, além da definição, além da imagem.

Eu nunca a esquecerei.”

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora do livro "Pensando a Arteterapia"  CLIQUE AQUI

Um comentário:

  1. Esse trecho final, até gravei no meu celular. É um filme extraordinário e, para a época, inovador, revolucionário, também. O seu texto está incrível, como sempre. Parabéns! Beijos. Isabel

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