segunda-feira, 16 de maio de 2016

A PERCEPÇÃO DE SI DENTRO DO AGIR – Especificidades da Arteterapia



Eliana Moraes
elianapsiarte@gmail.com
Estou Tonto

Estou tonto, 
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, 
Ou de ambas as coisas. 
O que sei é que estou tonto 
E não sei bem se me devo levantar da cadeira 
Ou como me levantar dela. 
Fiquemos nisto: estou tonto. 

Afinal 
Que vida fiz eu da vida? 
Nada. 
Tudo interstícios, 
Tudo aproximações, 
Tudo função do irregular e do absurdo, 
Tudo nada. 
É por isso que estou tonto ... 

Agora 
Todas as manhãs me levanto 
Tonto ... 

Sim, verdadeiramente tonto... 
Sem saber em mim e meu nome, 
Sem saber onde estou, 
Sem saber o que fui, 
Sem saber nada. 

Mas se isto é assim, é assim. 
Deixo-me estar na cadeira, 
Estou tonto. 
Bem, estou tonto. 
Fico sentado 
E tonto, 
Sim, tonto, 
Tonto... 
Tonto.
 

Álvaro de Campos, em "Poemas" 
(Heterónimo de Fernando Pessoa) 


Não é raro recebermos na clínica pacientes com a queixa de que se sentem improdutivos, inúteis ou estagnados naquilo que entendem que deveriam estar desenvolvidos. São pessoas que possuem projetos, que muitas vezes têm em mente onde querem chegar, que transitam bastante no campo da ideia. Porém, não conseguem iniciar, concluir ou têm dificuldade de encontrar soluções dentro dos recursos disponíveis.

Certa vez ouvi de alguém angustiado, que gostava de ir a praia porque lá  podia relaxar sua mente, pensava naquilo que desejava conquistar e disse “então imagino que estou fazendo...”. Imagino que estou fazendo. Esta frase gritou aos meus ouvidos.

Para a psicoterapia, esta questão terapêutica seria colocada através da fala do paciente. O processo se daria visando a tomada de consciência e elaboração deste hiato entre o pensamento e a ação, e a discussão sobre novos caminhos possíveis. E não há dúvidas que esta é uma técnica que tem seu lugar. Entretanto, as vezes me pergunto se permanecer no campo da palavra não seria cooperar com engodo do “falar sobre” a questão ao invés de justamente sair do ciclo vicioso do pensamento.

Uma de minhas grandes motivações profissionais para este ano é pensar a Arteterapia em suas especificidades teóricas e práticas. Estive pensando sobre o manejo do fenômeno da projeção/transferência no setting arteterapêutico pela especificidade da entrada do terceiro elemento: o material. Nesta articulação escrevi alguns textos para este blog, que foram estruturados para uma palestra do Ciclo de Palestras Não Palavra, e hoje este ensaio teórico será lançado como mini curso on line. Deixo o convite àqueles que desejam se aprofundar mais na teoria da Arteterapia, que conheçam este material.

Hoje trago a reflexão sobre outra especificidade da Arteterapia: o agir criativo como objeto de trabalho do Arteterapeuta. Quando compreendemos que o agir criativo é objeto de nossa escuta, observação e manejo, uma gama de articulações teóricas são necessárias para que o arteterapeuta se instrumentalize para trabalhar. E é sobre este tema que agora desejo mergulhar e compartilhar com os interessados e curiosos pela Arteterapia.

Inicialmente, penso que quando recebemos um paciente/cliente com a queixa e angústia tão bem ilustrada por Fernando Pessoa, de estar tonto em meio aos pensamentos, eis aqui uma oportunidade para a Arteterapia! Ao ter como objeto de trabalho o agir criativo, a Arteterapia proporciona ao paciente a chance de romper com o aprisionamento dos pensamentos e observar-se em ato.

Fayga Ostrower é uma grande teórica da arte, mas que tem muito a contribuir para nosso estudo como arteterapeutas, diz que “A percepção de si mesmo dentro do agir é um aspecto relevante que distingue a criatividade humana.” E defende que:

“Criar não representa um relaxamento ou um esvaziamento pessoal, nem uma substituição imaginativa da realidade; criar representa uma intensificação do viver, um vivenciar-se no fazer; e, em vez de substituir a realidade, é a realidade; é uma realidade nova que adquire dimensões novas pelo fato de nos articularmos, em nós e perante nós mesmos, em níveis de consciência mais elevados e mais complexos.” (OSTROWER)

Dentro do setting arteterapêutico, o paciente tem a oportunidade de sair do ponto zero (fonte de angústia) e entrar em movimento. O agir criativo se dá como um convite para que ele saia da inércia e faça movimentos (físicos, psíquicos e cognitivos) que serão ensaios para movimentos que fará na própria vida, abrindo espaço para o novo:

Criar é basicamente formar. É poder dar uma forma a algo novo. [...] novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos.” (OSTROWER)

Fayga diz que o criar é um movimento produto das necessidades humanas:

Movido por necessidades concretas sempre novas, o potencial criador do homem surge na história como um fator de realização e constante transformação. Ele afeta o mundo físico, a própria condição humana e os contextos culturais. (OSTROWER)

O agir amparado pelo continente do setting arteterapêutico é uma espeficifidade da Arteterapia dentre as técnicas terapêuticas. Desta forma, o setting se configura como um ambiente suportado pela transferência com o arteterapeuta para que o paciente vivencie-se no fazer. Que perceba-se em suas dificuldades e resistências e tenha a oportunidade de enfrentá-las. Que em meio a esta experiência ele possa tomar decisões sobre este enfrentamento (ou não) e que assim ele se responsabilize por ela e por si como autor e protagonista da sua obra/história.

De toda forma, ao ouvirmos o relato angustiado “... imagino que estou fazendo...” o sutil convite do arteterapeuta é apenas (apenas?) “Então vamos fazer?”.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.


Para saber mais sobre o mini curso on line "O fenômeno da projeção em Arteterapia" acesse www.centrodehumanas.com.br



2 comentários:

  1. Angélica Teixeira17 de maio de 2016 15:42

    Gostei muito da idéia de mini curso online.
    Esclarecendo o processo criativo,em arteterapia.

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  2. Ótimo texto. Sim! É este um dos poderes da arte.

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