terça-feira, 10 de novembro de 2015

ARTETERAPIA PELO MUNDO: MARGARETE NAUMBURG

Por: Maria Cristina de Resende

Quando pensamos em Arteterapia e sua história qual o nome que nos vem à mente ou nos é apresentado: possivelmente Dra. Nise da Silveira.

Entretanto, a mesma sempre enfatizou que sua prática NÃO era Arteterapia, e logo, me vem à questão: como usar um nome como referência para uma prática quando este nome não a reconhece como fonte legítima de seu trabalho?

Precisamos então buscar na história da Arteterapia seus fundadores, sua constituição técnico-teórico que permita que pensemos as bases da construção de nossa prática profissional.

Ao buscar estas bases cheguei a um nome quase não mencionado pelo meio da Arteterapia: Margarete Naumburg, uma das primeiras teóricas da Arteterapia nos EUA e co-fundadora da Associação Americana de Arteterapia.
Margaret Naumburg

Margarete começa sua história contando sobre os difíceis anos de escola, tanto no período da educação fundamental, quanto no ensino médio. Sua principal reclamação era a rigidez e os formatos que pouco possibilitava o desenvolvimento da criatividade da criança e do adolescente. Mas em 1912, já adulta, ela entra em contato com uma nova prática na educação: o método de Maria Montessori, na Itália. Aqui, a criança é observada a partir das fases do desenvolvimento infantil, priorizando a experimentação de seu mundo subjetivo e também de tudo que o mundo oferece a ela. Notadamente influenciado pela psicanálise, este método encanta Margarete que leva para Nova York esta nova possibilidade de ensino.

Juntamente com a observação do desenvolvimento infantil e a liberdade de expressão, Margarete começa a introduzir os conceitos da psicanálise na Educação justificando que até o momento este campo tratava apenas com a superfície da mente, a consciência. Para ela era imprescindível que a abordagem da educação sofresse ajustamentos que contemplassem essa nova perspectiva.

Aqui é preciso destacar que neste momento da história da humanidade, o início do século XX, é marcado por inúmeras transformações tanto no campo das ciências humanas, quanto nas ciências exatas. A psicologia começa a se estabelecer como cadeira científica, a psicanálise revoluciona o modo de pensar o homem quando introduz o conceito de inconsciente enquanto instância reguladora de sua mente e de seus atos. Na arte observamos a revolução da arte abstrata, na política e na economia temos a 1ª e a 2ª Grande Guerra. Ou seja, o mundo está mudando, e com esta mudança novas formas de pensar o mundo, de estar no mundo e de enxergar a si mesmo precisam ser reformuladas.

Nessa busca, um dos pontos fundamentais em que Margaret se apoia é no fato dela não poder se apresentar como psicanalista, uma vez que sua formação vem da Educação, ainda que seus princípios da educação estejam baseados na psicanálise. Logo, ela combina suas bases da Educação, campo em que é reconhecida e respeitada e alia aos ensinamentos da psicologia e psicanálise através da arte.  Aqui Margarete já tem publicado seu primeiro livro “A criança e o mundo”[i], de 1928, e em 1943 ela se junta ao Comitê de Arte na Sociedade Americana de Educação que estudava Arteterapia no Museu de Arte Moderna de Nova York.

Nasce então, o interesse pela terapia ocupacional, um dos grandes campos em que a Arteterapia bebe na formulação de sua prática. Nesta época, esta área da saúde estava ganhando cada vez mais espaço nos EUA uma vez que fora muito atuante nos militares sobreviventes da guerra, no tratamento dos sintomas do pós-guerra, hoje conhecidos como Stress Pós-Traumático.

A terapia ocupacional é conhecida desde a antiguidade, quando os egípcios indicavam atividades ocupacionais como passeios, alfaiataria, musica, pintura e outras atividades para os que tinham a “mente agitada”. Nos templos de Esculápio, tais atividades faziam parte do tratamento que os sacerdotes ofereciam aos enfermos que buscavam a cura através do Deus Médico.

Mas a metodologia de tal prática diverge daquela que Margarete estava formulando, e mesmo assim era reconhecida e administrava cursos para os alunos desta área.

Ainda em 1943 ela publica um caso clínico no artigo “Arte Expressiva de uma criança e a Guerra”[ii], seu trabalho clínico começa a se desenvolver, cursos são ministrados, atendimentos clínicos são realizados, e aos poucos a teoria começa a ficar cada vez mais consistente e em 1950 ela é um dos nomes mais importantes dessa nova abordagem. Em 1949 o seguinte artigo é publicado:

“O significado psicoterapêutico da produção artística de uma Escola de Meninas”, proclamando: Arteterapia – o uso dos desenhos para o estudo dos problemas emocionais de crianças e adultos – é agora um procedimento estabelecido pela psiquiatria. E ele continua: ‘Uma das pioneiras mais conhecidas no campo da expressão artística espontânea é a Dra. Margaret Naumburg, de 59 anos de idade.  Nascida em Nova York artista-psiquiátrica, que dedicou os últimos dez anos de sua vida para sua própria forma de Arteterapia’. Mesmo não sendo médica, artista nem psiquiatra, ela continua a luta para achar seu lugar profissional no mundo”.[iii]

O fato de buscar este lugar, ainda não definido, nos faz pensar até hoje sobre o lugar do Arteterapeuta hoje no paradigma atual do sistema de saúde brasileiro. Quem é este profissional? Qual sua formação? Como ele esta sendo preparado para lidar com as demandas médicas, acadêmicas, técnico-teóricas atuais?
Para Margarete esta preocupação ficou cada vez maior a partir dos anos 50, quando a falta de características próprias da área em que batalhava para fundamentar, foi estreitando cada vez mais suas possibilidades de atuação, até que em um encontro médico anual o Dr. René Spitz, psicanalista, a lançou um desafio:

“Não esta claro em minha mente sobre os aspectos essenciais da situação terapêutica de um lado, e dos procedimentos terapêuticos de outro. Eu sinto muito forte que em algum momento nós precisaremos diferenciar claramente as diferenças básicas da terapia analítica e da Arteterapia....Eu gostaria de pleitear aos arteterapeutas que façam um paralelo entre os procedimentos usados por eles contra os procedimentos da análise clássica – tal confronto irá nos ajudar muito a entender muitos dos aspectos da arteterapia que até este momento, não estão suficientemente claros, pelo menos não para mim”.

Este desafio tomou Margarete profundamente e dez anos depois de muita pesquisa, estudos e dedicação ela responde em 1966 através do livro “Arteterapia dinâmica orientada: Seus princípios e práticas”[iv]. Aqui ela retira o termo “analítico” de seus textos para diferenciar que sua prática era sim diferente da psicanálise freudiana.

E com esta referência de estudos para os alunos e profissionais da Arteterapia fica a reflexão: você é um analista que usa expressões artísticas no consultório ou um arteterapeuta que compreende a dinâmica psíquica a partir da teoria freudiana, ou Junguiana, ou gestáltica, ou comportamentalista, ou humanista, ou qualquer teoria da personalidade que atenda seu estilo de trabalho?
Está claro para você, aluno ou profissional, qual o seu campo de atuação e quais são as bases que fundamentam esta prática que defendemos hoje como legítima de atuação terapêutica?

Para mim, está claro que a Arteterapia é um hibrido de diversas fontes teóricas: terapia ocupacional, história da arte e teorias da arte, educação, psicologia, psicanálise e psiquiatria. E para que possamos estar defendendo nossa prática perante o meio médico e acadêmico é preciso estabelecer uma relação profunda entre tais campos e a nossa prática atual, formatar seu campo teórico próprio a partir de conceitos consistentes e de metodologia própria, baseada na pesquisa, na teorização e na experiência prática.

Para saber mais sobre o artigo sobre Margarete Naumburg acesse o link abaixo da Universidade da Pensilvânia, fonte principal deste artigo.


CONTATO: naopalavra@gmail.com





[i] The Child and The World
[ii] Children´s Art Expression and War
[iii] Tradução livre da autora
[iv] Dymanically Oriented Art Therapy: Its Principles anda Practices.

Um comentário:

  1. MUITO ESCLARECEDOR, ACHEI MUITO VALIDO PARA TODOS AQUELES QUE ESTÃO PENETRANDO NESSE CAMPO DA ARTETERAPIA.

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