Por Edson Fiuza - RJ
@respiroterapeutico
Introdução
Recentemente, facilitei oficinas
sobre cores primárias – amarelo, vermelho e azul – com públicos distintos em
duas instituições no Rio de Janeiro, ambas conduzidas por mim. Na ONG GemPaz, o
trabalho foi realizado com grupos de crianças e pré-adolescentes, em um projeto
chamado ExpressArte – Arteterapia com Jogos Teatrais. No Instituto Municipal de
Assistência a Saúde Nise da Silveira, no projeto Coletivo Rizoma, o grupo de
arteterapia era composto por adultos.
Minha proposta ao realizar essas
oficinas, era perceber como grupos de faixas etárias diferentes, iriam se
comportar na apresentação sobre um mesmo tema e atividade.
A Magia das Cores na Infância
Com as crianças, a oficina
começou com a leitura do livro “Como as Cores Nasceram”, de Sandra Hansen, e em
seguida uma conversa sobre a história. As pequenas mentes estavam cheias de
imaginação, e foi incrível vê-las se conectando com cada cor de maneira tão
pura e genuína. Ao perguntar a elas o que cada cor representava, pude ouvir
respostas encantadoras e espontâneas, revelando como as cores estão imersas em
suas experiências diárias. Além de aprender as cores primárias, o foco estava
em brincar.
A abordagem foi predominantemente
lúdica. O brincar se tornou a chave para a exploração das cores. Usei histórias,
jogo de palavras utilizando as cores e atividades criativas que não apenas
estimularam a imaginação, mas também permitiram que as crianças se expressassem
de maneira livre e espontânea. Essa forma de condução é fundamental, pois,
nessa fase da vida, a arte se torna um meio natural de comunicação e
descoberta.
A alegria e o entusiasmo que vi
nos rostos das crianças, criando suas próprias interpretações das cores, foram
momentos mágicos. Elas não estavam apenas aprendendo sobre cores; estavam
vivenciando emoções, construindo memórias e estabelecendo conexões.
O amarelo foi predominantemente
relacionado ao abacaxi, pela maior parte das crianças. O sol, a flor e a abelha
também foram citados, mas não com tanta ênfase. Com o vermelho, lembraram de
sangue, maçã, melancia e muitas outras frutas. Já o azul, mergulharam no céu, no
mar e na chuva. A pureza de suas expressões foi contagiante! Através de uma
atividade lúdica, elas pintaram com giz de cera, tiras de papel em branco com
as cores primárias, e depois colaram essas tiras em um papel em branco,
formando esculturas. Assim, puderam expressar suas interpretações, criando
obras divertidas que refletiam suas emoções e percepções. Para mim, esse é o
verdadeiro poder da arteterapia: criar um espaço seguro onde o lúdico pode
florescer.
Transições para a
Pré-Adolescência
Com os pré-adolescentes, a
dinâmica mudou um pouco. As cores passaram a ter outros significados, e a
conversa fluiu em torno de suas emoções em desenvolvimento. O vermelho se
tornou um símbolo de intensidade e “explosões”, despertando emoções ligadas à
coragem de ser quem são. O azul representou a busca por identidade, e a
tranquilidade dos seus lugares favoritos. O amarelo, por sua vez, trouxe
risadas e lembranças de dias ensolarados, discussões sobre o futuro e otimismo.
Esta fase é marcada por mudanças
e descobertas, e as cores serviram como uma excelente metáfora para as
transições que eles vivenciam. A atividade de contar histórias continuou, mas
agora envolveu discussões sobre como as cores podem refletir suas experiências
e desafios. Com os adolescentes percebi que não houve um grande interesse na
contação da história. A atividade expressiva também foi realizada utilizando as
cores primárias do giz de cera, em que tiras de papel em branco foram coloridas
e coladas formando uma escultura.
Profundidade e reflexão com os
Adultos
Ao trabalhar com os adultos, a dinâmica
mudou significativamente. Introduzi o tema da oficina, explorando como as cores
podem influenciar nossas emoções e comportamentos, refletindo experiências de
vida e memórias. A bagagem pessoal de cada participante trouxe uma profundidade
que não poderia ser alcançada com os mais jovens. Com eles, pude aprofundar o
tema das cores, explorando suas associações emocionais e psicológicas. Cada cor
se tornou um espelho das vivências e desafios que cada um enfrentou ao longo da
vida.
As discussões fluíram com maior
profundidade e introspecção. Pude perceber como as cores, que antes eram apenas
elementos visuais, se transformaram em símbolos de experiências, sentimentos e
até mesmo de traumas. Essa troca rica e significativa me fez refletir sobre
como a arte pode ser uma ferramenta poderosa de autoconhecimento.
O vermelho se tornou um símbolo
de paixões e desafios, o azul foi discutido em relação à serenidade e à
introspecção, enquanto o amarelo simbolizou alegria, esperança e renovação. A
renovação foi o tema que mais mobilizou o grupo, possivelmente pelo desejo que
existe nessa fase da vida em transformar velhos hábitos, buscar
autoconhecimento ou recomeçar ciclos.
Com esse grupo não houve contação de história.
A atividade foi feita com papel colorido nas cores primárias, em que eles
recortaram em tiras, colaram e também criaram esculturas.
Além disso, falamos sobre as
cores secundárias, que é a mistura das primárias, e como isso se relaciona com
as nossas vidas e relações interpessoais. Esse paralelo entre as cores e as
interações humanas trouxe à tona reflexões profundas sobre como as experiências
se entrelaçam e se complementam, assim como as cores se misturam para criar
novas nuances. Essa experiência proporcionou ao grupo refletir sobre os
conflitos do cotidiano, carreira, relacionamentos e busca por autoconhecimento.
Diversidade entre cores e gerações
- Conclusão
Cada etapa da vida traz consigo
desafios, descobertas e transformações que moldam quem somos. Na infância,
vemos a inocência e a curiosidade, que são marcas próprias de quem está
iniciando a vida. Na adolescência, essas transformações são retratadas com suas
turbulências e intensidades, refletindo a busca por identidade e pertencimento.
A fase adulta, expressa a complexidade das responsabilidades e conquistas
adquiridas durante a vida.
Como arteterapeuta, cada encontro
é uma oportunidade única de aprendizado e conhecimento. Trabalhar com públicos
tão distintos foi uma experiência enriquecedora. A mesma oficina, mas com
abordagens diferentes, me permitiu perceber como a arte pode mostrar a diversidade
de expressões entre gerações. Cada grupo trouxe sua própria perspectiva e
criatividade, mostrando que as cores não são apenas visuais, mas também
emocionais e simbólicas. É importante notar a liberdade de associações feitas
pelas crianças, enquanto no grupo de adolescentes essas associações tornaram-se
mais restritivas, e no grupo de adultos elas foram mais relacionadas a
sentimentos e sensações.
Em cada oficina, percebo que a
arte é um fio que nos une, independentemente da idade. O lúdico e a profundidade
coexistem, e essa diversidade é uma riqueza que devemos valorizar.
Percebi algo em comum aos três
grupos: no momento de colar as fitas, todos se divertiram. Como se isso tivesse
igualado todos os grupos. Os participantes disseram a mesma coisa ao olhar a
colagem pronta, que se parecia a um tobagã,
a uma pista de skate e a uma montanha russa. Um adulto mencionou que as
tiras de papel pareciam as emoções dentro da sua cabeça.
Esse privilégio de trabalhar com
diferentes públicos me ensina a importância de adaptar a condução das
atividades. É um convite constante para que eu também cresça e aprenda com cada
um deles. Ao final de cada oficina, o que mais me impressiona não é apenas o
resultado final das obras, mas a transformação que ocorre durante o processo –
uma verdadeira dança de cores e emoções que nos conecta de maneira única.
Essa experiência não apenas
enriqueceu meu trabalho como arteterapeuta, mas também me lembrou da beleza de
como a arte entrelaça nossas vidas.
Vamos celebrar a beleza e a diversidade
das cores!
Arteterapeuta, ator e mediador de biblioterapia, apaixonado pela promoção do bem-estar através da expressão artística.
Sua prática integra a expressão corporal, o teatro, a literatura e experimentações com diferentes materiais artísticos, proporcionando um espaço seguro e acolhedor para a exploração emocional.
Um profissional que acredita no poder transformador da arte, e em sua capacidade de facilitar diálogos internos, promovendo o autoconhecimento.
Atende crianças, jovens, adultos, idosos e empresas.


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