terça-feira, 27 de outubro de 2026

DO ABACAXI À RENOVAÇÃO: UMA EXPERIÊNCIA DA ARTETERAPIA ENTRE CORES E GERAÇÕES

 


Por Edson Fiuza - RJ

@respiroterapeutico


Introdução

Recentemente, facilitei oficinas sobre cores primárias – amarelo, vermelho e azul – com públicos distintos em duas instituições no Rio de Janeiro, ambas conduzidas por mim. Na ONG GemPaz, o trabalho foi realizado com grupos de crianças e pré-adolescentes, em um projeto chamado ExpressArte – Arteterapia com Jogos Teatrais. No Instituto Municipal de Assistência a Saúde Nise da Silveira, no projeto Coletivo Rizoma, o grupo de arteterapia era composto por adultos.

Minha proposta ao realizar essas oficinas, era perceber como grupos de faixas etárias diferentes, iriam se comportar na apresentação sobre um mesmo tema e atividade.

 

A Magia das Cores na Infância

Com as crianças, a oficina começou com a leitura do livro “Como as Cores Nasceram”, de Sandra Hansen, e em seguida uma conversa sobre a história. As pequenas mentes estavam cheias de imaginação, e foi incrível vê-las se conectando com cada cor de maneira tão pura e genuína. Ao perguntar a elas o que cada cor representava, pude ouvir respostas encantadoras e espontâneas, revelando como as cores estão imersas em suas experiências diárias. Além de aprender as cores primárias, o foco estava em brincar.

A abordagem foi predominantemente lúdica. O brincar se tornou a chave para a exploração das cores. Usei histórias, jogo de palavras utilizando as cores e atividades criativas que não apenas estimularam a imaginação, mas também permitiram que as crianças se expressassem de maneira livre e espontânea. Essa forma de condução é fundamental, pois, nessa fase da vida, a arte se torna um meio natural de comunicação e descoberta.

A alegria e o entusiasmo que vi nos rostos das crianças, criando suas próprias interpretações das cores, foram momentos mágicos. Elas não estavam apenas aprendendo sobre cores; estavam vivenciando emoções, construindo memórias e estabelecendo conexões.

O amarelo foi predominantemente relacionado ao abacaxi, pela maior parte das crianças. O sol, a flor e a abelha também foram citados, mas não com tanta ênfase. Com o vermelho, lembraram de sangue, maçã, melancia e muitas outras frutas. Já o azul, mergulharam no céu, no mar e na chuva. A pureza de suas expressões foi contagiante! Através de uma atividade lúdica, elas pintaram com giz de cera, tiras de papel em branco com as cores primárias, e depois colaram essas tiras em um papel em branco, formando esculturas. Assim, puderam expressar suas interpretações, criando obras divertidas que refletiam suas emoções e percepções. Para mim, esse é o verdadeiro poder da arteterapia: criar um espaço seguro onde o lúdico pode florescer.

 

Transições para a Pré-Adolescência

Com os pré-adolescentes, a dinâmica mudou um pouco. As cores passaram a ter outros significados, e a conversa fluiu em torno de suas emoções em desenvolvimento. O vermelho se tornou um símbolo de intensidade e “explosões”, despertando emoções ligadas à coragem de ser quem são. O azul representou a busca por identidade, e a tranquilidade dos seus lugares favoritos. O amarelo, por sua vez, trouxe risadas e lembranças de dias ensolarados, discussões sobre o futuro e otimismo.

Esta fase é marcada por mudanças e descobertas, e as cores serviram como uma excelente metáfora para as transições que eles vivenciam. A atividade de contar histórias continuou, mas agora envolveu discussões sobre como as cores podem refletir suas experiências e desafios. Com os adolescentes percebi que não houve um grande interesse na contação da história. A atividade expressiva também foi realizada utilizando as cores primárias do giz de cera, em que tiras de papel em branco foram coloridas e coladas formando uma escultura.

 

Profundidade e reflexão com os Adultos

Ao trabalhar com os adultos, a dinâmica mudou significativamente. Introduzi o tema da oficina, explorando como as cores podem influenciar nossas emoções e comportamentos, refletindo experiências de vida e memórias. A bagagem pessoal de cada participante trouxe uma profundidade que não poderia ser alcançada com os mais jovens. Com eles, pude aprofundar o tema das cores, explorando suas associações emocionais e psicológicas. Cada cor se tornou um espelho das vivências e desafios que cada um enfrentou ao longo da vida.

As discussões fluíram com maior profundidade e introspecção. Pude perceber como as cores, que antes eram apenas elementos visuais, se transformaram em símbolos de experiências, sentimentos e até mesmo de traumas. Essa troca rica e significativa me fez refletir sobre como a arte pode ser uma ferramenta poderosa de autoconhecimento.

O vermelho se tornou um símbolo de paixões e desafios, o azul foi discutido em relação à serenidade e à introspecção, enquanto o amarelo simbolizou alegria, esperança e renovação. A renovação foi o tema que mais mobilizou o grupo, possivelmente pelo desejo que existe nessa fase da vida em transformar velhos hábitos, buscar autoconhecimento ou recomeçar ciclos.

 Com esse grupo não houve contação de história. A atividade foi feita com papel colorido nas cores primárias, em que eles recortaram em tiras, colaram e também criaram esculturas.

Além disso, falamos sobre as cores secundárias, que é a mistura das primárias, e como isso se relaciona com as nossas vidas e relações interpessoais. Esse paralelo entre as cores e as interações humanas trouxe à tona reflexões profundas sobre como as experiências se entrelaçam e se complementam, assim como as cores se misturam para criar novas nuances. Essa experiência proporcionou ao grupo refletir sobre os conflitos do cotidiano, carreira, relacionamentos e busca por autoconhecimento.

 

Diversidade entre cores e gerações  - Conclusão

Cada etapa da vida traz consigo desafios, descobertas e transformações que moldam quem somos. Na infância, vemos a inocência e a curiosidade, que são marcas próprias de quem está iniciando a vida. Na adolescência, essas transformações são retratadas com suas turbulências e intensidades, refletindo a busca por identidade e pertencimento. A fase adulta, expressa a complexidade das responsabilidades e conquistas adquiridas durante a vida.

Como arteterapeuta, cada encontro é uma oportunidade única de aprendizado e conhecimento. Trabalhar com públicos tão distintos foi uma experiência enriquecedora. A mesma oficina, mas com abordagens diferentes, me permitiu perceber como a arte pode mostrar a diversidade de expressões entre gerações. Cada grupo trouxe sua própria perspectiva e criatividade, mostrando que as cores não são apenas visuais, mas também emocionais e simbólicas. É importante notar a liberdade de associações feitas pelas crianças, enquanto no grupo de adolescentes essas associações tornaram-se mais restritivas, e no grupo de adultos elas foram mais relacionadas a sentimentos e sensações.

Em cada oficina, percebo que a arte é um fio que nos une, independentemente da idade. O lúdico e a profundidade coexistem, e essa diversidade é uma riqueza que devemos valorizar.

Percebi algo em comum aos três grupos: no momento de colar as fitas, todos se divertiram. Como se isso tivesse igualado todos os grupos. Os participantes disseram a mesma coisa ao olhar a colagem pronta, que se parecia a um tobagã,  a uma pista de skate e a uma montanha russa. Um adulto mencionou que as tiras de papel pareciam as emoções dentro da sua cabeça.

Esse privilégio de trabalhar com diferentes públicos me ensina a importância de adaptar a condução das atividades. É um convite constante para que eu também cresça e aprenda com cada um deles. Ao final de cada oficina, o que mais me impressiona não é apenas o resultado final das obras, mas a transformação que ocorre durante o processo – uma verdadeira dança de cores e emoções que nos conecta de maneira única.

Essa experiência não apenas enriqueceu meu trabalho como arteterapeuta, mas também me lembrou da beleza de como a arte entrelaça nossas vidas.

Vamos celebrar a beleza e a diversidade das cores!

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 Sobre o autor: Edson Fiuza



Arteterapeuta, ator e mediador de biblioterapia, apaixonado pela promoção do bem-estar através da expressão artística. 

Sua prática integra a expressão corporal, o teatro, a literatura e experimentações com diferentes materiais artísticos, proporcionando um espaço seguro e acolhedor para a exploração emocional. 

Um profissional que acredita no poder transformador da arte, e em sua capacidade de facilitar diálogos internos, promovendo o autoconhecimento.

Atende crianças, jovens, adultos, idosos e empresas.

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