segunda-feira, 3 de novembro de 2014

HISTÓRIA DA ARTE COMO ESTÍMULO PROJETIVO


Parte central do tríptico “Jardim das Delícias”, 1504, 
Hieronymus Bosch (1450/1516 | Países Baixos), Acervo: Museu do Prado, Madri.

Por Eliana Moraes e Flávia Hargreaves

Nossa jornada pela História da Arte iniciou-se por pura intuição em 2009, quando decidimos estudar a biografia de alguns artistas. Conhecê-los nos fez perceber como suas histórias de vida transbordavam para seus processos criativos e decidimos experimentá-los. Mais adiante, percebemos que não só os artistas individualmente, mas os movimentos artísticos ao longo de toda a história do homem são transbordamentos de um contexto histórico que traduzem questões humanas no coletivo.

Nossa pesquisa foi avançando e percebemos que ao longo da história da humanidade e sua intensa produção de imagens, o homem desenvolveu técnicas, foi movido por necessidades e desejos diversos, usou a Arte com intenções e funções distintas (políticas, religiosas, educativas, etc.), desenvolveu sua inteligência, habilidades manuais e imaginação. Em todos os tempos, a Arte se apresenta como uma necessidade na intermediação do homem com o meio, buscando um equilíbrio.

Como arteterapeutas, nosso encantamento pela História da Arte se aprofundou ao constatarmos que toda esta dinâmica nos oferece instrumentos poderosos e inspiradores para a nossa prática. Levar para o setting terapêutico (individual ou grupo) conteúdos da História da Arte como estímulo projetivo –  seja apresentando a biografia de um artista e/ou experimentando seu processo criativo no campo individual, ou entrar em contato com determinado movimento artístico, seu contexto histórico e motivações expressivas no campo coletivo – significa rever o potencial e a aplicabilidade desta como ferramenta na arteterapia.

Em nossa formação como arteterapeutas com base teórica na Psicologia Analítica de Jung, estamos familiarizados com o conceito de inconsciente coletivo, camada mais profunda da psique, onde residem os “arquétipos”, estruturas herdadas, constituídas ao longo de milhares de anos e que correspondem às experiências humanas compartilhadas como nascimento, morte, juventude, envelhecimento, pai, mãe, etc. Temos acesso a este vasto material, comum a todos os homens, através de imagens que surgem em sonhos e fantasias materializadas na produção artística.

Estamos habituados a utilizar como estímulo projetivo contos e mitos, partindo do princípio que simbolicamente os conteúdos destas histórias são figuras arquetípicas presentes em nosso psiquismo. Embasadas em nossa pesquisa e prática, acreditamos que a História da Arte também se apresenta com grande potencial de estímulo projetivo, com sua grande riqueza e diversidade de estilos, linguagens, técnicas, motivações, sempre dando forma às questões humanas individuais e coletivas. Esta proposta dá ao paciente/cliente a oportunidade de entrar em contato com estes diversos homens/épocas, identificando como estas imagens os afetam, observando o processo de como se percebe neste contexto, como se sente experimentando este estímulo e processo criativo. É confortável, desconfortável? É um desafio possível de seguir em frente ou é “agressivo” demais para mim? É estimulante ou motivo de resistência? E assim por diante...

O estímulo por mitos e contos muitas vezes demanda um exercício de interpretação simbólica que para alguns perfis de pacientes/clientes é mais difícil entrar em contato. A especificidade de utilizar a História da Arte, está em trazer fatos, histórias reais, localizadas no tempo e no espaço, imagens mais próximas e de fácil acesso, mas que, como os mitos, trazem conteúdos ricos e possíveis de amplificar, tendo sempre em mente que é justamente a Arte a principal responsável por materializar, dar forma, ao longo da história da humanidade aos conteúdos do inconsciente coletivo, ilustrando inclusive os contos e os mitos.

Um comentário:

  1. Comentário de Sonia pinto pelo fb: "Adorei o texto e concordo plenamente! Que bom encontrar pessoas q pensam assim , q a arte é terapêutica em si mesma, sem q isto diminua sua função, já q é uma de suas funções e tão digna, quantos outras tantas aplicações q ela possa ter, pois ela é muito abrangente, já q reflete a multiplicidade do ser humano." (4/11/2014)

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