segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

CAMADAS DA VIDA - UMA PERSPECTIVA ARTETERAPËUTICA

 

Por Débora de Castro

@deborarteterapia

A vida, com todas as suas complexidades e nuances, pode ser comparada a uma cebola, composta por camadas sobre camadas que se entrelaçam e se revelam aos poucos. No setting arte terapêutico, essa metáfora se torna uma ferramenta poderosa para explorar e compreender as diferentes dimensões do ser humano.


 

No início, nos deparamos com as camadas mais superficiais, aquelas que representam nossas interações diárias, papéis sociais e responsabilidades. Essas são as faces que mostramos ao mundo, muitas vezes protegendo o que está mais abaixo. Na arteterapia, a criação artística dessas camadas externas nos ajuda a visualizar e compreender como nos apresentamos ao mundo e como lidamos com as demandas externas.

À medida que avançamos, começamos a descascar camadas mais profundas. Essas camadas guardam nossas emoções, medos e traumas. No setting arteterapêutico, a arte se torna uma forma segura de trazer à tona essas emoções reprimidas. Através do desenho, da pintura ou da escultura, podemos expressar e processar sentimentos difíceis, permitindo que essas camadas sejam exploradas e integradas.

Durante uma sessão de arteterapia com um grupo de mulheres que atendo na modalidade continuada, propus uma reflexão sobre o tema "CAMADAS". Utilizei essa metáfora para ilustrar os diversos processos e fases de nossas vidas, destacando como cada uma delas contribui para a construção de quem somos. Ao explorar o conceito de camadas, convidei cada participante a olhar para dentro de si e identificar as diferentes experiências, emoções e memórias que compõem sua identidade. Em seguida propus  as participantes a construir de forma plástica utilizando material de desenho ou colagem para materializar de forma espontânea e intuitiva as camadas da própria vida.

                                            Fala das  participantes e a plástica arteterapêutica

 


Participante -H

Minhas camadas foram divididas em quatro palavras: Acolher, Recomeçar, nascer  e respeitar. Acolher meu útero maternal nessa chuva de cores vibrantes, impulsionar as minhas escolhas camada por camada. Recomeçar onde as feridas sangram e renascer onde tudo parece ser o fim. Nascer nas profundezas da minha essência interior, ver luz onde estiver escuridão. Respeitar meus limites e deixar fluir no horizonte desse azul celestial.



Participante – D

Minhas camadas falam da minha essência , meu olhar está sempre atento e determinado para minha essência/ indígena. Relação com a liberdade e a natureza é profunda. Sou  ligada a religião e a família/ amor, regado pelo sol/ energia e pelo equilíbrio e tranquilidade. Cada parte da minha camada é reflexo da minha identidade.  A arteterapia em grupo tem me ajudado muito nesse mergulho nas minhas camadas internas.

Foi um momento poderoso de introspecção e conexão, onde todas as mulheres do grupo. puderam compartilhar suas histórias e reconhecer a beleza e a complexidade de suas jornadas. A arteterapia proporcionou um espaço seguro e acolhedor para que cada participante pudesse explorar suas camadas de forma criativa e expressiva, promovendo o autoconhecimento e o fortalecimento emocional.

A metáfora das camadas permitiu que as participantes visualizassem suas vidas como um processo contínuo de transformação e evolução, onde cada experiência, seja positiva ou desafiadora, adiciona profundidade e riqueza à sua identidade.

No final da sessão, ficou claro que, embora cada camada seja única, todas elas juntas formam um todo repleto de histórias e experiências que fazem parte do nosso EU mais profundo. Pensando na cebola e sua raiz, podemos ver como cada camada representa diferentes fases e processos de nossa vida. Assim como a cebola, nossas camadas se sobrepõem e se interconectam, protegendo e nutrindo o núcleo essencial que define quem somos.

O núcleo do nosso ser é um processo contínuo de crescimento, mudança e descoberta, revelando a beleza e a complexidade da vida em cada camada vivida e sentida.


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Sobre a autora: Débora Castro



Sou Débora de Castro, graduada em Pedagogia, Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Pós-Graduação em Educação Especial e Inclusiva. Com formação em Arteterapia, AARJ/1411. Atuo na área de Educação há mais de 28 anos, como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente coordeno um grupo de Arteterapia para Mulheres e ministro oficinas Arte terapêuticas no online e presencial.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

TODA BELEZA SERÁ CELEBRADA

 


Por Tania Moreira, RJ/Fortaleza/CE

caminhartes@hotmail.com

 

 "A arte é uma redenção.

 Ela livra da vontade e, portanto, da dor.

Torna as imagens da vida cheias de encanto."

 Arthur Schopenhauer

 

             O grande filósofo grego Aristóteles, no primeiro capítulo de sua obra Metafísica afirma que é natural no ser humano o desejo de conhecer.  Para o filósofo, todos os seres humanos nascem para conhecer, absorver o novo, experimentar algo nunca visto ou percebido. Isso gera crescimento, aprendizado, expansão da capacidade de compreensão da realidade, mudança da cosmovisão. Por isso, somos dotados de um complexo sistema de percepção sensorial que nos possibilita absorver o mundo como se apresenta a cada um.

            Dentre tantas formas de absorver conhecimento, viajar é uma das mais prazerosas, imersivas e abrangentes de conhecer lugares, culturas, modo de vida e ser impactado pelas belezas dos lugares e suas culturas tão diferentes e algumas, milenares.

            Para quem aprecia e ama lugares onde as obras de artes fazem parte da rotina do povo parece muito natural o desejo de conhecer e explorar passo a passo tais locais, seja da ordem da beleza natural ou obras de artes como pinturas, esculturas, arquitetura.

            Mas, o que acontece quando o indivíduo é completamente imerso e excessivamente exposto a uma quantidade imensa de beleza em um curto período? 

Uma viagem de experiência estética transformadora

            Visitar a Itália é um sonho para muitas pessoas, pois segundo pesquisas é o quinto lugar mais visitado do mundo. Este sempre foi meu sonho, desde menina. Um sonho adiado por muitos anos, diante das prioridades que a vida nos impõe. Mas o dia chegou. Preparei-me da melhor forma que pude: estudei um pouco do lindo idioma, os costumes mais básicos de algumas cidades, selecionei os locais que gostaria de conhecer, deixando espaço no extenso roteiro para o inusitado também. E o inusitado se apresenta, pode ter certeza. Havia um misto de euforia da menina com a alegria da arteterapeuta que desejava ir além dos que os livros apresentam.

          Conhecer os monumentos históricos e icônicos realmente nos afetam. Como não se emocionar diante de construções milenares como Coliseu, Panteão, os corredores do museu do Vaticano, das magníficas Duomo de Milão e Florença? É tudo tão grandioso e incrível que só podemos concordar com Cardella (2012), “os lugares nos afetam. Promovem experiências estéticas”.


A experiência estética

           Ainda é possível ouvirmos que na Arteterapia não há preocupação com a beleza do trabalho realizado, e sim com a produção em si, ou seja, com o processo.  Sim, é verdade que na Arteterapia o processo é fundamental. Entretanto, não se pode prescindir da necessidade fundamental de nos conectarmos com o belo, com aquilo que nos possibilita de sublime, grandioso, gracioso, poético ou até o contrário, que nos cause sensações desagradáveis, desgostos, horror, rejeição. 

              Entretanto, é necessário pensarmos em experiência estética para além do campo das artes, ampliarmos para aspectos e fenômenos vinculados à sensibilidade, pois a palavra tem origem no grego,"aisthésis", e traz significados como: experiência, sensibilidade, conhecimento sensível, sentimento, sensação, percepção. É uma mudança de percepção da vida, um aprofundamento dos aspectos mais sensíveis. Uma reumanizarão da nossos sentidos para tudo que nos cerca, para o que amamos e realmente faz sentido para nós.

 Segundo Reis:

A percepção estética é diferente da percepção cotidiana. A percepção estética não visa ao objeto segundo a sua finalidade prática ou utilitária, mas implica a abertura e entrega do sujeito a um mundo sensível que o convida não a decifrá-lo, mas a senti-lo. Na percepção estética, o sujeito não visa ao Telos (o conceito que define o objeto para o pensamento), mas ao eidos (aquilo que se vê, aparência, forma)

 O belo, o harmônico e o estético surgem como algo impresso não só na produção artística, mas também na qualidade do viver. (Ciornai, p.66)                 

            Ou ainda como diz Simonini:

       A experiência estética constitui-se basicamente por um feliz encontro. Ela não implica unicamente em absorver a beleza natural ou artística, por estarmos integrados a uma ou à outra, ou seja, não é a beleza da natureza nem o belo da arte que entra em nós; mas sim, nós é que penetramos nesses universos....A experiência estética pode desnudar o indivíduo por inteiro, com a sua estrutura orgânica, com os seus sentimentos e as suas emoções, mexendo com suas ideias e suas convicções, com a sua maneira de pensar e agir.                                                                                                                                                      

Beleza em excesso: Tudo é muito e demais!   

            Há algum tempo venho buscando prestar atenção ao meu redor, ter um olhar mais contemplativo para os objetos que encontro, durante as caminhadas, por exemplo. Pode ser uma pedra, uma flor nova, uma árvore com galho quebrado, a luz do sol quando incide de maneira diferente na paisagem.  Treinar e sensibilizar o olhar para aquilo que é naturalmente comum, mas que pode provocar sensações de bem-estar e prazer, é um exercício interessante de contemplação, na minha concepção. Assim, tenho conseguido registrar através de fotos, algumas imagens interessantes.

                                “A arte é um recurso que permite retornarmos a uma concepção mais precisa do que é valioso ao operar contra o hábito e nos convidar a redimensionar o que amamos ou admiramos.” (Botton, Armstorong, p.59)

             Voltando à viagem, chegamos a uma das cidades consideradas o berço do Renascimento, Florença. É fascinante caminhar pelas ruas estreitas, vielas repleta de histórias, nomes pitorescos, locais com abundância de obras de artes, além de uma arquitetura esplêndida, seja pelos monumentos ou simplesmente pelas paredes e portas belíssimas de várias igrejas. São inúmeras praças, chafarizes, fontes, igrejas, diversas esculturas por todo lado. Nada é simplório. Há significado em cada lugar por onde pisamos. As galerias como Uffizi, da Academia de Belas Artes, os jardins de Boboli, Palácio Pitti, Palácio Del Vecchio, possuem um extenso acervo de obras de artes gregas e romanas, em sua maioria. Sem mencionar que cada igreja concentra em si uma riqueza imensurável, tanto arquitetônica quanto de representações de artes, como pinturas, afrescos, lustres, vitrais de tirar o fôlego. Um destaque especial para o Davi de Michelangelo, com pouco mais de 5 metros de altura e pesando mais de 5 toneladas de puro deslumbre. É considerado o ápice do trabalho do gênio Michelangelo. Entretanto, contemplar suas obras inacabadas foi emocionante também.  Enfim, tudo é muito e demais. É tanta beleza ao redor que rapidamente fui invadida por uma sensação de deslumbramento, de alumbramento, em um estado absoluto de “não palavra”. Porque é isso mesmo. Não há palavras suficientes para descrever tanta beleza, grandiosidade e esplendor. Um verdadeiro arroubo de estímulos sensoriais e de percepções.  É difícil absorver tudo aquilo em tão pouco tempo. A vontade é que o tempo congele para que possamos degustar cada pedaço, cada esquina daquele lugar.

                             “Um dos aspectos mais estranhos da experiência da arte é o seu ocasional poder de nos levar às lágrimas: não diante de uma imagem angustiante e assustadora, mas de uma obra de extraordinária graça e encanto que nos confrange por alguns instantes. O que acontece conosco nesses momentos especiais de intensa reação à beleza?”

                                             Botton, Armstrong, p.16

 

                                              


 Obra: O escravo barbudo (1536), Michelangelo             



           Davi, Michelangelo (1501-1504)


SÍNDROME DE STENDHAL

               A Síndrome de Stendhal, hiperculturemia ou síndrome de Firenze (Florença) é considerada uma condição psicossomática causada pela exposição à abundante riqueza artística de Florença. Seu nome vem do escritor francês Marie-Henri Beyle, mais conhecido pelo pseudônimo Stendhal, que, em 1817, descreveu sua visita à capital da Toscana: "Fiquei em uma espécie de êxtase com a ideia de estar em Florença.  Fui acometido de uma forte palpitação do coração... minha força vital se esvaiu de mim e andei com medo constante de cair no chão.”

            Em 1979, a “Síndrome de Stendhal” foi nomeada e descrita pela italiana Graziella Magherini, psiquiatra do Hospital Santa Maria Nouva, em Florença e autora do livro La sindrome di Stendhal: il malessere del viaggiatore di fronte alla grandezza dell’arte (A Síndrome de Stendhal: o Mal-Estar do Viajante Diante da Grandeza da Arte).

            Após avaliar e observar 106 pacientes, todos turistas, que relataram sintomas como sensação de desmaio, vertigens, pânico, alguns com dificuldades para respirar, quando estiveram em contato com as obras de arte como as esculturas de Michelangelo e as pinturas de Botticelli. 

            Em um simpósio em 1999, Magherini apresentou sua metodologia e estudos, com relato de alguns casos mais interessantes, sendo a maioria estrangeiros que chegando à Florença, se sentiram realmente sufocados pela impossibilidade de escapar da presença da arte e cultura renascentista presente em toda cidade. E ressalta que, de alguma forma, todos reagimos à beleza e a arte de forma visceral, “pois a viagem pela arte é uma viagem da alma” e pode sim, despertar sentimentos em algumas pessoas, por vezes, incontroláveis.       

           A Síndrome de Stendhal ainda não consta no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V) e nem na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a saúde (CID), entretanto as pesquisas e relatos continuam até hoje.

A Arteterapia e o esvaziamento dos excessos

             Retornando à rotina, percebi que estava com alguma dificuldade de traduzir em palavras tudo que vivi durante os dias intensos da viagem.  As palavras pareciam insuficientes para esvaziar-me das experiências vividas. Obviamente há inúmeros fatores que contribuíram para essa sensação, como a necessidade de descanso, fuso horário, entretanto, pensava como a Arteterapia poderia auxiliar um paciente que trouxesse uma demanda semelhante, pois não é nada raro, em contextos diferentes, recebermos pessoas com tais queixas, em especial profissionais da área da saúde e educação, pessoas que se excederam de muitas maneiras e trazem suas dores no corpo e na alma, sem se aperceberem que precisam de escoar o excesso de tudo.

“Estupendamente funda, a beleza, quando é linda demais, dá uma imagem feita só de sensações, de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo, naquele instante não nos falta nada”. (Morais, p.179) 

              No caso específico da necessidade de escoamento, a opção foi produzir uma imagem que representasse minimamente aquela sensação: técnica mista de colagem com guache em bastão com glitter. As cores são intensas e vibrantes, mas apresenta uma maciez que foi interessante na hora da execução. Pois, a ideia era que este “escoamento” do coração fosse algo suave, harmônico, belo. Este primeiro movimento foi muito benéfico e abriu novas possibilidades.

                                   


                                              Acervo pessoal: Metade coração pulsando e transbordando

                  Caminhando sob a orientação da minha arteterapeuta, a segunda opção foi usar tinta guache ou acrílica. Utilizei um papel com gramatura alta (300g), tinta acrílica azul com adição de um fluidificador (base de resina acrílica), muito utilizado para técnicas de pintura fluida. Assim, a tinta não ficaria tão viscosa, facilitando o derramar sobre a superfície escolhida. O objetivo principal era promover a sensação de escorrer o que fosse possível naquele momento.              

                Oliveira afirma:

A atividade de lançar as tintas sobre diferentes suportes mobiliza todo o corpo, em especial a respiração e a parte superior do corpo. E, com a mesma intensidade, mobiliza a fantasia, em função das cores, luzes, sombras e formas que vão surgindo a partir dos gestos que as mãos vão fazendo sobre a tela, tecido ou papel.

  


 
Imagem:Freepik.com

 

                 As experiências continuam acontecendo, através de um desdobramento mais criativo, sem tanto bloqueio, inclusive este texto é uma das modalidades, pois compartilhar esta experiência é uma outra forma de escoar, derramar sobre os leitores as emoções vivenciadas naquele momento. 

Conclusão

         Seja  ouvindo uma música linda, que nos eleva, ou diante de uma obra que nos arrebata a alma por sua beleza infinita, podemos contar com as ferramentas que a Arteterapia nos proporciona para extrair de dentro de nós, dos nossos pacientes, as pérolas que nem sempre as palavras são capazes de traduzir. O fazer arteterapêutico é por si só uma celebração a nossa beleza interna. 

              Citando a artista plástica e professora Mazé Leite, “nos sentimos em arrebatamento, nos sentimos inteiros, como se não pudesse haver separação entre nós e todo universo. Estes momentos, para quem tem a sorte de ter acesso a eles, são uma absoluta necessidade para o ser humano”.

  

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

BOTTON, A.; ARMSTRONG, J. Arte como terapia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

CIORNAI, Selma (org.). Percursos em Arteterapia: Ateliê terapêutico, arteterapia no trabalho comunitário, trabalho plástico e linguagem expressiva, arteterapia e história da arte. São Paulo: Summus, 2004.

MORAIS, Eliana. Pensando a Arteterapia: volume 2 . 1.ed. São Paulo: Semente Editorial, 2019.

 

ARTIGOS E SITES: 

REIS, Alice C, A experiência estética sob um olhar fenomenológico. Periódicos de Psicologia – PePsic.  Disponível em https://pepsic.bvsalud.org/pdf/arbp/v63n1/v63n1a09.pdf,                                                 Acesso 04/12/2024 

SINDROME DE STENDHAL. Disponível em: https://amarello.com.br/2014/12/cultura/sindrome-de-stendhal/ . Acesso em: 11/11/ 2024. 

SINDROME DE STENDHAL: Loucura gerada pela beleza. Disponível em: https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/sindrome-de-stendhal . Acesso em: 25/11/2024 

SIMONINI, Wanelytcha. A Experiência Estética. Disponível em: http://academiabrasileiradeartes.org.br/a-experiencia-estetica/ . Acesso em 11/11/2024 

LEITE, Mazé, A BELEZA SALVARÁ O MUNDO. Disponível em: /https://grabois.org.br/2016/03/03/a-beleza-salvara-o-mundo/ . Acesso em:02/12/2024 

OLIVEIRA, Santina R,  POTÊNCIA SIMBÓLICA E EXPRESSIVA DA PINTURA NA ARTETERAPIA.   Disponível em: https://www.ijba.com.br/blog/a-potencia-simbolica-e-expressiva-da-pintura-na-arteterapia. Acesso em 03/12/2024


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Sobre a Autora: Tania Moreira



Graduação em Fonoaudiologia, pós-graduação em psicopedagogia/UERJ.  Especialização em Arteterapia pela POMAR/RJ. Atuou com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Grupos de Mulheres online (Grupo Rede). Atuou de 2021 a 2023 como Arteterapeuta na Clínica Conecta/IPREDE, compondo equipe multidisciplinar no atendimento de crianças no Transtorno do Espectro Autista.

Contatos: Instagram/Facebook:@caminhartes.arteterapia

Textos publicados no Blog:

ARTETERAPIA – DANDO VIDA E COR - RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS - 2016

PRÁTICAS EM ARTETERAPIA COM INDIVIDUOS EGRESSOS DE RUA E ADICTOS EM RECUPERAÇÃO - 2017

FENIX: PARA ALÉM DO CRACK – RESGATE DO FEMININO EM COMUNIDADE TERAPÊUTICA PARA MULHERES - 2017

DESENHANDO E PINTANDO COM A TESOURA COMO O VOVÔ MATISSE - 2018

O BORDADO COMO INSTRUMENTO DE ARRAIGAMENTO E CONDUTOR DE VIDA - 2018

LEONILSON – BORDANDO A VIDA, AS DORES E OS AMORES - 2018

 DOIS METROS ACIMA DO CHÃO” – AS BOAS NOVAS DE BISPO DO ROSÁRIO - 2019

ESTENDENDO A REDE – ABRINDO OS BRAÇOS PARA O NOVO - 2020

ENTRE OS MÓBILES E STÁBILES DE CALDER – LIDANDO COM A DOR NA ARTETERAPIA – 2021

 

EXPERIENCIAR É BEBER DA PRÓPRIA FONTE – 2022

COMO UM RIO QUE FLUI: A ARTETERAPIA NO CONTEXTO DO AUTISMO - 2023

PRÁTICAS ARTETERAPÊUTICAS COM CRIANÇAS NO TRANSTORNOS DO ESPECTRO AUTISTA - 2023

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

ENTRE FIOS, HISTÓRIAS E MEMÓRIAS: Inspirações nas obras da artista Victoria Villasana

 Por Débora de Castro - RJ

@deborarteterapia

Na arteterapia, a metáfora do "tecer" assume um papel poderoso e transformador, especialmente quando inspirada pelas vibrantes e inovadoras obras da artista Victoria Villasana. Conhecida por suas intervenções urbanas e retratos bordados, Villasana usa fios e cores para dar novas camadas de significado às imagens, criando um diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, o pessoal e o coletivo.


    

O tecer histórias é um processo profundo de autodescoberta , onde cada fio e cada ponto carregam memórias e emoções que nos ajudam a compreender melhor a nossa jornada. A artista Victoria Villasana, com suas intervenções têxteis em fotografias, nos inspira a explorar essa arte de maneira significativa e transformadora.

Na arteterapia, podemos nos inspirar nas obras de Villasana para explorar nossas próprias histórias. Ao utilizar técnicas de bordado, costura e intervenção têxtil, temos a oportunidade de dar vida às nossas memórias e emoções de maneira tangível. Cada linha bordada é um gesto de cuidado, uma tentativa de conectar os fragmentos do nosso ser e encontrar sentido em nossa trajetória.

A prática de tecer histórias promove a introspecção e a conexão com a nossa essência. À medida que trabalhamos com agulhas e linhas, somos convidados a refletir sobre nossas vivências, ressignificar experiências ao longo da nossa jornada. O processo de bordar se torna uma meditação ativa, onde cada ponto e cada cor escolhida são um reflexo do nosso estado interior.

Durante uma sessão de arteterapia com um grupo de mulheres que atendo na modalidade continuada, trouxe como fonte  inspiração criativa o trabalho da artista  Villasana, as participantes são convidadas a escolher imagens pessoais que ressoem com suas jornadas. Podem ser fotografias de infância, retratos de família ou autorretratos, que serão enriquecidos com bordados, adicionando camadas de significado e emoção. Ao inserir fios coloridos e texturas, as participantes tecem suas histórias de forma literal e figurativa, transformando memórias em arte tangível. A técnica utilizada nesse processo criativo foi a fotografia e colagem de fios e objetos pessoais.

 

Registro de uma participante do grupo.

            


              Participante . D

A imagem escolhida para minha sessão de arteterapia foi  uma fotografia da paisagem que eu vejo a partir da minha janela “MEU RIO DE JANEIRO”, repleto de memórias da minha infância que transborda muitas emoções e um saudosismo de um lugar que ainda faz parte do meu cotidiano. Sou uma pessoa privilegiada , pois, vejo essa vista todos os dias e me sinto perto de Deus. Eu adorei fazer essa plástica, me despertou parte da minha história que não pode ser esquecida. Adorei tecer na fotografia, foi uma costura leve, e cada objeto colado me trouxe um sentimento de afeto e amor pela minha história de vida.

Através da arteterapia, encontramos um espaço seguro para compartilhar nossas histórias, fortalecer nossa autoestima e construir um senso de pertencimento e identidade.

Concluo meu texto com a seguinte reflexão:

Tecer e costurar nossa história de vida é, sem dúvida, um ato de amor. Cada ponto e cada linha são gestos de carinho e autocompaixão, que unem memórias, experiências e emoções em uma tapeçaria única e significativa. É através desse processo cuidadoso e intencional que encontramos nossa essência e construímos uma narrativa de aceitação e crescimento.

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Sobre a autora: Débora Castro



Sou Débora de Castro, graduada em Pedagogia, Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Pós-Graduação em Educação Especial e Inclusiva. Com formação em Arteterapia, AARJ/1411. Atuo na área de Educação há mais de 28 anos, como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente coordeno um grupo de Arteterapia para Mulheres e ministro oficinas Arte terapêuticas no online e presencial.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

REFLEXÕES FEMININAS: GEORGIA O'KEEFFE E A ARTETERAPIA

 


Por Débora de Castro - RJ

@deborarteterapia


Convido você a mergulhar na essência do feminino através das obras de Georgia O'Keeffe e da arteterapia. O'Keeffe, com suas flores ampliadas e paisagens suaves, captura a beleza, a força e a complexidade da feminilidade.

As obras de Georgia O'Keeffe possuem uma feminilidade intrigante e poderosa que transcende o simples ato de contemplação visual. Seus quadros, especialmente aqueles que retratam flores ampliadas, evocam uma profunda conexão com a essência feminina, revelando uma beleza que é ao mesmo tempo delicada e robusta.

 


"Linhas Cinzentadas com Preto, Azul e Amarelo". (1923)

O'Keeffe capturava a feminilidade através das formas orgânicas e sensuais de suas flores, que frequentemente se assemelham a formas femininas. Essa analogia não é apenas uma coincidência visual, mas uma representação simbólica do ciclo da vida, da fertilidade e da força inerente às mulheres.

Suas pinturas não são meras representações da natureza, mas expressões de sua própria experiência e visão como mulher.  Além disso, O'Keeffe usava as cores de maneira emocionalmente expressiva, transmitindo uma gama de sentimentos que vão desde a serenidade até a paixão intensa. A paleta vibrante e as composições audaciosas de suas obras revelam uma força vital que ressoa com a experiência feminina em todas as suas nuances.

No setting arteterapêutico, as obras de Georgia O'Keeffe podem servir como um ponto de partida poderoso para a exploração da identidade feminina. Através da arte, os participantes podem refletir sobre suas próprias experiências, expressar suas emoções e encontrar uma forma de se reconectar com sua essência. A feminilidade nas obras de O'Keeffe é uma celebração da beleza, da complexidade e da força das mulheres, proporcionando uma rica fonte de inspiração e introspecção.

Explorar a feminilidade através das obras de O'Keeffe na arteterapia é um convite para mergulhar nas profundezas do ser, onde a arte se torna um espelho da alma e uma ferramenta para processo de  autoconhecimento e busca do equilíbrio emocional.

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Sobre a autora: Débora Castro



Sou Débora de Castro, graduada em Pedagogia, Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Pós-Graduação em Educação Especial e Inclusiva. Com formação em Arteterapia, AARJ/1411. Atuo na área de Educação há mais de 28 anos, como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente coordeno um grupo de Arteterapia para Mulheres e ministro oficinas Arte terapêuticas no online e presencial.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

AS BANDEIRINHAS DE VOLPI



                                                                                Bandeirinhas


Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

Instagram: @claudia_abe_

 

A arte não é, como dizem os metafísicos, a manifestação de uma ideia misteriosa, ou beleza, ou Deus; não é, como os esteto-fisiologistas dizem, uma forma de brincar em que o homem libera um excedente de energia estocada; não é a manifestação de emoções por meio de sinais exteriores; não é a produção de objetos agradáveis; não é, acima de tudo, o prazer; é, sim, um meio de intercâmbio humano, necessário para a vida e para o movimento em direção ao bem de cada homem e da humanidade, unindo-os em um mesmo sentimento. (TOLSTOI, 2002)

 

Quando falamos em Arteterapia, gosto de voltar meu olhar para as Artes. Neste texto, resolvi trabalhar com um artista ítalo-brasileiro – Alfredo Volpi, muito conhecido por suas “bandeirinhas”.

Volpi nasceu em Lucca, Itália, em 14 de abril de 1896. Iniciou sua pintura em 1911, executando murais decorativos e trabalhou também como pintor decorador em residências da sociedade paulista da época. Evoluiu para o abstracionismo geométrico, a exemplo a sua série de bandeirinhas e mastros de festas juninas. Recebeu o prêmio de melhor pintor nacional na 2ª. Bienal de São Paulo, em 1953. (Wikipédia) 

 


Lucca, Itália - 2024

Em 31 de janeiro de 2020, ocorreu a 74ª sessão arteterapêutica com meu pai (aos 85 anos) e minha tia materna (aos 93 anos), em domicílio.

Iniciei a escrita desta sessão no dia 23 de novembro de 2020. E ela ficou guardada na memória do computador. Hoje, 19 de outubro de 2024, ao escrever uma nova versão deste texto, meu pai já havia completado 90 anos e minha tia acabara de completar 98 anos... pasmem !!!

 


 Sessão Arteterapêutica

 

Iniciei a sessão mostrando pelo celular Alfredo Volpi e suas obras, falando da disposição das bandeirinhas e do fundo colorido que ele pintava.

Pai e tia escolheram fundo branco para trabalhar e as cores das bandeirinhas.

Fizemos algumas experiências para o corte das bandeirinhas, sem muito sucesso ao usar a guilhotina. Acabei eu mesma ajudando a cortar os papeis com a tesoura.

Essa foi uma atividade na qual utilizaram vários materiais de apoio como réguas, lápis e borracha. Minha tia usou régua para calcular e riscar linhas de apoio no papel e meu pai usou-a para ajudar no alinhamento das bandeirinhas, além da sua usual pinça. Orientei-os a usarem a cola em bastão para não enrugar o papel, apesar de o meu pai pedir a cola líquida. Segundo Carrano e Requião, a cola em bastão tem como uma de suas características, o controle total, e oferece uma série de vantagens como não causar incômodo para as pessoas que não gostam de se “sujar”, não escorre, não suja o entorno e nem sequer os outros materiais usados nas colagens.

Durante a confecção, meu pai mudou a configuração das bandeiras algumas vezes. Falei para ele que estava tudo super alinhado e perguntei se podíamos colar as peças.

Pai: Calma, não dá para colar correndo. Tem que ser simétrico. Você aprovou aqui, vou colar (e eu digo: pode colar!). Olha, eu cheguei à perfeição da divisão do espaço, da harmonia espacial. Isso significa que posso começar a colar. E então ele colou a primeira bandeirinha.

Quero que elas, minhas amigas, admirem a divisão e o espaço de montagem. Olha, estou com falta de inspiração. Continuarei amanhã porque já estou colando meio assim... Ele estava cansado. Durante a sessão perguntei se estava enxergando melhor e ele disse que não – ainda apresentava um problema na visão nesta sessão. Acabou não efetuando a colagem das bandeirinhas no papel.

Colar é um percurso, um processo, um ato criativo que deve ser estimulado e acompanhado pelo arteterapeuta. O resultado, a forma, a imagem e a composição devem ser valorizados, e o paciente convidado a “dialogar” com a sua produção, dando novos significados para a mesma. Percebendo-se como ser criativo, melhorando a sua autoestima por meio do fazer e do lidar com o resultado da sua criação, que, se produzida durante o processo arteterápico, vai favorecer o seu autoconhecimento. (CARRANO E REQUIÃO, 2013)

 

Compartilhamento

 


 Pai: “Losango muito harmônico”

Palavra final: Adorei

Pai: “Losango é um dos traços mais harmônicos da arte do desenho”.

 

 


Tia: “Bandeirinhas Coloridas”

Palavra final: Fácil

Tia: “São bandeirinhas multicores. Não (não se lembra de nada). Não (não quer falar nada). Não estou inspirada”.

 

Esta atividade acabou por me trazer memórias afetivas: quando eu era criança, me lembro de produzir vários cordões de bandeirinhas para enfeitar a casa na época das festas juninas. Sob o comando do meu pai, eu e meus irmãos produzíamos em série. Sim, como se fosse uma produção em larga escala, cortávamos os papéis de seda em formato de bandeirinhas, depois dobrávamos a parte superior, passávamos a cola branca para unir bandeiras ao longo do barbante, com a atenção para intercalar as cores dos papeis e na sequência, finalizando com as dobras do cordão pronto para deixar tudo organizado. “Eita tempo bão”.

 

Nota 1: Meu pai colocou um detalhe no centro do trabalho e disse que parecia a bandeira do Brasil (foto inicial).

Nota 2: deixo aqui uma homenagem a minha tia materna Luciana Orfei, protagonista deste texto e aniversariante !

 

 

Bibliografia:

CARRANO, Eveline e REQUIÃO, Maria Helena – Materiais de arte: sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico. – Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

TOLSTOI, Leon. O que é arte? A polêmica visão do autor de Guerra e Paz /Leon Tolstoi; tradução Bete Torii – São Paulo: Ediouro, 2002 – (Clássicos de Ouro Ilustrados).

Internet:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alfredo_Volpi Acessada em 15/10/2024. Alfredo Volpi.

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

22- Café com Arte – A Arte do Encontro – 13/05/2024

21- Vivência: Uma Experiência de Encantamento – 06/11/2023

20- O Uso do Giz Pastel Seco na Art Nouveau de Mucha – 26/09/22

19- Tô Vivo! – 22/08/22

18- A Massa Caseira como Recurso Arteterapêutico – 18/07/22

17- As Bailarinas de Degas – 16/05/22

16- Degas e as Mulheres – 21/03/22

15- Ah, o Tempo... – 14/02/22

14- As Cores em Marilyn Monroe – 13/12/21

13- Um Desafio – 11/10/21

12- O Branco no Branco – 23/08/21

11- Tudo Começa em Pizza – 28/06/21

10- Um Material Inusitado – O Carimbo de Placenta – 10/05/21

9- As Vistas do Monte Fuji – 22/03/21

8- É Pitanga! – 07/12/20

7- O que é que a Baiana tem? – 26/10/20

6- Escrita prá lá de criativa – 27/09/20

5- Fazer o Máximo com o Mínimo – 01/06/20

4- Tempo de Corona Vírus, Tempo de se reinventar – 13/04/20

3- Minha Origem: Itália e Japão – 17/02/20

2- Salvador Dalí e “As Minhas Gavetas Internas” – 11/11/19

1- “’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19


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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe


 
 

Arteterapeuta e Farmacêutica-Bioquímica

Adoro a Itália, sempre jogo uma moedinha na Fontana di Trevi, em Roma, assim, sempre retorno! Estive em Lucca, a cidade das torres, apelidada de “a cidade das cem igrejas”. Fiquei muito emocionada quando conheci Perugia, cidade do meu nonno e da minha nonna e que produz o famoso chocolate Baci Perugina! Mamma Mia!!

Ops, eu sou ítalo-brasileira com essa cara de japa...kkkkk

Meu contato pelo Instagram: @claudia_abe_