segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

QUANDO O TEMPO FLORESCE: A BELEZA DO ENVELHECIMENTO ATIVO



 Por – Débora Castro 

@deborarteterapia


Registro atividade das participantes

O envelhecimento ativo revela uma beleza que não se mede em linhas do rosto, mas em camadas de história, presença e potência criativa. Na Arteterapia, essa beleza se manifesta quando o sujeito encontra, no fazer artístico, um espaço para reorganizar memórias, fortalecer vínculos e redescobrir sentidos. É nesse encontro entre expressão e cuidado que o tempo, antes visto como perda, passa a florescer. 

A Arteterapia compreende que o processo criativo é um território fértil para a manutenção da vitalidade psíquica e cognitiva. Ao trabalhar com imagens, cores, texturas e símbolos, o idoso acessa dimensões internas que muitas vezes permanecem silenciadas no cotidiano. Não se trata apenas de “estimular a mente”, mas de permitir que cada pessoa se reconheça como autora da própria história ainda em movimento, ainda em construção. 

Toda semana, o grupo se reúne em torno de uma mesa que, aos poucos, se transforma em jardim: papéis coloridos, lápis, tecidos, argila, revistas, pincéis. Cada encontro começa com uma breve roda de conversa, onde surgem relatos sobre a semana, lembranças espontâneas, pequenas conquistas e desafios cotidianos. É nesse aquecimento afetivo que o clima de confiança se estabelece. 

O grupo foi convidado a refletir sobre o tema “De onde vem a beleza do envelhecimento ativo?”. A pergunta abriu um campo fértil de sensações, memórias e percepções. Aos poucos, cada participante foi se permitindo falar e se ouvir. Houve silêncio atento, escuta acolhedora e trocas que revelaram o quanto cada uma carrega uma história única e, ao mesmo tempo, o quanto todas se reconhecem no caminho da outra. 

A beleza desse processo está justamente no lugar de pertencimento de cada participante. Elas sabem que o grupo de Arteterapia é um espaço seguro, onde podem se expressar sem julgamentos, onde suas vivências são valorizadas e onde o envelhecer ganha novos contornos. A cada fala, surgiam reflexões sobre força, delicadeza, autonomia, desafios e descobertas que continuam acontecendo mesmo com o passar dos anos. 

Depois da roda de conversa, seguimos para a prática criativa. Entreguei a cada participante um círculo, símbolo do movimento contínuo da vida aquilo que não se interrompe, apenas se transforma. De maneira intuitiva, cada uma escolheu três palavras que, para elas, representam a beleza da vida. Palavras que nasceram de dentro, carregadas de significado. 

Em seguida, essas palavras foram traduzidas em imagens, cores, formas e gestos criativos. O círculo se tornou espaço de expressão simbólica: algumas criaram mandalas vibrantes, outras optaram por composições mais suaves, e houve quem transformasse as palavras em caminhos, flores, ondas ou luzes. Cada criação refletia não apenas a estética individual, mas também a forma como cada uma percebe sua própria jornada de envelhecer. 

O resultado foi um conjunto de obras que, juntas, formavam uma mandala de vitalidade, sensibilidade e potência. Mais do que um exercício artístico, foi um momento de reconhecimento: a beleza do envelhecimento ativo nasce do movimento interno, da capacidade de continuar criando, sentindo, compartilhando e se reinventando. 

O que se vê nesses encontros não é apenas a melhora da atenção, da memória ou da linguagem, embora isso aconteça de forma evidente. O que realmente se revela é a beleza do envelhecimento ativo: a capacidade de continuar criando, reinventando-se, conectando-se consigo e com o outro. A Arteterapia oferece um espaço de acolhimento, escuta e de expressão . Onde cada traço, cada cor e cada gesto reafirmam que a vida segue pulsando. Onde o envelhecer deixa de ser sinônimo de declínio e passa a ser reconhecido como um campo fértil de possibilidades. Quando o tempo floresce, a beleza se torna visível não apenas no que é criado, mas no que é vivido.

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Sobre a autora: Débora Castro



Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A CORAGEM DE TIRAR A ARMADURA



Por Mônica Ruibal - SP

Recentemente, uma pessoa me falou sobre um livro que eu já conhecia há muitos anos: “O Cavaleiro Preso na Armadura”, Robert Fisher. Ele sempre passou por mim como algo distante, que não me dizia respeito. Eu sabia que existia, já tinha folheado, mas nunca me chamou. Mas dessa vez, chamou — e chamou forte.

Comprei o livro, li, escutei o áudio, mergulhei. E me identifiquei profundamente.

Percebi que todos nós, em algum momento da vida, estamos presos em armaduras invisíveis. Armaduras que um dia foram necessárias para sobreviver: o controle, o silêncio, a perfeição, a força excessiva, a capacidade de dar conta de tudo, a habilidade de não sentir para não quebrar. São brilhos metálicos que, de fora, parecem coragem. Mas por dentro, são presídios.

E chega um instante — um daqueles instantes que mudam tudo — em que a armadura começa a apertar. Fica pesada. Fere. E já não cabemos mais dentro dela.

É um momento dolorido e precioso ao mesmo tempo: perceber que aquilo que nos protegeu está nos sufocando. Que aquilo que um dia foi recurso, agora é prisão.

E aí começa a travessia.

 

A travessia de tirar peça por peça, sem saber quem seremos sem elas. A travessia de voltar a sentir a pele, o vento, o toque. De abandonar a guerra interna e descansar.

Em Arteterapia, esse livro nos convida a trabalhar com aquilo que sustenta nossas armaduras e com o que existe por baixo delas. Podemos explorar as camadas, usando materiais sobrepostos que revelem o peso de carregar tantas expectativas e histórias — como papel cartão, papel kraft, colagens sucessivas, tecidos e dobraduras que criam volume e estrutura. Também podemos investigar os pesos, experimentando materiais densos como argila, barro, gesso ou até pedras pequenas coladas sobre o papel, percebendo no corpo o esforço de sustentar o que já não faz sentido.

Podemos criar um cavaleiro interno e vestir essa figura com essas peças simbólicas — e então escolher remover uma parte, transformar, rasgar, dissolver na água, derreter com as mãos. O gesto simbólico muitas vezes fala mais do que qualquer explicação teórica.

E depois, deixar emergir o que respira por baixo: uma cor mais suave, uma textura mais orgânica, algo que não precisa mais brilhar para existir.

Porque às vezes, para soltar a armadura, basta tocar o metal e reconhecer que ele pesa.

A verdadeira força nunca esteve na armadura, mas na coragem de removê-la.

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Sobre a autora: Mônica Ruibal



De São Paulo, graduada em Pedagogia com pós graduação em Arteterapia e Arte Reabilitação

Especialista em autismo, atuando em equipe multidisciplinar.

Em 2024 foi convidada a compor um painel sobre Arteterapia no Tearteiro, maior Festival de Autismo e Arte da América Latina. 

Criadora do grupo Arte Autismo onde promove encontros e workshops sobre o tema.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CRIATIVIDADE, EU TENHO!: Você é mais criativo do que imagina. E eu posso provar!



Por Cris Silva – RJ

 @arteterapia_crissilva


    Muitas vezes, deixamos de vivenciar certos processos porque não nos autorizamos a experimentá-los. Isso acontece com frequência quando o assunto é criatividade. Já se pegou dizendo: “Não sou nada criativo/a”? Ou apontando o dedo para alguém, achando que criatividade não era o forte daquela pessoa? Aposto que, em algum momento, esse julgamento já pesou - seja sobre si, seja sobre o outro. Mas, ao longo destas palavras, quero te mostrar que a criatividade está presente no seu cotidiano. E talvez, ao final, você volte a fazer as pazes com ela, se autorizando a ser o ser criativo que é, e reconhecendo os pontos fortes de criatividade nas pessoas ao seu redor.

     Para começo de conversa, é preciso dizer: a criatividade é infinita. E está tudo bem não sermos criativos e habilidosos em todas as áreas!

     Quando falamos em criatividade, é comum que a mente voe direto para os domínios da arte: pintura, música, dança, teatro, escultura... Para mudar essa ideia, é necessário desconstruir a noção de que criatividade está ligada apenas aos campos artísticos. Ela está presente no nosso dia a dia: quando improvisamos um almoço com o que sobrou na geladeira, quando alguém transforma um problema em oportunidade com uma solução que ninguém pensou, quando uma professora de Matemática ensina a matéria usando música. Isso também é criatividade, e talvez seja sua forma mais pulsante.

     Pensando na origem da palavra criatividade, do latim creare, que significa criar, podemos começar a fazer algumas provocações:

Quais situações me levam a criar? Quando, como e onde minha criatividade se manifesta?

     O escritor e palestrante Rubens Marchioni inicia as primeiras páginas do seu livro Escrita criativa - da ideia ao texto com uma frase que particularmente gosto muito:

 “Criatividade é a arte de pensar de maneira diferente para encontrar caminhos inesperados.”

     Dia desses, minha filha, então com dez anos, foi proativa e ofereceu apoio para estender as roupas que eu havia acabado de lavar. Como era a primeira vez que ela estaria estendendo uma máquina inteira, dei algumas orientações e deixei que fizesse do jeitinho dela. Fui fazer outras coisas e, quando terminou, ela me chamou para mostrar como havia organizado. Com euforia, sinalizou que o varal não dera para todas as roupas e, então, fez conjuntos: shorts pregados às camisetas. Achei aquilo tão fantástico que filmei. Veja bem: diante de algo a ser resolvido, ela deu um jeito. E, tirando a coisa de mãe orgulhosa, há nisso todo um viés criativo na organização final que ela apresentou. Isso me fez pensar numa frase brincante:

 Quando o espaço é curto, a criatividade se estende.

      E não é que é assim na vida todinha?

     Outro exemplo de criatividade cotidiana: uma refeição feita com sobras da geladeira, o famoso “restodontê”. Você pode até não conhecer esse nome diferentão, mas certamente já fez um risoto com sobra de frango, uma omelete com aquela carne assada do fim de semana, um bolinho de arroz elogiado por todos ou um pudim de pão para salvar o pão que não foi consumido. Aliás, as ações que acontecem dentro de uma casa frequentemente oferecem oportunidades brilhantes para a criatividade. Se você ainda não tinha pensado sobre isso, comece a observar!

     Julia Cameron, no livro O Caminho do Artista, fala sobre a necessidade de fornecermos à criatividade nutrientes básicos que a façam crescer. Além disso, trata a criatividade como nossa verdadeira natureza. Para a autora, os bloqueios são um entrave nada natural a um processo que é tão normal e milagroso quanto o desabrochar de uma flor.

     Na Arteterapia, a criatividade não é medida pela estética, mas pela autenticidade. É no gesto espontâneo, na escolha de uma cor, na construção de uma imagem simbólica que o indivíduo revela sua forma única de lidar com o mundo. E isso não se limita à sessão arteterapêutica, se estende à forma como ele organiza sua rotina, cuida dos seus vínculos, transforma dor em potência.

     Novamente citando Cameron, é possível pensar a criatividade como um poço, o nosso poço interior, que precisa de atenção e cuidado. Caso contrário, pode acabar esgotado, estagnado ou bloqueado. É preciso enchê-lo. Reabastecer nossos recursos criativos à medida que os utilizamos.

E aí, como é que você tem reabastecido seu poço?

Quando foi a última vez que você deu um jeito criativo em algo?

     Já que você chegou até aqui neste texto, que tal escolher um problema cotidiano e representar sua solução com uma colagem, um desenho ou uma escrita criativa?

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

CAMERON, Julia. O caminho do artista: um guia para despertar a criatividade. Tradução de Ana Ban. São Paulo: Sextante, 2007.

MARCHIONI, Rubens. Escrita criativa: da ideia ao texto. São Paulo: Contexto, 2018.

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Sobre a autora: Cris Silva



Sou Arteterapeuta e Pedagoga, apaixonada por unir educação e arte como caminhos de desenvolvimento pessoal. Durante 34 anos estive em sala de aula, tanto na rede particular de ensino quanto na rede pública do Rio de Janeiro, acompanhando desde crianças da Educação Infantil até jovens e adultos neurodivergentes - cada encontro trazendo novos aprendizados.

Minha formação inclui Pedagogia (UERJ), Arteterapia em Educação e Saúde (UCAM), formação em Arteterapia no Atelier Eveline Carrano e diversas formações continuadas em áreas afins. Hoje sigo ampliando horizontes como graduanda em Psicologia (UVA).

Acredito no poder das artes, da leitura e da escrita para criar vínculos e abrir possibilidades. Por isso, realizo oficinas de Arteterapia, mediações de Biblioterapia , Leitura Coletiva e encontros de Escrita terapêutica. Também tive a alegria de atuar por quatro anos como voluntária na ONG Anjos da Tia Stellinha, fortalecendo laços entre mães e filhos.

Minha missão é simples: cultivar espaços de expressão e cooperação, onde cada pessoa possa descobrir novos sentidos para sua própria história.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PARA 2026: “CANTAR SEMPRE QUE FOR POSSÍVEL...”

 



Por Eliana Mores – MG

@naopalavra

@atelienaopalavrabh

 

Em um dos últimos encontros do Grupo Quiron noturno de 2025 uma querida participante compartilhou conosco que quando precisava se fortalecer, tinha o hábito de cantar. E cantou para nós o trecho de uma música que ficou ecoando nos meus ouvidos. Um tempo depois fui procurar a música e, de fato, aqueles versos me tocaram e pude perceber (à luz da minha projeção) uma associação direta daqueles versos com a rede de pessoas que compõem o Não Palavra Arteterapia.

Essa rede crescer a cada ano. Isso se torna visível quando eu começo a preparar as lembrancinhas de final de ano que envio para cada pessoa que participou de alguma forma na manutenção do Não Palavra ao longo daquele ano, seja escrevendo um texto para o blog, atendendo no Projeto de Atendimento Social, compartilhando seus estudos e práticas em alguma palestra ou evento de nossa agenda. Perceber que a cada ano aumenta significativamente o número de lembrancinhas que envio no fim de cada ciclo, me mostra o quanto nossa rede cresce e cresce... E o quanto o meu coração se enche de uma profunda gratidão pelas pessoas que investem de sua energia psíquica para que o Não Palavra se sustente como um espaço sólido de desenvolvimento de arteterapeutas e da Arteterapia como profissão.

Em 2025 tivemos no blog o total de 43 textos publicados (o que foi possível com a nova parceria com a querida Débora de Castro, que se responsabilizou pelo contato com cada autor e a agenda de um texto por semana, assim como nossa proposta original). Foram ao todo 25 autores, sendo 14 deles autores de primeira vez em nossa rede.

No Projeto de Atendimento Social, fechamos o ano com 15 arteterapeutas atuantes, 3 supervisoras e 36 atendidos. O que só é possível com a fina gestão de Milena Medeiros.

Sem deixar de mencionar nossa rotina de vivências, palestras, supervisões grupos de estudo e encontros online que mantivemos ao longo do ano, recebendo tantos participantes, sob a batuta e o acolhimento de nossa tão querida Regina Rasmussen.

A música que aquela querida participante cantou para nós no encontro do Grupo Quiron foi “Mutirão de amor”, que encontramos versões cantadas por Jorge Aragão e Roberta Sá. Sua estrofe diz:

“Cada um de nós deve saber se impor
E até lutar em prol do bem-estar geral
Afastar da mente todo mal pensar
Saber se respeitar
Se unir pra se encontrar
Por isso eu vim propor
Um mutirão de amor

Pra que as barreiras se desfaçam na poeira
E seja o fim
O fim do mal pela raiz
Nascendo o bem que eu sempre quis
É o que convém pra gente ser feliz”

Hoje oficialmente iniciamos nossos trabalhos de 2026, tendo em mente que muito possivelmente esse não será um ano fácil, com desafios e enfrentamentos a frente. Atravessá-lo será mais possível se nos mantivermos em rede, em grupo, em comunidade, em solos fertilizados pela Arteterapia: que oferecemos aos outros, mas que também nos é um grande suporte.

Nosso desejo é que o Não Palavra Arteterapia possa colaborar com esse território de sustentação de arteterapeutas que se acheguem em nossa roda. E quando o caminho se estreitar e nosso coração se apertar, vamos cantar o refrão que nossa querida amiga nos ensinou:

Cantar sempre que for possível
Não ligar pros malvados
Perdoar os pecados
Saber que nem tudo é perdido
Se manter respeitado
Pra poder ser amado

 

Um feliz 2026 para nós! E que a gente siga se encontrando pelos caminhos coloridos da Arteterapia, ao longo da nossa caminhada!


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A CORAGEM DE SER IMPERFEITO: QUANDO O "RIDÍCULO" REVELA O ESSENCIAL



 Por Cris Silva – RJ

 @arteterapia_crissilva

Dia desses estava atendendo uma pessoa no individual e ouvi a seguinte frase durante a partilha na sessão:

 "No começo, me senti ridículo fazendo isso (...)”.

Escutei com respeito. O sentimento de “ridículo” que muitas pessoas expressam em contextos terapêuticos costuma ser, na verdade, uma manifestação do medo de se expor em sua vulnerabilidade.

A partir da devolutiva, pudemos dialogar sobre como esse desconforto inicial revela não apenas uma resistência, mas também uma oportunidade. Conversamos sobre o valor de se permitir experimentar sem garantias, sobre o receio de julgamento e sobre como a expressão criativa pode abrir caminhos para ressignificar esse olhar, tanto o próprio quanto o do outro.

Vivemos em uma cultura que nos treina para a performance, para o resultado, para o aplauso. E quando entramos num espaço onde o convite é simplesmente sentir, experimentar, errar, brincar, algo dentro de nós se contrai. A criança interna, tantas vezes silenciada, quer pintar com os dedos, cantar desafinado, colar papel torto, mas o adulto racional diz: Isso não é sério, não é bonito, não é útil.”

A Arteterapia nos devolve o direito de não saber, de não dominar e de não agradar. É justamente nesse espaço de liberdade que reside a potência.

Quando alguém se permite atravessar o desconforto inicial, aquele sentimento que costuma dizer “isso é bobo”, e escolhe permanecer, algo começa a se transformar. O gesto ganha sentido, a forma revela conteúdo e o que antes parecia sem propósito aparente se torna símbolo.

A pesquisadora Brené Brown, autora de A Coragem de Ser Imperfeito, afirma:

“A vulnerabilidade é o berço da inovação, criatividade e mudança.”

Essa frase, presente em suas palestras e no livro, nos lembra que o desconforto de se expor é também o portal para o que há de mais genuíno em nós. Na Arteterapia, isso é visível: o que começa como hesitação pode se tornar expressão profunda.

O medo do ridículo nasce, muitas vezes, do olhar que imaginamos que o outro terá sobre nós. Mas quando esse olhar é acolhedor, como na Arteterapia, ele se torna espelho, não julgamento. E nesse espelho, podemos nos ver com mais compaixão.

Outro trecho marcante da obra diz:

“A coragem de ser imperfeito é aceitar e abraçar nossas fraquezas, deixar de lado a imagem de quem deveríamos ser e aceitar quem realmente somos.”

Essa aceitação não é passiva; é uma escolha ativa, transformadora. É o ponto de partida para uma expressão genuína, para vínculos mais profundos e para uma vida com mais autenticidade.

Na Arteterapia, o “ridículo” é bem-vindo. Porque ele carrega a chance de romper padrões, desafiar crenças limitantes e abrir espaço para o novo. E quando o novo chega, ele raramente vem com formas perfeitas, mas quase sempre vem como um processo. Um processo que não é linear, nem imediato, mas que vai se fazendo aos poucos, no ritmo de quem cria. É nesse percurso que mora a potência: na liberdade de experimentar sem saber o resultado, na coragem de permanecer mesmo diante do desconforto e na entrega ao gesto que revela mais do que a forma, revela sentido.

A coragem de ser imperfeito é, talvez, uma das maiores ousadias terapêuticas. E é também uma das mais libertadoras. Porque é nela que reencontramos o prazer de criar sem meta, de expressar sem filtro, de existir sem máscara.

Na arte, como na vida, não há erro quando há expressão genuína, apenas caminhos que revelam quem somos.

 

Referência:

BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. Tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

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Sobre a autora: Cristiane da Silva


Arteterapeuta: AARJ 1125 /08. Formada em Pedagogia (UERJ/RJ), tem trinta e três anos de regência em sala de aula – da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos neurodivergentes na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Pós-graduada em Arteterapia em Educação e Saúde (UCAM/RJ) e formada em Arteterapia pelo Atelier de Artes e Terapias Eveline Carrano. É graduanda em Psicologia (UVA/RJ). Foi voluntária por 4 anos na ONG Anjos da Tia Stellinha, atuando no projeto CONSTRUINDO A MINHA HISTÓRIA – resgate de vínculos entre mães e filhos. Realiza oficinas e vivências em Arteterapia, é mediadora de Biblioterapia e Escrita terapêutica. Acredita que as artes, as leituras, a escrita e a cooperação mudam o sentido da vida e que, sempre, abrem caminhos para o desenvolvimento pessoal e social.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

REGULAÇÃO EMOCIONAL EM ARTETERAPIA: CORES

 

“A cor é um meio de exercer influência direta sobre a alma: a cor é a tela, o olho é o martelo, e a alma é o piano com suas cordas”.

 – Wassily Kandiski –

 

Por Juliana Mello - RJ     

      Como mencionei anteriormente, além do elemento água, também podemos trabalhar a regulação emocional por meio das cores. Esse recurso expressivo costuma ser uma das formas mais confortáveis para que o paciente manifeste aquilo que, muitas vezes, as palavras não conseguem traduzir: o que está sentindo.

Sabemos que existe uma infinidade de emoções, muito mais do que as cores disponíveis na paleta. Por isso, é importante lembrar que cada cor pode “falar” sobre um sentimento diferente de acordo com a experiência e percepção de cada pessoa. Em outras palavras, a cor é subjetiva. Por exemplo: o vermelho pode representar amor, vitalidade, mas também sangue ou alerta; o preto pode remeter ao luto e à perda, mas também à elegância, sendo muito usado em roupas; o rosa pode estar associado ao feminino, mas também à delicadeza ou à infância. Eva Heller, especialista em teoria das cores, relata que:

 “Não existe cor destruída de significado. A impressão causada por cada cor é determinada por seu contexto, ou seja, pelo entrelaçamento de significados em que a percebemos”. (2013)

De acordo com Maria Cristina Urrutigaray, professora e psicóloga Junguiana:

 “O mundo constitui-se pelas cores. Quando acordamos e abrimos os olhos, a primeira coisa que vemos são as cores, através de tons e sombreados, que nos dão tons ou qualidades afetivas as nossas percepções em função da luminosidade existentes”. (2017)

 

            Trabalhadas no setting terapêutico, as cores podem dar contorno às emoções, especialmente quando estas se apresentam muito expansivas, intensas ou difíceis de regular. Isso pode acontecer por meio de imagens pré-estabelecidas, papéis com texturas mais “ásperas”, entre outros recursos que oferecem limites e estrutura. Da mesma forma, o inverso também é possível: quando as emoções estão muito contidas, retraídas ou parecem “presas”, as cores podem favorecer a expansão e a expressão, principalmente quando utilizadas junto a materiais que envolvem o elemento água, como guache, aquerela e nanquim. Neste contexto, a Arteterapia auxilia, de forma profunda e de acordo com a demanda de cada paciente, o trabalho com as cores, ocupando um papel central como mediadora simbólica das emoções.

No processo terapêutico, solicitamos que o paciente passe um tempo em contato com as cores, selecionando aquelas que melhor representam as emoções que está sentindo no momento, ou mesmo emoções vivenciadas anteriormente e trazidas para a sessão. Se houver dificuldade em nomear uma cor para cada emoção, o paciente pode simplesmente escolher a cor que “chama”, atrai ou convida, confiando na própria experiência interna.

Ao colorir a imagem, de modo simbólico, imagina-se que essas emoções estão sendo colocadas no papel, ganhando forma e concretude. Algumas perguntas que podem ajudar nesse processo são:

·         Que forma tem esse sentimento?

·         Qual é a sua intensidade?

·         Como ele deseja se expressar?

·         Tem forma concreta ou é mais abstrata?

            Alguns materiais que podem ser utilizados com foco nas cores: papéis coloridos, miçangas, botões, tecidos, lã, lápis de cor, giz de cera, canetinha, embalagens coloridas, etc.

            Integrada à Terapia Cognitivo-Comportamental, a exploração das cores pode favorecer insights para identificar pensamentos e comportamentos, além de trabalhar atenção, foco, escolhas e práticas de Atenção Plena. Frequentemente, os pacientes relatam um alívio emocional, contribuindo assim para a Regulação Emocional.

Seguem abaixo algumas práticas trabalhadas com foco nas cores:

 


Desenho com lápis pastel oleoso em papel  Kraft



                                                               Mandala com lápis de cor

 


                                                               Colagem em papel colorido



                                                              Frotagem e lápis de cor



                                                                 Lápis de cor na forma

Ao unir Arteterapia e TCC, ampliamos as possibilidades de compreensão, regulação e transformação emocional dentro do processo terapêutico.


Bibliografia:

COUTINHO, Vanessa. ARTETERAPIA COM CRIANÇAS. Rio de Janeiro: Wak editora, 4ª edição, 2013.

HELLER, Eva. A PSICOLOGIA DAS CORES: COMO AS CORES AFETAM A EMOÇÃO E A RAZÃO. São Paulo: Editora GG, 1ª edição, 2013.

URRUTIGARAY, Maria Cristina. INTERPRETANDO IMAGENS, TRANSFORMANDO EMOÇÕES. Rio de Janeiro: Wak Editora, 1ª edição, 2017.


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Sobre a autora: Juliana Mello



Psicóloga, Arteterapeuta e Coach

Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.

GRUPO DE ESTUDOS: "TCC e técnicas expressivas"

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A ARTETERAPIA E O BRINCAR COM MATERIAIS DE LARGO ALCANCE



Por Claudia Tona

@libelula_psicopedagogia



"A criação de algo novo não é realizada pelo intelecto, mas pelo instinto de brincar agindo por necessidade interior. A mente criativa brinca com os objetos que ama." Jung

O que a arteterapia pode acrescentar ao brincar e vice-versa? Esta pergunta pode ser respondida quando experimentamos as duas coisas juntas, ou melhor, quando descobrimos que brincar carrega muito da arte e que a arte carrega muito do brincar. Lev Vygotsky diz, em sua obra “A Formação Social da Mente” que “ao brincar, a criança assume papéis e aceita as regras próprias da brincadeira, executando, imaginariamente, tarefas para as quais ainda não está apta ou não sente como agradáveis na realidade.” (2007, p. 83). Quando incluímos o brincar nas vivências com crianças, adolescentes e até mesmo adultos, é possível observar uma liberação das inibições e passamos a perceber o quanto a criatividade é impulsionada nesses momentos de criação livre, de inventividade.

O presente texto foi inspirado numa vivência com pessoas adultas, educadoras e educadores ávidos por levar propostas diferenciadas aos seus educandos. Mas, acima de tudo, o que se deseja mesmo, é dar espaço ao arquétipo criança, voltando ao livre brincar e, daí sim, compartilhar estas experimentações. Na Oficina “A Arte do brincar”, além da proposta de criação de brinquedos com materiais de largo alcance (ou materiais não estruturados), surgiu a reflexão em torno dos brinquedos que as crianças mais acessam atualmente e os brinquedos e brincadeiras que carregam a nossa ancestralidade: como podemos reavivar essa chama deixada por quem veio antes de nós? Como reaprender a criar peças que saem da nossa imaginação, como os primeiros humanos? E é aí que surge a flexibilidade dos materiais de largo alcance.

Mas que materiais são esses? O termo "materiais de largo alcance", no contexto pedagógico, é a tradução da expressão em inglês "loose parts" (literalmente "peças soltas" ou "partes soltas") e tem origem na teoria desenvolvida pelo arquiteto e designer paisagista Simon Nicholson, cuja teoria mostra que as crianças deveriam ter a oportunidade de brincar com materiais versáteis e que pudessem ser inventados, construídos, desenvolvidos e modificados por elas mesmas. Ele criticava os ambientes de lazer e playgrounds modernos por serem muito estruturados e limitarem a criatividade infantil.

A relação entre arte e materiais de largo alcance é profunda e simbiótica: os materiais de largo alcance servem como ferramentas essenciais e ilimitadas para a expressão e experimentação artística, enquanto a arte oferece o campo fértil para que o potencial desses materiais seja plenamente explorado.



Em Arteterapia, esses materiais são frequentemente referidos como materiais expressivos ou recursos artísticos, e a sua utilização possui um potencial terapêutico significativo, cuja exploração livre se torna uma ferramenta poderosa para a expressão, a comunicação e o bem-estar emocional. A seguir, alguns pontos de convergência e benefícios do uso desses materiais no setting arteterapêutico:

Expressão Não-Verbal: Para a arteterapia, o ato de criar é um meio de expressão, especialmente para indivíduos que têm dificuldade em verbalizar seus sentimentos ou experiências traumáticas. Os materiais de largo alcance, por sua natureza aberta e versátil (panos, sucatas, elementos da natureza, etc.), permitem que as pessoas projetem seus mundos internos de forma simbólica e metafórica, sem a pressão de "fazer arte" de uma maneira específica.

Foco no Processo Terapêutico: Assim como na, na arteterapia o foco recai sobre o processo de criação e não no produto final. A manipulação, organização e transformação dos materiais ajudam o indivíduo a explorar emoções, a desenvolver a consciência de si mesmo e a encontrar novas perspectivas. A riqueza das situações faz emergir um registro mais fino e matizado das reações, o que facilita a ação terapêutica.

Estímulo à Criatividade e Resolução de Problemas: A ausência de instruções prontas ou de um "uso correto" dos materiais de largo alcance estimula a criatividade e a capacidade de resolver problemas (como juntar peças, equilibrar, construir). Isso se traduz em habilidades de enfrentamento e adaptação na vida real, um objetivo central da terapia.

Acessibilidade e Descompressão: Sendo materiais de baixo custo e fáceis de obter, eles tornam a arteterapia mais acessível e menos intimidadora do que materiais de arte tradicionais. A simplicidade dos materiais ajuda a desarmar resistências e a facilitar a entrada no processo criativo, junto aos materiais específicos de expressão artística ou não.

Reaproveitamento e Transformação: A prática de buscar potencial em objetos "descartados" ou "abandonados" reflete simbolicamente um caminho de transformação e integração de partes da própria vida ou psique do paciente, um conceito poderoso na arteterapia.

Acesso ao Inconsciente: O ato de brincar, sem metas ou julgamentos, permite o acesso ao inconsciente e a expressão de conteúdos simbólicos e arquetípicos, essenciais para a integração psíquica (processo de individuação).

Expressão Simbólica: O brincar simbólico e as narrativas (contos de fadas, mitos) são linguagens da psique que permitem a manifestação de imagens internas, que podem então ser trabalhadas terapeuticamente.

Integração dos Opostos: O brincar pode ser uma forma de integrar opostos (como o consciente e o inconsciente, ou a luz e a sombra), promovendo o equilíbrio psíquico.

Em resumo, os materiais de largo alcance oferecem um vasto leque de possibilidades expressivas e simbólicas que são perfeitamente alinhadas com os princípios e objetivos da arteterapia, que busca a cura e o autoconhecimento através da expressão criativa.



Mas não para por aí. Um dos mais relevantes benefícios do uso desses materiais é o combate ao consumismo infantil, um assunto muito sério. O consumismo infantil é frequentemente impulsionado pela publicidade e pela ideia de que a felicidade vem da posse de brinquedos industrializados, muitas vezes de plástico e com um propósito único e limitado. Os materiais de largo alcance (caixas, tampinhas, tecidos, elementos da natureza) oferecem uma alternativa de baixo custo e alta versatilidade, desafiando a necessidade de comprar constantemente novos brinquedos prontos. Além disso, ao brincar com objetos simples do dia a dia, as crianças (bem como os adultos que delas cuidam) aprendem a valorizar a riqueza do que está ao seu redor, em vez de desejar apenas produtos de marcas específicas, sendo protagonistas na criação, pois participam ativamente de todo o processo de brincar, desde a concepção da ideia até a concretização da brincadeira, o que a torna menos suscetível à passividade imposta pelo consumo. E tudo isso promove a sustentabilidade através do reaproveitamento e da redução de resíduos, resultando na conscientização ambiental tão necessária nos nossos dias.

Para finalizar, o brincar um direito previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA):

Direito à liberdade: O Artigo 16, inciso III, do ECA, estabelece que o direito à liberdade "compreende brincar, praticar esportes e divertir-se". Dever da família, sociedade e Estado: O Artigo 3º do ECA determina que é dever de todos garantir esse direito, sem exceção. Proteção integral: O direito ao brincar é um dos pilares da proteção integral garantida pelo ECA, que assegura que crianças e adolescentes se desenvolvam em condições de liberdade e dignidade.

Isto posto, que tal lembrar de quantas crianças você conhece (inclusive você e seus clientes) que preferem brincar com a caixa do brinquedo novo que ganhou do que com o próprio brinquedo? Proponho então um desafio: conheça e faça uso dos materiais de largo alcance e encontre possibilidades ilimitadas de materiais expressivos para criar e ser feliz!

“É bom recordar que o brincar é por si mesmo uma terapia” (WINNICOTT, 1975, p. 83.)

 


REFERÊNCIAS

VYGOTSKY, L. S., A Formação Social da Mente: o Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores. Edição em Português: Martins Fontes. RJ. 2007.

NICHOLSON, S. Theory of Loose Parts, How Not To Cheat Children: The Theory of Loose Parts. Landscape Architecture, Louisville, v. 62, n. 1, p. 30-34, jan. 1971.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras Oficial da União, Brasília, DF, 16 em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 19, nov. 2025.

 

APRESENTAÇÃO DO AUTOR Nome:

Claudia Tona

Formanda em Arteterapia pelo Espaço terapêutico Caminhos do Self, no Méier, RJ.

Como Pedagogoga e Psicopedagoga, atuou em todos os segmentos da Educação Básica, da Educação Infantil ao Ensino Médio, EJA e Educação Especial e Inclusiva, tanto como professora quanto gestora; nas escolas públicas e privadas, a Arte sempre foi seu instrumento principal, sua varinha de condão.

Atualmente, faz atendimentos individuais e em grupo, tendo como base a Psicopedagogia com abordagem em Arte.

É Coordenadora do Solar do Guri, segmento infanto-juvenil do Solar Artes e Terapias em Piratininga, onde organiza junto com a Trupe Ensolarada, eventos para celebração do brincar através da Arte.

Compõe a equipe multidisciplinar do Espaço Terapêutico Cíntia Magacho, no Centro de Niterói, onde realiza atendimentos individuais e participa da organização de Workshops periódicos sobre aprendizagem e saúde mental.

Na Fundação Cultural Avatar, no Ingá, promove a Oficina Sementes ao Pôr-do-sol, com pessoas maduras as protagonistas do presente relato.

Contato: claudiatona63@gmail.com 
 @libelula_psicopedagogia