Por
Annamaria Bruno Riscarolli - RJ
O objetivo
deste texto é ajudar a compreender a função da Arteterapia ao utilizar o
desenho expressivo no ateliê terapêutico. A Arteterapia é um campo de estudos
interdisciplinares que integram saberes estéticos e psicológicos em benefício
da saúde mental e da expressão humana.
A história
da arte fornece repertórios culturais e contextos que enriquecem a prática,
enquanto o alfabeto visual da arte (ponto, linha, formas, cores) oferece uma
linguagem própria para a expressão subjetiva. A psicologia, por sua vez, dá
sentido às manifestações criativas, permitindo que o
processo artístico se torne um espaço de autoconhecimento, elaboração emocional
e reconstrução de significados.
Ponte com
saberes estéticos: repertório cultural simbólico
O desenho
acompanha a humanidade desde seus primórdios, evoluindo de registros
rudimentares para uma técnica sofisticada de comunicação e criação.
Na
pré-história, o desenho esteve presente para narrar caçadas, rituais e
experiências do dia a dia. No Egito, os desenhos e hieróglifos em tumbas e
templos auxiliavam a relatar a vida cotidiana e crenças sobre o pós-vida. Na
Antiguidade Clássica, Grécia e Roma utilizavam a técnica do desenho para
representações mitológicas e arquitetônicas, com foco em proporção e harmonia. Já
na Idade Média, o desenho era coligado com a arte sacra, seja para elaborar as
construções, seja para propagação das narrativas e dogmas religiosos.
É a partir
do Renascimento que o desenho ascende ao status de disciplina fundamental nas
artes. Essa promoção se dá através do conceito de disegno, termo
italiano que engloba tanto “desenho” quanto “projeto” ou “concepção
intelectual”, passando do simples exercício técnico para tornar-se base de toda
a produção artística, quer dizer, da concepção da ideia à materialização da
obra em pintura, escultura ou arquitetura. Como representantes bem conhecidos
desse movimento temos Leonardo da Vinci e Michelangelo, cada um
com sua maneira singular de registrar os primeiros pensamentos, esboços rápidos
e iniciais da ideia que se pretendia materializar. Eram os primi pensieri
ou seja, desenhar os primeiros pensamentos enquanto forma de conceber ideias.
Eles utilizaram o desenho como técnica de estudo para desenvolver ciência,
arte, arquitetura, quer dizer, vale entender o desenho enquanto recurso para
explorar alternativas e testar composições, refletindo o realismo da época.
Numa breve
análise dentro do alfabeto visual da arte, a linha é considerada “o ponto em
movimento”, sendo o elemento básico e mais versátil da comunicação visual, representando
a “voz” do artista no papel. Ao longo da história, a linha pode assumir uma grande
diversidade expressiva, indo além da descrição das formas. A partir da linha
podem ser representadas emoções, sentimentos, pensamentos. Podemos então olhar
para a linha como um reflexo da mentalidade de cada época.
Assim, no
desenho, a linha é mais do que um simples traço. Pode-se dizer que a linha
possui um “temperamento”. Por exemplo: no Renascimento, a linha é vista como
estrutura, um mapa de localização; já no Barroco, é gesto e força de pura
emoção.
Arteterapia
enquanto ponte: mediadora de sentidos
Ao promover
o encontro com artistas de diversas épocas e movimentos culturais, a
Arteterapia faz com que o participante conheça diferentes técnicas e linguagens
artísticas, amplie seu repertório cultural e utilize diversos materiais
expressivos para exercitar sua capacidade criativa. Progressivamente, o
participante vai entrando em contato consigo mesmo, expressando sua
subjetividade e favorecendo seu processo de desenvolvimento humano.
Lembro-me
que ainda estava no curso de formação em Arteterapia quando ouvi esta
inspiração: “Uma linha é um ponto que saiu para passear”, de Paul Klee. Logo me
senti encantada! Uma metáfora tão poética, lúdica, capaz de poder transformar
uma história de vida, e que certamente na época revolucionou todo o contexto de
pensamento visual. É esse encantamento que me motiva a multiplicar as minhas
propostas de trabalhos, sejam nas aulas em cursos de formação, seja em meus
atendimentos.
Dentro do
alfabeto visual da arte, o ponto e a linha são os elementos mais simples,
afinal podemos dizer que a composição plástica começa a partir desses
elementos. É nessa mesma simplicidade que encontro beleza no processo
terapêutico: uma travessia delicada, onde terapeuta e cliente tecem juntos uma
ponte de sentidos. Nesse encontro, revisitamos memórias da
infância e da adolescência — singelas em aparência, mas com raízes profundas
que se entrelaçam na vida adulta e na velhice. São camadas dinâmicas e
subjetivas, muitas vezes silenciosas que moldam o curso do comportamento
humano.
No ateliê terapêutico: ponte para
transformação
“Pretendo
convidar VOCÊ a se aventurar na história de uma linha curiosa, além de
incentivar a usá-la sem restrições. Confie em sua imaginação, criatividade, e
principalmente no uso com materiais simples, como lápis e papel, para traçar
linhas e se divertir, abandonando o medo da folha em branco, da ideia do não
saber desenhar e do não saber escrever uma boa história para sua vida.”
O trabalho
arteterapêutico promove o aumento da energia criativa, liberando os
participantes dos conceitos de certo e errado, feio e bonito, e de crenças
limitantes, diminuindo as pressões sociais e trazendo maior qualidade de vida
aos atendidos.
Citar Paul
Klee é confiar na função da arte, isto é, tornar visível, através do desenho, o
que está escondido (sentimentos, sonhos). A função do desenho será promover uma
aproximação com mundo interno do participante. A linha deixará de ser somente um
veículo para representação externa para se tornar vivência terapêutica.
Levar a
linha para passear é ganhar autonomia, uma vez que se pretende estimular a
vivência do passeio, da jornada.
A história
da linha curiosa
Era uma vez
uma linha que foi passear. Ela saiu do caderno, deslizou pela mesa e, curiosa,
começou a explorar o mundo....
Primeiro
encontrou um círculo, que a convidou para dançar em voltas infinitas. Depois
cruzou com uma árvore, e resolveu se enrolar nos galhos, virando um balanço
para os passarinhos. Mais adiante, mergulhou no rio e se transformou em onda,
brincando de ser água. Até que chegou a um castelo, onde se desenhou em
escadas, ajudando os moradores a subir até as torres. No fim do passeio, a
linha percebeu que podia ser qualquer coisa: caminho, ponte, sorriso, ou até
estrela no céu. E assim, feliz, voltou para o caderno, levando consigo todas as
aventuras que viveu.
Agora é com
VOCÊ! Que história você quer desenhar e escrever? Se quiser me contar vou
gostar bastante. Aguardo sua partilha, gratidão!
Título: O
movimento dos sentimentos opostos
Título: Rota
Escrita criativa: Eu levei a
minha reta para passear e descobri que nem toda reta é segura, que nem todo
plano é certeiro e que tem beleza nas curvas.
O objetivo de destino é mais
importante do que a rota escolhida e, não importa qual linha vou seguir, o
importante é aproveitar o caminho sem perder o ponto de chegada de vista.
Bibliografia:
Materiais de
arte : sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico –
Eveline Carrano e Maria Helena Requião – Wak Editora
Arteterapia
e História da Arte – Técnicas expressivas e terapêuticas - Marcia Barreira e
Naila Brasil - Wak Editora
Criatividade
e Cérebro – um jeito de fazer Arte Zen – Celeste Carneiro - Wak Editora
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Sobre a
autora: Annamaria Bruno Riscarolli -
UBAAT 01/159/1004
Bacharel em Publicidade e Propaganda
Arte-educadora social
Arteterapeuta e pós-graduada em Arteterapia em Educação e Saúde
Facilitadora de Biodanza
Focalizadora de Dança Circular
Facilitadora Biocêntrica
Professora de Oficina de Artes em curso de Pós-graduação de Arteterapia
Professora de Expressão Corporal/ Dança em cursos de formação em Arteterapia
Especialista em Psicologia Clínica
Coordenadora do Espaço Tessitura do Ser ( @tessituradoser )

























