segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CONTINUUM DAS TERAPIAS EXPRESSIVAS, UM MODELO DIRECIONAL PARA O ARTETERAPEUTA: entre a experiência clínica e a construção de um olhar



Por Tania Cristina Freire - SP


Nos últimos anos, tenho me dedicado ao estudo do Continuum das Terapias Expressivas – ETC (Expressive Therapies Continuum) e, ao ser convidada a escrever neste espaço, percebi que esta seria uma oportunidade para compartilhar não apenas conceitos sobre o modelo, mas principalmente algumas reflexões que surgiram a partir de minha experiência com a Arteterapia e, especialmente, com a Arte Reabilitação. 

Ao longo da minha trajetória profissional, venho observando que trabalhar com arte em um contexto terapêutico é muito mais do que propor uma atividade ou analisar uma produção. O que acontece durante o fazer artístico sempre me chamou atenção: a maneira como a pessoa escolhe um material, como toca, como movimenta o corpo, como experimenta suas propriedades, como sustenta uma ação, como organiza o espaço, como reage às dificuldades e como, muitas vezes, encontra na própria experiência artística uma forma de comunicação. 

Na prática da Arte Reabilitação, frequentemente recebemos demandas relacionadas à atenção, planejamento, controle de impulsos, coordenação motora, percepção, comunicação, memória, organização ou participação. Entretanto, quando essas demandas chegam ao setting de Arteterapia, elas não podem ser simplesmente transformadas em exercícios cognitivos ou motores. É preciso pensar como a arte pode criar uma experiência que mobilize essas funções sem perder aquilo que caracteriza a própria Arteterapia. 

Passei a compreender o modelo como uma possibilidade de organizar meu pensamento clínico diante da experiência artística. Ele me auxilia a perguntar não apenas “o que vou fazer com esta pessoa?”, mas principalmente: “o que está acontecendo nesta experiência e que direção pode ser terapêutica neste momento?” 

Quando observo uma criança que tem dificuldade para sustentar a atenção, por exemplo, não penso apenas em uma atividade que “trabalhe atenção”. Observo como ela entra em contato com o material, quanto tempo permanece na experiência, quais estímulos despertam seu interesse, como reage às mudanças, se consegue fazer escolhas e que tipo de mediação favorece sua permanência. Da mesma maneira, diante de uma pessoa com dificuldades motoras, não penso somente em como melhorar determinado movimento. Procuro compreender quais movimentos são possíveis, como o corpo participa da experiência e como o material pode ser adaptado para ampliar suas possibilidades de ação e expressão. 

Essa forma de olhar me aproximou cada vez mais da compreensão do ETC como um modelo direcional que para mim, não significa conduzir rigidamente o processo ou determinar aquilo que a pessoa deve produzir. Significa ter um referencial que me permita observar, fazer escolhas e construir uma direção terapêutica, permanecendo aberta para aquilo que emerge durante o processo. Essa é uma das características que mais valorizo no modelo: ele me oferece direção sem retirar a liberdade e a imprevisibilidade próprias da experiência artística. 

Na Arte Reabilitação, essa perspectiva também me ajuda a deslocar o olhar daquilo que a pessoa não consegue fazer para aquilo que pode ser construído a partir de suas possibilidades. A pergunta deixa de ser apenas “qual função está comprometida?” e passa a ser também “que experiência artística pode favorecer novas possibilidades de ação, percepção, expressão e participação?” 

Foi nesse diálogo entre teoria e prática que passei a compreender o ETC não apenas como um modelo teórico, mas como uma ferramenta para o raciocínio clínico do arteterapeuta. A partir dessa experiência, considero importante apresentar o modelo e discutir de que maneira ele pode contribuir para a especificidade da Arteterapia, especialmente quando pensamos sua atuação no campo da reabilitação. 

O Continuum das Terapias Expressivas 

O Continuum das Terapias Expressivas (Expressive Therapies Continuum – ETC) foi desenvolvido por Sandra Kagin e Vija Lusebrink, sendo apresentado inicialmente em 1978, construído com uma teoria vasta e muito embasamento de teóricos importantes da arteterapia. O modelo surgiu a partir da observação dos processos envolvidos na produção artística em contextos terapêuticos e propõe uma compreensão sistemática das diferentes formas de processamento que podem ocorrer durante a experiência expressiva. 

O ETC organiza esses processos em três níveis principais: Cinestésico-Sensorial (K-S), Perceptivo-Afetivo (P-A) e Cognitivo-Simbólico (C-Sy). A criatividade atravessa todo o continuum, não sendo compreendida como uma etapa final ou hierarquicamente superior. O modelo não pressupõe que esses níveis ocorram de maneira linear. Ao contrário, eles podem estar presentes simultaneamente, com diferentes intensidades, e podem se modificar de acordo com a pessoa, o material, a proposta e o contexto terapêutico. 

No nível Cinestésico-Sensorial, a experiência está relacionada principalmente ao corpo, ao movimento, às sensações e à exploração das propriedades dos materiais. É o território da ação, do gesto, da pressão, do ritmo, da textura, da temperatura, da fluidez e da resistência. O fazer artístico pode favorecer experiências de organização corporal e sensorial, além de possibilitar diferentes formas de expressão que não dependem inicialmente da elaboração verbal. 

No nível Perceptivo-Afetivo, ganham importância a percepção das formas, cores, relações espaciais e organização visual, juntamente com os aspectos emocionais mobilizados pela experiência. A pessoa começa a estabelecer relações entre o que percebe, sente e expressa. Nesse nível, elementos como escolha de cores, composição, contraste, organização espacial e características dos materiais podem participar de uma experiência de diferenciação, reconhecimento e expressão afetiva. 

Já no nível Cognitivo-Simbólico, a experiência artística envolve maior participação de processos relacionados à organização, elaboração, representação, linguagem, pensamento e construção de significados. A imagem pode tornar-se um espaço para simbolização, associação de ideias, narrativa e reflexão. 

A principal contribuição do ETC para o pensamento clínico do arteterapeuta está na possibilidade de relacionar processo artístico, características da pessoa, propriedades dos materiais e intenção terapêutica. O modelo oferece ao profissional um referencial para pensar por que determinado material ou proposta pode ser utilizado em determinado momento. Isso não significa estabelecer uma relação fixa entre material e nível do ETC. Um mesmo material pode favorecer experiências distintas dependendo da forma como é apresentado e utilizado. 

A argila, por exemplo, pode possibilitar exploração cinestésico-sensorial por meio da manipulação, pressão e movimento. Entretanto, também pode favorecer organização perceptiva, expressão afetiva ou construção simbólica. O que define a experiência não é apenas o material, mas a relação estabelecida entre pessoa, material, proposta e contexto terapêutico. Nesse sentido, o ETC pode contribuir para que o arteterapeuta desenvolva uma prática mais intencional. 

Um ponto importante destacado por Lusebrink (HINZ, 2020), é que o ETC pode ser utilizado independentemente da orientação teórica adotada pelo arteterapeuta, não se restringindo a uma abordagem específica de terapia. Isso se deve ao fato de que as expressões artísticas são, por natureza, multiníveis, envolvendo simultaneamente diferentes formas de processamento. Reconhecer essa complexidade permite ao profissional ampliar sua compreensão sobre os processos implicados no fazer artístico, considerando não apenas o produto final, mas também as dimensões sensoriais, cinestésicas, perceptivas, afetivas, cognitivas e simbólicas presentes em sua construção. 

Na Arte Reabilitação, o ETC contribui para ampliar a compreensão das possibilidades terapêuticas da experiência artística diante de alterações cognitivas, motoras, sensoriais, emocionais e funcionais. Nesse contexto, o foco está no processo, na experiência e nas possibilidades de participação que podem ser mobilizadas por meio da arte. O modelo pode auxiliar o arteterapeuta a transformar demandas funcionais amplas em questões relacionadas ao processo artístico: 

Como a pessoa utiliza o corpo? 

Como estabelece contato com o material? 

Consegue sustentar uma ação? 

Explora suas propriedades? 

Faz escolhas? 

Organiza elementos no espaço? 

Percebe diferenças? 

Expressa afetos? 

Constrói associações? 

Produz significados? 

Essas perguntas permitem uma observação mais específica daquilo que acontece durante o fazer artístico. A Arte Reabilitação pode utilizar o potencial da experiência artística não apenas para “estimular funções”, mas para criar possibilidades de participação, expressão, comunicação e construção de estratégias. 

O ETC também pode contribuir para a avaliação do processo terapêutico. A observação das mudanças na maneira como a pessoa utiliza os materiais, sustenta ações, faz escolhas, organiza elementos, expressa afetos e constrói significados pode oferecer informações relevantes sobre o percurso terapêutico. A produção artística, portanto, pode ser compreendida conjuntamente ao processo de criação, às estratégias utilizadas, às mediações necessárias e às possibilidades de participação.

Considero que uma das maiores contribuições do ETC está justamente na possibilidade de construir uma prática intencional sem ser prescritiva. Ser direcional não significa controlar o processo artístico. Significa que o arteterapeuta possui uma hipótese sobre a experiência que pretende favorecer e observa continuamente a resposta da pessoa. O ETC não deve ser transformado em uma tabela de correspondência entre materiais e funções, nem em uma receita de intervenção. Sua potência está justamente em oferecer um referencial para o pensamento clínico, preservando a complexidade e a singularidade da experiência artística. 

A partir da minha experiência com a Arte Reabilitação e do estudo do Continuum das Terapias Expressivas, compreendo o ETC como uma ferramenta que pode contribuir para tornar mais explícito o raciocínio clínico do arteterapeuta e preservar algo que considero fundamental: a arte não precisa ser reduzida a uma técnica para produzir determinado resultado funcional. 

A experiência artística possui uma complexidade própria. Corpo, percepção, emoção, cognição, simbolização e criatividade podem estar presentes simultaneamente e se transformar durante o processo. É nesse sentido que compreendo o ETC como um modelo direcional. Não como uma receita, mas como um mapa. 

Um mapa não determina o caminho. Ele ajuda a compreender onde estamos, reconhecer possibilidades e escolher uma direção. Na Arte Reabilitação, essa possibilidade é especialmente significativa. Quando uma pessoa encontra dificuldades para realizar algo de determinada maneira, a experiência artística pode oferecer espaço para experimentar outras maneiras de fazer, perceber, expressar, comunicar e participar. 

E talvez seja justamente nesse espaço entre direção e liberdade, entre intenção terapêutica e abertura para o inesperado, que encontremos uma das maiores potências do Continuum das Terapias Expressivas para a prática do arteterapeuta. 

Por fim, gostaria de retomar uma reflexão de Lisa D. Hinz (2019) que considero especialmente significativa para pensar os caminhos atuais da Arteterapia. Ao discutir o desenvolvimento do campo, a autora apresenta o Continuum das Terapias Expressivas como uma possível teoria fundacional, capaz de oferecer uma base teórica comum para arteterapeutas com diferentes orientações. Hinz destaca que o ETC fornece princípios para reconhecer e discutir as propriedades terapêuticas das experiências expressivas e criativas, constituindo uma linguagem que pode aproximar diferentes perspectivas dentro da profissão. Como afirma a autora, “The Expressive Therapies Continuum can be considered one such foundational theory”. 

Essa reflexão dialoga diretamente com minha experiência na Arte Reabilitação. Para mim, o ETC pode contribuir para que a Arteterapia avance não apenas na prática, mas também na capacidade de explicitar o que fazemos, por que fazemos e o que torna nossa prática especificamente arteterapêutica. Ao fundamentar o raciocínio clínico nas próprias qualidades dos materiais, das experiências expressivas e dos processos criativos, o modelo possibilita uma prática intencional sem reduzir a arte a uma técnica de estimulação. Compreendo o ETC como uma base teórica que nos ajuda a compreender, sustentar e comunicar a especificidade da Arteterapia, preservando, ao mesmo tempo, sua potência criativa e sua abertura para o inesperado. 

Referências essenciais 

HINZ, Lisa D. Expressive Therapies Continuum: A Framework for Using Art in Therapy. 2. ed. New York: Routledge, 2020. 

KAGIN, Sandra L.; LUSEBRINK, Vija B. The expressive therapies continuum. Art Psychotherapy, v. 5, n. 4, p. 171–180, 1978. 

LUSEBRINK, Vija B. The Expressive Therapies Continuum (ETC): interdisciplinary bases of the ETC. International Journal of Art Therapy, v. 18, n. 2, p. 75–85, 2013. 

 LUSEBRINK, Vija B. Assessment and therapeutic application of the Expressive Therapies Continuum: implications for brain structures and functions. Art Therapy, v. 27, n. 4, p. 168 177, 2010. 

 LUSEBRINK, Vija B. Art therapy and the brain: an attempt to understand the underlying processes of art expression in therapy. Art Therapy: Journal of the American Art Therapy Association, v. 21, n. 3, p. 125–135, 2004. DOI: 10.1080/07421656.2004.10129496.

______________________________________________________________________________

Sobre a autora: Tania Cristina Freire



Psicóloga | Arteterapeuta | Arte Reabilitadora

Psicóloga — CRP 06/203692 | Arteterapeuta — UBAAT 08/053/0305

Arte Reabilitadora pela AACD

Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, com especialização em Neuropsicologia e Neuropsicopedagogia. Atua há 23 anos na área da reabilitação, desenvolvendo trabalho com crianças, jovens, adultos e pessoas idosas.

É idealizadora e coordenadora do Instituto ArteReab, voltado à formação, pesquisa e atuação em Arte Reabilitação. É responsável pela criação da primeira formação em Arte Reabilitação na modalidade de Aperfeiçoamento no Brasil, contribuindo para a consolidação e disseminação desse campo de atuação.

Sua trajetória profissional integra Psicologia, Arteterapia e Reabilitação, com ênfase na utilização da arte como recurso terapêutico e de reabilitação, considerando aspectos do desenvolvimento, funcionalidade e participação.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

TARSILA, A ARTE DE SER BRASILEIRA E A POTÊNCIA DE CRIAR A PRÓPRIA HISTÓRIA

 




Por Mônica Ruibal

No dia 7 de setembro, feriado em São Paulo, fui visitar a exposição imersiva de Tarsila do Amaral. Saí de lá com aquela sensação que algumas exposições provocam: a de que a gente não apenas olha para as obras, mas também se reconhece um pouco dentro delas.

Tarsila é uma dessas artistas que continuam conversando com o presente. Sua obra nos atravessa pela cor, pelas formas, pela brasilidade, pelo feminino, pela imaginação e, principalmente, pela liberdade de criar uma linguagem própria.

E talvez seja justamente por isso que Tarsila tenha tanto a contribuir para a Arteterapia.

Na Arteterapia, não buscamos simplesmente produzir uma obra bonita. A experiência artística pode abrir caminhos para que a pessoa se expresse, experimente possibilidades, reconheça aspectos de si e construa novas narrativas. A imagem pode dizer aquilo que, muitas vezes, ainda não encontrou palavras.

E Tarsila oferece um universo riquíssimo para esse encontro.

Suas cores, seus personagens, suas paisagens e suas formas nos convidam a olhar para o Brasil de uma maneira simbólica e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal. Há espaço para falar de identidade, pertencimento, memória, infância, desejos, raízes e também do feminino.

Recentemente, tive a oportunidade de trabalhar com um grupo de mulheres a partir de uma de suas obras, Carnaval em Madureira.

A proposta não era reproduzir Tarsila. Era partir dela.

A partir daquela imagem tão cheia de movimento, cor e referências brasileiras, cada mulher foi convidada a criar a sua própria narrativa. O que existe em mim que quer ganhar cor? O que me representa? Que lugar eu ocupo na minha própria história? O que eu quero mostrar de mim?



É aí que percebo uma das grandes potências da arte na Arteterapia: uma obra de um artista pode ser a porta de entrada para uma experiência que pertence inteiramente a quem cria.

Tarsila dizia, em sua busca artística, “Quero ser a pintora da minha gente”.


Essa frase sempre me toca.


Porque existe algo muito potente em assumir a autoria daquilo que somos. Em reconhecer nossas referências, nossa história, nossas raízes e, a partir delas, criar uma linguagem que seja nossa.

Talvez seja isso que a arte possa nos oferecer: não necessariamente respostas, mas espaço para experimentar quem podemos ser.

Ao caminhar pela exposição neste 



7 de setembro, olhando para aquelas obras tão brasileiras, pensei também em quantas histórias ainda podem nascer quando nos permitimos olhar para a nossa própria cultura com curiosidade e afeto.

Tarsila nos deixou imagens. A Arteterapia pode transformar essas imagens em experiências.

E cada pessoa, ao criar, pode descobrir que também é capaz de pintar — à sua maneira — a própria história.


______________________________________________________________________

Sobre a autora: Mônica Ruibal



De São Paulo, graduada em Pedagogia com pós graduação em Arteterapia e Arte Reabilitação

Especialista em autismo, atuando em equipe multidisciplinar.

Em 2024 foi convidada a compor um painel sobre Arteterapia no Tearteiro, maior Festival de Autismo e Arte da América Latina. 

Criadora do grupo Arte Autismo onde promove encontros e workshops sobre o tema.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O MEDO DE ERRAR E A DIFICULDADE DE EXPERIMENTAR COISAS NOVAS




Por Isa Ramos – RJ

@psicologaisaramos

Site:www.psicologaisaramos.com.br

Você já deixou de fazer alguma coisa porque pensou que não faria bem? Talvez tenha desistido de aprender algo novo porque imaginou que seria difícil, evitando uma oportunidade por medo de não conseguir ou simplesmente pensado: “Eu não levo jeito para isso”. O medo de errar pode aparecer de formas muito diferentes na nossa vida e, muitas vezes, nem percebemos o quanto ele influencia nossas escolhas.

Quando temos medo de errar, podemos começar a evitar situações novas. Não tentamos, não perguntamos, não começamos. Preferimos aquilo que já conhecemos porque ali existe uma sensação maior de segurança. Só que, ao evitar constantemente aquilo que nos causa insegurança, também podemos deixar de viver experiências importantes, descobrir novas habilidades e perceber que somos capazes de aprender.

Na Psicologia, podemos observar como nossos pensamentos influenciam a maneira como nos sentimos e agimos. Quando o erro é visto como sinal de incapacidade, fracasso ou motivo para sermos julgados, experimentar algo novo pode se tornar muito difícil. Pensamentos como “se eu não fizer direito, vão pensar mal de mim”, “eu deveria saber fazer isso” ou “é melhor nem tentar” podem aumentar a insegurança e fazer com que a pessoa desista antes mesmo de começar.

Existe também uma diferença importante entre querer fazer algo bem e acreditar que precisamos fazer tudo perfeitamente. Quando a cobrança é muito grande, o processo deixa de ser uma experiência e passa a ser uma avaliação constante. Em vez de pensar “vou experimentar”, pensamos “preciso fazer certo”. Em vez de curiosidade, aparece preocupação. Em vez de prazer, aparece cobrança.

Isso pode acontecer em muitas situações do cotidiano. Pode estar presente no trabalho, quando temos medo de apresentar uma ideia; nos estudos, quando evitamos uma matéria porque achamos que não somos bons o suficiente; nos relacionamentos, quando temos dificuldade de dizer o que pensamos por medo da reação do outro; ou até mesmo em atividades simples que gostaríamos de experimentar, mas nunca começamos.

É nesse ponto que a Arteterapia pode trazer uma experiência interessante para dentro do processo terapêutico. Não é preciso saber desenhar, pintar ou ter qualquer habilidade artística. A proposta não é produzir algo bonito ou perfeito. O processo de criação pode ser utilizado como um recurso para experimentar, perceber escolhas, observar sentimentos e refletir sobre a maneira como nos relacionamos com aquilo que estamos fazendo.

Imagine receber uma folha em branco e alguns materiais e ouvir apenas: “Experimente”. Para algumas pessoas, isso pode ser divertido. Para outras, pode ser bastante desconfortável. “Mas o que eu tenho que fazer?”, “Como é para ficar?”, “Está bonito?”, “E se eu fizer errado?”. Essas perguntas podem revelar algo interessante sobre a nossa relação com o controle, com a cobrança e com a necessidade de acertar.

Uma pessoa pode passar muito tempo tentando decidir qual cor usar antes de começar. Outra pode apagar várias vezes aquilo que fez. Outra pode ficar frustrada porque o resultado não ficou como imaginava. Outra pode procurar confirmação o tempo todo para saber se está fazendo certo. Nenhuma dessas situações, isoladamente, permite tirar conclusões sobre alguém. Mas, dentro de um processo terapêutico, elas podem se transformar em oportunidades de reflexão.

O que acontece quando algo não sai como você imaginava? Você consegue continuar? Consegue mudar de ideia? Consegue tentar de outra maneira? Consegue olhar para aquilo que fez sem imediatamente dizer que está ruim? Essas perguntas podem começar em uma atividade artística, mas muitas vezes levam a reflexões sobre outras áreas da vida.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, é possível trabalhar a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Uma pessoa que acredita que “não é criativa” pode evitar qualquer atividade que envolva criação. Como não experimenta, não desenvolve familiaridade com aquilo. E, depois, pode usar justamente essa falta de experiência como prova de que realmente não consegue.

O mesmo ciclo pode aparecer em outras situações. “Eu não sei falar em público.” Então a pessoa evita falar. “Eu não consigo aprender coisas novas.” Então não tenta. “Eu sempre faço tudo errado.” Então prefere não se arriscar. Quanto menos experimentamos, menos oportunidades temos de descobrir se aquilo que pensamos sobre nós mesmos é realmente tão verdadeiro quanto parece.

Isso não significa que precisamos nos obrigar a fazer tudo aquilo que nos causa medo. Cada pessoa tem seu ritmo, sua história e seus limites. O objetivo não é simplesmente se colocar em situações desconfortáveis, mas compreender o que está por trás desse medo e, quando fizer sentido, construir novas formas de lidar com ele.

A criação artística pode ser um espaço interessante justamente porque não existe necessariamente uma única maneira correta de fazer algo. Podemos escolher uma cor diferente, mudar o traço, experimentar um material, começar novamente ou simplesmente deixar algo como está. Aos poucos, a pessoa pode perceber que nem toda escolha precisa ser definitiva e que nem todo erro precisa ser corrigido imediatamente.

Talvez uma das coisas mais difíceis para muitos adultos seja fazer alguma coisa sem precisar ser bons nisso. Na infância, criar costuma ser mais espontâneo. Uma criança pode desenhar uma casa azul, uma árvore enorme ou uma pessoa com três braços e continuar brincando sem se preocupar tanto com o resultado. Com o tempo, aprendemos a comparar, avaliar e buscar aprovação. E até aquilo que poderia ser prazeroso pode acabar se transformando em mais uma situação em que precisamos provar que somos capazes.

Por isso, permitir-se fazer algo sem precisar fazer perfeitamente pode ser uma experiência importante. Não significa deixar de buscar melhorias ou não se importar com o resultado. Significa entender que aprender exige espaço para aquilo que ainda não sabemos fazer.

Talvez o objetivo não seja aprender a nunca errar. Isso não seria possível. Talvez seja construir uma relação diferente com o erro. Uma relação em que errar não signifique automaticamente “eu não sou capaz”. Em que seja possível pensar: “Não saiu como eu esperava, mas posso tentar de outra maneira”; “Eu ainda não sei fazer, mas posso aprender”; “Não ficou perfeito, mas isso não significa que não tenha valor”.

Na Psicologia e na Arteterapia, esse processo pode abrir espaço para observar essas experiências com mais atenção. A arte não precisa ser interpretada como se cada cor, desenho ou forma tivesse um significado escondido. O mais importante pode estar na experiência da pessoa enquanto cria, naquilo que ela percebe, sente, pensa e aprende sobre si mesma durante o processo.

O medo de errar pode nos proteger de algumas frustrações, mas também pode nos afastar de experiências que poderiam ser importantes. Toda vez que experimentamos algo novo, existe a possibilidade de não dar certo, mas também existe a possibilidade de descobrir uma habilidade que não conhecíamos, encontrar um novo interesse ou perceber que somos mais capazes de lidar com o inesperado do que imaginávamos.

Experimentar não significa ter certeza de que vamos conseguir. Significa permitir-se descobrir o que acontece quando tentamos.

E talvez seja justamente essa uma das coisas mais bonitas que a criação artística pode nos lembrar: não precisamos saber exatamente como algo vai terminar para começar.

Podemos começar, observar, mudar, experimentar e recomeçar.

Na arte, na terapia e, principalmente, na vida.

____________________________________________________________________________ 

Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano.   Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas. 


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O JOGO DE PINTAR, O CLOSLIEU E AS CONTRIBUIÇÕES PARA A ARTETERAPIA

 


Por Soraya Lucato

Heureux comme un enfant qui peint” (“Feliz como uma criança que pinta”). Esta frase de Arno Stern resume a essência do Jogo de Pintar realizado no Closlieu — ou Cloliê: um espaço de felicidade que nasce da satisfação de uma necessidade humana fundamental: desenhar.

Ao traçar, a criança — e também o adulto que reencontra sua criança interna — toma consciência de suas próprias faculdades, reconhece a si mesmo e fortalece uma autonomia que, muitas vezes, a sociedade tenta limitar. O desenho, nesse contexto, não aparece como exercício artístico ou produção estética, mas como manifestação vital do ser humano.

Como o próprio nome indica, o Closlieu é um “lugar abrigado”. Trata-se de um espaço cuidadosamente concebido para o Jogo de Pintar, onde cada detalhe responde não a escolhas decorativas, mas a necessidades biológicas, corporais e sensoriais. É um ambiente sem janelas para o exterior, com iluminação e clima permanentes. Essa estabilidade técnica cria o que Stern chama de “estabilidade estrutural”.

Quando conheci Stern e a Semiologia da Expressão, em 2010, compreendi que, para o ser humano expressar-se em profundidade, não devemos corrigi-lo, conduzi-lo ou interpretá-lo constantemente. Precisamos, antes, criar as condições necessárias para que ele possa reencontrar aquilo que já existe dentro de si. O Jogo de Pintar revelou-se, para mim, como uma experiência profunda de auto regulação, presença e reconexão com a própria natureza humana.

Acreditar que uma criança — ou um adulto — quando protegido do julgamento e acolhido com dignidade, é capaz de reorganizar-se internamente e expressar algo essencial de si, representa um contraponto sensível à lógica de controle, desempenho e excesso de estímulos que atravessa a vida contemporânea. No Closlieu, não se busca resultado, interpretação ou análise da imagem. Busca-se oferecer um território seguro onde o gesto possa existir sem medo.

Minha trajetória de dezesseis anos como facilitadora (servant) e, hoje, como difusora direta desses estudos na América do Sul, tem sido atravessada por essa escuta do humano em sua dimensão mais profunda. Adaptar o rigor do Closlieu à densidade dos nossos territórios brasileiros e à vitalidade da nossa cultura não significou suavizar seus fundamentos, mas fortalecer sua potência terapêutica. O Closlieu brasileiro tornou-se, para mim, um espaço de resistência sensível, onde a precisão do material e a delicadeza da presença sustentam o direito à expressão livre de expectativas externas.

Embora o Jogo de Pintar não tenha sido concebido originalmente como prática arteterapêutica, sua estrutura oferece contribuições extremamente valiosas para a Arteterapia contemporânea. O Cloliê amplia a compreensão sobre o cuidado, a expressão espontânea e a construção de um espaço terapêutico verdadeiramente protegido.

Uma de suas maiores contribuições está na criação de um ambiente estável e previsível. A permanência da organização espacial, dos materiais, da iluminação e dos rituais oferece ao sistema nervoso uma sensação profunda de segurança. Para o arteterapeuta, essa compreensão transforma a maneira de pensar o setting terapêutico: o espaço deixa de ser apenas um local de atendimento e passa a atuar diretamente como elemento regulador da experiência emocional e corporal.

O Cloliê também auxilia o profissional a desenvolver uma presença menos invasiva e mais sustentadora. A postura do servant ensina que nem todo processo precisa ser conduzido, interpretado ou estimulado verbalmente. Muitas vezes, o que permite a emergência da expressão é justamente a qualidade silenciosa da presença. Essa perspectiva enriquece profundamente a prática arteterapêutica, especialmente em atendimentos com crianças, pessoas neuro divergentes, indivíduos traumatizados ou sujeitos que tiveram sua espontaneidade interrompida pelo excesso de controle externo.



Entretanto, talvez a maior contribuição do Jogo de Pintar para a Arteterapia esteja na compreensão do desenho a partir da Formulação. Na perspectiva desenvolvida por Stern, os traços que emergem no Jogo de Pintar não são entendidos como produções artísticas nem como representações simbólicas destinadas à interpretação. Eles pertencem à Formulação — manifestação de uma memória orgânica, portanto corporal e universal presente no ser humano.

Os códigos basais da Formulação são materializações dos gestos que o corpo humano aprendeu a realizar ao longo da existência da própria espécie humana. Esses movimentos fundamentais, registrados na memória orgânica desde a vida intrauterina, constituem a base de toda construção gráfica posterior.

A Formulação não pertence apenas à história individual de quem pinta. Ela pertence antes de tudo à espécie humana. Está ligada a uma memória ancestral do gesto, presente no próprio DNA humano, anterior à cultura, à linguagem e aos sistemas simbólicos. Por isso, determinadas figuras, ritmos e organizações gráficas emergem de forma recorrente em diferentes povos, tempos e contextos, independentemente de aprendizado técnico ou influência estética.

É a partir desses gestos primordiais que o ser humano desenvolve infinitas possibilidades de expressão. Antes do símbolo, antes da narrativa e antes da intenção de comunicar algo ao outro, existe o traço como necessidade corporal e vital. O desenho surge, primeiro, como manifestação do movimento humano em sua dimensão mais profunda.

O ato de traçar é, portanto, o registro visível de um gesto que o corpo da espécie aprendeu e continua precisando expressar. Cada linha, repetição, ritmo ou organização espacial carrega essa memória motora ancestral. O desenho, nessa perspectiva, não nasce inicialmente para representar o mundo externo, mas para responder a uma necessidade interna de inscrição, movimento e existência.

O corpo vem antes de tudo — e o desenho não escapa a essa origem. Antes de se tornar instrumento de comunicação, narrativa ou representação simbólica, o desenho é uma experiência física. É prolongamento do gesto, da respiração, do ritmo corporal e da presença no espaço.

Certamente, essa é uma das maiores contribuições de Stern: revelar que o desenho não começa na imagem, mas no corpo. Não começa no significado, mas no movimento. E compreender isso transforma profundamente a maneira como nos relacionamos com a expressão humana.

Para o arteterapeuta, essa compreensão produz uma mudança profunda de olhar. O profissional aprende a observar o processo expressivo em sua dimensão mais orgânica: o gesto, a repetição, o ritmo, a ocupação do espaço, a relação corporal com o suporte e a permanência de determinadas estruturas gráficas ao longo do tempo.

Nem toda imagem deseja ser traduzida em palavras. Muitas vezes, o excesso de leitura simbólica interrompe uma experiência que precisa permanecer no campo do vivido, do sensorial e do espontâneo. A Formulação nos lembra que existe uma inteligência do traço anterior à linguagem racional.

Outro aspecto fundamental é o reconhecimento da repetição como necessidade estruturante e não como bloqueio criativo. No Jogo de Pintar, formas e movimentos retornam porque participam de processos profundos de organização interna.

Diferente de um ateliê convencional, as paredes do Closlieu não funcionam apenas como divisórias. Elas se tornam parte viva do jogo. Recobertas por camadas de papel e vestígios de cores deixados ao longo do tempo, transformam-se em uma espécie de “pele” do ateliê — uma memória silenciosa das presenças e dos gestos.

Essas paredes sustentam o papel na altura adequada ao corpo do pintante, permitindo que o movimento aconteça de maneira livre e orgânica. O suporte vertical favorece a participação do corpo inteiro no ato de pintar. A gravidade auxilia o braço a encontrar firmeza e fluidez no traço, evitando tensões frequentemente causadas pela posição horizontal de uma mesa.

No Jogo de Pintar, o corpo não é separado do desenho. O gesto nasce inteiro: do movimento, da respiração, da presença e da necessidade profunda de deixar marcas.

O suporte vertical, a liberdade gestual e a participação do corpo inteiro no ato de pintar oferecem contribuições importantes para práticas arteterapêuticas voltadas à integração sensório-motora. O corpo deixa de ser apenas instrumento da expressão e passa a atuar como território ativo de reorganização emocional, relacional e perceptiva.

Além disso, o Jogo de Pintar e o espaço Cloliê mostram ao arteterapeuta a importância de proteger o espaço da comparação, da avaliação e da exposição. Em uma sociedade marcada pela performance e pela necessidade constante de validação, criar um território onde a pessoa possa existir sem precisar corresponder torna-se, por si só, um gesto terapêutico profundamente reparador.

Talvez seja justamente aí que reside a força mais silenciosa do Jogo de Pintar: recordar ao ser humano que ele não precisa produzir imagens para ser aceito, nem transformar sua expressão em linguagem compreensível para o outro. Existe um saber no gesto que antecede a explicação. Existe uma inteligência no corpo que se organiza enquanto traça.

O Jogo de Pintar nos convida, portanto, a retornar ao essencial: ao movimento, à presença, ao ritmo e à experiência de existir através do traço.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LUCATO, Soraya. Desenho Ancestral - Introdução aos estudos de Arno Stern e outras teorias sobre o desenho espontâneo. São Paulo - e-book Amazon

STERN, Arno. Heureux comme un enfant qui peint. Paris: Éditions du Rocher, 2005.


___________________________________________________________________________

Sobre a autora: Soraya Lucato



Arteterapeuta, artista plástica e arte-educadora


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ATELIÊ EMOÇÕES COM ADOLESCENTES NO CONTEXTO ESCOLAR: RELATO DE VIVÊNCIA EM ARTETERAPIA

 Por Nina Santos - MG

@ateliedejornadas

@eu.ninasantos

Em meados do primeiro semestre de 2026, a coordenadora pedagógica da Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, localizada no Bairro Jaqueline, em Belo Horizonte,  fez contato em busca de vivências criativas que pudessem contribuir para o desenvolvimento emocional dos alunos do ensino fundamental, anos finais, vinculados ao tempo integral. 

Ao iniciar diálogo, ela disse que havia visualizado uma postagem em rede social sobre o Projeto “Ateliê de Emoções: Jornada para Adolescentes”, de minha autoria, desenvolvido em parceria com diferentes espaços da região metropolitana. Segundo a coordenadora, o caixa da instituição contava com uma verba para atividades extracurriculares, como palestras e oficinas.

 

Elaborei uma proposta comercial, após reunião de alinhamento com a gestão. Desta maneira, definimos:

 

Tema: Bullying e Comunicação Não Violenta

Serviço: Oficinas Expressivas

Número de participantes: 60, distribuídos em 4 grupos de 15 adolescentes

Carga horária: 90 minutos por grupo/vivências

Idade: A partir de 12 anos

Turno: tarde

Horário: das 13:30 às 17:00

Datas: 11/08 e 13/08/2026 

Além das oficinas expressivas, o pacote de vivências incluiria a realização de uma palestra interativa, com o mesmo tema, para os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no turno da noite, com carga horária de duas horas.


Figura 1: Fachada da Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, Belo Horizonte, 2026.

Alguns ajustes se fizeram necessários, como a ampliação da faixa etária, ao incluir alunos mais novos, de 10 e 11 anos. Para tanto,  o número de participantes foi reduzido e fez mais sentido para a escola formar 2 grupos ao invés de 4. 

Deste modo, a carga horária passaria a ser de 3 horas para cada agrupamento,  realizadas em duas tardes. 

Plano de Trabalho 

O planejamento das vivências foi estruturado com antecedência,  esses foram os disparadores para as vivências criativas do primeiro dia: 

Acolhimento e exercício de atenção plena (potes aromáticos, escolher 1 potinho e dizer seu  nome e descrever o cheiro que sentiu); em seguida, contextuação sobre reconhecimento e nomeação de sentimentos com o suporte do livro Emocionário – diga o que você sente, de Cristina Núñez Pereira e Rafael Valcárce.

A nomeação espontânea ocorreria de acordo com a dinâmica da Caixa de Emoções, que consistia em cada adolescente tirar da caixinha um papel com uma emoção escrita e do seu jeito tentaria dizer como o corpo fica quando sente “a emoção sorteada”. Após isso, aconteceria a vivência expressiva com o Scrapbook, com o disparador “escolha dois sentimentos entre as sorteados e expresse como eles afetam a sua vida hoje”.

Dentro da caixinha constariam 15 papéis com 1 sentimento escrito em cada um deles, sendo:

Figura 2: Relação de palavras da Caixa de sentimentos, 2026.

Após a composição, ocorreria a partilha e fechamento, que se daria com uma palavra  dita por cada participante sobre a tarde vivenciada. 

Como o trabalho aconteceu?

Dia 11/08/2026 – Grupo Amarelo (12 a 14 anos)


 Figura 3: Figura 3: Registro meu em frente a uma das mesas de materiais, 11/08/2026.

Cheguei à escola sozinha, pois seria a única responsável pela execução das vivências, pude observar que a instituição é ampla, limpa e bem cuidada. Estudei a vida toda em escola pública, e ao olhar para a Municipal Acadêmico Vivaldi senti nostalgia, e ao mesmo tempo lembranças de agressões que sofri no ambiente escolar vieram à tona, mas foquei no trabalho que conduziria. 

A biblioteca da escola foi reservada para o desenvolvimento dos trabalhos em grupo. Nela havia mesas amplas e cadeiras suficientes para acomodar os grupos. Levei diversos materiais criativos,  materiais criativos, pois parti do princípio de que esses recursos poderiam me auxiliar no contato e vínculo com os adolescentes.

Recebi os participante próximo à porta, direcionei-os até a primeira mesa, para uma breve sondagem. A intenção era saber como chegavam para o encontro, pedi a eles que usassem pinos magnéticos numa estrutura composta por guarda-chuvas em diferentes posições, a ideia era relacionar a posição do guarda-chuva escolhido por cada pessoa com a disposição deles a experiência.

Figura 4: Sondagem para o Encontro - Como Chego?

Após isso, pedi que sentassem. Notei que ficaram bem próximos, exceto um participante preferiu ocupar uma mesa sozinho, e  posicionado longe dos demais. Perguntei o nome dele e o convidei para ficar mais perto, ele preferiu ficar onde estava, respeitei a escolha dele e iniciei a jornada com o grupo. 

Iniciamos, então, o exercício de atenção plena. Peguei 3 potinhos aromatizados, continham algodão embebidos por gotas de óleos essenciais de lavanda, hortelã pimenta e canela com cravo, respectivamente.

Expliquei a proposta, ao pegar um pote, o participante diria o nome e a idade, após isso, poderia cheirar o frasco aberto. Depois responderia “Que cheiro é esse? “O que achou do aroma? 

Assim, fizemos. As reações geraram risos e comentários como, “nu, que cheiro de pasta de dente”, “esse tem cheiro de shampoo de criança”, “já sei, parece desinfetante, aquele roxinho que colocam no banheiro”, “que cheiro ruim, nossa senhora, muito ruim”, “ah, eu gostei desse cheiro, esse aqui não é ruim”. Foram interações espontâneas que favoreceram a abertura do grupo. Procurei deixar fluir, estavam envolvidos, notei que foram fisgados pelo sensorial, isso me deixou segura de que estava no caminho certo com eles, ao menos naquele momento! 

Em seguida, houve um breve momento expositivo sobre bullying, esclareci sobre sinais de alerta e que além da agressão física, há também a psicológica e a material. Citei exemplos e alguns participantes complementaram, “deixar a pessoa excluída também é bullying, né?”, uma menina disse, “professora, jogar as coisas dos outros no chão é bullying também, odeio isso”. 

Nesse momento, um menino se irritou com ela, a chamou de chata. Ela respondeu, “fica na sua aí, não te chamei na conversa”. Agora as risadas não agregavam, ela ficou constrangida. Eu pedi que fizessem silêncio, pois ainda iríamos usar os materiais que estavam na mesa para criar. Mas  que antes, teria mais uma prática. 

Procurei conduzir as práticas seguindo o roteiro, porém, flexibilizei em alguns momentos para deixar os estudantes à vontade. Demos início à Caixa de Emoções. Cada um retirou dela um papel e leu o sentimento que estava escrito nele, em seguida dizia “como fica o nosso corpo quando a gente sente essa emoção?” Caso tivessem dúvidas sobre a palavra, procuraríamos no Emocionário, livro físico. 

Palavras como inveja, admiração, raiva, satisfação foram sorteadas uma a uma, e quando um colega tinha dificuldade em expressar o que sabia sobre o sentimento sorteado, imediatamente alguém levantava a mão e dizia, “pode ajudar, professora?”. Foi um momento importante para o grupo, pois houve escuta, mesmo com alguns momentos de animação e descontração.

 A palavra raiva foi a que mais trouxe participação e exemplos. “Quando estou com raiva, a minha cabeça fica quente”, “Tem hora que a raiva vem e dá vontade de bater, de socar alguém”, “e tem hora que dá raiva e medo junto”, “Nossa, eu até choro de raiva”, disse uma participante. 

Outro sentimento que gerou interação foi inveja, “quando a gente quer o que é de outra pessoa”, “ e também quando a gente quer ser igual ou melhor”. Provoquei sutilmente, vocês acham que é possível ter sentimentos diferentes sobre uma mesma situação? 

Foram rápidos na resposta, SIM!!!! 

Indaguei, então: - E o que a gente pode fazer para controlar as emoções, não deixar elas dominarem a gente? 

“Respirar fundo”, “tomar água”, “sair andando”, “esfriar a cabeça, parar de pensar nisso”, “sei lá, professora, dá vontade de gritar”. 

Em seguida, falei para o grupo que tem jeito de acalmar a mente, que sim, respirar fundo pode ajudar, que cada pessoa encontra um jeito de se acalmar e controlar as emoções quando elas vem muito fortes. 

Recolhi a Caixa de Emoções e os papéis e eles precisavam sair para comer uma fruta, e depois retornariam sem demora, pois ao retornarem, daríamos início à vivência expressiva com Scrapbook. Aproveitei a breve ausência deles para pegar centenas de adesivos, comprei muitos e com diferentes temáticas, mas optei por não colocá-los à vista desde o começo, para não gerar distrações. 

Ao retornarem, notaram os adesivos sobre a mesa e correram até ela, eu pedi que somente olhassem, por enquanto. Pois dois a dois iriam escolher seus adesivos e pegar os materiais para a composição do Scrapbook. Expliquei de forma rápida sobre a forma de usar os recursos disponíveis e o tempo para a produção criativa, 30 minutos. Eles ficaram muito animados. 

Em seguida, orientei sobre os disparadores para a criação, “aqui está uma lista com os 15 sentimentos que conhecemos melhor hoje, você pode escolher 2 deles, aqueles que você sente com mais frequência aqui  na escola. Não se preocupe com julgamentos, escolha 2 sentimentos e use os materiais para expressar sobre eles. Vou repetir”. 

No começo houve certo alvoroço, aqueles que eram mais próximos queriam mostrar os adesivos e papéis que haviam escolhido, mas pedi a eles que cada um se concentrasse na sua criação, que era um momento pessoal. E aos poucos, os ruídos diminuíram, alertei a eles sobre o tempo. 

Sentimentos como tristeza, medo e raiva apareceram em muitas obras. E surgiu um comentário espontâneo, “nó, que alívio. Cê volta que dia, professora?”, eu sorri e respondi, na quinta tem mais. Aproveitei para sinalizar a eles que faltava 5 minutos para concluírem a prática expressiva. Alguns já estavam finalizando, mas 4 ou 5 pessoas ainda estavam em processo de composição.

Figura 5: Registro de composição em Scrapbook,  codinome “Aluno solitário”. 11/08/2026.

Aquele participante que havia se sentado sozinho estava bastante engajado, destacou a palavra “raiva” num papel laminado vermelho, com uma coroa sobre ela, escreveu também o sentimento “tristeza”em silêncio fez sua composição. Fui até ele e observei um pouco o que estava fazendo, ele disse, “eu não quero mostrar para ninguém, professora”. 

Respondi que tudo bem, a partilha não seria obrigatória. Contudo, ele quis mostrar ao final, não falou mas disponibilizou a criação. 

Estendi o tempo um pouco mais para que todos pudessem concluir, avisei a eles que em 5 minutos iríamos finalizar e convesar sobre as criações. Contudo, uma participante ficou visivelmente tensa e irritada, perguntei a ela se estava tudo bem, ela disse, “ah, não, já tá acabando e eu nem terminei direito”. Reclamou.

Perguntei o que ela gostaria de colocar a mais na criação, ela respondeu, “ah, só mais um adesivo. Aguenta aí prof”, risos na sala. 

Então, contive os ânimos e avisei que a vivência tinha chegado ao fim, restava 7 minutos para o trabalho com o Grupo Amarelo ser concluído. Tínhamos pouco tempo para a partilha e fechamento, então orientei a eles que quem quisesse poderia mostrar a sua criação e falar de forma breve sobre ela. 

Um participante disse, “eu coloquei ansiedade, fico muito ansioso quando tem competição e isso me irrita”. “Eu coloquei tristeza, quando falam que fiz uma coisa e não é verdade, eu fico muito triste”. Outras duas pessoas falaram sobre raiva “sinto é ódio,  raiva é pouco, tem gente que fala da mãe dos outros e isso me dá ódio”, disse um participante que interagiu pouco, mas esteve atento e fez todas as atividades,  eu não penso direito,  e depois sinto culpa, fico arrependida e já é tarde”.  

Outro destacou os sentimentos “vergonha” e “orgulho”. E fez uma espécie de cartão com duas mensagens para si mesmo, “não fique com vergonha” e “não fique orgulhoso”, no sentido de prepotência. A composição me chamou atenção, segue:

 Figura 6: Composição em Scrapbook, 11/08/2026.

 Teci uma fala rápida sobre a importância da gente reconhecer o que está sentindo, e de dar nome ao que sente, pois esse é o primeiro passo para aprendermos a controlar emoções que são difíceis de lidar. Agradeci pela confiança. Recolhi os trabalhos. Já não havia mais tempo, combinei com eles que traria as produções na quinta-feira e que se desejassem, poderíamos falar mais sobre elas. 

Recebi abraços tímidos, ganhei uma bala goma, alguns agradeceram e se ofereceram para ajudar a organizar a sala. Os dispensei. Saíram falantes, exceto o menino que havia sentado sozinho, ele se retirou assim que recolhi seu trabalho, e me avisou que às quintas ele treina, que não pode faltar, logo, não viria ao próximo encontro. 

Bem, o relato desse grupo ficou maior do que imaginei, pois mesmo com roteiro em mãos, flexibilizei, me ajustei, cedi e considerei importante ouvi-los, observá-los e ser suporte para o que precisassem. 

O que aprendi com a primeira experiência do Ateliê de Emoções na escola pública? 

Tomo emprestado a frase “por trás de todo comportamento há uma necessidade” palavras de Marshall Rosenberg , quando me refiro a adolescentes, o afeto e a atenção podem gerar aproximação, abertura e vínculo. Degrau a degrau. 

Uma participante, de forma espontânea expressou frases direcionadas a mim, em sua sacola ecológica, no segundo dia. 

Acolhi a atitude dela como reconhecimento de um vínculo. Mas pensei, “ela vai usar mesmo essa sacola? Talvez guarde como objeto de afeto!” 

As vivências foram estruturadas e planejadas com cuidado, no entanto, fiz adaptações movida pela frase, “isso não vai funcionar agora”. Pude perceber que permitir que o grupo viva o presente e se perceba é muito importante para oferecer  uma escuta verdadeira em vivências sensibilizadoras. 

Registro aqui duas pergunta que me motivam  a desenvolver trabalhos grupais: 

Dado o contexto, qual experiência criativa pode fazer sentido para que os participantes façam uma jornada em conjunto? 

Que percurso pode ajudar as pessoas a perceberem, com cuidado, o que está acontecendo dentro delas? 

Aproveito para agradecer à Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, em especial à coordenadora Ana Paula pela iniciativa do contato, confiança e abertura, e à curadoria do Blog, por me conceder espaço para relatar um fragmento deste potente trabalho!



 Figura 7: Menção afetiva sobre mim na produção criativa de uma participante, 13/08/2026.


____________________________________________________________________________