A proposta da vivência Arte dos Sentidos nasce do desejo de ir
além das atividades tradicionais oferecidas a idosos com declínio cognitivo. Em
vez de focar apenas em jogos ou exercícios mentais convencionais, optou-se por
uma abordagem arteterapêutica sensorial, afetiva e centrada na pessoa. A ideia
foi criar experiências que tocassem o corpo, a memória e a emoção ao mesmo
tempo, permitindo que a arte deixasse de ser apenas algo para se ver e passasse
a ser algo para sentir, lembrar e viver.
Nesse caminho, utilizamos o conceito de nutrição imagética,
entendendo a arte como um alimento simbólico para o cérebro. Imagens, cheiros,
sabores e texturas passam a nutrir funções cognitivas, emocionais e
relacionais. Assim, uma pintura deixa de ser apenas contemplada e passa a
provocar lembranças, afetos e histórias. Essa perspectiva dialoga com
experiências como o programa Meet Me at MoMA, do Museu de Arte Moderna
de Nova York, que convida pessoas com demência leve e seus cuidadores a
observar e conversar sobre obras de arte, promovendo integração social,
estímulo cognitivo e consciência sobre o envelhecimento com demência (YIet al.,
2024).
Além disso, sabe-se que atividades que envolvem os sentidos, o movimento
e o pensamento são fundamentais para proteger o intelecto e reduzir a
deterioração cognitiva na velhice. A arteterapia, nesse contexto, mostra-se uma
ferramenta potente de promoção da saúde, pois favorece autoestima, melhora
cognição, as relações sociais e qualidade de vida (JARDIM et al., 2020).
A vivência Arte dos Sentidos foi realizada com idosas
institucionalizados, com idades entre 75 e 90 anos, todos com baixa capacidade
funcional e sinais de declínio cognitivo leve. A proposta não era estimular
apenas sentidos isolados, mas criar experiências significativas que pudessem
acessar estimular, memórias, emoções e formas de expressão de maneira
respeitosa, criativa, acessível e sensível.
A arteterapia, enquanto campo integrador, permite acessar conteúdos
internos que muitas vezes permanecem silenciosos no cotidiano do idoso institucionalizado.
Por meio da arte, cada participante é convidado a sentir, lembrar, refletir,
interagir e criar não apenas fazer uma atividade, mas viver e experimentar algo
que tenha sentido e significado.
Objetivos da Vivência
- Promover
a nutrição imagética com obras ligadas ao cotidiano e às lembranças
afetivas.
- Estimular
de forma integrada os sentidos: visão, tato, olfato e paladar.
- Favorecer
atenção, percepção e memória.
- Incentivar
a expressão emocional e narrativa.
- Fortalecer
vínculos afetivos por meio da partilha e da simbolização.
Materiais Utilizados
- Quatro
imagens de natureza-morta inspiradas em Paul Cézanne (banana, maçã, café e
temperos) geradas pela IA Gemini
- Pedaços
de maçã e banana para degustação.
- Pó de
café em potinhos.
- Temperos
aromáticos (orégano e ervas finas).
- Desenho
de guarda-chuva para colorir.
- Lápis
de cor, tesoura e cola branca.
Desenvolvimento da Oficina
O encontro foi organizado em etapas. Cada imagem era apresentada com
calma, convidando as idosas a observar formas, cores e detalhes. Depois vinha a
experiência direta com os sentidos: cheirar, tocar, provar.
A maçã era degustada e cheirada; a banana era explorada pela textura e
sabor; o café ativava memórias com seu aroma forte; e os temperos despertavam
lembranças ligadas à cozinha, à casa e à vida cotidiana. Tudo acompanhado por
perguntas abertas, mas também por silêncio. Nem tudo precisava ser dito algumas
memórias apenas precisavam ser sentidas.
Depois da
vivência sensorial, as idosas foram convidadas a colorir um desenho de um
guarda-chuva aberto, utilizado como metáfora de proteção, acolhimento e mundo
interno. O guarda-chuva simbolizava um espaço seguro onde tudo o que havia sido
sentido cheiros, sabores, lembranças e emoções poderia ser reunido e cuidado.
Cada cor escolhida pelas idosas carregavam algo da experiência vivida momentos
antes.
O ato de
colorir transformou-se em um tempo de pausa e interiorização. Não era apenas
preencher espaços com lápis de cor, mas organizar afetos e lembranças, dar
forma ao que ainda estava difuso dentro de si. O desenho tornou-se, assim, um
território de expressão subjetiva, um lugar onde memória, sensações, emoção e
gesto se encontravam e ganhavam corpo no papel. Em muitos casos, era possível
perceber que, enquanto as mãos se moviam, histórias internas também se
reorganizavam, criando pontes entre o vivido, o lembrado e o sentido.
Palavras, Sentimentos e Partilha
Ao
final, cada participante escolheu palavras recortadas que representavam o que
havia sentido. Em seguida, colaram essas palavras no guarda-chuva. Desse
processo emergiram termos ligados à vida, aos vínculos e ao afeto, como:
família, infância, pais, filhos e irmãos, além de sentimentos como amor, paz,
alegria, saudade, prazer, calma, esperança e amizade, entre outros.
Relatos
como: “Lembrei dos cafés da manhã da minha casa”,
“O cheiro do café me levou para a cozinha da minha mãe” e
“Lembrei de brincar de boneca com minha irmã e depois comer banana amassada”
mostraram que a memória afetiva permanece viva, ali guardada e pronta para ser
acessada, aguardando apenas um “gatilho” sensorial mesmo diante das limitações
impostas pelo envelhecimento, pelas doenças e pela institucionalização.
Considerações Finais
A vivência Arte dos Sentidos mostrou que a arteterapia, quando
integrada à estimulação sensorial e cognitiva, é um gesto de cuidado profundo
sendo fundamental no atendimento de idosos institucionalizados. Cada etapa
olhar, sentir, criar e nomear ampliou o campo de experiência dos idosos,
oferecendo espaços de protagonismo, sentido e encontro.
Mais do que uma atividade artística, a oficina foi um processo de reconexão com a própria história, com a identidade e com a vida. Um modo delicado de lembrar aos idosos que, mesmo com o tempo, a memória afetiva, o sentir e o existir continuam vivos. Permitindo um novo olhar no atendimento a população idosa institucionalizadas utilizando o recurso da arteterapia no processo de estimulação e reabilitação.
Referências
JARDIM, V.C.F.S.; VASCONCELOS, E.M.R; VASCONCELOS,
C.M.R.; ALVES, F.A.P. Contribuições da arteterapia para
promoção da saúde e qualidade de vida da pessoa idosa. Revista Brasileira
de Geriatria e Gerontologia, v. 23, n. 4, p. e200173, 2020. DOI:
10.1590/1981-22562020023.
YI, X.; Liu, Z.; Li, H.; JIANG, B. Immersive
experiences in museums for elderly with cognitive disorders: a user-centered
design approach. Scientific Reports, v. 14, p. 1971, 23 jan. 2024. DOI:
10.1038/s41598-024-51929-4.
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Sobre os autores:
Anderson Amaral – Arteterapeuta
formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro – Mestre em Tecnologia e Saúde,
Pós-graduado em Neurociências com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em
Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em
Reabilitação Cognitiva e Arteterapeuta do lar Amantino Câmara. Coordenado do
Projeto NeuroGeriatria da Faculdade de Medicina UNIG Itaperuna. Autor dos Livros
Jogos Cognitivos: Um olhar Multidisciplinar; Jogos de Estimulação Cognitiva e
Motora - WAK Editora e Co autor do livro Tratado do jogo: das
regras às regras em jogo - WAK Editora.
Adriana Limeira do
Nascimento – Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduada em Saúde
Mental, Pós-graduada em Saúde Pública e Brinquedista Hospitalar – Autora Livro
Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do
livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.
Talyta Gisllyane da Silva
- Graduada em Psicomotricidade e Ludicidade na Educação Infantil; Discente em
Terapia Ocupacional; Pós-graduada em TEA e TGD – Transtornos Globais do
Desenvolvimento Infantil; Pós-graduada em Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH) e Pós-graduada em ABA – Análise do Comportamento
Aplicada.
























