Em meados do primeiro semestre de 2026, a coordenadora pedagógica da Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, localizada no Bairro Jaqueline, em Belo Horizonte, fez contato em busca de vivências criativas que pudessem contribuir para o desenvolvimento emocional dos alunos do ensino fundamental, anos finais, vinculados ao tempo integral.
Ao iniciar diálogo, ela disse que
havia visualizado uma postagem em rede social sobre o Projeto “Ateliê de
Emoções: Jornada para Adolescentes”, de minha autoria, desenvolvido em
parceria com diferentes espaços da região metropolitana. Segundo a
coordenadora, o caixa da instituição contava com uma verba para atividades
extracurriculares, como palestras e oficinas.
Elaborei uma proposta comercial, após
reunião de alinhamento com a gestão. Desta maneira, definimos:
Tema:
Bullying e Comunicação Não Violenta
Serviço:
Oficinas Expressivas
Número de participantes: 60,
distribuídos em 4 grupos de 15 adolescentes
Carga horária: 90
minutos por grupo/vivências
Idade: A
partir de 12 anos
Turno:
tarde
Horário: das
13:30 às 17:00
Datas: 11/08 e 13/08/2026
Além das oficinas expressivas, o
pacote de vivências incluiria a realização de uma palestra interativa, com o
mesmo tema, para os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no turno
da noite, com carga horária de duas horas.
Alguns ajustes se fizeram necessários,
como a ampliação da faixa etária, ao incluir alunos mais novos, de 10 e 11
anos. Para tanto, o número de
participantes foi reduzido e fez mais sentido para a escola formar 2 grupos ao
invés de 4.
Deste modo, a carga horária passaria a ser de 3 horas para cada agrupamento, realizadas em duas tardes.
Plano de Trabalho
O planejamento das vivências foi estruturado com antecedência, esses foram os disparadores para as vivências criativas do primeiro dia:
Acolhimento e exercício de atenção
plena (potes aromáticos, escolher 1 potinho e dizer seu nome e descrever o cheiro que sentiu); em
seguida, contextuação sobre reconhecimento e nomeação de sentimentos com o
suporte do livro Emocionário – diga o que você sente, de Cristina
Núñez Pereira e Rafael Valcárce.
A nomeação espontânea ocorreria de
acordo com a dinâmica da Caixa de Emoções, que consistia em cada
adolescente tirar da caixinha um papel com uma emoção escrita e do seu jeito
tentaria dizer como o corpo fica quando sente “a emoção sorteada”. Após isso,
aconteceria a vivência expressiva com o Scrapbook, com o disparador “escolha
dois sentimentos entre as sorteados e expresse como eles afetam a sua vida
hoje”.
Dentro da caixinha constariam 15 papéis com 1 sentimento escrito em cada um deles, sendo:
Figura 2: Relação de palavras da Caixa de sentimentos, 2026.
Após a composição, ocorreria a partilha e fechamento, que se daria com uma palavra dita por cada participante sobre a tarde vivenciada.
Como
o trabalho aconteceu?
Dia
11/08/2026 – Grupo Amarelo (12 a 14 anos)
Figura 3: Figura 3: Registro meu em frente a uma das mesas de materiais, 11/08/2026.
Cheguei à escola sozinha, pois seria a única responsável pela execução das vivências, pude observar que a instituição é ampla, limpa e bem cuidada. Estudei a vida toda em escola pública, e ao olhar para a Municipal Acadêmico Vivaldi senti nostalgia, e ao mesmo tempo lembranças de agressões que sofri no ambiente escolar vieram à tona, mas foquei no trabalho que conduziria.
A
biblioteca da escola foi reservada para o desenvolvimento dos trabalhos em
grupo. Nela havia mesas amplas e cadeiras suficientes para acomodar os grupos.
Levei diversos materiais criativos,
materiais criativos, pois parti do princípio de que esses recursos
poderiam me auxiliar no contato e vínculo com os adolescentes.
Recebi os participante próximo à
porta, direcionei-os até a primeira mesa, para uma breve sondagem. A intenção
era saber como chegavam para o encontro, pedi a eles que usassem pinos
magnéticos numa estrutura composta por guarda-chuvas em diferentes posições, a
ideia era relacionar a posição do guarda-chuva escolhido por cada pessoa com a
disposição deles a experiência.
Figura 4: Sondagem para o Encontro - Como Chego?
Após isso, pedi que sentassem. Notei que ficaram bem próximos, exceto um participante preferiu ocupar uma mesa sozinho, e posicionado longe dos demais. Perguntei o nome dele e o convidei para ficar mais perto, ele preferiu ficar onde estava, respeitei a escolha dele e iniciei a jornada com o grupo.
Iniciamos, então, o exercício de atenção plena. Peguei 3 potinhos aromatizados, continham algodão embebidos por gotas de óleos essenciais de lavanda, hortelã pimenta e canela com cravo, respectivamente.
Expliquei a proposta, ao pegar um pote, o participante diria o nome e a idade, após isso, poderia cheirar o frasco aberto. Depois responderia “Que cheiro é esse? “O que achou do aroma?
Assim, fizemos. As reações geraram risos e comentários como, “nu, que cheiro de pasta de dente”, “esse tem cheiro de shampoo de criança”, “já sei, parece desinfetante, aquele roxinho que colocam no banheiro”, “que cheiro ruim, nossa senhora, muito ruim”, “ah, eu gostei desse cheiro, esse aqui não é ruim”. Foram interações espontâneas que favoreceram a abertura do grupo. Procurei deixar fluir, estavam envolvidos, notei que foram fisgados pelo sensorial, isso me deixou segura de que estava no caminho certo com eles, ao menos naquele momento!
Em seguida, houve um breve momento expositivo sobre bullying, esclareci sobre sinais de alerta e que além da agressão física, há também a psicológica e a material. Citei exemplos e alguns participantes complementaram, “deixar a pessoa excluída também é bullying, né?”, uma menina disse, “professora, jogar as coisas dos outros no chão é bullying também, odeio isso”.
Nesse momento, um menino se irritou com ela, a chamou de chata. Ela respondeu, “fica na sua aí, não te chamei na conversa”. Agora as risadas não agregavam, ela ficou constrangida. Eu pedi que fizessem silêncio, pois ainda iríamos usar os materiais que estavam na mesa para criar. Mas que antes, teria mais uma prática.
Procurei conduzir as práticas seguindo o roteiro, porém, flexibilizei em alguns momentos para deixar os estudantes à vontade. Demos início à Caixa de Emoções. Cada um retirou dela um papel e leu o sentimento que estava escrito nele, em seguida dizia “como fica o nosso corpo quando a gente sente essa emoção?” Caso tivessem dúvidas sobre a palavra, procuraríamos no Emocionário, livro físico.
Palavras como inveja, admiração,
raiva, satisfação foram sorteadas uma a uma, e quando um colega tinha
dificuldade em expressar o que sabia sobre o sentimento sorteado, imediatamente
alguém levantava a mão e dizia, “pode ajudar, professora?”. Foi um momento
importante para o grupo, pois houve escuta, mesmo com alguns momentos de
animação e descontração.
Outro sentimento que gerou interação foi inveja, “quando a gente quer o que é de outra pessoa”, “ e também quando a gente quer ser igual ou melhor”. Provoquei sutilmente, vocês acham que é possível ter sentimentos diferentes sobre uma mesma situação?
Foram rápidos na resposta, SIM!!!!
Indaguei, então: - E o que a gente pode fazer para controlar as emoções, não deixar elas dominarem a gente?
“Respirar fundo”, “tomar água”, “sair andando”, “esfriar a cabeça, parar de pensar nisso”, “sei lá, professora, dá vontade de gritar”.
Em seguida, falei para o grupo que tem jeito de acalmar a mente, que sim, respirar fundo pode ajudar, que cada pessoa encontra um jeito de se acalmar e controlar as emoções quando elas vem muito fortes.
Recolhi a Caixa de Emoções e os papéis e eles precisavam sair para comer uma fruta, e depois retornariam sem demora, pois ao retornarem, daríamos início à vivência expressiva com Scrapbook. Aproveitei a breve ausência deles para pegar centenas de adesivos, comprei muitos e com diferentes temáticas, mas optei por não colocá-los à vista desde o começo, para não gerar distrações.
Ao retornarem, notaram os adesivos sobre a mesa e correram até ela, eu pedi que somente olhassem, por enquanto. Pois dois a dois iriam escolher seus adesivos e pegar os materiais para a composição do Scrapbook. Expliquei de forma rápida sobre a forma de usar os recursos disponíveis e o tempo para a produção criativa, 30 minutos. Eles ficaram muito animados.
Em seguida, orientei sobre os disparadores para a criação, “aqui está uma lista com os 15 sentimentos que conhecemos melhor hoje, você pode escolher 2 deles, aqueles que você sente com mais frequência aqui na escola. Não se preocupe com julgamentos, escolha 2 sentimentos e use os materiais para expressar sobre eles. Vou repetir”.
No começo houve certo alvoroço, aqueles que eram mais próximos queriam mostrar os adesivos e papéis que haviam escolhido, mas pedi a eles que cada um se concentrasse na sua criação, que era um momento pessoal. E aos poucos, os ruídos diminuíram, alertei a eles sobre o tempo.
Sentimentos como tristeza, medo e raiva apareceram em muitas obras. E surgiu um comentário espontâneo, “nó, que alívio. Cê volta que dia, professora?”, eu sorri e respondi, na quinta tem mais. Aproveitei para sinalizar a eles que faltava 5 minutos para concluírem a prática expressiva. Alguns já estavam finalizando, mas 4 ou 5 pessoas ainda estavam em processo de composição.
Figura 5: Registro de composição em Scrapbook, codinome “Aluno solitário”. 11/08/2026.
Aquele participante que havia se sentado sozinho estava bastante engajado, destacou a palavra “raiva” num papel laminado vermelho, com uma coroa sobre ela, escreveu também o sentimento “tristeza”em silêncio fez sua composição. Fui até ele e observei um pouco o que estava fazendo, ele disse, “eu não quero mostrar para ninguém, professora”.
Respondi que tudo bem, a partilha não seria obrigatória. Contudo, ele quis mostrar ao final, não falou mas disponibilizou a criação.
Estendi o tempo um pouco mais para que todos pudessem concluir, avisei a eles que em 5 minutos iríamos finalizar e convesar sobre as criações. Contudo, uma participante ficou visivelmente tensa e irritada, perguntei a ela se estava tudo bem, ela disse, “ah, não, já tá acabando e eu nem terminei direito”. Reclamou.
Perguntei o que ela gostaria de colocar a mais na criação, ela respondeu, “ah, só mais um adesivo. Aguenta aí prof”, risos na sala.
Então, contive os ânimos e avisei que a vivência tinha chegado ao fim, restava 7 minutos para o trabalho com o Grupo Amarelo ser concluído. Tínhamos pouco tempo para a partilha e fechamento, então orientei a eles que quem quisesse poderia mostrar a sua criação e falar de forma breve sobre ela.
Um participante disse, “eu coloquei ansiedade, fico muito ansioso quando tem competição e isso me irrita”. “Eu coloquei tristeza, quando falam que fiz uma coisa e não é verdade, eu fico muito triste”. Outras duas pessoas falaram sobre raiva “sinto é ódio, raiva é pouco, tem gente que fala da mãe dos outros e isso me dá ódio”, disse um participante que interagiu pouco, mas esteve atento e fez todas as atividades, eu não penso direito, e depois sinto culpa, fico arrependida e já é tarde”.
Outro destacou os sentimentos
“vergonha” e “orgulho”. E fez uma espécie de cartão com duas mensagens para si
mesmo, “não fique com vergonha” e “não fique orgulhoso”, no sentido de
prepotência. A composição me chamou atenção, segue:
Figura 6: Composição em Scrapbook, 11/08/2026.
Recebi abraços tímidos, ganhei uma bala goma, alguns agradeceram e se ofereceram para ajudar a organizar a sala. Os dispensei. Saíram falantes, exceto o menino que havia sentado sozinho, ele se retirou assim que recolhi seu trabalho, e me avisou que às quintas ele treina, que não pode faltar, logo, não viria ao próximo encontro.
Bem, o relato desse grupo ficou maior do que imaginei, pois mesmo com roteiro em mãos, flexibilizei, me ajustei, cedi e considerei importante ouvi-los, observá-los e ser suporte para o que precisassem.
O que aprendi com a primeira experiência do Ateliê de Emoções na escola pública?
Tomo emprestado a frase “por trás de todo comportamento há uma necessidade” palavras de Marshall Rosenberg , quando me refiro a adolescentes, o afeto e a atenção podem gerar aproximação, abertura e vínculo. Degrau a degrau.
Uma participante, de forma espontânea expressou frases direcionadas a mim, em sua sacola ecológica, no segundo dia.
Acolhi a atitude dela como reconhecimento de um vínculo. Mas pensei, “ela vai usar mesmo essa sacola? Talvez guarde como objeto de afeto!”
As vivências foram estruturadas e planejadas com cuidado, no entanto, fiz adaptações movida pela frase, “isso não vai funcionar agora”. Pude perceber que permitir que o grupo viva o presente e se perceba é muito importante para oferecer uma escuta verdadeira em vivências sensibilizadoras.
Registro aqui duas pergunta que me motivam a desenvolver trabalhos grupais:
Dado o contexto, qual experiência criativa pode fazer sentido para que os participantes façam uma jornada em conjunto?
Que percurso pode ajudar as pessoas a perceberem, com cuidado, o que está acontecendo dentro delas?
Aproveito para agradecer à Escola Municipal Acadêmico Vivaldi
Moreira, em especial à coordenadora Ana
Paula pela iniciativa do contato, confiança e abertura, e à curadoria do Blog,
por me conceder espaço para relatar um fragmento deste potente trabalho!
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