segunda-feira, 11 de maio de 2026

CORES COMO ESTÍMULO COGNITIVO: IMPACTOS NA ATENÇÃO E MEMÓRIA




Por Débora Castro

@deborarteterapia 

Durante uma sessão do grupo 60+ na modalidade continuada, desenvolvi uma proposta voltada ao estudo e à compreensão dos conceitos das cores como ferramenta de estimulação cognitiva. A atividade foi planejada para integrar teoria e prática, permitindo que os participantes explorassem a relação entre percepção cromática, memória, atenção e processos neurocognitivos.

O trabalho iniciou com a apresentação das cores primárias e secundárias, seguida da experimentação das misturas que originam cores terciárias, análogas e complementares. Esse percurso teórico-prático possibilitou que o grupo compreendesse não apenas a lógica das combinações cromáticas, mas também como essas relações influenciam emoções, lembranças e processos de organização visual.



Ao longo das três sessões de Arteterapia, cada etapa foi conduzida de maneira gradual, respeitando o ritmo e o estilo de aprendizagem dos participantes. A construção do conhecimento ocorreu de forma leve, dinâmica e interativa, favorecendo trocas significativas e estimulando a participação ativa. A cada encontro, as integrantes eram convidados a observar, comparar, experimentar e refletir sobre as cores, fortalecendo habilidades cognitivas como atenção sustentada, foco, planejamento e memória operacional.

 

A prática artística, aliada ao estudo cromático, contribuiu diretamente para a ativação da neuroplasticidade, promovendo a criação de novas conexões neurais e reforçando circuitos já existentes. O uso das cores como estímulo sensorial ampliou a percepção visual e favoreceu o resgate de memórias afetivas, enriquecendo a experiência terapêutica.

                   





Explorar as cores na Arteterapia é uma ferramenta de múltiplos significados. As cores despertam emoções, ativam canais simbólicos e permitem que cada participante utilize a paleta cromática de forma livre, intuitiva e pessoal em cada trabalho proposto nas sessões. Como arteterapeuta e mediadora do processo, é profundamente significativo observar cada integrante mergulhando na materialidade, abrindo espaço para o novo, olhando para dentro de si e cuidando das próprias emoções. Esse movimento interno, despertado pela prática artística, fortalece a expressão subjetiva e amplia a consciência emocional.

O resultado do processo foi extremamente positivo. Os participantes demonstraram maior autonomia na identificação e utilização das cores, além de relatarem sensações, lembranças e associações despertadas durante as atividades. A proposta evidenciou o potencial das cores como recurso terapêutico e cognitivo, reforçando a importância de práticas que integrem arte, percepção e estimulação mental na maturidade.


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Sobre a autora: Débora Castro




Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

QUANDO SEGUIR EM FRENTE NÃO SIGNIFICA ESTAR BEM



Por Isa Ramos – RJ 

@psicologaisaramos 

site:www.psicologaisaramos.com.br

Seguir em frente nem sempre é um sinal de que está tudo resolvido. Muitas vezes, é apenas o que foi possível fazer. A rotina continua, os compromissos permanecem e as responsabilidades não diminuem e aos poucos, a vida vai sendo retomada mesmo que por dentro ainda existam partes que não acompanharam esse movimento. Nem toda continuidade significa superação. 

Há momentos em que seguir é uma necessidade, não uma escolha. Um movimento automático, sustentado mais pela exigência do que pela elaboração, por fora, tudo parece organizado, as tarefas são cumpridas, as conversas acontecem e os dias seguem, mas internamente, algo ainda pede atenção e nem sempre isso é percebido de imediato, porque existe uma ideia silenciosa de que, ao continuar a dor deveria diminuir. Como se o tempo, por si só, resolvesse aquilo que ainda não foi olhado com cuidado. O tempo não elabora, ele passa. O que elabora é o espaço que se cria para compreender o que foi vivido. Sem esse espaço, o que acontece não é superação e sim adaptação. 

Uma adaptação que muitas vezes mantém o funcionamento, mas não promove integração e isso pode se manifestar de forma sutil. Um cansaço que não se explica, uma irritação que surge sem motivo claro e uma sensação de desconexão, como se algo estivesse fora do lugar. Não porque a vida parou, mas porque uma parte de si ainda não conseguiu acompanhar o ritmo que foi necessário seguir. Existe uma diferença entre continuar e estar bem. Continuar é possível mesmo quando ainda existe a dor e estar bem exige contato com essa dor e esse contato muitas das vezes acontece no mesmo tempo em que a vida exige movimento. Por isso, é comum que algumas experiências sejam deixadas para depois, não por negligência, mas por falta de condições emocionais naquele momento e tudo bem. 

Cada processo tem seu tempo, mas aquilo que não é elaborado, não desaparece, simplesmente permanece em espera e o que permanece em espera nem sempre se apresenta de forma clara. Nem sempre volta como lembrança e nem sempre aparece como pensamento, às vezes, se manifesta no corpo. Pode ser na dificuldade de relaxar, na sensação constante de alerta ou na necessidade de manter tudo sob controle. Outras vezes surge em pequenos movimentos do dia a dia, na impaciência que não combina com a situação, na vontade de se afastar sem saber exatamente por que ou até na dificuldade de se envolver novamente com aquilo que, em outro momento, já foi natural. Como se de alguma forma, o que não pôde ser elaborado continuasse tentando encontrar um espaço para existir, não para causar desconforto, mas para ser reconhecido, até porque toda experiência que atravessa a vida de alguém deixa marcas e essas marcas não dizem apenas sobre dor, mas também sobre aquilo que ainda precisa ser compreendido. 

Nem sempre esse processo é imediato, há tempos internos que não acompanham o tempo cronológico e por mais que a vida siga, há partes que precisam de pausa. Pausa para sentir, pausa para reconhecer, pausa para dar sentido ao que, em algum momento só pôde ser suportado. Talvez seja justamente nesse intervalo entre o que foi vivido e o que ainda está sendo compreendido que mora um dos movimentos mais importante do cuidado consigo. Não é o de apressar respostas e nem o de forçar conclusões, mas o de sustentar, com certa gentileza aquilo que ainda não encontrou forma, porque nem tudo o que continua em nós precisa ser resolvido de imediato, mas em algum momento precisa ser olhado. 

E talvez nem sempre seja sobre apressar esse processo, mas sobre respeitar o tempo que cada experiência precisa para ser compreendida. Porque, mesmo no silêncio, há algo em nós que continua se organizando. 

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Sobre a autora: Isa Ramos



Psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

FOTOGRAFIA: UMA POTÊNCIA CRIATIVA NAS PALMAS DAS MÃOS



Por Ana Paula Batista - DF

Desde seu surgimento como técnica até os dias de hoje, a fotografia passou por muitos saltos tecnológicos, chegando ao momento em que temos um gerador de imagens de alta qualidade nas palmas das mãos. Ter um retrato já foi privilégio para as famílias mais abastadas, mas hoje em dia pode ser possível com a câmera do celular, de maneira muito mais acessível, tanto em termos de custos como de conhecimentos técnicos necessários.

Podemos pensar na fotografia como um recurso, com linguagem própria, para documentar, registrar e preservar memórias. Muitas vezes é difícil distinguir se uma lembrança que temos vem realmente da nossa memória ou de uma fotografia. As fotografias documentam momentos históricos da sociedade (e das nossas vidas), geram desejo quando utilizadas na publicidade, despertam emoções. Dá pra imaginar um mundo sem fotografia?

Para além do seu uso publicitário, artístico, social ou documental, a fotografia pode ser uma poderosa ferramenta para promover saúde mental e autoconhecimento. Somado a isso, considerando a capacidade para produzir imagens e seu fácil acesso, a fotografia torna-se também um recurso expressivo valioso no contexto arteterapêutico.

Quando fotografamos de forma consciente, estamos ancorados e presentes no momento, observando os detalhes e apreciando a beleza que está à nossa volta. Essa prática nos ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, afastando-nos daquelas preocupações excessivas e dos pensamentos negativos que impactam nosso humor e nos colocam em estado de alerta, de defesa. Ao fotografar paisagens, pessoas ou objetos, estamos estabelecendo uma conexão mais profunda com o mundo ao nosso redor, o que nos traz uma sensação de pertencimento.

Se quisermos aprofundar e fazer um mergulho interior, podemos aproveitar esse ato de fotografar e observar internamente os nossos pensamentos e emoções. Ao olhar para nossas próprias fotografias, podemos desenvolver uma consciência mais ampla de nós mesmos, de nossas percepções, de como nos sentimos perante nosso ambiente. Essa prática nos ajuda a nos compreender melhor e a apreciar nossas próprias qualidades, impactando em nossa auto-estima.

Devemos ressaltar também que a fotografia é uma forma de linguagem que nos possibilita expressar aquilo que pensamos ou sentimos. Ao capturar uma imagem, estamos processando nossas experiências internas e dando-lhes um significado mais profundo. Expressar aquilo que se passa em nosso mundo interno é extremamente potente em nossa jornada de autodescoberta. Além de ser uma ferramenta de expressão, a prática da fotografia é uma forma de exercitar a criatividade, tendo em vista que podemos explorar diferentes ângulos e composições para deixar nossas imagens mais atrativas e expressivas.

No setting arteterapêutico, a fotografia traz inúmeras possibilidades de trabalho. Podemos explorar, por exemplo, fotografias do acervo pessoal dos pacientes, colocando-os em contato com lembranças e emoções, com sua autoimagem, com a própria história e com as narrativas construídas em sua vida. Daqui podem surgir colagens, linhas da vida, mandalas, livretos, contos, vídeos, entre outras atividades.

Outra possibilidade é pedir que os pacientes fotografem e aqui abre-se mais um leque de caminhos a serem percorridos. Fotografar pode ser uma forma de expressar aquilo que não é possível em palavras. Um conjunto de fotografias feitas pelos pacientes de forma livre podem trazer informações ricas a respeito de como enxergam o mundo, padrões nos temas, uso da luz, enquadramento, além de possibilitar a produção de símbolos e ampliação de consciência.

Como arteterapeutas, podemos, ainda, encorajar a elaboração de um projeto fotográfico, o que pode incluir um diário. Ter o hábito de fotografar ajuda a reduzir o estresse, tendo em vista que é uma atividade relaxante, divertida, e que coloca a pessoa no tempo presente. Elaborar um projeto ou diário fotográfico pode também exercitar a criatividade e aguçar a sensibilidade para os detalhes da vida que muitas vezes passam despercebidos, tirando o foco dos problemas.

A intenção aqui não é esgotar as possibilidades de trabalho com a fotografia no processo arteterapêutico, mas sim colocar luz nesse recurso tão poderoso e acessível, mas muitas vezes esquecido ou  não explorado em toda a sua riqueza no setting.

 

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Sobre a autora: Ana Paula Batista

 

Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta, especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e em formação clínica em Psicologia Analítica.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

DESENHO DE OBSERVAÇÃO COMO FERRAMENTA PARA A MANUTENÇÃO DO ENVELHECIMENTO ATIVO

 Por Milena Cavalheiro de Siqueira - SP

                O desenho de observação é uma técnica que pode ser utilizada para fazer com que o idoso seja estimulado cognitiva, sensorial e emocionalmente.

            O que é o desenho de observação?

            É uma técnica de desenho, onde há um objeto real que deve ser copiado com o maior número de detalhes possível: cor, luz e sombra, proporção, textura, entre outros. Essa forma de desenhar amplia a percepção visuoespacial, coordenação motora e foco.

                        No desenho de observação, também podemos utilizar fotos, quadros, imagens para que sejam copiadas.

                        Nos trabalhos com os idosos, essa técnica é muito útil, pois, trabalhamos integralmente as funções cognitivas e executivas.

                       

                                                           (Trabalho realizado em abril de 2026)

                       

          Por que trabalhar com o desenho de observação com idosos?

      O trabalho com os idosos requer paciência e repetição. O desenho de observação, proporciona, no momento do seu processo, a observação mais aguçada, auxilia no foco, favorece a percepção visuoespacial e planejamento.

         Ajuda o profissional a avaliar as condições do idoso, ou seja, como ele se comporta ante a esse processo. Se ele realiza planejamento, como trabalha com a  proporção do objeto, se ele consegue reproduzir as cores como elas são, enfim, conseguimos fazer uma avaliação mais assertiva do processo de envelhecimento.

       Com essas considerações, proporcionamos também o processo de envelhecimento ativo, tanto em idosos senescentes, quanto em idosos sênis e que estejam em ILPI’s.

       Com a repetição do exercício, ainda que a cada momento seja feita uma imagem diferente, conseguimos instigar e manter as funções cognitivas, e dependendo do paciente, conseguimos avanços, não só nessa técnica, mas como em outros processos.

       Percebo, que os idosos participantes, antes de iniciarem ‘as suas cópias’, param, analisam, medem, utilizam soluções para falta de ferramenta. A cada processo novo, essas ações são novamente ativadas, para que o desenho se realize.

 

(Trabalho realizado em Abril de 2025)

                       

         Percebo evoluções na questão de foco, resolução de problemas, melhora na percepção visuoespacial e construção de estratégias.

         A realização do desenho de observação, através da repetição acaba fazendo com que o indivíduo se solte e apareçam as habilidades básicas de percepção e coordenação motora.

        Com esse tipo de atividade, conseguimos fazer com que haja liberação da expressão e a capcidade comunicativa aumenta.

    Ampliar a percepção, inclusive a cada atividade proposta, existe o aumento do reconhecimento de detalhes, sejam eles, em cores, formas e até mesmo na disposição no papel.

     Quando a mão ‘enxerga’ o desenho, o objetivo, suas formas, cores e proporções, estamos fazendo com que haja a preservação da plasticidade neural. O processo estímula a pesquisa, a curiosidade e a exploração por elementos novos.

                        O desenho de observação pode ser um instrumento utilizado para o estudo de proporções e morfologias.

                        Ajuda na articulação do olhar, por conta das texturas e cores.

                        O desenho de observação favorece a experiência visual, ampliando a percepção. Com o trabalho dos idosos, ajuda no planejamento, observação das proporções e dimensões.
                        Para nós, profissionais, ajuda a avaliar como estão: a percepção visuoespacial e a praxia ideomotora.

Em relação ao desenho de observação, realizei um estudo de caso, com uma atendida com Parkinson estabilizado e tenho percebido melhora na percepção visuoespacial e coordenação motora.

 


 


(Esse foi o primeiro trabalho da atendida, em 2023)

 

                        O ato de desenhar envolve o pensar através das imagens visuais.

                        O ‘copiar’ o desenho, passa pelo filtro experiencial de quem está desenhando, tornando-se uma ferramenta útil para a resolução de problemas do cotidiano.

                        Mesmo através de um desenho de observação, conseguimos identificar a ‘personalidade’ do indivíduo através dos traços e utilização das cores.

                        O desenho de observação, proporciona ao indivíduo um ‘saber ver’, ver através daquilo que ele está enxergando, observando, percebendo.

                        “Forguieri (1993) enfatiza que o pensamento abrange todas as funções mentais como o entendimento, o raciocínio, a memória, a imaginação, a reflexão, a intuição e a linguagem. E como linguagem e pensamento estão associados e o desenho é um tipo de linguagem, este também está ligado ao pensamento. E como ainda salienta a autora, o desenho não é só representação, mas uma forma de pensar, mesmo que, segundo Gouveia (1998) o desenho seja conceituado e compreendido como uma linguagem intuitiva, bem mais do que reflexiva”.

                        Quando utilizamos o desenho de observação em nossos trabalhos, estamos estimulando a memória, a percepção e a consciência do momento presente. Mesmo aquele indivíduo com comprometimento cognitivo, no momento do desenho, ele se coloca no momento presente, foca no que está fazendo naquele momento.

                        Pode-se complementar com o que diz Piaget (1983, p.251): “a imagem e o aspecto figurativo do pensamento derivam das atividades sensório-motoras, assim como do aspecto operativo do pensamento”.

                       A adaptação é um estado e não um estágio de registro. A percepção é afetada pela seleção do que o indivíduo percebe.

                        “Os processos cognitivos dizem respeito aos processos psicológicos envolvidos no conhecer, compreender, perceber, aprender, etc. Eles fazem referências à forma como o indivíduo lida com os estímulos do mundo externo: como o sujeito vê e percebe como registra as informações e como acrescenta as novas informações aos dados previamente registrados (ALENCAR, 1995, p.24)”.

 


 (Trabalho realizado em julho de 2025)

 

                        Nesse percurso, vejo o desenvolvimento não apenas nos nossos encontros, mas também no cotidiano da atendida. Facilidade em resolucionar problemas, melhora na percepção visuoespacial, praxia ideomotora, elevação de auto-estima e bem-estar.


Referências Bibliográficas 

EDWARDS, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. 2 ed. Rio de Janeiro. Ediouro, 2000.

RAMOS, Geisel. Desenho de Observação. 1 ed. Pernambuco. Intersaberes, 2024.

FRANCISQUETTI, Ana Alice. Arte-Reabilitação. 1 ed. São Paulo. Memnon, 2011.

RIBAS, Gilmar Alfredo. Arteterapia e Parkinson. 1 ed. Paraná. Appris, 2020.

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Sobre a autora: Milena Cavalheiro de Siqueira

 


É atriz, arteterapeuta, estimuladora cognitiva e mestranda em Gerontologia. Trabalha em ILPI’s desde 2017. O trabalho desenvolvido com idosos surgiu de maneira inesperada e apaixonante. Realiza atendimentos em Clínica de transtornos alimentares e já trabalhou em clínica de desospitalização com atendidos de diversas idades, ampliando a sua visão sobre as possibilidades de ampliação no campo da Arteterapia e expansão da criatividade.

É movida pela arte. Adora compartilhar conhecimento.

Atendimentos: individual, em grupos. Hoje facilita grupos de estudo sobre Arteterapia e Envelhecimento.

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

"BATALHA NAS NUVENS" E A FLEXIBILIZAÇÃO DA TRÍADE COGNITIVA

 


"Batalha nas nuvens" Salvador Dali

Por Juliana Mello - RJ

A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha com a identificação de pensamentos, sentimentos e comportamentos, auxiliando na flexibilidade cognitiva, na regulação emocional e em comportamentos mais funcionais, através da aceitação do momento presente, com o compromisso de agir, dentro do que for possível no aqui e agora, na direção do que faça sentido para o paciente/cliente. E, quando nos deparamos com mudanças de ciclos, seja pelo ano novo, aniversário ou um novo momento na vida, é possível perceber inúmeros pensamentos automáticos, que geram emoções desconfortáveis, gerando conflitos internos causados, principalmente, pela ansiedade, pelo medo do novo e dificuldades em aceitar as situações como se apresentam e a dificuldades de agir de maneira funcional.

Como foi o caso da paciente/cliente O., que iniciou dois novos ciclos: um novo ano e seu aniversário, completando 61 anos. Ela apresentava resistência em ter algumas atitudes em relação a sua situação atual, cuidadora da mãe e não conseguia auxílio para ter um tempo e realizar suas coisas pessoais, pois acreditava que era óbvio o que ela sentia e que as pessoas em sua volta tinham que perceber, sem ela expressar sua necessidade e desconforto. Pensamentos rígidos como: “é um abuso eu ter que falar” sempre estavam presente em seu discurso. Além disso, tinha em mente que, na época em que falava o que pensava era vista como a diferente da família, falando que se identifica muito com a música “Ovelha Negra” da Rita Lee, cantora na qual gosta muito. Somando ao quadro, apresentava muita ansiedade ao sair na rua, consequência ainda da pandemia, principalmente em pensar que precisava atravessar a rua.

Com a Terapia Cognitivo-Comportamental, fomos trabalhando o comportamento gradativo para ir à rua e conseguir atravessar, pois foi o objetivo possível a ser trabalhado no momento e, assim, conseguia “a liberdade” para fazer as coisas rápidas e básicas. Fomos criando pequenas estratégias de enfrentamento, como ir a lugares perto e na mesma calçada, até conseguir atravessar. A ansiedade ainda estava presente, mas sentia-se feliz por conseguir atingir o objetivo proposto e, consequentemente, atravessar a rua.

Ao iniciar o ano, também fez aniversário e, pedi que ela trabalhasse cores e formas na escrita da idade dela. Ela desenhou uma casa, colocou elementos dentro e conseguiu expressar que gostaria que esses elementos estivessem também fora da casa. Com isso, sugiram pensamentos como: “O que fazer?”, “Preciso ter noção do que fazer para não me arrepender”, “Queria saber o que tem lá fora”, porém, ao pensar em sair, se sentia culpada. Com isso, pensamentos e sentimentos internos surgiram, mudando o foco de atenção que sempre era no comportamento do outro. Com esta casa e a vontade de passar pela porta, apresentei a imagem “Batalha nas nuvens”, do Salvador Dali. Sobre esta tela, Eliana Moraes escreve:

“Há uma porta em que alguém entra, transforma-se [...] senta-se e, como um filme, começa a revisitar sua biografia, seus conflitos, suas dores, suas batalhas internas. [...] Mas esta porta também é de saída, pois não é saudável que se entre neste lugar, tranque-se a porta e ali se permaneça contemplando as batalhas de forma inócua. Entrar nessa sala significa rever, repensar, ressignificar e se preparar para a vida que continua fora da sala.” (MORAES, Eliana, 2018, p.151)


A paciente O. gostou muito da imagem e com ela novos pensamentos foram surgindo: “Será que precisa brigar para passar?”, “Qual estratégia preciso para passar em segurança?”, gerando receio e medo. Mas também trouxe lembranças (que também é uma forma de pensamento em TCC) de situações em que fez mudanças na vida e que foram positivas. Na sessão seguinte trabalhamos na releitura da imagem, trazendo novos pensamentos e desejos, que antes preferia não pensar. Desenhou duas vezes, pois informou que a primeira ficou muito pequena. Traçamos novos micro passos para esses momentos, de coisas que ela queria fazer e que eram possíveis: cuidar das plantas, fazer a comida que ela gosta e que não estava se permitindo.


 

Nas sessões seguintes passou a falar que a imagem sempre estava na cabeça dela ao precisar tomar alguma decisão, além de ter conseguido conversar com a irmã sobre seus desconfortos, colocar alguns limites. No carnaval conseguiu participar de um bloco e não sentiu medo de morrer no meio da multidão, além de ter conseguido priorizar algumas vontade pessoais para se divertir. Tem voltado a pensar sobre mudar de casa, está aos poucos conseguindo fazer os cortes para sua costura em casa (antes só fazia no ateliê do curso) e conseguiu beber um drink que tanto gosta, sem achar que ia passar mal. Um pensamento que a tenha acompanhado junto a lembrança da tela Batalha nas Nuvens é “Eu vou para a guerra, eu vou conseguir”.

A partir da vivência com técnicas da TCC e da Arteterapia, a paciente O. pode entrar em contato com seus pensamentos e sentimentos difíceis, passando a reconhecer o que a estava paralisando. Aceitou que precisava agir na direção dos seus objetivos, um passo de cada vez, com compaixão consigo mesma, enfrentando seus medos em um processo gradual de flexibilização de pensamentos e, consequentemente, mudanças em seus comportamentos, regulando a intensidade das suas emoções.

 

Bibliografia:

MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia. Semente Editorial: 1ª Edição, ES, 2018.

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Sobre a autora: Juliana Mello



Psicóloga, Arteterapeuta e Coach

Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.

GRUPO DE ESTUDOS: "TCC e técnicas expressivas"

segunda-feira, 6 de abril de 2026

KANDISNKY COMO INSPIRAÇÃO PARA COMPREENDER AS LINHAS DA LONGEVIDADE

 


 

 


composição 8, uma das obras de Kandinsky (1923)

 Por Débora Castro

@deborarteterapia


Trabalhar com o público 60+ utilizando a arteterapia como estímulo cognitivo é um mergulho sensível em histórias, memórias e afetos. Como arteterapeuta conduzindo esse grupo, percebo cada vez mais o quanto esse público merece ser despertado para olhar a própria jornada como linhas em movimento  linhas que contam, silenciosamente, tudo aquilo que viveram.

Inspirada por essa metáfora, em uma das sessões apresentei ao grupo as obras de Kandinsky.

Wassily Kandinsky foi um dos grandes pioneiros da arte abstrata e um artista que enxergava o mundo como um campo vibrante de emoções, sons e movimentos. Para ele, a arte não era apenas forma e cor, mas uma experiência interior  quase espiritual  capaz de tocar aquilo que não se vê, mas se sente.

Kandinsky acreditava que cada linha possui uma energia própria, cada cor carrega uma vibração, e cada composição é como uma música silenciosa que ressoa dentro de quem observa. Sua obra rompeu com a necessidade de representar o mundo de maneira figurativa e abriu espaço para que a arte se tornasse expressão pura do movimento da alma.

Em seus estudos, ele descrevia a linha como resultado de uma força: uma linha reta nasce de uma força única e direta; já as linhas curvas, onduladas ou espirais surgem quando diferentes forças se encontram, se chocam ou se harmonizam. Essa visão poética da linha como trajetória, impulso e transformação faz de Kandinsky um artista profundamente conectado à ideia de vida em movimento.

Ao olhar suas obras, percebemos que nada é estático. Tudo pulsa. Tudo se desloca. Tudo se transforma. Suas composições são convites para perceber o mundo interno, para reconhecer que nossas histórias também são feitas de curvas inesperadas, desvios, retomadas e cores que mudam com o tempo.

Por isso, Kandinsky dialoga tão bem com processos terapêuticos: ele nos lembra que a vida não precisa caber em formas rígidas. Ela pode ser fluida, vibrante, livre  como uma linha que se permite existir no papel sem pedir permissão para ser o que é.

Depois da apresentação do artista e suas obras, quis provocar o olhar e o sentir, então lancei a pergunta: “Nossa vida é uma linha reta?” 

Em sintonia, o grupo respondeu que não que a vida é feita de curvas, ondulações, espirais, desvios e retomadas. Cada fase, disseram, merece ser observada e valorizada.

A partir dessa reflexão, propus que cada participante criasse, a partir da linha inicial do próprio nome, um movimento livre pela folha, sem a preocupação de formar algo figurativo. Apenas deixar a linha existir. Depois, convidei-os a preencher os espaços vazios com novas formas, permitindo que a composição revelasse o movimento da própria vida  um fluxo vibrante, colorido e cheio de significado.            


                      



O resultado foi mais do que um exercício artístico: foi um encontro com a própria trajetória, com a beleza do que se transforma e continua pulsando.

                         


Ao final da atividade, no momento do compartilhamento, cada participante foi convidado a realizar uma escrita criativa sobre a própria linha da vida. Em seguida, cada um observou sua composição a partir de vários ângulos, percebendo que, assim como no desenho podemos enxergar diferentes imagens dependendo da perspectiva, também na vida podemos olhar cada movimento da linha, cada gesto e cada fase com novos significados.

Essa mudança de olhar permitiu ao grupo compreender que a vida não é fixa nem única: ela se revela de formas diversas conforme nos reposicionamos diante dela. Ao explorar essas perspectivas, cada participante pôde valorizar sua trajetória e reconhecer a potência de ressignificar experiências, entendendo que cada curva, cada espaço e cada cor fazem parte do fluxo vivo e contínuo da própria existência.

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Sobre a autora: Débora Castro




Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.