Por Juliana Mello - RJ
No setting o convite é observar
sua história e, aos poucos, identificar os pensamentos que limitam e trazem barreiras
que impedem a viver experiências funcionais, em várias e/ou todas as áreas da
vida, afetando a autoestimas, as relações interpessoais e o alcance de
objetivos. São como pesos que nos impedem de seguir em frente.
O trabalho terapêutico auxilia a
identificar pensamentos automáticos, reconhecer crenças centrais e
intermediárias, avaliar evidências, identificar pensamentos alternativos e
alcançar a flexibilidade cognitiva.
Identificar pensamentos, em seus
níveis cognitivos, muitas vezes não são fáceis. Como escrevi no blog em
16/09/2019, temos três níveis de cognição: Consciente, Sub-consciente Cognitivo
e o Inconsciente Cognitivo. As crenças estão “guardadas” em nosso Inconsciente
Cognitivo e através do RPD (registros de pensamentos disfuncionais), do
questionamento socrático e da identificação dos padrões de funcionamento, é
possível identificar as crenças e flexibilizá-las, de forma gradativa, através
de comportamentos mais simples para os mais complexos e com a construção de
pensamentos alternativos.
Porém, em muitas situações, o
paciente/cliente apresenta resistência em identificar ou perceber essas
crenças, por ser um hábito que faz parte de si de forma muito profunda e, mesmo
de forma inconsciente, ele pode não se perceber sem suas pedras, precisando
ressignificar, com compaixão e cuidado, o seu próprio eu: “Não foi um
trabalho fácil. Muitos se recusavam a doar suas pedras, afinal eram parte
deles. No começo doavam só as pedrinhas, depois vieram as maiores.” (p.24)
Então, nestes casos, como é
possível auxiliar no desbloqueio das crenças? Através da Arteterapia.
(https://nao-palavra.blogspot.com/2019/09/niveis-cognitivos-e-caixa-do-eu.html)
Como a Arteterapia Auxilia na
identificação das crenças?
A linguagem simbólica traz para o
setting a forma como lidamos com as nossas pedras, muitas vezes sem nem
percebermos, já que são hábitos.
A atividade consiste em pedir que o paciente/cliente escolha uma pedra, do tamanho que desejar. No presencial é oferecido pedras de diferentes tamanhos e formas, no online é solicitado que traga uma pedra para a sessão. No caso do online, é explicado que a pedra precisa ser de um tamanho que possa ser manuseada, sendo uma representação simbólica da crença. Com a pedra, é importante ter um papel, preferencialmente A3 e material de desenho.
Empurrando a pedra, o paciente cliente irá rabiscando linhas no papel, sempre mantendo o lápis encostado na pedra, orientado a ir percebendo como se sente e que pensamentos vão surgindo durante a atividade.
A paciente A, antes de começar, pensou que iria ser muito difícil. O primeiro pensamento foi: “não vou conseguir”, mas ao começar percebeu que era mais fácil do que imaginava e a atividade ficou mais leve e divertida. Conseguiu identificar que na vida sempre paralisa antes de tentar algo novo, pelo medo de não dar certo e “perde” bastante tempo ruminando o medo. A paciente J começou empurrando a pedrinha devagar para ter mais controle, mas foi percebendo que a mesma sempre girava. Relatou que a pedrinha sempre girava e ao falar veio o pensamento “estou sempre rodando em círculos e isso me faz sentir que as coisas nunca vão mudar”. Apesar de sempre expressar que tem essa sensação, relatou que, com a atividade, parece que ficou mais claro e ficou repetindo “Estou andando em círculos”.
Ao finalizar, foi pedido que observassem as linhas e
encontrassem formas, abstratas ou concretas.
A paciente A encontrou um elefante e um pássaro, disse que eram opostos. Descreveu o elefante com as palavras peso, força e lentidão. O pássaro tem leveza e pode voar. Resistiu, mas ao conversarmos sobre a imagem e olhando para ela, disse que não queria, mas precisava desenhar a pedra na tromba do elefante. Ao refletir sobre isso, disse que os dois estão indo em alguma direção, segurando a pedra ou não, porém o elefante encontra muito mais dificuldades.
A paciente J encontrou uma mulher
de costas, com um fantasma próximo dela, que ela definiu como os pensamentos
que ficam rondando a cabeça dela e paralisando. Suas crenças estão presentes e
entende o que precisa fazer, mas seus pensamentos a paralisam. Continuando
olhando a imagem, identificou um pé, que não encosta na mulher e disse que se
sentiu muito reflexiva, pois para ela ficou claro que suas crenças a distanciam
de seguir seus projetos. Tem a sensação de que o caminho está ali, mas está de
costas para ele com o fantasma falando em seu ouvido.
Ambos os processos terapêuticos
continuam em andamento.
Com a tomada de consciência das
crenças limitantes, é possível entender o padrão de funcionamento e trabalhar
em estratégias que vão auxiliar na flexibilidade cognitiva. Em muitos casos,
não é possível mudar o contexto, mas é possível aceitar ele, não de forma
passiva, mas de forma ativa, com o compromisso de fazer diferente o que é
possível e o que está dentro de suas próprias escolhas, ressignificando
experiências e a si próprio.
“E foi assim que a
Cidade dos carregadores de pedras cresceu e se transformou numa metrópole, com
pessoas mais leves e felizes, livres de suas pedras.” (p. 26)
Bibliografia
BRANCO, Sandra. A cidade dos carregadores de pedras. 1ª
Edição. Editora Cortez, 2010.
LUCENA-SANTOS, Paola; PINTO-GOUVEIA, José; OLIVEIRA, Margareth
da Silva. Terapia Comportamentais de Terceira Geração: guia para profissionais.
Novo Hamburgo: Editora Sinopsys, 2015.
Níveis cognitivos e a caixa do eu. Disponível em https://nao-palavra.blogspot.com/2019/09/niveis-cognitivos-e-caixa-do-eu.html Acesso em 08/06/2026
O que são crenças limitantes: como mudar. Disponível em https://portaldopsicologo.com.br/o-que-sao-crencas-limitantes-como-mudar/
Acesso em 08/06/2026
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Sobre a autora: Juliana Mello
Psicóloga, Arteterapeuta e Coach











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