segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ATELIÊ EMOÇÕES COM ADOLESCENTES NO CONTEXTO ESCOLAR: RELATO DE VIVÊNCIA EM ARTETERAPIA

 

Em meados do primeiro semestre de 2026, a coordenadora pedagógica da Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, localizada no Bairro Jaqueline, em Belo Horizonte,  fez contato em busca de vivências criativas que pudessem contribuir para o desenvolvimento emocional dos alunos do ensino fundamental, anos finais, vinculados ao tempo integral. 

Ao iniciar diálogo, ela disse que havia visualizado uma postagem em rede social sobre o Projeto “Ateliê de Emoções: Jornada para Adolescentes”, de minha autoria, desenvolvido em parceria com diferentes espaços da região metropolitana. Segundo a coordenadora, o caixa da instituição contava com uma verba para atividades extracurriculares, como palestras e oficinas.

 

Elaborei uma proposta comercial, após reunião de alinhamento com a gestão. Desta maneira, definimos:

 

Tema: Bullying e Comunicação Não Violenta

Serviço: Oficinas Expressivas

Número de participantes: 60, distribuídos em 4 grupos de 15 adolescentes

Carga horária: 90 minutos por grupo/vivências

Idade: A partir de 12 anos

Turno: tarde

Horário: das 13:30 às 17:00

Datas: 11/08 e 13/08/2026 

Além das oficinas expressivas, o pacote de vivências incluiria a realização de uma palestra interativa, com o mesmo tema, para os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no turno da noite, com carga horária de duas horas.


Figura 1: Fachada da Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, Belo Horizonte, 2026.

Alguns ajustes se fizeram necessários, como a ampliação da faixa etária, ao incluir alunos mais novos, de 10 e 11 anos. Para tanto,  o número de participantes foi reduzido e fez mais sentido para a escola formar 2 grupos ao invés de 4. 

Deste modo, a carga horária passaria a ser de 3 horas para cada agrupamento,  realizadas em duas tardes. 

Plano de Trabalho 

O planejamento das vivências foi estruturado com antecedência,  esses foram os disparadores para as vivências criativas do primeiro dia: 

Acolhimento e exercício de atenção plena (potes aromáticos, escolher 1 potinho e dizer seu  nome e descrever o cheiro que sentiu); em seguida, contextuação sobre reconhecimento e nomeação de sentimentos com o suporte do livro Emocionário – diga o que você sente, de Cristina Núñez Pereira e Rafael Valcárce.

A nomeação espontânea ocorreria de acordo com a dinâmica da Caixa de Emoções, que consistia em cada adolescente tirar da caixinha um papel com uma emoção escrita e do seu jeito tentaria dizer como o corpo fica quando sente “a emoção sorteada”. Após isso, aconteceria a vivência expressiva com o Scrapbook, com o disparador “escolha dois sentimentos entre as sorteados e expresse como eles afetam a sua vida hoje”.

Dentro da caixinha constariam 15 papéis com 1 sentimento escrito em cada um deles, sendo:

Figura 2: Relação de palavras da Caixa de sentimentos, 2026.

Após a composição, ocorreria a partilha e fechamento, que se daria com uma palavra  dita por cada participante sobre a tarde vivenciada. 

Como o trabalho aconteceu?

Dia 11/08/2026 – Grupo Amarelo (12 a 14 anos)


 Figura 3: Figura 3: Registro meu em frente a uma das mesas de materiais, 11/08/2026.

Cheguei à escola sozinha, pois seria a única responsável pela execução das vivências, pude observar que a instituição é ampla, limpa e bem cuidada. Estudei a vida toda em escola pública, e ao olhar para a Municipal Acadêmico Vivaldi senti nostalgia, e ao mesmo tempo lembranças de agressões que sofri no ambiente escolar vieram à tona, mas foquei no trabalho que conduziria. 

A biblioteca da escola foi reservada para o desenvolvimento dos trabalhos em grupo. Nela havia mesas amplas e cadeiras suficientes para acomodar os grupos. Levei diversos materiais criativos,  materiais criativos, pois parti do princípio de que esses recursos poderiam me auxiliar no contato e vínculo com os adolescentes.

Recebi os participante próximo à porta, direcionei-os até a primeira mesa, para uma breve sondagem. A intenção era saber como chegavam para o encontro, pedi a eles que usassem pinos magnéticos numa estrutura composta por guarda-chuvas em diferentes posições, a ideia era relacionar a posição do guarda-chuva escolhido por cada pessoa com a disposição deles a experiência.

Figura 4: Sondagem para o Encontro - Como Chego?

Após isso, pedi que sentassem. Notei que ficaram bem próximos, exceto um participante preferiu ocupar uma mesa sozinho, e  posicionado longe dos demais. Perguntei o nome dele e o convidei para ficar mais perto, ele preferiu ficar onde estava, respeitei a escolha dele e iniciei a jornada com o grupo. 

Iniciamos, então, o exercício de atenção plena. Peguei 3 potinhos aromatizados, continham algodão embebidos por gotas de óleos essenciais de lavanda, hortelã pimenta e canela com cravo, respectivamente.

Expliquei a proposta, ao pegar um pote, o participante diria o nome e a idade, após isso, poderia cheirar o frasco aberto. Depois responderia “Que cheiro é esse? “O que achou do aroma? 

Assim, fizemos. As reações geraram risos e comentários como, “nu, que cheiro de pasta de dente”, “esse tem cheiro de shampoo de criança”, “já sei, parece desinfetante, aquele roxinho que colocam no banheiro”, “que cheiro ruim, nossa senhora, muito ruim”, “ah, eu gostei desse cheiro, esse aqui não é ruim”. Foram interações espontâneas que favoreceram a abertura do grupo. Procurei deixar fluir, estavam envolvidos, notei que foram fisgados pelo sensorial, isso me deixou segura de que estava no caminho certo com eles, ao menos naquele momento! 

Em seguida, houve um breve momento expositivo sobre bullying, esclareci sobre sinais de alerta e que além da agressão física, há também a psicológica e a material. Citei exemplos e alguns participantes complementaram, “deixar a pessoa excluída também é bullying, né?”, uma menina disse, “professora, jogar as coisas dos outros no chão é bullying também, odeio isso”. 

Nesse momento, um menino se irritou com ela, a chamou de chata. Ela respondeu, “fica na sua aí, não te chamei na conversa”. Agora as risadas não agregavam, ela ficou constrangida. Eu pedi que fizessem silêncio, pois ainda iríamos usar os materiais que estavam na mesa para criar. Mas  que antes, teria mais uma prática. 

Procurei conduzir as práticas seguindo o roteiro, porém, flexibilizei em alguns momentos para deixar os estudantes à vontade. Demos início à Caixa de Emoções. Cada um retirou dela um papel e leu o sentimento que estava escrito nele, em seguida dizia “como fica o nosso corpo quando a gente sente essa emoção?” Caso tivessem dúvidas sobre a palavra, procuraríamos no Emocionário, livro físico. 

Palavras como inveja, admiração, raiva, satisfação foram sorteadas uma a uma, e quando um colega tinha dificuldade em expressar o que sabia sobre o sentimento sorteado, imediatamente alguém levantava a mão e dizia, “pode ajudar, professora?”. Foi um momento importante para o grupo, pois houve escuta, mesmo com alguns momentos de animação e descontração.

 A palavra raiva foi a que mais trouxe participação e exemplos. “Quando estou com raiva, a minha cabeça fica quente”, “Tem hora que a raiva vem e dá vontade de bater, de socar alguém”, “e tem hora que dá raiva e medo junto”, “Nossa, eu até choro de raiva”, disse uma participante. 

Outro sentimento que gerou interação foi inveja, “quando a gente quer o que é de outra pessoa”, “ e também quando a gente quer ser igual ou melhor”. Provoquei sutilmente, vocês acham que é possível ter sentimentos diferentes sobre uma mesma situação? 

Foram rápidos na resposta, SIM!!!! 

Indaguei, então: - E o que a gente pode fazer para controlar as emoções, não deixar elas dominarem a gente? 

“Respirar fundo”, “tomar água”, “sair andando”, “esfriar a cabeça, parar de pensar nisso”, “sei lá, professora, dá vontade de gritar”. 

Em seguida, falei para o grupo que tem jeito de acalmar a mente, que sim, respirar fundo pode ajudar, que cada pessoa encontra um jeito de se acalmar e controlar as emoções quando elas vem muito fortes. 

Recolhi a Caixa de Emoções e os papéis e eles precisavam sair para comer uma fruta, e depois retornariam sem demora, pois ao retornarem, daríamos início à vivência expressiva com Scrapbook. Aproveitei a breve ausência deles para pegar centenas de adesivos, comprei muitos e com diferentes temáticas, mas optei por não colocá-los à vista desde o começo, para não gerar distrações. 

Ao retornarem, notaram os adesivos sobre a mesa e correram até ela, eu pedi que somente olhassem, por enquanto. Pois dois a dois iriam escolher seus adesivos e pegar os materiais para a composição do Scrapbook. Expliquei de forma rápida sobre a forma de usar os recursos disponíveis e o tempo para a produção criativa, 30 minutos. Eles ficaram muito animados. 

Em seguida, orientei sobre os disparadores para a criação, “aqui está uma lista com os 15 sentimentos que conhecemos melhor hoje, você pode escolher 2 deles, aqueles que você sente com mais frequência aqui  na escola. Não se preocupe com julgamentos, escolha 2 sentimentos e use os materiais para expressar sobre eles. Vou repetir”. 

No começo houve certo alvoroço, aqueles que eram mais próximos queriam mostrar os adesivos e papéis que haviam escolhido, mas pedi a eles que cada um se concentrasse na sua criação, que era um momento pessoal. E aos poucos, os ruídos diminuíram, alertei a eles sobre o tempo. 

Sentimentos como tristeza, medo e raiva apareceram em muitas obras. E surgiu um comentário espontâneo, “nó, que alívio. Cê volta que dia, professora?”, eu sorri e respondi, na quinta tem mais. Aproveitei para sinalizar a eles que faltava 5 minutos para concluírem a prática expressiva. Alguns já estavam finalizando, mas 4 ou 5 pessoas ainda estavam em processo de composição.

Figura 5: Registro de composição em Scrapbook,  codinome “Aluno solitário”. 11/08/2026.

Aquele participante que havia se sentado sozinho estava bastante engajado, destacou a palavra “raiva” num papel laminado vermelho, com uma coroa sobre ela, escreveu também o sentimento “tristeza”em silêncio fez sua composição. Fui até ele e observei um pouco o que estava fazendo, ele disse, “eu não quero mostrar para ninguém, professora”. 

Respondi que tudo bem, a partilha não seria obrigatória. Contudo, ele quis mostrar ao final, não falou mas disponibilizou a criação. 

Estendi o tempo um pouco mais para que todos pudessem concluir, avisei a eles que em 5 minutos iríamos finalizar e convesar sobre as criações. Contudo, uma participante ficou visivelmente tensa e irritada, perguntei a ela se estava tudo bem, ela disse, “ah, não, já tá acabando e eu nem terminei direito”. Reclamou.

Perguntei o que ela gostaria de colocar a mais na criação, ela respondeu, “ah, só mais um adesivo. Aguenta aí prof”, risos na sala. 

Então, contive os ânimos e avisei que a vivência tinha chegado ao fim, restava 7 minutos para o trabalho com o Grupo Amarelo ser concluído. Tínhamos pouco tempo para a partilha e fechamento, então orientei a eles que quem quisesse poderia mostrar a sua criação e falar de forma breve sobre ela. 

Um participante disse, “eu coloquei ansiedade, fico muito ansioso quando tem competição e isso me irrita”. “Eu coloquei tristeza, quando falam que fiz uma coisa e não é verdade, eu fico muito triste”. Outras duas pessoas falaram sobre raiva “sinto é ódio,  raiva é pouco, tem gente que fala da mãe dos outros e isso me dá ódio”, disse um participante que interagiu pouco, mas esteve atento e fez todas as atividades,  eu não penso direito,  e depois sinto culpa, fico arrependida e já é tarde”.  

Outro destacou os sentimentos “vergonha” e “orgulho”. E fez uma espécie de cartão com duas mensagens para si mesmo, “não fique com vergonha” e “não fique orgulhoso”, no sentido de prepotência. A composição me chamou atenção, segue:

 Figura 6: Composição em Scrapbook, 11/08/2026.

 Teci uma fala rápida sobre a importância da gente reconhecer o que está sentindo, e de dar nome ao que sente, pois esse é o primeiro passo para aprendermos a controlar emoções que são difíceis de lidar. Agradeci pela confiança. Recolhi os trabalhos. Já não havia mais tempo, combinei com eles que traria as produções na quinta-feira e que se desejassem, poderíamos falar mais sobre elas. 

Recebi abraços tímidos, ganhei uma bala goma, alguns agradeceram e se ofereceram para ajudar a organizar a sala. Os dispensei. Saíram falantes, exceto o menino que havia sentado sozinho, ele se retirou assim que recolhi seu trabalho, e me avisou que às quintas ele treina, que não pode faltar, logo, não viria ao próximo encontro. 

Bem, o relato desse grupo ficou maior do que imaginei, pois mesmo com roteiro em mãos, flexibilizei, me ajustei, cedi e considerei importante ouvi-los, observá-los e ser suporte para o que precisassem. 

O que aprendi com a primeira experiência do Ateliê de Emoções na escola pública? 

Tomo emprestado a frase “por trás de todo comportamento há uma necessidade” palavras de Marshall Rosenberg , quando me refiro a adolescentes, o afeto e a atenção podem gerar aproximação, abertura e vínculo. Degrau a degrau. 

Uma participante, de forma espontânea expressou frases direcionadas a mim, em sua sacola ecológica, no segundo dia. 

Acolhi a atitude dela como reconhecimento de um vínculo. Mas pensei, “ela vai usar mesmo essa sacola? Talvez guarde como objeto de afeto!” 

As vivências foram estruturadas e planejadas com cuidado, no entanto, fiz adaptações movida pela frase, “isso não vai funcionar agora”. Pude perceber que permitir que o grupo viva o presente e se perceba é muito importante para oferecer  uma escuta verdadeira em vivências sensibilizadoras. 

Registro aqui duas pergunta que me motivam  a desenvolver trabalhos grupais: 

Dado o contexto, qual experiência criativa pode fazer sentido para que os participantes façam uma jornada em conjunto? 

Que percurso pode ajudar as pessoas a perceberem, com cuidado, o que está acontecendo dentro delas? 

Aproveito para agradecer à Escola Municipal Acadêmico Vivaldi Moreira, em especial à coordenadora Ana Paula pela iniciativa do contato, confiança e abertura, e à curadoria do Blog, por me conceder espaço para relatar um fragmento deste potente trabalho!



 Figura 7: Menção afetiva sobre mim na produção criativa de uma participante, 13/08/2026.


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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

IDEIAS A COSTURAR PARA NOVAS HISTÓRIAS CONTAR



Por Annamaria Bruno Riscarolli  -  RJ

@tessituradoser


Agradeço a oportunidade de tecer mais essa escrita com vocês. Escrever é ação que ainda não sei bem de onde começa, se pelo pensamento ou sentimento ou tudo ao mesmo tempo das conexões com o meu cotidiano. Mas uma coisa é certa: sempre é uma alegria poder compartilhar minhas ideias, multiplicar inspirações! Gosto de sentir que a minha escrita nasce quando registro no papel as palavras que estão em meu o coração.

Recebi o convite para contribuir com o blog justamente quando estava arrumando meu ateliê, revendo leituras, materiais e atividades, com o objetivo de desenvolver um novo projeto de trabalho arteterapêutico que versasse sobre história de vida, afetos, ancestralidade e artesania como conteúdos principais.



Durante a tal arrumação encontrei uma boneca, dos meus tempos de infância, e então, lembrei dos afetos, tão presentes em nossas vidas. Naquele momento o meu próprio sentir encontrou abrigo para a saudade. E foi assim, a partir da bonequinha, que aquele novo projeto de trabalho ganhou corpo e alma: a costura de bonecas de pano.

E por que a costura? Porque o projeto deveria ser desenvolvido com uma técnica facilitadora do fazer artístico que conectasse temas relativos à memória, transformação, ressignificação. Essa arte manual, a costura, dialoga e favorece o processo de criação e feitura com as mãos, envolvendo as etapas de experimentação, inventividade durante a vivência, trazendo a expressão da identidade do participante de forma lúdica. Daí a escolha.

O ato de costurar é uma prática ancestral que envolve desde reparos simples até a criação de roupas complexas. Isso muito se assemelha ao processo de autoconhecimento. Costurar e se conhecer são processos que exigem paciência, atenção aos detalhes e disposição para lidar com imperfeições.

Facilitar a costura de bonecas de pano é conjugar delicadeza e ludicidade ao processo de autoconhecimento. Cada ponto, cada tecido escolhido, cada detalhe bordado é uma forma de dar vida a algo que nasce das mãos e da imaginação visando a uma ressignificação. Mais do que simples brinquedos, as bonecas nesse projeto de trabalho simbolizaram: maternagem, abrigo, carinho, amor, dedicação de quem produziu, além de contarem muitas histórias. Os resultados   foram gratificantes, e gostaria de dividir alguns deles com vocês.

 


 Atividade do Projeto EntreSaberes em 05/2026 - Edição 02 online

 

 


Atividade em grupo realizada em 05/2026 presencialmente
no Espaço Tessitura do Ser – Tijuca (RJ)

 

Costurar é tecer,

alinhar o caminho

criar possibilidades.

Assim, brincando vou...

Poeticamente estou,

a refrescar sentimentos

do meu viver.

Onde, o sentir

Abrigo encontrou!

Por Annamaria Bruno Riscarolli

 

 

Aula GEPAM - Ateliê da Longevidade II – 04/2026



Sugestão para Leitura

A Arte de Restaurar Histórias – O diálogo criativo no caminho pessoal
Autora: Jean Clarck Juliano – Suumus Editorial


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Sobre a autora: Annamaria Bruno Riscarolli 



Bacharel em Publicidade e Propaganda
Arte-educadora social
Arteterapeuta e pós-graduada em Arteterapia em Educação e Saúde
Facilitadora de Biodanza
Focalizadora de Dança Circular
Facilitadora Biocêntrica
Professora de Oficina de Artes em curso de Pós-graduação de Arteterapia
Professora de Expressão Corporal/ Dança em cursos de formação em Arteterapia
Pós-graduada em Psicologia Clínica
Coordenadora do Espaço Tessitura do Ser ( @tessituradoser )

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O PROCESSO CRIATIVO TAMBÉM PODE CUIDAR DA SAÚDE MENTAL




Por Isa Ramos – RJ 

@psicologaisaramos 

Site:www.psicologaisaramos.com.br


Vivemos em uma sociedade que valoriza produtividade, resultados e desempenho. Em meio às inúmeras responsabilidades do cotidiano, é comum deixarmos pouco espaço para atividades que despertam prazer, criatividade e conexão consigo mesmo. Aos poucos, desenhar, pintar, escrever, modelar, fotografar, bordar ou simplesmente criar algo passam a ser vistos como hobbies sem importância ou até mesmo como perda de tempo. No entanto, sob a perspectiva da Psicologia, o processo criativo pode representar muito mais do que um momento de lazer. Ele pode favorecer o autoconhecimento, a expressão emocional e o cuidado com a saúde mental. 

Quando pensamos em criatividade, muitas pessoas acreditam que ela pertence apenas aos artistas. Essa ideia faz com que inúmeras pessoas se afastem de qualquer atividade artística por acreditarem que "não levam jeito", "não sabem desenhar" ou "não têm talento". Entretanto, criatividade não está relacionada apenas à produção de obras de arte. Ela faz parte da capacidade humana de imaginar, experimentar, transformar e encontrar novas formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. 

A criatividade está presente quando escrevemos um diário, reorganizamos um ambiente, escolhemos as cores de uma pintura, cultivamos um jardim, montamos um álbum de fotografias ou criamos uma receita diferente. Ela também aparece quando buscamos soluções para problemas cotidianos, quando desenvolvemos novas perspectivas diante de uma dificuldade ou quando nos permitimos experimentar algo pela primeira vez. Em outras palavras, criar faz parte da experiência humana. 

Sob o olhar da Psicologia, atividades criativas favorecem uma pausa importante na rotina. Durante esse processo, nossa atenção tende a se voltar para aquilo que está sendo construído naquele momento. Aos poucos, diminuímos o ritmo acelerado dos pensamentos automáticos e ampliamos nossa capacidade de perceber emoções, sensações corporais e experiências internas que muitas vezes passam despercebidas em meio à correria do dia a dia. 

Isso não significa que a criatividade tenha a função de eliminar o sofrimento emocional ou substituir tratamentos psicológicos. Significa reconhecer que momentos de criação podem favorecer estados de maior presença, organização emocional e bem-estar. Muitas pessoas relatam sentir uma sensação de tranquilidade enquanto desenham, pintam, escrevem ou realizam trabalhos manuais. Outras descrevem que conseguem compreender melhor aquilo que estão sentindo depois de transformar suas emoções em alguma forma de expressão. 

Outro aspecto importante está relacionado ao perfeccionismo. Vivemos em uma cultura que frequentemente nos ensina que tudo precisa ficar impecável. Desde cedo aprendemos a buscar aprovação, evitar erros e produzir resultados considerados corretos. Esse padrão também aparece nas atividades criativas. Quantas vezes deixamos de desenhar porque acreditamos que o desenho não ficará bonito? Quantas pessoas abandonam a pintura, a escrita ou qualquer outra atividade artística por medo do julgamento? 

Na prática clínica, é comum encontrar pessoas extremamente críticas consigo mesmas. Muitas acreditam que só vale a pena fazer algo quando conseguem executar perfeitamente. Essa forma de pensar costuma gerar ansiedade, insegurança e frustração constante. Quando isso acontece, até mesmo atividades prazerosas deixam de existir, pois passam a ser avaliadas apenas pelo resultado final.

Permitir-se criar sem a obrigação de produzir algo perfeito pode representar um importante exercício de flexibilização desses padrões. O foco deixa de ser a performance e passa a ser a experiência vivida. Aos poucos, a pessoa aprende que não precisa alcançar um resultado impecável para encontrar significado naquilo que faz. 

Sob essa perspectiva, o processo criativo pode fortalecer recursos importantes para a saúde mental, como a tolerância ao erro, a aceitação, a curiosidade, a espontaneidade e o contato consigo mesmo. Esses aspectos também são frequentemente trabalhados durante o processo psicoterapêutico, especialmente quando buscamos compreender padrões rígidos de pensamento e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar os desafios da vida. 

É justamente nesse ponto que Psicologia e Arteterapia estabelecem um diálogo muito interessante. Embora sejam áreas distintas, ambas reconhecem a importância da expressão emocional para o desenvolvimento humano. 

A Psicologia oferece um espaço de escuta, acolhimento e construção de estratégias para compreender pensamentos, emoções e comportamentos. A Arteterapia, por sua vez, utiliza recursos expressivos como desenho, pintura, modelagem, colagem, escrita, música e outras linguagens artísticas como instrumentos que favorecem o processo de expressão, elaboração emocional e autoconhecimento. 

É importante compreender que a Arteterapia possui fundamentos próprios e formação específica. Seu objetivo não é ensinar técnicas artísticas, mas utilizar o processo criativo como ferramenta terapêutica dentro de uma abordagem estruturada e conduzida por um profissional habilitado. Da mesma forma, a Psicologia possui métodos, referenciais teóricos e objetivos específicos voltados para a promoção da saúde mental. 

Ao reconhecer as contribuições de cada área, percebemos que elas não competem entre si. Pelo contrário, podem dialogar de maneira complementar, sempre respeitando os limites éticos e técnicos de cada profissão. 

Além disso, tanto a Psicologia quanto a Arteterapia compreendem que muitas experiências internas nem sempre encontram palavras imediatamente. Existem emoções difíceis de nomear, lembranças que permanecem guardadas por muito tempo e sentimentos que ainda não conseguem ser organizados em um discurso claro. Em determinadas situações, a linguagem simbólica pode facilitar esse contato inicial com aquilo que ainda não conseguimos explicar racionalmente. 

Não se trata de interpretar um desenho ou atribuir significados universais às produções artísticas. Trata-se de reconhecer que diferentes formas de expressão podem favorecer o contato com experiências internas, permitindo que cada pessoa construa seus próprios sentidos a partir daquilo que cria. 

Outro benefício frequentemente observado nas atividades criativas está relacionado à sensação de presença. Quando estamos totalmente envolvidos em uma pintura, em um bordado ou em uma escrita espontânea, nossa atenção tende a permanecer no momento atual. Esse movimento pode reduzir a intensidade das preocupações constantes e favorecer um estado de maior tranquilidade. 

Esse aspecto tem sido amplamente estudado por diferentes áreas da saúde, que reconhecem a importância de atividades capazes de interromper temporariamente ciclos de pensamentos repetitivos e preocupações excessivas. Embora isso não substitua o tratamento psicológico quando necessário, pode representar um recurso valioso de autocuidado. 

Reservar alguns minutos da semana para criar algo também significa reservar um tempo para si. Em uma rotina marcada por cobranças externas, esse momento pode representar uma oportunidade de desacelerar, observar as próprias emoções e desenvolver uma relação mais gentil consigo mesmo. 

Não importa se o desenho ficará bonito, se a pintura seguirá uma técnica específica ou se o artesanato ficará perfeito. O verdadeiro valor está na experiência, no processo e na possibilidade de permitir-se criar sem medo do julgamento. 

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que existem situações em que apenas atividades criativas não são suficientes para lidar com o sofrimento emocional. Quando sintomas de ansiedade, tristeza persistente, alterações do sono, dificuldades nos relacionamentos ou qualquer outro sofrimento começam a comprometer a qualidade de vida, buscar acompanhamento profissional torna-se um passo importante. 

A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender essas experiências, fortalecer recursos internos e desenvolver estratégias de enfrentamento. Da mesma forma, a Arteterapia pode representar um caminho significativo para pessoas que desejam ampliar o contato com suas emoções por meio da expressão criativa, sempre respeitando a atuação específica de cada profissional. 

Cuidar da saúde mental não significa apenas buscar ajuda quando o sofrimento já está instalado. Significa também cultivar hábitos que favoreçam equilíbrio, bem-estar e conexão consigo mesmo. Entre esses hábitos, permitir-se criar ocupa um lugar especial. Criar não exige talento. Não exige perfeição. Não exige aprovação. 

Exige apenas disponibilidade para experimentar. 

Talvez o maior presente do processo criativo não seja aquilo que produzimos, mas aquilo que descobrimos sobre nós mesmos enquanto criamos. E, muitas vezes, esse pode ser um dos primeiros passos para uma relação mais acolhedora com a própria história, com as próprias emoções e com a própria saúde mental. 

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 Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

QUANDO A SOMBRA ENTRA EM QUADRO: A FOTOGRAFIA COMO LINGUAGEM DE ENCONTRO COM O INCONSCIENTE

 


Por Ana Paula Batista – DF

@anabatista.arteterapia

 

Apontada no outro e negada em si mesmo, a sombra em algum momento vai aparecer, provavelmente de maneira alheia à nossa vontade. Como diz Kast (2022), “ o que vale na natureza vale também para a personalidade: nós iluminamos determinados aspectos nossos para que eles sejam vistos e, assim, outros aspectos nossos passam a ficar na sombra.” (pag. 9) 

O encontro com a sombra é muitas vezes temido por representar um contato com o desconhecido. A sombra une conteúdos reprimidos, bem como características não desenvolvidas ou que não tiveram espaço de expressão na consciência. No meio desse conteúdo escondido podem estar nossos tesouros, assim como resta a esperança no fundo da caixa, após os males do mundo serem libertados por Pandora. Resumindo, como bem dizem Zafalon & Zandonay (2026), a sombra não é formada apenas pela maldade e impulsos  destrutivos, mas também é composta por potencialidades prontas para desenvolvimento, instintos positivos e atitudes criadoras. 

A integração da sombra ao eu, ao torná-la consciente e aceita, nos aproxima da nossa totalidade. Então, possibilitar que os conteúdos da sombra tenham expressão na consciência, dentro daquilo que é possível, faz parte do processo de individuação na perspectiva da psicologia analítica e esse movimento estará presente no setting arteterapêutico. Não podemos fugir dela. 

A sombra na fotografia 



A fotografia, também conhecida como “desenho ou pintura com a luz”, é uma linguagem que trata diretamente com as polaridades luz e sombra. Sem luz não há fotografia. Simples assim, pois a luz é sua essência. 

Tecnicamente, lidamos com diferentes tipos de luz, ressaltando que não há uma luz melhor ou pior do que outra, mas apenas características distintas. O tipo de luz é melhor definido pela sombra que ela produz. Para cada fonte de luz, uma sombra é gerada, que pode ser dura e bem definida (quando temos uma luz direta) ou suave (quando há uma luz difusa). 

O que pode ser mais interessante para nós em nossa prática arteterapêutica é entender que a sombra, para além do oposto da luz, é um dos elementos da linguagem fotográfica, fazendo parte da composição, ou seja, um elemento que pode deixar uma imagem muito mais rica e atraente. 

Essa metáfora da sombra na fotografia pode ser uma ponte para abordarmos o tema com nossos clientes. Da mesma forma que a sombra em uma fotografia pode trazer beleza, curiosidade e mistério, a sombra em nossa psique pode nos revelar riquezas e potências não conhecidas ou não desenvolvidas. 

Aqui peço licença e abro parênteses para um relato pessoal. 

Trabalhei como fotógrafa profissional por 15 anos. Em boa parte desse período, eu fugia das sombras. Literalmente. Buscava nos ensaios fotográficos imagens bem iluminadas, clarinhas. Amava fotografar em dias nublados, pois dava menos sombra nas fotos. Marcava as sessões para o fim do dia, como é comum para quem trabalha com luz natural, mas não somente pela qualidade e beleza da luz, mas principalmente pelo medo de que sombras muito marcadas aparecessem. Simbólico também, não?

 Em um outro momento, avançando na linha do tempo, após alguns acontecimentos em minha vida tive que encarar meus fantasmas. Voltei a fazer terapia e, nesse processo, espiar minha sombra. Notei que a transformação que acontecia internamente também estava refletida no meu trabalho. Foi nesse ensaio que a ficha caiu e eu pude ver a minha transformação materializada em fotografias. 

Já deixo aqui um convite… dê uma olhada nas suas fotos do rolo da câmera do celular. Você percebe as sombras? O que elas te provocam? 

No setting arteterapêutico, como podemos explorar a sombra nos apoiando na fotografia como linguagem expressiva? 



Olhar para a forma como as sombras aparecem nas fotografias do cliente como um estímulo para reflexões sobre o tema é uma possibilidade, entre muitas, de utilizar a fotografia como recurso expressivo para o trabalho com a sombra. O que está iluminado? O que permanece invisível? O que ficou de fora do quadro? 

Outras possibilidades abrangem pedir para que o cliente, em sua rotina, fotografe aquilo que evitaria olhar ou passaria sem perceber. Ou ainda, que fotografe cenas ou objetos que representem o que é incômodo, o que rejeita, o que tem vergonha de mostrar. As imagens produzidas abrem espaço para o diálogo, para o contato com símbolos, bem como para a criação de narrativas, tudo isso possibilitando para nosso cliente olhar para sua própria história e, no seu tempo, ir espiando seus conteúdos mais sombrios, ampliando sua consciência. 

Você já experimentou alguma outra ideia com fotografia para trabalhar a sombra? Vou adorar saber!

 

Referências 

KAST, Verena. A sombra em nós: a força vital subversiva. Petrópolis: Vozes, 2022. 

ZAFALON, Giovana de Campos. ZANDONAY, Cristiano. O mito da caixa de Pandora: uma metáfora para o encontro com o sombrio e o potencial da esperança. Revista DELOS, Curitiba, v. 19, n. 76, p. 1 - 19, jan. 2026. Disponível em: <https://doi.org/10.55905/rdelosv19.n76-099>. Acesso em: 22 jul. 2026.

 

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Sobre a autora: Ana Paula Batista

 


Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta, especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e atualmente em formação clínica em Psicologia Analítica.

@anabatista.arteterapia

Site: https://www.anapaulabatista.com.br/


segunda-feira, 13 de julho de 2026

ATIVIDADE DE ARTETERAPIA: EXPLORANDO TEXTURAS E MEMÓRIAS AFETIVAS

 

Por Anderson Amaral, Adriana Limeira do Nascimento, Talyta Gisllyane da Silva - CE

Introdução

A estimulação multissensorial desempenha um papel fundamental ao longo de todo o ciclo da vida, sendo especialmente relevante durante o processo de envelhecimento. O processamento sensorial constitui uma função essencial do sistema nervoso, permitindo que o indivíduo receba, interprete e responda adequadamente aos estímulos provenientes do ambiente. Com o avanço da idade, alterações fisiológicas podem comprometer a eficiência desse processamento, impactando habilidades relacionadas à atenção, memória, orientação, comunicação e interação com o meio. Esse cenário torna-se ainda mais significativo entre idosos que convivem com comprometimento cognitivo ou diferentes formas de demência, uma vez que as dificuldades no processamento das informações sensoriais podem intensificar limitações funcionais e reduzir a participação em atividades cotidianas. Nesse contexto, intervenções que estimulam simultaneamente diferentes sentidos, como tato, visão, audição e olfato, configuram-se como estratégias importantes para promover o engajamento, favorecer a evocação de memórias, estimular funções cognitivas preservadas e contribuir para o bem-estar emocional e a qualidade de vida dessa população (MANEEMAI et al., 2024).

Entre as estratégias utilizadas nesse contexto, destaca-se a arteterapia, que integra experiências sensoriais, cognitivas e emocionais por meio de atividades criativas e expressivas. Essa abordagem favorece a ativação de diferentes circuitos neurais e pode contribuir para a manutenção das funções cerebrais ao longo do envelhecimento. Estudos apontam que a arteterapia pode beneficiar tanto idosos saudáveis quanto aqueles com comprometimento cognitivo leve ou em estágios iniciais da doença de Alzheimer, estimulando capacidades como atenção, memória, linguagem, planejamento e expressão emocional (SOUZA; GOMES; MORAES, 2022).

Objetivo

Relatar uma atividade de arteterapia voltada à estimulação tátil e à evocação de memórias afetivas, realizada com pessoas idosas, utilizando diferentes grãos presentes no cotidiano como recurso terapêutico e expressivo.

Participantes

Participaram da atividade oito idosas residentes em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), com idades variando entre 70 e 90 anos. As participantes apresentavam comprometimento cognitivo leve e diferentes níveis de limitação funcional decorrentes do processo de envelhecimento. Algumas eram usuárias de cadeira de rodas, enquanto outras apresentavam dificuldades de mobilidade e dependência parcial para a realização de determinadas atividades do cotidiano.

Todas as etapas foram adaptadas às necessidades e capacidades individuais das participantes, respeitando seu ritmo, limitações e potencialidades, garantindo um ambiente acolhedor, seguro e inclusivo.

Materiais e Método

Foram utilizadas quatro caixas sensoriais opacas com abertura para exploração tátil, contendo arroz, feijão, milho e cuscuz (flocos de milho). Também foram utilizados cola e uma folha de atividade dividida em quatro quadrantes identificados com os respectivos grãos.


      Feijão / Arroz
Cusvuz / milho

A proposta foi desenvolvida em três etapas: exploração sensorial tátil, compartilhamento de experiências e produção artística. Inicialmente, os participantes exploraram os materiais sem visualizá-los, utilizando apenas o tato para tentar identificar os grãos. Em seguida, os materiais foram revelados e utilizados como estímulo para diálogo e evocação de memórias. Por fim, os participantes realizaram uma atividade artística de colagem utilizando os próprios grãos.

Relato da Experiência

A atividade teve início com a apresentação das caixas sensoriais ao grupo. A proposta de descobrir o conteúdo das caixas utilizando apenas o tato despertou curiosidade, expectativa e entusiasmo entre os participantes. Para muitos idosos, tratava-se de uma experiência nova, capaz de despertar interesse e promover envolvimento desde os primeiros momentos.

Antes da exploração sensorial, foi realizado um breve momento de acolhimento e relaxamento em grupo, favorecendo a concentração e preparando os participantes para a vivência. Em seguida, cada idoso foi convidado a inserir as mãos nas caixas e explorar livremente os materiais, observando características como textura, formato, tamanho e consistência, com o objetivo de identificar qual grão estava presente em cada recipiente.

 


        


Observou-se que o arroz, o feijão e o milho foram facilmente reconhecidos pela maioria dos participantes, provavelmente por fazerem parte de seu cotidiano alimentar e apresentarem texturas bastante características. O cuscuz, entretanto, despertou maior curiosidade e gerou mais dúvidas. Alguns idosos associaram sua textura a diferentes tipos de farinha, demonstrando como a percepção sensorial está intimamente relacionada às experiências individuais construídas ao longo da vida.

As tentativas de identificação foram acompanhadas por sorrisos, risadas e comentários espontâneos, criando um ambiente acolhedor e descontraído. A cada descoberta, percebia-se o aumento do engajamento e da curiosidade dos participantes, que compartilhavam hipóteses, comparavam sensações e buscavam validar suas percepções junto aos colegas. Esse momento favoreceu não apenas a estimulação tátil, mas também a interação social, a comunicação e a participação ativa do grupo.

Após a revelação dos materiais presentes nas caixas, iniciou-se um rico momento de diálogo e compartilhamento de experiências. Os diferentes grãos despertaram inúmeras memórias afetivas relacionadas ao preparo de comidas típicas, receitas tradicionais e vivências familiares. Muitos participantes recordaram refeições preparadas por mães e avós, almoços em família, encontros festivos e hábitos alimentares característicos de suas comunidades.

O cuscuz, o feijão e o arroz, por estarem fortemente presentes na cultura alimentar dos participantes, evocaram lembranças carregadas de significado emocional. Alguns idosos compartilharam histórias da infância, da vida no campo e de momentos vividos ao lado de familiares. As narrativas revelaram recordações de cuidado, união, pertencimento e afeto, permitindo que experiências positivas do passado fossem revisitadas e valorizadas.

Além de favorecer a socialização e a troca de experiências, a atividade possibilitou a ressignificação de lembranças e trajetórias de vida. Ao compartilharem suas histórias, os participantes encontraram um espaço de valorização de suas experiências, saberes e memórias, fortalecendo sua identidade e senso de pertencimento.

Na etapa seguinte, cada participante recebeu uma folha dividida em quatro quadrantes identificados com os nomes dos respectivos grãos. Utilizando cola, os idosos realizaram a colagem do feijão, milho, arroz e cuscuz nos espaços correspondentes, construindo uma composição artística baseada na experiência sensorial vivenciada anteriormente.

    







Essa produção artística estimulou a coordenação motora fina, a atenção, a organização visuoespacial e a criatividade, além de reforçar o reconhecimento dos materiais explorados durante a atividade.

Discussão

A experiência evidenciou o potencial da estimulação multissensorial associada à arteterapia como estratégia para promover o engajamento cognitivo, motor, afetivo e social de pessoas idosas. A exploração tátil dos materiais favoreceu a atenção, percepção, memória, associação de textura e formas, a discriminação sensorial e a curiosidade, enquanto os momentos de diálogo possibilitaram a evocação de memórias autobiográficas e afetivas.

Os relatos compartilhados demonstraram que estímulos simples do cotidiano podem funcionar como importantes gatilhos para a recuperação de lembranças significativas, fortalecendo a identidade pessoal estimulando recordações relacionadas à cultura alimentar, às tradições familiares e às experiências de vida, contribuindo para o bem-estar emocional. Além disso, a atividade artística permitiu transformar essas experiências em uma produção concreta, favorecendo a expressão criativa e a valorização das vivências individuais.

Considerações Finais

A experiência demonstrou que elementos simples do cotidiano podem se transformar em importantes recursos terapêuticos quando associados à estimulação sensorial, estimulação cognitiva e à arteterapia. A atividade promoveu momentos significativos de descoberta, interação, criatividade e resgate de memórias afetivas, contribuindo para o bem-estar emocional, a participação social e o fortalecimento dos vínculos entre os participantes.

Mais do que identificar texturas ou realizar uma produção artística, os idosos tiveram a oportunidade de revisitar histórias, compartilhar experiências e atribuir novos significados às suas trajetórias de vida. Dessa forma, a atividade reafirmou o potencial da arteterapia como estratégia de promoção da saúde, humanização do cuidado e valorização da pessoa idosa.

 

 

Referência

MANEEMAI, O. et al. Sensory Integration: A Novel Approach for Healthy Ageing and Dementia Management. Brain Sciences, Basel, v. 14, n. 3, p. 285, 2024. DOI: 10.3390/brainsci14030285

SOUZA, L.B.R.; GOMES, Y.C.; MORAES, M.G.G.. The impacts of visual Art Therapy for elderly with Neurocognitive disorder: a systematic review. Dementia & Neuropsychologia, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 8-18, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2021-0042

 

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Sobre os autores:

 Anderson Amaral 



Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro. Mestre em Tecnologia no Espaço Hospitalar, Pós-graduação em Neurociência com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em Reabilitação Cognitiva. Arteterapeuta do Instituto Amantino Câmara. Autor dos Livros Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora; Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora

 Adriana Limeira do Nascimento 



Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduação em Saúde Menta, Pós-graduação em Saúde Pública e Brinquedista pela ABBri – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo e do livro Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora

 Talyta Gisllyane da Silva



 Graduada em Psicomotricidade, Discente de Terapia Ocupacional, Pós-graduada em TEA e TGD e Pós-graduada em ABA.