Por Ana Paula Batista – DF
@anabatista.arteterapia
Apontada no outro e negada em si mesmo, a sombra em algum momento vai aparecer, provavelmente de maneira alheia à nossa vontade. Como diz Kast (2022), “ o que vale na natureza vale também para a personalidade: nós iluminamos determinados aspectos nossos para que eles sejam vistos e, assim, outros aspectos nossos passam a ficar na sombra.” (pag. 9)
O encontro com a sombra é muitas vezes temido por representar um contato com o desconhecido. A sombra une conteúdos reprimidos, bem como características não desenvolvidas ou que não tiveram espaço de expressão na consciência. No meio desse conteúdo escondido podem estar nossos tesouros, assim como resta a esperança no fundo da caixa, após os males do mundo serem libertados por Pandora. Resumindo, como bem dizem Zafalon & Zandonay (2026), a sombra não é formada apenas pela maldade e impulsos destrutivos, mas também é composta por potencialidades prontas para desenvolvimento, instintos positivos e atitudes criadoras.
A integração da sombra ao eu, ao torná-la consciente e aceita, nos aproxima da nossa totalidade. Então, possibilitar que os conteúdos da sombra tenham expressão na consciência, dentro daquilo que é possível, faz parte do processo de individuação na perspectiva da psicologia analítica e esse movimento estará presente no setting arteterapêutico. Não podemos fugir dela.
A sombra na fotografia
A fotografia, também conhecida como “desenho ou pintura com a luz”, é uma linguagem que trata diretamente com as polaridades luz e sombra. Sem luz não há fotografia. Simples assim, pois a luz é sua essência.
Tecnicamente, lidamos com diferentes tipos de luz, ressaltando que não há uma luz melhor ou pior do que outra, mas apenas características distintas. O tipo de luz é melhor definido pela sombra que ela produz. Para cada fonte de luz, uma sombra é gerada, que pode ser dura e bem definida (quando temos uma luz direta) ou suave (quando há uma luz difusa).
O que pode ser mais interessante para nós em nossa prática arteterapêutica é entender que a sombra, para além do oposto da luz, é um dos elementos da linguagem fotográfica, fazendo parte da composição, ou seja, um elemento que pode deixar uma imagem muito mais rica e atraente.
Essa metáfora da sombra na fotografia pode ser uma ponte para abordarmos o tema com nossos clientes. Da mesma forma que a sombra em uma fotografia pode trazer beleza, curiosidade e mistério, a sombra em nossa psique pode nos revelar riquezas e potências não conhecidas ou não desenvolvidas.
Aqui peço licença e abro parênteses para um relato pessoal.
Trabalhei como fotógrafa profissional por 15 anos. Em boa parte desse
período, eu fugia das sombras. Literalmente. Buscava nos ensaios fotográficos
imagens bem iluminadas, clarinhas. Amava fotografar em dias nublados, pois dava
menos sombra nas fotos. Marcava as sessões para o fim do dia, como é comum para
quem trabalha com luz natural, mas não somente pela qualidade e beleza da luz,
mas principalmente pelo medo de que sombras muito marcadas aparecessem.
Simbólico também, não?
Já deixo aqui um convite… dê uma olhada nas suas fotos do rolo da câmera do celular. Você percebe as sombras? O que elas te provocam?
No setting arteterapêutico, como podemos explorar a sombra nos apoiando na fotografia como linguagem expressiva?
Olhar para a forma como as sombras aparecem nas fotografias do cliente como um estímulo para reflexões sobre o tema é uma possibilidade, entre muitas, de utilizar a fotografia como recurso expressivo para o trabalho com a sombra. O que está iluminado? O que permanece invisível? O que ficou de fora do quadro?
Outras possibilidades abrangem pedir para que o cliente, em sua rotina, fotografe aquilo que evitaria olhar ou passaria sem perceber. Ou ainda, que fotografe cenas ou objetos que representem o que é incômodo, o que rejeita, o que tem vergonha de mostrar. As imagens produzidas abrem espaço para o diálogo, para o contato com símbolos, bem como para a criação de narrativas, tudo isso possibilitando para nosso cliente olhar para sua própria história e, no seu tempo, ir espiando seus conteúdos mais sombrios, ampliando sua consciência.
Você já experimentou alguma outra ideia com fotografia para trabalhar a
sombra? Vou adorar saber!
Referências
KAST, Verena. A sombra em nós: a força vital subversiva. Petrópolis: Vozes, 2022.
ZAFALON, Giovana de Campos. ZANDONAY, Cristiano. O mito da caixa de
Pandora: uma metáfora para o encontro com o sombrio e o potencial da esperança.
Revista DELOS, Curitiba, v. 19, n. 76, p. 1 - 19, jan. 2026. Disponível
em: <https://doi.org/10.55905/rdelosv19.n76-099>. Acesso em: 22 jul. 2026.
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Sobre a autora: Ana Paula Batista
Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta,
especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e atualmente em formação clínica
em Psicologia Analítica.
@anabatista.arteterapia
Site: https://www.anapaulabatista.com.br/




























