segunda-feira, 23 de março de 2026

ARTETERAPIA: Uma ponte para transformação da realidade

 

Por Annamaria Bruno Riscarolli  - RJ

O objetivo deste texto é ajudar a compreender a função da Arteterapia ao utilizar o desenho expressivo no ateliê terapêutico. A Arteterapia é um campo de estudos interdisciplinares que integram saberes estéticos e psicológicos em benefício da saúde mental e da expressão humana.

A história da arte fornece repertórios culturais e contextos que enriquecem a prática, enquanto o alfabeto visual da arte (ponto, linha, formas, cores) oferece uma linguagem própria para a expressão subjetiva. A psicologia, por sua vez, dá sentido às manifestações criativas, permitindo que o processo artístico se torne um espaço de autoconhecimento, elaboração emocional e reconstrução de significados.

Ponte com saberes estéticos: repertório cultural simbólico

O desenho acompanha a humanidade desde seus primórdios, evoluindo de registros rudimentares para uma técnica sofisticada de comunicação e criação.

Na pré-história, o desenho esteve presente para narrar caçadas, rituais e experiências do dia a dia. No Egito, os desenhos e hieróglifos em tumbas e templos auxiliavam a relatar a vida cotidiana e crenças sobre o pós-vida. Na Antiguidade Clássica, Grécia e Roma utilizavam a técnica do desenho para representações mitológicas e arquitetônicas, com foco em proporção e harmonia. Já na Idade Média, o desenho era coligado com a arte sacra, seja para elaborar as construções, seja para propagação das narrativas e dogmas religiosos.

É a partir do Renascimento que o desenho ascende ao status de disciplina fundamental nas artes. Essa promoção se dá através do conceito de disegno, termo italiano que engloba tanto “desenho” quanto “projeto” ou “concepção intelectual”, passando do simples exercício técnico para tornar-se base de toda a produção artística, quer dizer, da concepção da ideia à materialização da obra em pintura, escultura ou arquitetura. Como representantes bem conhecidos desse movimento temos Leonardo da Vinci e Michelangelo, cada um com sua maneira singular de registrar os primeiros pensamentos, esboços rápidos e iniciais da ideia que se pretendia materializar. Eram os primi pensieri ou seja, desenhar os primeiros pensamentos enquanto forma de conceber ideias. Eles utilizaram o desenho como técnica de estudo para desenvolver ciência, arte, arquitetura, quer dizer, vale entender o desenho enquanto recurso para explorar alternativas e testar composições, refletindo o realismo da época.

Numa breve análise dentro do alfabeto visual da arte, a linha é considerada “o ponto em movimento”, sendo o elemento básico e mais versátil da comunicação visual, representando a “voz” do artista no papel. Ao longo da história, a linha pode assumir uma grande diversidade expressiva, indo além da descrição das formas. A partir da linha podem ser representadas emoções, sentimentos, pensamentos. Podemos então olhar para a linha como um reflexo da mentalidade de cada época.

Assim, no desenho, a linha é mais do que um simples traço. Pode-se dizer que a linha possui um “temperamento”. Por exemplo: no Renascimento, a linha é vista como estrutura, um mapa de localização; já no Barroco, é gesto e força de pura emoção.

Arteterapia enquanto ponte: mediadora de sentidos

Ao promover o encontro com artistas de diversas épocas e movimentos culturais, a Arteterapia faz com que o participante conheça diferentes técnicas e linguagens artísticas, amplie seu repertório cultural e utilize diversos materiais expressivos para exercitar sua capacidade criativa. Progressivamente, o participante vai entrando em contato consigo mesmo, expressando sua subjetividade e favorecendo seu processo de desenvolvimento humano.

Lembro-me que ainda estava no curso de formação em Arteterapia quando ouvi esta inspiração: “Uma linha é um ponto que saiu para passear”, de Paul Klee. Logo me senti encantada! Uma metáfora tão poética, lúdica, capaz de poder transformar uma história de vida, e que certamente na época revolucionou todo o contexto de pensamento visual. É esse encantamento que me motiva a multiplicar as minhas propostas de trabalhos, sejam nas aulas em cursos de formação, seja em meus atendimentos.

Dentro do alfabeto visual da arte, o ponto e a linha são os elementos mais simples, afinal podemos dizer que a composição plástica começa a partir desses elementos. É nessa mesma simplicidade que encontro beleza no processo terapêutico: uma travessia delicada, onde terapeuta e cliente tecem juntos uma ponte de sentidos. Nesse encontro, revisitamos memórias da infância e da adolescência — singelas em aparência, mas com raízes profundas que se entrelaçam na vida adulta e na velhice. São camadas dinâmicas e subjetivas, muitas vezes silenciosas que moldam o curso do comportamento humano.

 No ateliê terapêutico: ponte para transformação

“Pretendo convidar VOCÊ a se aventurar na história de uma linha curiosa, além de incentivar a usá-la sem restrições. Confie em sua imaginação, criatividade, e principalmente no uso com materiais simples, como lápis e papel, para traçar linhas e se divertir, abandonando o medo da folha em branco, da ideia do não saber desenhar e do não saber escrever uma boa história para sua vida.”

O trabalho arteterapêutico promove o aumento da energia criativa, liberando os participantes dos conceitos de certo e errado, feio e bonito, e de crenças limitantes, diminuindo as pressões sociais e trazendo maior qualidade de vida aos atendidos.

Citar Paul Klee é confiar na função da arte, isto é, tornar visível, através do desenho, o que está escondido (sentimentos, sonhos). A função do desenho será promover uma aproximação com mundo interno do participante. A linha deixará de ser somente um veículo para representação externa para se tornar vivência terapêutica.

Levar a linha para passear é ganhar autonomia, uma vez que se pretende estimular a vivência do passeio, da jornada.

A história da linha curiosa

Era uma vez uma linha que foi passear. Ela saiu do caderno, deslizou pela mesa e, curiosa, começou a explorar o mundo....

Primeiro encontrou um círculo, que a convidou para dançar em voltas infinitas. Depois cruzou com uma árvore, e resolveu se enrolar nos galhos, virando um balanço para os passarinhos. Mais adiante, mergulhou no rio e se transformou em onda, brincando de ser água. Até que chegou a um castelo, onde se desenhou em escadas, ajudando os moradores a subir até as torres. No fim do passeio, a linha percebeu que podia ser qualquer coisa: caminho, ponte, sorriso, ou até estrela no céu. E assim, feliz, voltou para o caderno, levando consigo todas as aventuras que viveu.

Agora é com VOCÊ! Que história você quer desenhar e escrever? Se quiser me contar vou gostar bastante. Aguardo sua partilha, gratidão!

 

Título: O movimento dos sentimentos opostos

 

 

                                                                     Título: Rota

Escrita criativa: Eu levei a minha reta para passear e descobri que nem toda reta é segura, que nem todo plano é certeiro e que tem beleza nas curvas.

O objetivo de destino é mais importante do que a rota escolhida e, não importa qual linha vou seguir, o importante é aproveitar o caminho sem perder o ponto de chegada de vista.

 

Bibliografia:

Materiais de arte : sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico – Eveline Carrano e Maria Helena Requião – Wak Editora

Arteterapia e História da Arte – Técnicas expressivas e terapêuticas - Marcia Barreira e Naila Brasil - Wak Editora

Criatividade e Cérebro – um jeito de fazer Arte Zen – Celeste Carneiro - Wak Editora

 

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Sobre a autora: Annamaria Bruno Riscarolli  - UBAAT 01/159/1004

 


Bacharel em Publicidade e Propaganda
Arte-educadora social
Arteterapeuta e pós-graduada em Arteterapia em Educação e Saúde
Facilitadora de Biodanza
Focalizadora de Dança Circular
Facilitadora Biocêntrica
Professora de Oficina de Artes em curso de Pós-graduação de Arteterapia
Professora de Expressão Corporal/ Dança em cursos de formação em Arteterapia
Especialista em Psicologia Clínica
Coordenadora do Espaço Tessitura do Ser ( @tessituradoser )

segunda-feira, 16 de março de 2026

ARTE EM MOVIMENTO: EXPRESSÃO ABSTRATA E ESTIMULAÇÃO COGNITIVA EM IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS

 

Por Adriana Limeira do Nascimento e Anderson Amaral - CE

A atividade de arteterapia realizada na Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) em Mossoró Rio Grande do Norte teve como proposta promover uma experiência criativa capaz de estimular percepção, cognição e expressão emocional por meio da arte. Inspirada em elementos do expressionismo abstrato, a atividade buscou aproximar as participantes de uma linguagem artística livre, na qual formas, linhas e cores ganham significado a partir da interpretação individual.

Como referência estética e conceitual, utilizou-se o universo artístico de Jackson Pollock, cuja obra é marcada por movimentos espontâneos, linhas dinâmicas e composições não figurativas. Esse tipo de expressão artística convida o observador a interagir com a imagem de forma intuitiva, estimulando a imaginação, a percepção visual e a liberdade criativa.  Em suas obras, a tela torna-se um espaço de movimento, energia e espontaneidade, onde cores e linhas revelam emoções e percepções subjetivas. Essa percepção de liberdade criativa também norteou a atividade desenvolvida com as idosas, incentivando cada participante a explorar as cores e os espaços do desenho de forma livre, sem padrões rígidos, valorizando a expressão individual, a criatividade e o prazer no processo artístico (KILIÇ; DEDE, 2024).

A criatividade é um dos maiores legados do ser humano. Na velhice ela representa um exemplo poderoso do que ainda é possível realizar ao longo do processo de envelhecimento. Embora a criatividade sempre esteja presente nessa fase da vida, muitas pessoas deixam de reconhecê-la ou desenvolvê-la porque, por muito tempo, a própria sociedade negou, trivializou ou desvalorizou o potencial criativo associado ao avançar da idade (KILGORE, 2024).

A proposta da oficina partiu da ideia de que a arte pode funcionar como um espaço de experimentação sensível e criativo, no qual o idoso é convidado não apenas a executar uma tarefa, mas a explorar formas de sentir, escolher e criar, ressignificando experiências e fortalecendo sua expressão subjetiva.

Materiais Utilizados

Para a realização da atividade foram utilizados desenhos compostos por múltiplos traços pretos abstratos, formando diversos espaços em branco entre as linhas. Esses traços criavam áreas delimitadas que convidavam as participantes a observar os formatos e decidir como preencher cada espaço com cores.

 


Desenho elaborado no site GPT

Para o processo de pintura foram utilizadas canetinhas coloridas do tipo Bobby Book, frequentemente utilizadas em atividades de colorir. A escolha desse material teve duas razões principais. A primeira foi a intensidade das cores, que se destacam com maior vivacidade sobre os traços pretos do desenho, criando um contraste visual mais marcante e valorizando as produções artísticas realizadas pelas participantes.

A segunda razão refere-se às condições motoras frequentemente presentes no envelhecimento. Muitos idosos apresentam diminuição da força de preensão e menor pressão exercida pelos dedos, o que pode dificultar o uso de lápis de cor, que exigem maior pressão para produzir pigmentação adequada. As canetinhas, por exigirem menor esforço de pressão, facilitam o processo de pintura, tornando a atividade mais acessível, confortável e inclusiva.

Dessa forma, a escolha do material buscou não apenas favorecer o resultado visual da atividade, mas também adaptar a proposta às características motoras das participantes, promovendo maior autonomia durante a execução.

Desenvolvimento da Atividade

Cada idosa recebeu uma folha contendo o desenho com os traços pretos e os espaços em branco. Inicialmente, foram convidadas a observar atentamente as linhas e os espaços formados entre elas, percebendo diferentes formas e possibilidades de preenchimento.

Em seguida, utilizando as canetinhas coloridas, as participantes foram orientadas a preencher livremente os espaços delimitados, escolhendo as cores e a forma de colorir de acordo com sua preferência. Não havia uma regra estética definida; cada pessoa poderia explorar combinações de cores, contrastes e padrões de forma espontânea.


 

Durante o processo, foi possível observar que a atividade mobilizava diferentes funções cognitivas e motoras. O ato de escolher cores, delimitar os espaços e organizar o preenchimento exigia atenção visual, coordenação motora fina, percepção espacial e tomada de decisão.

Além disso, a atividade proporcionou um ambiente de tranquilidade e concentração, favorecendo momentos de envolvimento criativo e expressão pessoal.

Sentido Simbólico da Atividade

A proposta da oficina também trouxe uma dimensão simbólica importante. O desenho inicial apresentava espaços vazios entre os traços pretos, e a atividade convidava as participantes a preencher esses vazios com cores.

Esse gesto simples de colorir tornou-se uma metáfora delicada sobre a própria experiência de vida. Assim como no papel, onde áreas em branco aguardavam intervenção, a atividade sugeria a possibilidade de ressignificar os “vazios” da vida, dando cor e sentido a espaços que antes pareciam silenciosos.

Nesse contexto, colorir os intervalos entre o preto e o branco transformou-se em um gesto simbólico de criação e reconstrução. Cada escolha de cor representava uma forma de expressão pessoal, permitindo que as participantes transformassem linhas abstratas em produções únicas e significativas.

Benefícios Observados

Durante a realização da atividade foi possível observar diversos aspectos positivos entre as participantes. A proposta favoreceu o engajamento e a participação ativa, estimulando a curiosidade e o interesse pela tarefa.

Também foram percebidos momentos de concentração, relaxamento e satisfação, especialmente quando as idosas observavam o resultado final de suas produções. O compartilhamento das pinturas entre as participantes também estimulou conversas e comentários, fortalecendo a interação social.

Além disso, a atividade contribuiu para a estimulação cognitiva, envolvendo processos como atenção, percepção visual, planejamento e tomada de decisão, bem como para o exercício da coordenação motora fina.


 

Considerações Finais

A experiência mostrou que propostas simples de arteterapia, inspiradas na arte moderna e adaptadas às condições motoras e cognitivas dos idosos, podem contribuir significativamente para a estimulação cognitiva, emocional e social de pessoas idosas institucionalizadas.

Mais do que uma atividade de colorir, a oficina tornou-se um momento de expressão criativa, reflexão e encontro. Ao transformar os espaços em branco do papel em campos de cor, cada participante também pôde experimentar a possibilidade de dar novos significados a seus próprios espaços internos, reafirmando que a criatividade e a expressão continuam presentes em todas as fases da vida.

 

Referência

KILIÇ, A.G.; DEDE, B.. Unlimited freedom in art: Jackson Pollock. Journal for the Interdisciplinary Art and Education, v. 5, n. 1, p. 67-76, 2024.

KILGORE, Christine. Supporting nursing homes during a pandemic: lessons from a quality improvement collaborative. Caring for the Ages, v. 24, n. 4, p. 8, 2024.


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Sobre os autores:



Adriana Limeira do Nascimento: Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduada em Saúde Mental, Pós-graduada em Saúde Pública e Brinquedista Hospitalar – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

 

 


Anderson Amaral: Arteterapeuta, Mestre em Saúde e Tecnologia, Pós-graduação em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia com ênfase em Reabilitação Cognitiva, Pós-graduação em Neurociência e Longevidade, Coordenador do Projeto NeuroGeriatria (Faculdade de Medicina UNIG). Autor dos Livros Jogos Cognitivos um olhar multidisciplinar; Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

segunda-feira, 9 de março de 2026

ARTE DOS SENTIDOS: ESTIMULAÇÃO SENSORIAL E REABILITAÇÃO COGNITIVA PARA IDOSOS

 

A proposta da vivência Arte dos Sentidos nasce do desejo de ir além das atividades tradicionais oferecidas a idosos com declínio cognitivo. Em vez de focar apenas em jogos ou exercícios mentais convencionais, optou-se por uma abordagem arteterapêutica sensorial, afetiva e centrada na pessoa. A ideia foi criar experiências que tocassem o corpo, a memória e a emoção ao mesmo tempo, permitindo que a arte deixasse de ser apenas algo para se ver e passasse a ser algo para sentir, lembrar e viver.

Nesse caminho, utilizamos o conceito de nutrição imagética, entendendo a arte como um alimento simbólico para o cérebro. Imagens, cheiros, sabores e texturas passam a nutrir funções cognitivas, emocionais e relacionais. Assim, uma pintura deixa de ser apenas contemplada e passa a provocar lembranças, afetos e histórias. Essa perspectiva dialoga com experiências como o programa Meet Me at MoMA, do Museu de Arte Moderna de Nova York, que convida pessoas com demência leve e seus cuidadores a observar e conversar sobre obras de arte, promovendo integração social, estímulo cognitivo e consciência sobre o envelhecimento com demência (YIet al., 2024).

Além disso, sabe-se que atividades que envolvem os sentidos, o movimento e o pensamento são fundamentais para proteger o intelecto e reduzir a deterioração cognitiva na velhice. A arteterapia, nesse contexto, mostra-se uma ferramenta potente de promoção da saúde, pois favorece autoestima, melhora cognição, as relações sociais e qualidade de vida (JARDIM et al., 2020).

A vivência Arte dos Sentidos foi realizada com idosas institucionalizados, com idades entre 75 e 90 anos, todos com baixa capacidade funcional e sinais de declínio cognitivo leve. A proposta não era estimular apenas sentidos isolados, mas criar experiências significativas que pudessem acessar estimular, memórias, emoções e formas de expressão de maneira respeitosa, criativa, acessível e sensível.

A arteterapia, enquanto campo integrador, permite acessar conteúdos internos que muitas vezes permanecem silenciosos no cotidiano do idoso institucionalizado. Por meio da arte, cada participante é convidado a sentir, lembrar, refletir, interagir e criar não apenas fazer uma atividade, mas viver e experimentar algo que tenha sentido e significado.

Objetivos da Vivência

  • Promover a nutrição imagética com obras ligadas ao cotidiano e às lembranças afetivas.
  • Estimular de forma integrada os sentidos: visão, tato, olfato e paladar.
  • Favorecer atenção, percepção e memória.
  • Incentivar a expressão emocional e narrativa.
  • Fortalecer vínculos afetivos por meio da partilha e da simbolização.

Materiais Utilizados

  • Quatro imagens de natureza-morta inspiradas em Paul Cézanne (banana, maçã, café e temperos) geradas pela IA Gemini
  • Pedaços de maçã e banana para degustação.
  • Pó de café em potinhos.
  • Temperos aromáticos (orégano e ervas finas).
  • Desenho de guarda-chuva para colorir.
  • Lápis de cor, tesoura e cola branca.


 

 




Desenvolvimento da Oficina

O encontro foi organizado em etapas. Cada imagem era apresentada com calma, convidando as idosas a observar formas, cores e detalhes. Depois vinha a experiência direta com os sentidos: cheirar, tocar, provar.

A maçã era degustada e cheirada; a banana era explorada pela textura e sabor; o café ativava memórias com seu aroma forte; e os temperos despertavam lembranças ligadas à cozinha, à casa e à vida cotidiana. Tudo acompanhado por perguntas abertas, mas também por silêncio. Nem tudo precisava ser dito algumas memórias apenas precisavam ser sentidas.

 


                


                




 Expressão Artística e Simbolização

Depois da vivência sensorial, as idosas foram convidadas a colorir um desenho de um guarda-chuva aberto, utilizado como metáfora de proteção, acolhimento e mundo interno. O guarda-chuva simbolizava um espaço seguro onde tudo o que havia sido sentido cheiros, sabores, lembranças e emoções poderia ser reunido e cuidado. Cada cor escolhida pelas idosas carregavam algo da experiência vivida momentos antes.

O ato de colorir transformou-se em um tempo de pausa e interiorização. Não era apenas preencher espaços com lápis de cor, mas organizar afetos e lembranças, dar forma ao que ainda estava difuso dentro de si. O desenho tornou-se, assim, um território de expressão subjetiva, um lugar onde memória, sensações, emoção e gesto se encontravam e ganhavam corpo no papel. Em muitos casos, era possível perceber que, enquanto as mãos se moviam, histórias internas também se reorganizavam, criando pontes entre o vivido, o lembrado e o sentido.

 


              

Palavras, Sentimentos e Partilha

Ao final, cada participante escolheu palavras recortadas que representavam o que havia sentido. Em seguida, colaram essas palavras no guarda-chuva. Desse processo emergiram termos ligados à vida, aos vínculos e ao afeto, como: família, infância, pais, filhos e irmãos, além de sentimentos como amor, paz, alegria, saudade, prazer, calma, esperança e amizade, entre outros.

Relatos como: “Lembrei dos cafés da manhã da minha casa”,
“O cheiro do café me levou para a cozinha da minha mãe” e
“Lembrei de brincar de boneca com minha irmã e depois comer banana amassada”
mostraram que a memória afetiva permanece viva, ali guardada e pronta para ser acessada, aguardando apenas um “gatilho” sensorial mesmo diante das limitações impostas pelo envelhecimento, pelas doenças e pela institucionalização.

              

 




Considerações Finais

A vivência Arte dos Sentidos mostrou que a arteterapia, quando integrada à estimulação sensorial e cognitiva, é um gesto de cuidado profundo sendo fundamental no atendimento de idosos institucionalizados. Cada etapa olhar, sentir, criar e nomear ampliou o campo de experiência dos idosos, oferecendo espaços de protagonismo, sentido e encontro.

Mais do que uma atividade artística, a oficina foi um processo de reconexão com a própria história, com a identidade e com a vida. Um modo delicado de lembrar aos idosos que, mesmo com o tempo, a memória afetiva, o sentir e o existir continuam vivos. Permitindo um novo olhar no atendimento a população idosa institucionalizadas utilizando o recurso da arteterapia no processo de estimulação e reabilitação.


 

Referências

JARDIM, V.C.F.S.; VASCONCELOS, E.M.R; VASCONCELOS, C.M.R.; ALVES, F.A.P. Contribuições da arteterapia para promoção da saúde e qualidade de vida da pessoa idosa. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 23, n. 4, p. e200173, 2020. DOI: 10.1590/1981-22562020023.

YI, X.; Liu, Z.; Li, H.; JIANG, B. Immersive experiences in museums for elderly with cognitive disorders: a user-centered design approach. Scientific Reports, v. 14, p. 1971, 23 jan. 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-51929-4.

 

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Sobre os autores:

 


Anderson Amaral – Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro – Mestre em Tecnologia e Saúde, Pós-graduado em Neurociências com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em Reabilitação Cognitiva e Arteterapeuta do lar Amantino Câmara. Coordenado do Projeto NeuroGeriatria da Faculdade de Medicina UNIG Itaperuna. Autor dos Livros Jogos Cognitivos: Um olhar Multidisciplinar; Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autor do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

 

 


Adriana Limeira do Nascimento – Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduada em Saúde Mental, Pós-graduada em Saúde Pública e Brinquedista Hospitalar – Autora Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

 

 


Talyta Gisllyane da Silva - Graduada em Psicomotricidade e Ludicidade na Educação Infantil; Discente em Terapia Ocupacional; Pós-graduada em TEA e TGD – Transtornos Globais do Desenvolvimento Infantil; Pós-graduada em Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Pós-graduada em ABA – Análise do Comportamento Aplicada.

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

PSICOLOGIA E ARTETERAPIA NUMA VISÃO DECOLONIAL NECESSÁRIA

 

Quadro de Modesto Brocos

Em novembro de 2025 estive participando em Belo Horizonte do Evento Novembro Negro, na Universidade Federal de Belo Horizonte – UFMG.  A convite também do Espaço de Arteterapia Não Palavra, também foi realizada uma roda de conversa em Belo Horizonte, no dia posterior ao evento da universidade.    Considerando novembro ser o mês da consciência negra, ambas instituições solicitaram que a temática fosse a questão racial e o quanto nosso país é um divisor que beneficia uns e segrega outros.   Assim meu livro “A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco foi tratada nas 2 instituições, como palestra e oficina de Arteterapia na UFMG e como roda de conversa, no Espaço Não Palavra. Por ser psicóloga e também Arteterapeuta, propus a oficina na UFMG usando imagens que pudessem tratar do tema na prática arteterapêutica, usando o método SoulCollage®️ onde a colagem projetiva tem acesso poderoso ao inconsciente pessoal e coletivo.

Por Minas Gerais ter sido um dos estados brasileiros que mais recebeu negros escravizados vindos do continente africano, vendidos aos colonizadores, concentrando assim uma das maiores populações cativas no século XVIII e metade do século XIX, considerei pertinente a temática.  Lá fui eu para ver de perto a possibilidade de uma reflexão à uma história que tanto envergonha nosso país, como a escravidão marcada por revoltas, formação de quilombos, resistências e traumas psicológicos, que romperam laços familiares de pertencimento, separando famílias e fragmentando a identidade de negros escravizados por serem vendidos como mercadorias.  Seus afrodescendentes enquanto traumas transgeracionais, numa corrente de sintomas ainda hoje apresentam:  baixa-estima, ansiedade, níveis de sofrimento causando depressão e sentimentos de exclusão e não pertencimento na sociedade.

Para minha surpresa, o número de alunos e participantes negros não foi representativo. O que vi foram alunos negros em minoria dentro da universidade pública e seus relatos, trouxeram a dificuldade de se sentirem representados, tanto na formação de turmas, como no corpo docente, onde a maioria era branca.  O sentimento de exclusão foi trazido na oficina de Arteterapia, nas imagens escolhidas e na verbalização de sua dor expressa em palavras que jamais vou esquecer: “Sinto que não pertenço a este lugar”.   Ali pude perceber o quanto a Psicologia e a Arteterapia necessitam trabalhar dentro da temática racial, tanto em clientes negros quanto em brancos.  Há um bloqueio que afeta os dois lados, e nisto encontramos o racismo e suas manifestações sutis ou declaradas.   O racismo atua como uma exclusão social que a academia ainda apresenta, onde alunos negros podem estar (e muitos não aguentam e abandonam o curso) e onde os alunos brancos devem permanecer.

Minha oficina e palestra ocorreram no prédio da engenharia da UFMG.  Na palestra 80% dos inscritos eram pessoas brancas, enquanto que a oficina vivencial teve a participação de negros e apenas uma pessoa branca.  Porém o número de participantes na oficina muito menor que o da palestra, me fez pensar que vivenciar uma reflexão sobre o racismo ainda é muito difícil para pessoas brancas, pois quebra o pacto da branquitude que é “Não vamos mexer com estas coisas” e favorece à dificuldade de acessar possibilidade de práticas antirracistas. Na palestra a curiosidade foi saber sobre o manejo clinico de um psicólogo negro ao receber uma pessoa branca e como ele (o profissional) atua na questão racial. Porém, vivenciar conteúdos pessoais de consciência de atuação racista, é outra coisa. A técnica do SoulCollage®️, pode mostrar isto, porém trazendo a vivência para pessoas negras que ali se identificaram com as imagens e puderam fazer suas associações. Como teve apenas uma pessoa branca, seu discurso foi de perceber os benefícios que as pessoas brancas têm numa sociedade racista, gerando nela o desejo de se aprofundar mais no assunto.   Esta pessoa branca, foi Eliana Moraes.  Coordenadora do Espaço de Arteterapia Não Palavra.

No dia seguinte da roda de conversa no Espaço Não Palavra, Eliana ainda estava tomada pela vivência do dia anterior e com os seus convidados, pudemos fazer uma excelente roda de conversa sobre minha pesquisa de mestrado em relação a temática racial entre brancos e negros em um país racista.  Vale a pena analisar o quadro de Modesto Brocos, que se encontra no início deste artigo. Se olharmos bem, o chão que a mulher negra pisa é parcialmente compartilhado com seu marido branco, e que”  este, olha na direção da criança, enquanto que a avó pisa em um chão de “terra batida, mostrando com os braços levantados aos céus, o agradecimento por sua filha ter tido um filho de pele clara, e sua filha por sua vez, mostra a criança para a avó.  Uma obra de reflexão trazida através da arte deste artista plástico, onde a cor da pele embranquecida aparece como desejo, alivio e agradecimento, representando benefícios da identidade branca.

Assim trago aqui no blog mais esta reflexão, para que nós profissionais da saúde, tenhamos mais atenção para o letramento necessário em relação às práticas da Psicologia e da Arteterapia na questão étnica-racial, se desejarmos realmente um trabalho sério de acolhimento, ressignificação e transformação psíquica.  De forma sutil ou declarada, estas dores vão entrar em nosso ambiente e precisamos saber como conduzir nosso trabalho e não negarmos a necessidade de escuta e atenção, para que assim, aconteça o acolhimento, o vínculo e a identificação; para que nosso cliente se sinta legitimamente representado.

 

BIBLIOGRAFIA

BREWSTER, Fanny, O Complexo Racial: Questões raciais e culturais sob a perspectiva junguiana, Editora Vozes, 2025

FROST, Seena. SoulCollage em evolução: um processo de colagem intuitivo para autodescoberta e comunhão., Editora Folio Digital, 2021

NOGUEIRA, Isildinha Batista. A cor do inconsciente: Significações do Corpo negro. Ed. Perpectiva, 2021

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito de marca: As relações raciais em Itapetininga. Apresentação e Edição de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. São Paulo, EDUSP, 1998.

ROZANTE, Rosangela. O Arteterapeuta e a Arteterapia Decolonial. Blog da AARJ.2023

_____________________A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco: em um país racista. Ed. Dialética, SP, 2024

___________________Descolonizando e Rompendo Paradigmas de Exclusão em Arteterapia. Blog Não Palavra.  2025

___________________ Novembro com Arteterapia e Consciência Negra, Blog Arteterapeutas do Rio, 2025

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Sobre a autora: ROSANGELA ROZANTE

 


Formação:

Psicóloga especializada em psicologia clínica (CRP-5/5024), Especialista em Arteterapia pela UNIRIO (UBAAT-01/302/0507), Mestra em Psicologia Clínica (PUC/RJ).

 

Área de atuação/projetos/trabalhos:

Há 25 anos é diretora do Espaço Terapêutico Caminhos do Self Artes e Terapias Integradas Ltda. Supervisora e Coordenadora Geral do Curso de Formação Clínica de Arteterapeutas. Pesquisadora de temas relacionados as questões étnico/raciais. Coordenadora do Projeto Afrobetizar entre Raízes. Autora do livro: “A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco em um país racista”, ed.  Dialética, 2025.  É uma das fundadoras do Coletivo Arteterapeutas do Rio.

 

Contato:

Instagran: @caminhosdoself_

Facebook: arteterapiaself@gmail.com

email: caminhosdoselfarteseterapias@gmail.com

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

QUANDO O SENTIR AINDA NÃO VIROU PALAVRA



Por Isa Ramos – RJ 

@psicologaisaramos 

Site:www.psicologaisaramos.com.br 

CRP:05/80628


Tem dias em que a gente acorda e não sabe nomear o que sente. Não é uma tristeza clara, mas também não é alegria e está tudo bem. Às vezes, é apenas um peso discreto, difícil de explicar, algo que acompanha o dia sem pedir definição. Nem toda dor pede análise, algumas só precisam de escuta e dispensam explicações. O corpo, muitas vezes, percebe antes aquilo que a mente ainda não conseguiu entender e nem sempre esse entendimento vem por meio de palavras. 

Algumas experiências permanecem confusas por um tempo, não porque não possam ser compreendidas, mas porque ainda precisam ser vividas e organizadas internamente. Há sentimentos que pedem tempo, sem pressa para serem nomeados ou respondidos. Permanecer nesse intervalo também faz parte do processo, mesmo quando ele traz desconforto ou inquietação. O silêncio acompanha esse caminho e nem tudo pede resposta. Às vezes, o silêncio já é cuidado. 

A pergunta “mas o que você tem?” é mais comum do que se imagina e, muitas vezes, difícil de responder. Vivemos em um tempo que cobra explicações rápidas como se toda experiência precisasse ser entendida imediatamente. Existe uma expectativa constante de que saibamos traduzir o que se passa dentro de nós e, quando isso não acontece, surge a sensação de falha. No entanto, nem todas as experiências emocionais nascem prontas para serem ditas, algumas precisam ser sentidas antes de serem compreendidas. 

Esse cenário favorece respostas superficiais, que aliviam a pressão do momento, mas não refletem o que realmente está acontecendo internamente. A dificuldade de nomear pode se transformar em culpa e essa culpa, muitas vezes, nasce da comparação. Observa-se o outro, aparentemente seguro sobre o que sente, e conclui-se que a própria confusão é sinal de fragilidade, no entanto, cada pessoa tem seu ritmo de elaboração. A clareza que se vê no outro nem sempre revela o percurso interno que foi necessário para alcançá-la e para evitar o desconforto do silêncio, muitas vezes aceitam-se explicações que não correspondem à própria experiência. 

Nem sempre a ausência de palavras significa vazio. O silêncio também pode ser uma forma de resposta. Nem toda vivência exige manifestação imediata, seja pela fala ou pela escrita. Os sentimentos precisam amadurecer para que possam ser nomeados, é necessário tempo. Forçar uma definição pode interromper algo que ainda está se organizando internamente. Um espaço seguro permite que a pessoa seja quem é, inclusive quando ainda não sabe dizer o que sente. Aprender a sustentar o “não sei” faz parte desse cuidado. Explicar pode oferecer uma resposta rápida; compreender exige tempo. 

Tudo tem seu tempo, e nem tudo precisa ser dito no instante em que é vivido. Quando o sentir ainda não virou palavra, isso não significa falta de sentido. Significa que algo está sendo elaborado, mesmo que de forma silenciosa. Respeitar esse intervalo é uma forma de cuidado consigo. Há maturidade em sustentar o que ainda não está claro, sem a pressa de definir ou concluir. 

Aos poucos, o que era apenas silêncio pode se transformar em compreensão. O que parecia indefinido ganha contorno, nome e significado e quando a palavra finalmente chega, ela não vem por obrigação, mas porque encontrou espaço para nascer. Talvez esse seja um dos movimentos mais delicados da experiência humana: permitir que o sentir exista antes de ser traduzido. Aceitar que há momentos em que a presença é mais importante do que a explicação. 

Vivemos em uma cultura que valoriza a rapidez, a objetividade e a clareza imediata. No entanto, a vida emocional não obedece à mesma lógica. Ela não funciona por prazos nem se organiza de acordo com a urgência externa. Há sentimentos que precisam atravessar o corpo, a memória e a experiência antes de encontrarem forma na linguagem. 

Quando nos cobramos para entender tudo de imediato, podemos interromper um processo que ainda está em curso. A tentativa de dar nome apressadamente ao que se sente pode produzir rótulos que não traduzem a complexidade da experiência vivida. Nem tudo cabe em definições rápidas, algumas emoções são mais amplas do que as palavras disponíveis naquele momento. Reconhecer isso é um exercício de honestidade emocional, pois existem sentimentos que só precisam de tempo e no tempo certo, o silêncio se transforma em compreensão. 

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Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança.

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.