Por Anderson Amaral, Adriana Limeira do Nascimento, Talyta Gisllyane da Silva - CE
Introdução
A estimulação multissensorial desempenha um papel fundamental ao longo de todo o ciclo da vida, sendo especialmente relevante durante o processo de envelhecimento. O processamento sensorial constitui uma função essencial do sistema nervoso, permitindo que o indivíduo receba, interprete e responda adequadamente aos estímulos provenientes do ambiente. Com o avanço da idade, alterações fisiológicas podem comprometer a eficiência desse processamento, impactando habilidades relacionadas à atenção, memória, orientação, comunicação e interação com o meio. Esse cenário torna-se ainda mais significativo entre idosos que convivem com comprometimento cognitivo ou diferentes formas de demência, uma vez que as dificuldades no processamento das informações sensoriais podem intensificar limitações funcionais e reduzir a participação em atividades cotidianas. Nesse contexto, intervenções que estimulam simultaneamente diferentes sentidos, como tato, visão, audição e olfato, configuram-se como estratégias importantes para promover o engajamento, favorecer a evocação de memórias, estimular funções cognitivas preservadas e contribuir para o bem-estar emocional e a qualidade de vida dessa população (MANEEMAI et al., 2024).
Entre as estratégias
utilizadas nesse contexto, destaca-se a arteterapia, que integra experiências
sensoriais, cognitivas e emocionais por meio de atividades criativas e
expressivas. Essa abordagem favorece a ativação de diferentes circuitos neurais
e pode contribuir para a manutenção das funções cerebrais ao longo do
envelhecimento. Estudos apontam que a arteterapia pode beneficiar tanto idosos
saudáveis quanto aqueles com comprometimento cognitivo leve ou em estágios
iniciais da doença de Alzheimer, estimulando capacidades como atenção, memória,
linguagem, planejamento e expressão emocional (SOUZA; GOMES; MORAES, 2022).
Objetivo
Relatar uma atividade de
arteterapia voltada à estimulação tátil e à evocação de memórias afetivas,
realizada com pessoas idosas, utilizando diferentes grãos presentes no
cotidiano como recurso terapêutico e expressivo.
Participantes
Participaram da atividade
oito idosas residentes em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos
(ILPI), com idades variando entre 70 e 90 anos. As participantes apresentavam
comprometimento cognitivo leve e diferentes níveis de limitação funcional decorrentes
do processo de envelhecimento. Algumas eram usuárias de cadeira de rodas,
enquanto outras apresentavam dificuldades de mobilidade e dependência parcial
para a realização de determinadas atividades do cotidiano.
Todas as etapas foram adaptadas às
necessidades e capacidades individuais das participantes, respeitando seu
ritmo, limitações e potencialidades, garantindo um ambiente acolhedor, seguro e
inclusivo.
Materiais e
Método
Foram utilizadas quatro
caixas sensoriais opacas com abertura para exploração tátil, contendo arroz,
feijão, milho e cuscuz (flocos de milho). Também foram utilizados cola e uma
folha de atividade dividida em quatro quadrantes identificados com os respectivos
grãos.
A proposta foi desenvolvida
em três etapas: exploração sensorial tátil, compartilhamento de experiências e
produção artística. Inicialmente, os participantes exploraram os materiais sem
visualizá-los, utilizando apenas o tato para tentar identificar os grãos. Em
seguida, os materiais foram revelados e utilizados como estímulo para diálogo e
evocação de memórias. Por fim, os participantes realizaram uma atividade
artística de colagem utilizando os próprios grãos.
Relato da
Experiência
A atividade teve início com
a apresentação das caixas sensoriais ao grupo. A proposta de descobrir o
conteúdo das caixas utilizando apenas o tato despertou curiosidade, expectativa
e entusiasmo entre os participantes. Para muitos idosos, tratava-se de uma
experiência nova, capaz de despertar interesse e promover envolvimento desde os
primeiros momentos.
Antes da exploração
sensorial, foi realizado um breve momento de acolhimento e relaxamento em
grupo, favorecendo a concentração e preparando os participantes para a
vivência. Em seguida, cada idoso foi convidado a inserir as mãos nas caixas e
explorar livremente os materiais, observando características como textura,
formato, tamanho e consistência, com o objetivo de identificar qual grão estava
presente em cada recipiente.
Observou-se que o arroz, o
feijão e o milho foram facilmente reconhecidos pela maioria dos participantes,
provavelmente por fazerem parte de seu cotidiano alimentar e apresentarem
texturas bastante características. O cuscuz, entretanto, despertou maior curiosidade
e gerou mais dúvidas. Alguns idosos associaram sua textura a diferentes tipos
de farinha, demonstrando como a percepção sensorial está intimamente
relacionada às experiências individuais construídas ao longo da vida.
As tentativas de
identificação foram acompanhadas por sorrisos, risadas e comentários
espontâneos, criando um ambiente acolhedor e descontraído. A cada descoberta,
percebia-se o aumento do engajamento e da curiosidade dos participantes, que
compartilhavam hipóteses, comparavam sensações e buscavam validar suas
percepções junto aos colegas. Esse momento favoreceu não apenas a estimulação
tátil, mas também a interação social, a comunicação e a participação ativa do
grupo.
Após a revelação dos
materiais presentes nas caixas, iniciou-se um rico momento de diálogo e
compartilhamento de experiências. Os diferentes grãos despertaram inúmeras
memórias afetivas relacionadas ao preparo de comidas típicas, receitas
tradicionais e vivências familiares. Muitos participantes recordaram refeições
preparadas por mães e avós, almoços em família, encontros festivos e hábitos
alimentares característicos de suas comunidades.
O cuscuz, o feijão e o
arroz, por estarem fortemente presentes na cultura alimentar dos participantes,
evocaram lembranças carregadas de significado emocional. Alguns idosos
compartilharam histórias da infância, da vida no campo e de momentos vividos ao
lado de familiares. As narrativas revelaram recordações de cuidado, união,
pertencimento e afeto, permitindo que experiências positivas do passado fossem
revisitadas e valorizadas.
Além de favorecer a
socialização e a troca de experiências, a atividade possibilitou a
ressignificação de lembranças e trajetórias de vida. Ao compartilharem suas
histórias, os participantes encontraram um espaço de valorização de suas
experiências, saberes e memórias, fortalecendo sua identidade e senso de
pertencimento.
Na etapa seguinte, cada
participante recebeu uma folha dividida em quatro quadrantes identificados com
os nomes dos respectivos grãos. Utilizando cola, os idosos realizaram a colagem
do feijão, milho, arroz e cuscuz nos espaços correspondentes, construindo uma
composição artística baseada na experiência sensorial vivenciada anteriormente.
Essa produção artística
estimulou a coordenação motora fina, a atenção, a organização visuoespacial e a
criatividade, além de reforçar o reconhecimento dos materiais explorados
durante a atividade.
Discussão
A experiência evidenciou o
potencial da estimulação multissensorial associada à arteterapia como
estratégia para promover o engajamento cognitivo, motor, afetivo e social de
pessoas idosas. A exploração tátil dos materiais favoreceu a atenção, percepção,
memória, associação de textura e formas, a discriminação sensorial e a
curiosidade, enquanto os momentos de diálogo possibilitaram a evocação de
memórias autobiográficas e afetivas.
Os relatos compartilhados
demonstraram que estímulos simples do cotidiano podem funcionar como
importantes gatilhos para a recuperação de lembranças significativas, fortalecendo
a identidade pessoal estimulando recordações relacionadas à cultura alimentar,
às tradições familiares e às experiências de vida, contribuindo para o
bem-estar emocional. Além disso, a atividade artística permitiu transformar
essas experiências em uma produção concreta, favorecendo a expressão criativa e
a valorização das vivências individuais.
Considerações
Finais
A experiência demonstrou que
elementos simples do cotidiano podem se transformar em importantes recursos
terapêuticos quando associados à estimulação sensorial, estimulação cognitiva e
à arteterapia. A atividade promoveu momentos significativos de descoberta,
interação, criatividade e resgate de memórias afetivas, contribuindo para o
bem-estar emocional, a participação social e o fortalecimento dos vínculos
entre os participantes.
Mais do que identificar texturas ou
realizar uma produção artística, os idosos tiveram a oportunidade de revisitar
histórias, compartilhar experiências e atribuir novos significados às suas
trajetórias de vida. Dessa forma, a atividade reafirmou o potencial da
arteterapia como estratégia de promoção da saúde, humanização do cuidado e
valorização da pessoa idosa.
Referência
MANEEMAI, O. et al. Sensory Integration: A Novel Approach
for Healthy Ageing and Dementia Management. Brain
Sciences, Basel, v. 14, n. 3, p. 285, 2024. DOI:
10.3390/brainsci14030285
SOUZA, L.B.R.; GOMES, Y.C.; MORAES, M.G.G.. The impacts of visual Art Therapy for
elderly with Neurocognitive disorder: a systematic review. Dementia & Neuropsychologia,
São Paulo, v. 16, n. 1, p. 8-18, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2021-0042
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Sobre os autores:
Anderson Amaral
Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro. Mestre em Tecnologia no
Espaço Hospitalar, Pós-graduação em Neurociência com ênfase em Envelhecimento.
Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia
ênfase em Reabilitação Cognitiva. Arteterapeuta do Instituto Amantino Câmara.
Autor dos Livros Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora; Jogos cognitivos: Um olhar
multidisciplinar - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em
jogo - WAK Editora
Adriana Limeira do Nascimento
Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduação em Saúde Menta,
Pós-graduação em Saúde Pública e Brinquedista pela ABBri – Autora do Livro
Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em
jogo e do livro Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK
Editora
Talyta Gisllyane da Silva
Graduada em
Psicomotricidade, Discente de Terapia Ocupacional, Pós-graduada em TEA e TGD e
Pós-graduada em ABA.




























