segunda-feira, 5 de outubro de 2026

PERFECCIONISMO E O MEDO DE ERRAR: O QUE ACONTECE QUANDO A PESSOA NÃO CONSEGUE SIMPLESMENTE EXPERIMENTAR



Por Isa Ramos – RJ

@psicologaisaramos

Site:www.psicologaisaramos.com.br


“E se eu fizer errado?”

Para algumas pessoas, essa pergunta aparece antes de quase tudo. Antes de começar um projeto, falar em uma reunião, fazer um curso, aprender alguma coisa nova ou até mesmo tentar uma atividade por diversão.

O medo de errar pode ser tão grande que, muitas vezes, a pessoa prefere nem tentar.

Ela pensa demais, planeja, pesquisa, compara, espera o momento certo e tenta se preparar o máximo possível, mesmo assim, sente que nunca está pronta.

E é aí que o perfeccionismo pode começar a atrapalhar.

Ser uma pessoa cuidadosa, responsável e gostar de fazer as coisas bem não é um problema. A dificuldade aparece quando a pessoa sente que precisa fazer tudo muito bem o tempo todo e que qualquer erro pode significar que ela não é boa o suficiente.

Nesse caso, errar deixa de ser apenas errar.

O erro passa a parecer uma prova de incapacidade.

E quando isso acontece, experimentar algo novo pode se tornar muito difícil.

Imagine, por exemplo, alguém que sempre quis aprender a pintar. Ela compra os materiais, escolhe algumas referências e começa a pesquisar técnicas, mas, quando chega o momento de colocar a tinta no papel, pensa: “Eu não sei fazer isso”, “Vai ficar feio”, “Não tenho talento para isso”.

Talvez ela nem comece.

Ou comece e apague tudo na primeira tentativa.

Ou fique comparando o que fez com trabalhos de outras pessoas e conclua que nunca vai conseguir.

Perceba que, nesse caso, o problema não está necessariamente na pintura. Está na relação que essa pessoa tem com o erro e com a própria cobrança.

Isso também pode acontecer em outras áreas da vida.

Uma pessoa pode querer mudar de emprego, mas ter medo de não dar conta. Pode querer começar um curso, mas pensar que deveria saber mais antes de entrar. Pode ter uma ideia e não compartilhar porque acha que ainda não está boa o suficiente.

Também pode acontecer nos relacionamentos.

Algumas pessoas têm tanto medo de falar algo errado, decepcionar ou serem julgadas que acabam pensando demais antes de se posicionar. Outras tentam ser a pessoa perfeita para todo mundo e se sentem muito mal quando percebem que não conseguiram agradar.

Aos poucos, a vida pode ficar cheia de regras.

“Tenho que fazer certo.”

“Tenho que dar conta.”

“Não posso demonstrar insegurança.”

“Preciso estar preparado.”

“Não posso decepcionar ninguém.”

E, com tantas regras, experimentar fica cada vez mais difícil.

Afinal, experimentar significa não saber exatamente o que vai acontecer.

E é justamente isso que o perfeccionismo costuma tentar evitar.

Quando errar parece algo muito maior do que realmente é

Errar faz parte de aprender.

Quando uma criança está aprendendo a andar, ela cai. Quando alguém está aprendendo um idioma, troca palavras. Quando uma pessoa começa a cozinhar, algumas receitas não dão certo.

Ninguém espera que alguém seja excelente em algo que acabou de começar.

Mas, quando existe uma cobrança muito grande, a pessoa pode esquecer disso.

Ela pode olhar para o próprio erro e pensar:

“Eu deveria saber fazer isso.”

“Todo mundo consegue, menos eu.”

“Eu sou muito ruim nisso.”

“Se eu errar, vão perceber que não sou tão bom quanto imaginam.”

O erro deixa de ser visto como uma parte do processo e passa a ser visto como algo que precisa ser evitado a qualquer custo.

Isso pode levar à procrastinação, à insegurança e até à desistência.

É mais fácil não tentar do que tentar e descobrir que não conseguiu fazer exatamente como imaginava.

Só que existe um problema nessa estratégia: quando evitamos errar, também evitamos aprender.

E onde entra a Arteterapia?

A Arteterapia pode ser um espaço interessante para trabalhar essa relação com o erro porque a proposta não precisa estar ligada a fazer algo bonito ou perfeito.

Uma atividade artística pode ser usada para experimentar.

Pode ser desenhar, pintar, trabalhar com colagem, argila, escrita ou outros materiais. O objetivo não é avaliar se a pessoa tem talento artístico.

O mais importante pode estar no processo.

Por exemplo: o que acontece quando você recebe uma folha em branco e não sabe o que fazer?

Você fica nervoso?

Pergunta o que deveria desenhar?

Fica tentando imaginar qual seria a resposta certa?

Tem vontade de desistir?

Começa e apaga várias vezes?

Fica comparando seu trabalho com o de outras pessoas?

Ou consegue simplesmente começar?

Essas pequenas situações podem trazer informações importantes sobre a forma como a pessoa lida com a cobrança e com o medo de errar.

Talvez ela perceba que precisa ter certeza antes de começar.

Talvez perceba que fica muito incomodada quando algo sai diferente do planejado.

Talvez descubra que tem dificuldade de aceitar uma produção que não ficou exatamente como imaginava.

E isso pode abrir espaço para conversar sobre outras situações da vida.

Porque a forma como lidamos com uma atividade pode ser parecida com a forma como lidamos com outras experiências.

Uma pessoa que não consegue começar um desenho porque não sabe se ficará bom pode também ter dificuldade para começar um projeto no trabalho.

Quem apaga várias vezes uma produção porque não ficou perfeita pode fazer algo parecido com suas próprias escolhas, sempre pensando que poderia ter feito melhor.

Quem precisa saber exatamente o que fazer antes de começar pode ter muita dificuldade quando a vida apresenta situações que não podem ser totalmente planejadas.

É importante deixar claro que não existe uma interpretação pronta para cada desenho ou atividade.

Uma cor não significa necessariamente uma coisa. Um desenho não possui um significado único.

O que importa é o que aquela experiência representa para a própria pessoa e o que ela percebe durante o processo.

Por isso, algumas perguntas podem ser mais importantes do que o resultado:

“O que você sentiu enquanto fazia?”

“O que passou pela sua cabeça quando não ficou como esperava?”

“Você teve vontade de continuar ou de desistir?”

“Você conseguiu aceitar que poderia ficar diferente do que imaginou?”

“Você percebeu alguma cobrança em você?”

Essas perguntas podem ajudar a pessoa a olhar para si de uma maneira diferente.

Nem tudo precisa sair perfeito

Talvez uma das maiores dificuldades para quem vive o perfeccionismo seja entender que fazer algo de forma diferente do esperado não significa necessariamente que aquilo deu errado.

Às vezes, simplesmente ficou diferente.

E tudo bem.

Uma atividade pode não ficar bonita.

Uma ideia pode precisar ser modificada.

Uma apresentação pode não sair exatamente como planejado.

Uma conversa pode ter algumas falhas.

Um projeto pode precisar ser refeito.

Isso não significa que a pessoa fracassou.

Significa que ela está vivendo uma experiência real, em que nem tudo está sob seu controle.

Na terapia, aprender a lidar melhor com isso pode ser um processo importante.

Não significa deixar de se importar ou passar a fazer tudo de qualquer jeito.

Significa conseguir fazer o melhor possível sem transformar cada erro em uma prova de que você não é capaz.

Também significa permitir-se aprender.

Porque ninguém começa sabendo.

E talvez seja justamente essa ideia que uma pessoa muito perfeccionista precise experimentar: não é necessário saber fazer perfeitamente para começar.

É possível começar sem ter certeza.

É possível aprender no caminho.

É possível mudar de ideia.

É possível fazer de outro jeito.

E é possível errar sem transformar aquele erro em uma definição sobre quem você é.

O que você faria se não tivesse medo de errar?

Essa pode ser uma pergunta simples, mas muito importante.

Se você tivesse certeza de que ninguém iria rir, criticar ou julgar, o que teria vontade de experimentar?

Qual curso faria?

Que projeto começaria?

Que ideia colocaria em prática?

Que atividade faria apenas por prazer, sem precisar ser bom nela?

Talvez algumas respostas apareçam.

E talvez elas mostrem que, por trás do medo de errar, existem muitas coisas que a pessoa gostaria de viver.

O problema é que, quando a necessidade de acertar é muito grande, a pessoa pode passar tanto tempo tentando evitar o erro que acaba deixando de experimentar.

A Arteterapia pode ajudar justamente nesse caminho de experimentar, observar e refletir.

Sem precisar acertar.

Sem precisar produzir algo perfeito.

Sem precisar provar nada.

Afinal, nem tudo na vida precisa virar uma avaliação sobre o nosso desempenho.

Algumas coisas podem simplesmente ser vividas.

E talvez aprender a experimentar sem exigir perfeição seja uma forma de abrir espaço para mais liberdade, curiosidade e leveza no dia a dia.

 

__________________________________________________________________________

Sobre a autora: Isa Ramos



Meu nome é Isa Ramos, sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A ARTE QUE NOS SUSTENTA QUANDO A VIDA NOS ATRAVESSA: prática artística, vulnerabilidade e cuidado de quem cuida




Por Ana Paula Batista - DF

@anabatista.arteterapia

Sabemos que em nosso fazer como arteterapeutas precisamos manter em equilíbrio os pratinhos da análise pessoal, supervisão, conhecimento continuado e prática artística pessoal. No texto de hoje eu gostaria de colocar atenção no último ponto, a nossa prática artística e sua importância não apenas para a formação continuada, mas também em momentos de vulnerabilidade de quem está ali para cuidar do outro.

É comum ouvirmos durante a formação, ou mesmo em cursos e mentorias, pelo menos foi assim para mim, que a prática artística do arteterapeuta é fundamental para que possamos manusear os materiais artísticos, entender suas particularidades e experimentá-los antes de propor a nossos clientes. O contato com os materiais, com a folha em branco, nos possibilita também experimentar o lugar do não saber, de simplesmente iniciar um risco, um movimento e deixar o corpo e o inconsciente guiarem o processo.

Entretanto, como conhecedores da potencialidade da arte no cuidado da saúde, precisamos de um olhar mais amplo para o nosso próprio espaço-tempo de criação. O fazer artístico, para além da experimentação de materiais, pode ser uma forma de nos observar, reconhecer limites e acompanhar o próprio estado interno. Mais do que entender, é preciso sentir.

Com a vida corrida, é comum até que o nosso tempo para criar seja otimizado e facilmente transformado em um momento de estudo e teste de materiais. Aconteceu comigo e talvez tenha acontecido com você também. Até que vem uma turbulência da vida (ou mais), nos colocando diante de feridas e de necessidade de cuidado.

 

Quem cuida do olhar de quem cuida?

 


É quando o coração dói e a alma sangra que mais precisamos da nossa própria medicina: o fazer artístico. Não para substituir a análise nem a supervisão, pois essas já são imprescindíveis especialmente quando nos colocamos diante de clientes, mas como um território de experiência para a autopercepção. Sentir, expressar e entender nossas próprias emoções é fundamental para que possamos olhar para nossos próprios limites e possibilidades do momento, saindo da figura do terapeuta perfeito, acolhedor e disponível para o terapeuta humano que também é atravessado pela vida. Entender o que é nosso e o que damos conta no momento é fundamental para uma postura ética e cuidadosa com a gente e com o outro.

Entre uma sessão de terapia e outra, seja por meio de um diário expressivo, diante de uma tela, de um suporte a ser bordado, da necessidade de movimento do corpo, entre tantas outras possibilidades que a arte nos proporciona, podemos nos questionar: Como estou? O que está difícil? Quais são meus limites no momento? O que tem ocupado espaço demais? O que não estou conseguindo colocar em palavras? Nessa prática, abrimos espaço para expressão e para entrarmos em contato com imagens. Valiosas imagens.

O intuito desse texto, que foi a minha possibilidade diante dos mares emocionais turbulentos que tenho navegado, não foi trazer uma técnica ou novidade, mas sim fazer um lembrete. Lembrete, para você e para mim, para que a gente não negligencie algo tão poderoso e sagrado que temos em nossas mãos: nossa prática artística pessoal.

 


 

 _____________________________________________________________________________

Sobre a autora: Ana Paula Batista



Brasília / DF

Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta, especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e atualmente em formação clínica em Psicologia Analítica.

@anabatista.arteterapia

Site: https://www.anapaulabatista.com.br/

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CONTINUUM DAS TERAPIAS EXPRESSIVAS, UM MODELO DIRECIONAL PARA O ARTETERAPEUTA: entre a experiência clínica e a construção de um olhar



Por Tania Cristina Freire - SP


Nos últimos anos, tenho me dedicado ao estudo do Continuum das Terapias Expressivas – ETC (Expressive Therapies Continuum) e, ao ser convidada a escrever neste espaço, percebi que esta seria uma oportunidade para compartilhar não apenas conceitos sobre o modelo, mas principalmente algumas reflexões que surgiram a partir de minha experiência com a Arteterapia e, especialmente, com a Arte Reabilitação. 

Ao longo da minha trajetória profissional, venho observando que trabalhar com arte em um contexto terapêutico é muito mais do que propor uma atividade ou analisar uma produção. O que acontece durante o fazer artístico sempre me chamou atenção: a maneira como a pessoa escolhe um material, como toca, como movimenta o corpo, como experimenta suas propriedades, como sustenta uma ação, como organiza o espaço, como reage às dificuldades e como, muitas vezes, encontra na própria experiência artística uma forma de comunicação. 

Na prática da Arte Reabilitação, frequentemente recebemos demandas relacionadas à atenção, planejamento, controle de impulsos, coordenação motora, percepção, comunicação, memória, organização ou participação. Entretanto, quando essas demandas chegam ao setting de Arteterapia, elas não podem ser simplesmente transformadas em exercícios cognitivos ou motores. É preciso pensar como a arte pode criar uma experiência que mobilize essas funções sem perder aquilo que caracteriza a própria Arteterapia. 

Passei a compreender o modelo como uma possibilidade de organizar meu pensamento clínico diante da experiência artística. Ele me auxilia a perguntar não apenas “o que vou fazer com esta pessoa?”, mas principalmente: “o que está acontecendo nesta experiência e que direção pode ser terapêutica neste momento?” 

Quando observo uma criança que tem dificuldade para sustentar a atenção, por exemplo, não penso apenas em uma atividade que “trabalhe atenção”. Observo como ela entra em contato com o material, quanto tempo permanece na experiência, quais estímulos despertam seu interesse, como reage às mudanças, se consegue fazer escolhas e que tipo de mediação favorece sua permanência. Da mesma maneira, diante de uma pessoa com dificuldades motoras, não penso somente em como melhorar determinado movimento. Procuro compreender quais movimentos são possíveis, como o corpo participa da experiência e como o material pode ser adaptado para ampliar suas possibilidades de ação e expressão. 

Essa forma de olhar me aproximou cada vez mais da compreensão do ETC como um modelo direcional que para mim, não significa conduzir rigidamente o processo ou determinar aquilo que a pessoa deve produzir. Significa ter um referencial que me permita observar, fazer escolhas e construir uma direção terapêutica, permanecendo aberta para aquilo que emerge durante o processo. Essa é uma das características que mais valorizo no modelo: ele me oferece direção sem retirar a liberdade e a imprevisibilidade próprias da experiência artística. 

Na Arte Reabilitação, essa perspectiva também me ajuda a deslocar o olhar daquilo que a pessoa não consegue fazer para aquilo que pode ser construído a partir de suas possibilidades. A pergunta deixa de ser apenas “qual função está comprometida?” e passa a ser também “que experiência artística pode favorecer novas possibilidades de ação, percepção, expressão e participação?” 

Foi nesse diálogo entre teoria e prática que passei a compreender o ETC não apenas como um modelo teórico, mas como uma ferramenta para o raciocínio clínico do arteterapeuta. A partir dessa experiência, considero importante apresentar o modelo e discutir de que maneira ele pode contribuir para a especificidade da Arteterapia, especialmente quando pensamos sua atuação no campo da reabilitação. 

O Continuum das Terapias Expressivas 

O Continuum das Terapias Expressivas (Expressive Therapies Continuum – ETC) foi desenvolvido por Sandra Kagin e Vija Lusebrink, sendo apresentado inicialmente em 1978, construído com uma teoria vasta e muito embasamento de teóricos importantes da arteterapia. O modelo surgiu a partir da observação dos processos envolvidos na produção artística em contextos terapêuticos e propõe uma compreensão sistemática das diferentes formas de processamento que podem ocorrer durante a experiência expressiva. 

O ETC organiza esses processos em três níveis principais: Cinestésico-Sensorial (K-S), Perceptivo-Afetivo (P-A) e Cognitivo-Simbólico (C-Sy). A criatividade atravessa todo o continuum, não sendo compreendida como uma etapa final ou hierarquicamente superior. O modelo não pressupõe que esses níveis ocorram de maneira linear. Ao contrário, eles podem estar presentes simultaneamente, com diferentes intensidades, e podem se modificar de acordo com a pessoa, o material, a proposta e o contexto terapêutico. 

No nível Cinestésico-Sensorial, a experiência está relacionada principalmente ao corpo, ao movimento, às sensações e à exploração das propriedades dos materiais. É o território da ação, do gesto, da pressão, do ritmo, da textura, da temperatura, da fluidez e da resistência. O fazer artístico pode favorecer experiências de organização corporal e sensorial, além de possibilitar diferentes formas de expressão que não dependem inicialmente da elaboração verbal. 

No nível Perceptivo-Afetivo, ganham importância a percepção das formas, cores, relações espaciais e organização visual, juntamente com os aspectos emocionais mobilizados pela experiência. A pessoa começa a estabelecer relações entre o que percebe, sente e expressa. Nesse nível, elementos como escolha de cores, composição, contraste, organização espacial e características dos materiais podem participar de uma experiência de diferenciação, reconhecimento e expressão afetiva. 

Já no nível Cognitivo-Simbólico, a experiência artística envolve maior participação de processos relacionados à organização, elaboração, representação, linguagem, pensamento e construção de significados. A imagem pode tornar-se um espaço para simbolização, associação de ideias, narrativa e reflexão. 

A principal contribuição do ETC para o pensamento clínico do arteterapeuta está na possibilidade de relacionar processo artístico, características da pessoa, propriedades dos materiais e intenção terapêutica. O modelo oferece ao profissional um referencial para pensar por que determinado material ou proposta pode ser utilizado em determinado momento. Isso não significa estabelecer uma relação fixa entre material e nível do ETC. Um mesmo material pode favorecer experiências distintas dependendo da forma como é apresentado e utilizado. 

A argila, por exemplo, pode possibilitar exploração cinestésico-sensorial por meio da manipulação, pressão e movimento. Entretanto, também pode favorecer organização perceptiva, expressão afetiva ou construção simbólica. O que define a experiência não é apenas o material, mas a relação estabelecida entre pessoa, material, proposta e contexto terapêutico. Nesse sentido, o ETC pode contribuir para que o arteterapeuta desenvolva uma prática mais intencional. 

Um ponto importante destacado por Lusebrink (HINZ, 2020), é que o ETC pode ser utilizado independentemente da orientação teórica adotada pelo arteterapeuta, não se restringindo a uma abordagem específica de terapia. Isso se deve ao fato de que as expressões artísticas são, por natureza, multiníveis, envolvendo simultaneamente diferentes formas de processamento. Reconhecer essa complexidade permite ao profissional ampliar sua compreensão sobre os processos implicados no fazer artístico, considerando não apenas o produto final, mas também as dimensões sensoriais, cinestésicas, perceptivas, afetivas, cognitivas e simbólicas presentes em sua construção. 

Na Arte Reabilitação, o ETC contribui para ampliar a compreensão das possibilidades terapêuticas da experiência artística diante de alterações cognitivas, motoras, sensoriais, emocionais e funcionais. Nesse contexto, o foco está no processo, na experiência e nas possibilidades de participação que podem ser mobilizadas por meio da arte. O modelo pode auxiliar o arteterapeuta a transformar demandas funcionais amplas em questões relacionadas ao processo artístico: 

Como a pessoa utiliza o corpo? 

Como estabelece contato com o material? 

Consegue sustentar uma ação? 

Explora suas propriedades? 

Faz escolhas? 

Organiza elementos no espaço? 

Percebe diferenças? 

Expressa afetos? 

Constrói associações? 

Produz significados? 

Essas perguntas permitem uma observação mais específica daquilo que acontece durante o fazer artístico. A Arte Reabilitação pode utilizar o potencial da experiência artística não apenas para “estimular funções”, mas para criar possibilidades de participação, expressão, comunicação e construção de estratégias. 

O ETC também pode contribuir para a avaliação do processo terapêutico. A observação das mudanças na maneira como a pessoa utiliza os materiais, sustenta ações, faz escolhas, organiza elementos, expressa afetos e constrói significados pode oferecer informações relevantes sobre o percurso terapêutico. A produção artística, portanto, pode ser compreendida conjuntamente ao processo de criação, às estratégias utilizadas, às mediações necessárias e às possibilidades de participação.

Considero que uma das maiores contribuições do ETC está justamente na possibilidade de construir uma prática intencional sem ser prescritiva. Ser direcional não significa controlar o processo artístico. Significa que o arteterapeuta possui uma hipótese sobre a experiência que pretende favorecer e observa continuamente a resposta da pessoa. O ETC não deve ser transformado em uma tabela de correspondência entre materiais e funções, nem em uma receita de intervenção. Sua potência está justamente em oferecer um referencial para o pensamento clínico, preservando a complexidade e a singularidade da experiência artística. 

A partir da minha experiência com a Arte Reabilitação e do estudo do Continuum das Terapias Expressivas, compreendo o ETC como uma ferramenta que pode contribuir para tornar mais explícito o raciocínio clínico do arteterapeuta e preservar algo que considero fundamental: a arte não precisa ser reduzida a uma técnica para produzir determinado resultado funcional. 

A experiência artística possui uma complexidade própria. Corpo, percepção, emoção, cognição, simbolização e criatividade podem estar presentes simultaneamente e se transformar durante o processo. É nesse sentido que compreendo o ETC como um modelo direcional. Não como uma receita, mas como um mapa. 

Um mapa não determina o caminho. Ele ajuda a compreender onde estamos, reconhecer possibilidades e escolher uma direção. Na Arte Reabilitação, essa possibilidade é especialmente significativa. Quando uma pessoa encontra dificuldades para realizar algo de determinada maneira, a experiência artística pode oferecer espaço para experimentar outras maneiras de fazer, perceber, expressar, comunicar e participar. 

E talvez seja justamente nesse espaço entre direção e liberdade, entre intenção terapêutica e abertura para o inesperado, que encontremos uma das maiores potências do Continuum das Terapias Expressivas para a prática do arteterapeuta. 

Por fim, gostaria de retomar uma reflexão de Lisa D. Hinz (2019) que considero especialmente significativa para pensar os caminhos atuais da Arteterapia. Ao discutir o desenvolvimento do campo, a autora apresenta o Continuum das Terapias Expressivas como uma possível teoria fundacional, capaz de oferecer uma base teórica comum para arteterapeutas com diferentes orientações. Hinz destaca que o ETC fornece princípios para reconhecer e discutir as propriedades terapêuticas das experiências expressivas e criativas, constituindo uma linguagem que pode aproximar diferentes perspectivas dentro da profissão. Como afirma a autora, “The Expressive Therapies Continuum can be considered one such foundational theory”. 

Essa reflexão dialoga diretamente com minha experiência na Arte Reabilitação. Para mim, o ETC pode contribuir para que a Arteterapia avance não apenas na prática, mas também na capacidade de explicitar o que fazemos, por que fazemos e o que torna nossa prática especificamente arteterapêutica. Ao fundamentar o raciocínio clínico nas próprias qualidades dos materiais, das experiências expressivas e dos processos criativos, o modelo possibilita uma prática intencional sem reduzir a arte a uma técnica de estimulação. Compreendo o ETC como uma base teórica que nos ajuda a compreender, sustentar e comunicar a especificidade da Arteterapia, preservando, ao mesmo tempo, sua potência criativa e sua abertura para o inesperado. 

Referências essenciais 

HINZ, Lisa D. Expressive Therapies Continuum: A Framework for Using Art in Therapy. 2. ed. New York: Routledge, 2020. 

KAGIN, Sandra L.; LUSEBRINK, Vija B. The expressive therapies continuum. Art Psychotherapy, v. 5, n. 4, p. 171–180, 1978. 

LUSEBRINK, Vija B. The Expressive Therapies Continuum (ETC): interdisciplinary bases of the ETC. International Journal of Art Therapy, v. 18, n. 2, p. 75–85, 2013. 

 LUSEBRINK, Vija B. Assessment and therapeutic application of the Expressive Therapies Continuum: implications for brain structures and functions. Art Therapy, v. 27, n. 4, p. 168 177, 2010. 

 LUSEBRINK, Vija B. Art therapy and the brain: an attempt to understand the underlying processes of art expression in therapy. Art Therapy: Journal of the American Art Therapy Association, v. 21, n. 3, p. 125–135, 2004. DOI: 10.1080/07421656.2004.10129496.

______________________________________________________________________________

Sobre a autora: Tania Cristina Freire



Psicóloga | Arteterapeuta | Arte Reabilitadora

Psicóloga — CRP 06/203692 | Arteterapeuta — UBAAT 08/053/0305

Arte Reabilitadora pela AACD

Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, com especialização em Neuropsicologia e Neuropsicopedagogia. Atua há 23 anos na área da reabilitação, desenvolvendo trabalho com crianças, jovens, adultos e pessoas idosas.

É idealizadora e coordenadora do Instituto ArteReab, voltado à formação, pesquisa e atuação em Arte Reabilitação. É responsável pela criação da primeira formação em Arte Reabilitação na modalidade de Aperfeiçoamento no Brasil, contribuindo para a consolidação e disseminação desse campo de atuação.

Sua trajetória profissional integra Psicologia, Arteterapia e Reabilitação, com ênfase na utilização da arte como recurso terapêutico e de reabilitação, considerando aspectos do desenvolvimento, funcionalidade e participação.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

TARSILA, A ARTE DE SER BRASILEIRA E A POTÊNCIA DE CRIAR A PRÓPRIA HISTÓRIA

 




Por Mônica Ruibal

No dia 7 de setembro, feriado em São Paulo, fui visitar a exposição imersiva de Tarsila do Amaral. Saí de lá com aquela sensação que algumas exposições provocam: a de que a gente não apenas olha para as obras, mas também se reconhece um pouco dentro delas.

Tarsila é uma dessas artistas que continuam conversando com o presente. Sua obra nos atravessa pela cor, pelas formas, pela brasilidade, pelo feminino, pela imaginação e, principalmente, pela liberdade de criar uma linguagem própria.

E talvez seja justamente por isso que Tarsila tenha tanto a contribuir para a Arteterapia.

Na Arteterapia, não buscamos simplesmente produzir uma obra bonita. A experiência artística pode abrir caminhos para que a pessoa se expresse, experimente possibilidades, reconheça aspectos de si e construa novas narrativas. A imagem pode dizer aquilo que, muitas vezes, ainda não encontrou palavras.

E Tarsila oferece um universo riquíssimo para esse encontro.

Suas cores, seus personagens, suas paisagens e suas formas nos convidam a olhar para o Brasil de uma maneira simbólica e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal. Há espaço para falar de identidade, pertencimento, memória, infância, desejos, raízes e também do feminino.

Recentemente, tive a oportunidade de trabalhar com um grupo de mulheres a partir de uma de suas obras, Carnaval em Madureira.

A proposta não era reproduzir Tarsila. Era partir dela.

A partir daquela imagem tão cheia de movimento, cor e referências brasileiras, cada mulher foi convidada a criar a sua própria narrativa. O que existe em mim que quer ganhar cor? O que me representa? Que lugar eu ocupo na minha própria história? O que eu quero mostrar de mim?



É aí que percebo uma das grandes potências da arte na Arteterapia: uma obra de um artista pode ser a porta de entrada para uma experiência que pertence inteiramente a quem cria.

Tarsila dizia, em sua busca artística, “Quero ser a pintora da minha gente”.


Essa frase sempre me toca.


Porque existe algo muito potente em assumir a autoria daquilo que somos. Em reconhecer nossas referências, nossa história, nossas raízes e, a partir delas, criar uma linguagem que seja nossa.

Talvez seja isso que a arte possa nos oferecer: não necessariamente respostas, mas espaço para experimentar quem podemos ser.

Ao caminhar pela exposição neste 



7 de setembro, olhando para aquelas obras tão brasileiras, pensei também em quantas histórias ainda podem nascer quando nos permitimos olhar para a nossa própria cultura com curiosidade e afeto.

Tarsila nos deixou imagens. A Arteterapia pode transformar essas imagens em experiências.

E cada pessoa, ao criar, pode descobrir que também é capaz de pintar — à sua maneira — a própria história.


______________________________________________________________________

Sobre a autora: Mônica Ruibal



De São Paulo, graduada em Pedagogia com pós graduação em Arteterapia e Arte Reabilitação

Especialista em autismo, atuando em equipe multidisciplinar.

Em 2024 foi convidada a compor um painel sobre Arteterapia no Tearteiro, maior Festival de Autismo e Arte da América Latina. 

Criadora do grupo Arte Autismo onde promove encontros e workshops sobre o tema.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O MEDO DE ERRAR E A DIFICULDADE DE EXPERIMENTAR COISAS NOVAS




Por Isa Ramos – RJ

@psicologaisaramos

Site:www.psicologaisaramos.com.br

Você já deixou de fazer alguma coisa porque pensou que não faria bem? Talvez tenha desistido de aprender algo novo porque imaginou que seria difícil, evitando uma oportunidade por medo de não conseguir ou simplesmente pensado: “Eu não levo jeito para isso”. O medo de errar pode aparecer de formas muito diferentes na nossa vida e, muitas vezes, nem percebemos o quanto ele influencia nossas escolhas.

Quando temos medo de errar, podemos começar a evitar situações novas. Não tentamos, não perguntamos, não começamos. Preferimos aquilo que já conhecemos porque ali existe uma sensação maior de segurança. Só que, ao evitar constantemente aquilo que nos causa insegurança, também podemos deixar de viver experiências importantes, descobrir novas habilidades e perceber que somos capazes de aprender.

Na Psicologia, podemos observar como nossos pensamentos influenciam a maneira como nos sentimos e agimos. Quando o erro é visto como sinal de incapacidade, fracasso ou motivo para sermos julgados, experimentar algo novo pode se tornar muito difícil. Pensamentos como “se eu não fizer direito, vão pensar mal de mim”, “eu deveria saber fazer isso” ou “é melhor nem tentar” podem aumentar a insegurança e fazer com que a pessoa desista antes mesmo de começar.

Existe também uma diferença importante entre querer fazer algo bem e acreditar que precisamos fazer tudo perfeitamente. Quando a cobrança é muito grande, o processo deixa de ser uma experiência e passa a ser uma avaliação constante. Em vez de pensar “vou experimentar”, pensamos “preciso fazer certo”. Em vez de curiosidade, aparece preocupação. Em vez de prazer, aparece cobrança.

Isso pode acontecer em muitas situações do cotidiano. Pode estar presente no trabalho, quando temos medo de apresentar uma ideia; nos estudos, quando evitamos uma matéria porque achamos que não somos bons o suficiente; nos relacionamentos, quando temos dificuldade de dizer o que pensamos por medo da reação do outro; ou até mesmo em atividades simples que gostaríamos de experimentar, mas nunca começamos.

É nesse ponto que a Arteterapia pode trazer uma experiência interessante para dentro do processo terapêutico. Não é preciso saber desenhar, pintar ou ter qualquer habilidade artística. A proposta não é produzir algo bonito ou perfeito. O processo de criação pode ser utilizado como um recurso para experimentar, perceber escolhas, observar sentimentos e refletir sobre a maneira como nos relacionamos com aquilo que estamos fazendo.

Imagine receber uma folha em branco e alguns materiais e ouvir apenas: “Experimente”. Para algumas pessoas, isso pode ser divertido. Para outras, pode ser bastante desconfortável. “Mas o que eu tenho que fazer?”, “Como é para ficar?”, “Está bonito?”, “E se eu fizer errado?”. Essas perguntas podem revelar algo interessante sobre a nossa relação com o controle, com a cobrança e com a necessidade de acertar.

Uma pessoa pode passar muito tempo tentando decidir qual cor usar antes de começar. Outra pode apagar várias vezes aquilo que fez. Outra pode ficar frustrada porque o resultado não ficou como imaginava. Outra pode procurar confirmação o tempo todo para saber se está fazendo certo. Nenhuma dessas situações, isoladamente, permite tirar conclusões sobre alguém. Mas, dentro de um processo terapêutico, elas podem se transformar em oportunidades de reflexão.

O que acontece quando algo não sai como você imaginava? Você consegue continuar? Consegue mudar de ideia? Consegue tentar de outra maneira? Consegue olhar para aquilo que fez sem imediatamente dizer que está ruim? Essas perguntas podem começar em uma atividade artística, mas muitas vezes levam a reflexões sobre outras áreas da vida.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, é possível trabalhar a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Uma pessoa que acredita que “não é criativa” pode evitar qualquer atividade que envolva criação. Como não experimenta, não desenvolve familiaridade com aquilo. E, depois, pode usar justamente essa falta de experiência como prova de que realmente não consegue.

O mesmo ciclo pode aparecer em outras situações. “Eu não sei falar em público.” Então a pessoa evita falar. “Eu não consigo aprender coisas novas.” Então não tenta. “Eu sempre faço tudo errado.” Então prefere não se arriscar. Quanto menos experimentamos, menos oportunidades temos de descobrir se aquilo que pensamos sobre nós mesmos é realmente tão verdadeiro quanto parece.

Isso não significa que precisamos nos obrigar a fazer tudo aquilo que nos causa medo. Cada pessoa tem seu ritmo, sua história e seus limites. O objetivo não é simplesmente se colocar em situações desconfortáveis, mas compreender o que está por trás desse medo e, quando fizer sentido, construir novas formas de lidar com ele.

A criação artística pode ser um espaço interessante justamente porque não existe necessariamente uma única maneira correta de fazer algo. Podemos escolher uma cor diferente, mudar o traço, experimentar um material, começar novamente ou simplesmente deixar algo como está. Aos poucos, a pessoa pode perceber que nem toda escolha precisa ser definitiva e que nem todo erro precisa ser corrigido imediatamente.

Talvez uma das coisas mais difíceis para muitos adultos seja fazer alguma coisa sem precisar ser bons nisso. Na infância, criar costuma ser mais espontâneo. Uma criança pode desenhar uma casa azul, uma árvore enorme ou uma pessoa com três braços e continuar brincando sem se preocupar tanto com o resultado. Com o tempo, aprendemos a comparar, avaliar e buscar aprovação. E até aquilo que poderia ser prazeroso pode acabar se transformando em mais uma situação em que precisamos provar que somos capazes.

Por isso, permitir-se fazer algo sem precisar fazer perfeitamente pode ser uma experiência importante. Não significa deixar de buscar melhorias ou não se importar com o resultado. Significa entender que aprender exige espaço para aquilo que ainda não sabemos fazer.

Talvez o objetivo não seja aprender a nunca errar. Isso não seria possível. Talvez seja construir uma relação diferente com o erro. Uma relação em que errar não signifique automaticamente “eu não sou capaz”. Em que seja possível pensar: “Não saiu como eu esperava, mas posso tentar de outra maneira”; “Eu ainda não sei fazer, mas posso aprender”; “Não ficou perfeito, mas isso não significa que não tenha valor”.

Na Psicologia e na Arteterapia, esse processo pode abrir espaço para observar essas experiências com mais atenção. A arte não precisa ser interpretada como se cada cor, desenho ou forma tivesse um significado escondido. O mais importante pode estar na experiência da pessoa enquanto cria, naquilo que ela percebe, sente, pensa e aprende sobre si mesma durante o processo.

O medo de errar pode nos proteger de algumas frustrações, mas também pode nos afastar de experiências que poderiam ser importantes. Toda vez que experimentamos algo novo, existe a possibilidade de não dar certo, mas também existe a possibilidade de descobrir uma habilidade que não conhecíamos, encontrar um novo interesse ou perceber que somos mais capazes de lidar com o inesperado do que imaginávamos.

Experimentar não significa ter certeza de que vamos conseguir. Significa permitir-se descobrir o que acontece quando tentamos.

E talvez seja justamente essa uma das coisas mais bonitas que a criação artística pode nos lembrar: não precisamos saber exatamente como algo vai terminar para começar.

Podemos começar, observar, mudar, experimentar e recomeçar.

Na arte, na terapia e, principalmente, na vida.

____________________________________________________________________________ 

Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano.   Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas. 


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O JOGO DE PINTAR, O CLOSLIEU E AS CONTRIBUIÇÕES PARA A ARTETERAPIA

 


Por Soraya Lucato

“Heureux comme un enfant qui peint” (“Feliz como uma criança que pinta”). Esta frase de Arno Stern resume a essência do Jogo de Pintar realizado no Closlieu — ou Cloliê: um espaço de felicidade que nasce da satisfação de uma necessidade humana fundamental: desenhar.

Ao traçar, a criança — e também o adulto que reencontra sua criança interna — toma consciência de suas próprias faculdades, reconhece a si mesmo e fortalece uma autonomia que, muitas vezes, a sociedade tenta limitar. O desenho, nesse contexto, não aparece como exercício artístico ou produção estética, mas como manifestação vital do ser humano.

Como o próprio nome indica, o Closlieu é um “lugar abrigado”. Trata-se de um espaço cuidadosamente concebido para o Jogo de Pintar, onde cada detalhe responde não a escolhas decorativas, mas a necessidades biológicas, corporais e sensoriais. É um ambiente sem janelas para o exterior, com iluminação e clima permanentes. Essa estabilidade técnica cria o que Stern chama de “estabilidade estrutural”.

Quando conheci Stern e a Semiologia da Expressão, em 2010, compreendi que, para o ser humano expressar-se em profundidade, não devemos corrigi-lo, conduzi-lo ou interpretá-lo constantemente. Precisamos, antes, criar as condições necessárias para que ele possa reencontrar aquilo que já existe dentro de si. O Jogo de Pintar revelou-se, para mim, como uma experiência profunda de auto regulação, presença e reconexão com a própria natureza humana.

Acreditar que uma criança — ou um adulto — quando protegido do julgamento e acolhido com dignidade, é capaz de reorganizar-se internamente e expressar algo essencial de si, representa um contraponto sensível à lógica de controle, desempenho e excesso de estímulos que atravessa a vida contemporânea. No Closlieu, não se busca resultado, interpretação ou análise da imagem. Busca-se oferecer um território seguro onde o gesto possa existir sem medo.

Minha trajetória de dezesseis anos como facilitadora (servant) e, hoje, como difusora direta desses estudos na América do Sul, tem sido atravessada por essa escuta do humano em sua dimensão mais profunda. Adaptar o rigor do Closlieu à densidade dos nossos territórios brasileiros e à vitalidade da nossa cultura não significou suavizar seus fundamentos, mas fortalecer sua potência terapêutica. O Closlieu brasileiro tornou-se, para mim, um espaço de resistência sensível, onde a precisão do material e a delicadeza da presença sustentam o direito à expressão livre de expectativas externas.

Embora o Jogo de Pintar não tenha sido concebido originalmente como prática arteterapêutica, sua estrutura oferece contribuições extremamente valiosas para a Arteterapia contemporânea. O Cloliê amplia a compreensão sobre o cuidado, a expressão espontânea e a construção de um espaço terapêutico verdadeiramente protegido.

Uma de suas maiores contribuições está na criação de um ambiente estável e previsível. A permanência da organização espacial, dos materiais, da iluminação e dos rituais oferece ao sistema nervoso uma sensação profunda de segurança. Para o arteterapeuta, essa compreensão transforma a maneira de pensar o setting terapêutico: o espaço deixa de ser apenas um local de atendimento e passa a atuar diretamente como elemento regulador da experiência emocional e corporal.

O Cloliê também auxilia o profissional a desenvolver uma presença menos invasiva e mais sustentadora. A postura do servant ensina que nem todo processo precisa ser conduzido, interpretado ou estimulado verbalmente. Muitas vezes, o que permite a emergência da expressão é justamente a qualidade silenciosa da presença. Essa perspectiva enriquece profundamente a prática arteterapêutica, especialmente em atendimentos com crianças, pessoas neuro divergentes, indivíduos traumatizados ou sujeitos que tiveram sua espontaneidade interrompida pelo excesso de controle externo.



Entretanto, talvez a maior contribuição do Jogo de Pintar para a Arteterapia esteja na compreensão do desenho a partir da Formulação. Na perspectiva desenvolvida por Stern, os traços que emergem no Jogo de Pintar não são entendidos como produções artísticas nem como representações simbólicas destinadas à interpretação. Eles pertencem à Formulação — manifestação de uma memória orgânica, portanto corporal e universal presente no ser humano.

Os códigos basais da Formulação são materializações dos gestos que o corpo humano aprendeu a realizar ao longo da existência da própria espécie humana. Esses movimentos fundamentais, registrados na memória orgânica desde a vida intrauterina, constituem a base de toda construção gráfica posterior.

A Formulação não pertence apenas à história individual de quem pinta. Ela pertence antes de tudo à espécie humana. Está ligada a uma memória ancestral do gesto, presente no próprio DNA humano, anterior à cultura, à linguagem e aos sistemas simbólicos. Por isso, determinadas figuras, ritmos e organizações gráficas emergem de forma recorrente em diferentes povos, tempos e contextos, independentemente de aprendizado técnico ou influência estética.

É a partir desses gestos primordiais que o ser humano desenvolve infinitas possibilidades de expressão. Antes do símbolo, antes da narrativa e antes da intenção de comunicar algo ao outro, existe o traço como necessidade corporal e vital. O desenho surge, primeiro, como manifestação do movimento humano em sua dimensão mais profunda.

O ato de traçar é, portanto, o registro visível de um gesto que o corpo da espécie aprendeu e continua precisando expressar. Cada linha, repetição, ritmo ou organização espacial carrega essa memória motora ancestral. O desenho, nessa perspectiva, não nasce inicialmente para representar o mundo externo, mas para responder a uma necessidade interna de inscrição, movimento e existência.

O corpo vem antes de tudo — e o desenho não escapa a essa origem. Antes de se tornar instrumento de comunicação, narrativa ou representação simbólica, o desenho é uma experiência física. É prolongamento do gesto, da respiração, do ritmo corporal e da presença no espaço.

Certamente, essa é uma das maiores contribuições de Stern: revelar que o desenho não começa na imagem, mas no corpo. Não começa no significado, mas no movimento. E compreender isso transforma profundamente a maneira como nos relacionamos com a expressão humana.

Para o arteterapeuta, essa compreensão produz uma mudança profunda de olhar. O profissional aprende a observar o processo expressivo em sua dimensão mais orgânica: o gesto, a repetição, o ritmo, a ocupação do espaço, a relação corporal com o suporte e a permanência de determinadas estruturas gráficas ao longo do tempo.

Nem toda imagem deseja ser traduzida em palavras. Muitas vezes, o excesso de leitura simbólica interrompe uma experiência que precisa permanecer no campo do vivido, do sensorial e do espontâneo. A Formulação nos lembra que existe uma inteligência do traço anterior à linguagem racional.

Outro aspecto fundamental é o reconhecimento da repetição como necessidade estruturante e não como bloqueio criativo. No Jogo de Pintar, formas e movimentos retornam porque participam de processos profundos de organização interna.

Diferente de um ateliê convencional, as paredes do Closlieu não funcionam apenas como divisórias. Elas se tornam parte viva do jogo. Recobertas por camadas de papel e vestígios de cores deixados ao longo do tempo, transformam-se em uma espécie de “pele” do ateliê — uma memória silenciosa das presenças e dos gestos.

Essas paredes sustentam o papel na altura adequada ao corpo do pintante, permitindo que o movimento aconteça de maneira livre e orgânica. O suporte vertical favorece a participação do corpo inteiro no ato de pintar. A gravidade auxilia o braço a encontrar firmeza e fluidez no traço, evitando tensões frequentemente causadas pela posição horizontal de uma mesa.

No Jogo de Pintar, o corpo não é separado do desenho. O gesto nasce inteiro: do movimento, da respiração, da presença e da necessidade profunda de deixar marcas.

O suporte vertical, a liberdade gestual e a participação do corpo inteiro no ato de pintar oferecem contribuições importantes para práticas arteterapêuticas voltadas à integração sensório-motora. O corpo deixa de ser apenas instrumento da expressão e passa a atuar como território ativo de reorganização emocional, relacional e perceptiva.

Além disso, o Jogo de Pintar e o espaço Cloliê mostram ao arteterapeuta a importância de proteger o espaço da comparação, da avaliação e da exposição. Em uma sociedade marcada pela performance e pela necessidade constante de validação, criar um território onde a pessoa possa existir sem precisar corresponder torna-se, por si só, um gesto terapêutico profundamente reparador.

Talvez seja justamente aí que reside a força mais silenciosa do Jogo de Pintar: recordar ao ser humano que ele não precisa produzir imagens para ser aceito, nem transformar sua expressão em linguagem compreensível para o outro. Existe um saber no gesto que antecede a explicação. Existe uma inteligência no corpo que se organiza enquanto traça.

O Jogo de Pintar nos convida, portanto, a retornar ao essencial: ao movimento, à presença, ao ritmo e à experiência de existir através do traço.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LUCATO, Soraya. Desenho Ancestral - Introdução aos estudos de Arno Stern e outras teorias sobre o desenho espontâneo. São Paulo - e-book Amazon

STERN, Arno. Heureux comme un enfant qui peint. Paris: Éditions du Rocher, 2005.


___________________________________________________________________________

Sobre a autora: Soraya Lucato



Arteterapeuta, artista plástica e arte-educadora