Por Tania Cristina Freire - SP
Nos últimos anos, tenho me dedicado ao estudo do Continuum das Terapias Expressivas – ETC (Expressive Therapies Continuum) e, ao ser convidada a escrever neste espaço, percebi que esta seria uma oportunidade para compartilhar não apenas conceitos sobre o modelo, mas principalmente algumas reflexões que surgiram a partir de minha experiência com a Arteterapia e, especialmente, com a Arte Reabilitação.
Ao longo da minha trajetória profissional, venho observando que trabalhar com arte em um contexto terapêutico é muito mais do que propor uma atividade ou analisar uma produção. O que acontece durante o fazer artístico sempre me chamou atenção: a maneira como a pessoa escolhe um material, como toca, como movimenta o corpo, como experimenta suas propriedades, como sustenta uma ação, como organiza o espaço, como reage às dificuldades e como, muitas vezes, encontra na própria experiência artística uma forma de comunicação.
Na prática da Arte Reabilitação, frequentemente recebemos demandas relacionadas à atenção, planejamento, controle de impulsos, coordenação motora, percepção, comunicação, memória, organização ou participação. Entretanto, quando essas demandas chegam ao setting de Arteterapia, elas não podem ser simplesmente transformadas em exercícios cognitivos ou motores. É preciso pensar como a arte pode criar uma experiência que mobilize essas funções sem perder aquilo que caracteriza a própria Arteterapia.
Passei a compreender o modelo como uma possibilidade de organizar meu pensamento clínico diante da experiência artística. Ele me auxilia a perguntar não apenas “o que vou fazer com esta pessoa?”, mas principalmente: “o que está acontecendo nesta experiência e que direção pode ser terapêutica neste momento?”
Quando observo uma criança que tem dificuldade para sustentar a atenção, por exemplo, não penso apenas em uma atividade que “trabalhe atenção”. Observo como ela entra em contato com o material, quanto tempo permanece na experiência, quais estímulos despertam seu interesse, como reage às mudanças, se consegue fazer escolhas e que tipo de mediação favorece sua permanência. Da mesma maneira, diante de uma pessoa com dificuldades motoras, não penso somente em como melhorar determinado movimento. Procuro compreender quais movimentos são possíveis, como o corpo participa da experiência e como o material pode ser adaptado para ampliar suas possibilidades de ação e expressão.
Essa forma de olhar me aproximou cada vez mais da compreensão do ETC como um modelo direcional que para mim, não significa conduzir rigidamente o processo ou determinar aquilo que a pessoa deve produzir. Significa ter um referencial que me permita observar, fazer escolhas e construir uma direção terapêutica, permanecendo aberta para aquilo que emerge durante o processo. Essa é uma das características que mais valorizo no modelo: ele me oferece direção sem retirar a liberdade e a imprevisibilidade próprias da experiência artística.
Na Arte Reabilitação, essa perspectiva também me ajuda a deslocar o olhar daquilo que a pessoa não consegue fazer para aquilo que pode ser construído a partir de suas possibilidades. A pergunta deixa de ser apenas “qual função está comprometida?” e passa a ser também “que experiência artística pode favorecer novas possibilidades de ação, percepção, expressão e participação?”
Foi nesse diálogo entre teoria e prática que passei a compreender o ETC não apenas como um modelo teórico, mas como uma ferramenta para o raciocínio clínico do arteterapeuta. A partir dessa experiência, considero importante apresentar o modelo e discutir de que maneira ele pode contribuir para a especificidade da Arteterapia, especialmente quando pensamos sua atuação no campo da reabilitação.
O Continuum das Terapias Expressivas
O Continuum das Terapias Expressivas (Expressive Therapies Continuum – ETC) foi desenvolvido por Sandra Kagin e Vija Lusebrink, sendo apresentado inicialmente em 1978, construído com uma teoria vasta e muito embasamento de teóricos importantes da arteterapia. O modelo surgiu a partir da observação dos processos envolvidos na produção artística em contextos terapêuticos e propõe uma compreensão sistemática das diferentes formas de processamento que podem ocorrer durante a experiência expressiva.
O ETC organiza esses processos em três níveis principais: Cinestésico-Sensorial (K-S), Perceptivo-Afetivo (P-A) e Cognitivo-Simbólico (C-Sy). A criatividade atravessa todo o continuum, não sendo compreendida como uma etapa final ou hierarquicamente superior. O modelo não pressupõe que esses níveis ocorram de maneira linear. Ao contrário, eles podem estar presentes simultaneamente, com diferentes intensidades, e podem se modificar de acordo com a pessoa, o material, a proposta e o contexto terapêutico.
No nível Cinestésico-Sensorial, a experiência está relacionada principalmente ao corpo, ao movimento, às sensações e à exploração das propriedades dos materiais. É o território da ação, do gesto, da pressão, do ritmo, da textura, da temperatura, da fluidez e da resistência. O fazer artístico pode favorecer experiências de organização corporal e sensorial, além de possibilitar diferentes formas de expressão que não dependem inicialmente da elaboração verbal.
No nível Perceptivo-Afetivo, ganham importância a percepção das formas, cores, relações espaciais e organização visual, juntamente com os aspectos emocionais mobilizados pela experiência. A pessoa começa a estabelecer relações entre o que percebe, sente e expressa. Nesse nível, elementos como escolha de cores, composição, contraste, organização espacial e características dos materiais podem participar de uma experiência de diferenciação, reconhecimento e expressão afetiva.
Já no nível Cognitivo-Simbólico, a experiência artística envolve maior participação de processos relacionados à organização, elaboração, representação, linguagem, pensamento e construção de significados. A imagem pode tornar-se um espaço para simbolização, associação de ideias, narrativa e reflexão.
A principal contribuição do ETC para o pensamento clínico do arteterapeuta está na possibilidade de relacionar processo artístico, características da pessoa, propriedades dos materiais e intenção terapêutica. O modelo oferece ao profissional um referencial para pensar por que determinado material ou proposta pode ser utilizado em determinado momento. Isso não significa estabelecer uma relação fixa entre material e nível do ETC. Um mesmo material pode favorecer experiências distintas dependendo da forma como é apresentado e utilizado.
A argila, por exemplo, pode possibilitar exploração cinestésico-sensorial por meio da manipulação, pressão e movimento. Entretanto, também pode favorecer organização perceptiva, expressão afetiva ou construção simbólica. O que define a experiência não é apenas o material, mas a relação estabelecida entre pessoa, material, proposta e contexto terapêutico. Nesse sentido, o ETC pode contribuir para que o arteterapeuta desenvolva uma prática mais intencional.
Um ponto importante destacado por Lusebrink (HINZ, 2020), é que o ETC pode ser utilizado independentemente da orientação teórica adotada pelo arteterapeuta, não se restringindo a uma abordagem específica de terapia. Isso se deve ao fato de que as expressões artísticas são, por natureza, multiníveis, envolvendo simultaneamente diferentes formas de processamento. Reconhecer essa complexidade permite ao profissional ampliar sua compreensão sobre os processos implicados no fazer artístico, considerando não apenas o produto final, mas também as dimensões sensoriais, cinestésicas, perceptivas, afetivas, cognitivas e simbólicas presentes em sua construção.
Na Arte Reabilitação, o ETC contribui para ampliar a compreensão das possibilidades terapêuticas da experiência artística diante de alterações cognitivas, motoras, sensoriais, emocionais e funcionais. Nesse contexto, o foco está no processo, na experiência e nas possibilidades de participação que podem ser mobilizadas por meio da arte. O modelo pode auxiliar o arteterapeuta a transformar demandas funcionais amplas em questões relacionadas ao processo artístico:
Como a pessoa utiliza o corpo?
Como estabelece contato com o material?
Consegue sustentar uma ação?
Explora suas propriedades?
Faz escolhas?
Organiza elementos no espaço?
Percebe diferenças?
Expressa afetos?
Constrói associações?
Produz significados?
Essas perguntas permitem uma observação mais específica daquilo que acontece durante o fazer artístico. A Arte Reabilitação pode utilizar o potencial da experiência artística não apenas para “estimular funções”, mas para criar possibilidades de participação, expressão, comunicação e construção de estratégias.
O ETC também pode contribuir para a avaliação do processo terapêutico. A observação das mudanças na maneira como a pessoa utiliza os materiais, sustenta ações, faz escolhas, organiza elementos, expressa afetos e constrói significados pode oferecer informações relevantes sobre o percurso terapêutico. A produção artística, portanto, pode ser compreendida conjuntamente ao processo de criação, às estratégias utilizadas, às mediações necessárias e às possibilidades de participação.
Considero que uma das maiores contribuições do ETC está justamente na possibilidade de construir uma prática intencional sem ser prescritiva. Ser direcional não significa controlar o processo artístico. Significa que o arteterapeuta possui uma hipótese sobre a experiência que pretende favorecer e observa continuamente a resposta da pessoa. O ETC não deve ser transformado em uma tabela de correspondência entre materiais e funções, nem em uma receita de intervenção. Sua potência está justamente em oferecer um referencial para o pensamento clínico, preservando a complexidade e a singularidade da experiência artística.
A partir da minha experiência com a Arte Reabilitação e do estudo do Continuum das Terapias Expressivas, compreendo o ETC como uma ferramenta que pode contribuir para tornar mais explícito o raciocínio clínico do arteterapeuta e preservar algo que considero fundamental: a arte não precisa ser reduzida a uma técnica para produzir determinado resultado funcional.
A experiência artística possui uma complexidade própria. Corpo, percepção, emoção, cognição, simbolização e criatividade podem estar presentes simultaneamente e se transformar durante o processo. É nesse sentido que compreendo o ETC como um modelo direcional. Não como uma receita, mas como um mapa.
Um mapa não determina o caminho. Ele ajuda a compreender onde estamos, reconhecer possibilidades e escolher uma direção. Na Arte Reabilitação, essa possibilidade é especialmente significativa. Quando uma pessoa encontra dificuldades para realizar algo de determinada maneira, a experiência artística pode oferecer espaço para experimentar outras maneiras de fazer, perceber, expressar, comunicar e participar.
E talvez seja justamente nesse espaço entre direção e liberdade, entre intenção terapêutica e abertura para o inesperado, que encontremos uma das maiores potências do Continuum das Terapias Expressivas para a prática do arteterapeuta.
Por fim, gostaria de retomar uma reflexão de Lisa D. Hinz (2019) que considero especialmente significativa para pensar os caminhos atuais da Arteterapia. Ao discutir o desenvolvimento do campo, a autora apresenta o Continuum das Terapias Expressivas como uma possível teoria fundacional, capaz de oferecer uma base teórica comum para arteterapeutas com diferentes orientações. Hinz destaca que o ETC fornece princípios para reconhecer e discutir as propriedades terapêuticas das experiências expressivas e criativas, constituindo uma linguagem que pode aproximar diferentes perspectivas dentro da profissão. Como afirma a autora, “The Expressive Therapies Continuum can be considered one such foundational theory”.
Essa reflexão dialoga diretamente com minha experiência na Arte Reabilitação. Para mim, o ETC pode contribuir para que a Arteterapia avance não apenas na prática, mas também na capacidade de explicitar o que fazemos, por que fazemos e o que torna nossa prática especificamente arteterapêutica. Ao fundamentar o raciocínio clínico nas próprias qualidades dos materiais, das experiências expressivas e dos processos criativos, o modelo possibilita uma prática intencional sem reduzir a arte a uma técnica de estimulação. Compreendo o ETC como uma base teórica que nos ajuda a compreender, sustentar e comunicar a especificidade da Arteterapia, preservando, ao mesmo tempo, sua potência criativa e sua abertura para o inesperado.
Referências essenciais
HINZ, Lisa D. Expressive Therapies Continuum: A Framework for Using Art in Therapy. 2. ed. New York: Routledge, 2020.
KAGIN, Sandra L.; LUSEBRINK, Vija B. The expressive therapies continuum. Art Psychotherapy, v. 5, n. 4, p. 171–180, 1978.
LUSEBRINK, Vija B. The Expressive Therapies Continuum (ETC): interdisciplinary bases of the ETC. International Journal of Art Therapy, v. 18, n. 2, p. 75–85, 2013.
LUSEBRINK, Vija B. Assessment and therapeutic application of the Expressive Therapies Continuum: implications for brain structures and functions. Art Therapy, v. 27, n. 4, p. 168 177, 2010.
LUSEBRINK, Vija B. Art therapy and the brain: an attempt to understand the underlying processes of art expression in therapy. Art Therapy: Journal of the American Art Therapy Association, v. 21, n. 3, p. 125–135, 2004. DOI: 10.1080/07421656.2004.10129496.
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Sobre a autora: Tania Cristina Freire
Psicóloga | Arteterapeuta | Arte Reabilitadora
Psicóloga — CRP 06/203692 | Arteterapeuta — UBAAT 08/053/0305
Arte Reabilitadora pela AACD
Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, com especialização em Neuropsicologia e Neuropsicopedagogia. Atua há 23 anos na área da reabilitação, desenvolvendo trabalho com crianças, jovens, adultos e pessoas idosas.
É idealizadora e coordenadora do Instituto ArteReab, voltado à formação, pesquisa e atuação em Arte Reabilitação. É responsável pela criação da primeira formação em Arte Reabilitação na modalidade de Aperfeiçoamento no Brasil, contribuindo para a consolidação e disseminação desse campo de atuação.
Sua trajetória profissional integra Psicologia, Arteterapia e Reabilitação, com ênfase na utilização da arte como recurso terapêutico e de reabilitação, considerando aspectos do desenvolvimento, funcionalidade e participação.



















