“O essencial é invisível aos olhos.”
Antoine de Saint-Exupéry
Por Ana Paula de Queiroz - RJ
anaq_psi@gmail.com
Para adentrar na temática do amor na teoria, é importante compreender sua camada essencial: a experiência. Convido você, então, a uma breve respiração consciente, um momento de conexão com o presente e consigo mesmo, no aqui e agora. Perceba como você está sentado. Tome consciência do seu corpo. Coloque sua atenção na maneira como o ar entra e sai pelo nariz. É um convite para entrar em contato com o que você está sentindo e com a forma como percebe o seu entorno. Assim como trabalhamos na Gestalt-terapia, a percepção de si, por meio da observação e da atenção, é central para o processo terapêutico: o trabalho consigo se dá através de perguntas e respostas em que o estado de presença é a chave.
Neste artigo, o amor é a possibilidade de tomarmos consciência da potência que carregamos. É a partir dessa perspectiva, experiencial antes de teórica, que proponho experimentá-la, no sentido que a Gestalt-terapia dá à palavra: vivenciar, no aqui e agora, mais do que explicar.
Desaprender o amor
Antes de falar sobre o amor, é preciso abrir mão de algumas crenças muito sólidas que carregamos sobre ele. Boa parte do que aprendemos a chamar de amor vem de uma herança cultural, feita de filmes, canções e finais felizes, que o equipara à paixão, ao desejo ou ao compromisso exclusivo. São crenças profundamente pessoais e, justamente por isso, costumam atrapalhar qualquer conversa mais cuidadosa sobre o tema.
A psicóloga Barbara Fredrickson nos propõe um deslocamento: olhar para o amor para além da ótica do “romance”. Para ela, o amor não é necessariamente eterno, incondicional nem exclusivo. Essas ideias são mais uma projeção do nosso desejo do que uma realidade. Visto a partir do corpo, o amor tem um alcance bem maior do que imaginamos: não está reservado apenas a família, amigos e parceiros, mas, ao mesmo tempo, é muito mais sensível ao contexto e ao instante do que gostaríamos de admitir.
O amor como micromomento de conexão
Em vez de um sentimento permanente, Fredrickson descreve o amor como uma emoção: um estado momentâneo que surge e flui pelo corpo e pela mente, em constante movimento. Sob esse ponto de vista, o amor é uma soma de micromomentos de conexão com outras pessoas.
Cada um desses micromomentos se desenvolve principalmente no encontro: duas pessoas estabelecem, por um instante, uma conexão especial. Um grupo de neurônios se reflete no cérebro próximo, e o corpo passa a produzir substâncias que despertam sensações de bem estar e o desejo de gerar bem-estar também no outro. O amor seria, assim, um nutriente essencial: uma conexão verdadeira que altera a nossa bioquímica e que, segundo a autora, chega a influenciar a forma como as nossas células se expressam.
Não se trata de algo grandioso ou raro. Quando entendemos como o corpo funciona, percebemos que o amor pode ser encontrado várias vezes ao longo de um único dia.
Ressonância de positividade
Para nomear esse fenômeno, Fredrickson cria uma metáfora: a do espelho. No momento da conexão, uma pessoa espelha o estado emocional da outra; por um instante, as duas se tornam “uma coisa maior”, e essa troca libera uma quantidade enorme de energia. A autora chama isso de ressonância de positividade.
Diferente de outras emoções positivas, que aquecem mas não voltam refletidas, o amor cria uma ressonância interpessoal profunda: a própria abertura e vivacidade de uma pessoa evocam a abertura da outra, e são evocadas por ela. Essa sincronia se torna visível em gestos concretos, como completar a frase do outro, espelhar posturas, os sorrisos, os corpos que se inclinam para a frente e as expressões verbais e não verbais de atenção e cuidado.
Mas a ressonância tem uma condição prévia: a segurança. Pessoas em estado de alerta permanente, marcadas por insegurança, ansiedade ou solidão, captam sinais de perigo onde eles não existem, e esse alerta cancela a positividade. Como sintetiza a autora, sentir insegurança é o primeiro obstáculo para o amor.
Presença: a condição do nosso tempo
Aqui voltamos ao convite do início. O amor exige uma presença física: um contato olho no olho, um encontro que envolva os sentidos. E é exatamente isso que o mundo contemporâneo tende a nos roubar. A nossa atenção está quase sempre dirigida ao virtual, ao trabalho, à pressa de todos os dias. No meio das ocupações e distrações do cotidiano, raramente temos o suficiente para nos conectar de verdade.
A sociedade pós-moderna se move na direção da imersão na tecnologia e da valorização de altas cargas de trabalho. O amor, ao contrário, pede uma diminuição do ritmo. Pede presença. Por isso ele não é um acaso, e sim algo a que devemos prestar atenção e cultivar diariamente.
O encontro terapêutico como espaço de ressonância
É nesse ponto que essas ideias dialogam de forma fértil com a clínica. No espaço terapêutico, aquela segurança que Fredrickson aponta como condição do amor é também a base do vínculo: um ambiente protegido de presença e atenção, em que os micromomentos de conexão deixam de ser acaso e passam a ser cultivados de forma intencional.
Foi nos atendimentos na clínica que pude observar de perto essa potência. Na Gestalt-terapia, como nos lembra Jorge Ponciano Ribeiro (2011), o trabalho acontece no aqui e agora da relação: é no contato presente entre terapeuta e cliente que a experiência ganha forma. O experimento, recurso tão característico dessa abordagem, convida a pessoa a experimentar o que sente, e não apenas a falar sobre isso. Nesse instante de sintonia, instala-se justamente aquela ressonância descrita por Fredrickson: corpos que se inclinam, atenção que se espelha, uma energia que não pertence a um indivíduo só, mas circula entre os dois.
Pensar o amor como ressonância de positividade desafia a noção clássica e ocidental de que ele pertence a quem o sente. Na verdade, o amor reverbera e se desdobra entre as pessoas, como uma corrente que atravessa todas as partes da relação. No encontro terapêutico, esse entendimento reposiciona o vínculo: não como uma técnica aplicada sobre alguém, mas como uma qualidade de presença construída no contato.
Cultivar todos os dias
Aprender como o amor funciona pode transformar a forma como vivemos. Quando passamos a valorizar e a priorizar os momentos em que compartilhamos emoções positivas, entramos no que Fredrickson chama de espiral ascendente: pequenos momentos de conexão que se acumulam e, com o tempo, nos tornam pessoas mais integradas, mais saudáveis e mais capazes de cuidar.
Algumas práticas simples ajudam a sustentar essa atenção no cotidiano: refletir sobre os próprios vínculos, buscar criar conexões ao longo do dia, narrar a própria experiência com aceitação e gentileza, usar o próprio sofrimento como oportunidade de se conectar e cultivar compaixão nas pequenas situações da vida.
Termino voltando ao corpo. Respire mais uma vez, com consciência, e perceba que o amor não está num futuro idealizado nem num passado guardado: ele acontece no aqui e agora, no contato, na relação. É um convite, também na clínica e na vida, a uma presença que, ao se abrir ao outro, descobre a própria potência.
Referências
FREDRICKSON, Barbara L. Amor 2.0. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2015.
RIBEIRO, Jorge Ponciano. Conceito de mundo e de pessoa em Gestalt-terapia: revisitando o caminho. São Paulo: Summus, 2011.
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009.
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Sobre a autora: Ana Paula de Queiroz
Psicóloga e psicopedagoga, com especialização em Gestão de Pessoas, formação em Gestalt, MBA em Psicologia Positiva e atualmente em pós-graduação na área do Luto.
Ao longo de 30 anos de experiência, construí uma trajetória diversificada nas áreas clínica, escolar, acadêmica, organizacional e do trabalho, sempre dedicada ao desenvolvimento humano.
Tenho um carinho especial pelo trabalho com mulheres e adolescentes, além de gostar de compartilhar conhecimento por meio de palestras.
Atualmente, desenvolvo o projeto Transbordar, voltado à orientação profissional, ajudando pessoas a descobrirem seus talentos, fazerem escolhas conscientes e construírem trajetórias alinhadas aos seus propósitos.





















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