Por Soraya Lucato
“Heureux comme un enfant qui peint” (“Feliz como uma criança
que pinta”). Esta frase de Arno Stern resume a essência do Jogo de Pintar
realizado no Closlieu — ou Cloliê: um espaço de felicidade que nasce da
satisfação de uma necessidade humana fundamental: desenhar.
Ao traçar, a criança — e também o adulto que reencontra sua criança
interna — toma consciência de suas próprias faculdades, reconhece a si mesmo e
fortalece uma autonomia que, muitas vezes, a sociedade tenta limitar. O
desenho, nesse contexto, não aparece como exercício artístico ou produção
estética, mas como manifestação vital do ser humano.
Como o próprio nome indica, o Closlieu é um “lugar abrigado”. Trata-se
de um espaço cuidadosamente concebido para o Jogo de Pintar, onde cada detalhe
responde não a escolhas decorativas, mas a necessidades biológicas, corporais e
sensoriais. É um ambiente sem janelas para o exterior, com iluminação e clima
permanentes. Essa estabilidade técnica cria o que Stern chama de “estabilidade
estrutural”.
Quando conheci Stern e a Semiologia da Expressão, em 2010, compreendi
que, para o ser humano expressar-se em profundidade, não devemos corrigi-lo,
conduzi-lo ou interpretá-lo constantemente. Precisamos, antes, criar as
condições necessárias para que ele possa reencontrar aquilo que já existe
dentro de si. O Jogo de Pintar revelou-se, para mim, como uma experiência
profunda de auto regulação, presença e reconexão com a própria natureza humana.
Acreditar que uma criança — ou um adulto — quando protegido do
julgamento e acolhido com dignidade, é capaz de reorganizar-se internamente e
expressar algo essencial de si, representa um contraponto sensível à lógica de
controle, desempenho e excesso de estímulos que atravessa a vida contemporânea.
No Closlieu, não se busca resultado, interpretação ou análise da imagem.
Busca-se oferecer um território seguro onde o gesto possa existir sem medo.
Minha trajetória de dezesseis anos como facilitadora (servant) e,
hoje, como difusora direta desses estudos na América do Sul, tem sido
atravessada por essa escuta do humano em sua dimensão mais profunda. Adaptar o
rigor do Closlieu à densidade dos nossos territórios brasileiros e à vitalidade
da nossa cultura não significou suavizar seus fundamentos, mas fortalecer sua
potência terapêutica. O Closlieu brasileiro tornou-se, para mim, um espaço de
resistência sensível, onde a precisão do material e a delicadeza da presença
sustentam o direito à expressão livre de expectativas externas.
Embora o Jogo de Pintar não tenha sido concebido originalmente como
prática arteterapêutica, sua estrutura oferece contribuições extremamente
valiosas para a Arteterapia contemporânea. O Cloliê amplia a compreensão sobre
o cuidado, a expressão espontânea e a construção de um espaço terapêutico
verdadeiramente protegido.
Uma de suas maiores contribuições está na criação de um ambiente
estável e previsível. A permanência da organização espacial, dos materiais, da
iluminação e dos rituais oferece ao sistema nervoso uma sensação profunda de
segurança. Para o arteterapeuta, essa compreensão transforma a maneira de
pensar o setting terapêutico: o espaço deixa de ser apenas um local de
atendimento e passa a atuar diretamente como elemento regulador da experiência
emocional e corporal.
O Cloliê também auxilia o profissional a desenvolver uma presença
menos invasiva e mais sustentadora. A postura do servant ensina que nem todo
processo precisa ser conduzido, interpretado ou estimulado verbalmente. Muitas
vezes, o que permite a emergência da expressão é justamente a qualidade
silenciosa da presença. Essa perspectiva enriquece profundamente a prática
arteterapêutica, especialmente em atendimentos com crianças, pessoas neuro
divergentes, indivíduos traumatizados ou sujeitos que tiveram sua espontaneidade
interrompida pelo excesso de controle externo.
Entretanto, talvez a maior contribuição do Jogo de Pintar para a
Arteterapia esteja na compreensão do desenho a partir da Formulação. Na
perspectiva desenvolvida por Stern, os traços que emergem no Jogo de Pintar não
são entendidos como produções artísticas nem como representações simbólicas
destinadas à interpretação. Eles pertencem à Formulação — manifestação de uma
memória orgânica, portanto corporal e universal presente no ser humano.
Os códigos basais da Formulação são materializações dos gestos que o
corpo humano aprendeu a realizar ao longo da existência da própria espécie
humana. Esses movimentos fundamentais, registrados na memória orgânica desde a
vida intrauterina, constituem a base de toda construção gráfica posterior.
A Formulação não pertence apenas à história individual de quem pinta.
Ela pertence antes de tudo à espécie humana. Está ligada a uma memória
ancestral do gesto, presente no próprio DNA humano, anterior à cultura, à
linguagem e aos sistemas simbólicos. Por isso, determinadas figuras, ritmos e
organizações gráficas emergem de forma recorrente em diferentes povos, tempos e
contextos, independentemente de aprendizado técnico ou influência estética.
É a partir desses gestos primordiais que o ser humano desenvolve
infinitas possibilidades de expressão. Antes do símbolo, antes da narrativa e
antes da intenção de comunicar algo ao outro, existe o traço como necessidade
corporal e vital. O desenho surge, primeiro, como manifestação do movimento
humano em sua dimensão mais profunda.
O ato de traçar é, portanto, o registro visível de um gesto que o
corpo da espécie aprendeu e continua precisando expressar. Cada linha,
repetição, ritmo ou organização espacial carrega essa memória motora ancestral.
O desenho, nessa perspectiva, não nasce inicialmente para representar o mundo
externo, mas para responder a uma necessidade interna de inscrição, movimento e
existência.
O corpo vem antes de tudo — e o desenho não escapa a essa origem.
Antes de se tornar instrumento de comunicação, narrativa ou representação
simbólica, o desenho é uma experiência física. É prolongamento do gesto, da
respiração, do ritmo corporal e da presença no espaço.
Certamente, essa é uma das maiores contribuições de Stern: revelar que
o desenho não começa na imagem, mas no corpo. Não começa no significado, mas no
movimento. E compreender isso transforma profundamente a maneira como nos
relacionamos com a expressão humana.
Para o arteterapeuta, essa compreensão produz uma mudança profunda de
olhar. O profissional aprende a observar o processo expressivo em sua dimensão
mais orgânica: o gesto, a repetição, o ritmo, a ocupação do espaço, a relação
corporal com o suporte e a permanência de determinadas estruturas gráficas ao
longo do tempo.
Nem toda imagem deseja ser traduzida em palavras. Muitas vezes, o
excesso de leitura simbólica interrompe uma experiência que precisa permanecer
no campo do vivido, do sensorial e do espontâneo. A Formulação nos lembra que
existe uma inteligência do traço anterior à linguagem racional.
Outro aspecto fundamental é o reconhecimento da repetição como
necessidade estruturante e não como bloqueio criativo. No Jogo de Pintar,
formas e movimentos retornam porque participam de processos profundos de
organização interna.
Diferente de um ateliê convencional, as paredes do Closlieu não
funcionam apenas como divisórias. Elas se tornam parte viva do jogo. Recobertas
por camadas de papel e vestígios de cores deixados ao longo do tempo,
transformam-se em uma espécie de “pele” do ateliê — uma memória silenciosa das
presenças e dos gestos.
Essas paredes sustentam o papel na altura adequada ao corpo do
pintante, permitindo que o movimento aconteça de maneira livre e orgânica. O
suporte vertical favorece a participação do corpo inteiro no ato de pintar. A
gravidade auxilia o braço a encontrar firmeza e fluidez no traço, evitando
tensões frequentemente causadas pela posição horizontal de uma mesa.
No Jogo de Pintar, o corpo não é separado do desenho. O gesto nasce
inteiro: do movimento, da respiração, da presença e da necessidade profunda de
deixar marcas.
O suporte vertical, a liberdade gestual e a participação do corpo
inteiro no ato de pintar oferecem contribuições importantes para práticas
arteterapêuticas voltadas à integração sensório-motora. O corpo deixa de ser
apenas instrumento da expressão e passa a atuar como território ativo de
reorganização emocional, relacional e perceptiva.
Além disso, o Jogo de Pintar e o espaço Cloliê mostram ao
arteterapeuta a importância de proteger o espaço da comparação, da avaliação e
da exposição. Em uma sociedade marcada pela performance e pela necessidade
constante de validação, criar um território onde a pessoa possa existir sem
precisar corresponder torna-se, por si só, um gesto terapêutico profundamente
reparador.
Talvez seja justamente aí que reside a força mais silenciosa do Jogo
de Pintar: recordar ao ser humano que ele não precisa produzir imagens para ser
aceito, nem transformar sua expressão em linguagem compreensível para o outro.
Existe um saber no gesto que antecede a explicação. Existe uma inteligência no
corpo que se organiza enquanto traça.
O Jogo de Pintar nos convida, portanto, a retornar ao essencial: ao
movimento, à presença, ao ritmo e à experiência de existir através do traço.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LUCATO, Soraya. Desenho Ancestral - Introdução
aos estudos de Arno Stern e outras teorias sobre o desenho espontâneo. São
Paulo - e-book Amazon
STERN, Arno. Heureux comme un enfant qui peint. Paris: Éditions du
Rocher, 2005.
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Sobre a autora: Soraya Lucato





















