Por Adriana Limeira do Nascimento e Anderson Amaral - CE
A atividade de arteterapia realizada na
Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) em Mossoró Rio Grande do
Norte teve como proposta promover uma experiência criativa capaz de estimular
percepção, cognição e expressão emocional por meio da arte. Inspirada em
elementos do expressionismo abstrato, a atividade buscou aproximar as
participantes de uma linguagem artística livre, na qual formas, linhas e cores
ganham significado a partir da interpretação individual.
Como referência estética e conceitual,
utilizou-se o universo artístico de Jackson
Pollock, cuja obra é marcada por movimentos espontâneos, linhas
dinâmicas e composições não figurativas. Esse tipo de expressão artística
convida o observador a interagir com a imagem de forma intuitiva, estimulando a
imaginação, a percepção visual e a liberdade criativa. Em suas obras, a tela torna-se um espaço de
movimento, energia e espontaneidade, onde cores e linhas revelam emoções e
percepções subjetivas. Essa percepção de liberdade
criativa também norteou a atividade desenvolvida com as idosas,
incentivando cada participante a explorar as cores e os espaços do desenho de
forma livre, sem padrões rígidos, valorizando a expressão individual, a
criatividade e o prazer no processo artístico (KILIÇ; DEDE, 2024).
A criatividade é um dos maiores legados
do ser humano. Na velhice ela representa um exemplo poderoso do que ainda é
possível realizar ao longo do processo de envelhecimento. Embora a criatividade
sempre esteja presente nessa fase da vida, muitas pessoas deixam de
reconhecê-la ou desenvolvê-la porque, por muito tempo, a própria sociedade
negou, trivializou ou desvalorizou o potencial criativo associado ao avançar da
idade (KILGORE, 2024).
A proposta da oficina partiu da ideia de
que a arte pode funcionar como um espaço de experimentação sensível e criativo,
no qual o idoso é convidado não apenas a executar uma tarefa, mas a explorar formas de
sentir, escolher e criar,
ressignificando experiências e fortalecendo sua expressão subjetiva.
Materiais
Utilizados
Para a realização da atividade foram
utilizados desenhos compostos por múltiplos traços pretos abstratos, formando diversos espaços em branco
entre as linhas. Esses traços criavam áreas delimitadas que convidavam as
participantes a observar os formatos e decidir como preencher cada espaço com
cores.
Desenho elaborado no site GPT
Para o processo de pintura foram
utilizadas canetinhas coloridas do tipo Bobby Book, frequentemente utilizadas em
atividades de colorir. A escolha desse material teve duas razões principais. A
primeira foi a intensidade das cores, que se destacam com maior vivacidade
sobre os traços pretos do desenho, criando um contraste visual mais marcante e
valorizando as produções artísticas realizadas pelas participantes.
A segunda razão refere-se às condições motoras
frequentemente presentes no envelhecimento. Muitos idosos apresentam diminuição da
força de preensão e menor pressão exercida pelos dedos, o que pode dificultar o
uso de lápis de cor, que exigem maior pressão para produzir pigmentação
adequada. As canetinhas, por exigirem menor esforço de pressão, facilitam o processo de pintura,
tornando a atividade mais acessível, confortável e inclusiva.
Dessa forma, a escolha do material
buscou não apenas favorecer o resultado visual da atividade, mas também adaptar a proposta às
características motoras das participantes, promovendo maior autonomia durante a
execução.
Desenvolvimento
da Atividade
Cada idosa recebeu uma folha contendo o
desenho com os traços pretos e os espaços em branco. Inicialmente, foram
convidadas a observar atentamente as linhas e os espaços formados entre elas,
percebendo diferentes formas e possibilidades de preenchimento.
Em seguida, utilizando as canetinhas
coloridas, as participantes foram orientadas a preencher livremente
os espaços delimitados, escolhendo as cores e a forma de
colorir de acordo com sua preferência. Não havia uma regra estética definida;
cada pessoa poderia explorar combinações de cores, contrastes e padrões de
forma espontânea.
Durante o processo, foi possível
observar que a atividade mobilizava diferentes funções cognitivas e motoras. O
ato de escolher cores, delimitar os espaços e organizar o preenchimento exigia atenção visual,
coordenação motora fina, percepção espacial e tomada de decisão.
Além disso, a atividade proporcionou um
ambiente de tranquilidade e concentração, favorecendo momentos de envolvimento
criativo e expressão pessoal.
Sentido
Simbólico da Atividade
A proposta da oficina também trouxe uma
dimensão simbólica importante. O desenho inicial apresentava espaços vazios
entre os traços pretos, e a atividade convidava as participantes a preencher esses vazios
com cores.
Esse gesto simples de colorir tornou-se
uma metáfora delicada sobre a própria experiência de vida. Assim como no papel,
onde áreas em branco aguardavam intervenção, a atividade sugeria a
possibilidade de ressignificar os “vazios” da vida, dando cor e sentido a espaços que
antes pareciam silenciosos.
Nesse contexto, colorir os intervalos
entre o preto e o branco transformou-se em um gesto simbólico de criação e
reconstrução. Cada escolha de cor representava uma forma de expressão pessoal,
permitindo que as participantes transformassem linhas abstratas em produções
únicas e significativas.
Benefícios
Observados
Durante a realização da atividade foi
possível observar diversos aspectos positivos entre as participantes. A
proposta favoreceu o engajamento e a participação ativa, estimulando a curiosidade e o
interesse pela tarefa.
Também foram percebidos momentos de concentração,
relaxamento e satisfação,
especialmente quando as idosas observavam o resultado final de suas produções.
O compartilhamento das pinturas entre as participantes também estimulou
conversas e comentários, fortalecendo a interação social.
Além disso, a atividade contribuiu para
a estimulação
cognitiva,
envolvendo processos como atenção, percepção visual, planejamento e tomada de
decisão, bem como para o exercício da coordenação motora fina.
Considerações
Finais
A experiência mostrou que propostas
simples de arteterapia, inspiradas na arte moderna e adaptadas às condições
motoras e cognitivas dos idosos, podem contribuir significativamente para a
estimulação cognitiva, emocional e social de pessoas idosas institucionalizadas.
Mais do que uma atividade de colorir, a
oficina tornou-se um momento de expressão criativa, reflexão e encontro. Ao
transformar os espaços em branco do papel em campos de cor, cada participante
também pôde experimentar a possibilidade de dar novos significados
a seus próprios espaços internos,
reafirmando que a criatividade e a expressão continuam presentes em todas as
fases da vida.
Referência
KILIÇ,
A.G.; DEDE, B.. Unlimited
freedom in art: Jackson Pollock. Journal for the Interdisciplinary
Art and Education, v. 5, n. 1, p. 67-76, 2024.
WINAKUR, Jerald. What
are we going to do with Dad? Caring for the Ages, [S.l.], 2024.
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Sobre os autores:
Adriana Limeira do Nascimento: Arteterapeuta,
Terapeuta Ocupacional, Pós-graduada em Saúde Mental, Pós-graduada em Saúde
Pública e Brinquedista Hospitalar – Autora do Livro Jogos de Estimulação
Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do
jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.
Anderson Amaral:
Arteterapeuta, Mestre em Saúde e Tecnologia, Pós-graduação em Geriatria e
Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia com ênfase em Reabilitação
Cognitiva, Pós-graduação em Neurociência e Longevidade, Coordenador do Projeto
NeuroGeriatria (Faculdade de Medicina UNIG). Autor
dos Livros Jogos Cognitivos um olhar multidisciplinar; Jogos de Estimulação
Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do
jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.




























