segunda-feira, 9 de março de 2026

ARTE DOS SENTIDOS: ESTIMULAÇÃO SENSORIAL E REABILITAÇÃO COGNITIVA PARA IDOSOS

 

A proposta da vivência Arte dos Sentidos nasce do desejo de ir além das atividades tradicionais oferecidas a idosos com declínio cognitivo. Em vez de focar apenas em jogos ou exercícios mentais convencionais, optou-se por uma abordagem arteterapêutica sensorial, afetiva e centrada na pessoa. A ideia foi criar experiências que tocassem o corpo, a memória e a emoção ao mesmo tempo, permitindo que a arte deixasse de ser apenas algo para se ver e passasse a ser algo para sentir, lembrar e viver.

Nesse caminho, utilizamos o conceito de nutrição imagética, entendendo a arte como um alimento simbólico para o cérebro. Imagens, cheiros, sabores e texturas passam a nutrir funções cognitivas, emocionais e relacionais. Assim, uma pintura deixa de ser apenas contemplada e passa a provocar lembranças, afetos e histórias. Essa perspectiva dialoga com experiências como o programa Meet Me at MoMA, do Museu de Arte Moderna de Nova York, que convida pessoas com demência leve e seus cuidadores a observar e conversar sobre obras de arte, promovendo integração social, estímulo cognitivo e consciência sobre o envelhecimento com demência (YIet al., 2024).

Além disso, sabe-se que atividades que envolvem os sentidos, o movimento e o pensamento são fundamentais para proteger o intelecto e reduzir a deterioração cognitiva na velhice. A arteterapia, nesse contexto, mostra-se uma ferramenta potente de promoção da saúde, pois favorece autoestima, melhora cognição, as relações sociais e qualidade de vida (JARDIM et al., 2020).

A vivência Arte dos Sentidos foi realizada com idosas institucionalizados, com idades entre 75 e 90 anos, todos com baixa capacidade funcional e sinais de declínio cognitivo leve. A proposta não era estimular apenas sentidos isolados, mas criar experiências significativas que pudessem acessar estimular, memórias, emoções e formas de expressão de maneira respeitosa, criativa, acessível e sensível.

A arteterapia, enquanto campo integrador, permite acessar conteúdos internos que muitas vezes permanecem silenciosos no cotidiano do idoso institucionalizado. Por meio da arte, cada participante é convidado a sentir, lembrar, refletir, interagir e criar não apenas fazer uma atividade, mas viver e experimentar algo que tenha sentido e significado.

Objetivos da Vivência

  • Promover a nutrição imagética com obras ligadas ao cotidiano e às lembranças afetivas.
  • Estimular de forma integrada os sentidos: visão, tato, olfato e paladar.
  • Favorecer atenção, percepção e memória.
  • Incentivar a expressão emocional e narrativa.
  • Fortalecer vínculos afetivos por meio da partilha e da simbolização.

Materiais Utilizados

  • Quatro imagens de natureza-morta inspiradas em Paul Cézanne (banana, maçã, café e temperos) geradas pela IA Gemini
  • Pedaços de maçã e banana para degustação.
  • Pó de café em potinhos.
  • Temperos aromáticos (orégano e ervas finas).
  • Desenho de guarda-chuva para colorir.
  • Lápis de cor, tesoura e cola branca.


 

 




Desenvolvimento da Oficina

O encontro foi organizado em etapas. Cada imagem era apresentada com calma, convidando as idosas a observar formas, cores e detalhes. Depois vinha a experiência direta com os sentidos: cheirar, tocar, provar.

A maçã era degustada e cheirada; a banana era explorada pela textura e sabor; o café ativava memórias com seu aroma forte; e os temperos despertavam lembranças ligadas à cozinha, à casa e à vida cotidiana. Tudo acompanhado por perguntas abertas, mas também por silêncio. Nem tudo precisava ser dito algumas memórias apenas precisavam ser sentidas.

 


                


                




 Expressão Artística e Simbolização

Depois da vivência sensorial, as idosas foram convidadas a colorir um desenho de um guarda-chuva aberto, utilizado como metáfora de proteção, acolhimento e mundo interno. O guarda-chuva simbolizava um espaço seguro onde tudo o que havia sido sentido cheiros, sabores, lembranças e emoções poderia ser reunido e cuidado. Cada cor escolhida pelas idosas carregavam algo da experiência vivida momentos antes.

O ato de colorir transformou-se em um tempo de pausa e interiorização. Não era apenas preencher espaços com lápis de cor, mas organizar afetos e lembranças, dar forma ao que ainda estava difuso dentro de si. O desenho tornou-se, assim, um território de expressão subjetiva, um lugar onde memória, sensações, emoção e gesto se encontravam e ganhavam corpo no papel. Em muitos casos, era possível perceber que, enquanto as mãos se moviam, histórias internas também se reorganizavam, criando pontes entre o vivido, o lembrado e o sentido.

 


              

Palavras, Sentimentos e Partilha

Ao final, cada participante escolheu palavras recortadas que representavam o que havia sentido. Em seguida, colaram essas palavras no guarda-chuva. Desse processo emergiram termos ligados à vida, aos vínculos e ao afeto, como: família, infância, pais, filhos e irmãos, além de sentimentos como amor, paz, alegria, saudade, prazer, calma, esperança e amizade, entre outros.

Relatos como: “Lembrei dos cafés da manhã da minha casa”,
“O cheiro do café me levou para a cozinha da minha mãe” e
“Lembrei de brincar de boneca com minha irmã e depois comer banana amassada”
mostraram que a memória afetiva permanece viva, ali guardada e pronta para ser acessada, aguardando apenas um “gatilho” sensorial mesmo diante das limitações impostas pelo envelhecimento, pelas doenças e pela institucionalização.

              

 




Considerações Finais

A vivência Arte dos Sentidos mostrou que a arteterapia, quando integrada à estimulação sensorial e cognitiva, é um gesto de cuidado profundo sendo fundamental no atendimento de idosos institucionalizados. Cada etapa olhar, sentir, criar e nomear ampliou o campo de experiência dos idosos, oferecendo espaços de protagonismo, sentido e encontro.

Mais do que uma atividade artística, a oficina foi um processo de reconexão com a própria história, com a identidade e com a vida. Um modo delicado de lembrar aos idosos que, mesmo com o tempo, a memória afetiva, o sentir e o existir continuam vivos. Permitindo um novo olhar no atendimento a população idosa institucionalizadas utilizando o recurso da arteterapia no processo de estimulação e reabilitação.


 

Referências

JARDIM, V.C.F.S.; VASCONCELOS, E.M.R; VASCONCELOS, C.M.R.; ALVES, F.A.P. Contribuições da arteterapia para promoção da saúde e qualidade de vida da pessoa idosa. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 23, n. 4, p. e200173, 2020. DOI: 10.1590/1981-22562020023.

YI, X.; Liu, Z.; Li, H.; JIANG, B. Immersive experiences in museums for elderly with cognitive disorders: a user-centered design approach. Scientific Reports, v. 14, p. 1971, 23 jan. 2024. DOI: 10.1038/s41598-024-51929-4.

 

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Sobre os autores:

 


Anderson Amaral – Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro – Mestre em Tecnologia e Saúde, Pós-graduado em Neurociências com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em Reabilitação Cognitiva e Arteterapeuta do lar Amantino Câmara. Coordenado do Projeto NeuroGeriatria da Faculdade de Medicina UNIG Itaperuna. Autor dos Livros Jogos Cognitivos: Um olhar Multidisciplinar; Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autor do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

 

 


Adriana Limeira do Nascimento – Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduada em Saúde Mental, Pós-graduada em Saúde Pública e Brinquedista Hospitalar – Autora Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

 

 


Talyta Gisllyane da Silva - Graduada em Psicomotricidade e Ludicidade na Educação Infantil; Discente em Terapia Ocupacional; Pós-graduada em TEA e TGD – Transtornos Globais do Desenvolvimento Infantil; Pós-graduada em Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Pós-graduada em ABA – Análise do Comportamento Aplicada.

 

3 comentários:

  1. Parabéns aos autores pela percepção e carinho com nossos idosos.

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  2. Que tema maravilhoso! A Arte dos Sentidos é uma ferramenta muito rica no cuidado com a pessoa idosa. A estimulação sensorial associada à reabilitação cognitiva contribui para despertar memórias, melhorar a atenção e promover bem-estar emocional. Além disso, valoriza a individualidade do idoso e estimula a autonomia, tornando o processo terapêutico mais humano, significativo e cheio de possibilidades. 👏✨

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  3. Que tema maravilhoso! A Arte dos Sentidos é uma ferramenta muito rica no cuidado com a pessoa idosa. A estimulação sensorial associada à reabilitação cognitiva contribui para despertar memórias, melhorar a atenção e promover bem-estar emocional. Além disso, valoriza a individualidade do idoso e estimula a autonomia, tornando o processo terapêutico mais humano, significativo e cheio de possibilidades. 👏✨

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