segunda-feira, 27 de julho de 2026

QUANDO A SOMBRA ENTRA EM QUADRO: A FOTOGRAFIA COMO LINGUAGEM DE ENCONTRO COM O INCONSCIENTE

 


Por Ana Paula Batista – DF

@anabatista.arteterapia

 

Apontada no outro e negada em si mesmo, a sombra em algum momento vai aparecer, provavelmente de maneira alheia à nossa vontade. Como diz Kast (2022), “ o que vale na natureza vale também para a personalidade: nós iluminamos determinados aspectos nossos para que eles sejam vistos e, assim, outros aspectos nossos passam a ficar na sombra.” (pag. 9) 

O encontro com a sombra é muitas vezes temido por representar um contato com o desconhecido. A sombra une conteúdos reprimidos, bem como características não desenvolvidas ou que não tiveram espaço de expressão na consciência. No meio desse conteúdo escondido podem estar nossos tesouros, assim como resta a esperança no fundo da caixa, após os males do mundo serem libertados por Pandora. Resumindo, como bem dizem Zafalon & Zandonay (2026), a sombra não é formada apenas pela maldade e impulsos  destrutivos, mas também é composta por potencialidades prontas para desenvolvimento, instintos positivos e atitudes criadoras. 

A integração da sombra ao eu, ao torná-la consciente e aceita, nos aproxima da nossa totalidade. Então, possibilitar que os conteúdos da sombra tenham expressão na consciência, dentro daquilo que é possível, faz parte do processo de individuação na perspectiva da psicologia analítica e esse movimento estará presente no setting arteterapêutico. Não podemos fugir dela. 

A sombra na fotografia 



A fotografia, também conhecida como “desenho ou pintura com a luz”, é uma linguagem que trata diretamente com as polaridades luz e sombra. Sem luz não há fotografia. Simples assim, pois a luz é sua essência. 

Tecnicamente, lidamos com diferentes tipos de luz, ressaltando que não há uma luz melhor ou pior do que outra, mas apenas características distintas. O tipo de luz é melhor definido pela sombra que ela produz. Para cada fonte de luz, uma sombra é gerada, que pode ser dura e bem definida (quando temos uma luz direta) ou suave (quando há uma luz difusa). 

O que pode ser mais interessante para nós em nossa prática arteterapêutica é entender que a sombra, para além do oposto da luz, é um dos elementos da linguagem fotográfica, fazendo parte da composição, ou seja, um elemento que pode deixar uma imagem muito mais rica e atraente. 

Essa metáfora da sombra na fotografia pode ser uma ponte para abordarmos o tema com nossos clientes. Da mesma forma que a sombra em uma fotografia pode trazer beleza, curiosidade e mistério, a sombra em nossa psique pode nos revelar riquezas e potências não conhecidas ou não desenvolvidas. 

Aqui peço licença e abro parênteses para um relato pessoal. 

Trabalhei como fotógrafa profissional por 15 anos. Em boa parte desse período, eu fugia das sombras. Literalmente. Buscava nos ensaios fotográficos imagens bem iluminadas, clarinhas. Amava fotografar em dias nublados, pois dava menos sombra nas fotos. Marcava as sessões para o fim do dia, como é comum para quem trabalha com luz natural, mas não somente pela qualidade e beleza da luz, mas principalmente pelo medo de que sombras muito marcadas aparecessem. Simbólico também, não?

 Em um outro momento, avançando na linha do tempo, após alguns acontecimentos em minha vida tive que encarar meus fantasmas. Voltei a fazer terapia e, nesse processo, espiar minha sombra. Notei que a transformação que acontecia internamente também estava refletida no meu trabalho. Foi nesse ensaio que a ficha caiu e eu pude ver a minha transformação materializada em fotografias. 

Já deixo aqui um convite… dê uma olhada nas suas fotos do rolo da câmera do celular. Você percebe as sombras? O que elas te provocam? 

No setting arteterapêutico, como podemos explorar a sombra nos apoiando na fotografia como linguagem expressiva? 



Olhar para a forma como as sombras aparecem nas fotografias do cliente como um estímulo para reflexões sobre o tema é uma possibilidade, entre muitas, de utilizar a fotografia como recurso expressivo para o trabalho com a sombra. O que está iluminado? O que permanece invisível? O que ficou de fora do quadro? 

Outras possibilidades abrangem pedir para que o cliente, em sua rotina, fotografe aquilo que evitaria olhar ou passaria sem perceber. Ou ainda, que fotografe cenas ou objetos que representem o que é incômodo, o que rejeita, o que tem vergonha de mostrar. As imagens produzidas abrem espaço para o diálogo, para o contato com símbolos, bem como para a criação de narrativas, tudo isso possibilitando para nosso cliente olhar para sua própria história e, no seu tempo, ir espiando seus conteúdos mais sombrios, ampliando sua consciência. 

Você já experimentou alguma outra ideia com fotografia para trabalhar a sombra? Vou adorar saber!

 

Referências 

KAST, Verena. A sombra em nós: a força vital subversiva. Petrópolis: Vozes, 2022. 

ZAFALON, Giovana de Campos. ZANDONAY, Cristiano. O mito da caixa de Pandora: uma metáfora para o encontro com o sombrio e o potencial da esperança. Revista DELOS, Curitiba, v. 19, n. 76, p. 1 - 19, jan. 2026. Disponível em: <https://doi.org/10.55905/rdelosv19.n76-099>. Acesso em: 22 jul. 2026.

 

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Sobre a autora: Ana Paula Batista

 


Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta, especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e atualmente em formação clínica em Psicologia Analítica.

@anabatista.arteterapia

Site: https://www.anapaulabatista.com.br/


segunda-feira, 13 de julho de 2026

ATIVIDADE DE ARTETERAPIA: EXPLORANDO TEXTURAS E MEMÓRIAS AFETIVAS

 

Por Anderson Amaral, Adriana Limeira do Nascimento, Talyta Gisllyane da Silva - CE

Introdução

A estimulação multissensorial desempenha um papel fundamental ao longo de todo o ciclo da vida, sendo especialmente relevante durante o processo de envelhecimento. O processamento sensorial constitui uma função essencial do sistema nervoso, permitindo que o indivíduo receba, interprete e responda adequadamente aos estímulos provenientes do ambiente. Com o avanço da idade, alterações fisiológicas podem comprometer a eficiência desse processamento, impactando habilidades relacionadas à atenção, memória, orientação, comunicação e interação com o meio. Esse cenário torna-se ainda mais significativo entre idosos que convivem com comprometimento cognitivo ou diferentes formas de demência, uma vez que as dificuldades no processamento das informações sensoriais podem intensificar limitações funcionais e reduzir a participação em atividades cotidianas. Nesse contexto, intervenções que estimulam simultaneamente diferentes sentidos, como tato, visão, audição e olfato, configuram-se como estratégias importantes para promover o engajamento, favorecer a evocação de memórias, estimular funções cognitivas preservadas e contribuir para o bem-estar emocional e a qualidade de vida dessa população (MANEEMAI et al., 2024).

Entre as estratégias utilizadas nesse contexto, destaca-se a arteterapia, que integra experiências sensoriais, cognitivas e emocionais por meio de atividades criativas e expressivas. Essa abordagem favorece a ativação de diferentes circuitos neurais e pode contribuir para a manutenção das funções cerebrais ao longo do envelhecimento. Estudos apontam que a arteterapia pode beneficiar tanto idosos saudáveis quanto aqueles com comprometimento cognitivo leve ou em estágios iniciais da doença de Alzheimer, estimulando capacidades como atenção, memória, linguagem, planejamento e expressão emocional (SOUZA; GOMES; MORAES, 2022).

Objetivo

Relatar uma atividade de arteterapia voltada à estimulação tátil e à evocação de memórias afetivas, realizada com pessoas idosas, utilizando diferentes grãos presentes no cotidiano como recurso terapêutico e expressivo.

Participantes

Participaram da atividade oito idosas residentes em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), com idades variando entre 70 e 90 anos. As participantes apresentavam comprometimento cognitivo leve e diferentes níveis de limitação funcional decorrentes do processo de envelhecimento. Algumas eram usuárias de cadeira de rodas, enquanto outras apresentavam dificuldades de mobilidade e dependência parcial para a realização de determinadas atividades do cotidiano.

Todas as etapas foram adaptadas às necessidades e capacidades individuais das participantes, respeitando seu ritmo, limitações e potencialidades, garantindo um ambiente acolhedor, seguro e inclusivo.

Materiais e Método

Foram utilizadas quatro caixas sensoriais opacas com abertura para exploração tátil, contendo arroz, feijão, milho e cuscuz (flocos de milho). Também foram utilizados cola e uma folha de atividade dividida em quatro quadrantes identificados com os respectivos grãos.


      Feijão / Arroz
Cusvuz / milho

A proposta foi desenvolvida em três etapas: exploração sensorial tátil, compartilhamento de experiências e produção artística. Inicialmente, os participantes exploraram os materiais sem visualizá-los, utilizando apenas o tato para tentar identificar os grãos. Em seguida, os materiais foram revelados e utilizados como estímulo para diálogo e evocação de memórias. Por fim, os participantes realizaram uma atividade artística de colagem utilizando os próprios grãos.

Relato da Experiência

A atividade teve início com a apresentação das caixas sensoriais ao grupo. A proposta de descobrir o conteúdo das caixas utilizando apenas o tato despertou curiosidade, expectativa e entusiasmo entre os participantes. Para muitos idosos, tratava-se de uma experiência nova, capaz de despertar interesse e promover envolvimento desde os primeiros momentos.

Antes da exploração sensorial, foi realizado um breve momento de acolhimento e relaxamento em grupo, favorecendo a concentração e preparando os participantes para a vivência. Em seguida, cada idoso foi convidado a inserir as mãos nas caixas e explorar livremente os materiais, observando características como textura, formato, tamanho e consistência, com o objetivo de identificar qual grão estava presente em cada recipiente.

 


        


Observou-se que o arroz, o feijão e o milho foram facilmente reconhecidos pela maioria dos participantes, provavelmente por fazerem parte de seu cotidiano alimentar e apresentarem texturas bastante características. O cuscuz, entretanto, despertou maior curiosidade e gerou mais dúvidas. Alguns idosos associaram sua textura a diferentes tipos de farinha, demonstrando como a percepção sensorial está intimamente relacionada às experiências individuais construídas ao longo da vida.

As tentativas de identificação foram acompanhadas por sorrisos, risadas e comentários espontâneos, criando um ambiente acolhedor e descontraído. A cada descoberta, percebia-se o aumento do engajamento e da curiosidade dos participantes, que compartilhavam hipóteses, comparavam sensações e buscavam validar suas percepções junto aos colegas. Esse momento favoreceu não apenas a estimulação tátil, mas também a interação social, a comunicação e a participação ativa do grupo.

Após a revelação dos materiais presentes nas caixas, iniciou-se um rico momento de diálogo e compartilhamento de experiências. Os diferentes grãos despertaram inúmeras memórias afetivas relacionadas ao preparo de comidas típicas, receitas tradicionais e vivências familiares. Muitos participantes recordaram refeições preparadas por mães e avós, almoços em família, encontros festivos e hábitos alimentares característicos de suas comunidades.

O cuscuz, o feijão e o arroz, por estarem fortemente presentes na cultura alimentar dos participantes, evocaram lembranças carregadas de significado emocional. Alguns idosos compartilharam histórias da infância, da vida no campo e de momentos vividos ao lado de familiares. As narrativas revelaram recordações de cuidado, união, pertencimento e afeto, permitindo que experiências positivas do passado fossem revisitadas e valorizadas.

Além de favorecer a socialização e a troca de experiências, a atividade possibilitou a ressignificação de lembranças e trajetórias de vida. Ao compartilharem suas histórias, os participantes encontraram um espaço de valorização de suas experiências, saberes e memórias, fortalecendo sua identidade e senso de pertencimento.

Na etapa seguinte, cada participante recebeu uma folha dividida em quatro quadrantes identificados com os nomes dos respectivos grãos. Utilizando cola, os idosos realizaram a colagem do feijão, milho, arroz e cuscuz nos espaços correspondentes, construindo uma composição artística baseada na experiência sensorial vivenciada anteriormente.

    







Essa produção artística estimulou a coordenação motora fina, a atenção, a organização visuoespacial e a criatividade, além de reforçar o reconhecimento dos materiais explorados durante a atividade.

Discussão

A experiência evidenciou o potencial da estimulação multissensorial associada à arteterapia como estratégia para promover o engajamento cognitivo, motor, afetivo e social de pessoas idosas. A exploração tátil dos materiais favoreceu a atenção, percepção, memória, associação de textura e formas, a discriminação sensorial e a curiosidade, enquanto os momentos de diálogo possibilitaram a evocação de memórias autobiográficas e afetivas.

Os relatos compartilhados demonstraram que estímulos simples do cotidiano podem funcionar como importantes gatilhos para a recuperação de lembranças significativas, fortalecendo a identidade pessoal estimulando recordações relacionadas à cultura alimentar, às tradições familiares e às experiências de vida, contribuindo para o bem-estar emocional. Além disso, a atividade artística permitiu transformar essas experiências em uma produção concreta, favorecendo a expressão criativa e a valorização das vivências individuais.

Considerações Finais

A experiência demonstrou que elementos simples do cotidiano podem se transformar em importantes recursos terapêuticos quando associados à estimulação sensorial, estimulação cognitiva e à arteterapia. A atividade promoveu momentos significativos de descoberta, interação, criatividade e resgate de memórias afetivas, contribuindo para o bem-estar emocional, a participação social e o fortalecimento dos vínculos entre os participantes.

Mais do que identificar texturas ou realizar uma produção artística, os idosos tiveram a oportunidade de revisitar histórias, compartilhar experiências e atribuir novos significados às suas trajetórias de vida. Dessa forma, a atividade reafirmou o potencial da arteterapia como estratégia de promoção da saúde, humanização do cuidado e valorização da pessoa idosa.

 

 

Referência

MANEEMAI, O. et al. Sensory Integration: A Novel Approach for Healthy Ageing and Dementia Management. Brain Sciences, Basel, v. 14, n. 3, p. 285, 2024. DOI: 10.3390/brainsci14030285

SOUZA, L.B.R.; GOMES, Y.C.; MORAES, M.G.G.. The impacts of visual Art Therapy for elderly with Neurocognitive disorder: a systematic review. Dementia & Neuropsychologia, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 8-18, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2021-0042

 

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Sobre os autores:

 Anderson Amaral 



Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro. Mestre em Tecnologia no Espaço Hospitalar, Pós-graduação em Neurociência com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em Reabilitação Cognitiva. Arteterapeuta do Instituto Amantino Câmara. Autor dos Livros Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora; Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora

 Adriana Limeira do Nascimento 



Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduação em Saúde Menta, Pós-graduação em Saúde Pública e Brinquedista pela ABBri – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo e do livro Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora

 Talyta Gisllyane da Silva



 Graduada em Psicomotricidade, Discente de Terapia Ocupacional, Pós-graduada em TEA e TGD e Pós-graduada em ABA.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

QUANDO AS EMOÇÕES NÃO ENCONTRAM PALAVRAS: O PAPEL DA ARTE NO PROCESSO TERAPÊUTICO



Por Isa Ramos – RJ

@psicologaisaramos

Site:www.psicologaisaramos.com.br


Ao longo da vida, todos nós experimentamos momentos em que as palavras parecem insuficientes para explicar o que sentimos. Há dias em que conseguimos descrever com clareza nossas emoções, nossos medos e nossas expectativas. Em outros, porém, tudo parece confuso. Sabemos que existe um incômodo, uma tristeza, uma ansiedade ou um vazio, mas não conseguimos nomear exatamente o que está acontecendo. É como se existisse uma distância entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer.

Essa dificuldade é muito mais comum do que imaginamos. A sociedade costuma nos ensinar a explicar tudo de forma racional, lógica e objetiva. Entretanto, o universo emocional nem sempre segue essa lógica. Algumas experiências são tão profundas que escapam da linguagem. Outras permanecem guardadas por tanto tempo que sequer conseguimos reconhecê-las. Em muitas situações, o silêncio não representa ausência de sentimentos, mas apenas a dificuldade de encontrar uma forma de expressá-los.

É justamente nesse contexto que a arte pode assumir um papel importante dentro do processo terapêutico.

Quando pensamos em arte, é comum imaginarmos pinturas famosas, esculturas, museus ou pessoas com grande talento artístico. No entanto, dentro da psicologia, a arte pode assumir um significado completamente diferente. Ela deixa de ser uma forma de produzir algo bonito para se tornar um caminho de expressão, descoberta e reflexão.

A arte permite que emoções encontrem uma linguagem própria. Muitas vezes, antes mesmo de conseguirmos explicar uma experiência, conseguimos representá-la por meio de uma cor, de um desenho, de uma forma, de uma colagem ou até mesmo de uma escrita espontânea. Não porque essas produções contenham respostas prontas, mas porque elas criam um espaço onde aquilo que parecia invisível pode começar a ser observado.

É importante compreender que isso não acontece de forma mágica. A arte, por si só, não resolve conflitos emocionais. Ela também não substitui a psicoterapia nem oferece interpretações universais sobre aquilo que é produzido. Seu papel é ampliar possibilidades de expressão e favorecer o contato com aspectos da experiência emocional que, muitas vezes, permanecem inacessíveis apenas pela conversa.

Ao longo da nossa infância, a expressão artística faz parte do desenvolvimento de maneira muito natural. Antes mesmo de aprendermos a escrever e desenhamos. Antes de organizarmos pensamentos complexos, brincamos. As crianças costumam comunicar seus medos, desejos, conflitos e fantasias por meio do brincar, das cores e das histórias que criam. Com o passar dos anos, entretanto, muitos adultos passam a acreditar que desenhar, pintar ou criar são atividades infantis ou reservadas apenas para pessoas talentosas. Essa crença acaba afastando muitas pessoas de uma importante forma de contato consigo mesmas.

Dentro do processo terapêutico, não existe qualquer expectativa em relação à qualidade estética daquilo que será produzido. Não importa se o desenho ficou bonito, se a pintura parece profissional ou se a colagem ficou perfeitamente organizada. O foco nunca está na técnica. O que realmente importa é o significado daquela experiência para quem a vivência.

Uma mesma imagem pode representar sentimentos completamente diferentes para pessoas diferentes. Uma cor pode despertar lembranças importantes para alguém e não ter o mesmo impacto para outra pessoa. É justamente por isso que não existem interpretações prontas. O sentido da produção é construído junto com o paciente, respeitando sua história, seus valores, sua cultura e a forma singular como percebe o mundo.

Esse aspecto torna a utilização da arte extremamente respeitosa. Ela não impõe respostas. Pelo contrário, convida à curiosidade. Em vez de dizer ao paciente o que ele sente, abre espaço para que ele descubra, aos poucos, aquilo que faz sentido para sua própria experiência.

Outro ponto importante é compreender que nem todas as emoções estão imediatamente disponíveis para a consciência. Muitas vezes, passamos anos funcionando no "piloto automático", lidando com responsabilidades, trabalho, estudos, família e inúmeras demandas do cotidiano. Nesse processo, algumas emoções acabam sendo colocadas em segundo plano. Não desaparecem, apenas deixam de receber atenção.

Em alguns momentos da vida, entretanto, elas começam a se manifestar de outras maneiras. Surgem como ansiedade, irritabilidade, dificuldade para dormir, cansaço constante, sensação de vazio ou até mesmo dificuldade de concentração. A pessoa percebe que algo não está bem, mas não consegue identificar exatamente o que precisa ser cuidado.

A arte pode contribuir justamente nesse processo de aproximação consigo mesmo. Ela cria uma pausa em uma rotina frequentemente acelerada e permite que a pessoa observe sua experiência interna com mais delicadeza. Em vez de buscar respostas imediatas, favorece perguntas importantes: "O que estou sentindo?", "O que essa imagem representa para mim?", "Por que escolhi essas cores?", "O que essa criação desperta quando olho para ela?"

Essas perguntas não têm o objetivo de encontrar uma interpretação correta, mas de ampliar a consciência sobre a própria experiência emocional.

É comum que, durante a psicoterapia, algumas pessoas relatem dificuldade para falar sobre determinados acontecimentos. Situações de perda, conflitos familiares, experiências traumáticas ou emoções relacionadas à culpa, vergonha e medo podem parecer difíceis demais para serem verbalizadas. Em alguns casos, o sofrimento é tão intenso que as palavras simplesmente não conseguem acompanhar aquilo que está sendo vivido.

Nessas situações, recursos expressivos podem favorecer um primeiro contato com essas experiências, sempre respeitando o tempo e os limites de cada pessoa. O objetivo nunca é forçar lembranças ou estimular revivências dolorosas, mas oferecer diferentes caminhos para que a experiência emocional possa ser compreendida e integrada ao processo terapêutico.

Outro aspecto interessante é que a criação artística costuma favorecer um estado de presença. Durante alguns instantes, a pessoa diminui o ritmo acelerado dos pensamentos e direciona sua atenção para aquilo que está construindo. Esse movimento pode facilitar a percepção de emoções, sensações corporais e pensamentos que normalmente passariam despercebidos em meio à correria do dia a dia.

Naturalmente, isso não significa que toda sessão de psicoterapia deva utilizar recursos artísticos. Cada paciente possui necessidades, objetivos e características diferentes. Algumas pessoas se identificam profundamente com essas estratégias; outras preferem trabalhar exclusivamente por meio do diálogo. Não existe um recurso melhor que o outro. Existe aquilo que faz sentido para cada processo terapêutico.

Por essa razão, a utilização da arte deve sempre ser conduzida por um profissional capacitado, que saiba avaliar quando determinado recurso pode contribuir para o trabalho clínico e quando outras estratégias serão mais adequadas. A escolha não acontece por acaso, mas faz parte do planejamento terapêutico e da compreensão da história de vida do paciente.

Também é importante desfazer um equívoco bastante comum: utilizar a arte na psicoterapia não significa interpretar desenhos como se existisse um manual capaz de revelar automaticamente aspectos da personalidade de alguém. A psicologia contemporânea trabalha de forma muito mais cuidadosa e ética. A produção artística não é vista como um teste, mas como uma possibilidade de diálogo. Quem atribui significado ao que foi produzido é, antes de tudo, o próprio paciente, acompanhado pela escuta qualificada do psicólogo.

Talvez uma das maiores riquezas desse processo esteja justamente na possibilidade de transformar experiências confusas em algo que possa ser observado com mais clareza. À medida que sentimentos ganham forma, torna-se possível refletir sobre eles, compreendê-los e construir novos significados. Esse movimento favorece o autoconhecimento e amplia a capacidade de lidar com desafios emocionais de maneira mais consciente.

Vivemos em uma sociedade que valoriza respostas rápidas, produtividade constante e soluções imediatas. No entanto, o desenvolvimento emocional costuma seguir outro ritmo. Algumas mudanças acontecem lentamente. Algumas respostas precisam de tempo para amadurecer. Em muitos momentos, antes de compreender completamente uma emoção, precisamos simplesmente permitir que ela exista.

A arte pode oferecer exatamente esse espaço. Um espaço onde não existe certo ou errado, bonito ou feio, sucesso ou fracasso. Existe apenas a possibilidade de olhar para si mesmo com mais curiosidade, respeito e compaixão.  Cuidar da saúde mental é um processo de construção. Significa aprender a reconhecer emoções, compreender pensamentos, desenvolver estratégias para enfrentar dificuldades e fortalecer recursos internos para lidar com os desafios da vida. Em alguns momentos, as palavras serão suficientes. Em outros, elas ainda estarão sendo construídas e está tudo bem. A arte nos lembra que existem muitas formas de comunicação. Algumas passam pela fala, outras pelas imagens, pelas cores, pelos gestos e pelos símbolos que carregamos ao longo da vida. Todas elas podem contribuir para que nos conheçamos um pouco melhor.

Porque, às vezes, aquilo que ainda não conseguimos dizer é justamente aquilo que mais precisa ser ouvido.

 

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Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano.   Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.