segunda-feira, 25 de março de 2024

AUTORRESPONSABILIDADE E A JORNADA DO AUTOCONHECIMENTO: TCC E ARTETERAPIA

 


Por Juliana Mello – RJ

entrelinhas.artepsi@gmail.com 

            Na minha formação em Arteterapia, conheci o conto “A habilidade que ninguém possui”, que me fez refletir sobre como fazemos escolhas em nossa jornada de autoconhecimento e que nos autorresponsabilizar por esse processo é fundamental para alcançarmos nossos objetivos de maneira consciente.

Todos nós buscamos, de alguma maneira, encontrar um propósito pessoal, uma maneira mais leve e funcional de viver a vida. Porém, como a fazemos de modo automático, esquecemos de confiar em quem somos e em nosso poder de escolha. 

Fazer escolhas não é nada fácil e gera forte angústia. Como já dizia Sartre: “quando escolhemos algo, inevitavelmente deixamos algo para trás”. E é difícil saber se estamos fazendo a escolha mais acertada, mas é importante lembrar que não escolher e deixar que outros escolham também é uma escolha. Então qual a melhor opção? Para refletir, cito Clóvis de Barros Filho e Pedro Calabrez no livro Em busca de nós mesmos:

“Todos nós temos uma experiência subjetiva de mundo. Subjetivo: aquilo que é próprio ao sujeito, relativo ao indivíduo, ou seja, aquilo que é individual e particular”. (FILHO, CALABREZ, 2014, p.21)

Se cada um tem uma percepção de mundo de acordo com suas memórias, sentimentos, emoções, percepções sensoriais, então como não olhar para si e fazer escolhas autorresponsáveis? A autorresponsabilidade é uma característica importante para a caminhada do autoconhecimento. Quando olhamos para nós e entendemos qual nosso padrão de funcionamento e que somos os únicos capazes de fazer algo em relação a isso, passamos a estar mais presentes em nosso processo e fazemos escolhas mais conscientes em qualquer situação, melhorando a autoestima, flexibilizando crenças e nos tornando heróis de nós mesmos. Clóvis de Barros Filho e Pedro Calabrez também escreveram: “o mundo para mim não é o mesmo mundo para você.” (2014, p.15).

No conto, o personagem Anwar tem um objetivo e conta, inicialmente, com sua mãe para realizá-lo. Com duas tentativas frustradas, ele percebe que tem duas opções: desistir ou se responsabilizar pelo seu próprio desejo e partir em uma jornada para conquistá-lo. Ele aceita a tarefa, mesmo sem saber o que encontraria pelo caminho. Neste ponto, podemos citar a Jornada do Herói, de Joseph Campbell, onde ele descreve os passos que o herói precisa enfrentar para se transformar e mudar de nível de autoconhecimento. Muitas vezes somos chamados para essa jornada através de uma crise, um desconforto, que gera uma angústia, onde cada um deverá decidir se irá trilhar esta jornada ou não, autorresponsabilizar-se pelo processo e por suas consequências.  

“... Mas, antes de experimentar qualquer coisa desse gênero, decidi não só ficar razoavelmente perto de casa como também tornar-me uma pessoa importante...” (Trecho retirado do conto)

            A partir de uma decisão, a sincronicidade nos auxilia nesse percurso e encontramos pessoas e situações que nos darão ferramentas para nos fortalecer e caminharmos por dentro de nós mesmos. Ao decidir iniciar sua jornada, Anwar encontra o Dervixe, um velho sábio, que o auxiliou com ensinamentos para que pudesse completar sua jornada.

 

Como podemos ter auxílio na Terapia Cognitivo-Comportamental:

Podemos utilizar a ferramenta RPD (Registro de Pensamento Disfuncional), onde identificamos nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos, nos permitindo ter uma visão mais clara do nosso padrão de funcionamento e nossas crenças disfuncionais, conseguindo flexibilizá-los para alcançar os objetivos.

Outra estratégia é enumerar os prós e os contras de cada uma das opções que temos antes de fazer a escolha. Assim, podemos prever acontecimentos futuros e criar estratégias para as resoluções de possíveis conflitos.

Ao longo do percurso, é possível também reavaliar as escolhas feitas, para assim repensar se algo precisa ser mudado, ajustado ou continuado. Monitoramos nossos processos cognitivos e comportamentais. Um bom termômetro nesse processo são nossas emoções e reações fisiológicas.  

Assim como nos contos, em que o personagem central encontra um auxílio de uma outra pessoa, o terapeuta TCC também participa de forma ativa no processo terapêutico:

“...o terapeuta e o paciente formam um relacionamento de cooperação com a finalidade de solucionar um problema. O papel inicial de um terapeuta de TCC costuma ser bastante ativo, enquanto ensina ao paciente os princípios que fundamentam essa abordagem de tratamento.” (HOFMANN, 2014, p 17)

             A Arteterapia nos convida para escolher, elaborar e criar, manifestando nosso potencial de responsabilidade e os materiais nos auxiliam no movimento que decidimos fazer. Como cita Alexandra Duchastel em seu livro Caminho do Imaginário: “A experiência de criação e o simbólico de nossas imagens íntimas nutrem uma transformação na profundeza da alma e lhe fazem eco.” (2010, p. 11). A autora ressalta que através da arte é possível favorecer o sujeito em sua autonomia e o gerenciamento de si mesmo, pois ele entra em contato com sua sabedoria interior. Também podemos encontrar em seu livro o chamado para essa jornada: “pois no coração de cada crise reside um apelo gritante à vida e um convite a ousar expressar o que quer ser dito.” (2010, p11). Cabe a cada um a responsabilidade de decidir aceitar este convite de transformação.

            Em seu livro Pensando a Arteterapia, Eliana Moraes também fala sobre responsabilidade e escolhas do sujeito durante o processo criativo:

“Que, através da criação, ele se perceba em suas repetições, resistências, sintomas, e tenha a oportunidade de enfrentá-las. Que em meio a essa experiencia tome decisões sobre esse enfrentamento (ou não) e que assim se responsabilize por si como autor e protagonista da sua obra/história, alcançando uma realidade nova em dimensões novas.” (MORAES, 2018, p.76-77)

            Como exemplo, trago parte do processo de uma paciente de 35 anos. Em nossas sessões, entrego a ela uma folha em branco e ela decide o que irá produzir. Conversamos durante o processo e observamos o que vai surgindo. Estou junto com ela, mas a escolha é dela.                                                                                                                

 






Concluo essa reflexão com uma citação de Fayga:

“No trabalho o homem intui. Age, transforma, configura, intuindo... Ao criar... nesse processo configurador o indivíduo se vê diante de encruzilhadas. A todo instante, ele terá que se perguntar: sim ou não, falta algo, sigo, paro... Nessa mobilização está inserido um senso de responsabilidade. As opções se propõem quase que em termos de princípios de ‘certo ou errado’ e, no caso das artes, o quanto custa decidir uma pincelada, a exata tonalidade de uma cor, o peso de uma palavra, uma nota certa, todo artista bem o sabe dentro de si.” (OSTROWER, 2014, p.70-71)

 

 

Bibliografia:

DUCHASTEL, Alexandra. O caminho do imaginário: o processo de arte-terapia. São Paulo: Paulus, 2010.

FILHO, Clóvis de Barros. CALABREZ, Pedro. Em busca de nós mesmos. Porto Alegre: CDG, 2017.

HOFMANN, Stefan G. Introdução à Terapia Cognitivo-Comportamental Contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2014.

MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia. 1ª Edição. Divino de São Lourenço, MG: Semente Editorial, 2018.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Petrópolis: Vozes, 2014.

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Sobre a autora: Juliana Mello



Psicóloga, Arteterapeuta e Coach

Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.

segunda-feira, 18 de março de 2024

A RELAÇÃO ARTETERAPEUTA-MATERIAL

 

Por Eliana Moraes

naopalavra@gmail.com

@naopalavra

 

Compreendemos que, dentre as modalidades terapêuticas, a Arteterapia possui uma especificidade: a entrada do terceiro elemento, o material e tudo o que ele envolve. Assim, na dinâmica do setting arteterapêutico forma-se uma tríade: paciente-arteterapeuta-material.




 

Parte essencial do nosso estudo se dá na observação do fenômeno que se constela entre paciente e material. Entretanto, a via da relação entre o material e o arteterapeuta também se dá como um eixo estruturante desse profissional. Considerando que o arteterapeuta pretende se colocar como facilitador do processo criativo de outros experienciadores, sabemos da importância de que ele conheça e seja capaz de manejar bem as múltiplas materialidades possíveis, para que possa oferecer cada uma delas com conhecimento técnico bem como de instrumentalizar os experienciadores com muita ou pouca experiência criativa. Entretanto, como a Arteterapia se constitui como uma formação que recebe pessoas com diversas formações anteriores, muitas vezes a vivência do próprio processo criativo e a construção de intimidade com os materiais são, muitas vezes, construídas a partir do curso. E assim, deve seguir em desenvolvimento enquanto o profissional se pretender atuar na área.

 

Essa é uma temática que venho ecoando e escrevendo, para que possa permanentemente lembrar ao arteterapeuta de sua importância. Esse é um tema que por vezes parece óbvio, mas justamente não raras vezes, o óbvio sai do nosso campo de visão e ele se perde. E quanto ao tema mencionado, observo no meu cotidiano como supervisora de estudantes e arteterapeutas formados o quanto a experiência pessoal com a materialidade, com a criatividade e com as imagens produzidas fazem falta no cotidiano do arteterapeuta.

 

Para corroborar com essa pesquisa, hoje contemplaremos as palavras de Angela Philippini em seu livro “Cartografias da coragem”, mais especificamente o capítulo “O arteterapeuta: acompanhante especial”.

 

Segundo a autora:

 

Favorecer a expressão e expansão das atividades criativas de cada cliente através do convívio terapêutico será facilitado também pela construção e ampliação das próprias vivências criativas do arteterapeuta. (PHILIPPINI, 2013, 25)

 

Contudo, esse se mostra um desafio desde o início da formação:

 

Esta é, certamente, um das primeiras dificuldades no trabalho de formação de novos arteterapeutas pois muitos chegam ao processo com pouca ou nenhuma intimidade com a arte e suas manifestações. E se uma das tarefas do arteterapeuta é resgatar as possibilidades criativas de seus clientes, mantendo um convívio terapêutico diário com o processo criativo, é fundamental que possa construir e ampliar suas próprias vivências criativas. (PHILIPPINI, 2013, 23-24)

 

Formar-se em Arteterapia é mais do que um aprendizado. A verdadeira formação se inicia com a experiência do “fenômeno” proporcionado pela vivência arteterapêutica. Todo arteterapeuta reconhece, por teoria e prática, que o fenômeno arteterapêutico deve acontecer primeiro em si. Somente através da experiência será possível associar o fenômeno com os embasamentos teóricos. Somente a partir da união desses recursos o arteterapeuta poderá fazer o bom convite para que outro experienciador se aventure ao desbravar de uma nova caminhada expressiva e terapêutica, oferecendo-lhe segurança para que encontre seus próprios recursos e caminho. Nas palavras de Philippini:

 

Para transformar-se em observador presente, ativo, empático companheiro nesta aventura do construir-se e transformar-se pela via das imagens, precisará o arteterapeuta do contínuo trabalho de auto desvelar-se expressivo do ateliê. Precisará do aprofundamento da pesquisa em sua linguagem plástica particular, a qual deve ser reciclada e renovada continuamente, para que assegure uma comunicação fluente através de estratégias expressivas diversas. Deste modo, estará efetivamente contribuindo para amenizar bloqueios no processo criativo de seus clientes e facilitando que estes possam encontrar e/ou construir suas próprias alternativas de reconhecimento e transformação através da sua produção imagética. A necessária contemplação advêm do contínuo estudo no modelo teórico escolhido para nortear sua prática terapêutica e do persistente trabalho de autoconhecimento em seu próprio processo terapêutico. (PHILIPPINI, 2013, 26)

 

É importante destacar que a autora descreve como imperativo à sustentação do arteterapeuta a terapia pessoal, e na mesma proporção da experiência pessoal com a arte:

 

[...] é inaceitável que um arteterapeuta, ou qualquer outro terapeuta, aventure-se ao trabalho terapêutico sem o essencial suporte de sua própria terapia, seja individual ou grupal.

 

Do mesmo modo, se não criar continuamente, não estará apto a desbloquear o processo criativo de ninguém e tão pouco poderá ser produtivo como terapeuta, se não estiver em contínuo processo de ver-se, rever-se, ouvir-se, e desvelar-se [...]  (PHILIPPINI, 2013, 26)

 

Compreendendo a Arteterapia como um procedimento terapêutico baseado na psicologia profunda e nos caminhos do inconsciente, constatamos ser estrutural que o arteterapeuta também se dedique a sua própria produção de imagens e diálogo com seu próprio universo simbólico para investir em sua estrutura pessoal  e diferenciar-se da produção simbólica de seu paciente, o que por vezes mostra-se desafiador:

Em contrapartida, o papel de acompanhante do processo arteterapêutico assegura o privilégio de ser estimulado por singulares processos de criação, ser instigado e sacudido por imagens fascinantes e surpreendentes, e também, eventualmente, ser confrontado por formas as quais poderão ser vividas como difíceis e ameaçadoras.

 

Acredito que estas são boas razões para que o arteterapeuta cuide de estar em bons termos com suas próprias imagens internas, o que poderá ser favorecido pela frequência regular a um ateliê ou oficina de criação onde possa pesquisar e desenvolver sua própria linguagem expressiva. (PHILIPPINI, 2013, 24)

 

Tenho defendido que é nesse ponto que se encontra o potencial de constratransferência específica do arteterapeuta. No texto “O arquétipo do curador ferido e o arteterapeuta” (2023) descrevo:

E aqui reside uma das especificidades mais caras do arteterapeuta: sua contratransferência aparece quando este projeta seu próprio universo simbólico no processo criativo e nas formas produzidas por seu paciente [...] Enfim, é essencial que o arteterapeuta esteja de posse da sua relação pessoal com seus símbolos recorrentes, seus gestos, traços e cores, os materiais e linguagens que lhe acessam ou provocam resistência, para assim evitar que seu universo simbólico arteterapêutico seja projetado nas imagens, processos, materialidades, temáticas, e consignas trabalhadas com seus pacientes. 

É importante destacar que o arteterapeuta lidando com conteúdos “não palavra”, o potencial projetivo se dá de forma mais sensível e ampliada. O antídoto para evitar a contratransferência imagética está na manutenção de um espaço e tempo separado para que o arteterapeuta permaneça em contato pessoal com as materialidades, seu processo criativo e produção de imagens pessoais. (MORAES, 2023)

 

Retomando o início de nossa reflexão, a Arteterapia como um procedimento terapêutico que se diferencia por basear-se na tríade paciente-terapeuta-material para fins clínicos, possui suas especificidades e singularidade. Faz-se importante que o arteterapeuta reconheça a unicidade dessa prática tão potente e não se deixe cair em sutis convites para a desconexão com sua essência. Philippini recorda que:

Allen (1992) aponta os riscos de síndrome da clinificação que pode acontecer aos arteterapeutas, comprometendo sua produção artística [...] arteterapeutas são terapeutas muito singulares, por utilizarem a arte como mediadora e suas atividades clínicas e seu bom desempenho depende fundamentalmente da manutenção e exercício constante de sua própria prática expressiva...

 

Assim, que os arteterapeutas apostem na diferença e não na tentativa improdutiva de semelhança a outras abordagens clínicas. A produtividade da Arteterapia reside basicamente na possibilidade de facilitar caminhos expressivos singulares para cada cliente e o fluir neste processo vem da prática, experimentação e estudo de modalidades expressivas diversas. Evitando cair na armadilha de ter que unificar a linguagem ou utilizar práticas homogeinizadoras, cabe zelar pelos territórios de criação, sejam internos ou externos. (PHILIPPINI, 2013, 24)

 

A Psicanálise, e por decorrência a Psicologia, orientam que a sustentação de um bom analista/psicoterapeuta deve ter como base um tripé: a terapia pessoal, a supervisão e o estudo teórico individual e grupal. Tendo em vista a especificidade da Arteterapia desenvolvida nesse texto, tenho escrito sobre a “quarta perna” que sustenta o arteterapeuta: a experiência pessoal com os materiais, o processo criativo e produção de imagens. Assim, construímos “o quadripé” que sustenta o arteterapeuta representado pelo esquema abaixo:

 


Esquema desenvolvido pela autora

Com a produção de textos sobre esse tema e outras especificidades da Arteterapia pretendemos cooperar para que o arteterapeuta se reconheça naquilo que nos diferencia de outras modalidades terapêuticas, que se sinta seguro em atuar com a técnica arteterapêutica, reconhecendo a grande potência contida na Arteterapia em si. Nosso desejo é que:

Assim, em Arteterapia, que se possa apostar naquilo que nos distingue como terapeutas, a promoção de saúde por meio da Arte e do exercício constante na prática expressiva. Para tanto, cabe evitar algumas armadilhas, cuidando de manter bem protegido e bem cuidado o próprio território de criação. E, sobretudo, aprendendo a criar mecanismos de livre expressão, fortalecendo a própria autonomia criativa.(PHILIPPINI, 2013, 25)

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 11 de março de 2024

A EXPERIÊNCIA DE LAR

 


Por Eliana Moraes

naopalavra@gmail.com

@naopalavra 

Temos vivenciado no grupo Quíron reflexões sobre nossos caminho de vida, sobre a condição humana de ser um peregrino. Muitas vezes, nossas reflexões são aquecidas pelas palavras da querida Beatriz Cardella, psicóloga, gestalt terapeuta e professora formadora de terapeutas, que tão precocemente nos deixou na última semana. Em espercial, Bia – como gostava de ser chamada – nos acompanha através do livro “De Volta para casa: ética e poética na clínica gestáltica contemporânea”.

Pessoalmente, meu encontro com Beatriz e seu livro, aconteceu em 2020, tornando-se uma leitura estrutural para o processo de meu retorno à minha cidade natal, Belo Horionte, no ano seguinte. Não há dúvidas de que os escritos de Beatriz atravessam nossa vida profissional e deixam marcas em nossa vida pessoal.

 Contudo, é fundamental destacar que para Beatriz, a volta para “casa” não se refere necessariamente à moradia, mas antes, uma questão existencial:

 

Tratar da morada é fundamental, já que umas das principais problemáticas do mundo contemporâneo são os desenraizamentos nas suas diferentes formas...

Estamos todos, de certa forma, desalojados, esquecidos das raízes, da origem, desabrigados, impossibilitados de habitar e encontrar lugar entre os outros. De certa forma somos todos sem-teto existenciais. E sofremos. Precisamos voltar para casa e nos recordar que somos humanos. (CARDELLA, 2020, 28)  

Em seu livro Beatriz discorre sobre vários aspectos dessa angústia existencial atualizada na escuta clínica cotidiana. Em síntese a autora defende que:

 

Na clínica isto significa que o terapeuta precisará reconhecer asnecessidades fundamentais da dignidade humana que constintuem o ETHOS, como por exemplo: a hospitalidade, o pertencimento, o reconhecimento, a singularidade, a criatividade, a responsabilidade, a transcendência, entre outras…

Essas formas de sofrimento se caracterizam como Desenraizamentos, a perda das raízes na condição humana. (CARDELLA, 2020, 52-53) 

Para Beatriz, somos todos peregrinos, caminhantes, vivendo experiências e passagens que geram sofrimentos, aprendizados e resiliência. Porém, é possível que essa jornada seja aquecida por uma específica “experiência de casa”: aquela que um setting terapêutico, que comporta uma relação terapêutica, pode gerar:

 

Ao longo de trinta anos de trabalho como psicoterapeuta percebi que a casa é uma das metáforas fundamentais para tratar o trabalho clínico e da relação terapêutica, lugar de hospitalidade, ternura e cuidado... (CARDELLA, 2020, 27)

 

Nessa perspectiva, o trabalho terapêutico só pode acontecer se a relação se configurar morada, lugar, onde a pessoa que busca ajuda possa encontrar o terapeuta-anfitrião, o outro-raiz, que a acolha em sua humanidade, recordando-a de si mesma. (CARDELLA, 2020, 29) 

Esse ponto de assossego, em meio à caminhada peregrina, proporciona refrigério, nutrição, enraizamento, estrutura, mas não direcionada para o fim do caminho. Segundo a autora, é a “experiência de lar” que possibilita a diferenciação entre o ser peregrino e o perambulante, perdido e desorientado: 

Acolhemos a pessoa para que ela possa partir, para que ao invés de viver perambulando possa de fato, caminhar, realizando a obra de ser si mesma mirando o horizonte de seus valores fundamentais. (CARDELLA, 2020, 29) 

Com Beatriz Cardella aprendemos sobre a profunda importância de nos oferecermos uma “experiência de lar”, seja ela qual for, mas que para nós faça sentido, pois:

 

Paradoxalmente, essa é a única possibilidade de resgatarmos nossa condição peregrina, caminhante, e mirarmos o horizonte da existência a partir da singularidade que nos caracteriza, tornando a vida uma criação, a possibilidade de habitar poeticamente o mundo. (CARDELLA, 28) 


O paradoxo da "experiência de lar" para a vivência de uma condição peregrina foi lindamente traduzido por uma das participantes do Grupo Quíron que, generosamente, permitiu que sua imagem ilustrasse nossa caminhada. Nela, uma casa apoiada em um skate em movimento, orientada pela palavra "vida" que dentro de sua composição, encontramos a palavra "ida". 




A casa como símbolo 

Corroborando com as reflexões de Beatriz Cardella e orientada pelos seus escritos, na clínica arteterapêutica por vezes emerge o símbolo da casa como reflexão. Pude perceber que através desse símbolo podemos delinear algumas camadas como: 



Casa-eu

Casa-corpo

Casa-psíquica

Casa-alma

Casa-moradia

Casa-trabalho

Casa-religiosidade

Casa-espaço geográfico

Casa-cultura

Casa-relações

Casa-pertencimento... 

Para aquecer a reflexão e dar forma aos conteúdos subjetivos do paciente, tenho utilizado o origami de casa, bidimensional ou tridimensional – a depender do perfil do experienciador. Com essa proposta observamos o que Fayga Ostrower descreve como a matéria objetivando a linguagem, e dessa forma possibilitando que o criador dialogue frente a frente com sua “experiência de lar”, em qual camada lhe convidar à reflexão naquele momento. 



Para encerrar esse texto, devolvo à Beatriz Cardella a poesia que dedicou à memória de Fritz Perls em seu livro “De volta para casa”. Hoje, colocamo-nos todos, respeitosamente, no lugar de discípulos, bendizemos Beatriz e tudo o que ela nos ensinou.

 

A discípula

 

Bendita a espécie extinta,

A que voltou ao repouso em sua origem

E não peregrina mais,

Benditos todos que no cativeiro

Por ânsia de eternidade multiplicam-se,

Bendito o modo como tudo é feito.

Ancestrais, luxuoso nome

Para quem apenas errou antes de nós!

Benditos,

Bendita hora da tarde

Em que uma serva repousa

Descansada de dor e consolo.

 

Adélia Prado – Oráculos de Maio

 

Referência Bibliográfica: 

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos “De Volta para casa: ética e poética na clínica gestáltica contemporânea”. 2020

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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"