segunda-feira, 2 de março de 2026

PSICOLOGIA E ARTETERAPIA NUMA VISÃO DECOLONIAL NECESSÁRIA

 

Quadro de Modesto Brocos

Em novembro de 2025 estive participando em Belo Horizonte do Evento Novembro Negro, na Universidade Federal de Belo Horizonte – UFMG.  A convite também do Espaço de Arteterapia Não Palavra, também foi realizada uma roda de conversa em Belo Horizonte, no dia posterior ao evento da universidade.    Considerando novembro ser o mês da consciência, ambas instituições solicitaram que a temática fosse a questão racial e o quanto nosso país é um divisor que beneficia uns e segrega outros.   Assim meu livro “A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco foi tratada nas 2 instituições, como palestra e oficina de Arteterapia na UFMG e como roda de conversa, no Espaço Não Palavra. Por ser psicóloga e também Arteterapeuta, propus a oficina na UFMG usando imagens que pudessem tratar do tema na prática arteterapêutica, usando o método SoulCollage®️ onde a colagem projetiva tem acesso poderoso ao inconsciente pessoal e coletivo.

Por Minas Gerais ter sido um dos estados brasileiros que mais recebeu negros escravizados vindos do continente africano, vendidos aos colonizadores, concentrando assim uma das maiores populações cativas no século XVIII e metade do século XIX, considerei pertinente a temática.  Lá fui eu para ver de perto a possibilidade de uma reflexão à uma história que tanto envergonha nosso país, como a escravidão marcada por revoltas, formação de quilombos, resistências e traumas psicológicos, que romperam laços familiares de pertencimento, separando famílias e fragmentando a identidade de negros escravizados por serem vendidos como mercadorias.  Seus afrodescendentes enquanto traumas transgeracionais, numa corrente de sintomas ainda hoje apresentam:  baixa-estima, ansiedade, níveis de sofrimento causando depressão e sentimentos de exclusão e não pertencimento na sociedade.

Para minha surpresa, o número de alunos e participantes negros não foi representativo. O que vi foram alunos negros em minoria dentro da universidade pública e seus relatos, trouxeram a dificuldade de se sentirem representados, tanto na formação de turmas, como no corpo docente, onde a maioria era branca.  O sentimento de exclusão foi trazido na oficina de Arteterapia, nas imagens escolhidas e na verbalização de sua dor expressa em palavras que jamais vou esquecer: “Sinto que não pertenço a este lugar”.   Ali pude perceber o quanto a Psicologia e a Arteterapia necessitam trabalhar dentro da temática racial, tanto em clientes negros quanto em brancos.  Há um bloqueio que afeta os dois lados, e nisto encontramos o racismo e suas manifestações sutis ou declaradas.   O racismo atual, como uma exclusão social que a academia ainda apresenta, onde alunos negros podem estar (e muitos não aguentam e abandonam o curso) e onde os alunos brancos devem permanecer.

Minha oficina e palestra ocorreram no prédio da engenharia da UFMG.  Na palestra 80% dos inscritos eram pessoas brancas, enquanto que a oficina vivencial teve a participação de negros e apenas uma pessoa branca.  Porém o número de participantes na oficina muito menor que o da palestra, me fez pensar que vivenciar uma reflexão sobre o racismo ainda é muito difícil para pessoas brancas, pois quebra o pacto da branquitude que é “Não vamos mexer com estas coisas” e favorece à dificuldade de acessar possibilidade de práticas antirracistas. Na palestra a curiosidade foi saber sobre o manejo clinico de um psicólogo negro ao receber uma pessoa branca e como ele (o profissional) atua na questão racial. Porém, vivenciar conteúdos pessoais de consciência de atuação racista, é outra coisa. A técnica do SoulCollage®️, pode mostrar isto, porém trazendo a vivência para pessoas negras que ali se identificaram com as imagens e puderam fazer suas associações. Como teve apenas uma pessoa branca, seu discurso foi de perceber os benefícios que as pessoas brancas têm numa sociedade racista, gerando nela o desejo de se aprofundar mais no assunto.   Esta pessoa branca, foi Eliana Moraes.  Coordenadora do Espaço de Arteterapia Não Palavra.

No dia seguinte da roda de conversa no Não Palavra, Eliana ainda estava tomada pela vivência do dia anterior e com os seus convidados, pudemos fazer uma excelente roda de conversa sobre minha pesquisa de mestrado em relação a temática racial entre brancos e negros em um país racista.  Vale a pena analisar o quadro de Modesto Brocos, que se encontra no início deste artigo. Se olharmos bem, o chão que a mulher negra pisa é parcialmente compartilhado com seu marido branco, e que”  este, olha na direção da criança, enquanto que a avó pisa em um chão de “terra batida, mostrando com os braços levantados aos céus, o agradecimento por sua filha ter tido um filho de pele clara, e sua filha por sua vez, mostra a criança para a avó.  Uma obra de reflexão trazida através da arte deste artista plástico, onde a cor da pele embranquecida aparece como desejo, alivio e agradecimento, representando benefícios da identidade branca.

Assim trago aqui no blog mais esta reflexão, para que nós profissionais da saúde, tenhamos mais atenção para o letramento necessário em relação às práticas da Psicologia e da Arteterapia na questão étnica-racial, se desejarmos realmente um trabalho sério de acolhimento, ressignificação e transformação psíquica.  De forma sutil ou declarada, estas dores vão entrar em nosso ambiente e precisamos saber como conduzir nosso trabalho e não negarmos a necessidade de escuta e atenção, para que assim, aconteça o acolhimento, o vínculo e a identificação; para que nosso cliente se sinta legitimamente representado.

 

BIBLIOGRAFIA

BREWSTER, Fanny, O Complexo Racial: Questões raciais e culturais sob a perspectiva junguiana, Editora Vozes, 2025

FROST, Seena. SoulCollage em evolução: um processo de colagem intuitivo para autodescoberta e comunhão., Editora Folio Digital, 2021

NOGUEIRA, Isildinha Batista. A cor do inconsciente: Significações do Corpo negro. Ed. Perpectiva, 2021

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito de marca: As relações raciais em Itapetininga. Apresentação e Edição de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. São Paulo, EDUSP, 1998.

ROZANTE, Rosangela. O Arteterapeuta e a Arteterapia Decolonial. Blog da AARJ.2023

_____________________A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco: em um país racista. Ed. Dialética, SP, 2024

___________________Descolonizando e Rompendo Paradigmas de Exclusão em Arteterapia. Blog Não Palavra.  2025

___________________ novembro com Arteterapia e consciência negra, Blog Arteterapeutas do Rio, 2025

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Sobre a autora: ROSANGELA ROZANTE

 


Formação:

Psicóloga especializada em psicologia clínica (CRP-5/5024), Especialista em Arteterapia pela UNIRIO (UBAAT-01/302/0507), Mestra em Psicologia Clínica (PUC/RJ).

 

Área de atuação/projetos/trabalhos:

Há 25 anos é diretora do Espaço Terapêutico Caminhos do Self Artes e Terapias Integradas Ltda. Supervisora e Coordenadora Geral do Curso de Formação Clínica de Arteterapeutas. Pesquisadora de temas relacionados as questões étnico/raciais. Coordenadora do Projeto Afrobetizar entre Raízes. Autora do livro: “A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco em um país racista”, ed.  Dialética, 2025.  É uma das fundadoras do Coletivo Arteterapeutas do Rio.

 

Contato:

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Facebook: arteterapiaself@gmail.com

email: caminhosdoselfarteseterapias@gmail.com

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