segunda-feira, 23 de março de 2026

ARTETERAPIA: Uma ponte para transformação da realidade

 

Por Annamaria Bruno Riscarolli  - RJ

O objetivo deste texto é ajudar a compreender a função da Arteterapia ao utilizar o desenho expressivo no ateliê terapêutico. A Arteterapia é um campo de estudos interdisciplinares que integram saberes estéticos e psicológicos em benefício da saúde mental e da expressão humana.

A história da arte fornece repertórios culturais e contextos que enriquecem a prática, enquanto o alfabeto visual da arte (ponto, linha, formas, cores) oferece uma linguagem própria para a expressão subjetiva. A psicologia, por sua vez, dá sentido às manifestações criativas, permitindo que o processo artístico se torne um espaço de autoconhecimento, elaboração emocional e reconstrução de significados.

Ponte com saberes estéticos: repertório cultural simbólico

O desenho acompanha a humanidade desde seus primórdios, evoluindo de registros rudimentares para uma técnica sofisticada de comunicação e criação.

Na pré-história, o desenho esteve presente para narrar caçadas, rituais e experiências do dia a dia. No Egito, os desenhos e hieróglifos em tumbas e templos auxiliavam a relatar a vida cotidiana e crenças sobre o pós-vida. Na Antiguidade Clássica, Grécia e Roma utilizavam a técnica do desenho para representações mitológicas e arquitetônicas, com foco em proporção e harmonia. Já na Idade Média, o desenho era coligado com a arte sacra, seja para elaborar as construções, seja para propagação das narrativas e dogmas religiosos.

É a partir do Renascimento que o desenho ascende ao status de disciplina fundamental nas artes. Essa promoção se dá através do conceito de disegno, termo italiano que engloba tanto “desenho” quanto “projeto” ou “concepção intelectual”, passando do simples exercício técnico para tornar-se base de toda a produção artística, quer dizer, da concepção da ideia à materialização da obra em pintura, escultura ou arquitetura. Como representantes bem conhecidos desse movimento temos Leonardo da Vinci e Michelangelo, cada um com sua maneira singular de registrar os primeiros pensamentos, esboços rápidos e iniciais da ideia que se pretendia materializar. Eram os primi pensieri ou seja, desenhar os primeiros pensamentos enquanto forma de conceber ideias. Eles utilizaram o desenho como técnica de estudo para desenvolver ciência, arte, arquitetura, quer dizer, vale entender o desenho enquanto recurso para explorar alternativas e testar composições, refletindo o realismo da época.

Numa breve análise dentro do alfabeto visual da arte, a linha é considerada “o ponto em movimento”, sendo o elemento básico e mais versátil da comunicação visual, representando a “voz” do artista no papel. Ao longo da história, a linha pode assumir uma grande diversidade expressiva, indo além da descrição das formas. A partir da linha podem ser representadas emoções, sentimentos, pensamentos. Podemos então olhar para a linha como um reflexo da mentalidade de cada época.

Assim, no desenho, a linha é mais do que um simples traço. Pode-se dizer que a linha possui um “temperamento”. Por exemplo: no Renascimento, a linha é vista como estrutura, um mapa de localização; já no Barroco, é gesto e força de pura emoção.

Arteterapia enquanto ponte: mediadora de sentidos

Ao promover o encontro com artistas de diversas épocas e movimentos culturais, a Arteterapia faz com que o participante conheça diferentes técnicas e linguagens artísticas, amplie seu repertório cultural e utilize diversos materiais expressivos para exercitar sua capacidade criativa. Progressivamente, o participante vai entrando em contato consigo mesmo, expressando sua subjetividade e favorecendo seu processo de desenvolvimento humano.

Lembro-me que ainda estava no curso de formação em Arteterapia quando ouvi esta inspiração: “Uma linha é um ponto que saiu para passear”, de Paul Klee. Logo me senti encantada! Uma metáfora tão poética, lúdica, capaz de poder transformar uma história de vida, e que certamente na época revolucionou todo o contexto de pensamento visual. É esse encantamento que me motiva a multiplicar as minhas propostas de trabalhos, sejam nas aulas em cursos de formação, seja em meus atendimentos.

Dentro do alfabeto visual da arte, o ponto e a linha são os elementos mais simples, afinal podemos dizer que a composição plástica começa a partir desses elementos. É nessa mesma simplicidade que encontro beleza no processo terapêutico: uma travessia delicada, onde terapeuta e cliente tecem juntos uma ponte de sentidos. Nesse encontro, revisitamos memórias da infância e da adolescência — singelas em aparência, mas com raízes profundas que se entrelaçam na vida adulta e na velhice. São camadas dinâmicas e subjetivas, muitas vezes silenciosas que moldam o curso do comportamento humano.

 No ateliê terapêutico: ponte para transformação

“Pretendo convidar VOCÊ a se aventurar na história de uma linha curiosa, além de incentivar a usá-la sem restrições. Confie em sua imaginação, criatividade, e principalmente no uso com materiais simples, como lápis e papel, para traçar linhas e se divertir, abandonando o medo da folha em branco, da ideia do não saber desenhar e do não saber escrever uma boa história para sua vida.”

O trabalho arteterapêutico promove o aumento da energia criativa, liberando os participantes dos conceitos de certo e errado, feio e bonito, e de crenças limitantes, diminuindo as pressões sociais e trazendo maior qualidade de vida aos atendidos.

Citar Paul Klee é confiar na função da arte, isto é, tornar visível, através do desenho, o que está escondido (sentimentos, sonhos). A função do desenho será promover uma aproximação com mundo interno do participante. A linha deixará de ser somente um veículo para representação externa para se tornar vivência terapêutica.

Levar a linha para passear é ganhar autonomia, uma vez que se pretende estimular a vivência do passeio, da jornada.

A história da linha curiosa

Era uma vez uma linha que foi passear. Ela saiu do caderno, deslizou pela mesa e, curiosa, começou a explorar o mundo....

Primeiro encontrou um círculo, que a convidou para dançar em voltas infinitas. Depois cruzou com uma árvore, e resolveu se enrolar nos galhos, virando um balanço para os passarinhos. Mais adiante, mergulhou no rio e se transformou em onda, brincando de ser água. Até que chegou a um castelo, onde se desenhou em escadas, ajudando os moradores a subir até as torres. No fim do passeio, a linha percebeu que podia ser qualquer coisa: caminho, ponte, sorriso, ou até estrela no céu. E assim, feliz, voltou para o caderno, levando consigo todas as aventuras que viveu.

Agora é com VOCÊ! Que história você quer desenhar e escrever? Se quiser me contar vou gostar bastante. Aguardo sua partilha, gratidão!

 

Título: O movimento dos sentimentos opostos

 

 

                                                                     Título: Rota

Escrita criativa: Eu levei a minha reta para passear e descobri que nem toda reta é segura, que nem todo plano é certeiro e que tem beleza nas curvas.

O objetivo de destino é mais importante do que a rota escolhida e, não importa qual linha vou seguir, o importante é aproveitar o caminho sem perder o ponto de chegada de vista.

 

Bibliografia:

Materiais de arte : sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico – Eveline Carrano e Maria Helena Requião – Wak Editora

Arteterapia e História da Arte – Técnicas expressivas e terapêuticas - Marcia Barreira e Naila Brasil - Wak Editora

Criatividade e Cérebro – um jeito de fazer Arte Zen – Celeste Carneiro - Wak Editora

 

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Sobre a autora: Annamaria Bruno Riscarolli  - UBAAT 01/159/1004

 


Bacharel em Publicidade e Propaganda
Arte-educadora social
Arteterapeuta e pós-graduada em Arteterapia em Educação e Saúde
Facilitadora de Biodanza
Focalizadora de Dança Circular
Facilitadora Biocêntrica
Professora de Oficina de Artes em curso de Pós-graduação de Arteterapia
Professora de Expressão Corporal/ Dança em cursos de formação em Arteterapia
Especialista em Psicologia Clínica
Coordenadora do Espaço Tessitura do Ser ( @tessituradoser )

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