segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O PROCESSO CRIATIVO TAMBÉM PODE CUIDAR DA SAÚDE MENTAL




Por Isa Ramos – RJ 

@psicologaisaramos 

Site:www.psicologaisaramos.com.br


Vivemos em uma sociedade que valoriza produtividade, resultados e desempenho. Em meio às inúmeras responsabilidades do cotidiano, é comum deixarmos pouco espaço para atividades que despertam prazer, criatividade e conexão consigo mesmo. Aos poucos, desenhar, pintar, escrever, modelar, fotografar, bordar ou simplesmente criar algo passam a ser vistos como hobbies sem importância ou até mesmo como perda de tempo. No entanto, sob a perspectiva da Psicologia, o processo criativo pode representar muito mais do que um momento de lazer. Ele pode favorecer o autoconhecimento, a expressão emocional e o cuidado com a saúde mental. 

Quando pensamos em criatividade, muitas pessoas acreditam que ela pertence apenas aos artistas. Essa ideia faz com que inúmeras pessoas se afastem de qualquer atividade artística por acreditarem que "não levam jeito", "não sabem desenhar" ou "não têm talento". Entretanto, criatividade não está relacionada apenas à produção de obras de arte. Ela faz parte da capacidade humana de imaginar, experimentar, transformar e encontrar novas formas de se relacionar consigo mesmo e com o mundo. 

A criatividade está presente quando escrevemos um diário, reorganizamos um ambiente, escolhemos as cores de uma pintura, cultivamos um jardim, montamos um álbum de fotografias ou criamos uma receita diferente. Ela também aparece quando buscamos soluções para problemas cotidianos, quando desenvolvemos novas perspectivas diante de uma dificuldade ou quando nos permitimos experimentar algo pela primeira vez. Em outras palavras, criar faz parte da experiência humana. 

Sob o olhar da Psicologia, atividades criativas favorecem uma pausa importante na rotina. Durante esse processo, nossa atenção tende a se voltar para aquilo que está sendo construído naquele momento. Aos poucos, diminuímos o ritmo acelerado dos pensamentos automáticos e ampliamos nossa capacidade de perceber emoções, sensações corporais e experiências internas que muitas vezes passam despercebidas em meio à correria do dia a dia. 

Isso não significa que a criatividade tenha a função de eliminar o sofrimento emocional ou substituir tratamentos psicológicos. Significa reconhecer que momentos de criação podem favorecer estados de maior presença, organização emocional e bem-estar. Muitas pessoas relatam sentir uma sensação de tranquilidade enquanto desenham, pintam, escrevem ou realizam trabalhos manuais. Outras descrevem que conseguem compreender melhor aquilo que estão sentindo depois de transformar suas emoções em alguma forma de expressão. 

Outro aspecto importante está relacionado ao perfeccionismo. Vivemos em uma cultura que frequentemente nos ensina que tudo precisa ficar impecável. Desde cedo aprendemos a buscar aprovação, evitar erros e produzir resultados considerados corretos. Esse padrão também aparece nas atividades criativas. Quantas vezes deixamos de desenhar porque acreditamos que o desenho não ficará bonito? Quantas pessoas abandonam a pintura, a escrita ou qualquer outra atividade artística por medo do julgamento? 

Na prática clínica, é comum encontrar pessoas extremamente críticas consigo mesmas. Muitas acreditam que só vale a pena fazer algo quando conseguem executar perfeitamente. Essa forma de pensar costuma gerar ansiedade, insegurança e frustração constante. Quando isso acontece, até mesmo atividades prazerosas deixam de existir, pois passam a ser avaliadas apenas pelo resultado final.

Permitir-se criar sem a obrigação de produzir algo perfeito pode representar um importante exercício de flexibilização desses padrões. O foco deixa de ser a performance e passa a ser a experiência vivida. Aos poucos, a pessoa aprende que não precisa alcançar um resultado impecável para encontrar significado naquilo que faz. 

Sob essa perspectiva, o processo criativo pode fortalecer recursos importantes para a saúde mental, como a tolerância ao erro, a aceitação, a curiosidade, a espontaneidade e o contato consigo mesmo. Esses aspectos também são frequentemente trabalhados durante o processo psicoterapêutico, especialmente quando buscamos compreender padrões rígidos de pensamento e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar os desafios da vida. 

É justamente nesse ponto que Psicologia e Arteterapia estabelecem um diálogo muito interessante. Embora sejam áreas distintas, ambas reconhecem a importância da expressão emocional para o desenvolvimento humano. 

A Psicologia oferece um espaço de escuta, acolhimento e construção de estratégias para compreender pensamentos, emoções e comportamentos. A Arteterapia, por sua vez, utiliza recursos expressivos como desenho, pintura, modelagem, colagem, escrita, música e outras linguagens artísticas como instrumentos que favorecem o processo de expressão, elaboração emocional e autoconhecimento. 

É importante compreender que a Arteterapia possui fundamentos próprios e formação específica. Seu objetivo não é ensinar técnicas artísticas, mas utilizar o processo criativo como ferramenta terapêutica dentro de uma abordagem estruturada e conduzida por um profissional habilitado. Da mesma forma, a Psicologia possui métodos, referenciais teóricos e objetivos específicos voltados para a promoção da saúde mental. 

Ao reconhecer as contribuições de cada área, percebemos que elas não competem entre si. Pelo contrário, podem dialogar de maneira complementar, sempre respeitando os limites éticos e técnicos de cada profissão. 

Além disso, tanto a Psicologia quanto a Arteterapia compreendem que muitas experiências internas nem sempre encontram palavras imediatamente. Existem emoções difíceis de nomear, lembranças que permanecem guardadas por muito tempo e sentimentos que ainda não conseguem ser organizados em um discurso claro. Em determinadas situações, a linguagem simbólica pode facilitar esse contato inicial com aquilo que ainda não conseguimos explicar racionalmente. 

Não se trata de interpretar um desenho ou atribuir significados universais às produções artísticas. Trata-se de reconhecer que diferentes formas de expressão podem favorecer o contato com experiências internas, permitindo que cada pessoa construa seus próprios sentidos a partir daquilo que cria. 

Outro benefício frequentemente observado nas atividades criativas está relacionado à sensação de presença. Quando estamos totalmente envolvidos em uma pintura, em um bordado ou em uma escrita espontânea, nossa atenção tende a permanecer no momento atual. Esse movimento pode reduzir a intensidade das preocupações constantes e favorecer um estado de maior tranquilidade. 

Esse aspecto tem sido amplamente estudado por diferentes áreas da saúde, que reconhecem a importância de atividades capazes de interromper temporariamente ciclos de pensamentos repetitivos e preocupações excessivas. Embora isso não substitua o tratamento psicológico quando necessário, pode representar um recurso valioso de autocuidado. 

Reservar alguns minutos da semana para criar algo também significa reservar um tempo para si. Em uma rotina marcada por cobranças externas, esse momento pode representar uma oportunidade de desacelerar, observar as próprias emoções e desenvolver uma relação mais gentil consigo mesmo. 

Não importa se o desenho ficará bonito, se a pintura seguirá uma técnica específica ou se o artesanato ficará perfeito. O verdadeiro valor está na experiência, no processo e na possibilidade de permitir-se criar sem medo do julgamento. 

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que existem situações em que apenas atividades criativas não são suficientes para lidar com o sofrimento emocional. Quando sintomas de ansiedade, tristeza persistente, alterações do sono, dificuldades nos relacionamentos ou qualquer outro sofrimento começam a comprometer a qualidade de vida, buscar acompanhamento profissional torna-se um passo importante. 

A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender essas experiências, fortalecer recursos internos e desenvolver estratégias de enfrentamento. Da mesma forma, a Arteterapia pode representar um caminho significativo para pessoas que desejam ampliar o contato com suas emoções por meio da expressão criativa, sempre respeitando a atuação específica de cada profissional. 

Cuidar da saúde mental não significa apenas buscar ajuda quando o sofrimento já está instalado. Significa também cultivar hábitos que favoreçam equilíbrio, bem-estar e conexão consigo mesmo. Entre esses hábitos, permitir-se criar ocupa um lugar especial. Criar não exige talento. Não exige perfeição. Não exige aprovação. 

Exige apenas disponibilidade para experimentar. 

Talvez o maior presente do processo criativo não seja aquilo que produzimos, mas aquilo que descobrimos sobre nós mesmos enquanto criamos. E, muitas vezes, esse pode ser um dos primeiros passos para uma relação mais acolhedora com a própria história, com as próprias emoções e com a própria saúde mental. 

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 Sobre a autora: Isa Ramos



Sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.