segunda-feira, 30 de março de 2026

MANEJO CLINICO E LETRAMENTO RACIAL

 Por Sarita Elias - SP

O respeito à singularidade do sujeito é um dos pilares fundamentais do processo terapêutico. Na clínica, nossa escuta deve ser orientada para o todo: para o sistema que compõe o indivíduo e para os caminhos que o constituem enquanto um ser dotado de subjetividade, afetos, angústias e complexidades. Esse olhar é também sistêmico e analisa sua composição familiar, seu gênero, sua classe social e inevitavelmente a sua raça. 

No Brasil, a identificação racial é fenotípica (baseada na estética e leitura social) e não apenas genética. Essa leitura dita como o sujeito transita no mundo. Ser lido como pessoa negra é conviver com o racismo estrutural, cujas violações históricas geram o que chamamos de sofrimento ético-político. São dores específicas que precisam de um manejo clínico atento na Arteterapia. Ser negro no Brasil, é ser atravessado por essas estruturas sociais que moldam a saúde mental. Por isso, considerando que “a arteterapia é uma abordagem que propõe um tratamento comportando uma avaliação clínica e objetivos precisos” (Duchastel, p.31), o letramento racial por parte do profissional Arteterapeuta é indispensável para evitar a retraumatização do sujeito e o reforço de estereótipos racistas. 

Entre as maiores feridas causadas pelo racismo estão o silenciamento e a dificuldade de pertencimento. Quando o paciente não se vê representado nos espaços de poder, ele perde a capacidade de autoprojeção. Aqui o setting terapêutico precisa atuar como um espaço antirracista, permitindo que o sujeito reconstrua sua imagem através da expressão criativa. Muitas vezes, o paciente chega ao processo em silêncio sobre o racismo. Isso ocorre porque o trauma pode ser tão profundo que se torna o que Frantz Fanon descreveu como a "alienação do sujeito". Ele pode não identificar a opressão ou não se sentir seguro para falar. Cabe ao Arteterapeuta construir esse ambiente de segurança e estar letrado para identificar o "não dito", fazendo o manejo clínico que acolha essa dor invisibilizada. 

Nesse sentido, a escolha dos materiais no setting arteterapêutico não é neutra. Ao oferecer possibilidades de criação, o profissional deve estar atento à representatividade das materialidades. Isso significa incluir recursos que remetam à cultura africana, afro-brasileira e afro-indígena — desde os tons de pele disponíveis em lápis e tintas até o uso de elementos naturais e texturas que dialoguem com a cultura e com a estética negra. Essa curadoria de materiais funciona como um convite para que o paciente se aproprie de sua própria identidade visual e cultural, transformando o consultório em um território de resistência e cura. 

Além dos materiais, é fundamental que o Arteterapeuta busque referências em artistas negros e intelectuais que discutem a subjetividade preta. Autores como Lélia Gonzalez nos ensinam sobre a importância de "dar voz" a uma memória que foi silenciada pelo colonialismo. Trazer essas referências para a reflexão clínica ajuda a quebrar a barreira da invisibilidade, permitindo que o paciente perceba que sua história e sua estética têm valor e lugar no mundo, combatendo diretamente a sensação de desamparo gerada pela falta de representatividade. 

Por fim, o compromisso com uma clínica antirracista exige que o profissional reconheça que a neutralidade é impossível diante das desigualdades sociais. A Arteterapia, por ser uma prática que acessa o inconsciente através do símbolo, tem o poder de desconstruir imagens internalizadas de inferioridade. Ao validar a vivência do sujeito negro em sua totalidade, o terapeuta não apenas trata um sintoma individual, mas atua na reparação de um dano coletivo, fortalecendo a autoestima e a soberania psíquica de quem busca o acolhimento. 


Bibliografia:

DUCHASTEL, DUCHASTEL, Alexandra. O caminho do imaginário. Porto Alegre: Paulus, 2010. 232 p. 

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. Disponível em: Repositório Institucional UFBA. 

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. Disponível em: Editora Zahar. 

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983. Disponível em: Zahar/Companhia das Letras. 

__________________________________________________________________________________

Sobre a Autora:  Sarita Elias Gama 

Formação: Pedagogia, Artes Plásticas e Pós-graduação em Arteterapia Sistêmica Área de Atuação: Arteterapeuta Clínica com foco em saúde mental antirracista, dedica-se a promover processos de cura e o fortalecimento da subjetividade. Atua também como educadora artística e facilitadora de oficinas criativas, utilizando a arte e o artesanato como ferramentas de emancipação e expressão individual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário