Por Mônica Ruibal - SP
Recentemente, uma pessoa me falou sobre um livro que eu já
conhecia há muitos anos: “O Cavaleiro Preso na Armadura”, Robert Fisher. Ele
sempre passou por mim como algo distante, que não me dizia respeito. Eu sabia
que existia, já tinha folheado, mas nunca me chamou. Mas dessa vez, chamou — e
chamou forte.
Comprei o livro, li, escutei o áudio, mergulhei. E me
identifiquei profundamente.
Percebi que todos nós, em algum momento da vida, estamos
presos em armaduras invisíveis. Armaduras que um dia foram necessárias para
sobreviver: o controle, o silêncio, a perfeição, a força excessiva, a
capacidade de dar conta de tudo, a habilidade de não sentir para não quebrar. São
brilhos metálicos que, de fora, parecem coragem. Mas por dentro, são presídios.
E chega um instante — um daqueles instantes que mudam tudo —
em que a armadura começa a apertar. Fica pesada. Fere. E já não cabemos mais
dentro dela.
É um momento dolorido e precioso ao mesmo tempo: perceber
que aquilo que nos protegeu está nos sufocando. Que aquilo que um dia foi
recurso, agora é prisão.
E aí começa a travessia.
A travessia de tirar peça por peça, sem saber quem seremos
sem elas. A travessia de voltar a sentir a pele, o vento, o toque. De abandonar
a guerra interna e descansar.
Em Arteterapia, esse livro nos convida a trabalhar com
aquilo que sustenta nossas armaduras e com o que existe por baixo delas.
Podemos explorar as camadas, usando materiais sobrepostos que revelem o peso de
carregar tantas expectativas e histórias — como papel cartão, papel kraft,
colagens sucessivas, tecidos e dobraduras que criam volume e estrutura. Também
podemos investigar os pesos, experimentando materiais densos como argila,
barro, gesso ou até pedras pequenas coladas sobre o papel, percebendo no corpo
o esforço de sustentar o que já não faz sentido.
Podemos criar um cavaleiro interno e vestir essa figura com
essas peças simbólicas — e então escolher remover uma parte, transformar,
rasgar, dissolver na água, derreter com as mãos. O gesto simbólico muitas vezes
fala mais do que qualquer explicação teórica.
E depois, deixar emergir o que respira por baixo: uma cor
mais suave, uma textura mais orgânica, algo que não precisa mais brilhar para
existir.
Porque às vezes, para soltar a armadura, basta tocar o metal
e reconhecer que ele pesa.
A verdadeira força nunca esteve na armadura, mas na coragem
de removê-la.
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Sobre a autora: Mônica Ruibal
De São Paulo, graduada em Pedagogia com pós graduação em Arteterapia e Arte Reabilitação
Especialista em autismo, atuando em equipe multidisciplinar.
Em 2024 foi convidada a compor um painel sobre Arteterapia no Tearteiro, maior Festival de Autismo e Arte da América Latina.
Criadora do grupo Arte Autismo onde promove encontros e workshops sobre o tema.


Verdade seja dita: este livro já passou por mim inúmeras vezes e também fiz como voce mencionou, Monica. Achei-o interessante, mas não me aprofundei. Até que .. sempre chega o dia. E em um tempo destes, junto com outras colegas, fomos degustando cada pagina e entendendo a profundidade de cada página, de cada proposta e a metáfora se fez realidade. Foi uma jornada muito reveladora. E continua sendo. Parabéns, Mônica, por trazer à tona as realidades deste livro, singelo, simples, mas de muita profundidade e tão aplicável na Arteterapia.
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