segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A CORAGEM DE TIRAR A ARMADURA



Por Mônica Ruibal - SP

Recentemente, uma pessoa me falou sobre um livro que eu já conhecia há muitos anos: “O Cavaleiro Preso na Armadura”, Robert Fisher. Ele sempre passou por mim como algo distante, que não me dizia respeito. Eu sabia que existia, já tinha folheado, mas nunca me chamou. Mas dessa vez, chamou — e chamou forte.

Comprei o livro, li, escutei o áudio, mergulhei. E me identifiquei profundamente.

Percebi que todos nós, em algum momento da vida, estamos presos em armaduras invisíveis. Armaduras que um dia foram necessárias para sobreviver: o controle, o silêncio, a perfeição, a força excessiva, a capacidade de dar conta de tudo, a habilidade de não sentir para não quebrar. São brilhos metálicos que, de fora, parecem coragem. Mas por dentro, são presídios.

E chega um instante — um daqueles instantes que mudam tudo — em que a armadura começa a apertar. Fica pesada. Fere. E já não cabemos mais dentro dela.

É um momento dolorido e precioso ao mesmo tempo: perceber que aquilo que nos protegeu está nos sufocando. Que aquilo que um dia foi recurso, agora é prisão.

E aí começa a travessia.

 

A travessia de tirar peça por peça, sem saber quem seremos sem elas. A travessia de voltar a sentir a pele, o vento, o toque. De abandonar a guerra interna e descansar.

Em Arteterapia, esse livro nos convida a trabalhar com aquilo que sustenta nossas armaduras e com o que existe por baixo delas. Podemos explorar as camadas, usando materiais sobrepostos que revelem o peso de carregar tantas expectativas e histórias — como papel cartão, papel kraft, colagens sucessivas, tecidos e dobraduras que criam volume e estrutura. Também podemos investigar os pesos, experimentando materiais densos como argila, barro, gesso ou até pedras pequenas coladas sobre o papel, percebendo no corpo o esforço de sustentar o que já não faz sentido.

Podemos criar um cavaleiro interno e vestir essa figura com essas peças simbólicas — e então escolher remover uma parte, transformar, rasgar, dissolver na água, derreter com as mãos. O gesto simbólico muitas vezes fala mais do que qualquer explicação teórica.

E depois, deixar emergir o que respira por baixo: uma cor mais suave, uma textura mais orgânica, algo que não precisa mais brilhar para existir.

Porque às vezes, para soltar a armadura, basta tocar o metal e reconhecer que ele pesa.

A verdadeira força nunca esteve na armadura, mas na coragem de removê-la.

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Sobre a autora: Mônica Ruibal



De São Paulo, graduada em Pedagogia com pós graduação em Arteterapia e Arte Reabilitação

Especialista em autismo, atuando em equipe multidisciplinar.

Em 2024 foi convidada a compor um painel sobre Arteterapia no Tearteiro, maior Festival de Autismo e Arte da América Latina. 

Criadora do grupo Arte Autismo onde promove encontros e workshops sobre o tema.

Um comentário:

  1. Verdade seja dita: este livro já passou por mim inúmeras vezes e também fiz como voce mencionou, Monica. Achei-o interessante, mas não me aprofundei. Até que .. sempre chega o dia. E em um tempo destes, junto com outras colegas, fomos degustando cada pagina e entendendo a profundidade de cada página, de cada proposta e a metáfora se fez realidade. Foi uma jornada muito reveladora. E continua sendo. Parabéns, Mônica, por trazer à tona as realidades deste livro, singelo, simples, mas de muita profundidade e tão aplicável na Arteterapia.

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